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domingo, 22 de março de 2026

Crimes passionais no Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX



 As lutas pela posse de território entre as Coroas portuguesa e espanhola, incluindo os índios, bem como a ocupação do campo com a atividade pastoril, caracterizaram a região sulina como “um mundo de homens”, com pequena presença feminina. Por isso eram constantes e acirradas as disputas por mulheres. Os dados comprovam que 91% dos escravos-réus viviam sozinhos.

Poucos foram os crimes premeditados cometidos pelos escravos ou forros. Prevaleceram os delitos ocorridos em circunstâncias de total espontaneidade, em momentos de explosão de raiva e cólera. Levantamento efetivado nos processos, até 1860, constata um só caso que alude a crime relacionado à prática homossexual masculina:

A rigor, tratava-se de um caso de pedofilia. Um soldado da Guarda Nacional, acusado de estuprar um menino, um bebê, teve sua defesa apoiada na assertiva de que as deformações na mucosa anal identificada na criança foram provocadas por um acidente: o menino caíra da cama, ferindo-se em um pedaço de madeira.

O historiador Solimar Oliveira Lima, em Triste Pampa, realizou um levantamento dos crimes praticados na Região Sul da Colônia entre os anos 1818 e 1833. Referiu-se a casos de relacionamento e assédio sexual de cativas por homens livres pobres que não resistiam aos encantos das negras, bem como por clérigos e senhores abastados.

Esse foi o caso de Tereza Maria Pereira. Depois de alguns anos casado com o estancieiro José Gomes, ela se recusava, por repulsa e nojo, a manter relações sexuais com o marido. Mas não se conformava e tampouco se abstinha sexualmente. Para saciar seus desejos, mantinha como amante o escravo João, sendo que toda a Santo Antônio da Patrulha tinha conhecimento do romance. O casal vivia sempre brigando e o referido escravo de Tereza já aplicara no marido “várias pancadas com um pau”. O motivo era atribuído ao fato de essa mulher “não querer nunca fazer a vida” com o esposo.

No dia 11 de novembro de 1779, o escravo João, a pedido de Tereza, enforcou o estancieiro Gomes enquanto dormia, com a ajuda da amada e de um preto forro, de nome João Rodrigues. Detido pelo crime, em 23 de abril de 1780, o escravo João foi enviado à cadeia da Vila de Rio Grande, seguindo, depois, para o Rio de Janeiro. Não há referência aos demais réus, que, como ele, foram presos.

Existiram também as “virtuosas senhoras” que, com suas rendas e perfumes, atraíam para a cama negros adolescentes e os iniciavam nos encantos do amor. Exigiam deles prazer, discrição, fidelidade e subserviência. Entre muitas, a mais ousada foi Brígida Joaquina Lopes, de São Sebastião do Caí; manteria um verdadeiro “harém de negros”, em torno de si. Casada com o estancieiro José Cordeiro, tinha como amantes os irmãos Salesiano, de 16 anos, e Justiniano, de 18, o liberto Balduíno, bom como o capataz da estância, o preto forro João; demitido pelo estancieiro.

Brígida, “por não viver bem” no casamento, tramou a morte do marido. Para tal, recorreu aos serviços da negrada apaixonada. Entretanto, nem tudo era amor: apesar dos favores sexuais, os amantes necessitaram de um incentivo a mais, ou seja, a promessa de uma boa recompensa em dinheiro. O homicídio foi praticado em 28 de dezembro de 1820, quando José Cordeiro voltava para casa, ao final da tarde. Os negros o atacaram sobre o cavalo, provocando a queda. Deram-lhe oito facadas e esmagaram sua cabeça com pedras. Presos, foram julgado em 30 de abril de 1822.

Os irmãos castigados a açoites tiveram de assistir à execução pela forca do liberto Balduíno e depois foram enviados ao degredo definitivo para as galés. Brígida foi condenada, entre outras penas, a assistir à execução do amante e ao degredo de dez anos para a colônia de Angola, depois comutado para o Ceará.

As relações de cativos com libertos também podiam ser tumultuadas. Homens livres, libertos e escravos disputavam alguns prazeres nos leitos das forras ou a conquista de seus corações. Foi o caso, ocorrido em Rio Pardo, do escravo chamado Paulo e do forro Manoel, que competiam pelo amor da negra Rita. Paulo não admitia a amizade da negra com Manoel: “não queria que ela falasse com outro preto”. Portanto, começou a “ralhar” com ela, e o liberto Manoel, alegando que a negra não era propriedade de Paulo, prontificou-se a resolver a disputa pela força. Tudo indica que, após maus-tratos, Paulo teria desistido da amante, mas não do dinheiro que lhe entregara e não recebera de volta. Por volta de abril de 1821, ao procurar Rita, “ele ficou com raiva e cego e, com seu facão, lhe fez alguns ferimentos dos quais veio a morrer”. Paulo foi preso pelo filho de seu senhor, capitão do mato, e sentenciado a mil açoites e posterior degredo para as galés.

Severino, cativo do padre Paulo Xavier, disputava a afeição da negra Maria Francisca, em Pelotas. Na noite de sábado de 1820, quando Severino bebia na venda do português Julião, estava entre os fregueses Maria Francisca, “que com ele tinha tratos”. Ela, muito alegre e solícita, distribuía simpatia, sobretudo para Julião. Imediatamente, Severino desabafou: “Eu não tratei vir ficar com você? ”. Irritada, a negra teria replicado que era “capaz de comprar” Severino. A lembrança, por parte de uma liberta, da situação humilhante do cativo fez com que Severino, já “incitado com as desfeitas”, lhe desse “uma facada”. Maria caiu morta.

Ainda no Sul, na casa do vigário Antônio Pacheco de Miranda Santos, de General Câmara, ocorreu um curioso romance. Amigados, os envolvidos tinham o consentimento do religioso. Parecia ainda que o pároco utilizava a bela mulata para obter, em torno de si, gratuitamente, os serviços de dois vigorosos crioulos. A escrava doméstica do vigário, chamada Maria, tinha “tratos” com José Joaquim, escravo de outro padre, e com Miguel, cativo do capitão Evaristo Pinto Bandeira. Na cozinha, os negros iam “bolinar” o corpo de Maria, enquanto ela preparava a alimentação do vigário. No dia 16 de maio de 1809, a mulata estava na cozinha quando chegou José para as habituais “brincadeiras”. Entre afagos e risos, iniciou-se uma discussão, e o ciúme levou José a espancar a amada. Ao ouvir os gritos, Miguel acudiu, entrando afoito na cozinha. O prestativo defensor foi surpreendido com uma “facada na barriga” que o levou à morte. José foi preso. Na documentação, nada consta sobre o julgamento, apenas que, logo após o crime, Maria foi vendida à província de São Paulo.

Fonte: CARMO, Paulo Sérgio do. Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil. São Paulo: Edições SESC São Paulo, 2019, pág. 77-80.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Caso de travestismo no Pará



 Curioso!

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Não é phenomeno, mas um caso original e engraçado - Vontade de ser homem...

Como estamos em mará de phenomenos, poderia pensar-se que o caso de que nós vamos occupar tivesse também o seu quê de... teratologico.

Nada d'isso, entretanto, ha. A originalidade da historia que se vae ler está no facto da vontade irreprimivel que se apossou de uma mulher em querer ser homem.

Vejamos o que dizem as notas; a proposito do interessante caso, colhidas pela nossa reportagem:

Foi presa, ante-hontem, á noite, a bordo do vapor "Muruzinho", onde conseguira empregar-se, ha dois mezes, como "creado", Francisca da Conceição.

Para tal fim, envergou ella roupa de homem e aparou rente os cabellos.

Já de si com um palminho de cara semi-masculina, a illusão não podia ser mais perfeita. Quem a visse assim, não poria duvidas em tomal-a por um authentico filho de Adão, cuja propria voz ella sabia imitar a rigor.

A bordo, trajava sempre calças e blusa de mescla azul, convivendo com o maior desembaraço entre o pessoal do "Muruzinho".

Não fôssem as auctoridades policiaes que a conheciam muito bem e que fôram arrebatal-a do meio da tripulação do "gaiola", talvez a mystificação tão cêdo não fôsse descoberta.

Francisca acha-se recolhida ao xadrez da estação central da policia, onde tem servido de pábulo a curiosidade.

Tem ella 29 annos, é natural de Anajás e aparenta symptomas de alienação mental.

É de côr morena e conversa com pernosticismo.

Na policia, ao ser interrogada, declarou metter-se a homem para poder trabalhar e ganhar a vida honestamente.

Fonte: O ESTADO DO PARÁ (Belém/PA), 18 de junho de 1915, pág. 02


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Lady Godiva brasileira

 



Lady Godiva brasileira pôs as ruas do Rio em polvorosa

O público deixou a mulher núa e sem cavalo - Golpe publicitário da faquirosa Jorgina Pires de Sampaio - Foi parar no xadrez

RIO, 17 (M) - Ontem, por volta de cinco horas da tarde, saiu do Castelo (Esplanada do Castelo) uma Lady Godiva brasileira, montada em cavalo branco, como recomenda o figurino da lenda inglesa, e vestida apenas com uma longa e postiça cabeleira. Diremos melhor: logo à saída a Godiva cabôcla - que outra não era senão a faquireza Jorgina Pires de Sampaio, brasileira, branca, solteira e balzaqueana - ainda cobria a farta nudez com um sucinto bikini do tipo "tomara que caia". Isto para começar, apenas, quando deixava o escritório de uma bela advogada sua, onde se despejou das incômodas vestes convencionais. Mas seus planos eram outros, como veremos a seguir. Dona Jorgina, na frente deste escritório à avenida Presidente Antônio Carlos, n. 615, montou um tordilho da Polícia Militar que ali estava à sua disposição, vigiado por um soldado do Regimento Caetano de Farias. O soldado não seguiu com a esfusiante Godiva carioca. Quem seguiu foi um índio improvisado, o gaiato Antônio Aluísio da Costa, que, a pé acompanhou a passeata heróica.

Quando dona Jorgina - isto é, Godiva - atingiu a esquina de Visconde de Inhaúma com Beneditinos a população já era maciça. Todo mundo queria vêr o fenômeno altamente mulheril, ao contrário dos habitantes de Coventry, na Inglaterra que, segundo a lenda, se fecharam em casa a fim de não assistir a humilhação da esposa de Leofric cujo desfile assim desnuda tinha propósito bem mais nobre do que o da atual Jorgina.

A verdadeira Lady Godiva tomou a decisão de percorrer sem roupa e montada em cavalo branco as ruas de Coventry porque o perverso do seu marido lhe dissera ser aquela a única maneira de convencê-lo a baixar os impostos que, na qualidade de Lord, decretara fossem cobrados naquela pobre cidade inglesa. Lady Godiva teve um gesto sublime. Os habitantes o compreenderam e fugiram das ruas, menos o alfaiate Tom que resolveu arriscar um ôlho, tendo por isso, e por castigo de Deus, ficado cégo.

Mas a reedição de Lady Godiva em palco brasileiro não teve os requintes pundonorosos do original britânico. Aqui Godiva saiu para ser vista e sua vontade foi respeitada.

Quando - dizíamos - ela pela altura da rua Visconde de Inhaúma houve o que poderíamos chamar de "incontenção emocional do público". Vários elementos dotados de discutíveis sentimentos estéticos resolveram apreciar o espetáculo de mais perto e se lançaram à Lady de bikini. Foi o quanto bastou para que o referido componente da indumentária godival desaparecesse nas mãos crispadas dos admiradores. Então verificou-se a réplica da lenda, no espaço e no tempo. A Godiva ficou inteiramente nua e a turba exaltada rasgou as suas vestes.

NO 7o. DISTRITO

A faquireza foi prêsa e levado ao 7o. Distrito Policial tendo a sua nudez encoberta por blusões emprestados por populares menos exaltados.

Fonte: PACOTILHA: O GLOBO (São Luís/MA), 19 de março de 1959, págs. 5 e 8


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Termos pejorativos usados para mulheres brasileiras no século XIX



AS MULHERES E OS PÁSSAROS

Mulher magra e ossuda - Saracura.

Mulher gorda e pesada - Sabacú.

Mulher baixa e cara redonda - Coruja.

Mulher morena de olhos pretos - Pomba rôla.

Mulher magra de genio forte - Sabiá.

Mulher faladeira - Canario.

Mulher acanhada - Carriça.

Mulher instruida - Papagaio.

Mulher gulosa - Sanhaço.

Mulher que diz asneira - Jandaia.

Mulher orgulhosa - Gurinhatá.

Mulher baixa e cambaia - Patury.

Mulher viuva, velha e pobre - Perúa choca.

Mulher passadeira - Andorinha.

Moça romantica e namoradeira - Beija-Flôr.

Fonte: O REPUBLICANO (Cuiabá/MT), 05 de junho de 1898

quarta-feira, 26 de março de 2025

Ritos de casamento



Já o rito era feito de gestos que atravessaram os séculos.

A união das mãos: simboliza o socorro mútuo e o laço de fidelidade entre os esposos.

Anel de noivado: a troca de anéis entre prometidos existe desde a Antiguidade. Na época, era um anel de ferro. A diferença entre o anel de noivado e o de casamento apareceu na Idade Média. No século XV, o primeiro passou a ostentar uma pedra preciosa para se diferenciar do segundo, sóbrio e discreto. O hábito de usá-lo no anular da mão esquerda, correspondia a uma crença egípcia segundo a qual um nervo ligava esse dedo diretamente ao coração. A aliança, promessa de fidelidade, simboliza o compromisso mútuo entre esposos. A troca de alianças como signo exterior de responsabilidade conjugal é uma tradição inglesa do século XIX adotada depois no resto do mundo.

Acordo de casamento: é termo nascido no Renascimento para designar a permissão dos pais aos jovens nubentes e a reunião na qual se assinava o contrato de casamento.

Coroa de flores na cabeça da noiva: a tradição é bizantina e tem por função atrair proteção divina. As flores brancas, em particular as de laranjeira, símbolo de virgindade e fecundidade, eram obrigatórias no passado. A França exportou a moda para o Brasil no século XIX.

Dote: conjunto de bens doados pelo pai à filha por ocasião do casamento, doação destinada a compensar a herança dos irmãos. Ele podia compreender mobiliário, louça, roupa de cama e mesa, e joias. No Brasil, entravam no dote escravos, terras e animais de criação. Entre noivas pobres, até mesmo sacos de mantimentos e galinhas o poderiam compor. Teoricamente, as mulheres podiam manipulá-lo, mas cabiam ao marido a gestão e o dever de restituí-lo à família em caso de divórcio. Não foram poucas as esposas que entraram na justiça contra o mau uso que os consortes faziam de sua fortuna.

Lua de mel: tradição adotada no século XIX. É um tradução de honey moon, expressão de origem viking: o hidromel, bebida fermentada feita de água e mel, era bebido durante a semana nupcial.

Sair à francesa: expressão que designava a retirada discreta do casal de nubentes para a lua de mel, sem que ninguém percebesse.

Jogar arroz sobre os noivos: acontecia na saída da igreja e tinha o intuito de dar sorte ao casal. Esse costume já existia na China antiga - é a ressurgência da tradição de lançar frutas secas, símbolo de fecundidade, sobre os nubentes.

Enxoval: dado pelos pais da noiva, era composto de lingerie pessoal e roupa de cama e mesa. Trata-se de um costume antigo. No século XIX, era chamado trousseau.

Corbeille: a palavra refere-se à tradição, popularizada no século XIX, de o noivo oferecer presentes à noiva: rendas finas, lenços bordados e raros xales da Índia, em geral de caxemira; luvas de pele e, sobretudo, joias pequenas e grandes. A ideia era seduzir a jovem senhorita pela opulência. A corbeille era também uma demonstração do poder financeiro do noivo perante o dote da futura esposa, além de um prêmio pela virgindade dessa última. Os presentes podiam ser ofertados em baú, caixa ou pequena cômoda, onde tais pertences eram guardados. Os presentes ficavam expostos, às vésperas do casamento, para deleite e críticas da família e dos amigos. Na vitrine das lojas, ofereciam-se corbeilles completas. No Brasil, os presentes dados aos noivos passaram a ser expostos não necessariamente sobre a cama, mas com destaque para demonstrar, como na França oitocentista, o poder financeiro da família dos contraentes.

O branco no casamento: a moda do branco foi introduzida por Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa de Dom Pedro I. Ela adotou o costume que vinha da época do Consulado napoleônico: o vestido de casamento longo, branco e acompanhado de véu de renda, como o que usou Carolina Bonaparte para esposar o general Murat. A seguir, dona Francisca, irmã de Dom Pedro II, casou-se com o Príncipe de Joinville também vestida de branco, em meio às damas de amarelo e verde. A princesa Isabel, ao trocar alianças com o Conde D'Eu, também vestiria filó branco, véu de rendas de Bruxelas, grinalda de flores de laranjeiras e ramos destas no lado esquerdo do vestido.

Traje da noiva: eis um exemplo de "toilette de noiva" publicado em setembro de 1859, no jornal feminino O Espelho: "um saiote aberto na frente, cercado de fofos, mas mangas muito largas cercadas de fofos como os do saiote, o corpinho é fechado com cabeção  que vem até o cinto onde se prende por um laço de fitas, cujas pontas prendem ao comprido do vestido. O véu preso à cabeça pela coroa de noivas cai pelos ombros".

Fonte: DEL PRIORE, Mary. Conversas e histórias de mulher. São Paulo: Planeta, 2013, pág. 36-37.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Sátira ao feminismo na Porto Alegre oitocentista

 



Pelo theatro

O thema da opereta representada hontem em beneficio do inteliigente artista Aristides Gargano é uma satyra com endereço aos partidarios da emancipação da mulher.

Na peça As mulheres emancipadas fundam um reino, fazem-se soldados, constituem exercito, pretendem exercer todas as funcções publicas, mas a cada momento encontram obstaculos provenientes da sua condição feminil e que as expõe ao ridiculo.

Finalmente, as emancipadas são vencidas pelo coração e rendem-se, desde o imperador, a tres prisioneiros masculinos que ousam penetrar no seu imperio e com quem ellas preparam fuga amorosa depois de havel-os condemnado á morte, em um julgamento ruidoso em que todas fallam a um tempo.

Relativamente á musica, ha, na opereta bons trechos, marcialmente enthusiasticos umas vezes, ternamente apaixonados outras.

M. Gargano, Z. Cesana, G. Mancini, A. Poggi, M. Grandi e A. Rinoldi interpretaram com bisarria as mais graduadas mulheres emancipadas.

D. Pinelli, um dos prisioneiros, esteve um francez original, espirituoso.

Aristides e Fernando Gargano completaram a trindade prisioneira, que muito fez rir.

No intervallo do 1o. para o 2o. acto da peça e beneficiado cantou, com expressão e sentimento, a bella romanza de Lourenço, do Fra Diavolo.

Foi enthusiasticamente applaudido, tendo de repetil-a a pedidos numerosos.

Succederam novos applausos, sendo Aristides chamado tres vezes ao proscenio.

A parodia do Othello fez rir muito.

Fernando Gargano, fazendo o papel de Yago, salientou-se no desempenho da parodia.

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 05 de março de 1891, pág. 02, col. 01

sábado, 29 de abril de 2023

Andradina de Oliveira

 



Educadora, escritora e feminista.

Nasceu em 12 de junho de 1864, na cidade de Porto Alegre (RS), filha de Joaquina Pacheco de Andrade e Carlos Montezuma de Andrade. O pai era médico e morreu cedo, deixando Andradina órfã aos 7 anos de idade. Recebeu esmerada educação; estudou na escola de Luciana de Abreu e depois fez com brilhantismo o segundo grau na Escola Normal de Porto Alegre, atualmente Instituto de Educação General Flores da Cunha. Casou com um oficial do exército brasileiro, natural do estado da Paraíba, Augusto Martiniano de Oliveira, e teve dois filhos.

Andradina América Andrada de Oliveira exerceu o magistério público durante oito anos nas cidades gaúchas de Pelotas, Rio Grande, Santa Maria e Porto Alegre. Enviuvou muito cedo e teve que manter a família com seu talento e o magistério. Indo morar em Bagé, dedicou-se ao jornalismo e fundou, em 1898, o jornal Escrínio, cujo lema era "Pela Mulher". No editorial do primeiro número assim se apresentava: "surge também como um incitamento à mulher rio-grandense, convidando-a a romper o denso casulo de obscuridade e vir à tona do jornalismo trazer as pérolas de sua cultivada inteligência! O Escrínio aparece como um verdadeiro propagandista da instrução, do cultivo do espírito feminil. A mulher deve ser instruída, deve ser educada para melhor cumprir a sua divina missão na Terra - ser mãe."

O jornal foi editado durante nove anos, primeiro em Bagé e depois em Santa Maria; sua publicação foi interrompida pela morte de um filho de Andradina, que a deixou muito abalada. Em 1909, esta publicação reapareceu em Porto Alegre, sob a forma de uma revista ilustrada.

Andradina publicou sete livros e deixou outros inéditos, sendo os mais importantes: Cruz de pérolas (contos), que em 1908 recebeu medalha de ouro na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, e O divórcio?, de 1912, que provocou grande repercussão pelo fato de abordar um tema polêmico; defendia o direito à felicidade e o divórcio como uma forma de evitar tragédias nas famílias brasileiras. O livro foi escrito na forma epistolar, 26 cartas, cada uma com um argumento diferente, baseado em casos reais, denunciando a hipocrisia da sociedade quanto à indissolubilidade do matrimônio. Cada uma dessas cartas possuía em epígrafe o depoimento de um personagem ilustre sobre o tema do divórcio: Osório Duque Estrada, José do Patrocínio, Mirtes de Campos, Carmen Dolores, Julia Lopes de Almeida, entre outros. Em duas cartas, Andradina faz elogio ao feminismo, que "abrirá os olhos de todas as mulheres. E elas hão de, em futuro que não está longe, conquistar a sua verdadeira posição na família, na sociedade, na pátria - a mulher deixará de ser a escrava, a serva, a besta de carga, o objeto de prazer do homem, o animal procriador, o bibelô das salas".

Foi em 1920 para São Paulo, onde continuou sua carreira literária, e lá faleceu em 1935.

Fonte: SCHUMAHER, Schuma & BRAZIL, Érico Vital (orgs.). Dicionário Mulheres do Brasil (de 1500 até a atualidade). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, pág. 188-189.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Quinze tradições antigas sobre barbas

 



1 - As barbas sempre foram símbolos de sabedoria, riqueza, reputação, masculinidade, coragem e honradez na maioria das culturas antigas da história da humanidade. Homens barbudos eram respeitados e barbas cheias e longas traziam um misto de intimidação e importância social. Para as antigas tribos celtas, jurar pela própria barba significava que o sujeito tinha sempre algo de muito importante e peremptório a dizer.

2 - Tanto na Europa, quanto no Oriente Médio e Ásia Central, xingar a barba de alguém era uma desonra grave. Dependendo do contexto histórico ou da região, o ofensor podia ser julgado por seus pares e sofrer punições como banimento, indenização material/financeira ou mesmo a morte. Até o século XVIII, em vários lugares, um homem poderia requerer um duelo caso sua barba tivesse sido ofendida. Em suma, xingar a barba de um homem era comparável hodiernamente a xingar a própria mãe.

3 - Barbas e bigodes em inúmeras culturas indo-europeias, semíticas e sul-asiáticas eram usadas como fiadoras de honra de um contrato, de uma celebração de paz ou de um tratado político. Em algumas situações, o sujeito podia cortar uma pequena mecha do próprio bigode ou da barba e oferecer a outrem como símbolo que executaria um compromisso pré-estabelecido. Ás vezes, uma mecha do cabelo. Entre os antigos francos e germânicos, o direito consuetudinário dava ao ato o status legal.

4 - Durante parte da história inglesa (séculos XV e XVI) houve o famigerado imposto sobre a barba. Homens adultos jovens e solteiros pagavam uma importância para que pudessem ter o direito de possuírem uma barba, principalmente em funções militares. Aliás, foi a partir dessa época que a barba começou a ser vista como incômoda para batalhas, sendo o recomendável usá-la de forma curta ou manter o rosto permanentemente barbeado. Apesar disso, o rei Henrique VIII foi um monarca inglês que fez questão de usar barba durante todo o seu reinado. A Rússia teve também um imposto sobre a barba, porém muito mais oneroso do ponto de vista monetário entre 1698 e 1772.

5 - Bigodes passaram a ser vistos como símbolo de uma virilidade mais civilizada principalmente a partir dos primeiros anos do século XIX (Guerras Napoleônicas). A maioria dos exércitos europeus passou a exigir de seus militares que se cortassem completamente as barbas, mas se mantivessem os bigodes como símbolo de distinção. Barbas hirsutas eram toleradas somente em militares mais velhos, pois representava sabedoria e experiência nos assuntos de guerra.

6 - As barbas foram completamente banidas dos exércitos europeus durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), pois atrapalhavam o uso de máscaras de gás contra o ataque de armas químicas. Somente os exércitos búlgaro e otomano não seguiram muito à risca a recomendação.

7 - Tocar na barba de um homem sem autorização foi uma falta extremamente grave em diferentes sociedades ao longo da história. Era invasivo de tal maneira, que em vários tribunais do Oriente Médio e da África Islâmica, o ofendido podia exigir a morte do infrator. Curiosamente, somente uma única pessoa possuía o privilégio de tocar a barba de um homem como lhe aprouvesse: a mulher amada. Nem pai, nem mãe, nem filhos maiores tinham tal intimidade. Em vários relatos históricos, o ato da esposa ou noiva acariciar a barba de um homem lhe trazia uma distinção especial, querendo com isso transmitir que aquele homem em particular lhe pertencia

8 - Cortar a própria barba (ou partes da própria barba) e oferecer a alguém era visto como ato de extrema humildade (ou para denotar profundo arrependimento por um ato cometido). No sul da Itália medieval, camponeses e populares podiam escapar da pena capital (enforcamento) se ofertassem o ofendido com seus pelos faciais. O insólito é que, apesar dessa possibilidade de safar-se de uma pena, vários homens preferiam enfrentar a morte a ter a sua barba cortada.

9 - Em culturas pagãs europeias do centro-leste daquele continente, é verificado o ato de sacrificar aos próprios deuses o animal mais gordo do rebanho em festivais religiosos. Se o devoto tinha um sentimento especial de gratidão a divindade cultuada, ele acrescentava na hora do sacrifício uma mecha cortada da própria barba ou cabelo.

10 - Homens casados na Hungria medieval (e boa parte da Europa Oriental) podiam oferecer mechas da própria barba às esposas como símbolo de amor conjugal, caso que tivessem se ausentar por longo tempo em razão de uma viagem ou de uma campanha militar. Da mesma forma, esposas podiam oferecer uma mecha cortada das tranças para os maridos querendo demonstrar o mesmo sentimento, quando estes se ausentavam pelos mesmos motivos.

11 - Mechas de uma barba ruiva eram ingredientes da farmacopeia bizantina e árabe na Idade Média. Os pelos eram triturados e misturados com determinadas ervas aromáticas, tendo daí uma solução indicada em tratamentos de anemia e cansaço físico. Aliás pelos ruivos, independente de serem da barba ou cabelo, eram vistos como elementos mágicos em boa parte das farmacopeias europeias e do Oriente Médio.

12 - Para os antigos israelitas, raspar a barba de um homem (caprichosamente se fosse a metade...melhor ainda!) era um forma de humilhação e subjugação. Vide o capítulo 10 do Segundo Livro de Samuel.

13 - Para os antigos egípcios ter uma barba significa em síntese ser homem. É meio redundante a afirmação, porém há o caso de mulheres egípcias que deixavam cultivar barba para serem aceitas como "homens" ou usarem uma barba postiça. Isso lhe conferia o direito de ocuparem cargos importantes, inclusive até o de faraó. Hatsheput usava uma barba falsa e governou o Egito. Faraós homens jovens utilizavam também do mesmo artifício para alçarem ao trono.

14 - Na Idade Média, como sobejamente vimos neste artigo, as barbas eram muito respeitadas. Entretanto, havia um corte de barba extremamente repudiado pela sociedade da época: as barbichas, especialmente aquelas que se assemelhassem a "barbas de bode". Teólogos ingleses, franceses e italianos recomendavam aos clérigos, nobres e povo os perigos das barbas caprinas - carregadas de um simbolismo maléfico.

15 - Nos antigos Império Prussiano e Russo, em inúmeras aldeias e cidades menores, o veto a homens não barbados de exercerem determinadas funções públicas, principalmente relacionadas à funções judiciais e administrativas, foi uma constante tradição, embora não tivesse o efeito de lei impositiva. Conta-se que um determinado homem escolhido pelo conselho local a ocupar a função de "prefeito" de uma cidadezinha local  situada numa região de onde hoje é a Bielorrússia, ao se dirigir ao prédio do governo, teve sua carruagem atacada por um bando de salteadores. Sem lhe fazer nenhum atentado à vida do sujeito e sem lhe roubar absolutamente nada, o homem teve sua barba cortada, apesar de seus insistentes pedidos de misericórdia. Ao chegar à própria posse, com a face completamente desnuda e comentando o infeliz ocorrido, não teve nem tempo suficiente de exigir providências, pois fora imediatamente destituído da função. Soube-se depois que o atentado fora encomendado por um desafeto político seu. Quatro anos depois, com a barba minimamente reestabelecida e respeitável, veio à sessão do conselho local, requereu a própria posse e obteve positivamente a reivindicação, sendo finalmente instituído.


sábado, 27 de agosto de 2022

Mulheres na Revolução Farroupilha

 



"Nos registros dos escritores do século XIX, entretanto, a participação das mulheres não aparece quando o assunto é a Revolução Farroupilha (1835-1845). Contudo, hoje se sabe que as mulheres se fizeram presentes também neste movimento político radical, que propunha a ruptura com o Império brasileiro e a proclamação da República. Algumas poetisas do Rio Grande do Sul, por exemplo, tomaram partido durante a Farroupilha. De acordo com as fontes que chegaram até nós, a maioria das escritoras declarou-se a favor da Monarquia, a começar pela poetisa Delfina Benigna da Cunha (1791-1857), que dedicou poemas elogiosos ao imperador, tendo recebido mais tarde uma pensão do governo como retribuição por seu trabalho. Maria Josefa Barreto (1780-1837), fundadora de dois jornais, manifestou-se fortemente contra o revolucionário Bento Gonçalves. Ana Eurídice Baranda (1806-1866?) publicou o panfleto Diálogos (1836) em defesa da participação política das mulheres e como causadores dos maiores males. A favor dos farroupilhas encontramos Maria Josefa da Fontoura Palmeiro, que acabou sendo desterrada por ter espalhado, em Porto Alegre, conclamas dos rebelados e por ter levado pessoalmente informações a Bento Gonçalves durante o conflito. Duas esposas de líderes farroupilhas também tiveram papel relevante no movimento: Bernardina Barcellos de Almeida, casada com Domingos José de Almeida, e Clarinda Porto de Fontoura, casada com Antônio Vicente da Fontoura. Nas cartas trocadas entre os cônjuges, fica nítido o interesse das mulheres pela conjuntura política, a troca de ideias entre elas e os maridos e as opiniões que manifestavam a pedido deles. Tais evidências contribuem para relativizar a imagem de sinhazinhas frágeis e desinteressadas das coisas públicas, marcadas pela educação tradicional e caladas por conta da repressão dos pais e maridos.

Fonte: PINSKY, Carla Bassanezi & PEDRO, Joana Maria (orgs.). Nova História das mulheres no Brasil.  São Paulo: Contexto, 2013, pág. 98.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

O batalhão feminino de Siracusa

 



Em Siracusa, Estados Unidos, organisou-se um batalhão composto unicamente por mulheres solteiras, cuja edade varia de dezesseis a trinta annos. O vestuario destes militares femininos é, na verdade, pittoresco; consiste, numa saia curta, côr de azul carregado, um corpete guarnecido de botões de coiro, um kepi, um cinturão e polainas.

O batalhão faz marchas nas avenidas e principaes ruas da cidade e é seguido por canhões e por uma banda de musica.

O commandante do batalhão não quer sinão mulheres solteiras. Os maridos causar-lhe-iam sem duvida grandes transtornos, como, por exemplo, pedirem ás mulheres para serem commandantes do batalhão, ou não as deixarem ficar fóra de casa até altas horas da noite, como as circumstancias o exigiriam muitas vezes.

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 06 de Setembro de 1902, pág. 01, col. 05

segunda-feira, 8 de março de 2021

Frases sobre mulheres do final do século XIX no Rio Grande do Sul



 Mulher que só vive de rosário na mão, fujam dela: só está estudando meios para viver sem trabalhar.

Mulher beata, nem sonhar com ella é bom: é coito de malvadez.

Mulher faladeira tem a língua de dez matracas.

Mulher vaidosa é fazenda avariada.

Mulher ciumenta é carrapato de catinga.

Mulher janeleira é telegrapho urbano.

Mulher preguiçosa é sapo, que não tem utilidade.

Mulher que perde o brio, é sapato sem fundo, que não serve para nada.

Mulher que chupa aguardente é pote rachado, pois não merece confiança.

Mulher que acredita em feitiço é bolço rasgado, todo dinheiro lá se vae.

Fonte: FARRAPO: JORNAL DEMOCRATA (Quaraí/RS), Ano I, número 13, 16 de Novembro de 1896, pág. 04, col. 02

terça-feira, 20 de outubro de 2020

As falas das mulheres


"Ao que fallam as mulheres:

A mulher franceza falla á fantazia.

A mulher allemã falla ao ideal.

A mulher portugueza falla a Razão.

A muher hespanhola falla ao capricho.

A mulher italiana falla ao amor da arte.

A mulher ingleza falla á conveniencia.

A mulher norte-americana falla do calculo.

A mulher das ilhas falla ao estomago.

A mulher brazileira falla ao coração."

Fonte: A CAPITAL (Porto Alegre/RS), 11 de Janeiro de 1909, pág. 01, col. 07

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A morte de um Don Juan


"Mulher que mata seu seductor

Em S. Paulo, uma joven que, levada pelos amores de um perverso D. João se deixara deshonrar, vendo que elle fugia do compromisso de reparar o mal que lhe fizera, encontrando-o em plena rua matou-o a tiros de rewolver.

Criminosa porque matou, essa mulher entretanto, nos offerece ensejo, de apreciar a sublimidade do seu caracter. Deshonrada, prostituida, lançada na rua publica, no rol das 'demi-mondaines', se desforra com superioridade, matando o autor da sua desgraça. Somos sempre contra o crime, ainda mesmo neste caso, todavia é de esperar-se que o jury que vai julgal-a, seja tolerante, absolvendo-a d'um crime que ella commetteu louca, allucinada, para vingar se de mais esse D. João pernicioso e miseravel libidinoso.

De resto servirá sua absolvição de exemplo para a sociedade.

O proprio Codigo Penal lhe atenúa muito o delicto.

Ella matou, tornou-se ré, mas vingando-se a si, vingou a sociedade."

Fonte: A SEMANA (Bagé/RS), 14 de Fevereiro de 1915, pág. 04, col. 02-03

quarta-feira, 18 de março de 2020

Um caso feminino na Campanha Gaúcha do século XIX


"O Diario de Bagé dá a noticia que passamos a reproduzir:

'Vieram ao nosso escriptorio duas pobres moças e uma menina, irmã das mesmas, queixar-se de um attentado de que foram victimas e para o qual chamamos a attenção das autoridades, para que não se reproduza.

Moram essas moças em companhia de sua mãi, viuva de Caetano Ramires, nas margens do arroio Quebrachinho, proximo ao lugar denominado Olhos d'Agoa, e ahi possuem ha 19 annos um pedaço de campo e alguns poucos animaes vaccuns.

Um visinho das mesmas, de nome Heleodoro Quintana, que sustenta com ellas um litigio sobre o campo que possuem, busca todas as occasiões de hostilisal-as, afim de que desamparem o lugar em que vivem e elle possa d'esse modo ganhar o pleito sem sentença juridica.

Seriam 9 horas da manhã, achando-se a viuva n'esta cidade, onde viera comprar carne, seis homens acompanhados do mesmo Quintana bateram á porta do rancho onde tinham onde tinham ficado as moças, dizendo que iam ali passar busca, para descobrir os restos de uma terneira que diziam haver sido carneada pela viuva Ramires e suas filhas.

As moças recusaram-se a abrir, e, quando chegou sua mãi, os visitantes, que a tinham esperado, disseram-lhe a que vinham e o que queriam.

Como a viuva lhes perguntasse onde estava o mandado de busca e a ordem da autoridade, um dos recem chegados, ameaçando açoutal-a com um relho, disse-lhe que a autoridade era elle proprio, e invadindo todo o rancho violentamente, passaram minuciosa busca, não encontrando, porém, vestigio algum do animal de que se faltava."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 07 de Outubro de 1886, pág. 01, col. 03

terça-feira, 10 de março de 2020

Torneio de amazonas


"Theatro America

A funcção de ante-hontem, da companhia Paulo Serino, começou por um bonito torneio de amazonas, em que se distinguiu a artista de nome Julieta.

Outros trabalhos dignos de nota foram exhibidos no decorrer do divertimento, como por exemplo o do equilibrio sobre o arame.

A concorrencia de espectadores foi lisongeira.

- Hontem, em consequencia do mau tempo, não houve espectaculo."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 08 de Junho de 1891, pág. 01, col. 02

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O pai dos "dez mandamentos"


"Ora... essa é boa.- Lê-se no Jornal do Commercio de Pelotas do Rio Grande do Sul:

-Quantos filhos tens? perguntaram a um homem que tinha nada menos do que tres varões e sete mulheres.

-Tenho os dez mandamentos, respondeu rindo-se.

-Os dez mandamentos?

-Sim, os tres primeiros que são homens, pertencem a honra de Deus e os outros sete que são mulheres, pertencem ao proveito do proximo.

E digam que o homem não sabia a doutrina."

Fonte: CEARENSE (CE), 14 de Março de 1882, pág. 02, col. 01

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

As mulheres do Paraguay


"As mulheres do Paraguay. - Escrevem de Assumpção:

<<Antes do anno um da liberdade, no Paraguay existião tres cathegorias de mulheres, cada uma com o seu trajo obrigatorio ainda quanto pelo estado pecuniario se tornasse possivel a subida de classe inferior para outra mais elevada.

Em primeiro lugar estavão as Senhoritas, descendentes directas dos Hespanhóes e que podião livremente usar do vestido de seda e de calçado; abaixo vinhão as Acaverás, mulheres de classe média que se ornavão com o pente de ouro revirado e que, por mais que fossem seus teres, vião-se privadas da seda e não podião, sem se expôrem á mofa, trazer sapatos. Emfim em terceira plaina estavão as Raédas: que trajavão as vestimentas puramente nacionaes impostas por antigas leis sumptuarias dos Jesuitas, consagradas pelo tempo e pelos actos dessa população algum tanto chineza.

Hoje a acaverá  levanta o vestido para deixar vêr a botina franceza, amontôa sobre si quanta seda venha a possuir, e, deixando o pente denunciador, arvora o coque monstruoso ou adopta o chapeozinho parisiense.

As classes se confundem e a liberdade por fim já é conhecida de todos em Assumpção."

Fonte: DIARIO DE SÃO PAULO (SP), 26 de Novembro de 1869, pág. 01, col. 01

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Comitê Feminino Liberal de Pelotas


"A POSSE DA DIRECTORIA DO COMITÉ FEMININO LIBERAL, DE PELOTAS

PELOTAS, 31 - No dia 09 de novembro proximo, quando se realisar a posse da directoria do Comité Feminino Liberal, no Theatro Guarany, falará saudando o Comité, o dr. Ataliba Paz, que fará o discurso official.

Por ocasião da solenidade da posse haverá uma hora de arte, organizada pela senhorita Hylda Weber, auxiliada pelas senhoritas Maria Campos, Gilda Maciel, Marina e Maria Xavier, Sily Perret, Inah Assumpção, Lívia Fabião, Tina Soares, Rosinha Russomano e Rosalia Behrensdorf."

Fonte: O ESTADO DO RIO GRANDE (RS), 01 de Novembro de 1929, pág. 16, col. 02
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