sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Tenente João Salustiano Lyra


Por Fernando Osório

"O impávido e inditoso pelotense Tenente João Salustiano Lyra...

'Tiveste, então, a teu lado, um filho desta cidade adorável, e esse foi o teu prestimoso Tenente João Lyra, ajudante da comissão, cuja memória aqui me deslumbra no reverbero da saudade...'

Proferiu estas palavras o autor do presente ensaio, a 7 de abril de 1922, saudando em nome do Povo de Pelotas ao Gen. Rondon, que respondeu, com impressionante emoção, evocando, com lágrimas nos olhos, a imagem do seu amigo João Salustiano Lyra...

Este pelotense, aos 39 anos, vítima do seu heroísmo, morreu, no dia 3 de abril de 1917, pela ciência, pela Pátria e pela Civilização, ao afrontar o sertão de Mato Grosso, como auxiliar da 'Missão Rondon', o risco das 'corredeiras' impetuosas de um rio. Cumpriu o brilhante soldado os fados de um destino misterioso e nobre! Conduzido pela mão da fatalidade...

O Brasil nele perdeu uma das figuras de esperanças mais fundadas da sua geração, pelo talento, pelo caráter, pelo patriotismo comprovado. Era um espírito privilegiado, cheio de energias, que mais e mais refulgiam, à proporção que se iam desdobrando as facetas primorosas de uma inteligência rara e de uma vontade forte e resoluta. Desde o início do seu curso superior, era João Lyra distinguido pelos mais exigentes professores da nossa Escola Militar. É conhecida a frase de Trompowski, após o seu exame de cálculo integral: 'Há mais de 10 anos, não aparece aqui estudante do seu merecimento'. Era o lisonjeiro prognóstico do provecto mestre confirmado, mais tarde, no campo do próprio magistério, onde veio o Dr. João Lyra a figurar, entre a admiração e a simpatia das novas gerações.

Ele procurou dilatar o vôo de suas aspirações indo buscar, nos mais cultos centros científicos do estrangeiro, o cabedal da técnica moderna, aplicável à arte da sua nobre profissão e aos correlatos problemas da Engenharia. Fez-se, então, especialista em assuntos de eletricidade, aplicada à vasta exploração da indústria, em suas múltiplas modalidades.

Trabalhou, ao lado do Cel. Sisson, na montagem da fábrica de pólvora de Piquete, em S. Paulo. Prestou relevantes serviços à obra dos telégrafos, em companhia de Rondon. Só essa missão bastaria para dar-lhe alto renome, tal o alcance humano da catequese da civilização baseada nos ensinamentos de José Bonifácio. Procedia, aí, João Lyra a estudos topográficos e astronômicos da maior importância, desvendando segredos das florestas virgens, assinalando a posição do regime dos rios, reunindo dados de botânica, geologia e zoologia, palmilhando ermos territórios, jamais pisados pelo homem civilizado. Tal o seu mérito profissional que, mais tarde, ao organizar-se a célebre expedição Roosevelt-Rondon, pelos sertões brasileiros, foi ele destacado para o lugar de astrônomo  - posto em que revelou a sua extraordinária competência - merecendo especiais provas de apreço pessoal e de admiração do notável estadista e explorador americano. Após memorável expedição, em que se realizaram trabalhos geográficos de suma importância, como a determinação das nascentes de um rio até então desconhecido do mundo científico, regressou João Lyra ao Rio de Janeiro, onde professava importante cadeira na Escola Militar. Então veio de novo buscá-lo o Cel. Rondon, seu íntimo amigo, para continuar a auxiliá-lo na comissão de linhas telegráficas.

Foi aí que a morte colheu o inditoso conterrâneo ao afrontar um dos maiores riscos - o das 'corredeiras' impetuosas dos nossos rios interiores - enchendo de luto o coração de Rondon, o impávido bandeirante, que lhe votava especial estima e admiração."


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...