Alguns exemplos mostram a presença do transplante cultural. Nenhum deles é mais expressivo do que a sequência de crimes ocorrida nos anos 1918-1919, batizada pela imprensa de "vendetta dos tripeiros", por envolver italianos ligados ao comércio de carnes no matadouro e mercado de Vila Mariana. Em fevereiro de 1918, Luís Signorelli e seu cunhado Angelo Grecco caminham à noite pelas ruas do bairro, inteiramente despreocupados. Estão bêbados e cantam. Um grupo oculto no escuro lhes dirige a palavra em italiano, presumivelmente para identificá-los. Logo a seguir, ambos são mortos a tiros de espingarda. A polícia encontra dificuldades na apuração dos fatos, pois como diz o delegado encarregado do inquérito, em seu relatório, "tivera de lidar com grupo de tripeiros italianos da Vila Mariana, gente que se guia pelo princípio da 'omertà', segundo o qual devem resolver privadamente seus problemas, sem recorrer às autoridades. Afinal é acusado como mandante do crime um certo Basile Messano, rival dos mortos no negócio das tripas, e como mandatários três italianos e um brasileiro. Os italianos - vítimas ou acusados - são todos de Castellabate, pequena cidade da Campânia (Itália meridional), o que sugere o transplante não apenas de solidariedade mas de inimizades na vida para a América. Messano, segundo testemunhas, fora "chefe de quadrilha" na sua região natal por mais de vinte anos. De sua ficha policial na Itália, consta uma tentativa de homicídio mediante emboscada (1897) e uma acusação no ano seguinte por lesões corporais. Homem de posses no Brasil, acusado de ameaçar e subornar testemunhas, livra-se do processo graças a um habeas corpus obtido no Tribunal de Justiça. Este desfecho põe em risco a vida do acusado. Ele próprio não tem dúvidas a respeito: em anúncio publicado na imprensa solicita maior proteção policial. Afinal, menos de um ano após a morte de Luís Signorelli, um de seus irmãos abate Messano com sete golpes de uma enorme faca de cortar reses. Representante de seu grupo familiar, o criminosos é apoiado por outro irmão, que se lamenta não ter estado presente ao ato para ajudá-lo, e pelas mulheres da família, que lavam as mãos na poça formada com o sangue da vítima. Ele próprio pôde afinal lavar uma cueca ensanguentada do irmão, guardada intacta até o dia da vingança.
Fonte: FAUSTO, Boris. Crime e cotidiano: a criminalidade em São Paulo (1880-1924). São Paulo: Brasiliense, 1984, pág. 67-68.