terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A primeira epidemia de febre amarela no Brasil

 


Quando os conquistadores chegaram às Antilhas, entraram em contato, conforme acabamos de relatar, com uma doença nova para eles: a febre amarela. 

Todavia o mesmo não aconteceu com os colonizadores que vieram para o Brasil. Nas crônicas da época, não se encontram referências a qualquer doença que nos permita identificar como sendo o mal amarílico. É preciso ressaltar ainda, que a moléstia, com sua dramática sintomatologia, dificilmente teria passado despercebida aos historiadores se ela acometesse os indígenas ou os primeiros colonizadores portugueses. 

M. Kinlay, citado na Cronologia de Béranger-Féraud, referiu-se, em 1852, à ocorrência de febre-amarela no Brasil em 1640. Entretanto relatou Kinlay apenas que, de acordo com os documentos consulares de Pernambuco, podia-se admitir que a febre-amarela reinava no Recife naquele ano. 

Esta referência e outras, também igualmente vagas, não passam de meras suspeitas, sem qualquer fundamento que nos permita confirma-las ou que nos autorize a considerar aquelas supostas ocorrências como os primeiros casos observados no País. 

Aliás, Ferreira da Rosa nos deixou uma observação, pela qual podemos deduzir da improcedência daquelas informações, quando, em 1691, declarou: “Em Pernambuco, há sete anos assiste-se uma grave doença, a qual nunca jamais nele se viu”. 

Assim, devemos admitir que a primeira epidemia de febre-amarela conhecida no Brasil, foi a que irrompeu no Recife, no ano de 1685. 

O nome e a procedência do barco que trouxe a febre-amarela para o Recife não ficaram esclarecidos. A versão de que foi a nau francesa “Oriflamme” procedente do Golfo de Sião (Ásia) não é exata, pois nesta viagem somente chegou ao Recife em 1690, isto é, cinco anos após a eclosão da epidemia, dali zarpando para Martinica. Provém desta versão o nome de “mal do Sião”, com que durante muito tempo a doença foi conhecida, embora esta febre fosse desconhecida no Sião. 

Nessa viagem para as Antilhas, segundo o padre Jean Baptiste Labat, o “Oriflamme” transportou a febre-amarela do Recife para aquela ilha. 

Henry Carter admitiu a possibilidade de a febre-amarela haver sido trazida das ilhas de Cabo Verde (África) pela frota de Gomes Freire de Andrade. Esta frota, que na sua rota para o Brasil perdeu muitos homens, chegou ao Maranhão em 1685, seguindo mais tarde para o Recife. Todavia Eustáquio Duarte, em estudo que fez baseando-se nos depoimentos existentes, em vista do baixo percentual de mortalidade e da duração do morbo, relativamente longa, concluiu que estes fatos por si só afastam qualquer hipótese de identificação da doença com a febre-amarela. 

Outra suposição é que a infecção amarílica tenha sido trazida para o Recife por um barco vindo da África. 

Tão convencidos estavam todos da sua procedência africana que o Governador de Pernambuco, Marquês de Montebelo, quando recomendou todas as cautelas com as pessoas acometidas dos males em terra ou a bordo, o fez, sobretudo, para que esta doença não se perpetuasse entre nós, “e não se constituíssem as povoações do Recife e Olinda um São Tomé”. A procedência africana da infecção também não merece ser aceita por falta de fundamentos. O francês Barbot, que esteve na ilha de São Tomé entre 1684 e 1686, escreveu a respeito das doenças que grassavam naquela ilha, porém não se referiu a nenhuma que se parecesse com a febre-amarela. A hipótese mais plausível é a de que o barco tenha vindo de São Tomé (África) com escala em São Domingos, nas Antilhas, onde grassava a enfermidade, e de onde foi trazida para o Brasil. 

Ao contrário do que geralmente sucede, não existem referências sobre a doença em algum barco antes da eclosão da epidemia, ou que tenham desembarcado no porto tripulantes ou passageiros doentes. Quando a encontramos já estava na zona portuária, fazendo a sua primeira vítima na pessoa de um empregado que conferia a mercadoria importada. De fato, contam as crônicas da época que, a 28 de novembro de 1685, no Recife, um tanoeiro ao abrir uma das barricas de carne, já podre, procedentes de São Tomé, adoeceu subitamente, passando a doença a quatro ou cinco pessoas que moravam na mesma casa, na rua da Praia. 

Podemos deduzir da violência da epidemia, quando Miguel Dias Pimenta nos relata que, de 25 de dezembro até 10 de janeiro, foram enterrados “no Arrecife e em Santo Antônio perto de seiscentas pessoas todos homens brancos, uma dezena de mulatos, mui poucas mulheres, poucos negros e menos meninos”. Em seguida, diz ele, o surto amainou, atingindo preferentemente as pessoas que de fora chegavam à cidade. Chamavam-no de males, porque parecia incluir em si todos os males. 

Morava então em Lisboa o médico João Ferreira da Rosa (nascido em Gafete, Beira-Baixa) e formado em 1684 pela Universidade de Coimbra. Tendo conhecimento da epidemia que grassava no Brasil, fez uma petição ao rei de Portugal, D. Pedro II, em 19 de março de 1687, para que o autorizasse a servir na sua profissão, na Capitania de Pernambuco. 

O único médico que clinicava no Recife havia falecido nos primeiros dias da epidemia, vitimado por ela. 

O pedido de Ferreira da Rosa foi deferido e ele recebeu a comenda de Santiago, uma pensão de vinte mil réis e uma ajuda de custo de cinquenta mil réis, tudo sob a condição de servir por seis anos. 

Chegando ao Brasil foi morar em Olinda, dedicando-se ao combate à febre-amarela e ao tratamento dos enfermos. 

A situação era de tal gravidade que, conforme ele registrou, quando alguém chamava o cirurgião, logo este perguntava se o enfermo botava ferrugem pela boca, e se lhe dissesse que sim, se escusava de visita-lo, e mandava preparar seu enterro por não lhe considerar esperança de vida. 

O Marquês de Montebelo, que chegara ao Recife a 1 de junho de 1690, adoeceu dez dias após seu desembarque, quando de um dos recrudescimentos que de ordinário se seguiam à chegada da frota. A princípio esteve sob os cuidados do médico Domingos Pereira da Gama que viera com ele de Portugal. Porém o doente piorava e, no terceiro ou quarto dia da moléstia, o prognóstico era tremendo: tinha vômitos negros e oligúria. Se os sintomas persistissem por mais vinte e quatro horas o Marquês morreria. Talvez porque faltasse ao médico recém chegado o tirocínio da “doença da terra”, lembraram-se de chamar Ferreira da Rosa que há uns três anos lidava com os males. 

Dessa forma ocorreu a aproximação entre o Governador e o médico. 

Não guardou segredo a respeito do seu cliente. Contou que já haviam aplicado no Marquês muitos remédios de sangrias, purgas, cordiais, clisteres. A sede era tanta que desejava ter mais perto a Serra da Estrêla (vinho tinto português) para mitigar a sua secura. Tinha vômitos e não só lançava os alimentos, mas os cordiais e todo o gênero de alexifármacos de qualquer modo recebidos; vomitava humores atrabiliários. Urinava com dificuldade, “com ardor das águas que por pingas destilava”. E “soluçando e arrotando sempre, se achava tão inquieto como se pode conjeturar de um doente assistido de tantos sintomas e tão graves”. 

Deu tratos à mente e concluiu que o humor do estômago de seu nobre paciente estava frio e cru. O remédio teria de ser de calor intenso contra a falta de calor natural, para que melhor se pudesse “cozer e regular” a natureza do humor. E por isso receitou “água de escorcioneira com quanta quentura pudesse sofrer-se, desfazendo-se nela confeição de alquermes”. 

Apesar dos protestos do Marquês que preferia água de neve, o medicamento lhe foi ministrado, inclusive à noite, e no dia seguinte ele apresentou melhoras tomando o Santíssimo já sem nenhum receio de vômito. 

O Marquês sarou apesar do tratamento. Nos encontros havidos posteriormente entre o Governador e o médico ficou assentado, em 1690, que este apresentaria a relação das providências a tomar para a prevenção da doença. Daí resultou, no ano seguinte, a primeira campanha sanitária posta em prática, oficialmente, no Novo Continente. 

Fonte: FRANCO, Odair. História da febre-amarela no Brasil. Rio de Janeiro/GB: Ministério da Saúde/Departamento Nacional de Endemias Rurais, 1968, pág. 08-11.

Gabriel Martins Fay


"Registro mortuario

No Livramento falleceu d. Maria Angelica da Silveira, esposa do cidadão Fidencio Silveira Goulart.

✤✤✤✤✤

Victima de molestia do coração succumbiu ante-hontem, á noite, o cidadão Gabriel Martins Fay, socio da importante firma commercial d'esta praça Ernesto Fontoura & Irmão.

Apresentamos os nossos pesames á sua exma. familia.

(...)"

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 12 de Setembro de 1892, pág. 02, col. 03
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