Mostrando postagens com marcador Etnografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Etnografia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Iamuricumá

 



O movimento feminista das índias xinguanas, "Iamuricumá", segundo a lenda, surgiu com as belicoas Amazonas e se propagou através dos tempos. De caráter periódico - de 20 em 20 anos - pode ser convocada em qualquer época. E isso acontece no momento exato em que a cerimônia masculina "Karytu" começa a se intensificar, ressaltando a figura feminina como objeto de desprezo e humilhação. Contra essa opressão masculina surge a insurreição feminina em todos os grupos tribais do Alto Xingu.

No "Iamuricumá" a mulher assume controle total da situação, não permitindo que o homem tenha participação em qualquer atividade ou ato. Durante a cerimônias as mulheres absolutamente pintadas e enfeitadas se abraçam e entoam canções, sem auxílio de instrumentos musicais. Somente ao final ouve-se o som de pequenas flautas - iamuricamás. Dentro do ritual elas aproveitam para fazer tudo aquilo que lhes é proibido pelos homens - enquanto estes permanecem assistindo o ritual em local bastante afastado, também, completamente pintados para despertar a atenção feminina, mas o máximo que conseguem, muitas vezes, é serem agredidos pelas índias.

Nesta oportunidade a xinguana maneja armas, luta o "huka-huka", exibição esportiva do Xingu - enquanto que os capitães femininos das tribos anfitriãs (são recepcionados grupos de outras tribos) imitam maneiras, gestos, diálogo, enfim, assumem o comportamento dos capitães-masculinos. Com isto estão tentando igualar-se aos homens e, ao mesmo tempo, humilhá-los.

Também faz parte do término ao ritual a oficialização do "moitará" (através do grito uníssono de todos os componentes dos grupos) que consiste no sistema de troca de objetos, onde o dinheiro não entra por ser desconhecido.

O simbolismo maior deste ritual repousa no peixe: alimento social por excelência. Enquanto que os elementos mediadores entre mulheres e homens - sempre é escolhido um indivíduo segregado da comunidade - pelo fato de não comer peixe fica em posição de destaque no seio da tribo.

Segundo Villas Boas, apesar da forma ostensiva e até brutal, o "Iamuricumá" atua como mantenedor da organização vigente nas tribos.

NO PEIXE A ORIGEM

Um dos significados lendários do "Iamuricumá" está baseado na figura de dois jovens que, ao atingirem a puberdade, foram levados a furar as orelhas (cerimônia a que todos se submetem nessa época). Assim, Oriouã e Amatavirá, ficaram sem comer peixe durante um mês, uma vez que seus pais haviam saído para a grande pescaria. Apenas um homem permaneceu na aldeia em razão de seu filho ter nascido há pouco.

A pescaria se estendeu durante tantos dias que as mulheres começaram a se preocupar com a vida dos maridos, pensando que tivessem sido colhidos por um mal maior. Duas vezes enviaram o único índio como emissário, para saber o que havia ocorrido. Este sempre regressava trazendo muito peixe, mas acrescentava que os demais permaneceriam mais algum tempo em virtude de os pesqueiros estarem abarrotados de peixe. Na terceira vez que o representante da maioria feminina voltou a comunicar - se com seus irmãos foi para dizer . Mas que as mulheres estavam dispostas a abandonar a aldeia caso eles não regressassem. Nova tentativa malograda. Todas ficaram revoltadas por seus maridos não retornarem. Então, sob o contexto do mito do Oriouá, as mulheres foram induzidas à prática do "Iamuricumá". Pintaram-se e cantaram à noite inteira. Na manhã seguinte tomaram infusão de raízes para vomitar e, com isto, expelir os maus espíritos.

Após, foi o chamado o "tatu" o qual foi incumbido de cavar buracos no chão em torno da aldeia, enquanto o emissário voltava novamente a informar aos maridos-pescadores que suas mulheres estavam fugindo. Para desgosto das mulheres eles não se renderam. Por aí seguiram os cantos por dois dias.

Ao velho "tatu" foi ordenado que continuasse cavando, o que levou a considerar-se como "não sendo mais gente". Posteriormente seguiram as mulheres. Passando pelo local onde se encontravam os homens, não atenderam o apelo que estes lhes faziam para que parassem a fim de as crianças comerem peixes. Enquanto isto "tatu" continuava abrindo novos túneis na terra. O canto não parava...

George Zarur lembra que os homens acabaram voltando sem peixe e não foram aceitos por suas mulheres para o relacionamento sexual. A partir daí as "iamuricumãs" começaram a percorrer os túneis feitos por "tatu", indo sair num lugar chamado Maüã. "Vovô Kuikuro" deparou com o aldeamento das mulheres totalmente destruído e foi aos homens da tribo informar o que havia ocorrido. Estes, dirigindo-se à aldeia feminina depararam com às mulheres sobre o teto das casas, não tendo atendido ao chamado dos maridos. E, conta a lenda, ao descerem continuaram a percorrer os caminhos abertos por "tatu", saindo em outro lugar chamado Arihese. Jamais os homens voltaram a encontrá-las.

Lendariamente as "iamuricumãs" não pararam jamais de viajar, dia e noite, enquanto que as crianças de colo que carregavam, foram atiradas aos lagos, transformando-se em peixes. Hoje, ainda, enfeitadas e pintadas vagam cantando e não contam mais com o seio direito para melhor manejar o arco e a flecha.

Segundo Orlando Villas Boas, daí admitir-se a relação entre "Iamuricumá" e a lenda sobre as Amazonas, índias guerreiras que, enjeitaram os filhos homens e queimavam o seio direito para o manejo do arco e da flecha.

(...)

Fonte: JORNAL DO COMÉRCIO (Manaus/AM), 27 de julho de 1977, pág. 05

domingo, 24 de maio de 2026

A Lenda do Taú-Taú

 



Lendas

Taú-Taú, por exemplo, é apenas uma das lendas que compõem esse imaginário fantástico que a escritora Yara Cecim veio construindo na memória desde a infância, vivida entre o Tapajós e o Amazonas. Taú-Taú conta a história de uma tribo de macacos brancos, antropófagos, que eram chefiados por um homem velho, com aparência de macaco. A tribo vivia nas profundezas das matas e chegou a dizimar aldeias inteiras no Alto Tapajós, embrenhando-se novamente na floresta depois de saciar a fome e deixando para trás os rastros e restos de desolação.

Segundo a escritora, para algumas pessoas essa tribo era apenas uma lenda, mas a dúvida acerca de sua existência ou não sempre persistiu, espalhando o terror entre as populações. "Quando as pessoas já começavam a esquecer a tribo, voltaram a atacar um tapiri no centro da mata, no Jaguarari, escapando dessa carnificina apenas o cozinheiro para contar a história, com todos os seus pormenores horripilantes". (...)

Fonte: O LIBERAL (Belém/PA), 03 de outubro de 1989, caderno Dois, pág. 01

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A Lenda do Tamba-Tajá

 



Todas as noites, quando havia lua na floresta, o casal de índios saía para passear. Era rotina na vida dos dois, que estavam juntos há muitos anos. A vida os colocara mais próximos, quando, não se sabe bem porque, a índia deixou de andar. A partir desse momento, ele passou a ser as suas pernas.

Para poder estar sempre perto de sua companheira, o índio, que habitava a tribo dos Macuxi, trançou, ele próprio, um cesto onde acomodava, confortavelmente, sua amada. Para onde ia, ela ia também. Havia entre eles uma cumplicidade amorosa invejável. Estavam juntos e não era arte do destino, que limitara os passos, mas não o horizonte.

Um dia, numa volta pela floresta, o casal atravessou sem querer um campo proibido. Havia guerra entre duas tribos. As lanças cortavam o céu e enchiam a mata de medo. Os dois se esconderam como puderam, mas foi em tudo em vão. Uma flecha perdida acabou com a vida da indiazinha, que, encolhida em sua cesta, era alvo fácil para os guerreiros.

O cesto de palha estava mais pesado que o habitual. O índio, na agonia de fugir do perigo, nem percebeu o que se sucedia. A morte já era uma presença em si, quando ele desceu a mulher. A tarde ia pelo fim quando tudo aconteceu. O silêncio da floresta, o pio dos pássaros noturnos, o grito de um ou outro bicho fazia com que o momento fosse mais dolorido. Era o fim do amor, que o silêncio das árvores e o começo da noite faziam pesar sobre a alma do índio Macuxi.

Apesar do peso, que para ele nem era, e da dificuldade que era viver com o cesto nas costas, o índio não poderia mais andar sem a sua amada, que agora era apenas a mudez a que se limitam os homens mortos. A vida, agora, já era uma ampla impossibilidade de ser, e nada mais havia para ele senão a morte.

Quando terminou de sepultar o corpo da sua companheira, o Macuxi olhou o rio e descobriu que todo sentido da vida se acabara ali. Para resolver o problema, reabriu a cova e se enterrou com ela. Um final quase shakespereano para um povo que jamais ouviu falar no autor de "Romeu e Julieta".

Passaram-se muitas luas, até que, no local onde o casal Macuxi estava enterrado, brotasse, talvez por artes da Natureza, ou quem sabe por um desejo de Tupã de tornar para sempre aquele amor, um pé de tajá. Mas não era um tajá qualquer, desses de beira de estrada. Era uma folhagem diferente, verde que só, e com um caule enorme. Mas o que fazia esse tajá bonito era uma folhinha pequena, que nasceu na parte inferior da outra.

Os índios olharam aquilo espantados e logo enxergaram na folha maior o índio, e na menor, a índia. A folha nasce toda enrolada e, num certo momento, lembra a genitália feminina. Eram os dois, com certeza.

Hoje, no Ver-o-Peso, esse tajá é conhecido como Tamba-Tajá. Não é muito fácil encontrar um pezinho por lá, porque gira em torno dele a lenda de que "quem tem um Tamba-Tajá, o seu amor não perderá". Só que, para ter um Tamba-Tajá, que assegure o amor, é preciso, ganhá-lo ou roubá-lo de um jardim. Comprar não funciona - como não funciona comprar um amor: ou se rouba ou se ganha. Para quem nunca viu o amor dos Macuxi tornado planta, tente senti-lo através da música de Waldemar Henrique, que é tão bonita quanto o amor da lenda.

João Carlos Pereira

Fonte: O LIBERAL (Belém/PA), 21 de abril de 1989, suplemento Liberal Aqui, pág. 02

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Ciganos no Brasil

 



OS CIGANOS NO BRASIL

O mais antigo documento conhecido, no Brasil, em que figura um cigano é um alvará de D. Sebastião, de 1574, que comuta em degredo a pena de galés de João de Torres.

Acredita-se que os ciganos começaram a vir para o Brasil nos séculos XVI, XVII e XVIII. Os primeiros eram degredados. Bahia e Minas Gerais (Congonhas do Campo) forma os primeiros centros de concentração ao tempo da colônia. Em 1726 e 1760, bandos de ciganos foram assinalados em São Paulo e, por decisão do senado da Câmara, expulsos da cidade.

O viajante inglês Henry Koster se refere a eles ("Travels in Brazil", 1816); Saint Hilaire também encontrou um grupo numeroso, radicado em Mogi-Guaçu, São Paulo ("Viagem às província de São Paulo e Santa Catarina", 1819).

Nos meados do século XIX já estavam incorporados à população e aceitos pela classe alta. Tomaram parte, a convite, nos festejos comemorativos do casamento do príncipe Dom Pedro com Dona Leopoldina, e receberam presentes das mãos de Dom João VI: patentes militares para os homens e jóias para as mulheres.

Alguns ciganos eram ricos, a esse tempo. Muitos eram até proprietários. Outros se tinham tornado oficiais de justiça (meirinhos). Em 1886 estavam reduzidos a 500 indivíduos no Rio de Janeiro, mas são hoje ainda numerosos em todo o País e distribuem-se segundo sua origem: os da Iugoslávia habitam de preferência o Rio Grande do Sul, Bahia, Pará e Pernambuco; os da Romênia, São Paulo; os da Grécia, o Rio de Janeiro.

Fonte: JORNAL DO COMÉRCIO (Manaus/AM), 07 de agosto de 1976, pág. 7

sábado, 7 de março de 2026

Lenda da origem do homem branco

 



As tribo Timbira (Jê), que habitam o sul do Maranhão, explicam a origem dos homens brancos com a seguinte lenda. Uma índia ficou grávida. Toda vez que ela ia tomar banho no rio, seu filho, que ainda não havia nascido, saía do seu ventre e brincava de se transformar em animais. Quando nasceu, o menino Aukê tornou-se temido pelos habitantes da aldeia, pois ainda novinho era capaz de se transformar em rapaz, em homem adulto e em velho. Com medo dos poderes sobrenaturais de Aukê, os indígenas resolveram matá-lo. Tentaram várias vezes, sem conseguir. Até que, um dia, fizeram uma grande fogueira e jogaram o menino dentro. Dias depois, quando voltaram ao local para recolher suas cinzas, encontraram uma casa grande de fazenda, com bois e outros animais domésticos. Aukê não havia morrido; tinha se transformado no primeiro homem civilizado.

Nas suas lendas e relatos, os indígenas revelam uma história de medo e de dominação, em relação aos europeus. Ao verem e ouviram, os homens brancos dispararem suas armas de fogo, muitos índios pensaram que eles fossem deuses enraivecidos.

Fonte: O LIBERAL (Belém/PA), 02 de abril de 1989, terceiro caderno, pág. 04

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Lenda das Três Flautas Munduruku



Mito mundurucu

Diz a lenda, conforme foi narrada pelo pesquisador alemão (Walter Kampf), que antigamente as mulheres mundurucu habitavam a casa dos homens, chamada ecsá. Por sua vez, os homens da tribo viviam alojados na casa grande, junto com as crianças e os velhos. Eles tinham de caçar e fazer todo o trabalho das mulheres, como trazer lenha para o fogo, carregar água e até colher raízes de mandioca para preparar a farinha. Chamadas Yanyubêri (a chefe da tribo), Taimbiru e Parawarê, as três mulheres haviam encontrado três flautas caroquê num rio de onde três peixinhos jejuas tiraram.

As mulheres começaram a tocar. Gostaram do som. Diariamente e às escondidas elas se dirigiam para lá. Desconfiados, os homens queriam saber "aonde vão sempre as mulheres?". Escondidos, eles espreitaram as mulheres e viram-nas tocando as flautas. Mas o que fazer "se não sabemos tocar", perguntaram-se. Dois irmãos mais novos de Yanyubêri, Mari-marabê e Mari-bumbê sugeriram que fossem tiradas as flautas das mulheres. "Experimentaram-nas". "Soam bem", disseram. Então tocaram. As mulheres entristecidas, acomodaram-se na casa grande e os homens voltaram ao ecsá".

Fonte: O LIBERAL (Belém/PA), 26 de fevereiro de 1989, caderno dois, pág. 02

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Saudação agressiva



Métraux chama de "salutation agressive" uma cerimônia de acolher o hóspede, a qual consiste em recebê-lo, por vezes, com demonstrações hostis que, no fundo, não são outra coisa senão expressões de cortesia. Conhecemos, na América do Sul, a saudação agressiva dos Tupinambás, dos Jivaros e de índios da Patagônia.

Uma variante dessa saudação são os "duelos de saudação" dos hospitaleiros esquimós, onde os dois parceiros realizam verdadeira peleja com bofetadas recíprocas, costume esse considerado resíduo da antiga aversão contra o intruso no distrito da caça.

Fonte: BALDUS, Herbert & WILLEMS, Emilio. Dicionário de Etnologia e Sociologia. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, pág. 201.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Coroados

 



Várias tribos de índios no Brasil, por exemplo, os Botocudos, Kaingang, Purí, Borôro, etc., receberam do povo o nome de Coroados, devido ao modo de cortar o cabelo, se bem que esse modo não fosse igual entre todas elas. Causou este termo grande confusão na etnografia brasileira, razão pela qual deve ser abandonada.

Fonte: BALDUS, Herbert & WILLEMS, Emilio. Dicionário de Etnologia e Sociologia. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, pág. 67.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Bugre



Da palavra francesa "bougre".

Segundo Affonso A. de Freitas esta denominação é "apodo, injúria, insulto, praga deprimente, termo da mais baixa linguagem do idioma francês, com que os companheiros de Villegaignon, vindos ao Brasil em 1555, mimoseavam,  por alcunha, os Tupinambás, em agradecimento à generosidade e leal desinteresse com que os que nossos infelizes aborígenes apoiavam as pretensões de domínio dos idealistas fundadores da França Antártica". O mesmo autor, cita a explicação do significado e a origem da palavra bougre dada por Littre em seu Dictionnaire de la langue française, edição de 1885.

O odioso ou desprezível vocábulo bugre, hoje ainda, em grandes partes do Brasil, muito corrente como designação popular dos índios, tendo passado daí a figurar até na nomenclatura, chegou a ser adotado pela etnografia internacional como denominação da tribo jê do município de Blumenau no Estado de Santa Catarina a qual, aliás, é chamada também de Aweikoma, Botocudo e Chocré.

 Fonte: BALDUS, Herbert & WILLEMS, Emilio. Dicionário de Etnologia e Sociologia. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, pág. 35.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Aimorés

 



No dizer de Von Martius, "o nome Aimurês pertence, provavelmente, à língua tupi, sendo derivado de Goay-murês (Goyai-myra, Guai-mura), isto é, os inimigos que vagueam e moram no sertão. Ouve-se também: Aimbires, Aimborés, Guay-Murûs. É nome já mencionado na Notícia do Brazil do ano de 1589".

Segundo Affonso A. de Freitas Aimoré significa em tupi "flauta ruim", sendo composto de aíua: ruim, contraído em ai, e de mboré: flauta. Observa o mesmo autor: "A denominação Aimoré, aplicada aos Botocudos, provém do hábito desse povo de, na impossibilidade de tocarem o boré, soprando-o pela boca, em consequência da deformidade do beiço inferior e da adaptação do batoque, fazerem-no pelas narinas, arrancando do instrumento sons que, por certo, não serão maviosos".

Os descendentes vivos dos Aimorés, mais tarde chamados de Botocudos, são os índios Krenak do rio Doce em Minas Gerais e Espírito Santo. Na obra aparecida em 1867 Von Martius anota a respeito do número dos Aimorés: "Foram calculados, na totalidade de seu território que se estende do rio Preto, afluente do norte do Paraíba, até o rio Patipe (de 22o a 15o. 30' de latitude sul) e ao oeste até a orla do mato da segunda, cordilheia (Serra do Espinhaço), em 12 a 14.000 cabeças, o que, talvez, seja exagerado; dizem que desse número, cerca de dois mil moram perto do rio Jequitinhonha.

Fonte: BALDUS, Herbert & WILLEMS, Emilio. Dicionário de Etnologia e Sociologia. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, pág. 20-21.

terça-feira, 4 de março de 2025

Jogo de Bola-de-Gude



GUERRA PEIXE

O jogo de bola-de-gude parece ser um divertimento infantil muito generalizado em todo o Brasil. Pelo menos em Pernambuco pode-se dizer que é praticado pela gurizada patrícia - embora naquele Estado do Nordeste eu não tivesse a feliz lembrança de observar as suas características. Como a cirandinha, a amarelinha, o papagaio e o balão, o jogo de bola-de-gude é um brinquedo dos mais vulgarizados entre nós. E não há garoto brasileiro que não tenha feito as suas briguinhas na rua por sua causa. Nem há homem que não tenha feito as suas briguinhas na rua por sua causa. Nem há homem que não se preze de, em moleque, ter sido um dos fervorosos adeptos do delicioso joguinho.

Em Petrópolis, Estado do Rio, o divertimento denomina-se, como em algumas regiões, jogo de bola-de-gude. Participam do brinquedo quanto meninos queiram, inclusive jogando de parceria, isto é, os adversários se intercalando, cada um com uma bola de vidro. O jogo é realizado tendo por campo o chão de terra, sobre o qual se fez um único orifício denominado búlica. Será corruptela de "bula", no sentido de "habilitação"? Possivelmente, pois só depois de conseguir atingi-la é que o jogador fica apto, com movimentos mais livres, para atacar o adversário. Após entrar na búlica é que, realmente, tem início o jogo. Nenhum participante pode matar a bola do companheiro sem que antes alcance a búlica. A uma distância estabelecida da búlica - geralmente cinco metros - ficam os garotos. A preferência é jogar por último, pois se o primeiro participante conseguir boa posição, dificilmente alcançável pelos adversários, estes não jogarão suas bolas em direção do orifício. Antes, preferirão arreá-las onde eles se encontram, a cinco metros da búlica. E aquele que terá que procurar matar uma ou mais bolas dos concorrentes partindo dessa distância. Mas o primeiro pode achar conveniente não se afastar do orifício, onde forçosamente as bolas dos companheiros poderão se colocar por perto, numa jogado mal feita ou de azar. Nestas condições não será difícil para o primeiro jogador matar as bolas dos amigos - ainda mais que as matanças sucessivas, se as posições o favorecerem, poderão fazer com que as distâncias demasiadas ou perigosas, de umas bolas em relação às outras, sejam eliminadas. A cada falha de lance o jogador colocado mais próximo à búlica tem ocasião de preparar o seu jogo.

Acrescente-se que matar uma bola é vê-la deslocada do seu lugar, pelo contacto proposital da bola jogada por quem tem a vez de atirá-la. Isto é, o jogador tem de, com a sua própria bola, mover a bola do companheiro. A palavra tem o mesmo sentido em São Paulo e Pernambuco. Matar mais de uma bola em um só lance - naturalmente, quando há mais de duas bolas em jogo - é considerado erro.

Marráio parece ser corruptela de "marralho", do verbo "marralhar", que significa insistir. Ou melhor, o jogador "marralha", insiste em ser o último a jogar, em direção da Búlica. "Marralho", ou "eu marralho" dever-se-ia dizer. O termo Marráio é também vulgarizado em Barra Mansa, Estado do Rio.

"Cabide" possivelmente seja deformação de "cabida", no sentido de aceitação. O jogador pedir ao companheiro ou aos companheiros para ler "cabida" e solicitar que o deixem jogar depois do "último" e do "marraio"...

O jogo realizado entre companheiros leais é feito com bolas de tamanhos e pesos iguais ou aproximados. Quando realizados por criaturas pouco leais, tem sempre bolas de tamanhos e pesos diferentes. Todavia, os pesos e os volumes nem sempre são produtos da má fé, dependendo, mesmo, das bolas que cada um possui como propriedade. A bola muito apreciada em Petrópolis é aquela feita do caroço do coco-de-catarro, o caroço da macaíba (Acocomia sclerocarp, Mart.), também conhecida por macaúba, macajá e bocaiúva. A bola é pequena e leve. É mais difícil de ser atingida pela bola do adversário, por ser minúscula, e como é leve oferece facilidade para ser atirada à grande distância. Isto é, favorece a técnica e os numerosos truques... Há uma espécie de bola de vidro, de tamanho médio, colorida e que muito agrada os jogadores: é a bola que possui três ou mais cores diferentes, formando desenhos diversos em forma ondulada, Essa bola, tão apreciada, tem o curioso nome de "Olho-de-boi".

Fonte: A GAZETA (São Paulo/SP), 04 de Outubro de 1961, pág. 06

sábado, 19 de outubro de 2024

Os antigos vendedores ambulantes do Rio de Janeiro

 



Vendedores ambulantes: uma tradição que desaparece da Cidade Maravilhosa. Substituídos pelos sofisticados "camelôs", os vendedores ambulantes, tôda uma gama de tipos populares, estão cada dia se afastando mais do centro da cidade, expulsos que são pelo progresso. Nos subúrbios e, mesmo em alguns bairros, êstes vendedores ainda nos fazem recordar com seus pregões, o nosso tempo de calças curtas.

Vassoureiro, garrafeiro, sorveteiro, funileiro, o homem do periquito e tantos outros, faziam e ainda fazem de sua profissão a alegria de muita gente. Seus pregões, suas melodias de vendas, eram e são tão simples como êles, mas seu efeito publicitário persiste por muito: quem não sente desejo de comprar sorvete, ao ouvir um dos remanescentes sorveteiros, a anunciar em versos de pé quebrado, o "geladinho" de côco e de abacaxi?

Até o final da última guerra, os vendedores ambulantes dominavam a Cidade Maravilhosa.

Era o homem que comprava garrafas e jornais, o que vendia vassouras, o que consertava panelas, o que, com seu periquito verde, vendia a sorte para as mocinhas desejosas de encontrar príncipes encantados. Havia sempre quem fôsse a sua porta para vender ou comprar alguma coisa. Mas os tempos passaram-se. O progresso caminhou mais rápido que a tradição, e foi aos poucos expulsando êstes tipos. Muitos se retiraram para os bairros e subúrbios mais longínquos, onde até hoje se pode ouvir os seus pregões; outros, preferiram se estabelecer.

NACIONALIDADES

A nacionalidade, também influi na especialidade. Peixeiro, por exemplo, só italiano; garrafeiro, só portuguêses; sorveteiro um nacional, um baiano que saiba bem preparar um sorvete de côco.

É interessante observar como ainda hoje se mantém certas tradições de nacionalidade entre os vendedores ambulantes. O amolador de facas, que empurra o cavalete com a pedra de amolar, é sempre um italiano; o jornaleiro, também. Os portuguêses preferem atividades como vender frutas e legumes, gêlo, flôres e plantas.

Os judeus dão sua preferência ao comércio de venda e compra de roupas. Quem ainda não ouviu o clássico pregão do homem que compra tudo. Êste ramo pertence, sem dúvida alguma, aos judeus. E ninguém tenta roubar-lhes o campo. Mesmo porque não saberia esta difícil arte de comprar sapatos velhos para depois vendê-los.

Mas também ninguém, que não fôsse brasileiro, teria a ousadia de vender quitutes baianos ou sorvetes ou amendoim torrado.

Portanto, nesta questão de comércio ambulante, não há perigo de concorrência. Há o lugar para todos, desde que o "rapa" permita.

PREGÕES

Os pregões dos vendedores ambulantes é uma outra faceta desta tradição. Mesmo sem conhecer o português, muitos foram os vendedores ambulantes que nos legaram belíssimos pregões que fariam inveja a muito criadores de "jingles". Quem não se lembra dos vendedores de laranjas, quando se vendia a fruta ao cento por cinco ou dez mil reis. O caminhão transbordando de laranjas, parava numa esquina. O vendedor, em plenos pulmões, anunciava a sua presença: "Olha a laranja, dona Teresa. Traga a sacola pois vou embora". Na verdade, não havia rima, entretanto, sabia musicar os seus "jingles".

NAS MÚSICAS DE CARNAVAL

Os vendedores ambulantes também já serviram de temas a muitas músicas de Carnaval. Por volta de 1937 ou 1938, Dircinha Batista gravou uma marchinha que foi grande sucesso: "O Periquitinho Verde". Não há dúvida que era uma homenagem ao homem do realejo que depois de tocar alguma velha música, abria a gaiola do periquito (algumes vêzes papagaio), sob a qual havia uma gaveta com papéis dobrados. Em troca de um pagamento, o homem do realejo batia com o dedo na cabeça do pássaro e êste, mais do que rápido, tirava a sorte. Era o homem que vendia um pouco de sonho. Hoje ainda existem alguns, espalhados por êste grande Rio de Janeiro.

O PROGRESSO

Mas o progresso é, realmente, o grande inimigo dos vendedores ambulantes, pior ainda do que a fiscalização (o "rapa"). O geleiro, por exemplo, que antes passeava pela cidade com a sua bicicleta, já não tem muito o que fazer; as geladeiras elétricas estão lhe tirando o pão de cada dia. Os sorveteiros não podem concorrer com os das carrocinhas. A matéria plástica suplantou o artezanato de flôres de papel crepon e os seus vendedores não mais encontram com facilidade, compradores para as suas mercadorias. E assim, aos poucos, vão cedendo o seu lugar. Mas para quem os ouviu e viu, ficou a grata lembrança de seu tipo, de seu pregão.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ (Rio de Janeiro/RJ), 20 de Janeiro de 1960, sem página definida


quarta-feira, 16 de outubro de 2024

O Regatão na Amazônia

 



O comércio de Santarém, como o de tôda a Amazonia, apresenta uma figura singular, o "regatão", comerciante que transporta suas mercadorias em batelões ou lanchas. Atualmente, é possível distinguir pelo menos três tipos de "regatões", o pequeno, o médio e o grande. O pequeno é o mascate, figura tradicional, o médio já é evoluído e procura manter transações regulares, com os habitantes do município; os grandes "regatões" estabelecem-se de preferência numa bôca de rio, dondo passam a irradiar o seu comércio, criando ali uma espécie de entreposto, mantido com caipiras próprios ou com créditos e "aviamento" feito por "aviadores" de Manaus e de Belém.

Fonte: O JORNAL (Rio de Janeiro/RJ), 08 de Março de 1959, pág. 06

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Pelagens Bovinas


(...)

Bem. Começamos falando de boi. Tão importante como o homem. Mais velho que êste, mais educado que êste, porque docil e domesticável. Até a música do carro de bois o hipnotiza. Ele vai no abôio, ao ritmo e na melódica do berrante, ou do carreiro.

Por isso é que abistelado tem estrêlas ou manchas brancas; albardado, não malhado, nem sardo, mas tendo no lombo mazela de côr diferente da do resto do pêlo; almarado, que tem em volta dos olhos uma circunferência de côr diversa da do resto da cabeça; alvação, branco, sem manchas; araçá (bras.), amarelo mascarado, ou matizado de prêto; barroso (bras.) de pêlo branco-amarelado; bisco, que tem uma haste mais baixa que a outra; bocalvo, com focinho branco em cabeça escura; borralho, côr de cinza; botineiro, cujo pêlo das pernas difere do resto do côrpo; brasino, de pêlo avermelhado com listras pretas ou muito escuras; braúna (bras.) ou caraúno (bras.) muito prêto; broco, que tem um ou os chifres pequenos e cheios de rugas; cabano, que tem os galhos inclinados para baixo; caldeiro, de chifres um tantos baixos e menos unidos que os das gaiolas; cambraia (bras.), inteiramente branco; camurça, pardo-vermelho; capirote, de cabeça e pescoço da mesma côr e pintas diferentes no corpo; capuchinho, que desde a fronte à parte superior do pescoço, tem côr diferente da do resto do corpo; cardim, branco e preto; chita, branco e vermelho; chamurro, novilho castrado, que fica tendo a dupla aparência de boi e touro; chumbado, branco, vermelho ou castanho chumbado de prêto; churriado (bras.) que tem extensas listras brancas sôbre o pelame prêto ou vermelho; cornalão, de chifres muito grandes; cornicurto, de cornos curtos; cornífero ou cornígero, que tem cornos; cornilargo, de pontas muito afastadas uma da outra; cornudo, que tem cornos; corombó, de chifres pequenos ou quebrados; cubeto, que possui hastes muito caídas ou quase juntas das pontas; cumbuco (bras.) de chifres curvos, com as pontas voltadas uma para a outra; ensabanado, de pêlo todo branco; escardado, designativo dos chifres, quando se desfiam, batendo de encontro a objetos resistentes; espácio, de chifres muitos abertos; estorninho, zaino, com pequenas manchas brancas; fubá (bras.), de pêlo branco puxando a azul; fumaça (bras.) de pêlo vermelho tirante a prêto; fusco, de pêlo escuro, prêto; gaiola, de chifres em forma de meia lua, e muito próximos nas pontas; gravito, que tem armas direitas e quase verticais; hosco, de côr escura, com o lombo testado; jaguané (bras.), que tem branco o fio do lombo, prêto ou vermelho o lado das costelas e de ordinário branca a barriga; laranjo, de côr de laranja; listão o que tem no dorso uma listra de côr diferente da do resto do corpo; lobuno, de pêlo escuro e um tanto acinzentado como o do lôbo; lombardo ou lompardo, negro com o lombo acastanhado; machacá (bras.), mal castrado; malacara (bras.), de testa branca com listra branca do focinho ao alto da cabeça; mal-armado, de chifres defeituosos; malesso, que tem mau sangue; malhado ou lavrado, listrado, betado de prêto e branco, ou manchado ou raiado de castanho claro e escuro; mascarado, de cara branca, ou que tem uma grande malha na cara; meano, que tem branco o pêlo dos órgãos reprodutores; meirinho, diz-se do gado que no verão pasta nas montanhas, e no inverno, nas planícies; melanuro, que tem cauda preta; mocho, sem chifres; mogão, de chifres sem ponta; moico (reg.) privado de um dos chifres ou de ambos; moreno, menos avermelhado que retinto; mouro, prêto salpicado de pintinhas brancas; nambigu (bras.), o que tem orelhas fulvas ou amarelas; nevado, que algumas manchas brancas; nilo (bras.) com a cabeça metade dela branca e o resto do corpo de outra côr; oveiro, de malhas no corpo; pampa, de cara branca, ou malhado, no corpo inteiro; parrado, de orelhas caídas; pinheiro, de chifres direitos; pintarroxo, pintado de castanho-claro; pombo, branco ou camurça, com olhos brancos; punaré (bras.) amarelado; rabicho, sem pêlo na extremidade da cauda; retinto, que tem côr carregada ou pêlo semelhante ao dos cavalos castanhos; rosado, branco, mesclado de amarelo, vermelho ou prêto; rouxinol, da côr do pássaro de igual nome; salino, com o corpo salpicado de pintas brancas, pretas ou vermelhas; salmilhado (bras.), salpicado de branco e amarelo; silveiro, com malha branca na testa, tendo escura a cabeça; torrado, que têm o pêlo negro do meio para baixo; taruno, mal castrado e que ainda procura as vacas; troncho, a que falta uma orelha; vareiro, que tem o corpo mais comprido do que é vulgar; vinagre, de pêlo castanho claro, tirante a rubro.

JOÃO CHIARINI

Fonte: JORNAL DE PIRACICABA (Piracicaba/SP), 01 de Outubro de 1964, 1o. Caderno, pág. 01

sábado, 12 de outubro de 2024

Gado Bagual



Como na maior parte das regiões de população escassa e abundantes pastagens naturais, a criação de gado em Mato Grosso é quase que totalmente extensiva.

Os campos são enormes e nem sempre limpos. Há zonas de cerrado e cerradão onde, com a falta de costeiro, o gado torna-se arisco, ligeiro, e por fim bagual ou alçado.

Bagual é o nome que se dá ao gado bravio, que já não obedece mais ao homem - não dá rodeio. Cria-se à lei da natureza. O sal, encontra-se nos barreiros. Procuramos nestas linhas descrever uma batida de gado bagual, como é feita "em baixo da serra", região variadíssima, que compreende os contra-fortes e fraldas das serras de Amambahy e dos Baús, até se perderem nos Pantanais. Nesse serviço o peão matogrossense, quase desconhecido, exibe toda a sua perícia de campeiro.

O bagual em lugares onde é perseguido, passa os dia na crôa dos cerradões e nas matas; só sai de noite para beber água e pastar nas cabeceiras. Assim, os bagualeiros escolhem as noites para trabalhar, de preferência as de luar.

A comitiva nesse serviço nunca é muito numerosa. Compõe-se geralmente de cinco a seis peões. O encarregado escolhe um retiro ou faz um rancho para centro de suas operações. O crepúsculo é a hora de sair para o campo, seguindo os peões em fila, o mais prático na frente; vão de cabeceira no passo do matungo, contra o vento e num silêncio quase fúnebre.

Avistam afinal u'a manada que está "branqueando" a cabeceira; param, consultam-se, discutem e deliberam à meia voz o que vão fazer. Aproximam-se agora no passo do animal e alerta sempre. Quando as rezes dão sinal de ter percebido qualquer coisa, levantando alto a cabeça, a peonada dá uma "arrancada dura" para logo alcançá-las. A orilha do cambuaval, impenetrável ao cavalheiro, fica às vezes a menos de 300 metros.

Daí em diante cada um trabalha para si; tem que alcançar a rez que escolheu, ou que estiver a geito, laçando-a e maneando-a, o que não se faz sem agilidade ou presteza. "É moço! Sou índio que sahio em cima de qualquer tucura, orelhano, lasso e, quando ele amontôa no estirão, boleio a perna de cima do arreio, aperto e já tô, maneando". É assim: quando a rez cai no estirão, pulam do pingo, que fica chinchando, e apertam-na antes de ter tempo de levantar. E dizer, seguram o pé que está por cima, ou o rabo passado por uma das pernas. Maneiam agora, amarrando os dois pés de encruzado, os dois pés a uma das mãos, ou ainda um pé ou u'a mão encruzados. Para isso trazem um peador na cintura, amarrado com um nó fácil. Em seguida reunem-se todos no lugar de partida, de onde ajuio o gado. Algum extraviado toca a capoeira para orientar-se. É um som que se produz assoprando com força num vazio feito com as duas mãos. Ouvindo-o os companheiros respondem, dando assim uma direção ao perdido.

Reunidos, amarram as rezes pegadas a qualquer árvore forte mais próxima - é o tambo. A operação chama-se tambear e consiste em amarrar a rez ao pau por meio de um maneador. Dão umas quatro ou cinco voltas de maneador em roda do pescoço ou chifres do bagual e outras tantas em volta do tambo, passando pelas primeiras. As voltas devem estar todas certas. Durante a noite podem dar mais de uma batida e muitos peões não se satisfazem em lassar uma rez só.

De dia uma partida de bois de carros amestrados, vai de lugar em lugar, onde estiverem tambeados os baguais, que são ajojados pelos chifres ao pescoço do boi manso. Costuma-se aparar as aspas dos baguais para que não machuquem seus condutores.

Vão assim, meio contrariados, até a fazenda ou rancho onde são carneados para o consumo ou para fazer charque. O bagual amansa dificilmente.

FREDERICO LANE

Fonte: SEMANA NACIONAL (São Paulo/SP), edição 009, março de 1956, pág. 60.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Um caso de escravização indígena no Império do Brasil



De uma carta escripta do Amazonas extrahio a
Folha Nova os seguintes tópicos:

"No princípio de cada enchente do rio Negro, sahem, annualmente, cerca de duzentas canôas em que os seringueiros mandam buscar escravos.

N'essas canôas vai grande quantidade de missangas, agoardente, etc.

Quando chegam acima da cachoeira negociam com os tuchauas, que, em troca, lhes entregam os prisioneiros feitos em guerra com as tribus inimigas.

É calculado de setecentos a mil o numero dos indios que, annualmente, descem o rio, amarrados nos fundos das canôas.

É uma verdadeira reproducção das scenas que antigamente se passavam na costa africana."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS),  18 de Junho de 1884, pág. 01, col. 03

sábado, 3 de junho de 2023

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Fitoterapia indígena no Brasil Colonial



Nota: os grifos são nossos.

Há milhares de anos, o homem primitivo, em consequência da transformação do seu estilo de vida - passando de colhedor a caçador - , precisou enfrentar acidentes, moléstias e outras perturbações corporais. Para arcar com esses novos desafios, precisou atingir um estágio mínimo de evolução cultural em conjunto com seu avanço na escala evolutiva biológica, estágio este que o capacitaria a somar a sua experiência consciente ao seu instinto animal. Assim, não só aprendeu a reconhecer plantas capazes de ajudar feridas, curar doenças e aliviar a dor, mas também - faculdade essencial e igualmente importante - a distinguir essas plantas daquelas que podiam lhe ser nocivas. São esses conhecimentos empíricos, incorporados no herbalismo e transmitidos de geração em geração, que caracterizam as práticas médicas chamadas primitivas.

Como todos os povos nativos dos trópicos, os brasilíndios souberam beneficiar-se da enorme diversidade da flora e fauna das suas terras. Os seus vastos conhecimentos da vida vegetal oriundos da sua familiaridade com as plantas capacitaram-nos a utilizar-se daquelas que possuíam propriedades medicinais.

Seus conhecimentos, passados de geração em geração, possivelmente não teriam nos alcançado não fossem os relatos de aventureiros e colonizadores. Embora o conteúdo de seus relatos difira em certas particularidades, viajantes e cronistas da época são unânimes em sua admiração pelos vegetais usados nestas terras para fins medicinais. Nem sempre as indicações terapêuticas das plantas mantiveram-se inalteradas ao longo do tempo. Dois conhecidos exemplos são o guaraná (Paullinia cupana Kunth), originalmente prescrito para combate às disenterias, e o maracujá (Passiflora spp.) para febre.

Jean de Léry (1534-1611) em 1563 descreveu o uso do hiyuaré (Hinuraé) - possivelmente Pradosia glycyphloea (Casar.) - empregado pelos indígenas contra o pian. Ele também menciona o petyn, posteriormente identificado como tabaco (Nicotiana tabacum e outras da família das solanáceas), que permitia, segundo ele, mitigar a fome em períodos de guerra e escassez alimentar, além de - ecoando a medicina galênica - "destilar os humores [...] do cérebro".

Em vista das virtudes que lhe são atribuídas goza essa erva de grande estima entre os selvagens; colhem-na e a preparam em pequenas porções que secam em casa. Tomam depois quatro ou cinco folhas que enrolam em uma palma como se fosse um cartucho de especiaria; chegam ao fogo a ponta mais fina, acendem e põem a outra na boca para tirar a fumaça que apesar de solta de novo pelas ventas e pela boca os sustenta a ponto de passarem três a quatro dias sem se alimentar, principalmente na guerra ou quando a necessidade os obriga à abstinência. Mas os selvagens também usam o petyn para destilar os humores supérfluos do cérebro, razão pela qual nunca se encontram sem o respectivo cartucho pendurado no pescoço. Enquanto conversam costumam sorver a fumaça, soltando-a pelas ventas e lábios como já disse, o que lembra um turíbulo. O cheiro não é desagradável. Não vi porém mulheres usá-la e não sei qual seja a razão disso mas direi que experimentei a fumaça do petyn e verifiquei que ela sacia e mitiga a fome.

Para o "bicho-do-pé" (tungíase), os indígenas untavam a lesão com o óleo de uma fruta chamada hibourouhu (Myristica L.). Thevet (1502-1590), monge franciscano que permaneceu em terras brasileiras entre 1555 e 1556, em seu livro Singularidades da França Antarctica a que outros chamam de América, considerava esse óleo próprio para a cura de feridas e úlceras, provando ele mesmo sua ação terapêutica..

Pero de Magalhães Gândavo (?-1590), na bela obra publicada em 1567, História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, foi o primeiro a descrever o óleo de copaíba (Copaifera sp.) como analgésico e cicatrizante eficaz. O seu sucesso terapêutico correu mundo e, durante o século XVII, chegou a ser, ao lado do cravo, anil e tabaco, um dos principais produtos de exportação das províncias do Grão-Pará e Maranhão.

Contudo, é a admirável obra Tratado descritivo do Brasil de 1587, de Gabriel Soares de Souza (1540-1594), que se perpetuou em verdadeiro manual de terapêutica indígena, Recomendava carimã (farinha de mandioca seca), misturada à água, como antídoto de envenenamentos e vermífugo; milho (Zea mays L.) cozido, para tratar doentes com boubas; sumo de caju (Anacardium occidentale L.), pela manhã, em jejum, para a "conservação do estômago" e higiene da boca; emplastros de almécega (Protium heptaphyllum March.; P. brasiliense [Spreng.] Engl.), muitas variantes e subespécies; várias outras espécies para "soldar carne quebrada"; amêndoas-de-pino (figueira-do-inferno - Datura stramonium L.) para purgas, cólicas; araçá (Psidium cattleyanum Sabine e várias da família das mirtáceas) para "doentes de câmaras" (diarreia); tinta de jenipapo (Genipa americana L.) para secar boubas; jaborandi (Philocarpus jaborandi) para feridas na boca; cajá (Spondia lutea L.) para febre e camará (Lantana spinosa L. ex Le Cointe) para sarna.

Frei Vicente do Salvador (1564-1635), em sua obra História do Brasil: 1500-1627, fez ampla descrição da vegetação brasileira. Conservando algumas vezes o seu nome indígena e rebatizando outras em português, indicava o uso de algumas plantas destacando, por exemplo, o poder terapêutico e cicatrizante da cabriúva (Myrocarpus frondosus Allemão, da família das leguminosas, subfam. Papilionoídea), e das folhas da jurubeba (Solanum paniculatum L.). Mencionava ainda, entre outras, a erva fedegosa (feiticeira - Cassia occidentalis L. e outras), a salsaparrilha (Smilax spp.), o andaz (Joannesia princeps Vell. e outras euforbiáceas), como úteis no combate a uma grande variedade de doenças.

Entretanto, a planta medicinal que mais interessou os europeus foi, sem dúvida, a ipecacuanha (Psychotria emetica L.f., Chephaelis ipecacuanha [Brot.] A.Rich., e outras espécies) - palavra originária do tupi i-pe-kaa-guéne, que significa "planta de doente de estrada" - , usada como purgativo e antídoto para qualquer veneno. A indicação medicamentosa nativa é inerente à própria lenda transmitida por inúmeras gerações de índios aos seus descendentes, e exemplifica como uma atenta observação da natureza era capaz de fornecer informações imprescindíveis aos que cuidavam da saúde tribal. Contavam os anciães que a natureza emética da planta havia lhes sido ensinada pela irara, animal que tinha por hábito alimentar-se das raízes e folhas de ipecacuanha, sempre que tivesse bebido água malsã de um pântano, ou alguma água impura, Desse modo, tomaram para si a lição que o animal lhes dera, passando a fazer uso da benfazeja planta sempre que necessário.

Fonte: GURGEL, Cristina. Doenças e curas: o Brasil nos primeiros séculos. São Paulo: Contexto, pág. 61-64.

sábado, 22 de abril de 2023

A procedência étnica dos escravizados no Rio de Janeiro do século XIX

 



Em comparação com esses termos gerais que apontavam para um continente inteiro, os viajantes oferecem pistas mais específicas para a identificação dos africanos no Rio. Em alguns casos, registraram os nomes exatos dos grupos étnicos, tais como os libolos de Angola, mas, em geral, repetiam apenas os nomes usados no Rio para as nações ou portos africanos que ouviam de seus informantes cariocas. São úteis, porém, porque apontam a existência de alguns grupos étnicos específicos e identificam como os cariocas percebiam esses grupos antes de 1850.

Embora os estrangeiros que registraram as origens africanas no Rio estivessem muitas vezes enganados, alguns eram bastante precisos. Carl Seidler escreveu que a maioria dos escravos do Rio vinha de Cabinda, Congo, Benguela e Moçambique, ao passo que Armitage foi mais completo. A esses quatro grupos acrescentou os angolas, caçanjes, quilimanes, inhambanes e uma nota dizendo que no grupo cabinda estava incluindo as "várias tribos" dos congos até Angola. Schlichthorst, porém, omitiu cabinda, benguela, quilimane e inhambane de sua lista de congo, angola, cachange (caçanje), moçambique e mombaça. Listas ainda mais abrangentes aparecem em um relato francês e em um outro alemão. Segundo o viajante francês Dabadie, as principais nações do Rio eram mina, cabinda, congo, angola, moange, benguela, mozambique, mucena (sena), quilimane e inhambane. De particular interesse é a importância que ele atribui às nações da África Oriental, incluindo a região de Rio de Sena de Moçambique. Além desses grupos, mas excluindo moange, mucena e moçambique, o alemão Weech listou os anjicos, monjolas, gabãos, capundas, rebolas, mombassas e cajenges.

Por fim, o historiador Melo Morais Filho reproduziu uma tradição da cidade do Rio pela qual sete nações compareciam à coroação de um rei ou rainha africana. Embora não incluísse os cabindas, registrou as sete nações como sendo de minas, congo, cassanges, cabundás, rebolos, benguelas e moçambiques.

Tendo em vista que esses nomes eram tão comuns no século XIX, não é surpresa alguma descobri-los preservados na Umbanda, uma religião afro-brasileira moderna. Ao agrupar os orixás na sétima linha, ou africana, os umbandistas dividem esses espíritos em sete grupos, cada um com seu chefe: Povo da Costa, Congo, Angola, Benguela, Moçambique, Loanda e Guiné. Em outras palavras, os nomes das nações do século XIX tornaram-se agora nomes de falanges de espíritos.

Fonte: KARASCH, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). (trad. Pedro Maia Soares). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pág. 43-44.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...