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quarta-feira, 23 de outubro de 2024

O Folclore da Cachaça no Rio Grande do Sul

 



Por Carlos Galvão Krebs

A bebida popular no Brasil, de Norte a Sul, é a cachaça. O Rio Grande do Sul não escapa a isso. As três armas que o gaúcho usa, paradoxalmente, contra o calor e contra o frio, são o pala, o chimarrão e... a cachaça.

Precisamente por ser a bebida popular por excelência é que a cachaça vem despertando a atenção dos folcloristas nos últimos tempos. Desde o sociólogo Gilberto Freyre, desde o respeitabilíssimo Luiz da Câmara Cascudo até José Calazans que publicou "CACHAÇA BRANCA" na série oficial das edições do Museu do Estado da Bahia.

Seguindo a trilha, vamos alinhavar aqui o pouco que sabemos a respeito do folclore da cachaça no Rio Grande do Sul.

A SINONÍMIA

Como em tôda a parte do país, também aqui a voz mais comum para designar a aguardente é CACHAÇA. Mas se fala muito em CANINHA, CANA, e CANHA, por influência de CAÑA, forma castelhana. Às vêzes se ouve dizer BRANQUINHA. Um dos sinônimos mais curiosos que temos ouvido é RAMA. "Meter rama" é beber muito, especialmente caninha. Depois da descoberta de Fleming, como na Bahia, também se diz no Rio Grande: "Bota aí uma penicilina".

A MAIS FAMOSA

Sem dúvida alguma pelo que temos ouvido no Estado e fora dele referida por gaúchos saudosos do pago, a mais famosa cachaça do Rio Grande do Sul é a caninha azulada, de Santo Antônio da Patrulha. Sob a luz natural apresenta uma bela coloração azulada, conseguida à base de casca de bergamota segundo uns, ou de carvão vegetal segundo outros. Infelizmente, como Santo Antônio fica na rota das praias atlânticas, sua cachaça vem sendo por demais solicitada. Disto resulta uma queda de qualidade. Na própria fonte de produção nos chegamos a adquirir a AZULADA ainda morna, recém saída do alambique.

AS MARCAS DE CACHAÇA

Para ilustração desta pesquisa apresentamos ao lado uma pequena coleção de cêrca de cinqüenta rótulos. Todos de caninhas vendidas e bebidas dentro do Estado. Muitas delas produzidas aqui mesmo. Outras tantas, importadas de outras regiões do país. Com base neste material e através dos títulos, os especialistas podem realizar um belo estudo psicológico.

A coleta de rótulos para coleção exige uma técnica muito simples. Muitos rótulos são impressos em papel de pouco pêso, isto é papel muito fino. E frequentemente os produtores usam goma muito forte. Daí surgir dificuldades para a retirada dos rótulos, que se rasgam à menor tentativa. Entretanto basta deitar a garrafa horizontalmente, cobrindo o rótulo com um pano leve, sôbre o qual se derrama vagarosamente o conteúdo de uma chaleira de água fervendo. Ao final o rótulo pode ser destacado com relativa facilidade e com prejuízo mínimo para a sua integridade.

O RITUAL DOS BEBEDORES

Os bebedores da campanha do Rio Grande conservam uma bela fórmula para beber tradicionalmente sua cachaça. Velha fórmula e sempre nova, porque antiga e atual. Chega um gaúcho a uma venda qualquer. Cumprimenta todos e ordena ao bodegueiro que "bote" uma dose de cana. Sempre há pelos cantos alguns guáscas, bebericando e conversando. Servida a cana o recém chegado apanha o copo e o passa sem beber - ao que lhe está mais próximo. Êste recusa:

- "Não, senhor, está em boa mão".

- "Mas para melhor vai!"

Só então o convidado apanha o copo e bebe um trago. E passa a caninha ao seguinte da roda. Ao terminar a volta, sobra ao pagante um gole exatamente igual ao que todos beberam. Aquêle que paga - e isto é essencial à gentileza gaúcha - é sempre o último a beber.

Acreditamos que haverá muitas outras fórmulas para registrar. Entretanto não nos parece existirem no Rio Grande do Sul aquelas loas, lodaças e glosas de que fala Calazares na Bahia, seja para pedir um gole, seja para agradecer uma bicada.

ANEDOTÁRIO

Embora relutando, um gaúcho certo dia deu com os costados num consultório médico. Depois do exame o doutor lhe proibiu terminantemente a cachaça. Em casa o pobre homem deu para sentir uma dor de cabeça tremenda. Não teve dúvidas: foi à venda e mandou botar a dose que então se chamava "quatrocentão de cana". De uma só vez metia no copo três dedos: o polegar, o indicador e o médio da mão direita. Em seguida enquanto dois dedos esfregavam a cachaça na testa para passar a dor, o guásca chupava o polegar avidamente...

Também a outro pêlo duro foi proibida a cachaça. Ao voltar ao doutor êste não viu nenhuma melhora com o tratamento. Pergunta severamente:

- "O senhor não bebeu cachaça, mesmo?"

- "Não, senhor! Quando eu tava com muita gana, botava farinha de mandioca num prato, despejava cachaça em cima, mexia bem e... comia o pirão!"

A CACHAÇA NA POESIA POPULAR

O estudante Mário Vieira recolheu em 1850, na Estância do Umbú, município de Cruz Alta, uma deliciosa "décima" sôbre a cachaça. Ouviu-a do negro Adolfo, posteiro da fazenda e cantador nas horas vagas. Adolfo morreu no verão de 1953 para 1954. Não fôsse a coleta de Mário Vieira e talvez tivéssemos perdido para sempre estes saborosos versos:

"Saudade, tenho saudade

Da terra onde nasci

Saudade duma aguardente

Da cachaça que eu bebi"


"A cachaça é minha prima

O vinho meu primo, irmão

A cachaça eu bebo em copo

O vinho em garrafão"


"Eu não gosto da cachaça

E o vinho não posso ver

Quando eu pego na garrafa

Deixo os outros sem beber"


"Uma moça me pediu

Que eu deixasse de beber

Eu de beber eu não deixo

De um porre eu quero morrer"


"No fundo de um alambique

Vou fazer minha sepultura

Que mesmo depois de morto

Quero viver na fartura"


"Da garrafa eu faço a vela

Da pipa faço caixão

Do funil faço a mortalha

Me botem um copo na mão"


"Quando eu morrer ninguém chora

Quem chora são as garrafa

Eu quero que o povo diga

Morreu o pai da cachaça"

O PEJORATIVO DA CACHAÇA

Bebida barata e popular, a cachaça estigmatiza tôda uma classe social. "Negro cachaceiro!" é expressão comum no Rio Grande do Sul. Na frase feita, o NEGRO não funciona como epiderma, como raça, mas sim como CLASSE, a mais baixa, a ínfima classe social. Pelo menos essa é a intenção consciente ou inconsciente. Recordamos um fato que torna isto bem flagrante. O advogado Sylvio Faria Correia (agora falecido) foi prêso junto com Borges de Medeiros quando peleava nas coxilhas a favor dos constitucionalista de São Paulo, em 1932. Passada a revolução, publicou (no estrangeiro, é claro) um livro de memórias - "Serro Alegre". Narra que, em momentos de frio intenso, êle e seus companheiros se aqueciam com tragos de "rhum". O livro circulou clandestinamente em Pôrto Alegre. Logo um jornal governista apanhou o pião na unha e lançou um artigo ridicularizando o movimento constitucionalista, os revolucionários e o autor do livro. Título do artigo: "RHUM NÃO: CACHAÇA!" A darmos crédito ao artigo, o episódio comprova, pelo direito e pelo avêsso, aquilo que queremos demonstrar. De um lado, o revolucionário gaúcho transforma a rude e singela em "rhum" sofisticado inteiramente estranho à campanha do Rio Grande do Sul. Isto, para furtar-se ao estigma pejorativo da caninha. Do outro lado o jornal, a acentuar precisamente tal estigma. O título "Rhum não: cachaça!" nada mais queria dizer senão êste insulto, visando os revolucionários - "Negros cachaceiros!"

AS MISTURAS DE CACHAÇA

Com vistas à medicina lembramos logo a cachaça com arnica, vegetal abundante no Estado. Arnica (subentendido: em infusão na cachaça) sempre foi uma verdadeira panacéia. Servia para tudo, desde a simples luxação até o ferimento grave.

Mas foi para a bebida que a cana teve e tem maior utilidade. Não houve uma senhora, mulher de estancieiro que não tivesse feito seus licôres à base de caninha. Dentre êles sobressai o universal licor de butiá. O butiázeiro é uma palmeira típica do Sul do país. Seus "coquinhos" com cêrca de uma polegada de diâmetro são gordos e saborosos. Cachaça, butiás, açúcar, mais algum tempinho para descançar, sempre deram como resultado êsse licor tradicional do Rio Grande do Sul. Hoje com o progresso, muitos estancieiras adquirem nas farmácias "da cidade" o álcool puro a tantos gráus para fazer seus licores.

Em Pôrto Alegre, mesmo o gaúcho citadino encontra em qualquer bar (e não é fôrça de expressão, é a pura verdade) as mais variadas misturas de caninha.

Por exemplo:

Caninha com "bagos de zimbro", ou "bagas de zimbra", também chamadas "Wacholder" em alemão. Desta vez os luso-brasileiros freqüentemente fazem uma corruptela dizendo "Bacholda" com o CH alemão. As bagas de zimbro são sementes pequenas, redondinhas, de um verde escuro, que se deitam em quantidade dentro de um recipiente cheio de cachaça. Dão um gôsto especial à caninha. Sua finalidade é estomacal, segundo se afirma. Tal mistura há tempo vem sendo explorada industrialmente por uma emprêsa da Capital do Estado.

Caninha com mastruço, erva do gênero das crucíferas medicinais.

Caninha com losna, outro vegetal com qualidade estomacais, conforme a crença popular.

Caninha com cabriúva (casca) que deve ser cortadinha para poder entrar pelo gargalo da garrafa. A cabriúva, que é árvore transmite à cachaça um perfume delicado e especial, como se lhe tivessem adicionado gôtas de perfume nobre.

E ficamos aqui.

Sabemos, melhor do que ninguém, que isto não esgota o tema. Ao contrário constitui apenas uma lembrete aos folcloristas e tradicionalistas gaúchos que poderão registrar muito mais coisa do que nós.

Fonte: A HORA (Porto Alegre/RS), 21 de Fevereiro de 1959, sem indicação de página


domingo, 20 de outubro de 2024

Os antigos bailes e bochinchos do Rio Grande do Sul



Fernan Silva Valdez me fez recordar, com seus estudos folclóricos sôbre "Bailes e Bailongos" uma época da minha vida que ascende ao primeiro quartel deste século quando, menino ainda, comparecia aos bailes e bochinchos das solitárias campanhas de Itaqui. Os bailes realizavam-se nas fazendas, naqueles salões assoalhados, revestidos de cadeiras com assentos de palha e pernas torneadas colocadas ao correr das paredes; pequenas mesas de canto, em cada quadrante; enfeitadas de vasos antigos e de bisquits com figuras românticas do século XVIII e, às vêzes, flores de papel e cascas de ovos de avestruz pintadas e atravessadas por uma linha ou fita, pendentes das paredes. Nestas, ainda uma folhinha da casa comercial mais próxima e duas ou três reproduções fotográficas, a crayon, emolduradas em caixilhos de um mau gosto incrível.

À porta de entradas, abrigados pela meia fôlha aberta o gaiteiro, o violeiro e o italiano da rabeca. Do teto, pendente, um lampeão à gás e, às vêzes, outros, sôbre as cantoneiras altas.

Quando as donas de casa erram jovens e românticas, costumavam perfumar a sala queimando raminhos de alecrim.

A música obedeceu a dois ciclos, perfeitamente definidos. Nos primeiros tempos, por influência dos vizinhos do outro lado do Uruguai, dançava-se o pericon, de mistura com as quadrilhas e lanceiros. A chimarrita e a tirana eram referidas apenas pelos velhos avós. Depois, nos tempos a que me transponho, isto é, ao ano de 1920, dançavam-se a mazurca, a polca de relação, a habanera, o chotes e a valsas, todos de marcado cunho europeu.

O bochincho, tanto quando chamavam de meio-pêlo, contavam apenas com uma sala de rancho, de chão batido, poucos os bailes que os platinos colocavam cadeiras guenzas, de pau, bancos compridos e cêpos duros. Ao oitão, um candieiro, de flandres, de forma cônica, com um pavio de lã torcida. De baixo, sob a luz nervosa que projetava sombras inquietas nas paredes, o gaiteiro, de botas, de bombachas e chapéu tombado sôbre as costas, preso ao pescoço pelo barbicacho. Dançava-se arrastando os pés e, do chão, de terra batida, erguia-se a polvadeira que enruivava os cílios e as sobrancelhas. Quando as moças começavam a tossir, o bastoneiro, o mestre de sala, mandava parar a gaita e fazia a assistência sair para a noite aberta. Entrava a piona, com uma bacia de água e um raminho de guanxuma, salpicando o chão, tratando de não fazer barro. Depois, a festa recomaçava, mais animada. A canha, corrida no gargalo da garrafa, despertava o entusiasmo da gauchada, o mate passeava de mão em mão e, na roda das mulheres, o licor de araçá e potes de sequilhos, queijadas e pés-de-muleque.

Tanto nos bailes de categoria como nos bailes de meio-pêlo, e principalmente nos bochinchos onde as liberdades eram mais amplas, podiam ocorrer rivalidades amorosas que degenerassem em conflito. Os incidentes eram raros nos bailes das fazendas, para onde acorriam gente rica, autoridades distritais e comerciantes da região, cujas famílias chegavam em carretas, carretilhas e jardineiras. Mas nos bailes de meio-pêlo e nos bochinchos, nestes sobretudo, era raro que uma desconfiança ou um ciúme violento não terminassem em peleia. Em peleia, onde o candieiro voasse num tapa e a gaita fosse partida pelo meio, num habilíssimo golpe de facão.

Às vêzes, algum gaiato esparramava na sala de chão puro um punhado de pimenta do reino moída, que subia, de mistura com o pó, até os brônquios e pituitárias... E o resultado era sempre o mesmo das cenas de ciúme ou desconfiança: "quem atirou pimenta no baile?" acompanhado de um gesto de desafio, de chapéu tapeado para a nuca, e mão no cabo da adaga.

Lembro de um baile de meio-pêlo, realizado no Curuçu, região naqueles tempos, muito primitiva, nas campanhas de Itaqui. O rancho era de Siá Domingas, mulata de respeito que criava meia dúzia de filhas, que traziam inquietos os olhos e os corações de todos os gaúchos de, pelo menos meia légua de redondeza. Proximo, residia um tal Jacinto, castelhano pachola, casado com uma alemã côr de garopa - a Honoria, cabelo seco. O castelhano andava seduzido pela beleza de uma das filhas de Siá Domingas. E foi nessa noite de baile, que eu vi, na sala banhada por uma névoa pastosa e negra de picumã, o correntino atravessar a sala e convidar a chinoca de Siá Domingas para uma habanera arrastada e longa. A chinoca olhou para o chão, depois correu os olhos pela assistência, encontrou o olhar fuzilante da velha e negou-se a sair. O correntino não teve dúvidas:

- "No es la primera égua que me nega el estribo!"

E o rolo foi imediato. Ali, por perto, andava uma pretendente da chinoca, E os facões se cruzaram para resolver o agravo e decidir o premio... O castelhano Justino levou levou, pelo menos, cinco costuras na cara.

De outra feita, o baile seguia animado, polvorente, sala azul-negra de fumaça e picumã. Dançava-se, como sempre, de bombachas, de botas e de esporas. De repente, um gaúcho enroscou a roseta da chilena no babado de rendas da saia de sua chinoca. E um outro gritou - provocante e irônico:

"Pára o baile! que se mancou uma égua!"

A simples frase picaresca, dita por gosto e maldade, aumentou de mais um volume a pilha de autos criminais que no Juiz da Comarca levantava sôbre a escrivaninha da sua casa na cidade.

Os homens, nos bailes de categoria, usavam trajos da cidade. Nos comêços do século, levavam, em pessuelos, de léguas distantes, os croises e as sobre-casacas dos tempos imperiais. As mulheres, ostentavam, durante a noite, diversos vestidos, de variadas côres e feitios, cada qual com seus adereços apropriados, hábito que verifiquei estar ligado a uma tradição que Eduardo Dias acusou nas festas semelhantes de diversas regiões da Arábia.

Nos bailes de meio-pêlo e nos bochinchos, o gaúcho trajava sua vestimenta ordinária, e chiripá, nos tempos idos, e, depois a bombacha, botas, o chapéu de abas largas e as esporas choronas. As mulheres, o vestido de chita colorida. Dêsses bailes, nasciam os casamentos. E muitas vêzes, o baile começado ao cair da tarde, prolongava-se ao sair do sol do dia seguinte. Se a casa era rica, a sala era grande e os convivas de bôa cepa, recolhiam-se as moças para o interior da casa de largo espaço e os homens a sombra das figueiras e dos umbus, ou pelas tarimbas dos galpões e dormia-se a farta, pela manhã e a tarde e, ao cair da noite, o baile recomeçava. Fechavam-se as portas e as janelas, ao amanhecer, para que os convivas não fossem surpreendidos pela luz do sol. E os lampiões, na sala fechada, continuavam a dar a impressão de noite grande.

Depois, a festa terminava, deixando alguns casamentos apalavrados. As famílias retiravam-se nas suas carretilhas, jardineiras ou carretas e os moços guapos, no lombo de seus cavalos para um troteada de 10 ou 20 léguas, campo fóra...

Fonte: DIÁRIO DE NOTÍCIAS (Porto Alegre/RS), 20 de Setembro de 1955, 2o. Caderno, pág. 01; 04

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

sábado, 25 de fevereiro de 2023

A Função Social do Cavalo no Rio Grande do Sul

 



A frota de Pedro e Diogo de Mendonza, ao desembarcar no rio da Prata, em 1536, daí resultando a fundação de Buenos Aires, trazia cerca de 100 cavalos. Um outro navegante espanhol, Nuñez Cabeza de Vaca, quando aportou na costa de Santa Catarina, rumando por terra para o Paraguai, em 1541, trazia  animais cavalares. Os portugueses por sua vez, desembarcaram cavalos, em São Vicente, por volta de 1540. Também se deve aos jesuítas das Missões Orientais do Uruguai a introdução do cavalo no Rio Grande, o que poderia ter ocorrido concomitantemente com a entrada do gado bovino, não sabendo, entretanto, com precisão a origem próxima dos primeiros equinos aqui aportados, se do Prata, do Paraguai, ou, ainda, do Peru. Remotamente, não há dúvida: como o gado bovino, o cavalar era também de origem ibérica: o tema é igualmente controvertido. Nada disso, entretanto, se reveste de maior significação. O que verdadeiramente interessa, no caso, não são minudências históricas, mas a circunstância de que, ao ser fundado o Presídio do Rio Grande, esta área já era possuidora de imensa riqueza, representada pelos rebanhos bovinos, equinos e muares. Evadindo-se das invernadas missioneiras, onde eram mantidos e explorados de forma até certo ponto racionalizada, passavam a viver em estado selvagem, sendo surpreendidos pelos preadores ou caçadores de gado, ao jeito das primitivas arreadas.

O cavalo foi o fator decisivo para a sobrevivência dos povoadores do Rio Grande e para sua adaptação ao novo meio. O fundador do Presídio, Brigadeiro Silva Paes, logo percebeu a situação, como se depreende de sua correspondência. Dizia ele: "Eu procuro que todos saibam andar a cavalo", pois "o ponto é criar gente de cavalo que saiba fazer o serviço como se costuma cá". Tanto na guerra, como no trabalho e ainda no transporte e na recreação (carreiras de cancha, reta, cultivadas até hoje), o cavalo era indispensável, tendo condicionado a sociedade que se formava e dado origem a uma cultura e seu tipo representativo - o gaúcho. Mais tarde, um governador e chefe d'armas, D. Diogo de Sousa, introduziria profundas modificações na formação de sua tropa, em função das relações entre o homem do pampa e o cavalo, pois verificou que os soldados de infantaria frequentemente desertavam, permanecendo com bravura e estoicismo nas fileiras, quando se lhes dava um cavalo para montar.

Os estancieiros antigos, mesmo os muito ricos, tinham quase sempre um viver agreste, morando em casas que primavam pela falta de conforto e não apresentavam qualquer adorno. Esta rusticidade, entretanto, desapareceria por completo, cedendo lugar a verdadeira ostentação, quando se tratava de artigos de montaria ou de uso do cavaleiro - as esporas de prata, os cabos de rebenque lavrados até a ouro, as guaiacas recamadas de enfeite, as facas finamente ajaezadas, os palas de pura seda, os ponchos de vicunha franjada. O Conde d'Eu, no diário de sua viagem ao Rio Grande, teve ocasião de anotar, minuciosamente: "Sem falar nos estribos e nas enormes esporas que são sempre de prata, os dois arcões da sela, que chamam lombilhos, são muitas vezes guarnecidos de prata; semelhantemente, o rabicho, o peitoral e todas as partes da cabeçada são ornados de placas de prata artisticamente lavradas de mil maneiras; e se rédeas não são todas feitas de correntes de prata, tem enfiadas em todos o seu comprimento cilindros e bolas desse metal. O mesmo sucede com o loro do estribo".

Assim, o homem que vinha estabelecer-se no Rio Grande teria o seu papel histórico condicionado a dois fatores precípuos, um econômico, a exploração pastoril, naturalmente a cavalo; outro político, a ocupação de uma área litigiosa, uma fronteira aberta e em movimento, em cujas refregas o cavalo também foi elemento decisivo. Formou-se, então, nesta extremadura da América portuguesa uma sociedade de pastores e soldados, que teve de defrontar-se e medir forças com uma outra, a da banda de lá, também aglutinada sob o influxo do pastoreio e da guerra, mas com diferentes conotações políticas, ficando assim colocadas, uma diante da outra, em posição antagônica e de beligerância, entrechocando-se e repelindo-se por quase dois séculos.

Esta situação, esboçada quando o Rio Grande dava entrada na história do Brasil-Colônia é muito significativa, podendo ser apresentada como o primeiro argumento contra aqueles que nos iriam acoimar de um suposto castelhanismo. É como diz Moisés Vellinho, num livro fundamental para quem quiser conhecer o Rio Grande, a Capitania d'El Rei: "Pontos de parecença entre os tipos sociais do gaúcho rio-grandense e do gaúcho platino existem, sem dúvida, mas se restringem às peculiaridades decorrentes do mesmo sistema básico de atividades - o pastoreio - , desenvolvido num cenário físico semelhante, e parcialmente fundado, em ambos os lados, na experiência e nas práticas do campeador nativo. Fora disso, porém, fora desses fatores circunstanciais suscitadores de ações e reações equivalentes, tudo o mais são traços que caracterizam tipos autônomos ativamente extremados um do outro, e chamados a desempenhar um drama de fronteira no qual haviam de atuar como inimigos".

Fonte: REVERBEL, Carlos. A função social do cavalo no RGS. Manchete, Rio de Janeiro/RJ, edição 780, 01 de Abril de 1967, pág. 93-94...

domingo, 28 de agosto de 2022

Boleadeira

 



A boleadeira (bolas) é um aperfeiçoamento da pedra de arremessar, formada por dois ou mais pesos (geralmente bolas de pedra dura e densa) atados a uma corda. Foi usada pelos indígenas das Américas desde a Pré-História, mais notadamente pelos incas, que a chamavam liwi e também por mapuches, charruas e patagões, que as usaram contra a cavalaria dos espanhóis. A avestruzeira ou nhanduzeira (chamada chumé o tálakgáp'n pelos tehuelches da Patagônia) tem duas bolas e é usada para caçar emas emaranhando-se no seu pescoço. Com três pesos, é chamada três-marias ou potreira (yachiko para os tehuelches), usada para prender-se nas pernas de animais maiores, como touros e cavalos. Gaúchos tradicionalmente levavam uma nhanduzeira à cintura e uma potreira à bandoleira. Geralmente são armadas com cordas de 1,5 a 2 metros e as bolas são de pesos diferentes, para se separarem no voo. O alcance é de 30 metros.

Os inuits ou esquimós usavam uma variedade chamada kalumiktun ou kilumitutit, com quatro a oito "bolas" (nesse caso, geralmente pedaços de osso), para apanhar aves no voo: era segurada no centro, girada horizontalmente sobre a cabeça e lançada contra uma revoada de pássaros. Os maoris usaram uma arma semelhante, chamada poa ou poi.

Fonte: COSTA, Antonio Luiz M.C. Armas Brancas - Lanças, espadas, maças e flechas: Como lutar sem pólvora da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco, 2015, pág. 143.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Origem da palavra gaúcho

 



Por Suzete Dallegrave

(...)

Vamos citar algumas hipóteses do termo "GAÚCHO", mas já podemos adiantar aos nossos leitores que ainda hoje nenhuma palavra foi aceita oficialmente como tenha sido realmente a de origem.

GAUCHE: termo francês que significa torpe, inábil, esquerdo, derivado de gauchir - que quer dizer desviar-se. Mas a difusão deste vocábulo em espanhol foi demasiado escassa, e assim tal derivação é inverossímil. Verifica-se que foi a analogia morfológica que motivou tal hipótese, isto é, derivar "gaúcho" do francês "gauche", embora de pronúncia tão diferente: ghô-che ou gôch.

GAUCH: palavra germânica apresentada também como étimo do "gaúcho"; o que fonética e morfologicamente estaria explicado: bastaria acrescentar a vogal de encosto ou terminação "o".

GUACHO: foi indicado como provável étimo da palavra em estudo, e que por uma metátese da sílaba inicial a transformou em gaúcho.

GUAXO: em português aparece grifado também com X medial, conforme a ortografia oficial. Guaxo, entre vários significados quer dizer animal amamentado com outro leite que não é o materno.

CACHU ou CAUCHU: é de origem araucana. Assim os índios da região chamavam aos gaúchos o que é sinônimo de esperto, fino, arteiro e austucioso. A mudança do C para G é frequente, daí: caucho - gauchu - gaúcho.

JARUCHO: significa vaqueiro do México (século XVIII) e é citado como possível étimo da palavra em estudo (Instituo Histórico e Geográfico do Uruguai), como paralelismo eufônico de "gaúcho".

GUALICHO: empregado pelos índios Pampas, que designavam "o espírito mau", isto é, o diabo.

GARROCHA: Garrucha - Garrucho - é uma instintiva sinonímia riograndense: garrucho - gorucho - e gohucho - goúcho - gaúcho. No famoso livro do etnólogo Saint Hilaire, "Voyage à Rio Grande do Sul" (1820), lêem-se as formas garucho, gahucho e garrucho. Tanto em português como em espanhol, garrocha tem o mesmo significado e daí possivelmente, o chamar-se gaúcho ao portador de garrocha ou garrucha, o simulacro de lança de que habitualmente eram portadores, aqueles índios que tanto pelearam com íberos que aqui aportaram.

GAUDÉRIO: eis uma das hipóteses mais difundidas como provável origem do gaúcho. Atribuem a gaúcho corrupção de gaudeo, rusticamente pronunciado: gauzo, gaucho. Gaudeo é a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo gauderi, que é gozar, estar em liberdade. Pelo século XVIII, gaudérios eram os camponeses da Banda Oriental e de Buenos Aires, a quem depois se chamou "gaúchos". Gaúcho e gaudério foram quase sinônimos no Uruguai. Alguns dizem que o primeiro derive logicamente do segundo.

GUAHÚ-CHE: significa "canto triste", e remonta dos tempos em que os minuanos viviam em estado propriamente livre entre os espanhóis e os portugueses. Esta hipótese refere-se a tristeza instada nos índios, especialmente minuanos; que os gaúchos primitivos eram grandemente afeiçoados a música e guahú seria então o "canto triste". A segunda parte che (partícula trazida do "quíchua" significa gente). Guahú-che significa "gente que canta triste".

ORIGEM ÁRABE-PERSA COM BASE NO SÂNSCRITO

Do árabe surgiria a forma gauch, calçada no persa gauchi que quer dizer boizinho, formado de gau (boi ou vaca) mais o sufixo diminutivo chi e que por sua vez é oriundo do sânscrito gaúh (boi, gado vacum), proveniente da raiz indo-européia gwo, gwow (boi, vaca).

Passa ao castelhano antigo chaucho com o sentido equivalente a gauche e este se documentou primeiro (século XVIII). Esta foi a primeira transição árabe, seguindo-se lhe a que prevaleceu: gaúcho. Envolvendo assim originalmente a idéia de gado, já que a riqueza primitiva, era constituída pelos rebanhos, como fonte de ganho e de lucro, passou à acepção de "criador ou guardador de gados", pastor, tropeiro, que se dedica a trabalhos, correlativos com seus usos e costumes característicos.

Fonte: O PIONEIRO (Caxias do Sul/RS), 04 de Setembro de 1976, pág. 10

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Fundação da União Gaúcha de Pelotas



"União Gaúcha

Mais de sessenta cavalheiros compareceram, ha dias, ás salas da Sociedade Gymnastica Allemã, onde tratou-se da organisação de um gremio, destinado a reviver e propagar as bellas tradições da vida rio-grandense.

Á 1 hora, a numerosa assembléa, por proposta do sr. Zeferino Costa, acclamou o coronel dr. Vasco Pinto Bandeira para dirigir os trabalhos, proposta aceita unanimente, com ruidosa salva de palmas.

O digno patricio, assumindo a presidencia, agradeceu a distincção que lhe era tributada, convidando, em seguida, para secretario o sr. Zeferino Costa Filho e para expor os fins da reunião o illustrado dr. Cesar Dias, que, em correctas phrases, bem desempenhou a missão de que fôra encarregado.

Usaram tambem da palavra, occupando-se do titulo que devia receber o novel gremio, entre outros, os srs. Justiniano Simões Lopes, dr. Francisco Amarante e capitão Vital Costa.

Ficou resolvido que a futurosa associação se intitulasse União Gaúcha e que fosse installada a 20 do corrente, sendo designados para a commissão de estatutos os srs. Zeferino Costa, dr. Francisco Moreira, Justiniano Lopes e dr. F. Amarante.

O dr. presidente, em palavras alevantadas, encerrou os trabalhos da brilhante sessão, por entre muitos e enthusiasticos vivas, com ardor correspondidos, ao Rio Grande do Sul e á União Gaúcha.

(Diario Popular)."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 18 de Setembro de 1899, pág. 01, col. 03

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um drama regionalista gaúcho no século XIX


"Os gauchos

A sociedade particular Filhos de Thalia exhibiu ante-hontem, pela primeira vez, a comedia-drama de costumes rio-grandenses, em 3 actos e denominada Os gauchos, ultima producção do sr. Damasceno Vieira.

Até o 2o. acto, a peça é toleravel; no 3o., cáe redondamente, ficando reduzida a pouco mais do que um montão de expressões agauchadas, cantares a desafio e toques de viola.

O capataz da estancia em que se desenvolve a acção, a principio bello typo de gaucho franco e cheio de aspirações, com o qual o espectador sympathisa desde logo, desapparece bruscamente do entrecho da peça, feiamente bigodeado por um engenheiro nortista, muito immoral, que intercepta lhe os amores simples e sadios, com a prima, a quem seduz e deshonra.

É preciso convir que aquelles gauchos (de cujo numero faz parte o Agache, um idiota das ruas de Porto Alegre...) são muito atoleimados; ao contrario não lhes passariam desapercebidas as estradeirices de um don Juan que, pretextando medir a fazenda, aboleta-se n'ella com o fim preconcebido de conquistar, com a maior indignidade, a noiva do capataz, o que consegue, embuçalando a hospitaleira gente.

A filha do estancieiro, no 3o. acto, é uma mulher psychicamente indefinivel: sabedora de que o seu seductor é um libertino, que tem compromisso de casamento com outra, repelle-o energica e nobremente, para, momentos depois, acceital-o por marido...

Emfim, ainda não se póde fazer, uma apreciação definitiva d'Os gauchos; a peça foi representada pela 1a. vez, e ainda não está impressa.

Terminada a exhibição, o sr. Damasceno Vieira foi chamado á scena e applaudido, recebendo palmas e dois ramalhetes de flores, offertados, um pelos Filhos de Thalia, e outro por um seu irmão."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 17 de Agosto de 1891, pág. 01, col. 06

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Maragato - uma ópera gauchesca


"O bom teatro gaúcho

PORTO ALEGRE - O premiado espetáculo gaúcho Maragato, um moderno épico inspirado nas tradições e na história do Rio Grande do Sul, de Valter Sobreiro Junior, estréia hoje no Teatro Ziembinski, onde permanece até o dia 21 deste mês. Encenada pelo Teatro-Escola de Pelotas, constituído por um elenco jovem (e talentoso), a montagem já mereceu as mais diversas definições, desde 'ópera popular' até 'pós-vanguarda regionalista'.

Maragato já viajou por vários estados, conseguiu 30 prêmios em festivais, fez temporada de sucesso em Montevidéu, Uruguai, ano passado, e também já esteve no Rio tem março do ano passado, no Projeto Mambembão. Agora retorna respaldado por novas premiações - melhor diretor, melhor espetáculo, melhor ator, melhor música e outros, em festivais de São Paulo, Paraná e Ceará, só para citar alguns.

'Defino a peça como uma ópera gauchesca; mas não se enganam, confundindo-a com um espetáculo de folclore; ao contrário, é uma tragédia política, contada musicalmente, sobre coisas do Sul', revela Valter Sobreiro Junior, autor e diretor, seguramente um dos mais versáteis encenadores do Rio Grande do Sul no momento. Sob seu comando o Teatro-Escola de Pelotas apresentou Fuenteovejuna, de Lope de Vega e Em Nome de São Francisco, de sua autoria, antes de chegar a Maragato, que faz uma das mais longas carreiras do teatro gaúcho, já tendo sido assistida por quase 30 mil espectadores.

A peça narra em texto, música e belos momentos plásticos a trajetória de Gabriel, um jovem que, na Revolução Federalista de 1893, sai em perseguição aos maragatos - digamos, guerrilheiros - que assassinaram seu pai, um fazendeiro do Pampa. Ao longo do insano plano de vingança, ele acaba tomando consciência da causa rebelde e adere ao movimento civil, que visou desbancar as oligarquias políticas, de conduta quase feudal. Ao retornar ao lar, vingado, alquebrado por lutas e percalços existenciais, já não é mais o moço destemido de antes, e sim um irreconhecível perdedor, vítima de guerra.

Maragato tem um elenco de 15 atores, que interpretam 28 personagens, e mais um grupo de músicos em cena. O protagonista é Daniel Reus, um universitário de Pelotas, como a maioria dos atores. O grupo é ligado a Escola Técnica Federal daquela cidade, à margem da Lagoa dos Patos, reconhecidamente um dos mais importantes pólos culturais do Sul. Uma rara oportunidade de se conhecer o (bom) teatro que se faz fora do eixo Rio/São Paulo."

Fonte: JORNAL DO BRASIL (Rio de Janeiro/RJ), Caderno B, 11 de Julho de 1991, pág. 07

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A História do Fandango


"O fandango é uma dança em pares conhecida em Espanha e Portugal desde o período Barroco, caracterizada por movimentos vivos e agitados, com certo ar de exibicionismo, acompanhada de sapateios ou castanholas seguindo um ciclo de acordes característicos. Porém em Portugal não é acompanhado por castanholas.

(...)

O fandango, que chegou ao nosso litoral com os primeiros casais de colonos açorianos por volta de 1750, passou a ser o 'batido' principalmente durante o entrudo (precursor do carnaval). Durante esses quatro dias a população do litoral paranaense não fazia outra coisa senão 'bater' fandango e comer 'barreado' (prato típico à base de carne e toucinho). Meses antes, fazia-se a 'cinta' (angariavam-se fundos para a grande festa). Os dançarinos chamados de 'folgadores e folgadeiras', praticavam os mais diversos bailados entre eles o Anu, Andorinha, Chimarrita, Tonta, Caranguejo, Vilão do lenço, Sabiá, Marinheiro, Xarazinho, Xará Grande, entre outros.

Com o passar do tempo, o fandango executado no Paraná foi assimilado pelo caboclo do litoral, assumindo assim seu caráter folclórico e desta forma é preservado até hoje.

Atualmente o fandango se estende do extremo sul a São Paulo. No litoral paulista o fandango inclui coreografias que englobam ou não sapateados, entre elas o Dãodão, Dãodãozinho, Graciana Tirana, Tirana-Grande, Rica-Senhora, Recortado, Recortado Grande, Chimarrita, Querumana, entre outras.

No Sul, foram registradas mais de cem modalidades de fandango.

No decorrer das viagens dos tropeiros, durante as longas noites a beira do fogo, eles procuravam se descontrair esquecendo a dura lida de viagem e dos sofrimentos que passavam. Nessa descontração ao som de violas ou meia-vi Aleolas surgiram certas cantigas e danças que eram praticadas somente por homens (pois não existiam mulheres nas viagens) eles mostravam toda a sua habilidade e criatividade em um prazeroso divertimento. A mais antiga dança do fandango é o Fandango Sapateado, onde cada cavalheiro, depois de bailar em círculo e em conjunto procura exibir sua capacidade de teatralidade, com exuberantes 'figuras-solo' sapateadas, ao som do rosetear de nazarenas, das quais delas lembravam e imitavam lides e motivos de campo e de sua origem, motivo oriundo do século XVIII, quando do nascimento do 'gaúcho-do-campo', em sua atividade birivista tropeira. Dança que deu origem à formação do 'ciclo do fandaguismo' primitivismo rio-grandense, onde aparece posteriormente a dama, formando o par.

Para a execução das danças do fandango, além do uso de duas violas, é fundamental também a presença do acordeão, da rabeca e do pandeiro rural. Os dançarinos, trajando típicas vestes gaúchas, giram em torno um do outro sensualmente, sem jamais se roçarem, nem mesmo com as mãos. Os casais executam movimentos tentadores, insinuantes e ondulantes. Os homens sapateiam sem cessar, provocando assim o constante ritmo das esporas, que acabam atuando como um instrumento a mais."

Fonte: BERTOLETTI, Carlos Henrique & OURIQUE, Alexandre. Festas e diversões gauchescas. In: MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO. Farroupilhas: ideais, cidadania e revolução. Porto Alegre/RS: Corag, 2010, pág. 50-51

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Exposição "Evolução do Indumentária Gaúcha"

Traje de charqueador e esposa no século XIX

Traje de Estancieiro ou Peão (e esposa) do século XVIII até aproximadamente 1820

Traje gaúcho (e esposa) com chiripá típico da época farroupilha até a década de 1860

Está acontecendo no Shopping Pelotas uma exposição interessante com o tema "Evolução da Indumentária Gaúcha". Como se pode observar nas fotos acima, os trajes estão reproduzidos em manequins em tamanho natural. A visitação é gratuita, pois os modelos estão dispostos nos corredores do shopping. A exposição foi desenvolvida pela União Gaúcha João Simões Lopes Neto.

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