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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Antonio Pinto da Fontoura Barreto



"A 21 do corrente finou-se n'esta capital o cidadão Manoel Barbosa de Lima.

- Hontem falleceu n'esta cidade d. Maria José Martins Teixeira, esposa do cidadão Manoel Candido Teixeira.

✤✤✤✤✤

Em Sant'Anna do Livramento pereceu o major Antonio Pinto da Fontoura Barreto, homem de avançada idade, pai do sr. Antonio da Fontoura Barreto e tio do major Carlos da Fontoura Barreto.

✤✤✤✤✤

Falleceu no Rio o tenente-coronel Joaquim Tubbs, prestigioso chefe republicano de Gravatahy, cidadão de elevadas virtudes cívicas.

- Por telegramma publicado hoje no Jornal do Commercio, sabemos que succumbiu no Rio o dr. João Chaves Campello, que residia em Pelotas e que já exerceu a vice-presidencia d'este Estado, quando provincia.

✤✤✤✤✤

Falleceu em Alegrete o jovem Alcides Prunes, irmão do sr. Fredolino Prunes, proprietario do periodico Til."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 24 de Abril de 1894, pág. 02, col. 03

quinta-feira, 28 de julho de 2022

O entrudo em Alegrete em 1843

 



CORRESPONDENCIA

Sr. Redactor.

Hum dos costumes barbaros, que nossos pais herdaraó de seus maiores que por desgraça ainda está em voga, hé o jogo do entrudo; essa festividade bachanal, essa loucura, essa alegria de poucos dias, á que commumente se segue longas penitencias, e quiçá dores do espaço de toda a quaresma. Como tão largo tempo de penas pode compensar hum prazer de tão curta duração? Certamente os quarenta dias de quaresma naó saó sufficientes para curar as catarrahaes, as constipaçoens, e as phthysicas, que, segundo opiniaó dos Medicos, costumaó derivar-se muitas vezes das imprudentes molhadelas do intrudo; assim como, não bastaó igualmente os jejuns mais austéros, e a mais severa economia para reparar o vasio, que deixa na bolsa essa ruinosa prodigalidade, esse disperdicio causado pelo dispendioso entrudo dos limoens de cheiro. E que direi do uso, da seringa, e da agua pura? Elle hé sem duvida mais commodo, e barato; quatro barris de agua fazem a festa; o effeito hé o mesmo, e poupa-se o dinheiro, que improductivamente se gasta com tal brincadeira, porem nada hé mais grosseiro, nem mais indigno de pessoas bem educadas, que despejar gamellas, e gamellas de agua sobre os infelizes, que andaó na rua. A hygiene reprova o entrudo, como pernicioso á saude; os medicos dizem, que ceifaó, em todos os annos milhares, de vidas, e a experiencia demonstra, que durante a perturbaçaó desses dias, costumaó os ladroens e malfeitores perpetrar impunemente os mais horrorosos atentados. Alem disto semelhante divertimento hé algumas vezes tambem immoral; porque muitos insolentes aproveitaó-se da confusão geral, e da desordem, que há nos entrudos, para tomar certas licenças e liberdades offensivas da moral publica, e dos bons costumes, e commumente as senhoras, que saó victimas de taes insultos, tem por decencia obrigaçaó de calar-se. De tudo quanto fica dito, snr. Redactor, se conclue, que o jogo do entrudo hé nocivo á saude, e á bolsa; algumas vezes grosseiro, e immoral; e por consequencia deve ser proscripto, e banido da sociedade como indigno de huma Naçaó civilisada. Snr. Redactor, se julgar dignas de publicidade as presentes reflexóes queira admitti-las em huma das suas Folhas; pelo que lhe será grato.

Hum que naó gosta do entrudo.

Fonte: ESTRELLA DO SUL (Alegrete/RS), 04 de Março de 1843, pág. 01-02

domingo, 19 de junho de 2022

Cabeça espetada

 



ASSASSINATO

UMA CABEÇA ESPETADA

Pessoa chegada de S. Gabriel ao Alegrete, no Rio Grande do Sul, contou que, a duas leguas de distancia de Itapevy, na Serra de Caverá, foram encontradas duas vaccas carneadas, estando uma ainda no laço.

Junto a ellas foi encontrado um individuo assassinado, com a cabeça decepada, espetada nos chifres de uma das vaccas.

Dizia-se ser individuo da visinhança e de quem não se fazia juizo suspeito.

No itapevy corria como certo andar uma quadrilha de ladrões saqueando e commettendo tropelias.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 10 de Janeiro de 1890, pág. 01, col. 03

sábado, 2 de abril de 2022

Ataque à casa do juiz de paz

 



O presidente da camara municipal da cidade de Alegrete pedira providencias á presidencia da provincia sobre a pressão, que o commercio faz ao povo na circulação das notas de 20$ que se vão recolher de janeiro em diante.

- Da mesma cidade a Reforma de Porto Alegre recebeu o seguinte telegramma, que publicamos sob todas as reservas:

"Grupo numeroso de gente a cavallo dá tiros, provoca desordens e ameaça-nos. Auctoridade superiores, apezar de pedidos constantes nada providenciam. Clame urgentemente por garantias; juiz de direito interino excita grupos."

Ainda á ultima hora recebeu o mesmo jornal este outro telegramma:

"Grupo armado invadiu a casa do juiz de paz para forçal-o a assignar o diploma do Dr. Severino. Setenta individuos, a maior parte gaúchos, ameaça-nos. Guarnição sessenta praças. No caminho para São Gabriel ha bandos de gaúchos armados. Cresce o numero de desordeiros. Peçam providencias para que venham forças de S. Gabriel e Sant'Anna."

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 08 de Dezembro de 1882, pág. 01, col. 04

sábado, 12 de março de 2022

O famigerado Dorothéo Aguirre

 



Foi capturado em Alegrete, Rio Grande do Sul, o famigerado bandido Dorothéo Aguirre, sub-chefe de uma quadrilha de salteadores que assolava aquelle municipio. Interrogado pela autoridade policial respondeu:

"Que nunca se persuadio de ser capturado, pois duvidava que o conhecessem, disfarçado como estava;

Que não tem a vida para negocio, pois tanto lhe faz morrer hoje como amanhã;

Que podem ficar certos de que com elle não judiam, pois tem certeza não demorará receber uma corda ou faca com que termine a existencia:

Que o criminam de muitas mortes quando (palavras textuaes) só em oito teve participação directa, e que, quanto ás outras em que tomou parte, a outrem cabe a responsabilidade."

Todas estas revelações foram feitas com o maior sangue-frio, sem denotar a mais leve commoção.

Dorothéo Aguirre é pardo reforçado, de estatura regular, olhar penetrante e muito vivaz em sua linguagem.

Representa ter 30 annos de idade e diz-se que é excellente atirador e que maneja regularmente a espada.

É verdadeiro malvado, um cannibal.

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 25 de Dezembro de 1886, pág. 01, col. 04


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Os Aguadeiros em Alegrete

 



OS AGUADEIROS

Em vista do inqualificavel abuso que ultimamente têm feito os vendedores d'agua, negando-se a fornecel-a a quem não pode comprar uma pipa, o activo Intendente, no louvavel intuito de favorecer as classes pobres e a todos em geral, determinou, em edital publicado nesta folha, que todo e qualquer aguadeiro que se negasse á vender um ou mais baldes d'agua fosse multado em cinco mil réis e o dobro na reincidencia.

Não temos senão encomios para a acertada medida do illustre administrador.

Porem é...que...como diz um velho anexim: o tiro saio pela culatra.

É o caso que o srs. aguadeiros, zangados pela repressão do seu máo proceder, elevaram o preço do balde d'agua a 60 réis, chegando até, alguns, a exigir 100 rs. que lhes foram pagos pela necessidade da occasião.

A pipa d'agua tem 28 baldes, vendidos a 40 réis fazem a quantia de 1120 réis, - quatrocentos e vinte réis mais do que pedem pela pipa; ora, vendendo a 60 e a 100 réis a differença é enorme e o desaforo, - permittam-nos a expressão - é masculo.

As pessoas a quem lhes foi extorquida a exhorbitancia de 100 réis por um balde d'agua, estão promptas, se for necessario.

Não haverá um meio de fazer entrar nos trilhos os descarrilados aguadeiros.

Fonte: GAZETA DE ALEGRETE (Alegrete/RS), 05 de Janeiro de 1893, pág. 02, col. 03

terça-feira, 13 de julho de 2021

Antonio Faro



"Em Pelotas falleceram:

O cidadão portuguez Antonio Faro, antigo proprietario de carros da praça.

E o cidadão Manoel Rodrigues Corrêa, dono da barbearia denominada Salão Rochefort.

✤✤✤✤✤

Em Nictheroy, onde era empregado no commercio, falleceu da febre amarella o joven Gentil Martins de Carvalho, de 23 annos de idade, filho do sr. Francisco Alfredo de Carvalho, que tem família em Pelotas, e natural d'ali.

A folha que esta noticia dá accrescenta que o inditoso joven, á força de economias, deixou a quantia de dois contos de réis, recolhida á Caixa Economica do Rio, quantia que sua família terá de reclamar.

✤✤✤✤✤

(...)

No Rio Grande falleceu no dia 11 o estimado joven Antonio Caetano Ferraz, de 18 annos de idade, filho do cidadão do mesmo nome.

✤✤✤✤✤

No Alegrete morreram: d. Maria Amalia Fagundes Alvarisa, casada com o sr. Toribio Alvarisa; o sr. Alexandre Lencina, escrivão interino da collectoria de rendas geraes."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 15 de Maio de 1894, pág. 02, col. 05

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A entrevista do Major Azevedo Junior



"Major Azevedo Junior

ENTREVISTA

Sabendo que tinha chegado de Jaguarão, no vapor Mirim, o distincto militar sr. major Antonio José dos Santos e Azevedo Junior, que conseguiu fugir do acampamento federal em Aceguá, procurámos realisar com elle um intervieux, o que teve lugar hontem, ao meio dia.

Principiámos por perguntar-lhe como, quando e porque foi preso. Respondeu-nos:

- Eu estava em Alegrete, juntamente com meu filho segundo cadete e segundo sargento Arthur Alves de Azevedo, quando ali chegou Pina com 600 homens e prendeu-nos, mandando-nos conduzir para a camara municipal.

Perguntei-lhe porque motivo nos prendia e elle respondeu-me que eu era official do exercito e, portanto, suspeito.

Sabia que eu era major do 11o. regimento de cavallaria.

Logo depois fui removido, com meu filho, para a guarda d'aquella força.

Após reuniu-se Pina a Prestes Guimarães e teve lugar o combate no lugar denominado Jararaca, que assistimos de princípio a fim, na frente das fileiras e completamente desarmados.

A minha faca prateada e o meu relogio de ouro, bem como toda a nossa bagagem, haviam-nos sido saqueados logo que fomos prisioneiros.

- O que nos diz, perguntamos-lhes nós, do procedimento das forças federalistas durante o tempo que estiveram na cidade e no município do Alegrete?

- Como em toda a parte a devastação foi completa: saqueava-se e inutilisava-se indistinctamente, tanto de republicanos como de federaes.

- E não havia, tornamos nós, protestos, por parte da população da cidade?

- Não: a cegueira ali é tal e tanta que a maioria da população applaudia as barbaridades que eram comettidas a seus olhos.

Mesmo depois de entrarem n'aquella cidade as forças legaes, garantindo a ordem e fazendo respeitar a vida e a propriedade dos cidadãos, ainda assim, parece incrível, as sympathias eram pela causa dos federaes!...

Esta é, infelizmente, a verdade.

Depois fui preso, constrangido a acompanhar aquella gente, tive occasião de observar coisas extraordinárias:

Chegavam as forças a uma estancia pertencente a um cidadão seu co-religionario, cujos filhos e parentes n'ellas se achavam empulhando armas.

Estes apressavam-se em dizer quem eram, bem como quaes os donos da propriedade; tudo era em vão: tinha princípio desde logo a obra sinistra da devastação!

Isto se dava com os proprios federaes: faça-se idéa o que se não daria com os republicanos.

- Depois d'essa prisão, perguntamos nós ao sr. major Azevedo: Que rumo levaram as forças que vos conduziam?...

- Seguiram para S. João Baptista do Quarahy, arrebanhando tudo quanto encontravam e podessem conduzir.

Ahi apanhámos grandes inverneiras, desencadeadas tempestades: até que teve lugar o combate de Inhanduhy, onde os federaes tiveram grande numero de baixas, devidas à artilharia republicana.

D'ahi começaram as deserções em massa, o desanimo lavrou em todo o exercito federal.

Sempre que os federaes se approximavam da linha, chefes importantes com toda a sua gente desertavam.

O coronel Salgado. em vista de semelhante facto, tratava de animar a sua gente, fazendo enthusiasticos discursos, annunciando victorias no Rio e n'outras localidades.

Os soldados, porém, ouviam aquellas palavras como prenuncio de proximo revéz, e não tardava que as balas do exercito legal começassem a fazer horriveis estrados nas fileiras federaes.

- Diga-nos uma cousa, major: depois que [apagado] força em que com o vosso filho estaveis prisioneiros, a vossa sorte não melhorou?

- Certamente: elle não achou justa a nossa prisão e desde essa epocha passei, eu e meu filho, a sermos cuidados pelo 9o. corpo do tenente-coronel Timotheo Paim, meu parente e amigo, que, relativamente, amenisou-nos a sorte.

A Timotheo Paim devemos a vida: por duas vezes estivemos sentenciados á morte, o que se não effectuou devido áquelle chefe.

Vem a proposito relatar um facto digno de nota:

Quando o exercito federal errava, desastradamente pelo municipio de Palmas, levando comsigo a morte e o pavor, acampou proximo a uma estancia: o chefe d'aquella propriedade, temendo a perversidade d'aquella gente, havia-se ausentado, ficando n'ella sua esposa e filhas.

Officiaes e soldados do exercito federal dirigiram-se áquella mansão, arrombando as portas a machado.

Paim, que conhecia sobejamente aquella gente dirigiu-se á estancia e lá chegou justamente quando as portas do predio caiam por terra e as pobres moças de joelhos, imploravam compaixão.

Desembainhada a sua espada o coronel Timotheo fez aquella horda de vandalos deixar em paz as desprotegidas donzellas.

Mas... a retaguarda, onde não havia um Paim, passava a razoura em tudo e nada respeitava.

Em muitas estancias os pianos e mais trastes de importancia foram destruidos a machado, não se ouvindo as supplicas reiteradas das suas donas que de joelhos pediam que a destruição não fosse completa.

- E em Quarahy, perguntámos nós, o que fizeram os federaes?

- Levaram a passar para o Estado Oriental mais de 30,000 cavallos, eguas, mulas e burros que arrebanharam por todos os municipios onde passaram.

- O que nos diz, perguntámos-lhes, da batalha do Inhanduhy?

- Que si as forças fossem iguaes e nós os republicanos tivessemos pelo menos mais cavallaria, a revolução teria se findado com aquella batalha.

Entretanto foi no Inhanduhy que se accentuou o desanimo nas fileiras federaes, pronunciando-se o noticiado estrangulamento.

Desde esse revez começaram as deserções em massa: no Upamaroty e na Restinga já os rebeldes tinham sido desfalcados não só pelas baixas e apresionamento, como pelas deserções diarias de chefes e corpos inteiros.

O panico era geral: houve dias em que a perseguição do general Telles era tal que não havia tempo nem de assar-se no burralho um pedaço de carne, unico alimento que restava ao exercito fugitivo.

Sal, fumo e herva - nem por misericordia: houve dias em que os soldados chegaram a lançar nas cuias ramos de carqueja e despejar sobre elles agua fervendo.

Era um miseria medonha!

Os pobres soldados, inconscientes, morriam duros de frio nos acampamentos, tendo apenas um pedaço de pellego cubrindo-lhes as partes sexuaes...

E estes infelizes não sabiam qual a causa de sua miseria, dos seus soffrimentos!

Simples authomatos...

Do Upamoroty viemos sempre tocados pela vanguarda do general Telles até ás grotas do Asseguá.

A força rebelde, durante a fuga, foi deixando para traz tudo quanto era obstaculo á sua marcha rapida: gado, cavallos, carroças com ambulancias e munições - tudo foi desprezado: tal era o panico de que a mesma vinha possuida.

- Bem, dissemos nós; depois de tantos fracassos chegaram, finalmente, ás grotas do Asseguá.

O que se passou ali, não nos poderá dizer o sr. major?

- Certamente; tratou-se da deposição de Joca Silva, por inepto e imprestavel: esta deposição era ha muito latente, como muitas outras que explodiram em pleno acampamento: por exemplo;

Um bello dia estivemos vendo que por simples e mera questão de um cavallo o exercito federal se exterminava completamente.

É o caso que a questão se agitou entre Cabeda e Pina e foi solvida a rebenque, a vista do coronel Salgado.

O exercito se dividiu - uma parte estava do lado de Cabeda e outra de Pina.

Devido á intervenção do anjo da paz, as armas, que já estavam apontadas, descançaram.

- Esclareça-nos, major: como pôde realisar a sua fuga e de seu filho?

- Muito natural e simplesmente: aproveitámos a confusão que reinara por occasião do desarmamento das forças de Salgado, Tavares e Prestes Guimarães, ante o coronel oriental João Aguiar.

Levámos comnosco um vaqueano que nos guiou na perigosa passagem de um banhado de doze quadras de extensão.

No dia 8 chegámos a Mello n'um estado completamente miseravel: quasi nús.

Fomos ali acolhidos pelo sr. consul brazileiro com o maior carinho e recebemos do sr. Pedreira toda a protecção.

Recebemos roupa e todos os recursos.

Depois soubemos que todos esses auxilios eram-nos proporcionados pelo patriotico governo do Rio Grande do Sul.

O sr. Pedreira, querendo conservar um testemunho dos nossos infortunios, pediu-nos para sermos retratados nos trages em que chegamos á villa de Mello, onde fomos tratados com o maior carinho pelas auctoridades do paiz.

Dahi, sob a protecção das auctoridades orientaes, dirigimo-nos a Jaguarão e d'aquella a esta cidade.

- E o sr. major, perguntámos, julga finda a revolução?

- Si o governo do paiz tomar as necessarias precauções, a revolução pode-se considerar desde já exterminada.

O plano dos revoltosos é continuar a guerra de recursos, logo que a estação invernosa se finde.

Urge que o governo arregimente forças de cavallaria, bem armadas, durante o inverno, afim de exterminar o grupo de Gomercindo Saraiva que se internou no Estado.

- Sim, lhe respondemos: o senador Pinheiro Machado, com a sua columna das tres armas, acha-se em perseguição d'esse caudilho.

O governo da União terá a sufficiente energia para reclamar do governo oriental contra a escandalosa protecção que tem dispensado aos caudilhos revolucionarios.

[apagado] e da liberdade, não nos defenderemos de joelhos, como disse o grande Emilio Castellar.

É justo e preciso que o governo oriental se capacite de que, assim como nós temos sido justos e leaes para com elle, em circumstancias identicas - assim tambem lhe cumpre guardar a mesma lealdade.

- Sim, nos respondeu o sr. major Azevedo: é preciso todo o cuidado com as diligencias e vias ferreas: a zona do norte está devastada e o federalismo concentra suas esperanças nas regiões não exploradas.

Muito e bem armada cavallaria - eis o meio de suffocar as esperanças do federalismo.

✤✤✤✤✤

Assim terminámos o nosso interview.

(Do Rio Grande do Sul)."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 24 de Junho de 1893, pág. 02, col. 02 à 04


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Armando Vanolly



"No Alegrete falleceu repentinamente, no dia 24 do passado, estando de guarda no quartel militar, o 2o. sargento do 6o. batalhão de infantaria Armando Vanolly.

O morto era muito conhecido n'esta capital, onde assentou praça logo após a proclamação da republica.

Era muito conhecido por - Duque - e elle mesmo assignava-se - Duque de Vanolly.

- Na mesma cidade finou-se d. Malvina da Silveira, irmã do sr. Francisco Antonio da Silveira.

✤✤✤✤✤

Em Bagé morreu, aos 60 annos de idade, o laborioso cidadão João Siqueira de Faria."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 09 de Março de 1893, pág. 02, col. 01

domingo, 6 de dezembro de 2020

Evaristo Augusto Gomes


"Registro mortuario

(...)

Na cidade de Alegrete morreu o cidadão portuguez Evaristo Augusto Gomes, antigo commerciante d'aquella cidade."

A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 09 de Fevereiro de 1892, pág. 02, col. 01

domingo, 31 de maio de 2020

O combate de Alegrete


"Combate de Alegrete

Do illustre dr. Victorino Monteiro recebeu O Paiz a seguinte carta:

'Transcreveu ante-hontem o Jornal do Commercio, do El-Dia, de Montevidéo, um artigo do sr. Adriano Ribeiro, arvorado hoje em valiente chefe revolucionario.

Não sei o que mais deva admirar, si a fertilidade de sua imaginação monkausiana, si a absoluta falta de discernimento, procurando grosseiramente embair o publico sensato.

Eis a verdade:

Estava a cidade de Alegrete apenas guarnecida por 30 homens civis ao mando do cidadão Lopes, quando foram sacrificados 14 d'elles, sem terem opposto a minima resistencia.

Entre as victimas contam-se os inoffensivos tabellião Luiz Mathias e capitão José Ourives, veterano do Paraguay e já sexagenario.

Ao effectuar-se a impatriotica invasão existiam apenas na arrecadação do 6o. batalhão de infantaria 62 armas Comblain, que foram remettidas para Uruguayana á requisição do general Hyppolito Ribeiro. A munição existente foi conduzida pelo casco do mesmo batalhão, quando, incorporando-se ás 90 praças que guarneciam a cidade de Quarahy, sob o commando do energico e distincto tenente Agnello, fizeram juncção á columna do legendario general Hyppolito.

Não existia, pois, em Alegrete um unico cartucho.

Eis ao que ficam reduzidos os pretendidos 15.000 tiros e 200 Comblain, apprehendidos na intendencia.

Quanto aos pormenores do combate, eis a verdade inteira:

Sabendo que o major Marcellino Pina, á frente de 600 homens, entrára em Alegrete, foi determinado pela auctoridade competente ao brioso e valente official Santos Filho que fosse desalojar o inimigo; Santos Filho, á frente de 1.000 homens civis, armados com 450 Comblain e o resto á lança, partiu de Cacequy a 21 do mez passado.

Essas forças haviam chegado poucos dias antes de Santo Angelo, S. Francisco, Cachoeira e Boqueirão.

Tinham excellente disposição, porém nenhuma disciplina.

É falso que o brioso 3o. regimento de cavallaria houvesse recusado partir; ao contrario, foi difficil contel-o, pois desejava immenso vingar seus companheiros, do 6o. regimento, tão vilmente trucidados em D. Pedrito.

Ás 2 horas do dia 26 encontraram em campos de João Telles, proximo ao Lageado, uma columna inimiga de mais de 1.000 homens, que se destinava a invadir a região serrana, até agora tranquilla e livre da sanha dos invasores.

Traziam numerosa cavalhada, o que demonstra ser falsa a affirmativa de que essa força ia fazer um simples reconhecimento, evidenciando-se isso da parte que o coronel Prestes Guimarães enviou ao general Silva Tavares.

Chegados á distancia conveniente, travou-se o combate, que durou cerca de duas horas, fugindo o inimigo precipitadamente e quasi em debandada, deixando no campo da lucta 18 mortos e algumas armas Remington e Minié.

O bravo militar Santos Filho, sempre tão correcto quanto destemido, fez marchar immediatamente sua columna, que ainda não se havia alimentado durante todo o dia, chegando ás 3 horas da madrugada á chacara da sua mãi, um quarto de legua da cidade.

Ahi acampou, estando seus bravos soldados extenuados pela fadiga e pela fome.

Ao romper do dia 27, quando se ia carnear, foi visto o inimigo, que, em numero superior a 3.000 homens, procurava envolver os bravos commandados de Santos Filho.

É absolutamente falso que a cavallaria fosse commandada pelo bravo e temerario coronel Firmino de Paula, um dos chefes que muito se distinguiram n'essa acção memoravel em que pouco mais de 600 bravos contiveram á respeitavel distancia numerosa força inimiga, que só se encorajou com a retirada de nossa cavallaria.

O coronel Firmino commandava a vanguarda, tendo pelejado durante seis horas á frente da linha de atiradores, que só retrocedeu para o cercado e mangueira do estabelecimento quando escassearam as munições.

Depois de uma lucta ingente, corpo a corpo, em que repelliram o inimigo em diversas sortidas, resolveram abrir caminho por entre os sitiantes, que por todos os lados cercavam o punhado de bravos que tão galhardamente ainda resistia com vantagem.

Tendo á frente Santos Filho, Firmino de Paula e o intemerato tenente-coronal Tristão Vianna, o terror dos adversarios, abriram passagem por entre mortífero fogo e retiraram-se em ordem, guerrilhando valentemente e conservando os perseguidores á respeitavel distancia.

Santos Filho, ferido a legua e meia do campo da acção, recolheu-se a uma casa, onde oppoz energica resistencia.

O official que o perseguia, homem valente e brioso, gritava em altas vozes que cessasse a resistencia, assegurando-lhe garantia de vida, bem como aos poucos companheiros que se tinham deixado ficar com elle.

Toda a munição elevava-se a 40 mil cartuchos e entretanto affirma o sr. Adriano terem sido encontrados no campo da acção mais de 42 mil capsulas!!!

Já haviam chegado a Cacequy, 874 homens quasi todos armados, faltando sómente 24 armas Comblain.

Sabemos que muitos dos soldados que ainda não se apresentaram em Cacequy já estão incorporados ao coronel Firmino de Paula, que, á frente de 1.400 homens, vem estacionar em diversos passos do Ibicuhy, impedindo a passagem do inimigo para a região serrana.

Na parte official diz o coronel Prestes Guimarães que tivera fóra de combate 60 homens, sendo 20 mortos e nessas forças 95.

Entretanto, diz agora o sr. Adriano que attingiram nossas perdas a 300 homens, tendo feito alguns prisioneiros, elevando-se as suas mortes a 27 mortos e 80 feridos.

O que é incontavel é que os prejuizos dos invasores foram consideraveis, ficando fóra de combate mais de 300 homens.

As vanguardas do general Lima e senador Pinheiro, que occuparam ha poucos dias Alegrete, encontraram ali cerca de 90 feridos, mais ou menos graves, e em telegramma ante-hontem publicado e de origem federalista, assegura-se existirem em Quarahy 80 feridos mais ou menos.

Essas noticias são confirmadas por alguns cidadãos chegados ultimamente d'aquella cidade.

É uma verdade contristadora que nenhum dos feridos republicanos conseguiu escapar á sanha infrene da castelhanada mercenaria, que, sequiosa de sangue, degolava infamemente os heroicos republicanos que ainda com vida haviam tombado no campo de lucta. Entretanto, com zelo hypocrita e pharisaico, imputa-nos o articulista a responsabilidade de imaginario assassinato consummado durante o combate. É muita coragem!!!

N'essa época já existiam em armas mais de 9.000 homens civis, sendo os unicos disciplinados os que acompanharam a columna do distincto general João Telles, que então perseguia o inimigo. É, portanto, irrisoria a affirmativa do improvisado chefe da proxima terminação das hostilidades, si porventura não contassemos com o apoio da força federal.

No meu curto passado de homem publico poderá o sr. Adriano beber inspirações de coherencia, altivez e dignidade política.

Estou certo que jámais me perdoarão ter resistido ao assedio de lisonjas em que procuraram envolver-me, quando, em divergencia com meus antigos companheiros, alimentaram a estupenda pretenção de conquistar-me.

Apezar de luctarmos com todos os elementos contrarios á Republica, existentes em nosso paiz e até mesmo no extrangeiro, entretanto, estou certo, esmagaremos os nossos inimigos e seus mercenarios auxiliares, firmando de modo definitivo a tranquilidade de nosso caro Estado e com ella a consolidação da Republica - Victorino Monteiro."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 06 de Maio de 1893, pág. 01, col. 03 à 05

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Miguel Archanjo de Figueiredo


"Registro mortuario

Vimos telegramma official, procedente de Cruz Alta, referindo que falleceu hoje ali o dr. Miguel Archanjo de Figueiredo, juiz de direito d'aquella comarca.

✤✤✤✤✤

No Rio Grande acaba de fallecer o coronel André Alves Leite de Oliveira Salgado, despachante geral da alfandega.

✤✤✤✤✤

No dia 2 do corrente finou-se em S. Gabriel a estimada joven exma. sra. Fortunata Martins de Faria.

✤✤✤✤✤

No Alegrete falleceram ao mesmo tempo dois filhinhos do sr. Olyntho Nunes de Miranda, que, pouco antes, havia perdido uma filha.

✤✤✤✤✤

Em Santa Maria da Bocca do Monte falleceu d. Joanna Carvalho, esposa do cidadão Henrique de Carvalho.

✤✤✤✤✤

Na Uruguayana falleceu a exma. sra. d. Octacilia do Nascimento Mibielli, esposa do nosso amigo dr. Pedro Affonso Mibielli, a quem apresentamos pesames.

(...)"

Fonte: A FEDERAÇÃO(Porto Alegre/RS), 22 de Novembro de 1892, pág. 02, col. 06

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O crime da Igreja de Alegrete


"Um padre patusco!

Ha poucos dias demos noticia de que, na igreja matriz da cidade de Alegrete, apparecera amputada uma perna da imagem do Senhor dos Passos. Chega-nos agora um curioso pormenor sobre o facto:

A irmandade da Senhora da Conceição Apparecida requereu auto de corpo de delicto na imagem, diz a folha da localidade.

Depois do auto, o revm. vigario Antonio dos Santos Reis declarou ter sido elle vigario o mandatario:

Que, para esse fim, havia-se cercado de todas as reservas, mandando chamar o carpinteiro amputador em todo segredo, e que, de portas fechadas, com sigillo e delicadeza serraram a perna da santa imagem;

Que foi levado a praticar esse acto pela circumstancia de ter ficado curta a tunica que para a mesma imagem mandára vir de Paris;

Que n'esse seu procedimento, não enxergava sacrilegio ou profanação como a imprensa denunciára!

Ora, se isto não é pilheria, com certeza o cerebro do reverendo vigario já não funcciona regularmente..."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 04 de Julho de 1885, pág. 01, col. 02

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O transporte de carretas no Rio Grande do Sul no século XIX


"(...)

Não se pense que o transito de carretas por essas paragens é em grande escala, como o communicante quer inculcar em apoio de seus devaneios de exagerado apologista. Os transportes de rotação, que se extrahe dos districtos de Alegrete e de Entre-Rios (unico genero que d'ali se exporta), preferem a estrada que vai dar á villa de Cachoeira, ou á cidade do Rio-pardo, onde passão a carga para as embarcações que navegão o Jacuhy, afim de ser posta no mercado de Porto-alegre; e esta preferencia é por economia de tempo e despezas accessorias, porque ha um quarto mais na distancia da estrada de Alegrete para a cidade de Pelotas, principal porto de embarque d'aquella parte da provincia, do que na d'aquelle ponto para a Cachoeira. As carretas que passão por Bagé, e que se destinão para Pelotas, são unicamente as procedentes do territorio comprehendido pelas bacias dos affluentes orientaes do rio Santa Maria."

Fonte: A REFORMA: JORNAL POLITICO (Rio de Janeiro/RJ), 15 de Janeiro de 1852, pág. 04, col. 02

sábado, 9 de junho de 2018

Um duelo em Alegrete em 1846


"No ano de 1846, ao fim do mês de maio ou no princípio do mês de junho ocorreu um duelo no Terceiro Distrito da Vila de Alegrete, entre o alferes Francisco Machado Pacífico e Patrício Pinheiro, resultando na morte deste último. O autor do repto, Patrício Pinheiro, que desafiou seu oponente através do envio de uma carta acompanhada de uma luva, foi o próprio vitimado do embate. Francisco Machado Pacífico, por sua vez, figura no processo como réu por haver assassinado ao seu contendor. Conforme o auto de corpo de delito, o corpo de Patrício Pinheiro, possuía talhos no rosto, um 'pontaço' no meio do peito e estava degolado.

Conforme o depoimento do réu no processo crime, este afirma que quando recebeu a carta de ofensa e a luva, se negou a duelar; porém, indo para a sua casa encontrou Patrício Pinheiro em uma coxilha e este o provocou, ao que Francisco Machado Pacífico viu-se obrigado a reagir e defender-se.

Diz o Alferes do (ilegível) 2 Linha Francisco Machado Pacífico que tendo recebido o cartel junto o [Suplicante] se portou com dignidade e não quis aceitar a luva porem sahindo para sua casa na Costa de Quarahim, encontrou com Patricio Pinheiro, que na coxilha o desafiou, e o [Suplicante] para defender a sua vida pos-se em guarda, e o Supplicando lhe deo um tiro de pistola que felizmente não foi (ilegível) e puxando ambos por armas brancas recebeo o [Suplicante] as feridas no joelho e outra na mão esquerda [...].

Conforme o depoimento da testemunha, Marcos Joze de Souza, Patrício Pinheiro havia lhe contado que o Alferes Francisco havia recusado um negócio com Patrício, que julgava haver sido por proibição da mulher de Francisco, dizia Patrício caçoando do oponente, 'por medo de apanhar da mulher'. Passados alguns dias, Patrício teria enviado uma carta de conteúdo bastante ofensivo a Francisco desafiando-o para baterem-se em duelo. Segundo o relato da testemunha João Batista de Souza, no momento do desentendimento, Francisco Machado, que estava armado com um rebenque, teria afrontado a Patrício Pinheiro que respondeu dizendo 'Patife, voucé me dis isto, he porque eu estou desarmado, eu não sou como voucé, que se dizia governar por mulhe'.

No auto do corpo de delito, os peritos indicam que talvez não fosse apenas um homem que matara Patrício Pinheiro 'por serem [feridas] (ilegível) pelaz Costa e todas mortaes' e por haver vários rastros de cavalos no local. A mesma afirmação é feita por Floriana Maria Pinheiro, esposa de Patrício Pinheiro. Porém, a quinta testemunha, Clementino Joze Pereira, que foi quem enterrou o corpo e avisou o cunhado do falecido, afirmou que a ferida nas costas era da ponta da espada que varou o corpo e que os vários rastros de cavalos eram do seu cavalo e do cunhado de Patrício Pinheiro que foram ao local duas vezes, afirmando, assim, que o Alferes estava sozinho com Patrício Pinheiro.

Basicamente, considerado os aspectos que constituem as regras de um duelo, este só deverá ter lugar quando o sentimento de honra de um indivíduo é ofendido e o insultado pode revidar. Um duelo só pode ocorrer entre pessoas que se reconhecem mutuamente como cavalheiros, ou seja, desafios vindos de sujeitos considerados inferiores social e moralmente sequer deveriam ser levados em conta. Antes do lançamento do desafio podem haver tentativas de reconciliação através de pedidos de desculpa, nos casos mal sucedidos o ofendido desafia o rival, jogando a luva na sua frente e/ou enviando um cartão de desafio, com hora e local marcados. Nos duelos de cavalheiros, carregados de normatizações, a presença de padrinhos - que muitas vezes tentavam conciliar os rivais para evitar o duelo - e médicos era comum, já que a assistência de terceiros também cumpria papel no reconhecimento público de que a honra fora reabilitada. Normalmente as armas utilizadas eram brancas e deveriam ser do mesmo tipo entre os querelantes; caso um deles estivesse em desvantagem, o desafio não devia acontecer. Geralmente, aquele que está vencendo podia escolher entre preservar a vida do adversário ou matá-lo; contudo, o super regramento e a cavalheirização pela qual passa a prática do duelo no Prata leva a que a maior parte dos duelos não acabassem em morte, sendo que esse desfecho nem parecia mais ser a intenção de fato da disputa, mas apenas provar a coragem de aceitar o desafio e lavá-lo até que uma das partes fosse apenas ferida ou até que a parte ultrajada declarasse sentir-se satisfeita e reparada.

Neste processo-crime, podemos perceber elementos que pertencem ao ritual de duelar, os quais acabam por diferenciar este caso das demais ocorrências. Entre eles destaca-se a carta de desafio em que Patrício Pinheiro lança o repto e chama o oponente para o duelo com palavras ofensivas. Outro elemento componente do ritual e presente no processo é a luva que, ao ser jogada no chão perante o adversário, o interpela para a disputa. Nesse caso a luva foi enviada junto com a carta, mas aponta o conhecimento de algum código. A recusa do desafio, em um primeiro momento, por parte de Francisco, também pode indicar certo domínio dos códigos que informam o ritual, considerando que o desafiado pode não ter reconhecido no desafiante um oponente 'a sua altura'. Contudo, outros elementos aproximam essa ocorrência de uma prática não ritualizada por códigos de honra de elite: o teor da carta de desafio, por exemplo, adota uma linguagem extremamente ofensiva, e a morte seguida de, ou através de, degola também constitui um ato revelador da ausência de normatização.

A princípio não se deve recusar um duelo, isso demonstra fragilidade e covardia, a não ser que o desafiado considere que aquele que o desafia lhe é inferior e, portanto, não é digno de duelar. É possível, portanto, considerar que o desafiado tenha recusado o duelo por não reconhecer dignidade e honradez no oponente; mas, de outra parte, Francisco também não se mostra totalmente imbuído dos regramentos rituais quando, ao enfrentar seu oponente, imprime como desfecho da morte a degola do mesmo. Segundo Bouton, 'bien sabemos que degollado un animal, es la mejor manera de que sangre bien'. Dessa maneira, a degola, ou qualquer ferimento produzido na cabeça, é uma ação carregada de significado que remete à submissão e inferiorização proposital do oponente, sendo um expediente reconhecidamente utilizado na cultura bélica platina em vários conflitos, chegando a denominar um deles: a Revolta da Degola, ou Revolução Federalista de 1893. Com isto percebemos que a degola cometida pelo Alferes Francisco corresponde a um elemento presente nessa cultura, que tem por finalidade a humilhação irreversível do rival através da profanação do corpo que levaria a desonra da derrota para o túmulo."

Fonte: FLORES, Mariana Flores da Cunha Thompson & AREND, Jéssica Fernanda. Noções de honra e justiça entre as classes populares da fronteira no Brasil meridional na segunda metade do século XIX - estudo de casos. In: Aedos, Porto Alegre, v.9, n.20, ago. 2017, p. 306-308.
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