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quinta-feira, 5 de março de 2026

A Cobra Careta da Lagoa do Abaeté



E a Lagoa do Abaeté tem sua cobra

SALVADOR, (M-JC) - Uma cobra enorme, que muitos, disseram ser a maior de tôdas as sucurís que até hoje apareceu na Bahia, é "dona" das profundezas da Lagoa do Abaeté

As lendas que já vão surgindo são muitas e variadas. Contadas e recontadas pelas lavadeiras, figuras tradicionais que passam dias inteiros na beira da lagoa.

Para a maioria a cobra imensa aparece sempre lá no meio da Abaeté. Geme muito alto. Como se quizesse dizer alguma coisa. Depois volta para "seu reino".

Outras, porém, dizem que algumas vezes a cobra parece chorar...

PRETA E LISTRADA

D. Luiza Portela Costa Lóia, de 54 anos, e 41 de vida ali na Abaeté, já viu o "monstro" algumas vezes. Foi também a primeira a ver. E garante:

Ela é preta e tem listras brancas. Quando a põe a cabeça enorme de fora solta gemidos. Gemidos muito altos. Parece uma sucurí. É uma sucurí...

Olha para a lagoa, com reverência, e diz, sentenciosa, que "a cobra é a protetora das lavadeiras".

- Por que?

- Embora assuste um pouco a gente, ela serve para afugentar os hippies, que vinham para a Abaeté, sem respeitar nada, nem a Mãe D'Água nem as famílias.

"CARETA"

O "monstro" de Abaeté já até nome. Os Bombeiros deram. É "Carêta".

O Corpo de Bombeiros, por ordem da Prefeitura de Salvador, montou um serviço especial de salvamento na lagoa. Em um mês morreram quase vinte pessoas afogadas. E lenda ou não - porque diziam que eram os eleitos da Mãe D'Água - as providências foram tomadas. Ninguém pode mais brincar livremente como até agora nas águas escuras do Abaeté.

- E a cobra?

Os Bombeiros esclareceram que estão de vigília permanente. Alguns já viram. É enorme mesmo. Se sair da lagoa êles matam. Mas ir lá no meio, caçar... não!

As lavadeiras ajudam os Bombeiros, que vivem de espingarda sempre armada. Mas o soldado Magno Pereira, que já viu a cobra várias vezes, disse que só mesmo se ela sair abatida. Ela aparece rápidamente, olha para todos os lados, solta gemidos... e some nas águas escuras, misteriosas, cheias de lendas, da Abaeté.

Fonte: JORNAL DO COMÉRCIO (Manaus/AM), 21 de abril de 1971, pág. 06 

domingo, 1 de março de 2026

A Invasão do Candomblé de Accú



Antônio Guimarães não esperava que tivesse de dar explicações por ter ordenado a invasão de um candomblé em sua freguesia. Mas, no dia 28 de agosto de 1829, ele precisou gastar algumas horas respondendo por escrito a uma interpelação feita sobre o incidente pelo presidente da província da Bahia, José Gordilho de Barbuda, o visconde de Camamú. Este recebera queixa de um liberto africano, Joaquim Baptista, de que uma patrulha, sob as ordens do juiz, invadira o candomblé e se apropriara de 20 mil réis, panos da Costa e um chapéu de sol. Infelizmente não conseguimos encontrar o registro da história na versão do africano.

O relato de Antônio Guimarães informa que num local chamado Accú (decerto o atual bairro do Acupe de Brotas) havia e 1829 um candomblé. Joaquim fazia parte dele, parte importante, uma vez que o documento se refere ao “sítio indicado do Accú, e morada do Suplicante”. Era certamente um morador de prestígio na comunidade do terreiro, um liberto que talvez por ter algum acesso aos poderosos – aspecto a ser discutido adiante – agia como protetor da mesma.

Uma referência ao culto do “Deus Vodum” indica a origem jeje do grupo religioso. Os vodus são as divindades dos jejes do Daomé, muito numerosos na Bahia da época. Já em 1785 encontramos notícia de uma casa jeje, também vítima de invasão policial, em Cachoeira, no Recôncavo baiano.

A casa de 1829 não era pequena, considerando a animação da festa, a variedade e quantidade dos elementos e objetos rituais descritos e, sobretudo, o número de pessoas ali encontradas. “Este festejo, havia já três dias que se fazia com estrondo”, escreveu Guimarães. Os homens da lei depararam com um mundo de movimentos, sons, cores e objetos de significado estranho para eles, assim descrito pelo juiz: “Em cima de uma mesa toda preparada, um Boneco todo guarnecido de fitas, e búzios, e uma cuia grande da Costa cheia de búzios, e algum dinheiro de cobre misturado de esmolas, tocando tambaque e cuias guarnecidas de búzios, dançando umas [mulheres], e outras em um quarto dormindo, ou fazendo que dormiam”. Os policiais ocuparam o terreiro, destruíram ou apreenderam os objetos rituais, dispersaram e prenderam frequentadores. Cerca de 36 pessoas foram presas. Destas, onze lavadeiras foram logo liberadas para guardar as roupas de seus fregueses ou senhores. Foram levados à casa do juiz três homens apenas e 22 mulheres que, somadas às onze lavadeiras deixadas para trás, perfazem 33 mulheres detidas. Isso pode indicar que estas eram maioria no terreiro e não que os homens tiveram pernas mais ligeiras para fugir dos assaltantes.

Diante do juiz Antônio Guimarães, um ritual de arrogância e poder teve lugar: “(...) e fiz tirar e quebrar em presença de todos, o tambaque, e os mais vis instrumentos de seus diabólicos brinquedos”. Anteriormente, por ocasião da invasão, os homens do juiz já haviam destruído “o chamado Deus Vodum, cuias, e tudo lançando por terra”.

O assalto ao terreiro, a destruição dos objetos de culto, a prisão dos participantes são atos que ressaltam a intolerância da dominação escravista. A repressão à cultura negra, à religião em particular, foi um fato comum na vida dos escravos. O documento é uma evidência eloquente disso. Mas no esforço de Guimarães fez para se explicar, ele terminaria por revelar que esse método de dominação dos escravos, que era o seu, convivia e por vezes se chocava com outros mais refinados.

Fonte: REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pág. 35-37.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O treme-treme na Bahia


"Refere o Diario de Noticias, da Bahia, em seu numero de 9 do passado:

<<Os leitores conhecem perfeitamente a tal molestia que ha tempos para cá tem perseguido a nossa classe pobre e chamada dança de S. Guido, caruára, treme-treme ou que melhor nome tenha.

<<Pois bem: na quinta-feira ultima, dia da lavagem da igreja do Rio Vermelho, foram acommettidas pela tal, em um abrir e fechar de olhos, nada menos de 32 pessoas!

<<E então?

<<Em que ficaram os taes estudos e as taes providencias sobre o treme-treme?>>"

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 07 de Março de 1885, pág. 02, col. 01
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