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sábado, 30 de maio de 2020

O Curupira - um estudo de 1887 - Parte 03


"Na Bahia, transforma-se completamente e não só muda de nome como de sexo.

A Kaiçara, é uma pequena cabocla quasi negra, que não dispensa o porco para sua cavalgadura. É tambem a protectora do caçador, quando este lhe mostra fumo e torna-se o seu cabrion quando não lhe dá. Não só os cães, como o proprio caçador, quasi sempre são attrahidos para o centro das mattas, onde, são surrados com cipó de yapekanga, cujos espinhos dilaceram as carnes das victimas.

Posto que actualmente desapparecesse o nome de Korupira, e fosse substituido pelo de Kaiçara, comtudo elle ahi existio, como nos prova o veneravel Padre Anchieta, quando nos diz em Maio de 1550, que 'chamam Corupira, que attaca muitas vezes os indios no matto, batem-lhes com açoutes, machucam-n'os e matam-n'os. Por isso os indios costumam deixar em um determinado caminho, que vae ter ao mediterraneo por asperas brenhas, em todo o vertice de montanha elevada, quando por ahi passam pennas de passaros, abanadores, flores e cousas semelhantes, como uma especie de oblação, pedindo com instancias aos Corupiras que não lhes façam mal'.

Cortando a locomotiva das vias ferreas, os centros do Rio de Janeiro e Minas Geraes, e levando nos seus silvos o progresso e a civilisação, afugentou o Kaapora, que outr'ora habitava as suas florestas e fez com que elle se refugiasse nas furnas das mattas das montanhas do norte d'esta ultima provincia, nos sertões ainda incautos onde as vezes apparece ainda com o nome de Korupira.

Talvez que pela geada que cahe nas serras d'essa provincia, lhe crescessem novamente os pellos de que se cobre o corpo, para resguardal-o do frio quando no queixada (Dicotyles labiatus) atravessa os campos, em procura do fumo dos caçadores, ou os enganando e os fazendo correr atraz de veados imaginarios.

Sendo pregando peças aos caçadores, matando-lhes os cães, atravessa as provincias centraes, para chegar aos campos do Rio Grande do Sul, onde abandona a cavalgadura para andar só a pé, mas então com duplos pés para não se poder saber quando caminha para frente ou para traz.

Sempre é o fumo para o cachimbo que lhe adoça as iras, e com elle se compra a felicidade na caça ou a licença para poder correr as florestas que tem sempre o Korupira por protector.

No Paraguay o Kaapora tambem impera sob a forma de um tapuyo velho, e vae mesmo á Bolivia, estender seu dominio sobre as mattas e seus habitantes. Por toda parte leva a mulher Tatácy (Amazonas), Tatámanha (Pará), ou Kaapora, e seus filhos, mas raras vezes se apresentam juntos. Quazi sempre a mulher fica em casa, o que não acontece ao filho predilecto que exerce seu dominio pelas estradas, pelos caminhos, pelas ruas e pelas roças.

Como criança não mata, mas as suas judiarias são as vezes maleficas, e annunciam sempre infelicidades e desventuras. Como o pae, tambem muda de nome: no Sul é Çacy tapereré, no centro Kaipora, e no Norte Maty-taperé.

O civilisado, que muitas vezes não entende a pronuncia do sertanejo, que é o mais perseguido por elle nas suas viagens, tem lhe alterado o nome; já o fez Çacy-pererê, Saperê, Sererê, Sareré, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um nome portuguez, o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome da Silva ou da Motta.

Para melhor conseguir seus fins, e fazer suas proezas, sem ser visto, quasi sempre vive o Çacy ou Maty methamorphoseado em passaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancolicas, ora graves ora agudas, illudem o caminhante que não póde assim descobrir-lhe o pouso, porque, quando procura vel-o pelas notas graves, que parecem indicar-lhe estar o çacy perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E assim illudido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal.

Quando no Norte, os tapuyos, ouvem o canto do Maty-taperê, e no Sul, os roceiros ou o Kaipiras, o do Kaapora ou do Çacy-taperê; que o civilisado toma por alma de caboclo, os velhos o esconjuram; as crianças unidas conchegam-se ao collo das mães; estas arrepiadas, olham para os paes, que tremem, mas não negam o fumo, que espalham pelas cercas dos quintaes e pelas portas para que o Çacy se cale, e se retire, levando com que matar o vicio de cachimbar.

Quando se não apresenta aos viandantes, sob a forma de passaro, reveste-se da forma humana, e só (no sul) ou acompanhado de sua mãe, (Pará e Maranhão) percorre as ruas, entra pelos roçados, vae ás casas de farinha; penetra nas senzalas; aterrorisa os passageiros; rouba a mandioca; furta farinha e quebra os beijús no forno, proezas em que é destro no Rio de Janeiro.

No Amazonas e Pará é um karumi de uma perna só, de cabellos vermelhos, os quaes a civilisação transformou em barrete vermelho (Pará) sempre acompanhado de uma velha tapuya ou preta vestida de andrajos (tatámanha) que pela calada da noute, e, mesmo de dia assovia dizendo: Maty-taperê!

É um tapuyosinho triste, como o são todos e que não evacua nem urina.

Vulgarmente só se apresenta sobre a forma de um passaro, que se não vê, mas cujo canto só ouve e o seu esvoaçar se sente. Toma esta forma quando quer se ver livre dos rigores da mãe Tatámanha.

Querem alguns que o Maty-taperê, seja a velha e não o pequeno, porém o que é mais correcto no valle Amazonico é que esse passaro phantastico seja a methamorphose do filho do Korupira.

O sr. José Virissimo, do Pará, tratando ligeiramente do Maty-taperê, cita como o canto do passaro o seguinte, que diz ser resto de algum mytho:

Matinta Pereira
Papa terra já morreu
Quem te governa sou eu.

Observo aqui que Papa terra, é no Pará um passarosinho preto de crista comprida, do qual não ouvi lenda alguma.

No Maranhão, o Maty-taperê anda tambem acompanhado pela velha, a que dão o nome de Kaapora.

Ahi a Kaapora dos sertões tem azas e vive pelos roçados, e pelas estradas e caminhos.

O povo das cidades, já a toma para motivos de seus folguedos. Nas festas populares de S. João apparece sempre a Kaapora com o Bumba meu boi, attrahindo o povo que gosta e ri-se dos seus esgares e seus momices. N'essa festa se vê fundido o elemento portuguez com o indigena e africano.

Figuram a Kaapora com uma armação de páo, vestida, representando uma mulher de braços abertos, de azas, e coberta com um lençol e andrajos, sob o qual se esconde um homem, que lhe dá os movimentos e imita os tregeitos e o costume da verdadeira Kaapora.

O povo gosta d'essa figura, segue-a, procura chegar-se a ella; de repente foge, approxima-se outra vez, recúa, sempre rindo-se das duas pantominas e gritando em côro:

'Assim Ceriema.
Bate as azas, vae-te embora'.

Ou então:

'Assim, Kaapora.
Larga a perna, vae-te embora'.

Em Sergipe é um moleque muito preto, com carapuça de latão, que tambem para obter fumo para seu cachimbo faz as maiores tripolias. Já esse mytho ahi está fundido com os contos portuguezes do cyclo de Gargantua, e apparece no conto do Manoel da Bengala referido em Coimbra sob o titulo A Bengala de quatro quintaes.

No Ceará a Kaapora, dá motivos tambem a uma festa quasi igual á do Maranhão, que se effectua tres dias antes e tres dias depois do dia de Reis. É a festa mais concorrida do sertão. A Kaapora faz parte do prestito do Bumba meu boi; é companheira do Privilegio ou José do Abysmo, da Burra, da Ema e dos Vaqueiros que fazem pelas estradas os maiores tregeitos, folgando e dançando, sempre dirigidos pelo homem da burra e tocados pelas vaias e pelas gargalhadas dos patuscos que os seguem; es gritos de:

'Chô, Ema! Sacode as pennas!'

ouvem-se por toda a parte, no meio dos assovios e das rizadas, quando ella experta os vaqueiros, sacudindo as palhas de carnauba com que cobre.

A Kaapora já ahi, em alguns lugares, não representa a mãe e sim o proprio Çacy como em Sergipe. É um menino com uma urupema na cabeça coberto por uma saia ou lençol, de sob o qual sahem duas varas formando braços.

Em Ilhéos (Bahia), o Maty ou Çacy, tem o nome de Kaapora, e diz que onde se apresenta é sob a forma de uma cabocla moça, clara e bonita.

Não sei porque em Ilhéos, toma o Çacy essa fórma. Não será a mãe Kaapora, porque em todo o sertão da Bahia, o Kaapora é representado como bem a descreve nos Cantos do Equador o distincto amigo e poeta Mello Moraes Filho?

Aqui reproduzo a sua lenda:

O CAIPORA

É caboclinho feio
Alta noite na matta a assoviar
Quando alguem o encontra nas estradas
Saltando encruzilhadas
Se põe a esconjurar!

É alma de um tapuyo
Fazendo diabruras no sertão...
Cavalgando o queixada mais bravio,
Transpõe valles e rios
Com um cachimbo na mão!

Assombro das manadas,
Enreda a onça em mattos de cipó;
De montanha em montanha vae pulando,
Vae quasi que voando,
Suspenso n'um pé, só!

Ao pobre viandante
Assombra e ataca em meio do caminho;
E pede fumo e fogo, e sem demora
Lhe mostra o Caipora
Seu negro cachimbinho.

Servido no que pede,
A contas justas, safa-se a correr...
Do contrario, se fica descontente,
De cocegas a gente
Faz rir até morrer!

É caboclinho feio.
Alta noite na matta a assoviar
No Norte, diz o povo convencido:
- Não indo prevenido
Não é bom viajar!

A Kaapora, mãe do Çacy, como no Maranhão, entra como episodio nas poesias populares da Bahia. No dia de Reis, sahe á rua, acompanhada pela molecagem, que a acompanha a gritar, cantando:

'Assim, Kaipora,
Feliz dô-dô!'

É a mesma do Maranhão, porém, sem azas, e coberta de esteiras e lençóes. A musica que acompanha sempre essas festas é composta de maracás, tambores e canzás ou caracachás.

No Rio de Janeiro, onde a onda negra mais estragos fez, onde pelos rincões o cancro da escravidão mais tem corroido, o Çacy-tapererê, que por uma syncope passou a ser saperê e que os negros fizeram sererê e siriri tomou a côr negra e usou o barrete vermelho, que os africanos recebiam nos armazens do Vallongo, do Cajú e nos das costas da Marambaia. Assim o Çacy passou a ser molequinho cóxo, ferido nos joelhos, porém mais vivo e activo do que o caboclo.

Verdadeiramente moleque ou garoto, como é em geral o crioulo.

Na estrada real de S. Cruz, na fazenda do Capão do Bispo, morgado dos Furtados de Mendonça, muitas vezes ahi ouvi dizer-se que o Caapira, ainda reminiscencia corrupta do Korupira, tinha por companheiro o Çacy-pererê, passaro de um pé só, que alta noite vagabundêa pelas estradas, cantando:

'Çacy-pererê minha perna me dóe.'

O Sr. Felix Ferreira, disse e Eduardo Perié repetiu no seu livro e A litteratura brazileira nos tempos coloniaes, que na fazenda de Sta. Cruz, é crença geral que o Kaapora tem por companheiro o Çacy, que canta 

'Sacy Pereira minha perna me dóe.'

O Çacy quando ahi sahe do matto, não é para fazer propriamente malificios, e se algum acontece, é resultado das suas molecagens. Só quando toma a fórma de passaro, torna-se agoureiro ou faz infeliz aquelle que persegue, porque então, querem que seja a alma de um caboclo transformada em passaro; por isso o chamam tambem, como já vimos, alma de caboclo.

Como passaro, canta do mesmo modo que o Maty, e tem todos os seus costumes.

Assim quando pelas fazendas e sitios nos serões, se faz farinha, o Çacy apenas vê a forneira só, vem lhe pedir farinha ou joga-lhe cinzas nos olhos para furtar-lhe a crueira, pelas estradas procura as encruzilhadas e trepa nas porteiras e nos copins para transviar os viajantes, e espantar as tropas.

Quando passam as porcadas, monta n'um para estramalhal-as, desesperando assim os tropeiros, que tem de campear os lotes, arrecadar as cargas jogadas pelo campo e arreiar de novo as bestas.

No centro e no norte de Minas Geraes onde o elemento indigena não se deixou assoberbar pelo africano, o Çacy apparece outra vez como um caboclinho de pés bifurcados fazendo as diabruras que faz o molequinho na mata do Rio, sempre de cachimbo no canto da bocca, pitando o fumo filado aos pobres viajantes, e furtando a comida dos escravos pelas senzalas.

Nos terrenos auriferos mora em geral nas betas e nas catas abandonadas, ou nas grunhas das montanhas, longe dos ribeirões, que não atravessa, por não gostar d'agua corrente; sahe para correr os pastos e ahi cavalgar os animaes, levando em correrias toda a noute fazendo com que os pobres tropeiros de manhã os encontre desbarrigados.

Nas noutes brumosas, quando os valles e os gupiaras se cobrem com aquella nevoa branca e floculosa, que, vista das serras, parece um mar de algodão batido, é quando elle gosta de perseguir os animaes trançando-lhe as crinas e os escondendo para que os campeiros não os encontrem e curtam o frio da gelada madrugada campeando em vão a madrinha de sua tropa.

Que se transforma em homem, e veste-se de rodaque para andar pelas casas de jogo, ou seduzir o sexo fraco, o affirmam muitos.

Que tem medo de esconjuros, de rozarios e orações, sempre as velhas me disseram, e quando ellas avistam alguma moça magra, pallida e triste logo dizem: 'é obra do Çacy', porque affirmam, que as moças se apaixonam por elle, com elle se amancebam, sendo a morte sempre a consequencia d'esse amor criminoso; d'ahi vem a chula que ao som da azinhavrada viola, enfeitada de fitas, canta o Kaipira nos requebros do katereté:

Menina, minha menina,
Quem te fez tão triste assim,
De certo foi o Çacy
Que flor te fez do seu jardim.

Os amores do Çacy
Trazem a morte a seu bem;
Reza á Nossa Senhora
Que te livre do mal; amen.

Outr'ora pelas festas de Reis, houve tambem no Rio de Janeiro o Bumba meu boi, mas nunca vi nelle tomar parte o Çacy."


Fonte: MUSEU BOTANICO DO AMAZONAS. Vellosia, 1887, volume 1Manaus/AM: Typographia do Jornal do Amazonas, 1888, pág. 94-99.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

O Curupira - um estudo de 1887 - Parte 02


"O mesmo tambem o denomina Caapora e aceita a opinião de Vasconcellos, fazendo-o genio dos pensamentos.

Nenhuma lenda confirma essa opinião.

O cantor dos Timbiras assim descreve o Kaapora:

'O Caapora (vulgarmente caipora) veste as feições de um indio, anão de estatura, com armas proporcionadas ao seu tamanho, habita o tronco das arvores carcominadas para attrahir os meninos que apanha desgarrados nas florestas. Outras vezes divaga sobre um tapyr, ou governa uma vara de infinitos kaititus cavalgando o maior delles.

Os vagalumes são os seus batedores, e tão forte é o seu condão, que o indio que por desgraça o avistasse, era mal sucedido em todos os seus passos.' Magalhães seguio tambem a mesma opinião de Simão de Vasconcellos tanto que Aimbire quando dirige-se ao pagé que o aconselha:

'Procurar outra terra mais remota'

Brada:

'Tudo deixar?... Fugir? Mas tu deliras!...
Fugir?... Que Curupira malfasejo.
Inspirou-te tão baixos pensamentos?...'

O autor do Diccionario Braziliano, o sabio Frei Velloso, a quem a botanica brazileira tanto deve, admitte não sem razão, que Korupira é o demonio do matto, como se vê no dito diccionario publicado em 1795.

Dizem que quando o individuo vê-se perdido no matto, encantado pelo Korupira, para quebrar o encanto que faz esquecer completamente o caminho, deve fazer tres pequenas cruzes de páo e collocal-as no chão triangularmente, (Rio Negro); ou fazer outras tantas rodinhas de cipó que collocará tambem no chão (Rio Yuruá e Solimões) e que o Korupira dá-se ao trabalho de desfazer ou então fazer ainda pequenas cruzes de kauré que atira pelas costas (Rio Tapajóz). O Korupira tambem persegue os caçadores em casa com os seus assovios (Rio Negro) e para o fazer calar-se basta bater-se em um pilão.

Quando o Korupira atravessa o Gurupy e entra no Maranhão, não muda de nome, mais ahi, de preferencia mora no grelo dos Tucunzeiros e procura as margens do rio para pedir fumo aos canoeiros, e virar-lhes as canoas quando não se lhes dá, fazendo as mesmas correrias pelos mattos, onde têm as mesmas formas com que se apresenta no Amazonas.

Atravessando pelo Rio-Grande do Norte e pela Parahyba, toma então o nome de Kaapora; torna-se inimigo dos cães de caça e affecta a forma de qualquer animal afim de attrahil-os para o centro dos mattos, onde ou os açoita com cipós ou os mata. Outras vezes obriga os cães a correr atraz delles, para fazer com que os caçadores os sigam; desapparecendo de repente, deixa os cães tontos e os caçadores perdidos. N'estas provincias quase sempre anda a cavallo n'um veado, ou num coelho. Indo o caçador munido de fumo e encontrando o Kaapora, se este pedir-lhe e for satisfeito pode contar que será d'ahi em diante feliz na caça.

No Ceará conserva o nome de Kaapora porem ahi muda de aspecto, perde o pello do corpo que transforma-se em cabelleira, de cabelos hirtos; apresenta dentes afiados como os de guaribas e olhos como brasas; sempre que sahe das mattas da serra monta n'um taititú, com uma chibata de yapekanga (Smilax Brasiliensis Spreng) na mão.

Avistando o caminhante começa logo a cantar:

Currupá papaco!
Currupá papaco!

Creio que essa cantiga é de importação portugueza, porque os degredados que depois de 1564 começaram a vir para o Brazil principalmente Açorianos, que ainda no começo deste seculo vieram para o Amazonas, cantavam:

Algum dia ja cantei
Hoje em dia não canto mais.

Pacos pacos papacos
Rupa pacos
Pacos pacos papacos
Rupa pacos

Cantiga que os sertanejos ensinam ás kurikas e papagaios e que estes levaram para o Sul onde quase todos os papagaios isso cantam. Em Inhamuns, sertão do Ceará e outros lugares, da mesma provincia as sertanejas terminam a cantiga ensinando os papagaios a dizer:

Curupá papaco,
Curupá papaco,
Não me pegue no tabaco!...

Isso se refere ao fumo que no Norte só se conhece por tabaco, que o Kaapora pede, porém os maliciosos, levam o significado da palavra para outro lado.

N'essa provincia não perdôa ao caçador, que, sem o seu consentimento invade-lhe os dominios, licença essa que é facil de se obter mediante um pouco de fumo. Favorece-lhe a caça, mas recommenda que não a fira e sim a mate, para não lhe dar o trabalho de andar procurando plantas medicinaes com que cure os ferimentos.

Na provincia de Pernambuco reapparece o Korupira, como synonimo de Kaapora, e em alguns lugares tem um só pé, esse mesmo redondo. Anda a cavallo n'um veado e por chicote traz um galho de yapekanga. Tem comsigo sempre um cão chamado Papa-mel. É então um caboclo pequeno coberto de cabellos, que dizem ser a personificação da alma de caboclo pagão.

Como em toda a parte é o protetor da caça, cuja destruição evita, mas n'essa provincia nem sempre torna infeliz aquelles que o encontram. Para captar-lhe a sympathia basta um presente de fumo.

Com isso tem por protector o mesmo Korupira, que surra os cães dos caçadores sovinos e os deixa depois amarrados para morrerem á fome.

Entre muitos factos passados n'essa provincia com caçadores protegidos pelo Korupira, citarei este: um homem costumava levar mingáo todas as noutes a um Korupira, porém este, encontrando uma vez o mingáo com pimentas, que a mulher do caçador tinha posto, deu uma surra no homem e nunca mais o protegeo.

Em outros lugares, tambem de Pernambuco, o Korupira por uma excepção, é representado por um pequeno gentio de cocar e fraldão de pennas, armado sempre de arco e flechas.

Como melhor não descreveria o que é esse mytho em Pernambuco, e quaes os seus costumes e a sua indole aqui reproduzo uma poezia popular, com que, do Recife, me obsequiou o meu amigo Dr. Regueira da Costa:

O KORUPIRA

De dia não busca a estrada
O guerreiro Korupira,
Porque dorme o somno solto
Á sombra da sukupira.

Mas de noite, quando a lua
Prateia as aguas da fonte,
E a fresca brisa sussura,
Eil-o que surge do monte.

Montado n'uma queixada,
Rompe do bosque a espessura;
Da onça não teme as garras,
Tendo trez palmos de altura!

Da yaindaya a verde pluma
Na fronte relúz, ondeia;
O arco, as pequenas flexas,
Garboso nas mãos meneia.

Assim anda, pula e corre
De noite pelas estradas:
E após si em tropel marcha
Uma vara de queixadas.

O grunhido, o som dos passos
O estalar dos rijos dentes,
Quebranta a mudez da selva,
Acorda os pobres viventes.

Pula aterrado o macaco.
Verga a folha das palmeiras;
Sai a cotia da toca,
Foge do matto às carreiras.

Quando encontra o Korupira
No caminho um viajante, 
Pára de pressa, e atrevido
Oppõe-se a que marche avante.

Irado, salta do peito
Agudo silvo estridente:
E logo em volta se ajunta
A sua guerreira gente.

Os olhos tornão-se brazas:
Põem-se em ordem de batalha;
O queixada amola os dentes
Que cortam como navalha.

Ai! do pobre caminhante,
Se o temor o tem tomado:
Perde a falla, fica escravo,
Sendo em porco transformado!

Mas, se investe os inimigos,
E de nada se apavora,
De repente o Korupira
Pelo valor se enamora!

Da peleja cede o campo,
E reparte o seo thesouro:
Ricas pedras de brilhantes,
Rubins, esmeralda e ouro.

Em Sergipe, o Kaapora anda sempre pelas estradas pedindo fumo aos viajantes para o seu cachimbo, e quando se lhe não dá mata-os a poder de cocegas. Em ar de brincadeira, faz rir o viajante até cahir morto."


Fonte: MUSEU BOTANICO DO AMAZONAS. Vellosia, 1887, volume 1Manaus/AM: Typographia do Jornal do Amazonas, 1888, pág. 94-99.



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Patrimônio Histórico Brasileiro - Parte 10



Igreja Nossa Senhora da Conceição, Comendaroba, Laranjeiras, Sergipe


Janelas abalustradas da Rua Castro Alves, São Cristóvão, Sergipe


Sobrado à Rua Getúlio Vargas, São Cristóvão, Sergipe


Capela do Sítio de Santo Antônio, São Roque, São Paulo


Casa e Capela do Sítio de Santo Antônio, São Roque, São Paulo


Sítio de Santo Antônio, São Roque, São Paulo


Sobrado à Rua Altino Arantes, São Sebastião, São Paulo


Sobrado do Porto, Ubatuba, São Paulo


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