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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

A História dos Sobrenomes Alemães - Parte 01

 


Os chineses foram os primeiros, introduzindo nomes de família já por volta de 2.850 a.C. Os antigos romanos vieram em seguida na Europa; eles geralmente tinham três nomes. Para as regiões de língua alemã, a história dos nomes de família começa aproximadamente no século XII. Durante muitos séculos, um único nome próprio era suficiente para identificar uma pessoa. Isso devido ao natural isolamento entre as populações e a lenta mudança das estatísticas demográficas. No entanto, a cristianização consolidada na Europa Central provocou cada vez mais o surgimento de homônimos de inspiração religiosa. Além disso, houve o declínio de nomes arcaicos germânicos, de modo geral, já por volta do século XI.

Soma-se a isso, o fato da população ter crescido drasticamente entre os séculos XII e XIV. Em algum momento havia, por exemplo, três pessoas chamadas Johann em uma aldeia. Assim, um nome não era mais suficiente para identificar claramente uma pessoa específica.

Por este motivo, uma palavra descritiva (ocupação ou aparência física, caráter, local de nascimento ou residência) foi acrescentada ao nome próprio de cada um dos Johann. A partir de agora havia Johann ferreiro, Johann de cabelo encaracolado, Johann raivoso, Johann de Bremen, etc. Essas denominações particulares foram chamadas de sobrenomes. A partir de agora, cada pessoa tinha um nome próprio e um sobrenome. O sobrenome foi usado apenas para essa pessoa. Por isso, é importante anotar que neste período inicial (séculos XII à XIV) o sobrenome não era ainda transmitido de pai para filho, ele funcionava como um apelido diferenciador. Queremos dizer que, se o Johann ferreiro tivesse um filho Peter, e se ele não seguisse os passos do pai e fosse padeiro, ele seria o Peter padeiro.

Tornou-se problemático nos casos em que o filho do ferreiro também tivesse herdado o ofício do pai. Principalmente, se ostentassem o mesmo nome próprio. Então vamos considerar que Johann ferreiro tivesse batizado seu primogênito também como Johann. Ele também seria Johann ferreiro. Dois Johann ferreiro na mesma aldeia? Por este motivo, acréscimos de nomes como jovem, loiro, ruivo, pequeno...etc, foram desenvolvidos com o tempo. 

Havia o caso também de pessoas que trocavam de sobrenome durante a vida. Supondo um jovem soldado da Baviera no século XIII que era conhecido como Heinrich pescoçudo. Pois bem, Heinrich serviu as tropas de um nobre qualquer em campanhas na Renânia. Por serviços prestados, recebeu terras por lá. Com o tempo, os seus novos vizinhos, impressionados com seu dialeto estranho, passaram a chamá-lo de Heinrich o bávaro, Heinrich bávaro. Na Baviera, ele era o pescoçudo, na Renânia tornou-se bávaro...e morreu assim.

Em lugares pequenos onde todos os residentes se conheciam este método de denominações simples funcionou talvez por mais de dois séculos ou três. Todavia, aproximadamente a partir do século XV (certamente...ou até antes em algumas regiões), nas cidades e burgos maiores isso já não mais funcionou. As cidades cresceram rapidamente e os governos precisaram registrar cada vez mais detalhes de seus assuntos em seus arquivos. A tributação e principalmente o serviço militar tornaram necessária a identificação exata de uma pessoa. Mesmo nas áreas rurais e no seu enorme mundinho de feudos das mais diversas formas jurídicas, os governantes tinham livros sobre a propriedade e/ou o uso das terras e as famílias que ali residiam.

Por razões administrativas, foi necessário encontrar uma nova forma de nomear as pessoas que correspondesse a estes padrões: o nome tinha de ser oficialmente obrigatório, tinha de ser válido durante todo a vida da pessoa e tinha de ser transmitido a próxima geração. Como consequência, o sobrenome-apelido-mutável-particular desapareceu e o sobrenome enquanto nome de família, imutável e transmissível, foi estabelecido. Johann ferreiro e permaneceu inalterado mesmo que Johann assumisse outra ocupação ou se mudasse para outro lugar. Seus filhos recebiam o sobrenome ferreiro, que era transmitido a netos, bisnetos, trisnetos e etc.

Essa evolução do nome próprio + sobrenome-apelido-mutável-particular em direção ao nome de família fixo não ocorreu da noite para o dia. Começou no sudoeste da Europa (principalmente na Península Ibérica) e se espalhou para o nordeste nos séculos XIII e XIV. A nova forma de nomear se aplicava mais às cidades do que às pequenas aldeias. Em áreas remotas, a antiga forma de nomenclatura foi parcialmente mantida até o século XVII ou mesmo XVIII.

Geralmente existem cinco categorias principais de sobrenomes germânicos. E uma sexta categoria mais rara. São elas:

✤ Sobrenomes originários de ocupações profissionais;

✤ Sobrenomes originários de locais de residências num burgo ou aldeia;

✤ Sobrenomes originários de burgos, cidades, regiões ou países;

✤ Sobrenomes originários de características físicas ou traços de caráter;

✤ Sobrenomes originários da filiação paterna;

✤ Sobrenomes originários da filiação materna (mais raros e mais comuns na Escandinávia).

Fonte: https://www.beyond-history.com/

domingo, 18 de abril de 2021

Línguas africanas no Brasil

 


"Do ponto de vista etnolinguístico, a região de onde se originavam os escravos trazidos para o Brasil é dividida entre dois grandes grupos: o grupo linguístico kwa (chamados tradicionalmente de sudaneses), situado, grosso modo, ao norte da linha do equador, na região do Oeste-Africano; e o banto, que compreende a extensão de terras ao sul do equador. 'Os sudaneses apresentam uma grande fragmentação linguística oposta à unidade substancial das línguas banto'. Nos contigentes de escravos do grupo banto trazidos para o Brasil, predominam 'as línguas étnicas majoritárias: o quimbundo, o quicongo e o umbundo'. No grupo sudanês, 'os seus principais representantes no Brasil foram os nagôs ou iorubás, e os jejes ou povos de língua ewe'.

A composição etnolinguística dos escravos trazidos para o Brasil também se alterou ao longo dos séculos. No século XVI, há um predomínio dos escravos trazidos da Costa da Guiné sobre os escravos trazidos da região do Congo e de Angola. No século seguinte, irão predominar os escravos de língua banto, nomeadamente o quimbundo e o quicongo, exportados de Luanda, que 'se transformou no mais importante porto para o tráfico com o Brasil em geral'. No século XVIII, parece ter havido uma divisão do tráfico em duas correntes principais. A primeira, de tráfico de escravos de línguas banto, ligava a região de Angola a Pernambuco e, principalmente, ao Rio de Janeiro, maior importador de escravos no período, que os repassava para as outras regiões, sobretudo para Minas Gerais. A segunda rota se estabeleceu a partir da troca do fumo produzido no Recôncavo Baiano com os escravos embarcados na Costa da Mina, do grupo linguístico kwa. Assim, 'a Bahia não só teve mão-de-obra escrava em abundância, como manteve quase que o monopólio do tráfico externo com aquela região africana e do tráfico interno dos denominados escravos minas para a região dos garimpos, que parece ter absorvido a maioria deles'. Essa situação perduraria até a primeira metade do século XIX, quando o tráfico negreiro foi extinto; só que nesse período os escravos minas importados pela Bahia e, principalmente, os escravos de línguas bantos importados pelo Rio de Janeiro eram vendidos para as grandes fazendas de café do Vale do Rio Paraíba e, em menor número, para as emergentes lavouras cafeeiras do interior paulista.

No panorama geral dos três séculos de tráfico, há um grande predomínio de escravos trazidos da zona linguística banto. Os escravos de língua banto são amplamente majoritários mesmo na Bahia, no século XVII, quando o tráfico negreiro assume grandes proporções, estimando-se a importação de mais de meio milhão de indivíduos nesse período. Essa situação só iria se alterar com o estabelecimento da copiosa rota de tráfico ligando a Costa da Mina à Bahia, que angariou a essa Província largos contingentes de falantes de línguas kwa, sobretudo o iorubá. Assim sendo, a grande maioria dos estudiosos é unânime em dividir a influência africana no Brasil entre uma influência predominantemente banto na área do Rio de Janeiro (e no Sudeste como um todo) e na área de Pernambuco para o norte, e uma influência predominante iorubá na Bahia.

Esse predomínio banto, sobretudo nos séculos XVI e XVII, reflete-se na formação de línguas gerais africanas no Brasil, de modo que, 'nos dois primeiros séculos, o quicongo e o quimbundo, seguidos pelo umbundo, foram as línguas numericamente predominantes na maioria das senzalas ou as de maior prestígio sociológico'. Apesar de os proprietários de escravos brasileiros evitarem, por razões de segurança, a homogeneidade etnolinguística na sua escravaria, o predomínio dos escravos falantes de línguas bantos, e a semelhança entre essas línguas, deve ter favorecido o uso corrente, durante todo o período da escravidão, de línguas francas de base ora quimbundo, ora quicongo, consoante a predominância de seus falantes fosse na senzala, fosse nos quilombos, onde se encontravam africanos, crioulos e mestiços das mais variadas procedências. Portanto, o veículo da socialização dos escravos segregados na senzala, ou foragidos nos quilombos, pode ter sido, em muitas localidades, não o português precariamente adquirido para o intercurso com os seus senhores, mas uma língua franca de base banto.

É certo que línguas de outros grupos linguísticos africanos também assumiram o estatuto de língua franca no Brasil. A destinação para a região das minas dos escravos falantes de língua do grupo fongbe importados da Bahia resultou na utilização de uma língua franca de base fon, 'que foi atestada, na primeira metade do século XVIII, na região de Vila Rica'. Essa língua veicular fon deve ter convivido com outras línguas francas de base quimbundo que provavelmente eram usadas entre os escravos introduzidos pelo porto do Rio de Janeiro.

Com efeito, o predomínio de escravos falantes de línguas bantos no Sudeste deve ter propiciado o uso corrente de línguas francas de base quimbundo entre os escravos de diversas localidades dessa região. Com o tempo, essas línguas foram caindo em desuso, sendo mantidas apenas em situações especiais e muito restritas, e substituídas por variedades de português reestruturadas pelos afrodescendentes. Uma primeira evidência do uso dessas línguas francas africanas foi a descoberta de Aires de Mata Machado Filho, em 1944, de uma língua veicular de base lexical banto, na localidade de São João da Chapada, no Norte de Minas Gerais. Essas línguas chegaram até os dias atuais, em comunidades rurais negras, que as conservam como línguas secretas, e também como uma forma de afirmação de sua identidade étnica. Tal é o caso da falange, descoberta na comunidade de Cafundó, em São Paulo, e da língua do negro da costa, em Tabatinga, Minas Gerais. Ambas empregam um léxico de base banto (sobretudo quimbundo) com as estruturas gramaticais do português popular.

Se o predomínio de escravos bantos no Sudeste favoreceu o emprego dessas línguas quimbundo na região, o predomínio de escravos falantes de línguas do grupo kwa (majoritariamente iorubás) levou à utilização de uma língua franca iorubá (chamada na Bahia nagô), que era de uso corrente na Cidade da Bahia no século XIX, devendo ter se prolongado até o início do século XX. No plano da resistência cultural e religiosa, o iorubá converteu-se na língua ritual, nos candomblés da Bahia."

Fonte: LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan; RIBEIRO, Ilza (orgs.). O português afro-brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2009, pág. 64-67.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Tipos de antropônimos


Prenome –
antropônimo que distingue o indivíduo dentro dos grupos sociais de maior intimidade. Antecede o sobrenome e pode ser simples, composto ou justaposto. 

Sobrenome – antropônimo que identifica o pertencimento do indivíduo a uma família. Geralmente provêm dos genitores e sucede o prenome. 

Agnome – antropônimo que indica uma relação de parentesco com outro indivíduo, via de regra, por via patrilinear. 

Apelido (ou alcunha, ou cognome) – antropônimo que se atribui a um indivíduo geralmente por outra pessoa e que costuma aludir a uma característica física ou intelectual ou ainda a um fato ou comportamento social. 

Hipocorístico – antropônimo formado a partir de uma alteração morfológica (abreviação, diminutivo, aumentativo, etc.) de outro antropônimo. Geralmente criado em ambientes de maior intimidade. 

Pseudônimo – antropônimo empregado por um indivíduo em lugar do seu nome civil e escolhido pelo próprio portador do nome próprio. 

Codinome – antropônimo empregado para ocultar a identidade de um indivíduo. Pode ser escolhido pelo próprio portador ou por outrem e frequentemente possui traço negativo. 

Heterônimo – antropônimo atribuído a um indivíduo fictício, criado pelo portador de outro antropônimo. 

Nome artístico (e nome de palco) – antropônimo empregado por um indivíduo em lugar do seu nome civil e pelo qual se faz conhecido em sua atividade profissional, especialmente em áreas como música, cinema, teatro, televisão e afins. 

Nome de guerra – antropônimo empregado como substituto do nome civil em ambientes restritos, especialmente no meio militar, na maçonaria, na prostituição e no crime organizado.

Nome religioso – antropônimo empregado por membros de comunidades religiosas em lugar do nome civil. 

Nome social – antropônimo pelo qual a pessoa, especialmente transexual e travesti, se identifica e é reconhecida socialmente. 

Nome de urna – antropônimo escolhido pelo candidato às eleições proporcionais para registrar-se na Justiça Eleitoral. 

Nome parlamentar – antropônimo escolhido pelo indivíduo eleito a cargo legislativo para ser usado em documentos oficiais da casa legislativa. 

Fonte: AMARAL, Eduardo Tadeu Roque & SEIDE, Márcia Sipavicius. Nomes próprios de pessoa: introdução à antroponímia brasileira. São Paulo: Blucher, 2020, pág. 100. 

domingo, 31 de maio de 2020

O Curupira - um estudo de 1887 - Parte 04 (Final)


"Em São Paulo (Itu, Campinas etc.) perdendo o nome de Çacy, toma o de Negrinho pastorejo, e para deixar de fazer diabruras não se lhe dá fumo mas sim velas que pelos campos, estradas e quintaes accendem quando d'elle querem obter protecção. É preciso dizer-se, que ahi em vez de ser um porte-malheur é antes milagroso. É crença que as velas que á elle se accendem não se gastam, porque com o seu barrete vermelho as apaga para leval-as para seu uso.

Quando entra pela província de S. Pedro do Rio Grande do Sul, é com o nome modificado em Negrinho do pastoreio, é então um Gavroche, que ninguém teme como á Kaapora, que tambem as vezes persegue os gauchos no macêgal das descambadas das coxilhas montado nos baguaes sem aperos.

Como paizes creadores, nas vastas campinas exerce o seo poderio e como entre o gado dê pancas, d'ahi veio o nome de 'negrinho do pastoreio', que significa o que vi e nos pastos, e não apascenta ou leva os animaes ao pasto, como em S. Paulo o faz pelas tikúeras.

Como vimos o Maty-taperê é o mesmo Çacy-saperé do Sul.

Maty é uma corruptella de Çacy, saperê o é de taperê, que já uma abreviatura de tapererê, que no Sul fazem sapererê.

Çacy significa a mãe das almas, como bem interpretou Baptista Caetano (hang-h-açã), e que concorda perfeitamente com as crenças amazonicas, onde tudo em todos os reinos da natureza tem uma mãe, (cy).

Taperê, deriva-se de tapeperê, de tape pe, no caminho, kê, ou , sahir, que por euphonia, muda o c em r.

Çacy-taperé, quer dizer a mãe das almas que sahe nos caminhos ou nas estradas.

É o numem viarum, de Marcgrave, o Macacheira o espirito dos caminhos do Padre Simão de Vasconcellos.

A corrente sempre crescente que vae levando de adulteração em adulteração o abanêenga, nhêengatu ou lingua geral, transformando pelo elemento estrangeiro todos os vocabulos a ponto de tornar alguns hoje desconhecidos, occasionou uma corruptella que dá lugar a fazer-se um só mytho de tres distinctos.

A interpretação, que dou por mais de um motivo, me parece ser a verdadeira: Primo, Çacy ou Maty, sómente pelas estradaas, caminhos e ruas, exerce seu poderio em todas as provincias; Secundo, a sua metamorphose, como o tenho verificado, em todas as provincias é sempre n'um passaro o Cuculus cayanus L. ou alma de caboclo, congenere e irmão do C. cornuus, segundo a lenda, o Uirapayé ou Tinkuan do Amazonas ou Alma de gato do Sul; Tertio enfim, os costumes, as formas, as côres do Çacy são as mesmas do Maty.

O viver do Çacy, occulto entre a folhagem secca, quasi da côr de suas pennas, assim como o seu canto, cujas notas nos illudem e que quasi sempre se ouve pela calada da noute, e raras vezes de dia, produzem nas pessoas nervozas, credulas e supersticiosas o mesmo effeito que o da Suinara (Strix furcata) e da Coruja (Strix clamator).

Conheço-o desde criança e o tenho visto pelas provincias porque onde tenho viajado.

Quando criança, com a imaginação cheia de contos, com que no berço me embalaram, quantas vezes não o tomei por encantado, depois de entrar pelos campos ou pelas matas ouvindo o seu cantar sem nunca poder vel-o illudido pelas suas notas, que ora me levavam para direita ora para esquerda, para frente e para traz!

Mas depois quantas vezes tambem ao erguer a sua crista, soltando de bico levantado as notas que me levariam para longe, não o atirei á meus pés, atravessado pelo chumbo da arma, para o escalpello da taxidermia tirar-lhe o encanto!

Não foi somente o canto, que parece dizer mesmo: Çacy-tapererê, que levou o indio a identifical-o com o Çacy anthropomorpho; foi tambem o habito de pousar sobre uma perna, pelo que, dizem, que o passaro é unipede.

Não é só no Brazil que esse zygodafilo é tomado como ave de máo agouro e como encarnação de um espirito máo.

No Paraguay e nas Goyanas é conhecido por feiticeiro e nuncio de infelicidades; em Cayenna tem o nome de Koukon-piayé.

Castelnau diz:

'Cet oiseau, est regardé, par toutes les tribus indiennes que s'étendent de Paraguay á la Guyane, comme étant de mauvais augure, et, dans toutes leurs langues il se trouve designé para les noms divers qu'elles appliment au mauvais esprit.'

Ouvi muitas vezes, no Rio de Janeiro, Minas Geraes e em outras provincias, dizer que á noute, quando o passaro sacode as pennas sahem fachos luminosos e phosphorescentes ficando no meio d'elles o seu vulto negro, como se fôra cercado por um resplandor de fogo.

Essa crença extende-se ao Amazonas e muitos affirmam ter presenciado o facto.

Existirá, com effeito essa phosphorescencia, ou será como o cheiro de enxofre que deixa, quando esconjurado, no dizer das velhas mineiras?

O Maty-taperê, não é, pois, mais do que o Çacy, esse estradeiro que tanto occupa a imaginação do tropeiro e boiadeiro, nos serões do fogo dos ranchos das estradas do sertão, e do tapuyo na rede do teyupar, levando este muitas vezes á loucura (Santarem).

A crença do Çacy ou Kaapora vulgarisou-se tanto como porte-malheur, que o vocabulo introduzio-se na linguagem brazileira, com tanta acceitação, que não ha quem não o tenha empregado nas diversas circumstancias da vida.

Como melhor não o faria, aqui transcrevo o que disse o Sr. Conselheiro Beaurepaire Rohan acerca d'esse mytho e de sua influencia.

A Kaapora aqui refere-se ao Çacy e á sua mãe.

'Caipora, s.m. e fem. (Geral). Nome de um ente phantastico, que, segundo a crendice peculiar a cada região do Brazil, é representado ora como uma mulher unipede que anda aos saltos, ora como uma criança de cabeça enorme, ora como um caboclinho encantado. Esses entes habitam as florestas ermas d'onde sahem á noute a percorrer as estradas. Infeliz d'aquelle que se encontra cara a cara com a Caipora. Nesse dia tudo lhe sahe mal, e outro tanto lhe acontecerá nos dias seguintes, em quanto estiver sob a impressão do terror que lhe causou o fatal encontro. Por extensão dá-se o nome de Caipora á pessoa cuja presença póde influir de um modo nocivo em negocios alheios; e tambem é caipora o individuo malfadao, aquelle que, apezar de sua moralidade, de suas boas intenções e do desejo de melhorar de posição, se vê constantemente contrariado em suas aspirações: Sou muito caipora.'

Da Kaapora veio o Caiporismo, que B. Rohan, assim tambem define:

'Má sorte, máo fado, infelicidade; estado d'aquelle que é constantemente contrariado em suas aspirações: É tal o meu caiporismo que n'aquella emergencia, em que me era tão necessaria a protecção de meus amigo achavam-se todos ausentes.'

O Sr. Emilio Allain, afastou-se de toda a crendice brazileira quando fallando do Kaápora diz: 'est un geant velu monté sur un énorme porc sauvage, et conduisant une troupe d'animaux de la même espèce, qu'il excite de temps en temps par ses cris'. Nunca ninguem lhe deu as proporções de gigante, antes dizem que é um anão.

Pelo que expuz, vê-se que tres mythos differentes, Korupira, Tatacy e Çacy ou Maty, têm sido confundidos sob a denominação de Kaapora, nome generico que quadra a toda essa familia mythologica.

Todos habitam o mato, porém a missão de um, o Korupira, é proteger as matas, as roças, e a caça: a do Çacy fazer malificios pelas estradas, e ainda a da Tatacy guardar os filhos, que em alguns lugares querem que sejam muitos, levando-os ás suas correrias.

A comparação das muitas lendas que tenho ouvido de todas as provincias e estados limitrophes, levou á convencer me que existem os tres mythos confundidos em um só.

Agora, ainda algumas linhas para concluir.

Muito propositalmente não dei até aqui a interpretação da palavra KORUPIRA, porque quiz familiarisar o benevolo leitor com o typo, para que conhecesse o seu aspecto, os seus costumes e o seu genio, nas differentes provincias, paa então abordar a questão etymologica.

Tres traducções se podem dar, porém uma não se harmonisa com a indole dos indios, admittindo-se que a palavra não esteja corrupta.

Kurupyra, kurupira ou korupira, póde ser: o pelle aspera, o sarnento, o tinhoso, o leproso ou pode ser o que vem à roça, ou o que jaz no mato.

Se dirivarmos de kuru ou kurub, sarna, lepra, aspero, e pyr, pelle, será o sarnento, se dirivarmos de ko, roça, u, vir e pira particula que passiva o verbo será, o que vem á roça, entrando o r por euphonia, e se dirivarmos de kaa, mato, u, jazer, e pira, será o que jaz ou vive no matto.

A primeira interpretação vae de encontro á tradicção e ás lendas; por estas poderá ser o pellado, o coxo, o pelludo, o dentuço, o pé torto, porém nunca o affectado de molestias de pelle.

A segunda maneira de traduzir a palavra, penso ser a verdadeira, não só porque vae de accordo com a tradicção, que muitas aventuras conta do mytho pelas roças, como concorda com a maneira de escrever do primeiro mestre da lingua o Venerando Padre Anchieta, que perpetuou o nome com o e não com u. O ter-se mudado aquella vogal para esta é facto commum entre nós, tanto que mais facilmente ouvimos pronunciar curação do que coração.

Posto que a terceira maneira de explicar o sentido da palavra pareça ser a verdadeira, porque mostra o lugar em que reside e exerce o seu poderio o genio indiano, com tudo a mudança de kurupira para karupira repugna a indole da ingua e á nossa phonetica, por não ser commum. Tanto assim é que, os indios e os civilisados ainda conservam a palavra karipyra com que designam outro mytho, sem ter soffrido a mudança do a para o.

Como depois veremos, o karipira é um gavião que vive n'agua e nas arvores, sempre á beira rio, pescando, e d'ahi vem o ser a palavra composta de kaa, arvore, mato, y ou ig, agua e pira."

Fonte: MUSEU BOTANICO DO AMAZONAS. Vellosia, 1887, volume 1Manaus/AM: Typographia do Jornal do Amazonas, 1888, pág. 106-109.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Sotaques do Brasil


Vídeo muito interessante sobre os sotaques brasileiros e suas diferentes origens e variações. Disponível no canal da Superinteressante no YouTube.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

A origem de alguns palavrões da língua portuguesa


Entrevista concedida pelo jornalista Luiz Costa Pereira Junior, no Programa do Jô, da Rede Globo, em 2002. Muito interessante e curiosa! Disponível no canal de Luiz Carlos Pereira no YouTube.

sábado, 27 de julho de 2019

Deleta o Paraguai!


Curiosa nota de um periódico fluminense do século XIX em que aparece o verbo "deletar" como sinônimo de apagar, exprimir, destruir. Transcrevemos aqui por sua importância e curiosidade histórica.

"Rio, 20 de Março de 1870.

Ficae certos de que a guerra se acha felizmente concluida.

Brasileiros! Hosanna! Hosanna ao Deos dos exercitos! um amplexo patriotico aos bravos inexcediveis, que vingaram a honra do nosso paiz, vilmente offendida pelo mais negregado dos tyrannos!

Um brado unisono de gratidão ao nosso Imperador, cuja tenecidade, perseverança, e robusta fé na sanctidade da causa, que defendia, realisou o symbolo do Varão forte, que impavido veria despedaçar-se o mundo, sem demover-se do seu firme proposito!...

Exultae do mais vivo prazer! levantae os arcos triumphaes, por onde terão de passar essas valentes legiões, que honrariam as mais poderosas nações do globo!

Entretecei a coroa de immarcessivel louro, que deve ser collocada na fronte do inclyto general em chefe, do joven Principe, do digno consorte da nossa excelsa Princeza!

Uma palma virente de triumpho ao estrenuo brigadeiro Camara, ao bravo dos bravos, que da munificencia do Monarcha brasileiro recebeu incontinenti, ao chegar a nova da conclusão dessa guerra de exterminio, o honroso titulo de Visconde de Pelotas!

Brasileiros! nós, que fomos os primeiros a bradar: 'Delenda Paraguay'; entre a mais doce commoção de enthusiasmo, temos agora a satisfação de vos annunciar 'Deleta Paraguay!' [o grifo é nosso]

Mas não são nossas palavras por certo as que vos hão calar no intimo do peito; uma vez incomparavelmente mais auctorisada é que vos deve levantar da dolorosa prostação, que vos opprimia; é a voz do Imperador, que voz assegura:

'FICAE CERTOS DE QUE A GUERRA SE ACHA FELIZMENTE CONCLUIDA!"

Fonte: SEMANA ILUSTRADA (Rio de Janeiro/RJ), edição 484, 1870, pág. 3866


segunda-feira, 27 de maio de 2019

Por que México se escreve com X, mas se pronuncia como "J" na língua espanhola


Você já parou para perceber que o nome próprio México em espanhol é pronunciado com o som do "J" naquela língua. Quer dizer, você lê mé-ksi-co - se você é estudante de Espanhol e já conhece os fonemas próprios da língua, sendo que a pronúncia usual do nome daquele país é mé-hi(h aspirado)-co. Interessante vídeo disponível no canal BBC News Mundo no YouTube.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Semana da Língua Alemã na UFPel


Nos dias 10 e 11 de Abril, o Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas terá uma programação especial dedicada à língua alemã. Uma série de atividades, como palestras, comunicações e saraus, faz parte da quarta edição da Semana da Língua Alemã que ocorre simultaneamente em todo o Brasil.

A proposta do evento, liderado pelas embaixadas da Alemanha, Áustria, Bélgica, Suíça e Luxemburgo, é abrir espaço para o debate e o entendimento da cultura entre países. As atividades são realizadas em cooperação com consulados e parceiros culturais no Brasil.



domingo, 10 de setembro de 2017

A língua alemã falada no Rio Grande do Sul


"O Rio Grande do Sul possuía, já antes da chegada dos primeiros imigrantes alemães, uma tradição política como marca de fronteira, uma sociedade constituída, cuja célula era a estância, uma economia na base da pecuária e uma tradição linguística portuguesa.

No dia 25 de julho de 1824, no passo de São Leopoldo, desembarcaram os primeiros alemães. No momento de sua chegada a Porto Alegre, tinham sido recebidos pelo Presidente da Província e depois encaminhados ao lugar de destino que, daí em diante, seria a sua nova pátria e a pátria de seus filhos.

Entre os bens culturais, os imigrantes trouxeram consigo a sua língua, não apenas a forma culta mas, principalmente, os vários dialetos regionais.

Como, nesses 150 anos, vieram para o Rio Grande do Sul imigrantes de todas as regiões da Alemanha, mas também da Áustria, Suíça e Alsácia, estão representados no Estado praticamente todos os dialetos alemães. Contudo, os imigrantes provenientes das margens do Mosela e do Reno, isto é, do Hunsrück e do Palatinado, vieram em número maior. E seu dialeto, entre eles chamado de 'Hunsbucklisch', é o mais propagado dos dialetos alemães falados no Estado. Outros grupos importantes, com os respectivos dialetos, são os pomeranos, os vestfalianos e os imigrantes oriundos de Oldenburg, da Suábia, da Baviera e grupos de língua alemã da Rússia.

Chegados aqui, tiveram de adotar novos sistemas de trabalho e cultivo. Foram obrigados a refazer as suas experiências anteriores, o que implica numa reelaboração da cultura material. O sistema a que estavam acostumados teve de sofrer modificações: o novo meio bio-geográfico, as primeiras e, às vezes, amargas experiências, as limitações a que estavam sujeitos pelo isolamento, levaram-nos a uma nova análise das estruturas herdadas, das ideias que faziam das coisas, de seus significados e valores.

E nesta situação também se encontrava a língua alemã. De maneira nenhuma pode subtrair-se à interferência do português, pois seu léxico não dispunha de palavras para encher esta lacuna, causada pela diferença estrutural entre a antiga e a nova pátria. Eram eles obrigados a recorrer empréstimos do português, sempre que se tratava de coisas, situações, atividades, para as quais não existiam palavras em sua língua. Uma grande parte de palavras desse tipo certamente já incorporado ao léxico dos imigrantes, já nos primeiros decênios da colonização. Dizem respeito a acidentes naturais, fauna e flora, técnicas e instrumentos agrícolas, etc.

E meio século após o início da colonização, esse fato já chamou a atenção dos estudiosos, como sendo característico do linguajar do colono alemão.

Os contatos e o convívio, paulatinamente intensificados com a população luso-brasileira, fizeram com que os imigrantes e seus filhos assimilassem também usos, costumes, divertimentos e jogos, integrando-se cada vez mais no novo ambiente. O reflexo, nós o encontramos nas novas palavras incorporadas ao léxico.

Mas essa incorporação não se processou aceitando-se a forma portuguesa, pois o comportamento linguístico é condicionado pela estrutura de cada língua. E assim o imigrante alemão transferiu para o português os hábitos linguísticos da sua língua materna.

Comparando o português com o alemão, veremos que boa parte dos fatos linguísticos são semelhantes no nível fonológico. Mas o que acontece quando se trata de fonemas estranhos ao alemão? Não tendo o hábito de produzir tais sons peculiares da língua portuguesa, o colono alemão produz aquele que no sistema fonológico alemão mais se aproxima. O mesmo vale também para o nível morfológico. É impossível apresentar nestas poucas linhas um quadro completo desse processo. O resultado é que, pelo fato das palavras portuguesas serem submetidas à estrutura do alemão, elas mudaram totalmente a sua fisionomia, caracterizando a incorporação e a adaptação de palavras portuguesas o linguajar do colono de origem alemã.

Uma pequena amosta: abóbora = Bower; acolchoado = Kolschoade; afilhado = Afiljade; agência = Aschenz; aguentar = aguentieren; alazão = Lasong; bagagem = Bagasch; banhado = Banjade; bicho = Bisch; braça = Brass; cachaça = Kaschass; chegar = schegen; despachante = Despaschant; facada = Fakade; juiz = Schuihs; etc.

Um outro processo consiste na formação de palavras híbridas, outra característica do falar do colono: Backgamell (gamela); Batateschmier (batata); Farinmühl (farinha); Nussdoss (doce); Puffmilje (milho); Rollfum (fumo); Schakuhinkel (jacu); Teebumb (bomba); etc.

E, por fim, encontramos ainda a criação de palavras novas alemãs que revelam, muitas vezes, grande fantasia criadora, demonstrando não só a vitalidade da língua alemã, como também a crescente Familiaridade com o novo ambiente: Aasvogel (urubu); Blattschneider (formiga cortadeira); Erdlaus (cupim); Käsbaum (umbu); Musterreiter (caixeiro viajante); Negerohrenbaum (timbaúva); Sandfloh (bicho-de-pé); Sandhase (preá); Wasserhuhn (saracura); etc.

Os três processos aqui descritos de forma sumária demonstram a necessidade e a vontade de vencer linguisticamente o novo ambiente.

Mas o processo não está no fim. Verdade é que a língua alemã ainda é bastante falada, principalmente os seus dialetos, tendo estes conservado suas características, de forma bastante pura. Mas hoje fazem parte integrante dos dialetos as palavras portuguesas adaptadas à estrutura do alemão, fato este que, em si, representa um enriquecimento. Daí vem o caráter típico e pitoresco do linguajar do colono alemão.

Contudo desapareceu o antigo isolamento. As comunicações exercem sua influência poderosíssima no sentido de geral conhecimento da língua portuguesa. Estamos na fase do bilinguismo, em que os falantes dominam duas estruturas linguísticas, dependendo o uso de cada uma da situação momentânea e ambiental. Infelizmente, persiste ainda a conceituação depreciativa do dialeto, de forma que pessoas bilingues cultas se envergonham de falar o dialeto, verdadeira célula mater da língua.

Qual será a sorte da língua alemã no Rio Grande do Sul?"

Fonte: BUNSE, Heinrich. O alemão falado no Rio Grande do Sul. In: EDEL LTDA. Sesquicentenário da Imigração Alemã/Hundertfünfzig-Jahre Deutscher Einwanderung (álbum oficial). Porto Alegre/RS: Sociedade Editora de Publicações Especializadas EDEL Ltda., 1974, p. 56-57.





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