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segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Voluntários indígenas na Guerra do Paraguay



 (...)

O Correio do Sul de 8 dá a noticia seguinte, sob o titulo Voluntarios indigenas:

"Da tribu Fong, que em principios de fevereiro se retirou do Nonohay e se foi estabelecer na Guarita, se acham nesta cidades os maioraes Antonio Portella, Manoel Feliciano e Manoel da Silva, que se apresentaram no domingo a S. Exc. o Sr. visconde da Boa-Vista, e se offereceram para reunir de 150 a 200 indigenas da tribu para servirem como voluntarios no exercito".

Os chefes declararam por si e pelos homens da tribu que estão promptos a formar uma grande companhia de infantaria montada, dando-lhes o governo armas e fuzil, equipamento e fardamento conveniente.

S. Exc. consta-nos que acolheu devidamente esse offerecimento.

Todos sabem o que são os indigenas como atiradores, e que optimos soldados se tem nelles, acostumados como estão desde a infancia a soffrer todos os rigores do tempo e muitas vezes da fome.

Fonte: DIÁRIO DE PERNAMBUCO (Recife/PE), 31 de Agosto de 1865, pág. 02, col. 08



sábado, 3 de junho de 2023

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Fitoterapia indígena no Brasil Colonial



Nota: os grifos são nossos.

Há milhares de anos, o homem primitivo, em consequência da transformação do seu estilo de vida - passando de colhedor a caçador - , precisou enfrentar acidentes, moléstias e outras perturbações corporais. Para arcar com esses novos desafios, precisou atingir um estágio mínimo de evolução cultural em conjunto com seu avanço na escala evolutiva biológica, estágio este que o capacitaria a somar a sua experiência consciente ao seu instinto animal. Assim, não só aprendeu a reconhecer plantas capazes de ajudar feridas, curar doenças e aliviar a dor, mas também - faculdade essencial e igualmente importante - a distinguir essas plantas daquelas que podiam lhe ser nocivas. São esses conhecimentos empíricos, incorporados no herbalismo e transmitidos de geração em geração, que caracterizam as práticas médicas chamadas primitivas.

Como todos os povos nativos dos trópicos, os brasilíndios souberam beneficiar-se da enorme diversidade da flora e fauna das suas terras. Os seus vastos conhecimentos da vida vegetal oriundos da sua familiaridade com as plantas capacitaram-nos a utilizar-se daquelas que possuíam propriedades medicinais.

Seus conhecimentos, passados de geração em geração, possivelmente não teriam nos alcançado não fossem os relatos de aventureiros e colonizadores. Embora o conteúdo de seus relatos difira em certas particularidades, viajantes e cronistas da época são unânimes em sua admiração pelos vegetais usados nestas terras para fins medicinais. Nem sempre as indicações terapêuticas das plantas mantiveram-se inalteradas ao longo do tempo. Dois conhecidos exemplos são o guaraná (Paullinia cupana Kunth), originalmente prescrito para combate às disenterias, e o maracujá (Passiflora spp.) para febre.

Jean de Léry (1534-1611) em 1563 descreveu o uso do hiyuaré (Hinuraé) - possivelmente Pradosia glycyphloea (Casar.) - empregado pelos indígenas contra o pian. Ele também menciona o petyn, posteriormente identificado como tabaco (Nicotiana tabacum e outras da família das solanáceas), que permitia, segundo ele, mitigar a fome em períodos de guerra e escassez alimentar, além de - ecoando a medicina galênica - "destilar os humores [...] do cérebro".

Em vista das virtudes que lhe são atribuídas goza essa erva de grande estima entre os selvagens; colhem-na e a preparam em pequenas porções que secam em casa. Tomam depois quatro ou cinco folhas que enrolam em uma palma como se fosse um cartucho de especiaria; chegam ao fogo a ponta mais fina, acendem e põem a outra na boca para tirar a fumaça que apesar de solta de novo pelas ventas e pela boca os sustenta a ponto de passarem três a quatro dias sem se alimentar, principalmente na guerra ou quando a necessidade os obriga à abstinência. Mas os selvagens também usam o petyn para destilar os humores supérfluos do cérebro, razão pela qual nunca se encontram sem o respectivo cartucho pendurado no pescoço. Enquanto conversam costumam sorver a fumaça, soltando-a pelas ventas e lábios como já disse, o que lembra um turíbulo. O cheiro não é desagradável. Não vi porém mulheres usá-la e não sei qual seja a razão disso mas direi que experimentei a fumaça do petyn e verifiquei que ela sacia e mitiga a fome.

Para o "bicho-do-pé" (tungíase), os indígenas untavam a lesão com o óleo de uma fruta chamada hibourouhu (Myristica L.). Thevet (1502-1590), monge franciscano que permaneceu em terras brasileiras entre 1555 e 1556, em seu livro Singularidades da França Antarctica a que outros chamam de América, considerava esse óleo próprio para a cura de feridas e úlceras, provando ele mesmo sua ação terapêutica..

Pero de Magalhães Gândavo (?-1590), na bela obra publicada em 1567, História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, foi o primeiro a descrever o óleo de copaíba (Copaifera sp.) como analgésico e cicatrizante eficaz. O seu sucesso terapêutico correu mundo e, durante o século XVII, chegou a ser, ao lado do cravo, anil e tabaco, um dos principais produtos de exportação das províncias do Grão-Pará e Maranhão.

Contudo, é a admirável obra Tratado descritivo do Brasil de 1587, de Gabriel Soares de Souza (1540-1594), que se perpetuou em verdadeiro manual de terapêutica indígena, Recomendava carimã (farinha de mandioca seca), misturada à água, como antídoto de envenenamentos e vermífugo; milho (Zea mays L.) cozido, para tratar doentes com boubas; sumo de caju (Anacardium occidentale L.), pela manhã, em jejum, para a "conservação do estômago" e higiene da boca; emplastros de almécega (Protium heptaphyllum March.; P. brasiliense [Spreng.] Engl.), muitas variantes e subespécies; várias outras espécies para "soldar carne quebrada"; amêndoas-de-pino (figueira-do-inferno - Datura stramonium L.) para purgas, cólicas; araçá (Psidium cattleyanum Sabine e várias da família das mirtáceas) para "doentes de câmaras" (diarreia); tinta de jenipapo (Genipa americana L.) para secar boubas; jaborandi (Philocarpus jaborandi) para feridas na boca; cajá (Spondia lutea L.) para febre e camará (Lantana spinosa L. ex Le Cointe) para sarna.

Frei Vicente do Salvador (1564-1635), em sua obra História do Brasil: 1500-1627, fez ampla descrição da vegetação brasileira. Conservando algumas vezes o seu nome indígena e rebatizando outras em português, indicava o uso de algumas plantas destacando, por exemplo, o poder terapêutico e cicatrizante da cabriúva (Myrocarpus frondosus Allemão, da família das leguminosas, subfam. Papilionoídea), e das folhas da jurubeba (Solanum paniculatum L.). Mencionava ainda, entre outras, a erva fedegosa (feiticeira - Cassia occidentalis L. e outras), a salsaparrilha (Smilax spp.), o andaz (Joannesia princeps Vell. e outras euforbiáceas), como úteis no combate a uma grande variedade de doenças.

Entretanto, a planta medicinal que mais interessou os europeus foi, sem dúvida, a ipecacuanha (Psychotria emetica L.f., Chephaelis ipecacuanha [Brot.] A.Rich., e outras espécies) - palavra originária do tupi i-pe-kaa-guéne, que significa "planta de doente de estrada" - , usada como purgativo e antídoto para qualquer veneno. A indicação medicamentosa nativa é inerente à própria lenda transmitida por inúmeras gerações de índios aos seus descendentes, e exemplifica como uma atenta observação da natureza era capaz de fornecer informações imprescindíveis aos que cuidavam da saúde tribal. Contavam os anciães que a natureza emética da planta havia lhes sido ensinada pela irara, animal que tinha por hábito alimentar-se das raízes e folhas de ipecacuanha, sempre que tivesse bebido água malsã de um pântano, ou alguma água impura, Desse modo, tomaram para si a lição que o animal lhes dera, passando a fazer uso da benfazeja planta sempre que necessário.

Fonte: GURGEL, Cristina. Doenças e curas: o Brasil nos primeiros séculos. São Paulo: Contexto, pág. 61-64.

domingo, 7 de maio de 2023

Ajuricaba

 



De fato, o rio Negro era uma região densamente povoada, e por povos culturalmente bastante avançados. De acordo com o padre João Daniel, até 1750 foram descidos à força 3 milhões de índios do rio Negro. "Insuficiente dizer", escreveu João Daniel, "que alguns povoados tinham mais de mil índios e outros tinham tantos que sequer sabiam os nomes de cada um deles".

A resposta dos índios foi exemplar. Em 1720, os portugueses começam a ouvir falar do tuxaua Ajuricaba, a maior personalidade indígena da história da Amazônia. No começo, ele não hostilizou os portugueses. Como aruaque, Ajuricaba exerceu em mais alto grau um dos talentos de sua cultura: a arte da diplomacia. Rapidamente, ele foi unindo as diversas tribos sob uma confederação tribal, o que não era uma tarefa fácil. A estrutura social das tribos da Amazônia, por uma opção histórica, rechaçava qualquer tipo de poder centralizador. Daí a pulverização dos povos indígenas, que os fez presa fácil para os invasores europeus. Poucas foram as experiências de confederação entre os índios em todo o continente americano, mas Ajuricaba logrou unir as mais de trinta nações do vale do rio Negro, em cerca de quatro anos de trabalho de persuasão.

Outro aspecto da liderança de Ajuricaba era a clareza com que ele sabia distinguir os diversos europeus que começavam a entrar em seu território. Do norte, através das montanhas do Parima e dos vales do Orinoco, vinham os ingleses, os holandeses, os franceses e, mais raramente, os espanhóis. Do sul, em grandes levas e com bastante violência, os portugueses. O conhecimento das diferenças entre os europeus ajudou muito no êxito inicial do levante de Ajuricaba. Ele negociou com os holandeses, que lhe forneceram armas de fogo, pólvora e instrutores. Dos ingleses adquiriu pólvora, chumbo e armas brancas. Finalmente, em 1723, ele se sentiu em condições de atacar os portugueses.

Os manau concentravam-se basicamente em duas posições no alto rio Negro, e em diversas malocas pelo rio Urubu e na localidade hoje chamada Manacapuru. Dessas posições, e com o apoio de diversos outros povos, eles destruíram todos os núcleos de colonos do médio rio Negro, obrigando os portugueses a se refugiar no forte da Barra. Ajuricaba também infligiu vários ataques às tribos que apoiavam os portugueses, gerando uma grande confusão na região.

O governador da província, João da Maia da Gama, imediatamente manda uma carta para Lisboa para informar sobre os ataques. Uma bandeira da Holanda, que Ajuricava sempre desfraldava em sua canoa, era o que deixava os portugueses mais irritados. O fato foi testemunhado por Miguel de Siqueira Chaves e Leandro Gemac de Albuquerque, oficiais portugueses que comandavam tropas na área e por eles imediatamente reportado a Belém. Os arquivos holandeses confirmam o contato com os manaus porque, em 1714, a Companhia das Índias Ocidentais Holandesas enviou o comandante Pieter van der Heyden numa expedição à região do alto rio Branco. Van der Heyden deve ter-se encontrado com os manau, pois logo a seguir alguns guerreiros dessa tribo deram de aparecer no Essequibo, assustando os colonos holandeses. Essas incursões pelo extremo norte começaram a ficar comuns, até o levante de 1723, quando cessaram para sempre, com a quase extinção da tribo guerreira. Maia da Gama assim escreveu:

todas as tribos do rio e com exceção daquelas que estão conosco e contam com missionários são assassinas de meus vassalos e aliadas dos Holandeses. Elas impedem a propagação da fé e continuamente roubam e assaltam meus vassalos, comem carne humana, e vivem como bestas, desafiando a lei natural. [...] Esses bárbaros estão bem armados e amuniciados com armas dadas pelos holandeses, e outras conseguidas por eles e tomadas de homens que foram até lá e intentaram assaltá-los, desobedecendo minhas ordens. Eles não apenas têm o uso das armas mas também se entrincheiraram em cercados de pau e barro com torres de vigilância e defesa. Por essas dissimulações eles se arrogam a um maior orgulho e se julgam no direito de cometer todos os excessos e matanças.

A resposta de Lisboa foi autorizar o governador Maia da Gama a lançar uma expedição punitiva, mas os jesuítas tentaram uma solução negociada, e o padre José de Sousa foi enviado ao rio Negro para propor uma conciliação. O padre conseguiu fazer Ajuricaba trocar a bandeira holandesa pela portuguesa, viu o líder jurar obediência ao rei de Portugal e recebeu a promessa de libertar cinquenta escravos em troca do pagamento de resgate. Padre José de Sousa ficou muito impressionado com Ajuricaba, e relatou ao governador que ele era um homem ainda jovem, muito orgulhoso e arrogante, que se denominava governador de todas as tribos e que pessoalmente tinha-se declarado responsável por todos os agravos contra os portugueses. Se Ajuricaba fosse convencido a trabalhar para os portugueses, o rei teria nele um grande aliado.

Ajuricaba, no entanto, não estava interessado em se aliar a nenhum europeu. E, mal o jesuíta deixou o rio Negro, os ataques recomeçaram, e Ajuricaba nunca libertou os cinquenta escravos, embora tenha recebido o dinheiro. Em 1728, depois de receber a aprovação dos próprios jesuítas, Maia da Gama organiza uma poderosa força punitiva, sob o comando do capitão João Paes do Amaral. Sobre isso, Maia da Gama registrou:

Ficou decidido que eles primeiro dariam busca ao bárbaro e infiel Ajuricaba. E nossa gente o surpreendeu em sua aldeia, mas ele encetou uma defesa antes que o cerco se completasse. Depois de alguns tiros de uma peça de artilharia que nossos homens tinham levado, ele resolveu escapar e abandonar a aldeia acompanhado por alguns maiorais. [...] Nossos homens saíram em perseguição e mantiveram escaramuças com ele cada vez que ele entrava nas vilas de seus aliados. O bárbaro chefe Ajuricaba e mais seis ou sete de seus chefes aliados foram finalmente presos e duzentos ou trezentos prisioneiros foram pegos junto com ele. Quarenta desses serão trazidos para pagar os custos da expedição feitos pelo tesouro de Sua Majestade e mais trinta para a coletoria real.

Ajuricaba, posto a ferros junto com outros guerreiros, com eles foi transportado para Belém, onde todos seriam vendidos como escravos. Foi então que o grande líder manau fez o gesto que lhe garantiu um lugar na história e no coração do povo da Amazônia. Os portugueses descreveram assim o seu ato desesperado:

Quando Ajuricaba estava vindo como prisioneiro para a cidade, e já estava em suas águas, ele e seus homens se levantaram na canoa em que se encontravam acorrentados, e tentaram matar os soldados. Esses tomaram de suas armas e bateram em alguns e mataram outros. Ajuricaba então pulou no mar com um outro chefe e não reapareceu mais vivo ou morto. Pondo de lado a pena que sentimos pela perda de uma alma, ele nos fez um grande favor aos nos liberar da obrigação de tê-lo prisioneiro.

Ajuricaba pulou da canoa de seus opressores para as águas da memória popular, libertando-se dos grilhões e ressuscitando como um símbolo de coragem, liberdade e inspiração.

Em 1729, os índios do rio Negro novamente se rebelam, sob o comando do manau Teodósio. Depois de alguns combates, Teodósio é preso e enviado a Lisboa. Novamente, em 1757, outro líder manau forma uma federação de tribos no rio Negro, ataca as vilas de Lamalonga e Moreira, e ocupa a ilha de Timoní. A rebelião é sufocada violentamente, mas a lição de Ajuricaba jamais é esquecida.

A figura de Ajuricaba ficou na memória popular. Repercutiu nas ações dos diversos líderes indígenas que se rebelaram e enfrentaram os colonizadores, mesmo em desvantagem. Um século depois de sua morte, o nome do guerreiro seguia inspirando a rebeldia. No dia 16 de agosto de 1835, ao ser empossado presidente do Pará, o líder cabano Eduardo Nogueira Angelim fez um discurso emocionado e de grande significado: "Corajoso povo do Pará, valentes defensores desta terra e da liberdade! Depois de nove dias de fogo assassino somos os senhores desta bela cidade de Belém. [...] Viva os descendentes de Ajuricaba. [...] Viva o povo livre do Pará!"

Fonte: SOUZA, Márcio. História da Amazônia: do período pré-colombiano aos desafios do século XXI [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Record, 2019, pág. 147-150.

domingo, 19 de março de 2023

A Lenda do Arroio Chuí



 Diz uma lenda que o arroio foi encantado pelo grande chefe índio uruguaio Charrua, antes de morrer. Esse pajé tinha sido flechado, por questão de terras, por um cacique índio brasileiro, que sempre fora seu amigo. Não acreditou que tinha sido ele que o atingira e, moribundo, pendendo a cabeça para a esquerda e para a direita, ficou chamando pelo amigo. O rio ficou, pelos séculos afora, imitando o seu gesto, para lembrar sempre que a amizade de brasileiros e uruguaios nunca será quebrada, por causa do solo.

Fonte: MANCHETE (Rio de Janeiro/RJ), edição 694, 07 de Agosto de 1965, pág. 41

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Missões Jesuíticas no Brasil

 



O dia em uma missão jesuítica começava com o toque do sino. Cada morador fazia sua oração individualmente. Por volta das 7h, já estavam todos participando da missa, com as crianças cantando hinos. Minutos antes, o sino do campanário da igreja convocava a cidade a se dirigir à praça central, local onde aconteciam os jogos, os julgamentos, as reuniões políticas, as apresentações de teatro e as procissões religiosas. O café da manhã era distribuído. Se havia mortos para enterrar e doentes para visitar, essas atividades ocupavam a faixa das 8h.

Na sequência começavam os expedientes para os adultos e as aulas para as crianças. Os trabalhadores andavam em procissão, que atravessava o vilarejo e deixava os indígenas em cada um de seus postos, até que o padre e os cantores voltavam sozinhos. Ao meio-dia, o Angelus e uma refeição eram seguidos por uma sesta de uma hora, depois da qual o trabalho era retomado até as 16h. Chegava então o momento da ceia, da oração do rosário e do sono. Antes mesmo das 20h, todos já estavam recolhidos e as luzes, apagadas.

O expediente de trabalho na área comum, chamada tupamba'e, durava seis horas, dois dias por semana. Nos demais dias, o indígena podia plantar na porção de terra de sua própria família, a avamba'e. Não havia dinheiro nas missões: a moeda de troca podia ser milho, mel ou fumo, dependendo da região e da época do ano. As missões exportavam esculturas, violinos, tecidos, frutas e couro. Compravam ferramentas, sal, livros e papel. Quanto a população era insuficiente para produzir alimentos, as aldeias contavam com fazendas paralelas, mantidas com escravos negros.

Nos séculos XVII e XVIII, ao sul da América Latina, o conceito de aldeia indígena seria aplicado com tamanha radicalidade que passaria a ganhar um nome específico: reducciones, em espanhol, ou missões, em português. Organizadas como cidades de coabitação entre religiosos e indígenas, chegariam ao ponto de organizar exércitos para impedir a invasão de colonos em busca de escravos entre os moradores.

As missões formariam uma das experiências mais interessantes de tudo o que se viu em termos de colonização nos últimos séculos. Importantes cidades gaúchas são resultado desse experimento, realizado na faixa de terra que engloba partes dos atuais Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai e os estados brasileiros de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Era espantoso: grupos de brancos, com motivações religiosas, reuniam habitantes locais para formar cidades ao estilo ocidental, mas com gestão delegada para os próprios indígenas. Os padres não abriam mão do controle sobre as missões, é claro. E, como de costume, exigiam que os nativos abandonassem antigos hábitos envolvendo bebidas, poligamia e consulta a xamãs. Mas a administração do dia a dia era delegada a um conselho de notáveis, formado por indígenas cristãos, trabalhadores, vestidos e alfabetizados. No auge, ao fim do século XVII e somando todas as mais de quarenta missões, mais de 150 mil pessoas participariam simultaneamente desse modelo de gestão, a maioria da etnia guarani.

Vindos da Amazônia 2 mil anos antes, os guaranis eram um povo seminômade, que passava no máximo sete anos num determinado lote de terra até exauri-la com a agricultura. Raramente usavam roupas, sobretudo os homens, e seguiam a divisão de tarefas tradicional, com homens cuidando de caça e pesca e as mulheres de todo o resto. Produziam cerâmica e armas com pedra e lascas de arenitos.

No contato com os missionários, eles reagiram bem. De maneira geral, aceitaram adaptar seu estilo de vida e se mostraram interessados na proteção que os jesuítas ajudariam a proporcionar. Os religiosos, por sua vez, seguiam a estratégia de aceitação extremamente respeitosa de alguns costumes locais.

O conselho de líderes era eleito todos os anos. Formado por índios gestores e representantes dos diferentes bairros da missão era comandado pelo parokaitara, cargo normalmente ocupado pelo cacique - dentro da burocracia dos espanhóis, era uma espécie de prefeito que respondia ao governador da província, este, sim, um espanhol, sobre o andamento dos trabalhos. O parokaitara tinha dois assessores diretos, os ivírayucu. Durante as missas e as celebrações, os três tinham o direito de sentar em lugares de destaque na igreja.

Os jesuítas costumavam assumir o controle sobre o poder judiciário, mas não tomavam decisões sobre as punições sem consultar o juiz eleito para mandatos atuais, um índio conhecido como alguacil. O exílio era a pena máxima, ainda que raramente aplicada. O mais comum era a determinação de castigos leves, geralmente punições físicas, executada por índios selecionados para a tarefa.

O serviço de saúde era eficiente: enfermeiras índias, ensinadas pelos padres, tinham o conhecimento básico para identificar sintomas e prestar atendimento de emergência. Em casos mais graves, em especial durante as epidemias, as profissionais de saúde procuravam os religiosos para que ninguém morresse sem receber a extrema-unção. Os milagres ajudavam, pois muitos índios relatavam sonhos com Santo Inácio, nos quais ele reclamava dos hábitos alimentares da pessoa e dava broncas do gênero: "Vocês comem tudo o que encontram pela frente! Por isso estão enfermos!".

Sobre quem falecia, os jesuítas diziam que, haviam encontrado Yvy Marã-ey, a terra sem mal, lugar que, segundo os guaranis, era o país sem tristeza, sem calor exagerado nem frio insuportável, onde tudo era ameno e tranquilo e as famílias admiravam ancestrais de passado supostamente glorioso. Em sonhos, os índios relatavam ver exatamente isto, o paraíso em forma de floresta sem ameaças. Ou, pelo contrário, diziam-se perseguidos por um inferno ocupado por serpentes e onças.

A educação era importantíssima, e os jesuítas treinavam professores entre os índios. Como geralmente viviam nas missões em duplas, com visitação ocasionais de colegas e superiores da ordem, os religiosos só davam conta de lecionar religião. As aulas eram ministradas no idioma local, em geral a língua guarani, e raras vezes em espanhol. Meninos e meninas eram separados em salas diferentes.

As missões seguiam um traçado urbanístico padrão: uma praça central reunia o cemitério, a escola, a igreja, e o hospital, as janelas sempre voltadas para a praça, onde se encontravam uma cruz e uma estátua do santo padroeiro da cidadezinha em questão. As casas, normalmente construídas de madeira, mas às vezes também de pedra, ficavam distribuídas em torno da praça, com quartos agrupados ao redor de varandas comunitárias.

Nos limites das cidades, que geralmente eram muradas, criava-se gado e plantavam-se pomares, cana-de-açúcar, tabaco, algodão e erva-mate, boa parte desses produtos para exportação. Havia índios treinados para serem tecelões e ferreiros, produzindo armas, arados de ferro e roupas. As missões maiores contavam ainda com silvícolas treinados para fabricar chapéus ou barcos, músicos, pintores e especializados na produção e cópia de livros manuscritos. Para clarear as edificações, uma argila esbranquiçada era usada como cobertura das paredes externas.

Havia pontes, canais e fontes de água em quantidades incomuns até mesmo em cidades europeias de porte semelhante. E também silos, depósitos e casas construídas para abrigar as viúvas. Os órfãos eram encaminhados para novas famílias, que se organizavam segundo os moldes de pai, mãe e filhos, não mais na vasta reunião de parentes e esposas em ocas únicas de grandes proporções.

As igrejas eram decoradas seguindo um estilo barroco, com esculturas feitas de madeiras de diferentes cores e texturas, reunidas na mesma imagem, e com pinturas a óleo em tela. Os relevos em arenito reproduziam cenas da Bíblia ou animais importantes para as tradições dos silvícolas.

Fonte: CORDEIRO, Tiago. A grande aventura dos jesuítas no Brasil. São Paulo: Planeta, 2016, pág. 158-164.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

O deus Tupã



 Muito mais vago que o Olorum dos negros nagôs, era o Tupã dos ameríndios brasileiros.

Era como o Sita dos árias, o Ma dos egípcios, o Tau dos chineses, o Morai dos gregos, entidade acima das contingências humanas, inacessível às súplicas, indiferente aos destinos terrenos. Não tinha a manifestação inicial dos cultos primitivos, que é a lenda explicativa, o conto etiológico. Não fazia milagres nem tinha forma.

Era Tupã o que os folcloristas ingleses chamam Nature God, personificação abstrata de forças cósmicas, com atuação meteórica, sem interferência na vida sublunar. Pertencia à fase inicial das religiões. Era um elemento que Durkheim dizia préanimiste. Lévy-Bruhl escreve que, nas sociedades primitivas, todas as funções de presença de seres sobrenaturais. E como toda participação tende a ser representada nos fenômenos meteorológicos, que deviam impressionar maiormente aos indígenas, era natural que certos seres fossem apontados como dirigindo o trovão, o raio, o relâmpago e a chuva. Antes, esses fenômenos seriam deificados intrinsecamente. Na fase atual é que a diversificação se completa.

O trovão podia ser um simples fenômeno, o trovão mesmo, deixar de representar outra entidade, possivelmente o espírito diretor do fenômeno. É a aplicação da lei da participação que Lévy-Bruhl enunciou.

Quando o padre Manuel da Nóbrega, o grande catequista, chegou ao Brasil em 1549 e o estudou, sua impressão, lealmente expressa numa carta ("Informação das Terras do Brasil, nas Cartas do Brasil, Rio, 1931, p. 99), revela a perfeita ausência de culto e de personalidade das trovoadas:

Essa gentilidade nenhuma cousa adora, nem conhecem a Deus; somente aos trovões chamam Tupane, que é como quem diz cousa divina. E assim nós não temos outro vocábulo mais conveniente para os trazer ao conhecimento de Deus que chamar-lhe Pai Tupane.

O huguenote francês Jean de Léry tivera a mesma observação e praticara processo idêntico:

Quando o trovão ribombava, a que chamavam Tupã, assustavam-se e nós aproveitávamos o lance para dizer-lhes que era Deus que assim fazia tremer o céu e a terra, a fim de mostrar sua grandeza e poder.

Gandavo notara o mesmo:

Nam adoram a cousa alguma, nem têm para si que há depois da morte gloria par bons, e pena para maus.

O padre Fernão Cardim alude que:

... não têm nome próprio com que expliquem a Deus, mas dizem que Tupã é o que faz os trovões e relâmpagos, e que este é o que lhes deu as enxadas e mantimentos, e por não terem outro nome mais próprio e natural, chamam Deus Tupã.

O padre Cláudio de Abbeville rezava pela mesma cartilha:

... os tupinambás não tinham espécie alguma de religião, pois não adoravam um Deus, celeste ou terrestre, nem o ouro e a prata, nem a madeira e pedras preciosas ou outra qualquer cousa.

O franciscano André Thevet endossa o depoimento:

Elle a esté habitée et est habitée pour le iourd'huy, outre les Chrestiens, qui depuis America Vespuce l'habitent, de gens merueilleusement estranges et sauvages, sans foy, sans loy, sans religion, sans civilité aucune, mais vivans comme bestes irraisonnables, ainsi que nature les a produit.

Ivo d"Evreux escreve:

Estes selvagens sempre chamaram Deus - Tupã, nome que dão ao trovão (Viagem ao Norte do Brasil, Rio de Janeiro, 1929, p. 291).

O padre José de Anchieta (Cartas, informações, etc. Rio, 1933, p. 331) na Informação do Brasil e de suas Capitanias, datada de 1584, registra a crença inalterável quase. Mas, 34 anos são passados em ensinança religiosa intensa e já surge um indício de adaptação. Os trovões significam alguma coisa:

Nenhuma criatura adoram por Deus, somente os trovões cuidam que são Deus, mas nem por isso lhes fazem hora alguma, nem comumente têm ídolos nem sortes, nem comunicação com o demônio, posto que têm medo dele, porque às vezes os mata nos matos a pancada, ou nos rios e, porque lhes não faça mal, em alguns lugares medonhos e infamados disso, quando passam por eles, lhe deixam alguma flecha ou penas ou outra coisa como por oferta.

Essa identificação dos trovões com Tupã e este com um deus vai se destacando, vagarosamente. Já em 10 de agosto de 1549, no mesmo ano de sua chegada, o padre Nóbrega escreve ter encontrado um Pajé que se dizia amigo pessoal de Deus

e que aquele Deus dos céus era seu amigo e lhe aparecia frequentes vezes nas nuvens, nos trovões e raios (Cartas do Brasil, p. 59).

Quando o mito de Tupã conseguiu infiltrar-se no espírito do selvagem, não pôde ficar imune de influências estranhas. O próprio Thevet dá várias interpretações ao Tupã naquele começo do século XVI. Nas Les Singularitez de la France Antarctique (ed. Gaffarel, Paris, 1878, p. 134) nega a presença da religião. À p. 138 fala em Tupã:

Noz Sauuages font mention d'un grand Seigneur, et le nommét en leur langue, Toupan, lequel, dissent-ils, estant là haut fait plouuoir et tonner: mais ils n'ont aucune maniere de prier ne honnorer ne une fois, ne autre, ne lieu à ce propre.

São as palavras de Anchieta. Mas o franciscano, nos inéditos de que Alfred Métraux revelou alguns trechos (La Religion des Tupinamba, Lib., Ernest Leroux, Paris, 1928, p. 52), confidencia deduções novas:

Ils appellent Toupan, et ne croyent point qu'il aye puissance de faire pleuvoir, tonner, ou donner beau temps, ny mesmes leur faire venir aucun fruit.

É, evidentemente, um Nature God...

O Tupã, mesmo batizado pela mão venerável do Jesuíta, ficou com sangue bárbaro, cheirando às crendices locais e nem sempre conservando hábitos católicos. Com o passar dos tempos, mesmo para tribos que souberam do trovão deificado ou de Tupã consciente, o mito tomou forma de crença, mas o culto nunca chegou a ser praticado.

Fonte: CÂMARA CASCUDO, Luís da. Geografia dos Mitos Brasileiros. São Paulo: Global, 2012, pág. 59-61. (edição digital)

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

O ritual antropofágico dos tupinambás

 



A função mais nobre da "espada Tupinambá" não era propriamente a de abater inimigos durante o combate, embora isso também acontecesse com frequência. Era com a ibirapema que as tribos litorâneas sacrificavam "os contrários" (como diziam os lusos do século XVI) que tinham capturado em batalha, com um golpe certeiro na região da nuca. O inimigo morto dessa maneira era imediatamente esquartejado e transformados numa espécie de churrasco, que devia ser consumido por todos os membros do grupo - inclusive os bebês, cujas mães faziam questão de besuntar os seios no sangue do inimigo antes de dar de mamar.

É difícil evitar a conclusão de que a antropofagia era um dos elementos centrais da sociedade dos Tupi da costa (e também de grupos como os Guarani e os Juruna). Capturar e devorar os membros de tribos rivais eram atividades que marcavam os homens corajosos e altivos. A justificativa para a prática não era a necessidade de exterminar os adversários ou de conquistar seus territórios, mas a obrigação de manter vivo um ciclo aparentemente interminável de vingança que enobrecia os que participavam dele. "Não sabes que tu e os teus mataram muitos parentes nossos e muitos amigos? Vamos tirar a nossa desforra e vingar essas mortes. Nós te mataremos, assaremos e comeremos", dizem os Tupinambá a uma vítima prestes a ser devorada no relato de frei Claude D'Abbeville, franciscano, que participou da tentativa de colonização francesa no Maranhão no começo do século XVII. A resposta do futuro assado? "Pouco me importa. Tu me matarás, porém eu já matei muitos companheiros teus. Se me comerdes, fareis apenas o que já fiz eu mesmo. Quantas vezes me enchi com a carne da tua nação! Ademais, tenho irmão e primos que me vingarão".

Além da justificativa social - a chance de ganhar renome e glória - , havia ainda uma justificativa que podemos chamar de religiosa. Só quem matasse e comesse muitos inimigos teria acesso à Terra Sem Mal, o "paraíso" Tupinambá onde haveria eterna abundância de comida (em especial carne de caça), bebida (o cauim, feito a partir de mandioca ou milho fermentados) e festejos. Os grandes guerreiros ganhavam a chance de se unir aos ancestrais igualmente valorosos na Terra Sem Mal depois de sua morte, mas alguns pajés-profetas, os caraíbas, pregavam que era possível encontrar esse jardim de delícias aqui mesmo na Terra. Predicando de aldeia em aldeia, arrebanhavam seguidores e podem ter desencadeado migrações em massa na época pré-colonial, embora seu papel só possa ser documentado com clareza a partir da chegada dos europeus. Os caraíbas também eram conhecidos pela eloquência e por reforçar, em suas pregações, a importância da vingança antropofágica como "passaporte" para a Terra Sem Mal.

É claro que, antes de poder comer o inimigo, é preciso derrotá-lo e capturá-lo. Para atingir esse objetivo, os Tupinambá e outros grupos litorâneos desenvolveram uma série de técnicas bélicas simples e eficazes. Para incursões de longa distância, o costume era montar "esquadras" com dezenas de canoas escavadas em troncos, cada uma delas carregando entre 20 e 30 guerreiros, que deslizavam rapidamente pelos rios ou pela costa até chegar ao território do inimigo. Batalhas navais envolvendo a troca maciça de flechas entre dois aglomerados de barcos podiam decidir a parada, ou então a primeira etapa da refrega acontecia em terra firme, com os arcos sendo usados para acertar inimigos a distâncias mais longas e as ibirapemas servindo como o principal armamento nos duelos corpo a corpo. Chegar a essa fase da luta já era uma proeza, aliás, considerando a letalidade das flechas - medindo cerca de 1,60 metro, com pontas que podiam ser de bambu, de dente de tubarão ou mesmo ferrões de arraia, "dando em qualquer pau o abrem pelo meio, e acontece passarem um homem de parte a parte, e ir pregar no chão", escreve um cronista. Quando o objetivo era atacar aldeias fortificadas com troncos de madeira, as pontas das flechas eram embebidas em algodão e incendiadas, o que produzia um bombardeio rudimentar de coquetéis Molotov voadores, queimando cabanas e forçando os defensores sobreviventes a deixar suas casas.

Os guerreiros que tentavam evitar os golpes das maças dos inimigos ou se proteger das flechas portavam escudos redondos de couro de anta. Se havia a chance de uma campanha militar prolongada, os Tupi preparavam mantimentos que podiam durar por muitos meses, como farinha de mandioca tostada e farinha de peixe (basicamente peixes tostados e moídos), ou então aproveitavam a época da piracema para atacar, o que lhes garantia acesso a um farto suprimento de pescado conforme os peixes se aglomeravam para tentar se reproduzir. A fim de atacar aldeias fortificadas levando o mínimo possível de flechadas, montavam ainda uma espécie de contramuro móvel, uma armação feita de galhos e folhas que permitia que os guerreiros detrás dela avançassem lentamente rumo ao povoado dos inimigos. E, ao cercar a comunidade que desejavam capturar, podiam fazer uso de uma forma rudimentar de guerra química: queimavam grandes quantidades de pimenta de maneira tal que o vento levaria os gases da combustão rumo aos defensores, fazendo com que os olhos deles ardessem.

Quando o combate finalmente acontecia, o principal objetivo era capturar inimigos para o ritual antropofágico, embora os gravemente feridos fossem sacrificados e assados no próprio campo de batalha. O sujeito capturado ia para a aldeia do guerreiro que o derrotara e podia ficar em cativeiro durante meses, recebendo comida, uma rede só para ele e até uma companheira (crianças que nasciam dessa união em geral também eram devoradas). No dia marcado para o sacrifício, todos consumiam grande quantidade de cauim, e o prisioneiro, amarrado ritualmente com cordas, tinha a chance de tentar se vingar antecipadamente atirando pedras em seus captores. Após o ápice do ritual com a pancada da ibirapema, o matador (em geral, o sujeito que capturara o inimigo) tinha de se abster da carne da vítima. Em compensação, ganhava um novo nome, de forma que a longa fieira de apelidos era uma das marcas do guerreiro Tupi que tivera a honra de sacrificar diversos inimigos.

Fonte: LOPES, Reinaldo José. 1499: a pré-história do Brasil. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017, pág. 119-121.

domingo, 28 de agosto de 2022

Boleadeira

 



A boleadeira (bolas) é um aperfeiçoamento da pedra de arremessar, formada por dois ou mais pesos (geralmente bolas de pedra dura e densa) atados a uma corda. Foi usada pelos indígenas das Américas desde a Pré-História, mais notadamente pelos incas, que a chamavam liwi e também por mapuches, charruas e patagões, que as usaram contra a cavalaria dos espanhóis. A avestruzeira ou nhanduzeira (chamada chumé o tálakgáp'n pelos tehuelches da Patagônia) tem duas bolas e é usada para caçar emas emaranhando-se no seu pescoço. Com três pesos, é chamada três-marias ou potreira (yachiko para os tehuelches), usada para prender-se nas pernas de animais maiores, como touros e cavalos. Gaúchos tradicionalmente levavam uma nhanduzeira à cintura e uma potreira à bandoleira. Geralmente são armadas com cordas de 1,5 a 2 metros e as bolas são de pesos diferentes, para se separarem no voo. O alcance é de 30 metros.

Os inuits ou esquimós usavam uma variedade chamada kalumiktun ou kilumitutit, com quatro a oito "bolas" (nesse caso, geralmente pedaços de osso), para apanhar aves no voo: era segurada no centro, girada horizontalmente sobre a cabeça e lançada contra uma revoada de pássaros. Os maoris usaram uma arma semelhante, chamada poa ou poi.

Fonte: COSTA, Antonio Luiz M.C. Armas Brancas - Lanças, espadas, maças e flechas: Como lutar sem pólvora da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco, 2015, pág. 143.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Ataque dos índios Uaymiris

 



AMAZONAS. - (...)

Tinhão-se recebido em Manáos noticias desagradaveis do Rio-Negro: o Amazonas narra-as do seguinte modo:

"Os Uaymiris, selvagens bravios do rio Jauapery, descêrão ás praias e dominão a margem esquerda do Rio-Negro, desde o quarteirão de Anna-Vilhana até a embocadura do Rio Branco. A população, sobresaltada, procurou asylar-se na margem direita, nos districtos de Ayrão e de Moura, onde não é provavel que os selvagens vão, porque não são navegadores, e nem as ubás, de que usão, se prestão ás grandes travessias. Apenas servem para se transportarem para as ilhas pelo lado mais estreito, e nesses ilhas passão o verão por causa da abundancia de ovos e peixe que ha na secca do rio.

O tenente Souza Lobato, que segue para o Rio-Branco, acha-se parado em Moura e receioso de proseguir em sua viagem.

De bordo do vapor, distinguiu-se perfeitamente na praia da ilha do Jacaré um magote de gentios, a mui curta distancia, tanto que houve quem contasse até ao numero de 14 seres.

Todos os annos, os Uaymiris fazem suas correrias, e o mais é que, tão proximo da capital, ainda se não pôde extinguir essa horda de selvagens, cuja indole perversa e sanguinaria tão tristes resultados tem dado.

Ha bem pouco tempo, derão elles cabo de uma familia de 14 pessoas, escapando apenas uma, que pôde fugir em uma pequena montaria. O anno passado, atacárão a embarcação do Venezuelano d. André Level, ferindo e matando-lhe algumas pessoas de equipagem, além do roubo e prejuizo que soffreu em suas mercadorias."

Fonte: DIARIO DE SÃO PAULO (São Paulo/SP), 27 de Dezembro de 1871, pág. 01, col. 02

sábado, 4 de junho de 2022

Ataque dos índios coroados

 



Mato Grosso. - (...)

- Os indios coroados continuavam em suas correrias. Em S. Vicente Ferrer assassinaram a Theotonio Góes Aranha e incendiaram a caza.

No sitio Olhos d'agua mataram a flexadas, cacetadas e com fogo ao velho Manoel do Nascimento, a Miquelina de Goveia e uma moça, filha desta, de nome Maria da Conceição, cujos corpos forão mutillados por forma horrorosa.

Os indios, em serra acima vão se tornando cada vez mais encarniçados nas suas medonhas e devastadoras correrias. Já existem queimados muitos sitios de lavoura, outros abandonados pelos proprietarios que não dispõem de grande pessoal.

- A presidencia contratou o bravo indio capitão Alexandre Bueno para cathechisar e aldear os indios que infestam a provincia.

Fonte: O CEARENSE (Fortaleza/CE), 16 de Setembro de 1877, pág. 01, col. 03

terça-feira, 26 de abril de 2022

De Cacimbinhas a Piratini

 



(...)

De Cacimbinhas seguimos para ENE, por uma vereda pouco conhecida, até Piratinim, atravessando uma cochilha muito alta, esgalho da serra dos Tapes. No topo d'esta lombada, crescendo entre os rochedos, havia arvores anãs e moitas em pequenas manchas, o que, desde que sahiramos de Pelotas, mais se parecia com floresta. Toda a região é muito selvatica; não passámos por nem uma casa, e pouco gado encontrámos n'uma corrida de seis leguas. Uma vez demos em cima de um bando de emas, umas doze mais ou menos, que pastavam entre as moitas e as pedras; eram muito mansas e nem nos olharam, até chegarmos a tiro de pistola; então desataram nas suas passadas gingadas, e sumiram-se por traz de um morro.

Piratinim é um povoado de bom tamanho, bellamente situado n'uma pequena chapada, abrigada por cochilhas mais altas ao sul e a oeste. Vistas á distancia, as casas brancas de telhas vermelhas são admiravelmente pittorescas. São costeadas por uma linha de eucalyptus, que algumas pessoas emprehendedoras introduziram, e no meio do povoado vem-se as torres meio arruinadas de uma igreja antiga. Esta igreja e outros edificios do logar são de grande interesse historico, pois Piratinim, durante muitos annos, foi a capital dos revolucionarios rio-grandense, a séde de sua legislatura republicana, e, nominalmente pelo menos, de seu presidente. Historica e politicamente, a revolução está morta, mas vive ainda na memoria do povo. É curioso notar o tom entre orgulho e desafio com que alguns velhos fallam de cousas que succederam "no tempo da Republica" ou "na independencia". A revolução póde ter sido insensata; mas o simples nome de liberdade exerce uma attração admiravel sobre esta gente, e as sorpresas e retiradas rapidas, as longas cavalgadas pelas cochilhas, e as escaramuçasinhas ruidosas, satisfaziam, mais do que tudo, o seu amor selvativo de aventuras. Em toda a zona da serra, nunca encontrei uma pessoa que não se orgulhasse da Republica Rio Grandense, morta como está.

(...)

Visitei a secretaria da camara municipal, mas não creio que se encontrem alli muitos papeis de interesse historico: muitos foram destruidos depois da rebellião, e outros têm sido tirados. Sem duvida, muitos factos importantes relativos á republica poderiam ser respigados de papeis particulares e das lembranças dos velhos. Infelizmente, os historiadores brazileiros julgam que o interesse real da historia concentra-se no dominio dos documentos, que apenas chronicam os acontecimentos do modo mais secco, e esquecem que a verdadeira vida do povo só com o povo se póde aprender.

Piratinim é o centro de uma importante zona de criação. Diz-se que antigamente colhia-se bastante trigo na visinhança, porém este e outros generos de agricultura estão abandonados. Ha muitos armazens de bom tamanho, algumas officinas pequenas e duas hospedarias; uma carreta passa pelo logar duas vezes por semana, mas não ha dilligencias. Aqui e em Cacimbinhas ha estações telegraphicas, mas é de suppor que os estacionarios não tenham muito que fazer.

Umas cinco ou seis milhas a NO de Piratinim ha um morro alto, conhecido tradicionalmente pelo nome de - serra das Panellas. Suspeitando que se poderia encontrar louça antiga dos indios, armei uma excursão em companhia de muitos cavalheiros de Piratinim. A serra, uma das mais altas d'aquellas redondezas, compõe-se de gneiss e granito, e serve de mãi a muitos arroios; aqui, pela primeira vez n'esta jornada, vi matta verdadeira, bosques isolados margeando os arroios. Debalde procurei reliquias de indios na terra aberta; mas, ao entrar na matta, encontrei diversas covas entre as massas cahidas de gneiss, e em uma d'ellas encontrei diversos fragmentos de vasos de barro. Cavando a terra, encontrei mais abaixo outros fragmentos, e, reunindo-os, consegui restaurar a vasilha quasi inteiramente. Era da fórma usada ordinariamente pelos indios para cozinharem - uma panella baixa, com os lados bojantes, o fundo chato; o material era uma argilha arenosa, grosseira, misturada com cinzas, e não tinha outro ornamento além de um bordo mais grosso, marcado a dedo. Havia ainda outros fragmentos de duas ou tres vasilhas, algumas d'ellas com linhas toscas traçadas com um paosinho na superficie. Pedaços de madeira carbonisada estavam de envolta com a louça, e o tecto da cova estava tisnado, como se muito tempo estivesse exposto ao fumo. Investigámos cuidadosamente as covas proximas, porém apenas encontrei dois ou tres cacos de louça. Com material tão insignificante, seria precipitado inferir que os louceiros viviam certamente nas covas. Entretanto, o facto de se encontrarem muitos cacos parece favorecer esta supposição, e o tecto ennegrecido indicava que estivera exposto a mais de um fogo. O lugar era secco, abrigado pela matta e proximo a agua corrente, e podia muito bem ter sido usado como habitação por alguma familia de indios, troglodytas por accidente, senão por costume.

Estas e algumas outras excursões menores levaram muitos dias, e, dispondo de tempo limitado, decidi ir directamente de Piratinim a Pelotas, á cavallo, trazendo Pedro, e deixando que meu companheiro voltasse pelo caminho de Cacimbinhas. A viagem durou tres dias, por uma estrada que em parte seguia o leito do arroio Piratinim, que entra no S. Gonçalo ao sul de Pelotas. Junto ao povoado cruzámos uma lombada granitica, evidentemente continuação da serra dos Tapes, mas chamada localmente de Serra das Cachoeiras, serra que corre para NNE. Transposta esta, andámos uns 70 kilometros por escarpas revoltas de rochas metamorphicas, gueiss e schisto, que corriam parellelas á serraria e inclinavam tão fortemente para ESE, que muitas vezes eram quasi perpendiculares. Como a estrada era quasi um angulo recto ao horisonte geologico, ver-se-ha que os 70 kilometros representam uma enorme densidade de rocha, 35,000 metros ou mais.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 08 de Novembro de 1886, pág. 02, col. 05-06


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Os indomáveis Parintins

 



Por cartas particulares recebidas de Manáos sabe-se que o Dr. Barbosa Rodrigues preparava-se para seguir para o rio Janapery e d'ahi para o lago Curinahú, onde pela primeira vez se vae encontrar com os Crichanás. Ahi existem malocas que o explorador não conhece e cujos habitantes estendem as suas correrias até Ayrão, e pelas praias do Jacaré onde tem feito grande carnificina.

Depois de se encontrar com os Crichanás, pretende o Dr. Barbosa Rodrigues subir pela foz principal do Janapery, a encontrar-se com indios já seus conhecidos e arranchal-os no aldêamento que fundou.

Diversos negociantes do Rio Madeira convidaram o Dr. Barbosa Rodrigues a ir domar os Parintintins ou Parintins, até hoje indomaveis. Ainda nenhum missionario nem negociante algum poude chegar até elles.

Para esse fim offerecem-lhe conducção, viveres, pessoal, tudo enfim quanto elle desejar.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 10 de Outubro de 1884, pág. 01, col. 05

quarta-feira, 16 de março de 2022

Indígenas no caminho entre o Rio Grande do Sul e São Paulo em 1841

 



ABORIGINES

Fragmento de viagem

Quem vem das campinas do Rio Grande do Sul, para a província de S.Paulo, tem de atravessar largos sertões, caudalosos rios, e magnificos campos. Fizemos esta viagem em 1841, e desse tempo são estaas notas, que agora sugeitamos ao prélo, e offerecemos ao publico.

Partindo da Cruz Alta, passámos no Passo-Fundo, Matto Castelhano, Campo do Meio, Vaccaria, e chegámos ao Rio Pelotas, que serve de divisa entre o Rio-Grande e Santa Catharina; atravessando o rio chegámos aos Campos Novos, de onde fizemos uma pequena digressão aos Campos de Palmas, e voltando de lá retomamos nosso caminho passando pela então pequena povoação de Curitibanos, tomamos a direcção do Sertão chamado de S. Paulo, onde se acha o pequeno rio Canôas, que é a divisa de Santa Catharina, e S. Paulo, entrando no territorio desta ultima provincia, chegámos ao importante registro, e pequena povoação do Rio-Negro, e depois nos internâmos pela provincia, fazendo ainda diversas digresões pelas mattas e rios da comarca de Coritiba, hoje provincia do Paraná.

Em todo este trajecto encontrámos sempre noticias aterradoras da proximidade, e invasão dos bugres bravios, restos dessas antigas tribus de aborigenes, e que habitão as mattas e sertões desses lugares. E com effeito, aqui encontra-se os restos de uma habitação que os bugres incendiarão, depois de saquearem, e darem a morte a todos os moradores; ali encontrão-se os vestigios de alguns assassinatos, feitos nos viajante que incautos pernoitavão nos lugares de correrias dos bugres; acolá encontravão-se innumeras cruzes, que provavão que n'aquelle logar tinah havido uma matança de passageiros; mais além, ainda se achavão ossadas humanas, e ossadas de cavallos, resultado de um assalto de bugres que não tinhão poupado uns e outros: enfim, por toda a parte os signaes de devastação, marcavão o aparecimento das hordas selvagens. Desejosos de saber qual a tribu a que pertencião estas hordas, e porque motivo levados só pelo espirito do saque, e do roubo, comettião tantas atrocidades, tratámos de estudar o caracter de alguns bugres semi-domesticos, que apparecião em differentes pontos, e com quem tivemos occasião de praticar; indagámos suas nações, usos, e costumes, e o mesmo fizemos com alguns que cahião prisioneiros, quando os habitantes davão algum ataque aos seus alojamentos; e aventurando-nos a visitar os alojamentos de algumas tribus ou hordas já entradas na domesticidade, ahi os acabámos de estudar, tanto quanto nos permittia o tempo de nossa demora, e as relações que podiamos entabolar com esses homens da natureza. Do resultado destas nossas indagações, vamos dar aos nossos leitores uma breve noticia.

As hordas que infestão esses lugares, não são todas originarias de uma só tribu, ou nação; e ainda que seus dialectos se assemelhão, ha comtudo bastante differença entre elles.

Alguns destes aborigenes, restos de uma ou outra tribu, constituem um povo separado, conservado em sua pureza o idioma, usos e costumes de seus antepassados, e vivendo ainda em guerra com outras tribus suas inimigas; porém outros teem-se misturado, e em um só alojamento se encontrão as reliquias de differentes tribus, cujos usos, costumes, linguagem, hoje amalgamados e confundidos, tem tomado um caracter novo e especial, onde em balde se procuraria a primitiva origem.

Algumas horas sómente se compoem de selvagens no estado primitivo; mas outras teem de envolta alguns inidios que já forão domesticados, e viverão com gente civilisada, e que voltárão para as mattas, e estes bandos que possuem esses refractarios da civilisação, são justamente os que mais se empregão no salteamento das estradas, e habitações.

Os indios que apparecem desde a Cruz Alta, até á Vaccaria, são pela maior parte Carijós, ou Guaranys, ainda que juntos com elles existão alguns Tupinaes [sic], e Tupinambás, restos dessas tribus que habitarão a provincia de S. Paulo, e o Sul do Rio de Janeiro. Estes restos hoje estão tão misturados, que é difficil obter um ou outro indicio, pelo qual se julgue destas origens; comtudo com bons interpretes, que são sempre indios já civilisados, ou para melhor dizer domesticados, consegue-se alguma cousa, acompanhando as maravilhosas tradicções dos aborigenes anciãos, das quaes é preciso separara o verdadeiro do falso. Esta horda tem alguns alojamentos insignificantes na serra de Itapeva, na que desce para Santo Antonio da Patrulha, e outros pontos das mattas; mas o seu principal aldeamento, é no interior do Matto-Castelhano, para a banda do Rio Pelotas, e talvez não mui longe dos confins dos Campos de Palmas. Este aldeamento é vasto, tem muitas cabanas, algumas de uma só familias, e outras maiores que servem de habitação a umas poucas de familias: é todo cercado de uma dupla palissada, que ainda é defendida por largos ainda que imperfeitos fossos, que tambem são guardados por muitos fojos em todas as direcções, os quaes deixão apenas livre para a entrada um estreito e sinuoso caminho, só conhecido dos bugres.

Nesta horda existem alguns bugres domesticos, que dirigem os ataques das casas e caravanas; e suppomos que a escolha, e formação do aldeamento neste lugar, é devido a alguns Guaranys já domesticados pelos Jesuitas das Missões, os quaes pela expulsão d'aquelles Padres, se juntárão aos restos da sua tribu ainda selvagem, e tratárão de organisar-se em tribu, de novamente. Temos esta supposição, em razão de que o alojamento é quadrado, e de uma organisação interna semilhante á que os Jesuitas derão aos differentes povos das Missões, havendo mesmo entre os indios, algumas tradições dos Jesuitas. As armas destes bugres, são a fléxa, e a maça de páo; comtudo, os indios domesticados que andavão com elles, algumas vezes tem usado de armas de fogo; a maior parte das pontas das fléxas desta horda, são feitas de ferro, para o que se servem de pontas de faccas, ou de qualquer ferro que apanhão; as faccas tambem lhe servem para varios usos. Quando atacão é sempre de surpreza, e fazendo grande alarido durante o combate, se este tem lugar; matão todas as pessoas e animaes que encontrão, e saqueão o que lhe convém, não deixando o dinheiro em ouro se o encontrão. No geral andão nús, e alguns trazem tangas de pennas, ou de panno. O aldeamento é ali permanente, mas os indios destacão partidos que dirigem suas correrias para differentes pontos. Esta horda causou immenso estragos, e tem-se portado com tal ousadia, que em 1840, quando o General Labatut, fez a sua retirada de cima da serra, na passagem do Matto-Castelhano, forão por elles atacada algumas bagagens e pessoas que ficarão a retaguarda do exercito.

Diz-se que neste aldeamento, ha tambem, organisadas pelos Guaranys que pertencerão aos Jesuitas, algumas toscas officinas de carpinteiro, e ferreiro, e uma forja; o que não asseveramos que seja exacto, mas que comtudo é acreditavel, visto o seu trabalho das fléxas, e alguns machados de ferro, que se lhe tem encontrado, quando no geral os indios usão deste instrumento feito de pedra.

Segundo alguns bugres prisioneiros, estes selvagens tem prisioneiras no seu alojamento, algumas mulheres tomadas ás caravanas que tem roubado e destruido.

Fonte: O COSMOPOLITA: JORNAL LITTERARIO, INSTRUCTIVO E NOTICIOSO (Rio de Janeiro/RJ), 25 de Novembro de 1854, pág. 03, col. 03, pág. 04, col. 01


terça-feira, 8 de março de 2022

Índios bravios atacam em Santa Cruz do Rio Pardo

 



Escrevem-nos de Santa Cruz do Rio Pardo em 11 do corrente:

"Reproduzem-se os assaltos dos indios bravios do sertão contra os moradores no districto da freguezia de S. José do Rio Novo.

Na semana finda, em uma roçada que, em sua fazenda, denominada Taquaral, mandava fazer José Garcia Duarte e Oliveira, dois camaradas deste, um velho e um menino de 12 a 14 annos de idade, foram pelos indios assassinados á flexadas e bordoadas e seus cadaveres atrozmente esphacelados.

Do velho foram amputadas as partes genitaes, e a cabeça, que, separada do corpo, fôra encontrada á grande distancia deste e tantos outros actos de verdadeiro canibalismo foram commettidos, que seria longo enumeral-os.

O menino teve igual sorte á de seu pae, e seu misero corpo, depois de, como delle, bastante offendido e fracturado, foi espetado em uma grossa vara de dez a doze palmos de altura, e esta fincada no sólo, deixando os terriveis indios as suas presas neste lamentavel e misero estado.

Recebi estas informações do proprio José Garcia e de um official de justiça que, achando-se em dilligencia, vio horrorisado os restos esphacelados desses infelizes.

Consta que a autoridade policial procedeu á corpo de delicto, e trata das providencias necessarias.

Porém, de que serve a justiça dar estes passos, quando é certo que, a não ser pelo meio do cathechismo, nada se conseguirá no sentido de melhorar a sorte dos infelizes habitantes deste sertão?

Nem com taes exemplos, infelizmente, tantas vezes reproduzidos, poude vingar o projecto em 1880 ou 1881 sobre a cathechese dos indios neste termo. Oxalá que este facto vá servir de incentivo ao nosso governo, ou aos nossos representantes na provincia, para que seja adoptada alguma medida cujos effeitos sejam na realidade salutares!"

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 21 de Agosto de 1883, pág. 02, col. 02

sábado, 8 de janeiro de 2022

Nomes Guarani-Pãi ou Guarani-Tavîterã

 



Apyká Poty - flor da encarnação.

Apyká Rendy - chamas da encarnação.

Apyká Verá Ju - encarnação brilhante; brilho de uma encarnação.

Avá Poty - homem florido; homem das flores.

Avá Ratapy - homem interior de fogo.

Avá Rendy Ju - chama divina de um homem: homem flamejante reencarnado.

Avá Rová Ju - homem de rosto divino.

Chi Ryvy Poty - flor de meu irmão menor.

Kuäi Avü - irmãozinho de cabelos negros.

Kuäi Mirï Potyry - flor do irmãozinho.

Kuäi Rová Ju - irmãozinho de cara divina.

Kuäi Verá Ju - irmãozinho brilhante reencarnado ou divino.

Kuäi - denota que a pessoa que leva este nome, foi encarnada por uma palavra (alma) enviada por Yasy (a Lua), o menor do gêmeos sagrados dos guaranis.

Fonte: CADOGAN, León. Mil apellidos guaranies. Assunção/Paraguay: Editorial Toledo, 1960.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Nomes Guarani-Chiripá

 



Avá Mainó (masculino) - homem colibri; homem beija-flor.

Avá Mamangá (masculino) - homem abelha.

Avá Yvyra'í Poty (masculino) - homem flor do cajado (emblema de poder masculino).

Jiguaká Poñy (masculino) - coroa de plumas que se expande.

Jiguaká Rayví (masculino) - chuvisco da coroa de plumas.

Karaí Ju (masculino) - senhor divino; mago, feiticeiro.

Kunumí Suréi Mirï (masculino) - uma espécie de pássaro pequeno.

Kuñá Jeasajú (feminino) - mulher com adorno divino.

Kuñá Rokáry Ju (feminino) - mulher dos arredores da casa divina (a casa que existe no paraíso de Ñande Ru Vusú, o criador divino).

Kuñá Ryapú (feminino) - mulher do trovão.

Mbaraká Poñy (masculino) - chocalho ritual que ecoa.

Ñe'ë Poñy (masculino) - palavra que ecoa, que se expande.

Ojo-Kuarasy Ju (masculino) - Sol divino.

Okë Poty (masculino) - flor da porta, flor que está na porta.

Okey Ju (masculino) - porta divina.

Oñoendy (masculino) - chamas de um e de outro.

Oyvypeí (masculino) - aquele que varre a terra.

Takuá Yvy Verá (feminino) - bambu da terra reluzente.

Takuá Ryapú (feminino) - bambu trovejante.

Tapé Ju (masculino) - caminho divino.

Tupä Kávy Ju (masculino) - vespa reencarnada de Tupã.

Tupä Yvoty (masculino) - flor de Tupã.

Tupä Mirï (masculino) - pequeno Tupã; pequeno trovão.

Tendyvy Jú (masculino) - chama divina ou reencarnada.

Verá Yvoty (masculino) - flor do relâmpago.

Fonte: CADOGAN, León. Mil apellidos guaranies. Assunção/Paraguay: Editorial Toledo, 1960.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Nomes Guarani-Mbyá

 



Nomes masculinos:

Atachï, Tatachï, Tatatï - fumaça, fumo, aquilo que fumega, que se consome em fogo.

Karaí Atachï - fumaça de Karaí (o dono do ruído do crepitar das chamas); Tataendy Ryapú Já.

Karaí Ñe'engijá - dono das palavras (almas) de Karaí.

Karaí Ñe'ery - o fluir da palavra (alma) de Karaí.

Karaí Rataá - aquele que possui o fogo de Karaí.

Karaí Tataendy - as chamas de Karaí.

Kuaray Endy Jú - as chamas divinas do Sol.

Kuaray Mimby - flauta do Sol.

Kuaray Mirï - Sol pequeno.

Kuaray Rataá - aquele que possui o Sol.

Tupä Guyrá - pássaro de Tupã.

Tupä Kuchuví Vevé - tocha voadora ou chá voador de Tupã.

Verá - relâmpago.

Verá Chunuá - que faz o som dos trovões de Verá.


Nomes femininos:

Ara'í - espaço celeste, firmamento.

Ara Jerá - céu, firmamento que surge, que irrompe, que brota.

Ara Mirï - céu pequeno.

Ara Poty - flor do céu.

Kerechú - coisa distinta, algo diferente.

Kerechú Poty - flor de Kerechú.

Kerechú Rataá - aquele que tem o fogo de Kerechú.

Pará Jachuká - ritual sagrado do Mar.

Pará Mirï - mar pequeno.

Pará Reté - corpo do mar.

Tatachï - fumaça, ar.

Yvá - paraíso, céu.

Fonte: CADOGAN, León. Mil apellidos guaranies. Assunção/Paraguay: Editorial Toledo, 1960.


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Nomes Guarani-Apapokuva

 



Masculinos:

Avá Poty - homem forte; flor de homem.

Avá Jupiá - aquele que utiliza para ascender, subir.

Jiguaká Poñy Ju - coroa divina que se arrasta.

Mbaraká Mbeí - espécie de chocalho ritual.

Nimuendajú - o divino reencarnado.

Tupã Ju - alma divina; habitante do Paraíso que reencarnou.

Femininos:

Ñapyka, Kuña Apyká - assento de mulher; reencarnação feminina.

Takuá - bambu, taquara.

Takua Pu - som ou música do bambu.

Takuá Verá - bambu reluzente.

Takuá Yvá - bambu do paraíso.

Fonte: CADOGAN, León. Mil apellidos guaranies. Assunção/Paraguay: Editorial Toledo, 1960.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Os índios da Aldeia dos Anjos

 



(...) Dois mil desses índios se juntam perto de Rio Pardo. Resolveu-se abrigá-los. Escolheu-se uma localidade bem situada, num lugar alto - Gravataí, que é fundada em 08 de abril de 1763, a 33 quilômetros de Porto Alegre. Lá se estabelecem mais de mil índios. Constrói-se igreja, casas, cemitério...Para alimentá-los, determinou-se uma fazenda muito grande entre Palmares e São Simão.

Eram índios que vinham das missões, educados pelos jesuítas. Em Gravataí continua o processo jesuítico: terras comuns, caixa comum, etc. Cria-se um colégio para meninos, um recolhimento para meninas e um serviço pelo qual os índios aprendem a ser lavradores.

Em casa, esses índios falavam guarani, mas no colégio, os meninos e meninas só podiam falar o português, pois as autoridades queriam que eles esquecessem a sua língua, a guarani. Não se sabe o motivo desta obrigação. Apenas se deduz que seja por motivo de integração portuguesa. Aliás, precisaríamos saber se esta política não era de âmbito nacional.

Parece que os portugueses não conseguiram integrar os índios. Eles fugiam para a campanha, onde encontravam trabalho nas estâncias. Iam para as missões e de lá voltavam. Casavam e descasavam. Dizia-se que eram maus cristãos.

Com tantos índios em Gravataí não temos descendentes com os seus sobrenomes, porque as autoridades o obrigavam a adotar sobrenomes portugueses, como está amplamente referido neste livro. Vejamos um exemplo: o cacique Poty virou Narciso de Souza Flores. A família Carabauy deu origem a Dionísio Pereira, Dorotéia da Silva, Miguel Morais, Miguel Luiz Correa. A família Mandarica deu origem a Aniceto Pereira, Joana Maciel, Pedro de Oliveira, Filuta Maciel, etc. A família Nensum deu origem a Inácio Borges Pimenta, Maria Salomé, Lugência Borges Pimenta. A família Cunumipa origem a Inácio Xavier Cavalcanti, Maria Cavalcanti, etc. A família Ayecatu deu origem a João de Alencastre e Antônio de Alencastre...

Como havia dois colégios, também havia dois regulamentos, com suas diferenças e semelhanças. As crianças levantavam cedo e logo almoçavam. Ao meio-dia jantavam e à noite ceavam. Eram costumes diferentes. As moças eram tiradas para casar.

Os índios podiam ter seu trabalho, cujo salário era fixado pelas autoridades. Assim, um índio carreteiro recebia 3$000 por mês; um índio domador, 3$600 por mês; uma índia para servir em casa, 3$800; uma índia ama-de-leite, 3$000.

Deviam ser castigados os que tratassem os índios como escravos, com açoites ou castigos semelhantes.

As autoridades da aldeia eram eleitas. Havia corregedor, escrivão e meirinho.

Fonte: CORREIO RIOGRANDENSE (Caxias do Sul/RS), 10 de Outubro de 1990, pág. 08

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