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terça-feira, 24 de março de 2026

Disco voador em Cruz Alta


Avistado Um Disco Voador

CRUZ ALTA, 16 (V.A.) - Centenas de pessoas tiveram a oportunidade de ver desenhado no céu límpido desta cidade um disco prateado, girando na direção sudeste, para oeste, onde desapareceu. O acontecimento verificou-se precisamente às 13,55 horas, e 10 minutos depois desaparecia inteiramente.

A reportagem do vespertino "Diário Serrano" ouviu, a respeito, numerosas pessoas de reconhecida idoneidade, todas depondo afirmativamente, tais como a sra. Reni Caporal, esposa do sr. Antônio Caporal, funcionário público, Mario Sergio, músico residente nesta cidade, senhorinha Julinha Nunes, filha do deputado Alcibio Borges Nunes, a menina Maria Sandra, senhorinhas Nancy Press, Bruninda Geschwind e outras pessoas.

Todas as testemunhas viram um disco prateado calculando alguns que o mesmo estivesse a uma altura de 6 mil metros. Quanto à direção parece ponto pacífico que vinha de sudeste para oeste, o que é corroborado pelas diversas testemunhas que localizaram com precisão a rota do estranho aparelho e sua trajetória pelos céus de Cruz Alta. O acontecimento está sendo vivamente comentado em todas as rodas da cidade, existindo pessoas que descrêem da realidade dos discos voadores, malgrado tivesse sido divisado nos céus desta cidade um aparelho de forma circular, ficando velozmente, de côr prateada, que se tornou visível durante 10 minutos.

Fonte: O ESTADO DE FLORIANÓPOLIS (Florianópolis/SC),  17 de dezembro de 1952, pág. 01

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

O Folclore da Cachaça no Rio Grande do Sul

 



Por Carlos Galvão Krebs

A bebida popular no Brasil, de Norte a Sul, é a cachaça. O Rio Grande do Sul não escapa a isso. As três armas que o gaúcho usa, paradoxalmente, contra o calor e contra o frio, são o pala, o chimarrão e... a cachaça.

Precisamente por ser a bebida popular por excelência é que a cachaça vem despertando a atenção dos folcloristas nos últimos tempos. Desde o sociólogo Gilberto Freyre, desde o respeitabilíssimo Luiz da Câmara Cascudo até José Calazans que publicou "CACHAÇA BRANCA" na série oficial das edições do Museu do Estado da Bahia.

Seguindo a trilha, vamos alinhavar aqui o pouco que sabemos a respeito do folclore da cachaça no Rio Grande do Sul.

A SINONÍMIA

Como em tôda a parte do país, também aqui a voz mais comum para designar a aguardente é CACHAÇA. Mas se fala muito em CANINHA, CANA, e CANHA, por influência de CAÑA, forma castelhana. Às vêzes se ouve dizer BRANQUINHA. Um dos sinônimos mais curiosos que temos ouvido é RAMA. "Meter rama" é beber muito, especialmente caninha. Depois da descoberta de Fleming, como na Bahia, também se diz no Rio Grande: "Bota aí uma penicilina".

A MAIS FAMOSA

Sem dúvida alguma pelo que temos ouvido no Estado e fora dele referida por gaúchos saudosos do pago, a mais famosa cachaça do Rio Grande do Sul é a caninha azulada, de Santo Antônio da Patrulha. Sob a luz natural apresenta uma bela coloração azulada, conseguida à base de casca de bergamota segundo uns, ou de carvão vegetal segundo outros. Infelizmente, como Santo Antônio fica na rota das praias atlânticas, sua cachaça vem sendo por demais solicitada. Disto resulta uma queda de qualidade. Na própria fonte de produção nos chegamos a adquirir a AZULADA ainda morna, recém saída do alambique.

AS MARCAS DE CACHAÇA

Para ilustração desta pesquisa apresentamos ao lado uma pequena coleção de cêrca de cinqüenta rótulos. Todos de caninhas vendidas e bebidas dentro do Estado. Muitas delas produzidas aqui mesmo. Outras tantas, importadas de outras regiões do país. Com base neste material e através dos títulos, os especialistas podem realizar um belo estudo psicológico.

A coleta de rótulos para coleção exige uma técnica muito simples. Muitos rótulos são impressos em papel de pouco pêso, isto é papel muito fino. E frequentemente os produtores usam goma muito forte. Daí surgir dificuldades para a retirada dos rótulos, que se rasgam à menor tentativa. Entretanto basta deitar a garrafa horizontalmente, cobrindo o rótulo com um pano leve, sôbre o qual se derrama vagarosamente o conteúdo de uma chaleira de água fervendo. Ao final o rótulo pode ser destacado com relativa facilidade e com prejuízo mínimo para a sua integridade.

O RITUAL DOS BEBEDORES

Os bebedores da campanha do Rio Grande conservam uma bela fórmula para beber tradicionalmente sua cachaça. Velha fórmula e sempre nova, porque antiga e atual. Chega um gaúcho a uma venda qualquer. Cumprimenta todos e ordena ao bodegueiro que "bote" uma dose de cana. Sempre há pelos cantos alguns guáscas, bebericando e conversando. Servida a cana o recém chegado apanha o copo e o passa sem beber - ao que lhe está mais próximo. Êste recusa:

- "Não, senhor, está em boa mão".

- "Mas para melhor vai!"

Só então o convidado apanha o copo e bebe um trago. E passa a caninha ao seguinte da roda. Ao terminar a volta, sobra ao pagante um gole exatamente igual ao que todos beberam. Aquêle que paga - e isto é essencial à gentileza gaúcha - é sempre o último a beber.

Acreditamos que haverá muitas outras fórmulas para registrar. Entretanto não nos parece existirem no Rio Grande do Sul aquelas loas, lodaças e glosas de que fala Calazares na Bahia, seja para pedir um gole, seja para agradecer uma bicada.

ANEDOTÁRIO

Embora relutando, um gaúcho certo dia deu com os costados num consultório médico. Depois do exame o doutor lhe proibiu terminantemente a cachaça. Em casa o pobre homem deu para sentir uma dor de cabeça tremenda. Não teve dúvidas: foi à venda e mandou botar a dose que então se chamava "quatrocentão de cana". De uma só vez metia no copo três dedos: o polegar, o indicador e o médio da mão direita. Em seguida enquanto dois dedos esfregavam a cachaça na testa para passar a dor, o guásca chupava o polegar avidamente...

Também a outro pêlo duro foi proibida a cachaça. Ao voltar ao doutor êste não viu nenhuma melhora com o tratamento. Pergunta severamente:

- "O senhor não bebeu cachaça, mesmo?"

- "Não, senhor! Quando eu tava com muita gana, botava farinha de mandioca num prato, despejava cachaça em cima, mexia bem e... comia o pirão!"

A CACHAÇA NA POESIA POPULAR

O estudante Mário Vieira recolheu em 1850, na Estância do Umbú, município de Cruz Alta, uma deliciosa "décima" sôbre a cachaça. Ouviu-a do negro Adolfo, posteiro da fazenda e cantador nas horas vagas. Adolfo morreu no verão de 1953 para 1954. Não fôsse a coleta de Mário Vieira e talvez tivéssemos perdido para sempre estes saborosos versos:

"Saudade, tenho saudade

Da terra onde nasci

Saudade duma aguardente

Da cachaça que eu bebi"


"A cachaça é minha prima

O vinho meu primo, irmão

A cachaça eu bebo em copo

O vinho em garrafão"


"Eu não gosto da cachaça

E o vinho não posso ver

Quando eu pego na garrafa

Deixo os outros sem beber"


"Uma moça me pediu

Que eu deixasse de beber

Eu de beber eu não deixo

De um porre eu quero morrer"


"No fundo de um alambique

Vou fazer minha sepultura

Que mesmo depois de morto

Quero viver na fartura"


"Da garrafa eu faço a vela

Da pipa faço caixão

Do funil faço a mortalha

Me botem um copo na mão"


"Quando eu morrer ninguém chora

Quem chora são as garrafa

Eu quero que o povo diga

Morreu o pai da cachaça"

O PEJORATIVO DA CACHAÇA

Bebida barata e popular, a cachaça estigmatiza tôda uma classe social. "Negro cachaceiro!" é expressão comum no Rio Grande do Sul. Na frase feita, o NEGRO não funciona como epiderma, como raça, mas sim como CLASSE, a mais baixa, a ínfima classe social. Pelo menos essa é a intenção consciente ou inconsciente. Recordamos um fato que torna isto bem flagrante. O advogado Sylvio Faria Correia (agora falecido) foi prêso junto com Borges de Medeiros quando peleava nas coxilhas a favor dos constitucionalista de São Paulo, em 1932. Passada a revolução, publicou (no estrangeiro, é claro) um livro de memórias - "Serro Alegre". Narra que, em momentos de frio intenso, êle e seus companheiros se aqueciam com tragos de "rhum". O livro circulou clandestinamente em Pôrto Alegre. Logo um jornal governista apanhou o pião na unha e lançou um artigo ridicularizando o movimento constitucionalista, os revolucionários e o autor do livro. Título do artigo: "RHUM NÃO: CACHAÇA!" A darmos crédito ao artigo, o episódio comprova, pelo direito e pelo avêsso, aquilo que queremos demonstrar. De um lado, o revolucionário gaúcho transforma a rude e singela em "rhum" sofisticado inteiramente estranho à campanha do Rio Grande do Sul. Isto, para furtar-se ao estigma pejorativo da caninha. Do outro lado o jornal, a acentuar precisamente tal estigma. O título "Rhum não: cachaça!" nada mais queria dizer senão êste insulto, visando os revolucionários - "Negros cachaceiros!"

AS MISTURAS DE CACHAÇA

Com vistas à medicina lembramos logo a cachaça com arnica, vegetal abundante no Estado. Arnica (subentendido: em infusão na cachaça) sempre foi uma verdadeira panacéia. Servia para tudo, desde a simples luxação até o ferimento grave.

Mas foi para a bebida que a cana teve e tem maior utilidade. Não houve uma senhora, mulher de estancieiro que não tivesse feito seus licôres à base de caninha. Dentre êles sobressai o universal licor de butiá. O butiázeiro é uma palmeira típica do Sul do país. Seus "coquinhos" com cêrca de uma polegada de diâmetro são gordos e saborosos. Cachaça, butiás, açúcar, mais algum tempinho para descançar, sempre deram como resultado êsse licor tradicional do Rio Grande do Sul. Hoje com o progresso, muitos estancieiras adquirem nas farmácias "da cidade" o álcool puro a tantos gráus para fazer seus licores.

Em Pôrto Alegre, mesmo o gaúcho citadino encontra em qualquer bar (e não é fôrça de expressão, é a pura verdade) as mais variadas misturas de caninha.

Por exemplo:

Caninha com "bagos de zimbro", ou "bagas de zimbra", também chamadas "Wacholder" em alemão. Desta vez os luso-brasileiros freqüentemente fazem uma corruptela dizendo "Bacholda" com o CH alemão. As bagas de zimbro são sementes pequenas, redondinhas, de um verde escuro, que se deitam em quantidade dentro de um recipiente cheio de cachaça. Dão um gôsto especial à caninha. Sua finalidade é estomacal, segundo se afirma. Tal mistura há tempo vem sendo explorada industrialmente por uma emprêsa da Capital do Estado.

Caninha com mastruço, erva do gênero das crucíferas medicinais.

Caninha com losna, outro vegetal com qualidade estomacais, conforme a crença popular.

Caninha com cabriúva (casca) que deve ser cortadinha para poder entrar pelo gargalo da garrafa. A cabriúva, que é árvore transmite à cachaça um perfume delicado e especial, como se lhe tivessem adicionado gôtas de perfume nobre.

E ficamos aqui.

Sabemos, melhor do que ninguém, que isto não esgota o tema. Ao contrário constitui apenas uma lembrete aos folcloristas e tradicionalistas gaúchos que poderão registrar muito mais coisa do que nós.

Fonte: A HORA (Porto Alegre/RS), 21 de Fevereiro de 1959, sem indicação de página


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Militares versus Brigadianos em Cruz Alta

 



CONFLICTOS ENTRE PRAÇAS DO EXERCITO E DA POLICIA

PORTO ALEGRE, 19 - Ante-hontem, á meia noite diversos inferiores do exercito, desembarcando em Cruz Alta, atacaram o quartel do destacamento policial, sendo repellidos a tiros pela patrulha.

Travou-se então grande conflicto, sahindo feridas duas praças de policia e tres do exercito.

Hontem, á noite, indo o delegado levar o intendente municipal á sua residencia, avistou um grupo de praças do exercito armadas.

Pedindo a autoridade ás praças que se dispersassem, teve como resposta uma aggressão á espada e a cacete, seguindo-se troca de tiros do que resultou a morte de uma praça do exercito e ferimentos em outra.

Foram presos tres soldados que confessaram terem sido alliciados para atacar o quartel do destacamento de Cruz Alta, o que não levaram a effeito por terem sido energicamente repellidos.

Reina agora completa ordem naquella localidade.

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 20 de Outubro de 1910, pág. 03, col. 01-02

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Manoel Sobreira Cardoso



"Falleceram na cidade do Rio Grande:

Porfirio Nunes de Almeida, tenente da guarda nacional e chefe das capatazias da alfandega.

O 1o. tenente João de Miranda Ribeiro Sobrinho, que occupava ultimamente o cargo de immediato do rebocador Lima Duarte.

Manoel Sobreira Cardoso, portuguez e de profissão barbeiro.

Thomaz Francisco de Oliveira, natural de Portugal e pintor.

✤✤✤✤✤

Deu-se na Cruz Alta o passamento da respeitaval matrona exma. sra. d. Izabel Verissimo da Silva, geralmente querida n'aquella cidade e sogra do major Domiciano Joaquim Ribeiro, tabellião de notas do termo d'esta capital.

(...)

Em Pelotas falleceram: d. Pulcheria Margarida de Souza, mãi do solicitador sr. Hemeterio Soares; d. Custodia Gomes de Medeiros, viuva de Francisco de Paula Medeiros; d. Vicenta Calvete, viuva, do Estado Oriental; e o subdito portuguez José Delfino da Veiga."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 10 de Março de 1894, pág. 02, col. 03-04

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Uma invasão em Cruz Alta

 



Em Cruz-Alta, no Rio Grande do Sul, deu-se um facto realmente extraordinario, que é assim narrado pela Reforma, de Porto-Alegre:

"Telegrammas da Cruz Alta, de pessoas fidedignas, communicam que hontem duzentas pessoas a cavallo, tendo á frente o capitão Ricardo Pillar, invadiram a cidade e arrancaram á viva força do lar domestico e do seio da familia, o nosso dedicado co-religionario - major José Rodrigues Lima, candidato do partido liberal na eleição marcada para o dia 25 de janeiro futuro.

Estão ameaçados pelo banditismo triumphante o honrado Dr. juiz de direito da comarca e o juiz municipal supplente em exercicio.

Povo, com justa razão, alarmado.

Não consta com certeza para onde levaram e o que fizeram do major Lima - tão brutal e vilmente ultrajado.

Esta gravissima occurrencia compromette sobretudo ao delegado de policia, ultimamente nomeado para o termo da Cruz-Alta, capitão José Gabriel da Silva Lima, que em sua passagem por Santa Maria blasonou ir pôr em execução planos sinistros.

Sabemos que o illustre chefe do partido liberal foi ter immediatamente com o Exm. Sr. vice-presidente da provincia, que tomou de prompto providencias.

É urgente, é indispensavel a demissão do actual delegado de policia da Cruz Alta e do commandante da secção policial, sendo substituidos por pessoas de noções claras do dever - capazes de rastear e punir os delinquentes, afim de ser restabelecido o imperio da lei e da moralidade.

Eis até que ponto auctoridades ineptas e homens perversos affrontam a sociedade e a lei!

Appellamos para o Exm. Sr. vice-presidente da provincia e chefe de policia.

Devem tomar providencias energicas e decisivas que garantam a ordem social."

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 07 de Dezembro de 1887, pág. 01, col. 03-04

quarta-feira, 16 de março de 2022

Indígenas no caminho entre o Rio Grande do Sul e São Paulo em 1841

 



ABORIGINES

Fragmento de viagem

Quem vem das campinas do Rio Grande do Sul, para a província de S.Paulo, tem de atravessar largos sertões, caudalosos rios, e magnificos campos. Fizemos esta viagem em 1841, e desse tempo são estaas notas, que agora sugeitamos ao prélo, e offerecemos ao publico.

Partindo da Cruz Alta, passámos no Passo-Fundo, Matto Castelhano, Campo do Meio, Vaccaria, e chegámos ao Rio Pelotas, que serve de divisa entre o Rio-Grande e Santa Catharina; atravessando o rio chegámos aos Campos Novos, de onde fizemos uma pequena digressão aos Campos de Palmas, e voltando de lá retomamos nosso caminho passando pela então pequena povoação de Curitibanos, tomamos a direcção do Sertão chamado de S. Paulo, onde se acha o pequeno rio Canôas, que é a divisa de Santa Catharina, e S. Paulo, entrando no territorio desta ultima provincia, chegámos ao importante registro, e pequena povoação do Rio-Negro, e depois nos internâmos pela provincia, fazendo ainda diversas digresões pelas mattas e rios da comarca de Coritiba, hoje provincia do Paraná.

Em todo este trajecto encontrámos sempre noticias aterradoras da proximidade, e invasão dos bugres bravios, restos dessas antigas tribus de aborigenes, e que habitão as mattas e sertões desses lugares. E com effeito, aqui encontra-se os restos de uma habitação que os bugres incendiarão, depois de saquearem, e darem a morte a todos os moradores; ali encontrão-se os vestigios de alguns assassinatos, feitos nos viajante que incautos pernoitavão nos lugares de correrias dos bugres; acolá encontravão-se innumeras cruzes, que provavão que n'aquelle logar tinah havido uma matança de passageiros; mais além, ainda se achavão ossadas humanas, e ossadas de cavallos, resultado de um assalto de bugres que não tinhão poupado uns e outros: enfim, por toda a parte os signaes de devastação, marcavão o aparecimento das hordas selvagens. Desejosos de saber qual a tribu a que pertencião estas hordas, e porque motivo levados só pelo espirito do saque, e do roubo, comettião tantas atrocidades, tratámos de estudar o caracter de alguns bugres semi-domesticos, que apparecião em differentes pontos, e com quem tivemos occasião de praticar; indagámos suas nações, usos, e costumes, e o mesmo fizemos com alguns que cahião prisioneiros, quando os habitantes davão algum ataque aos seus alojamentos; e aventurando-nos a visitar os alojamentos de algumas tribus ou hordas já entradas na domesticidade, ahi os acabámos de estudar, tanto quanto nos permittia o tempo de nossa demora, e as relações que podiamos entabolar com esses homens da natureza. Do resultado destas nossas indagações, vamos dar aos nossos leitores uma breve noticia.

As hordas que infestão esses lugares, não são todas originarias de uma só tribu, ou nação; e ainda que seus dialectos se assemelhão, ha comtudo bastante differença entre elles.

Alguns destes aborigenes, restos de uma ou outra tribu, constituem um povo separado, conservado em sua pureza o idioma, usos e costumes de seus antepassados, e vivendo ainda em guerra com outras tribus suas inimigas; porém outros teem-se misturado, e em um só alojamento se encontrão as reliquias de differentes tribus, cujos usos, costumes, linguagem, hoje amalgamados e confundidos, tem tomado um caracter novo e especial, onde em balde se procuraria a primitiva origem.

Algumas horas sómente se compoem de selvagens no estado primitivo; mas outras teem de envolta alguns inidios que já forão domesticados, e viverão com gente civilisada, e que voltárão para as mattas, e estes bandos que possuem esses refractarios da civilisação, são justamente os que mais se empregão no salteamento das estradas, e habitações.

Os indios que apparecem desde a Cruz Alta, até á Vaccaria, são pela maior parte Carijós, ou Guaranys, ainda que juntos com elles existão alguns Tupinaes [sic], e Tupinambás, restos dessas tribus que habitarão a provincia de S. Paulo, e o Sul do Rio de Janeiro. Estes restos hoje estão tão misturados, que é difficil obter um ou outro indicio, pelo qual se julgue destas origens; comtudo com bons interpretes, que são sempre indios já civilisados, ou para melhor dizer domesticados, consegue-se alguma cousa, acompanhando as maravilhosas tradicções dos aborigenes anciãos, das quaes é preciso separara o verdadeiro do falso. Esta horda tem alguns alojamentos insignificantes na serra de Itapeva, na que desce para Santo Antonio da Patrulha, e outros pontos das mattas; mas o seu principal aldeamento, é no interior do Matto-Castelhano, para a banda do Rio Pelotas, e talvez não mui longe dos confins dos Campos de Palmas. Este aldeamento é vasto, tem muitas cabanas, algumas de uma só familias, e outras maiores que servem de habitação a umas poucas de familias: é todo cercado de uma dupla palissada, que ainda é defendida por largos ainda que imperfeitos fossos, que tambem são guardados por muitos fojos em todas as direcções, os quaes deixão apenas livre para a entrada um estreito e sinuoso caminho, só conhecido dos bugres.

Nesta horda existem alguns bugres domesticos, que dirigem os ataques das casas e caravanas; e suppomos que a escolha, e formação do aldeamento neste lugar, é devido a alguns Guaranys já domesticados pelos Jesuitas das Missões, os quaes pela expulsão d'aquelles Padres, se juntárão aos restos da sua tribu ainda selvagem, e tratárão de organisar-se em tribu, de novamente. Temos esta supposição, em razão de que o alojamento é quadrado, e de uma organisação interna semilhante á que os Jesuitas derão aos differentes povos das Missões, havendo mesmo entre os indios, algumas tradições dos Jesuitas. As armas destes bugres, são a fléxa, e a maça de páo; comtudo, os indios domesticados que andavão com elles, algumas vezes tem usado de armas de fogo; a maior parte das pontas das fléxas desta horda, são feitas de ferro, para o que se servem de pontas de faccas, ou de qualquer ferro que apanhão; as faccas tambem lhe servem para varios usos. Quando atacão é sempre de surpreza, e fazendo grande alarido durante o combate, se este tem lugar; matão todas as pessoas e animaes que encontrão, e saqueão o que lhe convém, não deixando o dinheiro em ouro se o encontrão. No geral andão nús, e alguns trazem tangas de pennas, ou de panno. O aldeamento é ali permanente, mas os indios destacão partidos que dirigem suas correrias para differentes pontos. Esta horda causou immenso estragos, e tem-se portado com tal ousadia, que em 1840, quando o General Labatut, fez a sua retirada de cima da serra, na passagem do Matto-Castelhano, forão por elles atacada algumas bagagens e pessoas que ficarão a retaguarda do exercito.

Diz-se que neste aldeamento, ha tambem, organisadas pelos Guaranys que pertencerão aos Jesuitas, algumas toscas officinas de carpinteiro, e ferreiro, e uma forja; o que não asseveramos que seja exacto, mas que comtudo é acreditavel, visto o seu trabalho das fléxas, e alguns machados de ferro, que se lhe tem encontrado, quando no geral os indios usão deste instrumento feito de pedra.

Segundo alguns bugres prisioneiros, estes selvagens tem prisioneiras no seu alojamento, algumas mulheres tomadas ás caravanas que tem roubado e destruido.

Fonte: O COSMOPOLITA: JORNAL LITTERARIO, INSTRUCTIVO E NOTICIOSO (Rio de Janeiro/RJ), 25 de Novembro de 1854, pág. 03, col. 03, pág. 04, col. 01


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Victor Dumoncel



"Na
Gazeta Serrana da Cruz Alta encontrámos esta desoladora notícia da morte, ao serviço da Patria, de um nosso abnegado companheiro de luctas pela Republica:

'Em sua fazenda n'este municipio, para onde foi transportado, falleceu no dia 10 o destemido servidor da Republica tenente-coronel Victor Dumoncel.

Tinha sido n'esse dia ferido na região abdominal, em um encontro havido entre um piquete ás suas ordens e forças federalistas, no Jacuhy.

O dr. Affonso Moraes, que d'aqui accudiu ao chamado, não chegou a tempo de poder-lhe ser util."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 24 de Janeiro de 1894, pág. 02, col. 01

sábado, 30 de outubro de 2021

Firmino Silveira Junior



"N'esta capital falleceu hontem, em consequencia de uma febre typhoide, o nosso amigo Firmino Silveira Junior, estimado cidadão residente na Cruz-Alta, onde possuía uma estancia.

O nosso mallogrado patricio cuja morte deploramos foi outr'ora estabelecido n'esta capital, á rua dos Andradas, canto da travessa Itapirú, com uma loja de fazendas denominada - Aos Silveiras.

Apresentamos os nossos pezames á desolada família do finado."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 16 de Junho de 1894, pág. 02, col. 04

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Giovanni Perla



"Na Cruz-Alta, falleceu o cidadão italiano Giovanni Perla, que ali estava estabelecido com o hotel
d'Italia.

Era elle natural de Perusa, provincia de Turin - filho dos finados João Perla e Maria Bevulo; tinha 50 annos, mais ou menos.

✤✤✤✤✤

No Rio Grande falleceu, em consequencia de uma tysica galopante, d. Herminia Moutinho de Almeida, que ha cinco mezes perdera seu marido, o sr. Porfirio Nunes de Almeida.

D. Herminia Moutinho contava apenas 37 annos de idade, e deixa dois filhos em orphandade."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 16 de Agosto de 1895, pág. 02, col. 02

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Maria Joaquina de Paiva Xavier



"Falleceu hontem n'esta capital a exma. sra. d. Maria Joaquina de Paiva Xavier, sogra do cidadão José Antonio Rodrigues Totta.

✤✤✤✤✤

Na Cruz Alta finou-se o cidadão Joaquim Custodio Cardias."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 19 de Abril de 1894, pág. 02, col. 03

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

José Pinós



"Ás 9 horas da manhã de hontem falleceu n'esta capital, repentinamente, o estimado cidadão nosso amigo José Pinós, natural da Hespanha e chefe de um distincta familia em que contamos dedicados co-religionarios.

O finado era um honrado commerciante, possuindo casas n'esta praça, na de Caçapava e na de Santa Maria da Bocca do Monte.

As cerimonias do enterramento effectuaram-se esta manhã, concorrendo a ellas muitas pessoas gradas, amigos e apreciadores do morto, a cuja exma. familia d'aqui enviamos as expressões do nosso sentimento de pezar.

(...)

Em Pelotas falleceram d. Candida de Azevedo Leite e o cidadão portuguez Joaquim Simões Dias, de 41 annos de idade.

✤✤✤✤✤

Na Cruz-Alta finaram-se as sras. dd. Francisca de Paula Bicca Lima e Anna Appolinaria Pereira."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 29 de Maio de 1893, pág. 02, col. 05

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Antonio Virissimo da Fonseca


"Registro mortuario

Por telegramma recebido sabe-se que falleceu hontem na Cruz Alta o distincto cidadão Antonio Virissimo da Fonseca, sogro do nosso amigo Manoel Alves da Silva e capitão Domiciano Ribeiro, d'esta cidade.

Apresentamos condolencias á familia do respeitavel ancião."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 19 de Dezembro de 1891, pág. 02, col. 03

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Preços altos em Cruz Alta


"CRUZ ALTA

(...)

Desde 1886 que se tem desenvolvido o movimento de progresso n'aquella localidade. Muitas casas em construcção, e muito movimento commercial é o que se observa.

As tropas de bestas chucras têm sido vendidas a 70 a 72 mil réis. Bestas mansas de 100 a 120 mil réis.

Eguas para cria de potro a 12 a 14 mil réis, para cria de bestas 16 e 18 mil réis.

Gado de criar, quanto appareça á venda, é comprado a 18 e 20 mil réis.

Gado de córte, vaccas, custam 26 á 30 mil réis, e novilhos de 30 a 34 mil réis.

Si por um lado encontramos toda a qualidade de mercadorias e generos alimenticios por preços elevadissimos, comtudo o custo actual dos gados compensa a elevação dos preços de outr'ora.

Os pessimistas, os inimigos da Republica, aproveitam-se da alta dos preços dos generos para gritarem contra o systema republicano; Está tudo por um desproposito! No tempo da monarchia, nunca se viu isto! Custa tudo rios de dinheiro. E o povo vai acreditando n'isto e acompanha a gritaria, mas é preciso que se saiba, que se explique que, si por um lado encontramos toda a qualidade de generos e fazendas, por preços caros, comtudo o preço por que estão os gados compensa, na campanha, onde mais é a gritaria, a elevação dos preços de outr'ora porque, si em 1889 e 1890 custava, por exemplo, o metro de chita 480 rs. e hoje custa mais do que outr'ora, tambem n'aquella época se vendia uma vacca por 10 mil réis, um novilho gordo por 14 e 16 mil réis, uma mula chucra por 24 e 30 mil réis, e hoje custa a primeira 28 e 30 mil réis, o boi 32 e 34 mil réis, a mula 65 e 70 mil réis, e é mais fácil pagar hoje 800 rs. por metro de chita do que 500 rs. que se pagava outr'ora, porque a differença de 20 rs. sobre o gado de corte, etc., dá de sobra para pagar a differença que existe hoje nos generos.

O salario do jornaleiro tambem caminha na mesma proporção, e assim por diante, notando-se que tudo está caro, é verdade, mas nunca se tem visto na campanha tanto dinheiro como presentemente.

Deixemos, porém, que gritem as cassandras."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 23 de Setembro de 1891, pág. 01, col. 03-04

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Miguel Archanjo de Figueiredo


"Registro mortuario

Vimos telegramma official, procedente de Cruz Alta, referindo que falleceu hoje ali o dr. Miguel Archanjo de Figueiredo, juiz de direito d'aquella comarca.

✤✤✤✤✤

No Rio Grande acaba de fallecer o coronel André Alves Leite de Oliveira Salgado, despachante geral da alfandega.

✤✤✤✤✤

No dia 2 do corrente finou-se em S. Gabriel a estimada joven exma. sra. Fortunata Martins de Faria.

✤✤✤✤✤

No Alegrete falleceram ao mesmo tempo dois filhinhos do sr. Olyntho Nunes de Miranda, que, pouco antes, havia perdido uma filha.

✤✤✤✤✤

Em Santa Maria da Bocca do Monte falleceu d. Joanna Carvalho, esposa do cidadão Henrique de Carvalho.

✤✤✤✤✤

Na Uruguayana falleceu a exma. sra. d. Octacilia do Nascimento Mibielli, esposa do nosso amigo dr. Pedro Affonso Mibielli, a quem apresentamos pesames.

(...)"

Fonte: A FEDERAÇÃO(Porto Alegre/RS), 22 de Novembro de 1892, pág. 02, col. 06

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Os índios de Campo Novo


"Colonisação indigena

O Monitor Serrano, da Cruz Alta, publicou um excellente artigo sobre importante assumpto, que tanto interessa á provincia do Rio Grande do Sul.

O governo não deve olhar com indifferença para tão palpitante necessidade, e, com vista ás autoridades superiores, transcrevemos aqui alguns topicos da folha cruz-altense:

<<Só com a nossa população indigena que vive nos centros no estado selvagem, poderiamos organisar grandes centros coloniaes, catechisando-os, e assim aproveitariamos muitos milhares de homens fortes e aptos para auxiliarem o desenvolvimento material do paiz.

<<Temos aqui no Campo Novo uma tribu de indios semi-civilisados, composta de 300 almas, mais ou menos, e entre estas 60 a 80 creanças, que desejam receber o baptismo e instrucção primaria.

<<São de natureza morigerada; prestaram serviços na guerra contra o governo do Paraguay e ultimamente enviaram um destacamento composto de 10 homens a Santo Christo, quando tiveram noticia de que uma tribu selvagem ameaçava os habitantes d'essa localidade, com o fim de defender e proteger os ditos habitantes.

O chefe ou cacique d'essa tribu, o major Fongue, é, segundo affirmam, homem de mais de 200 annos; e inhabilitado pela decrepitude em que se acha, passou a chefança a seu filho mais velho, que tem a patente de capitão; assim como os dois immediatos: um tenente e outro alferes.

<<Por pessoa que têm estado entre elles, sabemos do que deixamos dito, e nos affirmam que se o governo promover os meios necessarios para fundar uma colonia entre Inhacorá e Uruguay, nomeando-lhe um director prudente e recto, que os guie e discipline, assim como ferramenta agricola, sementes, etc., é de presumir que, com o decorrer do tempo, o exemplo e o trabalho, tenhamos n'esse lugar uma colonia importante, bem situada, e que attraia a si grande quantidade de selvagens que vagam por essas mattas, e dos quaes tão bons resultados póde tirar o paiz, utilisando-os.

<<Pedimos ao governo da provincia que tome em consideração a nossa narração a esse respeito e que mande pessoa competente ao lugar indicado informar-se da veracidade do que temos exposto.>>"

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 29 de Agosto de 1884, pág. 02, col. 01

terça-feira, 1 de maio de 2018

Dia do Trabalho em Cruz Alta em 1919


"1 de Maio - CRUZ ALTA, 1 - Os operarios fizeram uma passeata puxados por uma banda de música e empunhando estandartes percorreram as principaes ruas e foram á residencia do intendente a quem saudaram e solicitaram o auxilio para uma aula nocturna.

O intendente agradeceu, promettendo diligenciar neste sentido."

Fonte: A FEDERAÇÃO, 03 de maio de 1919, pág. 04, col. 01
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