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domingo, 21 de agosto de 2022

A Família Quadros da Capela da Buena



 Centenarios. - Na capella da Buena, termo da cidade de Pelotas, deu-se um singular exemplo de longevidade, no Sr. Ignacio Antonio de Quadros, morto a 13 de outubro com 118 annos de idade, e ainda assim depois de longa enfermidade.

Ha dous annos, em 16 de dezembro de 1862, fallecera-lhe a esposa, já então com 116 annos; de maneira que erão ambos da mesmissima idade.

Esse casal vividor, e estimavel pelo seu caracter e procedimento, deixou uma prole de 362 filhos, netos, bisnetos e tataranetos.

Pois já é descendencia!

Fonte: O DESPERTADOR (Desterro[Florianópolis]/SC), 23 de Dezembro de 1864, pág. 01, col. 03

domingo, 17 de julho de 2022

Eleitores da Capela das Ladrões (Capela da Buena) em 1833

 



CAPELLA DOS LADRÕES

Os Senhores:

João Francisco da Silva

Francisco de Paula Vieira

João Manoel da Costa Lima

Fonte: O NOTICIADOR (Rio Grande/RS), 14 de Março de 1833, pág. 02, col. 01

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Coronel Justo Dias de Siqueira

 


Na solicitação de um amigo, que mora justamente na Rua Coronel Justo Dias de Siqueira, em Capão do Leão, o qual não tínhamos nenhuma informação sobre este personagem histórico, resolvi buscar algum conhecimento sobre o mesmo, afim de dirimir essa dúvida. Segue o que encontramos:

Justo Dias de Siqueira era residente no Passo das Pedras, membro da Guarda Nacional da  Freguesia da Capela da Buena e pela ocasião da Proclamação da República em 1889 encontrava-se como funcionário da Estação Ferroviária do Passo das Pedras. Ainda era capitão. Neste mesmo ano, foi presidente do comissão executiva republicana da Freguesia da Buena.

Logo em seguida foi promovido a major e recebeu o comando do 25o. Corpo Provisório de Cavalaria da Buena, tendo atuado na região como chefe das forças legalistas (republicanas castilhistas).

Foi o 1o. sub-intendente do distrito de Capão do Leão, criado pelo intendente de Pelotas, Henrique Chaves, em 1893. Nesta ocasião, foi alçado ao posto de tenente-coronel.

Com o final da Revolução Federalista, foi promovido a coronel honorário com comenda de distinção, tendo se ocupado mais tarde com a supervisão do alistamento militar nas regiões do Capão do Leão, Capela da Buena e Santo Amor. Possuía um sítio em Capão do Leão, onde se aposentou.

Não dispomos dados de seu passamento.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Juvêncio Pereira - o terror da Serra dos Tapes

Interior do município de Cerrito

Célebre, Celebérrimo, famigerado, facínora, lendário, inditoso, façanhudo, terror, celerado – eis alguns dos adjetivos que pululavam em jornais de Pelotas, Rio Grande, Jaguarão, Bagé, Porto Alegre, e até mesmo na capital do império, o Rio de Janeiro, quando na década de 1880 ia se noticiar as bandidagens de Cândido Juvêncio Pereira, ou simplesmente Juvêncio Pereira, como era mais conhecido.
                Juvêncio Pereira era procedente da freguesia do Cerrito (hoje município), que na época pertencia ao município de Canguçu. Nasceu por volta de 1851 ou 1852 e desde a mais tenra juventude já era conhecido por suas contravenções. Consta que desertou da Guarda Nacional em 1873 e se ocultou durante certo tempo no interior de Canguçu em razão disso. Todavia, voltou a morar na freguesia do Cerrito e não era pessoa muito bem vista na comunidade, pois o alcunhavam bandido de longos tempos na região. Agia no interior, praticando roubos diversos, quase sempre buscando dinheiro ou objetos de valor. Também era de uma família conhecida pela má-fama. Tinha um irmão, João Pereira, que o acompanhava nos crimes, e um primo de apelido Belo Pereira (Belarmino Pereira de Castro), igualmente biltre. Os Pereira do distrito do Cerrito encontraram confrades perfeitos para sua vida de crimes entre os Couto de Canguçu, dentre os quais se destacavam Francisco Luiz Couto, Galiano Couto, Raphael Couto, Marciano e Camillo Couto. Importante destacar que esta aliança criminosa entre as duas famílias vai ser a origem do bando liderado pelo próprio Juvêncio anos depois.


                A entrada de Juvêncio Pereira na notoriedade pública muito além do pequeno mundo da freguesia do Cerrito se deu em 08 de Junho de 1880, quando assassinou Luiz Manoel Guerreiro, de 24 anos, após ter ido a casa deste na localidade do Tatu cobrar uma suposta dívida por causa de uma carreira de cavalos perdida. A partir de então, a clandestinidade passou a ser sua marca e se tornou um típico bandoleiro – acoitado, nômade, ladrão, assassino. Aterrorizou o interior de Canguçu, Piratini e Pelotas, sendo caçado por diversas patrulhas, envolvendo-se em fugas espetaculares, tiroteios e mortes.
                No inverno de 1882, foi preso pela primeira vez pela polícia de Canguçu numa escaramuça com a polícia nas imediações da Coxilha das Três Pedras. Preso, foi julgado logo em seguida e condenado às galés perpétuas (trabalhos forçados) pelo juiz da comarca daquele município. A prisão foi uma mera trivialidade na trajetória de Juvêncio Pereira. Aproveitando-se da precariedade da cadeia, Juvêncio organizou a própria fuga e a dos demais presos na noite do dia 15 de Setembro de 1882. Todos escaparam para pavor dos moradores.
               
O Bando de Juvêncio
                O bando de Juvêncio era composto pelo consórcio entre os Pereira e os Couto, mas atraía para si toda sorte de delinquentes que passaram a enxergar em Juvêncio Pereira uma espécie de personagem lendário. Também faziam parte da quadrilha: João Manoel de Barros (procedente de Camaquã), Vicente José Gonçalves, Manoel de Braga (pardo quilombola), Adriano Soares de Maia (português), Florentino Marques de Bittencourt (alcunhado Florindo Casú), João Nepomuceno, João Pequeno, José Miguel, Timóteo dos Santos, Rivadavia (uruguaio procedente de Durazno), Francisco Ayres Filho, José Gonçalves (procedente do Passo das Pedras, distrito da Buena), Zeferino Ermelino Furtado, José Ventura, Emygdio Borges, Honório “Piaco” Feijó (de Arroio Grande, associado ao bando, porém aparentemente líder de uma quadrilha própria), Serafim Estrella, Petrônio Álvares, Serrão Pacheco, Testa Furada, entre vários outros ignorados. No auge de suas tropelias em Canguçu, os cronistas da época afirmam que Juvêncio chegou a arregimentar mais de 30 homens. Nos momentos em que eram quase desbaratados, o núcleo podia descer a meros três ou quatro meliantes. Também há o registro que várias mulheres acompanhavam o bando na condição de concubinas. Segundo os noticiários, muitas delas teriam sido obrigadas a se amancebar.
                Galiano Couto era o imediato de Juvêncio, uma espécie de homem de confiança do criminoso. Posteriormente, essa função será delegada a Serrão Pacheco, mas este ainda é apenas um dos quadrilheiros de Juvêncio. Ressalve-se que vários membros do bando foram mortos e presos em momentos diferentes e Juvêncio desde a fuga da prisão em 1882 manteve-se sempre a salvo.
                Durante o ano de 1883, Juvêncio Pereira e seus bandoleiros aterrorizam as freguesias do Cerrito e da Buena, e o sul de Canguçu, chegando mesmo perto do núcleo urbano, mas também fazendo incursões além do rio Piratini, aparecendo em Arroio Grande e também na área da antiga capital farroupilha. No ano seguinte, o bando intensifica suas ações e passa a ser nota frequente nos jornais da região.
                Em 04 de fevereiro de 1884, Juvêncio Pereira e Francisco Ayres Filho surpreendem, roubam e matam os mascates italianos Pedro Brancati e Antonio Sanzio nas matas da freguesia do Cerrito.  Logo em seguida, em 02 de março o bando é visto furtando gado na freguesia de Santa Isabel, Arroio Grande. Ainda no fim deste mês, veementes pedidos de socorro provêm da região do Arroio Malo, em Herval. Em suma, o nomadismo dos salteadores é muito evidente, igualmente porque patrulhas policiais das mais diferentes freguesias e cidades se põem ao encalço dos bandidos. No dia 09 de abril, violento tiroteio entre a quadrilha de Juvêncio Pereira e a força policial do subdelegado Bernardino Ferreira Porto ocorre no Passo dos Marmeleiros, Canguçu. Há muitos mortos entre os bandoleiros e se informa falsamente que Juvêncio Pereira também está entre as vítimas fatais. Apesar das baixas entre os criminosos e alguns presos, Juvêncio escapa com vida e parte da quadrilha se mantém em sua trajetória desvairada.
                Logo em seguida, em maio ocorre outro crime de grande repercussão: a morte de uma família de nove pessoas no Passo das Pedras (freguesia da Buena, hoje parte do município de Capão do Leão). Mais gente da quadrilha passa a ser presas em diferentes localidades, mas Juvêncio mantém-se escondido. Em junho, outro tiroteio com a polícia nas imediações do Cerro do Graxaim, em Canguçu. Em julho, roubo a uma casa comercial no 2º. distrito de Piratini, onde os bandidos usando máscaras espancam até a morte o dono do estabelecimento, o espanhol Pedro Miguel Leyoñoz. Novos crimes se sucedem no Cerrito e na Buena – espécie de área preferencial de Juvêncio e seus asseclas.
                Um detalhe ímpar da ação do bando é que os criminosos juram de morte cada um dos que os perseguem ou ainda pior os traem. Relatos dão conta que informantes são assassinados em suas casas na calada da noite e os bandidos fazem questão de propagar juras intimidatórias a delegados e chefes de polícia. Os dois mais odiados (e justamente aqueles que infringiam a perseguição mais intensa a quadrilha) são Bernardino Ferreira Porto, subdelegado do Cerrito, e o capitão João Manoel Barbosa, subdelegado da Buena.

A morte de Bernardino Porto e a fuga para o Oeste
                Em 25 de Outubro de 1884, no Passo do Vieira (atualmente parte do município de Morro Redondo), o subdelegado Bernardino Ferreira Porto e o soldado Raymundo Serra em expedição a cavalo em busca dos bandoleiros de Juvêncio Pereira se deparam com dois indivíduos deitados e dormindo na aba de um capão de mato e supondo que eram companheiros da mesma jornada, dirigiram-se a eles sem a menor prevenção. O desfecho do encontro é trágico: os dois homens são o próprio Juvêncio Pereira e Marciano Couto. Sobressaltado, Juvêncio puxa a pistola que trazia na cintura e fere mortalmente o subdelegado Bernardino Porto, que imediatamente cai em agonia. O soldado Serra depois do primeiro tiro, desfere outro sobre Marciano Couto que é fulminado ali mesmo. Allucinado e persuadido que havia mais gente a persegui-lo, Juvencio Pereira bateu em retirada para o mato, atirando, porém, ainda alguns tiros sobre o companheiro de sua victima que o perseguia a distancia. Vários petrechos de seu arsenal de guerra são deixados por Juvêncio, que dizem estar ferido e refugiado nas matas da região.  Alguns julgam que ele possa estar morto. Ainda não.
                A morte de Bernardino Porto causa profunda impressão em toda a região, pois o subdelegado era considerado o mais implacável perseguidor do facínora. Os jornais repercutem o acontecido, solicita-se apoio do governo da província, lamenta-se em toda a parte os malogros da polícia.
Contudo, quatro dias depois da morte de Porto, a força policial de Cerrito com apoio do subdestacamento da Buena e de guarda de Canguçu trava novo conflito com os bandoleiros. Tiroteio pesado entre os dois grupos próximo ao Passo de Maria Gomes, com muitos mortos e feridos. Morrem José Ferreira Porto (irmão de Bernardino) e o fiscal Antônio Maria do lado da polícia. Do lado dos bandidos, vários são alvejados fatalmente e João Pereira (irmão de Juvêncio) e Serafim Estrella são presos. Armamentos e munição são confiscados. Brevemente, os sucessos das autoridades de segurança induzem falsamente que a quadrilha está abatida. Juvêncio e alguns de seus seguidores conseguem escapar e fogem para o oeste.


Provavelmente para reorganizar o bando e conseguir novos recursos para recuperarem armas e munições, Juvêncio intensifica seus roubos e a violência empregada. Em novembro de 1884, consta um assalto com espancamento até a morte no Passo do Acampamento, em Piratini, na estalagem de Pedro Miguel Sobreira, onde também são roubados mais de quinhentos mil réis. Na mesma empreitada, um caixeiro do financista Pedro Espelet é roubado de todos os seus provimentos, mas tem melhor sorte e consegue evitar a morte certa se evadindo em meio a vegetação. Ataques registrados na localidade do Juncal, em Jaguarão. Em seguida, latrocínios em Pedras Altas. Sucedem-se ataques a propriedades de Israel Fagundes (três contos de réis) e Zeferino Faria (cinco contos de réis) já em Cacimbinhas (atual município de Pinheiro Machado). O ano está terminando e se tem notícia que os bandoleiros entram em confronto com outros bandidos próximo a Dom Pedrito. No dia 14 de dezembro, observa-se a quadrilha na Bolena, em Bagé. Os jornais chegam a afirmar que em janeiro de 1885, Juvêncio Pereira já rondava Uruguaiana. O bando, porém, não se demora na Campanha. O retorno será breve.

O retorno de Juvêncio e o grande revés do bando
                No dia 18 de fevereiro de 1885, Juvêncio e seus bandidos atacam a casa de Domingos Antônio Barbosa, próximo ao Arroio das Pedras, na divisa entre o Cerrito e a Buena. Atravessando uma restinga de matos e se aproximando do local, a súcia tem intenção de assaltar a propriedade do sujeito que dizem ser conhecido como homem de moeda. No entanto, após terem sido avistados por uma escrava da casa, que adentra a residência em desespero e aos gritos, os bandidos encontram a residência já completamente fechada. No interior da casa, sitiados seus moradores aguardam a desistência dos criminosos. Contudo, os bandoleiros desferem uma descarga violenta de tiros na moradia, antes de se retirarem, quase vitimando uma criança recém-nascida que se encontrava ali abrigada. O ataque à casa de Domingos Antônio Barbosa causa muito espanto na região. Duas coisas passam a pesar após mais uma brutalidade de Juvêncio Pereira e seus quadrilheiros: as autoridades da região não podiam mais tolerar tantos episódios de violência; os bandidos tinham atacado uma pessoa influente da região, providências iriam ser tomadas com mais celeridade.
                Usando de intimidação e violência, as polícias de Pelotas, Canguçu, Piratini, Arroio Grande e até Jaguarão se colocam na perseguição implacável a Juvêncio Pereira e seu bando. Abusos são cometidos e a imprensa noticia o desconforto da população em vários rincões. A casa de parentes dos Couto no interior de Canguçu sofre uma abordagem violenta da polícia em busca de informações.
                No dia 15 de abril, num local próximo ao Passo do Machado, Canguçu, ocorre um novo e decisivo confronto entre o bando de Juvêncio Pereira e as forças policiais. O tenente Augusto César da Cunha e o capitão João Manoel Barbosa de Menezes no comando de uma grande linha de policiais de Canguçu, Buena e Cerrito, cerca de 50 homens ao todo, infringem perdas significativas ao bando e praticamente aniquilam sua ação na região. Após um tiroteio intenso nos campos e matas da região, em que os cavalos são instrumentos de combate valiosos, muitos bandidos são mortos e presos. Na mesma empreitada, o tenente Cunha – homem conhecido por seu caráter enérgico e obstinado – consegue numa perseguição praticamente individual capturar o “número dois” da quadrilha: o braço-direito de Juvêncio, Galiano Couto. A prisão de Galiano é um duro baque ao bando. Os Couto eram diretamente responsáveis pelo provimento de armas, munições e mantimentos aos bandoleiros, devido às suas ligações pessoais. A população da Serra dos Tapes e os jornais festejam o sucesso da autoridade pública.
                Quase que de forma concomitante, outros bandidos são presos em diversos municípios da zona sul. Ocorre uma grande devassa contra os criminosos. No Passo do Vieira, no Chasqueiro, na Serra das Asperezas, e até na Vila de Camaquã, vários delinquentes ligados à quadrilha são capturados.

O destino final de Juvêncio Pereira
                Apesar do revés sofrido no Passo do Machado, Juvêncio Pereira não foi capturado. Mas abandona a região e volta a se esconder. O resto do ano é de um silêncio enigmático sobre o seu paradeiro. Alguns consideram a possibilidade de ele estar morto, pois foi ferido na grande batalha de abril. Ledo engano. O ano de 1885 segue até o seu final sem notícias concretas sobre Juvêncio, apenas boatos. Mas o ano seguinte volta a registrar movimentos do malfeitor.
                Em 05 de janeiro de 1886, uma escolta de 15 praças do 5º. Regimento de Bagé se instala na estação ferroviária do Cerro Chato, após um pedido de socorro da direção da estrada de ferro que avisa que o bando de Juvêncio vagueia a região. É possível que Juvêncio tenha reunido novas asseclas durante o ano anterior, mas sua capacidade de ação encontra-se reduzida. Provavelmente não contava com mais de cinco pessoas. No mesmo mês, no dia 17, Juvêncio e um companheiro são vistos tomando cerveja no Hotel São Pedro na cidade de Pelotas. Avisada a polícia, não encontra nenhum rastro dos meliantes. Sucedem assaltos malogrados em algumas localidades rurais de Pelotas e Canguçu. Não há o mesmo furor de outros tempos. Durante o ano Juvêncio ainda cometerá algumas barbaridades no interior de Bagé. Todavia, caçado pela polícia e duramente fustigado.
                Em janeiro de 1887, um relatório de autoria do delegado Pedro Baptista Corrêa da Câmara de Canguçu enviado à capital da província é taxativo: Juvêncio Pereira refugiou-se em Rivera, no Uruguay. Os supostos bandoleiros de Juvêncio encontram-se dispersos, presos ou mortos. Era o fim do terror da Serra dos Tapes.

Apesar do exílio, o mito ainda persistiu
                Em março de 1888, uma quadrilha atacou e manteve em cárcere privado a família de Mathias Franck, agricultor estabelecido em Santa Isabel, Arroio Grande. O pobre lavrador é obrigado a dar a quantia de quatro contos de réis aos três bandidos. Libertada a família, um detalhe é descoberto pela polícia: quando sequestrado, Mathias Franck foi amordaçado com um lenço que tinha um bordado a retraz com o nome de Juvencio Pereira. Não era o célebre criminoso, muito menos provável que fosse ainda algum do bando. O fato é que o mito de seu nome servia para impor medo. Meliantes de outras paragens entendiam que ter seus nomes vinculados à figura de Juvêncio era sinônimo de ser respeitado e temido.

                Os anos se passaram e quem assumiu a herança maldita de Juvêncio Pereira foi Serrão Pacheco, agora agindo quase exclusivamente no interior de Canguçu. Apesar de suas bandidagens, com o início da Revolução Federalista em 1893, Pacheco não precisará se preocupar muito. É alçado pelas forças maragatas a um posto militar combatendo ao lado dos federalistas. Vários de seus bandoleiros igualmente serão transformados em honrados soldados. Fatos de um passado em que o Rio Grande do Sul vivia a ferro e fogo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Histórias Curiosas LI

Conta-nos um colaborador do blog, oriundo do Cerro da Buena, Morro Redondo, curioso acontecimento numa eleição ainda na época do Regime Militar.

Existia um grande armazém na Capela da Buena que era local de votação das comunidades rurais em volta. Muitos eleitores dos mais diversos confins iam em época de eleição votar ali. As cédulas eleitorais permitiam escrever o nome do candidato escolhido ou o respectivo número. 

Como vários eleitores chegavam sem se quer saber direito em quem votar, normalmente um panfleto ou uma boca-de-urna bem feita na hora, convencia o menos informado. Assim ocorreu, como era de costume. Só que o resultado posterior da seção surpreendeu a todos. Na apuração, o candidato mais votado foi um candidato que sequer estava inscrito, seja na lista do MDB ou na lista da ARENA. Um tal de Tomé Sadol.

Intrigados, semanas depois, vários moradores do local entenderam o curioso resultado do pleito. Na parede do armazém, entre outros cartazes publicitários, se destacava um em cor avermelhada com os seguintes dizeres: "A melhor escolha. Tome Sadol".

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Histórias Curiosas XXII

Campanha eleitoral acontecendo em Pelotas na década de 70 e era consenso que a extinta ARENA elegia muitos vereadores a cada pleito graças à zona rural. Lógico, naquela época, Capão do Leão, Morro Redondo, Turuçu e Arroio do Padre compunham a zona rural de Pelotas, nenhum havia ainda se emancipado. Apesar do Capão do Leão ser mais emedebista devido à atuação do vereador Elberto Madruga, os arenistas conseguiam arraigar uns bons votos por aqui e também nos arredores.
            Foi então que o comitê da ARENA pelotense organizou uma série de atividades num domingo para promover seus candidatos, com almoço, panfletagem e toda a sorte de propaganda que hoje seria seguramente proibida. O roteiro escolhido iniciava no Passo do Salso, passava pela Vila Nossa Senhora de Lourdes, com carreata no Jardim América e almoço na Vila do Capão do Leão no antigo Salão do Manoel Selmo. À tarde, passariam pelo Cerro das Almas, Passo das Pedras, Corticeira e terminariam na Capela da Buena, onde seria feito um pequeno comício improvisado. Na Capela da Buena, ainda haveria concentração de pessoas de outros locais de Morro Redondo, pois alguns cabos eleitorais já teriam de antemão providenciado o transporte de muitos eleitores até o local.
            O tal domingo aconteceu com muito entusiasmo dos arenistas, distribuição de brindes e discursos animados. Só que na conclusão da caravana, havia um pequeno problema: a presença de um vereador da ARENA candidato à reeleição que era mal visto pelos moradores da Capela da Buena. Pouco tempo antes, o dito vereador teria dado uma entrevista à Rádio Tupancy em que se discutia problemas relacionados a zona rural pelotense e se referira à Capela da Buena como “Capela dos Ladrões”. Para piorar, um antigo cronista do Diário Popular de Pelotas estampou a gafe no jornal e a notícia ganhou repercussão, chegando obviamente aos ouvidos dos moradores da localidade.
            O que pouca gente sabe, é que a Capela da Buena teve durante muitos anos a alcunha pejorativa de “Capela dos Ladrões” devido ao abigeato que ali foi infelizmente muito comum no passado. Todavia, como diz o ditado popular “quem conta um conto, aumenta um ponto”, a fama cresceu injustamente, pois passou a se dizer que na “capela só tinha ladrão!”. O que era uma provocação cômica seguramente, mas que tinha um caráter ofensivo aos próprios moradores. Tal qual dizer que “Pelotas é a terra dos homossexuais masculinos”.
            Como não havia o que ser feito, já que o dito vereador estivera presente durante todo o domingo nas atividades do partido, o comício na Capela da Buena iniciou sob um clima de certa tensão. Fala um candidato, fala outro candidato, e chega a vez do visado candidato que tinha falado mal da Capela:
            - Meus amigos da Capela da Buena, os senhores e as senhoras sabem das mudanças que Pelotas está tendo nos últimos anos, das obras que nosso digníssimo prefeito Ari[1] tem tocado em toda a cidade e também na zona rural, dos poços artesianos que foram abertos, do programa de seguro contra o granizo... Não podemos parar... O governador Guazelli[2] tem tido um cuidado especial com nossa região, no incentivo à produção das fábricas de conservas, de nossa pecuária... É preciso eleger uma câmara municipal forte para ajudar nosso prefeito...
            Neste momento, um destemido eleitor exclama do meio do povo, inconformado com as bravatas do candidato:
            - Tu queres o quê, sem-vergonha, fdp?! Vais dizer que irás trabalhar pela Capela? Tu mesmo disseste que aqui na Capela só tem ladrão! Vais trabalhar pelos ladrões?
            O candidato sem perder o rebolado segue no ataque:
            - Meu caro amigo, o povo da Capela da Buena é um povo muito bom, muito trabalhador! Como o povo aqui é carinhoso, amigo, eu mesmo conheço e já tomei café na casa da Tia Maria, do Seu Antenor... bah, que coisa boa! A gente se apaixona por este lugar... que lugar bacana! Por isso, eu digo sim que na Capela só tem ladrões... ladrões de nossos corações!!





[1] Ari Rodrigues Alcântara, prefeito de Pelotas de 1973 a 1977.
[2] Sinval Sebastião Duarte Guazelli, governador do Rio Grande do Sul de 1975 a 1979.

sábado, 18 de julho de 2015

Curato e Paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Boquête

Trecho extraído de: RUBERT, Arlindo.História da Igreja no Rio Grande do Sul - volume 2. Porto Alegre: Ed. PUCRS, 1997, p. 106-107.

"Na região de Pelotas, na Serra Buena, cedo existiu um Oratório de Na. Sra. da Conceição, do qual era capelão nos inícios do século XIX o Pe. Francisco José Pereira. Formada uma pequena povoação, os moradores dirigiram-se ao Vigário Geral interino Cônego João Baptista de Oliveira Salgado, que a 5 de setembro de 1827 concedeu licença para construir a Capela de Na. Sra. da Consolação da Serra Buena, depois chamada Boquete. Mas já era capela curada desde 1824. O 1o. cura foi o Pe. Antônio Maria Pacheco (1825-1827), oriundo da Ilha da Madeira, depois transferido para Piratini. O 2o. cura foi o italiano Pe. Jerônimo Raggo que em 1828 escreve: 'nesta capela curada de Na. Sra. da Consolação da Serra Buena." 

Freguesia de Nossa Senhora da Consolação do Cerro da Buena

Trecho extraído de: COSTA PEREIRA, José Saturnino da. Diccionario topographico do imperio do Brazil. Rio de Janeiro: R. Orgier, 1834, p. 212. 

"SERRO DA BUENA. - Freguezia da Provincia do Rio Grande no districto da Villa de Pelotas, donde dista 3 legoas ao poente. Seus moradores semeão trigo, milho, e outros grãos, e crião algum gado. O orago he N.Sra. da Consolação."

quarta-feira, 8 de julho de 2015

As Freguesias da Cidade de Rio Grande no século XIX

Trecho extraído de: MOURE, Amédée; MALTE-BRUN, Victor Adolphe. Tratado de geographia elementar, physica, histórica, ecclesiástica, e política do império do Brazil. Paris/França: J.P. Ailaud, Monlon & Cie., 1861, p. 237-238.

Obs.: reedição do original que acredito, por pesquisa, seja da década de 1830.

"II. O segundo districto tem por cabeça a cidade de Rio Grande, forma um só collegio e comprehende as parochias:
1o. S.-Pedro do Rio-Grande, no canal O., estabelecendo a communicação da lagoa dos Patos com o Oceano; em 32o. L.S. 53o. 27' Longit, na ponta do isthmo;
2o. Na. Sa. Conceição do Tahim, na lagoa Mirim, margem E;
3o. Na. Sa. Nececidades do Povo-Novo, no Marisso, Costa do Oceano;
4o. S.-Francisco de Paula de Pelotas, na juncção de Pelotas no S.-Gonçalo, perto da barra do Sangrador, poente da lagoa dos Patos;
5o. Na. Sa. da Conceição do Serro da Buena, no pé do Serro da Buena;
6o. Na. Sa. da Conceição do Boqueirão, na margem E. da lagoa dos Patos;
7o. S.-José do Norte, no canal E. do Rio-Grande, na ilha;
8o. Na. Sa. da Conceição do Estreito, no estreito, mais perto do mar que da lagoa dos Patos;
9o. S.-Luiz de Mostardas, na lagoa de Mostardas, entre a lagoa dos Patos e o Oceano."

segunda-feira, 8 de março de 2010

A Lenda do Baú de Moedas de Ouro

A Lenda do Baú das Moedas de Ouro


Em 1947, o eminente professor Carlos Maldonado Fuentes iniciou uma pesquisa sobre as famílias tradicionais de Bagé, sua terra natal. Para tanto, entrou em contato com várias personalidades locais, sobretudo, em busca de informações genealógicas. Foi então, que conheceu o Dr. Eriberto Contreiras – respeitado médico da cidade e igualmente membro de um importante clã. O Dr. Contreiras auxiliou o Prof. Fuentes como podia, mas disse-lhe que talvez fosse de mais proveito às pesquisas um diário que pertencera a sua irmã Dorothéia – mocinha muito estimada por ele e que morreu apenas com 22 anos. Segundo o médico, Dorothéia tinha por hábito registrar no diário “histórias e coisas de outrora” da própria família e de amigos que freqüentavam a casa. Com as mãos no calhamaço íntimo, o Prof. Fuentes percebeu o valor daquelas páginas, pois pode acrescentar a seu trabalho muitos dados preciosos. Entretanto, uma narrativa no Diário de Dorothéia chamou-lhe muita a atenção: a Lenda do Baú das Moedas de Ouro. Conforme o que leu, Dorothéia teria sabido da história numa visita que fez a uns amigos de sua família no Capão do Leão em 1921 (três anos antes de falecer). Nos registros havia a descrição de um “um baú repleto de moedas de ouro enterrado num cerro cheio de pedras, entre as Almas e a Boena (sic), onde os tropeiros cruzavam com o gado”. O particular da narrativa era a riqueza de alguns detalhes.

Segundo o diário, um certo Capitão Santanna, combatente na Guerra do Paraguay, teria desertado dos campos de batalha e passado a agir como bandoleiro no norte da Argentina, tendo como comparsas outros desertores brasileiros. Após cometer os mais diversos tipos de crimes naquela região (e consta que não foram poucos), Santanna e seu bando teriam fugido para o Brasil, já depois do fim da guerra. Sem antes, porém, terem roubado um grande baú com moedas de ouro de um banco local. O que queriam voltando ao Brasil era rumar ao Rio de Janeiro – de onde, ao que parece, era procedente o Capitão Santanna – e puderem gozar os lucros do tal tesouro. Preferiu, então, o bando atingir Rio Grande e daí tomar viagem até a Capital do Império. Contudo, maltrapilho e violento, o bando do Capitão Santanna aprontou poucas e boas pelo interior do Rio Grande do Sul, atacando estâncias e pondo em vigília as autoridades. Ao aproximarem-se de Pelotas, os bandoleiros resolveram permanecer durante algum tempo escondidos, pois já sabiam que havia patrulhas em sua caçada. De acordo com o testemunho de Dorothéia “o bando acomodou-se na banda da Capela da Boena do Capão do Leão”. Resolveram, pois, enterrar o baú num cerro próximo, até que a situação se tornasse mais amena. Todavia, parece que a ambição dividiu o bando, pois alguns, liderados por um tal de Plotino, desconfiavam das intenções de Santanna quanto ao ouro. Após se trucidarem uns e outros, sobraram somente três do grupo: o próprio Santanna, seu adversário Plotino e um mulato forro de nome Antônio. Santanna acabou degolado por Plotino que “dependurou sua cabeça e genitálias a vista dos passantes à beira de uma estrada”. Plotino foi morto pela polícia quando, junto com Antônio, atacavam as reses de uma propriedade. O mulato foi preso e interrogado em Pelotas, porém não disse tudo o que sabia, nem o paradeiro do baú, pois na cadeia contraíra cólera morbus e falecera em menos de uma semana. A partir de então, vários anos depois muitas pessoas buscaram desenterrar o baú na região, sem sucesso algum.

Este foi o relato colhido por Dorothéia Contreiras quando de sua visita ao Capão do Leão.

Intrigado, Fuentes foi até à Pelotas na época em busca de mais informações. Entre relatos confusos e contraditórios, todavia ele encontrou um documento que parecia indicar a autenticidade da história de Dorothéia: um relatório da polícia local, datado de 1874, que citava “a malta do Santanna e uma carga roubada na banda da Freguesia da Consolação da Boena”. Nos achados do professor, constavam várias patrulhas em busca da tal carga que, em nenhum momento, entretanto, é identificada com um baú de moedas de ouro. Envolto em suas atividades profissionais em Bagé, o Prof. Fuentes acabou deixando de lado a história, pois julgou que, mesmo tendo algum fundo de verdade, o relato de Dorothéia poderia conter alguns elementos exagerados e/ou fantasiosos.

Foi então que, muito tempo depois, na década de 80, o Prof. Fuentes conheceu o jovem historiador uruguaio Fernando Barrientes. Mestrando pela Universidade de Montevidéu, Barrientes esteve na cidade de Bagé a fim de levantar dados e informações sobre bandos e bandoleiros na região da fronteira no século XIX – tema de sua dissertação. Nos primeiros encontros, Fuentes sequer se lembrou da história do baú das moedas de ouro e do diário de Dorothéia Contreiras. Só que em dado momento das conversas, Barrientes comentou sem maiores pretensões a respeito de certo “Capitán Santanna” que teria feito horrores no norte da Argentina na época de “La guerra de La Tríplice contra Solano” (evidentemente: A Guerra do Paraguay). O uruguaio seguiu sua narrativa e complementou dizendo que o tal “capitán” teria realizado um grande roubo monetário, muito provavelmente em ouro, na cidade de San Filippo, na Província de Entre-Ríos. Imediatamente, Fuentes lembrou-se do diário de Dorothéia e da história do baú das moedas de ouro, comunicando o que sabia a Barrientes.

O mais inesperado de tudo é que tanto o que Fuentes sabia quanto o que Barrientes pesquisara se encaixavam com muita facilidade e clareza. O uruguaio interessou-se deveras pelo assunto e esteve na região de Pelotas em 1988, fazendo pesquisa na Biblioteca Pública e percorrendo a zona rural de Capão do Leão e Morro Redondo atrás de pistas. Contudo, conforme sua conclusão se o tal baú com as moedas de ouro existe é difícil precisar sua localização, pois o único testemunho refere-se a uma região muito vasta (entre as Almas e a Buena – segundo o diário de Dorothéia). Encontrou também inúmeras lendas e historietas a respeito de ouro enterrado, o que multiplica as possibilidades geográficas do mítico local do baú.

Porém, um consolo a todos aqueles que procuram, procuraram ou pretendem procurar um tesouro por estas bandas é que: de fato existe algo enterrado em algum destes morros da Serra dos Tapes. Se for ouro, porém não se sabe.

Agradecimentos:

Prof. Fernando Barrientes, Montevidéu, Uruguay


Ricardo Silva Benítez, Pós-Graduado em Literatura pela Universidade de Montevidéu
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