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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Iamuricumá

 



O movimento feminista das índias xinguanas, "Iamuricumá", segundo a lenda, surgiu com as belicoas Amazonas e se propagou através dos tempos. De caráter periódico - de 20 em 20 anos - pode ser convocada em qualquer época. E isso acontece no momento exato em que a cerimônia masculina "Karytu" começa a se intensificar, ressaltando a figura feminina como objeto de desprezo e humilhação. Contra essa opressão masculina surge a insurreição feminina em todos os grupos tribais do Alto Xingu.

No "Iamuricumá" a mulher assume controle total da situação, não permitindo que o homem tenha participação em qualquer atividade ou ato. Durante a cerimônias as mulheres absolutamente pintadas e enfeitadas se abraçam e entoam canções, sem auxílio de instrumentos musicais. Somente ao final ouve-se o som de pequenas flautas - iamuricamás. Dentro do ritual elas aproveitam para fazer tudo aquilo que lhes é proibido pelos homens - enquanto estes permanecem assistindo o ritual em local bastante afastado, também, completamente pintados para despertar a atenção feminina, mas o máximo que conseguem, muitas vezes, é serem agredidos pelas índias.

Nesta oportunidade a xinguana maneja armas, luta o "huka-huka", exibição esportiva do Xingu - enquanto que os capitães femininos das tribos anfitriãs (são recepcionados grupos de outras tribos) imitam maneiras, gestos, diálogo, enfim, assumem o comportamento dos capitães-masculinos. Com isto estão tentando igualar-se aos homens e, ao mesmo tempo, humilhá-los.

Também faz parte do término ao ritual a oficialização do "moitará" (através do grito uníssono de todos os componentes dos grupos) que consiste no sistema de troca de objetos, onde o dinheiro não entra por ser desconhecido.

O simbolismo maior deste ritual repousa no peixe: alimento social por excelência. Enquanto que os elementos mediadores entre mulheres e homens - sempre é escolhido um indivíduo segregado da comunidade - pelo fato de não comer peixe fica em posição de destaque no seio da tribo.

Segundo Villas Boas, apesar da forma ostensiva e até brutal, o "Iamuricumá" atua como mantenedor da organização vigente nas tribos.

NO PEIXE A ORIGEM

Um dos significados lendários do "Iamuricumá" está baseado na figura de dois jovens que, ao atingirem a puberdade, foram levados a furar as orelhas (cerimônia a que todos se submetem nessa época). Assim, Oriouã e Amatavirá, ficaram sem comer peixe durante um mês, uma vez que seus pais haviam saído para a grande pescaria. Apenas um homem permaneceu na aldeia em razão de seu filho ter nascido há pouco.

A pescaria se estendeu durante tantos dias que as mulheres começaram a se preocupar com a vida dos maridos, pensando que tivessem sido colhidos por um mal maior. Duas vezes enviaram o único índio como emissário, para saber o que havia ocorrido. Este sempre regressava trazendo muito peixe, mas acrescentava que os demais permaneceriam mais algum tempo em virtude de os pesqueiros estarem abarrotados de peixe. Na terceira vez que o representante da maioria feminina voltou a comunicar - se com seus irmãos foi para dizer . Mas que as mulheres estavam dispostas a abandonar a aldeia caso eles não regressassem. Nova tentativa malograda. Todas ficaram revoltadas por seus maridos não retornarem. Então, sob o contexto do mito do Oriouá, as mulheres foram induzidas à prática do "Iamuricumá". Pintaram-se e cantaram à noite inteira. Na manhã seguinte tomaram infusão de raízes para vomitar e, com isto, expelir os maus espíritos.

Após, foi o chamado o "tatu" o qual foi incumbido de cavar buracos no chão em torno da aldeia, enquanto o emissário voltava novamente a informar aos maridos-pescadores que suas mulheres estavam fugindo. Para desgosto das mulheres eles não se renderam. Por aí seguiram os cantos por dois dias.

Ao velho "tatu" foi ordenado que continuasse cavando, o que levou a considerar-se como "não sendo mais gente". Posteriormente seguiram as mulheres. Passando pelo local onde se encontravam os homens, não atenderam o apelo que estes lhes faziam para que parassem a fim de as crianças comerem peixes. Enquanto isto "tatu" continuava abrindo novos túneis na terra. O canto não parava...

George Zarur lembra que os homens acabaram voltando sem peixe e não foram aceitos por suas mulheres para o relacionamento sexual. A partir daí as "iamuricumãs" começaram a percorrer os túneis feitos por "tatu", indo sair num lugar chamado Maüã. "Vovô Kuikuro" deparou com o aldeamento das mulheres totalmente destruído e foi aos homens da tribo informar o que havia ocorrido. Estes, dirigindo-se à aldeia feminina depararam com às mulheres sobre o teto das casas, não tendo atendido ao chamado dos maridos. E, conta a lenda, ao descerem continuaram a percorrer os caminhos abertos por "tatu", saindo em outro lugar chamado Arihese. Jamais os homens voltaram a encontrá-las.

Lendariamente as "iamuricumãs" não pararam jamais de viajar, dia e noite, enquanto que as crianças de colo que carregavam, foram atiradas aos lagos, transformando-se em peixes. Hoje, ainda, enfeitadas e pintadas vagam cantando e não contam mais com o seio direito para melhor manejar o arco e a flecha.

Segundo Orlando Villas Boas, daí admitir-se a relação entre "Iamuricumá" e a lenda sobre as Amazonas, índias guerreiras que, enjeitaram os filhos homens e queimavam o seio direito para o manejo do arco e da flecha.

(...)

Fonte: JORNAL DO COMÉRCIO (Manaus/AM), 27 de julho de 1977, pág. 05

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Saudação agressiva



Métraux chama de "salutation agressive" uma cerimônia de acolher o hóspede, a qual consiste em recebê-lo, por vezes, com demonstrações hostis que, no fundo, não são outra coisa senão expressões de cortesia. Conhecemos, na América do Sul, a saudação agressiva dos Tupinambás, dos Jivaros e de índios da Patagônia.

Uma variante dessa saudação são os "duelos de saudação" dos hospitaleiros esquimós, onde os dois parceiros realizam verdadeira peleja com bofetadas recíprocas, costume esse considerado resíduo da antiga aversão contra o intruso no distrito da caça.

Fonte: BALDUS, Herbert & WILLEMS, Emilio. Dicionário de Etnologia e Sociologia. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, pág. 201.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Coroados

 



Várias tribos de índios no Brasil, por exemplo, os Botocudos, Kaingang, Purí, Borôro, etc., receberam do povo o nome de Coroados, devido ao modo de cortar o cabelo, se bem que esse modo não fosse igual entre todas elas. Causou este termo grande confusão na etnografia brasileira, razão pela qual deve ser abandonada.

Fonte: BALDUS, Herbert & WILLEMS, Emilio. Dicionário de Etnologia e Sociologia. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, pág. 67.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Ritos de casamento



Já o rito era feito de gestos que atravessaram os séculos.

A união das mãos: simboliza o socorro mútuo e o laço de fidelidade entre os esposos.

Anel de noivado: a troca de anéis entre prometidos existe desde a Antiguidade. Na época, era um anel de ferro. A diferença entre o anel de noivado e o de casamento apareceu na Idade Média. No século XV, o primeiro passou a ostentar uma pedra preciosa para se diferenciar do segundo, sóbrio e discreto. O hábito de usá-lo no anular da mão esquerda, correspondia a uma crença egípcia segundo a qual um nervo ligava esse dedo diretamente ao coração. A aliança, promessa de fidelidade, simboliza o compromisso mútuo entre esposos. A troca de alianças como signo exterior de responsabilidade conjugal é uma tradição inglesa do século XIX adotada depois no resto do mundo.

Acordo de casamento: é termo nascido no Renascimento para designar a permissão dos pais aos jovens nubentes e a reunião na qual se assinava o contrato de casamento.

Coroa de flores na cabeça da noiva: a tradição é bizantina e tem por função atrair proteção divina. As flores brancas, em particular as de laranjeira, símbolo de virgindade e fecundidade, eram obrigatórias no passado. A França exportou a moda para o Brasil no século XIX.

Dote: conjunto de bens doados pelo pai à filha por ocasião do casamento, doação destinada a compensar a herança dos irmãos. Ele podia compreender mobiliário, louça, roupa de cama e mesa, e joias. No Brasil, entravam no dote escravos, terras e animais de criação. Entre noivas pobres, até mesmo sacos de mantimentos e galinhas o poderiam compor. Teoricamente, as mulheres podiam manipulá-lo, mas cabiam ao marido a gestão e o dever de restituí-lo à família em caso de divórcio. Não foram poucas as esposas que entraram na justiça contra o mau uso que os consortes faziam de sua fortuna.

Lua de mel: tradição adotada no século XIX. É um tradução de honey moon, expressão de origem viking: o hidromel, bebida fermentada feita de água e mel, era bebido durante a semana nupcial.

Sair à francesa: expressão que designava a retirada discreta do casal de nubentes para a lua de mel, sem que ninguém percebesse.

Jogar arroz sobre os noivos: acontecia na saída da igreja e tinha o intuito de dar sorte ao casal. Esse costume já existia na China antiga - é a ressurgência da tradição de lançar frutas secas, símbolo de fecundidade, sobre os nubentes.

Enxoval: dado pelos pais da noiva, era composto de lingerie pessoal e roupa de cama e mesa. Trata-se de um costume antigo. No século XIX, era chamado trousseau.

Corbeille: a palavra refere-se à tradição, popularizada no século XIX, de o noivo oferecer presentes à noiva: rendas finas, lenços bordados e raros xales da Índia, em geral de caxemira; luvas de pele e, sobretudo, joias pequenas e grandes. A ideia era seduzir a jovem senhorita pela opulência. A corbeille era também uma demonstração do poder financeiro do noivo perante o dote da futura esposa, além de um prêmio pela virgindade dessa última. Os presentes podiam ser ofertados em baú, caixa ou pequena cômoda, onde tais pertences eram guardados. Os presentes ficavam expostos, às vésperas do casamento, para deleite e críticas da família e dos amigos. Na vitrine das lojas, ofereciam-se corbeilles completas. No Brasil, os presentes dados aos noivos passaram a ser expostos não necessariamente sobre a cama, mas com destaque para demonstrar, como na França oitocentista, o poder financeiro da família dos contraentes.

O branco no casamento: a moda do branco foi introduzida por Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa de Dom Pedro I. Ela adotou o costume que vinha da época do Consulado napoleônico: o vestido de casamento longo, branco e acompanhado de véu de renda, como o que usou Carolina Bonaparte para esposar o general Murat. A seguir, dona Francisca, irmã de Dom Pedro II, casou-se com o Príncipe de Joinville também vestida de branco, em meio às damas de amarelo e verde. A princesa Isabel, ao trocar alianças com o Conde D'Eu, também vestiria filó branco, véu de rendas de Bruxelas, grinalda de flores de laranjeiras e ramos destas no lado esquerdo do vestido.

Traje da noiva: eis um exemplo de "toilette de noiva" publicado em setembro de 1859, no jornal feminino O Espelho: "um saiote aberto na frente, cercado de fofos, mas mangas muito largas cercadas de fofos como os do saiote, o corpinho é fechado com cabeção  que vem até o cinto onde se prende por um laço de fitas, cujas pontas prendem ao comprido do vestido. O véu preso à cabeça pela coroa de noivas cai pelos ombros".

Fonte: DEL PRIORE, Mary. Conversas e histórias de mulher. São Paulo: Planeta, 2013, pág. 36-37.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Aimorés

 



No dizer de Von Martius, "o nome Aimurês pertence, provavelmente, à língua tupi, sendo derivado de Goay-murês (Goyai-myra, Guai-mura), isto é, os inimigos que vagueam e moram no sertão. Ouve-se também: Aimbires, Aimborés, Guay-Murûs. É nome já mencionado na Notícia do Brazil do ano de 1589".

Segundo Affonso A. de Freitas Aimoré significa em tupi "flauta ruim", sendo composto de aíua: ruim, contraído em ai, e de mboré: flauta. Observa o mesmo autor: "A denominação Aimoré, aplicada aos Botocudos, provém do hábito desse povo de, na impossibilidade de tocarem o boré, soprando-o pela boca, em consequência da deformidade do beiço inferior e da adaptação do batoque, fazerem-no pelas narinas, arrancando do instrumento sons que, por certo, não serão maviosos".

Os descendentes vivos dos Aimorés, mais tarde chamados de Botocudos, são os índios Krenak do rio Doce em Minas Gerais e Espírito Santo. Na obra aparecida em 1867 Von Martius anota a respeito do número dos Aimorés: "Foram calculados, na totalidade de seu território que se estende do rio Preto, afluente do norte do Paraíba, até o rio Patipe (de 22o a 15o. 30' de latitude sul) e ao oeste até a orla do mato da segunda, cordilheia (Serra do Espinhaço), em 12 a 14.000 cabeças, o que, talvez, seja exagerado; dizem que desse número, cerca de dois mil moram perto do rio Jequitinhonha.

Fonte: BALDUS, Herbert & WILLEMS, Emilio. Dicionário de Etnologia e Sociologia. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, pág. 20-21.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

O ritual antropofágico dos tupinambás

 



A função mais nobre da "espada Tupinambá" não era propriamente a de abater inimigos durante o combate, embora isso também acontecesse com frequência. Era com a ibirapema que as tribos litorâneas sacrificavam "os contrários" (como diziam os lusos do século XVI) que tinham capturado em batalha, com um golpe certeiro na região da nuca. O inimigo morto dessa maneira era imediatamente esquartejado e transformados numa espécie de churrasco, que devia ser consumido por todos os membros do grupo - inclusive os bebês, cujas mães faziam questão de besuntar os seios no sangue do inimigo antes de dar de mamar.

É difícil evitar a conclusão de que a antropofagia era um dos elementos centrais da sociedade dos Tupi da costa (e também de grupos como os Guarani e os Juruna). Capturar e devorar os membros de tribos rivais eram atividades que marcavam os homens corajosos e altivos. A justificativa para a prática não era a necessidade de exterminar os adversários ou de conquistar seus territórios, mas a obrigação de manter vivo um ciclo aparentemente interminável de vingança que enobrecia os que participavam dele. "Não sabes que tu e os teus mataram muitos parentes nossos e muitos amigos? Vamos tirar a nossa desforra e vingar essas mortes. Nós te mataremos, assaremos e comeremos", dizem os Tupinambá a uma vítima prestes a ser devorada no relato de frei Claude D'Abbeville, franciscano, que participou da tentativa de colonização francesa no Maranhão no começo do século XVII. A resposta do futuro assado? "Pouco me importa. Tu me matarás, porém eu já matei muitos companheiros teus. Se me comerdes, fareis apenas o que já fiz eu mesmo. Quantas vezes me enchi com a carne da tua nação! Ademais, tenho irmão e primos que me vingarão".

Além da justificativa social - a chance de ganhar renome e glória - , havia ainda uma justificativa que podemos chamar de religiosa. Só quem matasse e comesse muitos inimigos teria acesso à Terra Sem Mal, o "paraíso" Tupinambá onde haveria eterna abundância de comida (em especial carne de caça), bebida (o cauim, feito a partir de mandioca ou milho fermentados) e festejos. Os grandes guerreiros ganhavam a chance de se unir aos ancestrais igualmente valorosos na Terra Sem Mal depois de sua morte, mas alguns pajés-profetas, os caraíbas, pregavam que era possível encontrar esse jardim de delícias aqui mesmo na Terra. Predicando de aldeia em aldeia, arrebanhavam seguidores e podem ter desencadeado migrações em massa na época pré-colonial, embora seu papel só possa ser documentado com clareza a partir da chegada dos europeus. Os caraíbas também eram conhecidos pela eloquência e por reforçar, em suas pregações, a importância da vingança antropofágica como "passaporte" para a Terra Sem Mal.

É claro que, antes de poder comer o inimigo, é preciso derrotá-lo e capturá-lo. Para atingir esse objetivo, os Tupinambá e outros grupos litorâneos desenvolveram uma série de técnicas bélicas simples e eficazes. Para incursões de longa distância, o costume era montar "esquadras" com dezenas de canoas escavadas em troncos, cada uma delas carregando entre 20 e 30 guerreiros, que deslizavam rapidamente pelos rios ou pela costa até chegar ao território do inimigo. Batalhas navais envolvendo a troca maciça de flechas entre dois aglomerados de barcos podiam decidir a parada, ou então a primeira etapa da refrega acontecia em terra firme, com os arcos sendo usados para acertar inimigos a distâncias mais longas e as ibirapemas servindo como o principal armamento nos duelos corpo a corpo. Chegar a essa fase da luta já era uma proeza, aliás, considerando a letalidade das flechas - medindo cerca de 1,60 metro, com pontas que podiam ser de bambu, de dente de tubarão ou mesmo ferrões de arraia, "dando em qualquer pau o abrem pelo meio, e acontece passarem um homem de parte a parte, e ir pregar no chão", escreve um cronista. Quando o objetivo era atacar aldeias fortificadas com troncos de madeira, as pontas das flechas eram embebidas em algodão e incendiadas, o que produzia um bombardeio rudimentar de coquetéis Molotov voadores, queimando cabanas e forçando os defensores sobreviventes a deixar suas casas.

Os guerreiros que tentavam evitar os golpes das maças dos inimigos ou se proteger das flechas portavam escudos redondos de couro de anta. Se havia a chance de uma campanha militar prolongada, os Tupi preparavam mantimentos que podiam durar por muitos meses, como farinha de mandioca tostada e farinha de peixe (basicamente peixes tostados e moídos), ou então aproveitavam a época da piracema para atacar, o que lhes garantia acesso a um farto suprimento de pescado conforme os peixes se aglomeravam para tentar se reproduzir. A fim de atacar aldeias fortificadas levando o mínimo possível de flechadas, montavam ainda uma espécie de contramuro móvel, uma armação feita de galhos e folhas que permitia que os guerreiros detrás dela avançassem lentamente rumo ao povoado dos inimigos. E, ao cercar a comunidade que desejavam capturar, podiam fazer uso de uma forma rudimentar de guerra química: queimavam grandes quantidades de pimenta de maneira tal que o vento levaria os gases da combustão rumo aos defensores, fazendo com que os olhos deles ardessem.

Quando o combate finalmente acontecia, o principal objetivo era capturar inimigos para o ritual antropofágico, embora os gravemente feridos fossem sacrificados e assados no próprio campo de batalha. O sujeito capturado ia para a aldeia do guerreiro que o derrotara e podia ficar em cativeiro durante meses, recebendo comida, uma rede só para ele e até uma companheira (crianças que nasciam dessa união em geral também eram devoradas). No dia marcado para o sacrifício, todos consumiam grande quantidade de cauim, e o prisioneiro, amarrado ritualmente com cordas, tinha a chance de tentar se vingar antecipadamente atirando pedras em seus captores. Após o ápice do ritual com a pancada da ibirapema, o matador (em geral, o sujeito que capturara o inimigo) tinha de se abster da carne da vítima. Em compensação, ganhava um novo nome, de forma que a longa fieira de apelidos era uma das marcas do guerreiro Tupi que tivera a honra de sacrificar diversos inimigos.

Fonte: LOPES, Reinaldo José. 1499: a pré-história do Brasil. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017, pág. 119-121.

quarta-feira, 16 de março de 2022

Indígenas no caminho entre o Rio Grande do Sul e São Paulo em 1841

 



ABORIGINES

Fragmento de viagem

Quem vem das campinas do Rio Grande do Sul, para a província de S.Paulo, tem de atravessar largos sertões, caudalosos rios, e magnificos campos. Fizemos esta viagem em 1841, e desse tempo são estaas notas, que agora sugeitamos ao prélo, e offerecemos ao publico.

Partindo da Cruz Alta, passámos no Passo-Fundo, Matto Castelhano, Campo do Meio, Vaccaria, e chegámos ao Rio Pelotas, que serve de divisa entre o Rio-Grande e Santa Catharina; atravessando o rio chegámos aos Campos Novos, de onde fizemos uma pequena digressão aos Campos de Palmas, e voltando de lá retomamos nosso caminho passando pela então pequena povoação de Curitibanos, tomamos a direcção do Sertão chamado de S. Paulo, onde se acha o pequeno rio Canôas, que é a divisa de Santa Catharina, e S. Paulo, entrando no territorio desta ultima provincia, chegámos ao importante registro, e pequena povoação do Rio-Negro, e depois nos internâmos pela provincia, fazendo ainda diversas digresões pelas mattas e rios da comarca de Coritiba, hoje provincia do Paraná.

Em todo este trajecto encontrámos sempre noticias aterradoras da proximidade, e invasão dos bugres bravios, restos dessas antigas tribus de aborigenes, e que habitão as mattas e sertões desses lugares. E com effeito, aqui encontra-se os restos de uma habitação que os bugres incendiarão, depois de saquearem, e darem a morte a todos os moradores; ali encontrão-se os vestigios de alguns assassinatos, feitos nos viajante que incautos pernoitavão nos lugares de correrias dos bugres; acolá encontravão-se innumeras cruzes, que provavão que n'aquelle logar tinah havido uma matança de passageiros; mais além, ainda se achavão ossadas humanas, e ossadas de cavallos, resultado de um assalto de bugres que não tinhão poupado uns e outros: enfim, por toda a parte os signaes de devastação, marcavão o aparecimento das hordas selvagens. Desejosos de saber qual a tribu a que pertencião estas hordas, e porque motivo levados só pelo espirito do saque, e do roubo, comettião tantas atrocidades, tratámos de estudar o caracter de alguns bugres semi-domesticos, que apparecião em differentes pontos, e com quem tivemos occasião de praticar; indagámos suas nações, usos, e costumes, e o mesmo fizemos com alguns que cahião prisioneiros, quando os habitantes davão algum ataque aos seus alojamentos; e aventurando-nos a visitar os alojamentos de algumas tribus ou hordas já entradas na domesticidade, ahi os acabámos de estudar, tanto quanto nos permittia o tempo de nossa demora, e as relações que podiamos entabolar com esses homens da natureza. Do resultado destas nossas indagações, vamos dar aos nossos leitores uma breve noticia.

As hordas que infestão esses lugares, não são todas originarias de uma só tribu, ou nação; e ainda que seus dialectos se assemelhão, ha comtudo bastante differença entre elles.

Alguns destes aborigenes, restos de uma ou outra tribu, constituem um povo separado, conservado em sua pureza o idioma, usos e costumes de seus antepassados, e vivendo ainda em guerra com outras tribus suas inimigas; porém outros teem-se misturado, e em um só alojamento se encontrão as reliquias de differentes tribus, cujos usos, costumes, linguagem, hoje amalgamados e confundidos, tem tomado um caracter novo e especial, onde em balde se procuraria a primitiva origem.

Algumas horas sómente se compoem de selvagens no estado primitivo; mas outras teem de envolta alguns inidios que já forão domesticados, e viverão com gente civilisada, e que voltárão para as mattas, e estes bandos que possuem esses refractarios da civilisação, são justamente os que mais se empregão no salteamento das estradas, e habitações.

Os indios que apparecem desde a Cruz Alta, até á Vaccaria, são pela maior parte Carijós, ou Guaranys, ainda que juntos com elles existão alguns Tupinaes [sic], e Tupinambás, restos dessas tribus que habitarão a provincia de S. Paulo, e o Sul do Rio de Janeiro. Estes restos hoje estão tão misturados, que é difficil obter um ou outro indicio, pelo qual se julgue destas origens; comtudo com bons interpretes, que são sempre indios já civilisados, ou para melhor dizer domesticados, consegue-se alguma cousa, acompanhando as maravilhosas tradicções dos aborigenes anciãos, das quaes é preciso separara o verdadeiro do falso. Esta horda tem alguns alojamentos insignificantes na serra de Itapeva, na que desce para Santo Antonio da Patrulha, e outros pontos das mattas; mas o seu principal aldeamento, é no interior do Matto-Castelhano, para a banda do Rio Pelotas, e talvez não mui longe dos confins dos Campos de Palmas. Este aldeamento é vasto, tem muitas cabanas, algumas de uma só familias, e outras maiores que servem de habitação a umas poucas de familias: é todo cercado de uma dupla palissada, que ainda é defendida por largos ainda que imperfeitos fossos, que tambem são guardados por muitos fojos em todas as direcções, os quaes deixão apenas livre para a entrada um estreito e sinuoso caminho, só conhecido dos bugres.

Nesta horda existem alguns bugres domesticos, que dirigem os ataques das casas e caravanas; e suppomos que a escolha, e formação do aldeamento neste lugar, é devido a alguns Guaranys já domesticados pelos Jesuitas das Missões, os quaes pela expulsão d'aquelles Padres, se juntárão aos restos da sua tribu ainda selvagem, e tratárão de organisar-se em tribu, de novamente. Temos esta supposição, em razão de que o alojamento é quadrado, e de uma organisação interna semilhante á que os Jesuitas derão aos differentes povos das Missões, havendo mesmo entre os indios, algumas tradições dos Jesuitas. As armas destes bugres, são a fléxa, e a maça de páo; comtudo, os indios domesticados que andavão com elles, algumas vezes tem usado de armas de fogo; a maior parte das pontas das fléxas desta horda, são feitas de ferro, para o que se servem de pontas de faccas, ou de qualquer ferro que apanhão; as faccas tambem lhe servem para varios usos. Quando atacão é sempre de surpreza, e fazendo grande alarido durante o combate, se este tem lugar; matão todas as pessoas e animaes que encontrão, e saqueão o que lhe convém, não deixando o dinheiro em ouro se o encontrão. No geral andão nús, e alguns trazem tangas de pennas, ou de panno. O aldeamento é ali permanente, mas os indios destacão partidos que dirigem suas correrias para differentes pontos. Esta horda causou immenso estragos, e tem-se portado com tal ousadia, que em 1840, quando o General Labatut, fez a sua retirada de cima da serra, na passagem do Matto-Castelhano, forão por elles atacada algumas bagagens e pessoas que ficarão a retaguarda do exercito.

Diz-se que neste aldeamento, ha tambem, organisadas pelos Guaranys que pertencerão aos Jesuitas, algumas toscas officinas de carpinteiro, e ferreiro, e uma forja; o que não asseveramos que seja exacto, mas que comtudo é acreditavel, visto o seu trabalho das fléxas, e alguns machados de ferro, que se lhe tem encontrado, quando no geral os indios usão deste instrumento feito de pedra.

Segundo alguns bugres prisioneiros, estes selvagens tem prisioneiras no seu alojamento, algumas mulheres tomadas ás caravanas que tem roubado e destruido.

Fonte: O COSMOPOLITA: JORNAL LITTERARIO, INSTRUCTIVO E NOTICIOSO (Rio de Janeiro/RJ), 25 de Novembro de 1854, pág. 03, col. 03, pág. 04, col. 01


terça-feira, 8 de março de 2022

Índios bravios atacam em Santa Cruz do Rio Pardo

 



Escrevem-nos de Santa Cruz do Rio Pardo em 11 do corrente:

"Reproduzem-se os assaltos dos indios bravios do sertão contra os moradores no districto da freguezia de S. José do Rio Novo.

Na semana finda, em uma roçada que, em sua fazenda, denominada Taquaral, mandava fazer José Garcia Duarte e Oliveira, dois camaradas deste, um velho e um menino de 12 a 14 annos de idade, foram pelos indios assassinados á flexadas e bordoadas e seus cadaveres atrozmente esphacelados.

Do velho foram amputadas as partes genitaes, e a cabeça, que, separada do corpo, fôra encontrada á grande distancia deste e tantos outros actos de verdadeiro canibalismo foram commettidos, que seria longo enumeral-os.

O menino teve igual sorte á de seu pae, e seu misero corpo, depois de, como delle, bastante offendido e fracturado, foi espetado em uma grossa vara de dez a doze palmos de altura, e esta fincada no sólo, deixando os terriveis indios as suas presas neste lamentavel e misero estado.

Recebi estas informações do proprio José Garcia e de um official de justiça que, achando-se em dilligencia, vio horrorisado os restos esphacelados desses infelizes.

Consta que a autoridade policial procedeu á corpo de delicto, e trata das providencias necessarias.

Porém, de que serve a justiça dar estes passos, quando é certo que, a não ser pelo meio do cathechismo, nada se conseguirá no sentido de melhorar a sorte dos infelizes habitantes deste sertão?

Nem com taes exemplos, infelizmente, tantas vezes reproduzidos, poude vingar o projecto em 1880 ou 1881 sobre a cathechese dos indios neste termo. Oxalá que este facto vá servir de incentivo ao nosso governo, ou aos nossos representantes na provincia, para que seja adoptada alguma medida cujos effeitos sejam na realidade salutares!"

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 21 de Agosto de 1883, pág. 02, col. 02

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Nomes Guarani-Apapokuva

 



Masculinos:

Avá Poty - homem forte; flor de homem.

Avá Jupiá - aquele que utiliza para ascender, subir.

Jiguaká Poñy Ju - coroa divina que se arrasta.

Mbaraká Mbeí - espécie de chocalho ritual.

Nimuendajú - o divino reencarnado.

Tupã Ju - alma divina; habitante do Paraíso que reencarnou.

Femininos:

Ñapyka, Kuña Apyká - assento de mulher; reencarnação feminina.

Takuá - bambu, taquara.

Takua Pu - som ou música do bambu.

Takuá Verá - bambu reluzente.

Takuá Yvá - bambu do paraíso.

Fonte: CADOGAN, León. Mil apellidos guaranies. Assunção/Paraguay: Editorial Toledo, 1960.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

A origem da solidariedade



 "Terri Schiavo, uma italiana com uma lesão cerebral irreversível, foi cuidada e alimentada por quinze anos por seus familiares, até seu marido obter na Justiça o direito de desligar os aparelhos que a mantinham viva. Esse nível de solidariedade entre membros de uma espécie animal só existe entre os Homo sapiens. Se Terri pertencesse a qualquer outra espécie, teria sido abandonada a seu destino. Apesar de conhecermos exemplos de solidariedade entre animais, em nenhum caso ele é tão evidente quanto nas sociedades humanas. Mas quando, em nossa história, surgiu essa característica? Um crânio de quase 2 milhões de anos fornece uma pista importante.

O crânio e a respectiva mandíbula pertencem a um animal do gênero Homo, um ancestral recente do homem, e foram descobertos na região de Dmanisi, atual República da Geórgia, na Eurásia. O local de onde ele foi desenterrado contém outros ossos de animais, indicando que nosso amigo pertencia a uma comunidade de caçadores que processavam a carcaça das presas e provavelmente se alimentavam da carne. O que chamou a atenção é que tanto o crânio quanto a mandíbula não possuem dentes. Só esse achado não seria inusitado, pois os dentes muitas vezes são separados dos ossos após a morte. O que realmente faz do achado uma descoberta única é que tanto os buracos onde se encaixam os dentes quanto as regiões da mandíbula e da maxila que os sustentam foram completamente reabsorvidos e remodelados, um fenômeno bem conhecido e que ocorre de forma lenta durante os anos que se seguem à perda dos dentes. Dada a extensão do remodelamento e levando em conta o que se conhece desse processo nos primatas modernos, os cientistas concluíram que nosso amigo ficou sem os dentes muitos anos antes de morrer. E na verdade nem perdeu todos; um dos caninos desapareceu um pouco antes de sua morte, pois tanto o buraco quanto o osso ao redor do dente estão preservados, o que descarta que ele tenha nascido sem dentes.

Apesar de serem bastante comuns crânios onde faltam dentes, é extremamente raro encontrar fósseis ou crânios de carnívoros, ou até de hominídeos, que tenham sobrevivido à perda total dos dentes. A razão é simples: quando perdem parte dos dentes e deixam de ser capazes de se alimentar, esses animais morrem depressa, muito antes de a arcada dentária se remodelar. Provavelmente o único local onde se podem achar crânios com perda total de dentes e uma reabsorção óssea extensa é nos cemitérios modernos. Mas nesse caso, junto ao crânio, serão encontradas peças de plástico e cerâmica, as conhecidas dentaduras.

Esse achado demonstra que nosso amigo viveu durante anos ou talvez décadas sem dentes e que, mesmo pertencendo a uma comunidade de caçadores, sobreviveu. Como teria se alimentado? Será que seus companheiros deixavam tutano dos ossos ou o fígado dos animais para ele chupar? Que mecanismos sociais garantiam sua alimentação?

Qualquer que seja a explicação, ela envolve algum grau de solidariedade entre aquele grupo de caçadores, um grau de solidariedade muito maior que o encontrado hoje em qualquer espécie de primata. A solidariedade parece ter surgido em nossos ancestrais há mais de 2 milhões de anos."

Fonte: REINACH, Fernando. A longa marcha dos grilos canibais e outras crônicas sobre a vida no planeta Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pág. 244-245.

domingo, 18 de abril de 2021

Línguas africanas no Brasil

 


"Do ponto de vista etnolinguístico, a região de onde se originavam os escravos trazidos para o Brasil é dividida entre dois grandes grupos: o grupo linguístico kwa (chamados tradicionalmente de sudaneses), situado, grosso modo, ao norte da linha do equador, na região do Oeste-Africano; e o banto, que compreende a extensão de terras ao sul do equador. 'Os sudaneses apresentam uma grande fragmentação linguística oposta à unidade substancial das línguas banto'. Nos contigentes de escravos do grupo banto trazidos para o Brasil, predominam 'as línguas étnicas majoritárias: o quimbundo, o quicongo e o umbundo'. No grupo sudanês, 'os seus principais representantes no Brasil foram os nagôs ou iorubás, e os jejes ou povos de língua ewe'.

A composição etnolinguística dos escravos trazidos para o Brasil também se alterou ao longo dos séculos. No século XVI, há um predomínio dos escravos trazidos da Costa da Guiné sobre os escravos trazidos da região do Congo e de Angola. No século seguinte, irão predominar os escravos de língua banto, nomeadamente o quimbundo e o quicongo, exportados de Luanda, que 'se transformou no mais importante porto para o tráfico com o Brasil em geral'. No século XVIII, parece ter havido uma divisão do tráfico em duas correntes principais. A primeira, de tráfico de escravos de línguas banto, ligava a região de Angola a Pernambuco e, principalmente, ao Rio de Janeiro, maior importador de escravos no período, que os repassava para as outras regiões, sobretudo para Minas Gerais. A segunda rota se estabeleceu a partir da troca do fumo produzido no Recôncavo Baiano com os escravos embarcados na Costa da Mina, do grupo linguístico kwa. Assim, 'a Bahia não só teve mão-de-obra escrava em abundância, como manteve quase que o monopólio do tráfico externo com aquela região africana e do tráfico interno dos denominados escravos minas para a região dos garimpos, que parece ter absorvido a maioria deles'. Essa situação perduraria até a primeira metade do século XIX, quando o tráfico negreiro foi extinto; só que nesse período os escravos minas importados pela Bahia e, principalmente, os escravos de línguas bantos importados pelo Rio de Janeiro eram vendidos para as grandes fazendas de café do Vale do Rio Paraíba e, em menor número, para as emergentes lavouras cafeeiras do interior paulista.

No panorama geral dos três séculos de tráfico, há um grande predomínio de escravos trazidos da zona linguística banto. Os escravos de língua banto são amplamente majoritários mesmo na Bahia, no século XVII, quando o tráfico negreiro assume grandes proporções, estimando-se a importação de mais de meio milhão de indivíduos nesse período. Essa situação só iria se alterar com o estabelecimento da copiosa rota de tráfico ligando a Costa da Mina à Bahia, que angariou a essa Província largos contingentes de falantes de línguas kwa, sobretudo o iorubá. Assim sendo, a grande maioria dos estudiosos é unânime em dividir a influência africana no Brasil entre uma influência predominantemente banto na área do Rio de Janeiro (e no Sudeste como um todo) e na área de Pernambuco para o norte, e uma influência predominante iorubá na Bahia.

Esse predomínio banto, sobretudo nos séculos XVI e XVII, reflete-se na formação de línguas gerais africanas no Brasil, de modo que, 'nos dois primeiros séculos, o quicongo e o quimbundo, seguidos pelo umbundo, foram as línguas numericamente predominantes na maioria das senzalas ou as de maior prestígio sociológico'. Apesar de os proprietários de escravos brasileiros evitarem, por razões de segurança, a homogeneidade etnolinguística na sua escravaria, o predomínio dos escravos falantes de línguas bantos, e a semelhança entre essas línguas, deve ter favorecido o uso corrente, durante todo o período da escravidão, de línguas francas de base ora quimbundo, ora quicongo, consoante a predominância de seus falantes fosse na senzala, fosse nos quilombos, onde se encontravam africanos, crioulos e mestiços das mais variadas procedências. Portanto, o veículo da socialização dos escravos segregados na senzala, ou foragidos nos quilombos, pode ter sido, em muitas localidades, não o português precariamente adquirido para o intercurso com os seus senhores, mas uma língua franca de base banto.

É certo que línguas de outros grupos linguísticos africanos também assumiram o estatuto de língua franca no Brasil. A destinação para a região das minas dos escravos falantes de língua do grupo fongbe importados da Bahia resultou na utilização de uma língua franca de base fon, 'que foi atestada, na primeira metade do século XVIII, na região de Vila Rica'. Essa língua veicular fon deve ter convivido com outras línguas francas de base quimbundo que provavelmente eram usadas entre os escravos introduzidos pelo porto do Rio de Janeiro.

Com efeito, o predomínio de escravos falantes de línguas bantos no Sudeste deve ter propiciado o uso corrente de línguas francas de base quimbundo entre os escravos de diversas localidades dessa região. Com o tempo, essas línguas foram caindo em desuso, sendo mantidas apenas em situações especiais e muito restritas, e substituídas por variedades de português reestruturadas pelos afrodescendentes. Uma primeira evidência do uso dessas línguas francas africanas foi a descoberta de Aires de Mata Machado Filho, em 1944, de uma língua veicular de base lexical banto, na localidade de São João da Chapada, no Norte de Minas Gerais. Essas línguas chegaram até os dias atuais, em comunidades rurais negras, que as conservam como línguas secretas, e também como uma forma de afirmação de sua identidade étnica. Tal é o caso da falange, descoberta na comunidade de Cafundó, em São Paulo, e da língua do negro da costa, em Tabatinga, Minas Gerais. Ambas empregam um léxico de base banto (sobretudo quimbundo) com as estruturas gramaticais do português popular.

Se o predomínio de escravos bantos no Sudeste favoreceu o emprego dessas línguas quimbundo na região, o predomínio de escravos falantes de línguas do grupo kwa (majoritariamente iorubás) levou à utilização de uma língua franca iorubá (chamada na Bahia nagô), que era de uso corrente na Cidade da Bahia no século XIX, devendo ter se prolongado até o início do século XX. No plano da resistência cultural e religiosa, o iorubá converteu-se na língua ritual, nos candomblés da Bahia."

Fonte: LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan; RIBEIRO, Ilza (orgs.). O português afro-brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2009, pág. 64-67.

domingo, 27 de dezembro de 2020

A Festa de São Benedito dos índios

 


De repente ouvi ao longe rumor um tanto confuso, como se alguém batesse num tambor cuja pela estivesse molhada. Que história seria essa? Pela manhã vim a saber que se tratava da festa de São Benedito, divindade de grande devoção dos índios. Eles faziam preparativos para essa festa uns seis meses antes e guardavam dela uma recordação pelos outros seis meses do ano. Desde o momento em que esse tambor começa a ser tocado, não para mais, nem de noite nem de dia. Não deixei de ir me divertir um pouco nessa festa que se realizava numa povoação chamada, se não me engano, destacamento. O Sr. X. fez-me companhia. Em todos os tetos em que entrávamos bebia-se “câouêba” e cachaça, e a pretexto de se cantar, berrava-se. Mantinham-se os homens sentados tendo entre as pernas um tambor primitivo fabricado com pequeno tronco de árvore oco coberto por um pedaço de couro de boi; outros homens esfregavam uns pauzinhos num instrumento feito de bambu todo entalhado. Ao som desse Charivari, mulheres, mesmo velhas, dançavam devotamente um desgracioso cancã que mereceria certamente a reprovação de nossos virtuosos agentes de polícia. Depois de se ter dançado bem e melhor bebido e urrado, numa casa, ia-se fazer o mesmo numa outra habitação. Numa delas tive a coragem de beber numa espécie de cabaço a tal “câouêba”, o que fiz, aliás, para despertar simpatias e conseguir depois me permitissem uns retratos. Não ignorava como se prepara essa bebida: sabia que as mulheres idosas (são elas sempre as encarregadas das funções mais importantes) mastigam raízes de mandiocas antes de deitá-las numa vasilha; cada um de sua vez cuspia nessa panela o conteúdo das suas bocas e deixavam a massa fermentar. Como se vê, em mim, o amor à arte sobrelevara o instinto da repugnância. Dessa casa passei a outra e nessa não existiam representantes do “belo sexo”; apenas um índio cantava ao som de um violão uma modinha suave e monótona que tinha encanto particular. Sentei-me ao seu lado e fiquei surpreso de ver que me tornei motivo dos improvisos desse cantador. O seu estribilho era este: 

Su Bia ao sertão guerea

Matar passarinhos

Su Bia ao sertão

E também souroucoucou

 

M. Biard dans la montagne

Désire tuer petits oiseaux,

M. Biard dans la montagne

Cherche aussi serpentes dangereux

 

Ficaram todos admirados de me ver rir a bandeiras despregadas dessa cantiga que me homenageava, embora com suas pequenas imperfeições. Afinal chegara o momento ansiosamente esperado: surgiram duas figuras importantes. A primeira era um índio alto, revestido de uma túnica branca a lembrar um pouco o roquete de um coroinha e tendo na mão um guarda-chuva vermelho ornado de flores amarelas; na outra mão trazia uma bandeja que também se pendurava de um velho chale de franjas amarrado à cintura como um talabarte. Dentro da bandeja vinha São Benedito, que, não sei por que, é preto, todo cercado de flores. Ali se colocam as ofertas feitas ao santo. A segunda personagem, digna de fazer parte do exército do imperador Soulouque, cingira uma farda azul celeste toda enfeitada de chita em xadrez encarnado; usava dragonas como as do general La Fayette, e na cabeça um chapéu de pontas, fenomenal no tamanho e encimado por um penacho que já fora verde. Como emblema ostentava uma rodela com três cerejas bem vermelhas. Esta última figura é o comandante. Para se merecer essa graduação torna-se indispensável possuir umas pernas de resistência superior à de todas as outras da Terra, pois durante as cerimônias o capitão não cessa de dançar. Ele precede ao cortejo, sempre num passo de dança, com uma baliza nas mãos. A princípio, pensei tratar-se de um círio. Atrás dele vai o homem de guarda-sol vermelho, levando o santo; depois os músicos em duas fileiras, e em torno da imagem as velhas devotas no seu cancã. Meio escondidas nos postigos ou nas portas se surpreendem jovens e bonitas cabeças. Diante de cada pessoa convidada para o banquete, o cortejo parava; o capitão entrava, a dançar, e dava uma volta pelo interior da habitação. Dali se passava a outra casa e, nesse passo, chegaram à igreja toda enfeitada com palmeiras; a iluminação era feita por meio de cabaças cheias de azeite. Fora preparada a mesa defronte do altar; por precaução estenderam-lhe por cima uns panos sem dúvida com receio de investidas das aranhas e de outros bichos malfeitores. Trancaram São Benedito na caixa, após terem retirado as ofertas, e nós então voltamos. 

Em caminho vim imaginando o desenho dessa festa grotesca, mas para leva-lo a efeito precisava de pormenores que só me seria dado obter com o auxílio do Sr. X. Dessa vez ele me cedeu um dos seus índios. Digo assim porque é costume na província do Espírito Santo tomar-se conta dessas criaturas desde meninos, embora pertençam a alguma instituição orfanológica; comprometem-se a cria-los e vigia-los até uma determinada idade, não como escravos, mas apenas como empregados. A começo obtive generosamente um modelo para meu quadro, porém depois tudo transcorreu como anteriormente: os pormenores, o chapéu de sol vermelho, os tambores, a vestimenta, o chapéu de dois bicos com o emblema cor de cerejas, nada pude obter e tive de suspender o trabalho. 

Fonte: BIARD, Auguste François. Dois anos no Brasil. Brasília/DF: Senado Federal, 2004, pág. 86-88.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Relato sobre os índios ticunas em 1890


"Os Tecunas

✤✤✤✤✤

(Do Globo.)

Entre as diversas nações indigenas que habitam os rios JAVARY e JATAHY, á margem direita do SOLIMÕES, torna-se sobremodo notavel a dos TECUNAS, por seus usos e praticas de todo excepcionaes.

Eis o que relativamente a essa tribu escreveu no seu DIARIO DE VIAGEM AO RIO NEGRO, o ouvidor Ribeiro Sampaio.

'São os TECUNAS de um natural preguiçosissimo.

Na sua philosophia professam o miserave dogma da metempsycose ou doutrina phitagorica da transmigração das almas para outros corpos, ainda dos irracionaes.

Adoptam o rito judaico da circumcisão em um e outro sexo, sendo pela maior parte as mães ministras da operação que celebram com grandes festejos, impondo os nomes aos circumcidados.

São tão apegados á idolatria que aos mesmo já doutrinados nas nossas povoações não é possivel poder persuadir que deixem o seu idolo, pois continuamente se lhes está achando em suas casas.

É este idolo um medonha figura feita de diversas cabeças e cobertas por cima da casca de uma arvore, chamada na sua lingua AICHÁMA, que parece estopa, da qual fazem tambem alguns toscos tecidos para as cobertas.

Ao ídolo chamam HO-HO, nome que dão ao diabo.

O distinctivo d'esta nação consiste em um risco negro e estreito das orelhas até o nariz.

As mulheres não usam de cobertura nenhuma.

Têm porém os TECUNAS a singular arte de prepararem as aves e os passarinhos, que matam com esgaravalana, de tal sorte que ficam inteiros com todas as suas partes, enchendo-lhes a pelle com algodão ou sumauma, com o que contribuem para se mandarem para a Europa em beneficio da historia natural.

A respeitavel sacerdote da provincia do Amazonas e que por muito tempo viveu no Solimões, devo a descripção de um baptismo conferido a um menino TECUNA.

O digno sacerdote, que m'a referiu, foi testemunha ocular dessa scena grotesca, ou servindo-me de suas palavras, desse espectaculo doloroso, entremeiado de danças ao som de gaitas toscamente fabricadas de não sei de que madeira e taboca.

Mascarados uns com tinta vermelha e preta, referiu-me elle, e outros com rodilhas de panno e folhas na cabeça, invadiram diversos índios o lugar em que se achavam reunidos os pais da creança e os maiores da tribu, e logo após os primeiros mascarados entrou um no grupo, coberto com pelles de animaes, arremedando cada individuo o animal de que trazia a pelle e outros a ave com cujas penas se enfeitava.

Depois a creança, pintada de CARAJURU, foi collocada no hombro de uma mulher e mettida no centro de um grande circulo formado por homens e mulheres, o qual de vez em quando se abria, separando os sexos.

Em uma especie de dança frenetica, furiosa, em que os sons dos instrumentos desafinados se misturavam e confundiam com o som rouco das vozes, que repetiam constantemente a palavra - Keá.

Então, a um signal do chefe, abriu-se o circulo e cada qual começou a dançar por sua vez com a mulher que lhe ficava em frente uma especie de dança ligeira, cheia de tregeitos e movimentos lascivos, voltando em seguida para o seu lugar.

Depois, agitando o maioral uma especie de tridente que empunhava, abrio-se o circulo e a apresentadeira da creança, que se havia retirado a um banco, em meio do silencio geral, approximou-se cantando, do maioral, que, entre gestos e palavras mal distinctas, beliscou com o dedo pollegar e o index tão fortemente a cabeça da creança, que lhe veio immediatamente o sangue.

Esta terrivel ceremonia foi repetida por mais duas vezes em fórma de cruz.

Terminada ella, começaram de novo a tocar os roucos instrumentos, até que a um signal do chefe dirigiram-se todos ao panellão em que se achava o PUJAUARÚ em fermentação. Após copiosa libação encaminharam-se para a mesa, que era formada de uma porção de folhas, de pacoveira, estendidos no chão e onde assados, cosidos e moqueados achavam-se pedaços de macacos, caititús, araras, jacamins, etc. Terminou o festim entre momices e gritos que soltavam quando em cuias bebiam o nauseabundo PAJAUARÚ.

O nome que puzeram á creança foi o de URUTAC."

Fonte: A RAZÃO: ORGAM POPULAR (São Jerônimo/RS), 02 de Fevereiro de 1890, pág. 01, col. 01-03

domingo, 31 de maio de 2020

O Curupira - um estudo de 1887 - Parte 04 (Final)


"Em São Paulo (Itu, Campinas etc.) perdendo o nome de Çacy, toma o de Negrinho pastorejo, e para deixar de fazer diabruras não se lhe dá fumo mas sim velas que pelos campos, estradas e quintaes accendem quando d'elle querem obter protecção. É preciso dizer-se, que ahi em vez de ser um porte-malheur é antes milagroso. É crença que as velas que á elle se accendem não se gastam, porque com o seu barrete vermelho as apaga para leval-as para seu uso.

Quando entra pela província de S. Pedro do Rio Grande do Sul, é com o nome modificado em Negrinho do pastoreio, é então um Gavroche, que ninguém teme como á Kaapora, que tambem as vezes persegue os gauchos no macêgal das descambadas das coxilhas montado nos baguaes sem aperos.

Como paizes creadores, nas vastas campinas exerce o seo poderio e como entre o gado dê pancas, d'ahi veio o nome de 'negrinho do pastoreio', que significa o que vi e nos pastos, e não apascenta ou leva os animaes ao pasto, como em S. Paulo o faz pelas tikúeras.

Como vimos o Maty-taperê é o mesmo Çacy-saperé do Sul.

Maty é uma corruptella de Çacy, saperê o é de taperê, que já uma abreviatura de tapererê, que no Sul fazem sapererê.

Çacy significa a mãe das almas, como bem interpretou Baptista Caetano (hang-h-açã), e que concorda perfeitamente com as crenças amazonicas, onde tudo em todos os reinos da natureza tem uma mãe, (cy).

Taperê, deriva-se de tapeperê, de tape pe, no caminho, kê, ou , sahir, que por euphonia, muda o c em r.

Çacy-taperé, quer dizer a mãe das almas que sahe nos caminhos ou nas estradas.

É o numem viarum, de Marcgrave, o Macacheira o espirito dos caminhos do Padre Simão de Vasconcellos.

A corrente sempre crescente que vae levando de adulteração em adulteração o abanêenga, nhêengatu ou lingua geral, transformando pelo elemento estrangeiro todos os vocabulos a ponto de tornar alguns hoje desconhecidos, occasionou uma corruptella que dá lugar a fazer-se um só mytho de tres distinctos.

A interpretação, que dou por mais de um motivo, me parece ser a verdadeira: Primo, Çacy ou Maty, sómente pelas estradaas, caminhos e ruas, exerce seu poderio em todas as provincias; Secundo, a sua metamorphose, como o tenho verificado, em todas as provincias é sempre n'um passaro o Cuculus cayanus L. ou alma de caboclo, congenere e irmão do C. cornuus, segundo a lenda, o Uirapayé ou Tinkuan do Amazonas ou Alma de gato do Sul; Tertio enfim, os costumes, as formas, as côres do Çacy são as mesmas do Maty.

O viver do Çacy, occulto entre a folhagem secca, quasi da côr de suas pennas, assim como o seu canto, cujas notas nos illudem e que quasi sempre se ouve pela calada da noute, e raras vezes de dia, produzem nas pessoas nervozas, credulas e supersticiosas o mesmo effeito que o da Suinara (Strix furcata) e da Coruja (Strix clamator).

Conheço-o desde criança e o tenho visto pelas provincias porque onde tenho viajado.

Quando criança, com a imaginação cheia de contos, com que no berço me embalaram, quantas vezes não o tomei por encantado, depois de entrar pelos campos ou pelas matas ouvindo o seu cantar sem nunca poder vel-o illudido pelas suas notas, que ora me levavam para direita ora para esquerda, para frente e para traz!

Mas depois quantas vezes tambem ao erguer a sua crista, soltando de bico levantado as notas que me levariam para longe, não o atirei á meus pés, atravessado pelo chumbo da arma, para o escalpello da taxidermia tirar-lhe o encanto!

Não foi somente o canto, que parece dizer mesmo: Çacy-tapererê, que levou o indio a identifical-o com o Çacy anthropomorpho; foi tambem o habito de pousar sobre uma perna, pelo que, dizem, que o passaro é unipede.

Não é só no Brazil que esse zygodafilo é tomado como ave de máo agouro e como encarnação de um espirito máo.

No Paraguay e nas Goyanas é conhecido por feiticeiro e nuncio de infelicidades; em Cayenna tem o nome de Koukon-piayé.

Castelnau diz:

'Cet oiseau, est regardé, par toutes les tribus indiennes que s'étendent de Paraguay á la Guyane, comme étant de mauvais augure, et, dans toutes leurs langues il se trouve designé para les noms divers qu'elles appliment au mauvais esprit.'

Ouvi muitas vezes, no Rio de Janeiro, Minas Geraes e em outras provincias, dizer que á noute, quando o passaro sacode as pennas sahem fachos luminosos e phosphorescentes ficando no meio d'elles o seu vulto negro, como se fôra cercado por um resplandor de fogo.

Essa crença extende-se ao Amazonas e muitos affirmam ter presenciado o facto.

Existirá, com effeito essa phosphorescencia, ou será como o cheiro de enxofre que deixa, quando esconjurado, no dizer das velhas mineiras?

O Maty-taperê, não é, pois, mais do que o Çacy, esse estradeiro que tanto occupa a imaginação do tropeiro e boiadeiro, nos serões do fogo dos ranchos das estradas do sertão, e do tapuyo na rede do teyupar, levando este muitas vezes á loucura (Santarem).

A crença do Çacy ou Kaapora vulgarisou-se tanto como porte-malheur, que o vocabulo introduzio-se na linguagem brazileira, com tanta acceitação, que não ha quem não o tenha empregado nas diversas circumstancias da vida.

Como melhor não o faria, aqui transcrevo o que disse o Sr. Conselheiro Beaurepaire Rohan acerca d'esse mytho e de sua influencia.

A Kaapora aqui refere-se ao Çacy e á sua mãe.

'Caipora, s.m. e fem. (Geral). Nome de um ente phantastico, que, segundo a crendice peculiar a cada região do Brazil, é representado ora como uma mulher unipede que anda aos saltos, ora como uma criança de cabeça enorme, ora como um caboclinho encantado. Esses entes habitam as florestas ermas d'onde sahem á noute a percorrer as estradas. Infeliz d'aquelle que se encontra cara a cara com a Caipora. Nesse dia tudo lhe sahe mal, e outro tanto lhe acontecerá nos dias seguintes, em quanto estiver sob a impressão do terror que lhe causou o fatal encontro. Por extensão dá-se o nome de Caipora á pessoa cuja presença póde influir de um modo nocivo em negocios alheios; e tambem é caipora o individuo malfadao, aquelle que, apezar de sua moralidade, de suas boas intenções e do desejo de melhorar de posição, se vê constantemente contrariado em suas aspirações: Sou muito caipora.'

Da Kaapora veio o Caiporismo, que B. Rohan, assim tambem define:

'Má sorte, máo fado, infelicidade; estado d'aquelle que é constantemente contrariado em suas aspirações: É tal o meu caiporismo que n'aquella emergencia, em que me era tão necessaria a protecção de meus amigo achavam-se todos ausentes.'

O Sr. Emilio Allain, afastou-se de toda a crendice brazileira quando fallando do Kaápora diz: 'est un geant velu monté sur un énorme porc sauvage, et conduisant une troupe d'animaux de la même espèce, qu'il excite de temps en temps par ses cris'. Nunca ninguem lhe deu as proporções de gigante, antes dizem que é um anão.

Pelo que expuz, vê-se que tres mythos differentes, Korupira, Tatacy e Çacy ou Maty, têm sido confundidos sob a denominação de Kaapora, nome generico que quadra a toda essa familia mythologica.

Todos habitam o mato, porém a missão de um, o Korupira, é proteger as matas, as roças, e a caça: a do Çacy fazer malificios pelas estradas, e ainda a da Tatacy guardar os filhos, que em alguns lugares querem que sejam muitos, levando-os ás suas correrias.

A comparação das muitas lendas que tenho ouvido de todas as provincias e estados limitrophes, levou á convencer me que existem os tres mythos confundidos em um só.

Agora, ainda algumas linhas para concluir.

Muito propositalmente não dei até aqui a interpretação da palavra KORUPIRA, porque quiz familiarisar o benevolo leitor com o typo, para que conhecesse o seu aspecto, os seus costumes e o seu genio, nas differentes provincias, paa então abordar a questão etymologica.

Tres traducções se podem dar, porém uma não se harmonisa com a indole dos indios, admittindo-se que a palavra não esteja corrupta.

Kurupyra, kurupira ou korupira, póde ser: o pelle aspera, o sarnento, o tinhoso, o leproso ou pode ser o que vem à roça, ou o que jaz no mato.

Se dirivarmos de kuru ou kurub, sarna, lepra, aspero, e pyr, pelle, será o sarnento, se dirivarmos de ko, roça, u, vir e pira particula que passiva o verbo será, o que vem á roça, entrando o r por euphonia, e se dirivarmos de kaa, mato, u, jazer, e pira, será o que jaz ou vive no matto.

A primeira interpretação vae de encontro á tradicção e ás lendas; por estas poderá ser o pellado, o coxo, o pelludo, o dentuço, o pé torto, porém nunca o affectado de molestias de pelle.

A segunda maneira de traduzir a palavra, penso ser a verdadeira, não só porque vae de accordo com a tradicção, que muitas aventuras conta do mytho pelas roças, como concorda com a maneira de escrever do primeiro mestre da lingua o Venerando Padre Anchieta, que perpetuou o nome com o e não com u. O ter-se mudado aquella vogal para esta é facto commum entre nós, tanto que mais facilmente ouvimos pronunciar curação do que coração.

Posto que a terceira maneira de explicar o sentido da palavra pareça ser a verdadeira, porque mostra o lugar em que reside e exerce o seu poderio o genio indiano, com tudo a mudança de kurupira para karupira repugna a indole da ingua e á nossa phonetica, por não ser commum. Tanto assim é que, os indios e os civilisados ainda conservam a palavra karipyra com que designam outro mytho, sem ter soffrido a mudança do a para o.

Como depois veremos, o karipira é um gavião que vive n'agua e nas arvores, sempre á beira rio, pescando, e d'ahi vem o ser a palavra composta de kaa, arvore, mato, y ou ig, agua e pira."

Fonte: MUSEU BOTANICO DO AMAZONAS. Vellosia, 1887, volume 1Manaus/AM: Typographia do Jornal do Amazonas, 1888, pág. 106-109.

sábado, 30 de maio de 2020

O Tarzan capixaba


"Aparece no Espírito Santo um 'Tarzan' autêntico

Rio, 21. (Meridional Brasileira). - Informa-se de Espírito Santo que, na Barra da Conceição, acaba de ser preso, nas matas de Mucurí, um indivíduo, que há longo tempo está segregado da sociedade, vivendo completamente nú, servindo-lhe de vestes a barba e os cabelos, que atingiram o máximo desenvolvimento. Êsse indivíduo não usa armas de especie alguma. Acredita-se que não saiba falar, pois apenas solta grunhidos e recusa os alimentos que lhe são oferecidos. Consta haver o moderno troglodita assassinado uma velha, que acreditam ser sua mãe. Confirma-se, assim, aquilo que acreditavam ser uma lenda."

Fonte: O ESTADO DE FLORIANÓPOLIS (Florianópolis/SC), 22 de Janeiro de 1940, pág. 01

O Curupira - um estudo de 1887 - Parte 03


"Na Bahia, transforma-se completamente e não só muda de nome como de sexo.

A Kaiçara, é uma pequena cabocla quasi negra, que não dispensa o porco para sua cavalgadura. É tambem a protectora do caçador, quando este lhe mostra fumo e torna-se o seu cabrion quando não lhe dá. Não só os cães, como o proprio caçador, quasi sempre são attrahidos para o centro das mattas, onde, são surrados com cipó de yapekanga, cujos espinhos dilaceram as carnes das victimas.

Posto que actualmente desapparecesse o nome de Korupira, e fosse substituido pelo de Kaiçara, comtudo elle ahi existio, como nos prova o veneravel Padre Anchieta, quando nos diz em Maio de 1550, que 'chamam Corupira, que attaca muitas vezes os indios no matto, batem-lhes com açoutes, machucam-n'os e matam-n'os. Por isso os indios costumam deixar em um determinado caminho, que vae ter ao mediterraneo por asperas brenhas, em todo o vertice de montanha elevada, quando por ahi passam pennas de passaros, abanadores, flores e cousas semelhantes, como uma especie de oblação, pedindo com instancias aos Corupiras que não lhes façam mal'.

Cortando a locomotiva das vias ferreas, os centros do Rio de Janeiro e Minas Geraes, e levando nos seus silvos o progresso e a civilisação, afugentou o Kaapora, que outr'ora habitava as suas florestas e fez com que elle se refugiasse nas furnas das mattas das montanhas do norte d'esta ultima provincia, nos sertões ainda incautos onde as vezes apparece ainda com o nome de Korupira.

Talvez que pela geada que cahe nas serras d'essa provincia, lhe crescessem novamente os pellos de que se cobre o corpo, para resguardal-o do frio quando no queixada (Dicotyles labiatus) atravessa os campos, em procura do fumo dos caçadores, ou os enganando e os fazendo correr atraz de veados imaginarios.

Sendo pregando peças aos caçadores, matando-lhes os cães, atravessa as provincias centraes, para chegar aos campos do Rio Grande do Sul, onde abandona a cavalgadura para andar só a pé, mas então com duplos pés para não se poder saber quando caminha para frente ou para traz.

Sempre é o fumo para o cachimbo que lhe adoça as iras, e com elle se compra a felicidade na caça ou a licença para poder correr as florestas que tem sempre o Korupira por protector.

No Paraguay o Kaapora tambem impera sob a forma de um tapuyo velho, e vae mesmo á Bolivia, estender seu dominio sobre as mattas e seus habitantes. Por toda parte leva a mulher Tatácy (Amazonas), Tatámanha (Pará), ou Kaapora, e seus filhos, mas raras vezes se apresentam juntos. Quazi sempre a mulher fica em casa, o que não acontece ao filho predilecto que exerce seu dominio pelas estradas, pelos caminhos, pelas ruas e pelas roças.

Como criança não mata, mas as suas judiarias são as vezes maleficas, e annunciam sempre infelicidades e desventuras. Como o pae, tambem muda de nome: no Sul é Çacy tapereré, no centro Kaipora, e no Norte Maty-taperé.

O civilisado, que muitas vezes não entende a pronuncia do sertanejo, que é o mais perseguido por elle nas suas viagens, tem lhe alterado o nome; já o fez Çacy-pererê, Saperê, Sererê, Sareré, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um nome portuguez, o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome da Silva ou da Motta.

Para melhor conseguir seus fins, e fazer suas proezas, sem ser visto, quasi sempre vive o Çacy ou Maty methamorphoseado em passaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancolicas, ora graves ora agudas, illudem o caminhante que não póde assim descobrir-lhe o pouso, porque, quando procura vel-o pelas notas graves, que parecem indicar-lhe estar o çacy perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E assim illudido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal.

Quando no Norte, os tapuyos, ouvem o canto do Maty-taperê, e no Sul, os roceiros ou o Kaipiras, o do Kaapora ou do Çacy-taperê; que o civilisado toma por alma de caboclo, os velhos o esconjuram; as crianças unidas conchegam-se ao collo das mães; estas arrepiadas, olham para os paes, que tremem, mas não negam o fumo, que espalham pelas cercas dos quintaes e pelas portas para que o Çacy se cale, e se retire, levando com que matar o vicio de cachimbar.

Quando se não apresenta aos viandantes, sob a forma de passaro, reveste-se da forma humana, e só (no sul) ou acompanhado de sua mãe, (Pará e Maranhão) percorre as ruas, entra pelos roçados, vae ás casas de farinha; penetra nas senzalas; aterrorisa os passageiros; rouba a mandioca; furta farinha e quebra os beijús no forno, proezas em que é destro no Rio de Janeiro.

No Amazonas e Pará é um karumi de uma perna só, de cabellos vermelhos, os quaes a civilisação transformou em barrete vermelho (Pará) sempre acompanhado de uma velha tapuya ou preta vestida de andrajos (tatámanha) que pela calada da noute, e, mesmo de dia assovia dizendo: Maty-taperê!

É um tapuyosinho triste, como o são todos e que não evacua nem urina.

Vulgarmente só se apresenta sobre a forma de um passaro, que se não vê, mas cujo canto só ouve e o seu esvoaçar se sente. Toma esta forma quando quer se ver livre dos rigores da mãe Tatámanha.

Querem alguns que o Maty-taperê, seja a velha e não o pequeno, porém o que é mais correcto no valle Amazonico é que esse passaro phantastico seja a methamorphose do filho do Korupira.

O sr. José Virissimo, do Pará, tratando ligeiramente do Maty-taperê, cita como o canto do passaro o seguinte, que diz ser resto de algum mytho:

Matinta Pereira
Papa terra já morreu
Quem te governa sou eu.

Observo aqui que Papa terra, é no Pará um passarosinho preto de crista comprida, do qual não ouvi lenda alguma.

No Maranhão, o Maty-taperê anda tambem acompanhado pela velha, a que dão o nome de Kaapora.

Ahi a Kaapora dos sertões tem azas e vive pelos roçados, e pelas estradas e caminhos.

O povo das cidades, já a toma para motivos de seus folguedos. Nas festas populares de S. João apparece sempre a Kaapora com o Bumba meu boi, attrahindo o povo que gosta e ri-se dos seus esgares e seus momices. N'essa festa se vê fundido o elemento portuguez com o indigena e africano.

Figuram a Kaapora com uma armação de páo, vestida, representando uma mulher de braços abertos, de azas, e coberta com um lençol e andrajos, sob o qual se esconde um homem, que lhe dá os movimentos e imita os tregeitos e o costume da verdadeira Kaapora.

O povo gosta d'essa figura, segue-a, procura chegar-se a ella; de repente foge, approxima-se outra vez, recúa, sempre rindo-se das duas pantominas e gritando em côro:

'Assim Ceriema.
Bate as azas, vae-te embora'.

Ou então:

'Assim, Kaapora.
Larga a perna, vae-te embora'.

Em Sergipe é um moleque muito preto, com carapuça de latão, que tambem para obter fumo para seu cachimbo faz as maiores tripolias. Já esse mytho ahi está fundido com os contos portuguezes do cyclo de Gargantua, e apparece no conto do Manoel da Bengala referido em Coimbra sob o titulo A Bengala de quatro quintaes.

No Ceará a Kaapora, dá motivos tambem a uma festa quasi igual á do Maranhão, que se effectua tres dias antes e tres dias depois do dia de Reis. É a festa mais concorrida do sertão. A Kaapora faz parte do prestito do Bumba meu boi; é companheira do Privilegio ou José do Abysmo, da Burra, da Ema e dos Vaqueiros que fazem pelas estradas os maiores tregeitos, folgando e dançando, sempre dirigidos pelo homem da burra e tocados pelas vaias e pelas gargalhadas dos patuscos que os seguem; es gritos de:

'Chô, Ema! Sacode as pennas!'

ouvem-se por toda a parte, no meio dos assovios e das rizadas, quando ella experta os vaqueiros, sacudindo as palhas de carnauba com que cobre.

A Kaapora já ahi, em alguns lugares, não representa a mãe e sim o proprio Çacy como em Sergipe. É um menino com uma urupema na cabeça coberto por uma saia ou lençol, de sob o qual sahem duas varas formando braços.

Em Ilhéos (Bahia), o Maty ou Çacy, tem o nome de Kaapora, e diz que onde se apresenta é sob a forma de uma cabocla moça, clara e bonita.

Não sei porque em Ilhéos, toma o Çacy essa fórma. Não será a mãe Kaapora, porque em todo o sertão da Bahia, o Kaapora é representado como bem a descreve nos Cantos do Equador o distincto amigo e poeta Mello Moraes Filho?

Aqui reproduzo a sua lenda:

O CAIPORA

É caboclinho feio
Alta noite na matta a assoviar
Quando alguem o encontra nas estradas
Saltando encruzilhadas
Se põe a esconjurar!

É alma de um tapuyo
Fazendo diabruras no sertão...
Cavalgando o queixada mais bravio,
Transpõe valles e rios
Com um cachimbo na mão!

Assombro das manadas,
Enreda a onça em mattos de cipó;
De montanha em montanha vae pulando,
Vae quasi que voando,
Suspenso n'um pé, só!

Ao pobre viandante
Assombra e ataca em meio do caminho;
E pede fumo e fogo, e sem demora
Lhe mostra o Caipora
Seu negro cachimbinho.

Servido no que pede,
A contas justas, safa-se a correr...
Do contrario, se fica descontente,
De cocegas a gente
Faz rir até morrer!

É caboclinho feio.
Alta noite na matta a assoviar
No Norte, diz o povo convencido:
- Não indo prevenido
Não é bom viajar!

A Kaapora, mãe do Çacy, como no Maranhão, entra como episodio nas poesias populares da Bahia. No dia de Reis, sahe á rua, acompanhada pela molecagem, que a acompanha a gritar, cantando:

'Assim, Kaipora,
Feliz dô-dô!'

É a mesma do Maranhão, porém, sem azas, e coberta de esteiras e lençóes. A musica que acompanha sempre essas festas é composta de maracás, tambores e canzás ou caracachás.

No Rio de Janeiro, onde a onda negra mais estragos fez, onde pelos rincões o cancro da escravidão mais tem corroido, o Çacy-tapererê, que por uma syncope passou a ser saperê e que os negros fizeram sererê e siriri tomou a côr negra e usou o barrete vermelho, que os africanos recebiam nos armazens do Vallongo, do Cajú e nos das costas da Marambaia. Assim o Çacy passou a ser molequinho cóxo, ferido nos joelhos, porém mais vivo e activo do que o caboclo.

Verdadeiramente moleque ou garoto, como é em geral o crioulo.

Na estrada real de S. Cruz, na fazenda do Capão do Bispo, morgado dos Furtados de Mendonça, muitas vezes ahi ouvi dizer-se que o Caapira, ainda reminiscencia corrupta do Korupira, tinha por companheiro o Çacy-pererê, passaro de um pé só, que alta noite vagabundêa pelas estradas, cantando:

'Çacy-pererê minha perna me dóe.'

O Sr. Felix Ferreira, disse e Eduardo Perié repetiu no seu livro e A litteratura brazileira nos tempos coloniaes, que na fazenda de Sta. Cruz, é crença geral que o Kaapora tem por companheiro o Çacy, que canta 

'Sacy Pereira minha perna me dóe.'

O Çacy quando ahi sahe do matto, não é para fazer propriamente malificios, e se algum acontece, é resultado das suas molecagens. Só quando toma a fórma de passaro, torna-se agoureiro ou faz infeliz aquelle que persegue, porque então, querem que seja a alma de um caboclo transformada em passaro; por isso o chamam tambem, como já vimos, alma de caboclo.

Como passaro, canta do mesmo modo que o Maty, e tem todos os seus costumes.

Assim quando pelas fazendas e sitios nos serões, se faz farinha, o Çacy apenas vê a forneira só, vem lhe pedir farinha ou joga-lhe cinzas nos olhos para furtar-lhe a crueira, pelas estradas procura as encruzilhadas e trepa nas porteiras e nos copins para transviar os viajantes, e espantar as tropas.

Quando passam as porcadas, monta n'um para estramalhal-as, desesperando assim os tropeiros, que tem de campear os lotes, arrecadar as cargas jogadas pelo campo e arreiar de novo as bestas.

No centro e no norte de Minas Geraes onde o elemento indigena não se deixou assoberbar pelo africano, o Çacy apparece outra vez como um caboclinho de pés bifurcados fazendo as diabruras que faz o molequinho na mata do Rio, sempre de cachimbo no canto da bocca, pitando o fumo filado aos pobres viajantes, e furtando a comida dos escravos pelas senzalas.

Nos terrenos auriferos mora em geral nas betas e nas catas abandonadas, ou nas grunhas das montanhas, longe dos ribeirões, que não atravessa, por não gostar d'agua corrente; sahe para correr os pastos e ahi cavalgar os animaes, levando em correrias toda a noute fazendo com que os pobres tropeiros de manhã os encontre desbarrigados.

Nas noutes brumosas, quando os valles e os gupiaras se cobrem com aquella nevoa branca e floculosa, que, vista das serras, parece um mar de algodão batido, é quando elle gosta de perseguir os animaes trançando-lhe as crinas e os escondendo para que os campeiros não os encontrem e curtam o frio da gelada madrugada campeando em vão a madrinha de sua tropa.

Que se transforma em homem, e veste-se de rodaque para andar pelas casas de jogo, ou seduzir o sexo fraco, o affirmam muitos.

Que tem medo de esconjuros, de rozarios e orações, sempre as velhas me disseram, e quando ellas avistam alguma moça magra, pallida e triste logo dizem: 'é obra do Çacy', porque affirmam, que as moças se apaixonam por elle, com elle se amancebam, sendo a morte sempre a consequencia d'esse amor criminoso; d'ahi vem a chula que ao som da azinhavrada viola, enfeitada de fitas, canta o Kaipira nos requebros do katereté:

Menina, minha menina,
Quem te fez tão triste assim,
De certo foi o Çacy
Que flor te fez do seu jardim.

Os amores do Çacy
Trazem a morte a seu bem;
Reza á Nossa Senhora
Que te livre do mal; amen.

Outr'ora pelas festas de Reis, houve tambem no Rio de Janeiro o Bumba meu boi, mas nunca vi nelle tomar parte o Çacy."


Fonte: MUSEU BOTANICO DO AMAZONAS. Vellosia, 1887, volume 1Manaus/AM: Typographia do Jornal do Amazonas, 1888, pág. 94-99.
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