domingo, 4 de novembro de 2018

Nossa visita à II Oktoberfest de Pelotas












Tivemos a oportunidade de visitar a segunda edição da Oktoberfest Pelotas, realizado no Centro Internacional de Cultura e Eventos, junto à rodovia BR-116. Estivemos rapidamente no evento na tarde deste sábado, 03 de Novembro. 

Muito importante a iniciativa!

Um caso de escravidão


"Escravidão de pessoas livres. - Diz o Diario de Pelotas:


<<Chegou a esta cidade, procedente de Bagé, conduzindo tres crianças para vender, Fileno Alves da Costa.

<<Estas crianças, segundo informações fidedignas que tivemos, são livres, apezar da matricula que seu intitulado senhor mostra, e de outros documentos que diz possuir, mas que não apresenta.

<<Sendo atroz o crime de reduzir pessoas livres á escravidão, denunciamos Fileno Alves da Costa como incurso nelle e pedimos ás autoridades competentes severas providencias, mesmo porque nos consta já ter Fileno vendido, como escravas, outras crianças que se acham nas mesmas condições destas a que nos referimos.

<<A mãi destas crianças é livre e reside no Arroyo Melo, Estado-Oriental, e podem attestar a verdade de nossas informações os seguintes membros da familia de Fileno, residentes em Taquarembó: Luiz dos Santos Fagundes, Flora Virginia dos Santos, Anna Alves dos Santos, Antonio Alves, Eufrasia Alves da Luz, Rita Alves, tenente-coronel Valeriano Pedro de Menezes, Annibal dos Santos, Gregorio Alissi e Marcos Moralez.

<<O delegado de policia depositou provisoriamente essas crianças em casa de Carlos Thomaz Pinto, até que Fileno prove a propriedade que tem sobre ellas; mas, não sendo isso ainda bastante, esperamos que o sr. dr. promotor publico, na qualidade de orgão da justiça publica e de curador geral dos orphãos, proseguirá na investigação da verdade, requisitando por intermedio das autoridades de Taquarembó o depoimento das testemunhas que acima apontamos, para que bem provado fique que essas crianças e seus irmãos já vendidos são livres, e que Fileno cometteu o negro e horrivel crime de reduzir pessoas livres á escravidão.>>"

Fonte: CORREIO DA BAHIA (BA), 29 de Agosto de 1878, pág. 01, col. 06

sábado, 3 de novembro de 2018

Manuel Beckmann


"Fazendeiro (mais propriamente, senhor de engenho), que se notabilizou como revolucionário em 1684. Nascido em Lisboa, era filho de pai alemão e mãe portuguesa, donde o seu nome. Estabeleceu-se com seu irmão Tomás em São Luís do Maranhão, fazendo-se proprietário do Engenho Mearim. Muito popular e benquisto, tinha o apelido de Bequimão e ele mesmo assim escrevia o seu nome, aportuguesando-o. Contudo, segundo o costume da época, utilizava indígenas para o trabalho forçado em seu engenho, e por isso vivia em desavenças contínuas com os jesuítas, que protegiam os nativos. Por interferência do jesuíta Pe. Antônio Vieira, resolveu Portugal fundar em 1682 a Companhia do Comércio do Maranhão, através da qual pretendia importar escravos negros, que substituiriam os indígenas; além disso, a Companhia recebia o monopólio de inúmeros produtos, controlando-lhes os preços. Os maranhenses irritaram-se com a fundação dessa Companhia (a lei que instituíra automaticamente proibia a escravização dos índios, que lhes interessava mais que a compra de escravos negros; e o controle de preços lhes era igualmente prejudicial); com apoio dos carmelitas e franciscanos, rivais dos jesuítas, puseram-se em pé de guerra: em 24 de fevereiro de 1684, Manuel e Tomás Beckmann à frente de seus homens prenderam o Capitão-Mor Baltasar Fernandes; no dia seguinte apoderaram-se dos armazéns da Companhia de Comércio e organizaram uma Junta Geral, representada por membros do clero, da nobreza e do povo. Logo foram presos e remetidos para Portugal vinte e sete jesuítas e Tomás embarcou para Lisboa, a fim de pedir a aprovação das medidas aqui tomadas.

Em Portugal, contudo, Tomás foi preso e recambiado ao Maranhão na expedição que trazia o novo governador da Capitania, Gomes Freire de Andrade. Manuel Beckmann fugiu, mas, traído por um seu afilhado, Lázaro de Melo, foi preso: em 02 de novembro de 1685 enforcaram-no, bem como a um outro membro da Junta, Jorge Sampaio (Tomás Beckmann foi deportado para Pernambuco). 

Essa revolta é importante porque se constituiu no primeiro movimento de reação aos processos da Metrópole, contribuindo para a formação da nacionalidade brasileira."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Histórias Curiosas LXX

Eleições municipais de 1988 em Pelotas, numa época em que ainda não existia segundo turno, os meios de comunicação como jornais impressos e rádios cobriam com interesse os desdobramentos do pleito. Na ocasião, uma conhecida rádio local tinha vários programas e radialistas que abordavam o assunto, desde semanas antes do dia das eleições, projetando cenários de disputa e debatendo sobre o potencial dos candidatos. Até aí tudo normal. 

O dia das eleições naquela época acontecia no dia 15 de Novembro, feriado que cairia numa terça-feira naquele ano. No domingo anterior a eleição, à noite, um conhecido programa de debates da citada rádio reuniu vários radialistas da empresa que abordavam como assunto principal a eleição municipal. De acordo com as pesquisas anunciadas na televisão, despontavam como favoritos à cadeira do paço municipal o candidato do PDS, Adolfo Fetter Júnior, e o candidato do PMDB, Irajá Andara Rodrigues. Analisando as possibilidades de cada um, o jornalista Humberto Campos (nome fictício) lembra rapidamente à mesa que o terceiro colocado nas pesquisas, Anselmo Rodrigues (PDT) não podia deixar de ser considerado também como um nome com certa força. Cita, entre outras coisas, ter presenciado uma boa aceitação do candidato trabalhista nas vilas mais pobres. Conciliador, o âncora do programa, Rui Souza (nome fictício), elogia a lembrança do colega de profissão e ainda ressalva que realmente o resultado das urnas só será conhecido de fato após a apuração final. Neste momento, Chico Müller (outro nome fictício), claramente identificado com o candidato do PDS, ironiza a fala do colega e inicia-se uma discussão. Outros dois e três que estavam na sala entram no debate e o programa tem que ser interrompido por um preocupado Rui Souza - extremamente zeloso em manter o nível do programa.

Entram os comerciais e na sala de debates da rádio, os comunicadores ainda resmungavam suas divergências, e sem querer o microfone é aberto. Entre um palavreado aleatório, o irritado Chico Müller solta uma expressão bem chula que vai ao ar:

- Se o Anselmo for eleito, eu dou meu c* para o Camarguinho no dia seguinte!

Camarguinho (nome fictício) era um mendigo negro que vivia nos arredores e muito costumeiramente ia à porta da rádio para receber refeições e roupas (aqui e ali, também uma cachacinha), o que os radialistas e funcionários davam sem problema. Não tinha uma personalidade violenta e era infelizmente muito mais um "pobre coitado". Inclusive, em inúmeras ocasiões, davam-lhe banho também e faziam-lhe a barba. Foi nessas ocasiões de asseio pessoal, que muitos da rádio conheceram um aspecto peculiar da anatomia de Camarguinho: um descomunal órgão genital. A história virou brincadeira jocosa entre os funcionários da rádio que gozavam um a outro com expressões como "cuidado com o Camarguinho", "o Camarguinho vai te pegar", "tás esperando para dar banho no Camarguinho", etc.

Após essa explicação, os leitores compreendem que o Chico Müller havia feito um desafio que beirava ao absurdo porque, em sua mente, Anselmo Rodrigues era carta fora do baralho. Ou seja, ou ganharia seu preferido, Fetter Júnior, ou venceria Irajá Rodrigues, o principal rival. 

Mas, voltemos ao fato acontecido no programa. Após a gafe cometida por Müller, um envergonhado Rui Souza faz de conta que nada foi falado e tenta dar um ar sério ao debate. O programa segue até seu final, mas a infeliz fala de Chico Müller fica registrada na memória auditiva de muitos ouvintes em toda a Pelotas.

Chega o dia da eleição, a rádio faz a cobertura do pleito. Vem o momento da apuração que, naquela época, ainda com a votação em cédula de papel, acontecia somente no outro dia, era manual e os boletins parciais eram anunciados bem mais vagarosamente ao longo do dia. As rádios locais geravam a atenção dos ouvintes desde às oito horas da manhã até o fim da tarde e sempre com muita expectativa: "estão chegando as urnas da colônia!", "começaram a apurar as urnas das Três Vendas", "agora são urnas do Fragata e Guabiroba", e assim ia durante todo o dia. Cada parcial era acompanhada com muito interesse: "Fulano de Tal está na frente", "Beltrano está encostando", etc.

No fim da apuração das eleições municipais de Pelotas de 1988, o resultado é peremptório: o terceiro colocado nas pesquisas eleitorais, Anselmo Rodrigues, do PDT, surpreende e vence a eleição. Na rádio anunciam o resultado final e os vereadores eleitos, ainda à noitinha daquele dia. Chico Müller não estava no momento.

No outro dia, a rádio está em sua rotina normal e o Chico Müller inicia seu trabalho diário apresentando um programa a partir das dez horas da manhã em que abordava problemas da comunidade, recebia convidados e informava notícias dos bairros. Não deu outra! O programa começa e os telefones da rádio não param. Vários ouvintes da rádio, eleitores de Anselmo Rodrigues, entram no ar e soltam a pérola para o inconformado Chico:

- E o Camarguinho, Chico!? E o Camarguinho? O Camarguinho te mandou um abraço, hein, Chico! - entre outras provocações.

Foi o último programa de Chico Müller na rádio durante um bom tempo (parece que voltaria cerca de um ano depois a ter um programa no ar). A diretoria da rádio resolveu prudentemente transferir Chico Müller para a redação. Para não gerar mais problema. A aposta? Obviamente não foi paga, mas foi motivo de muita gozação nos corredores da rádio durante um bom tempo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Manuel Dias de Abreu


"Médico e cientista brasileiro (1894-1962). Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1914; dois anos depois viajou para a Europa; foi diretor do Laboratório Central de Radiologia da Santa Casa de Paris. Regressando ao Brasil em 1922, passou a dirigir o Departamento de Raios X da Inspetoria de Profilaxia de Tuberculose, no Rio de Janeiro, onde aprofundou estudos de fotografia dos pulmões. Esses estudos culminariam na criação do processo de microrradiografia que leva seu nome: abreugrafia, reconhecida pela Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro em 1936 e hoje adotada em todo o mundo."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A primeira colônia alemã no Brasil


"A partir de 1818, com a fundação da colônia Leopoldina no extremo sul da Bahia, uma história distinta e particular começava a ser contada neste estado: os primeiros contingentes de alemães eram estabelecidos em território brasileiro, caracterizando os esforços ainda tímidos do então governo real para atrair imigrantes europeus para o país. A literatura disponível sobre o tem dá conta de que o empreendimento de atrair imigrantes alemães (também suíços e outras etnias europeias) para o estado da Bahia, além de refletir os primeiros resultados da abertura dos portos promovida por D. João VI no início do século XIX, tornou-se viável também a partir do matrimônio do príncipe D. Pedro I com a arquiduquesa austríaca D. Leopoldina. A então futura imperatriz do Brasil emprestou seu prestígio aos principais entusiastas da ideia, alemães que já haviam estado no Brasil desde antes de sua chegada.

No entanto os assentamentos aqui referidos, na análise de autores como Roche (1969), Fouquet (1964), Schneider (1974), Seyferth (1999; 2002), não caracterizariam genuína colonização alemã, uma vez que ocorreram em sesmarias concedidas a empresários alemães, suíços e brasileiros. Não tinham o caráter de povoamento nos moldes verificados no Sul brasileiro e neles contava-se majoritariamente com mão-de-obra escrava para sua manutenção e desenvolvimento, sustentando as unidades produtivas que se organizaram neste modelo colonial. Estas iniciativas malograram em sua quase totalidade, as condições precárias em que se deram os assentamentos, condenaram os empreendimentos e, consequentemente, muitos dos imigrantes que deles fizeram parte. As iniciativas, vale recordar, malograram, não sendo possível verificar mais que traços destes empreendimentos no interior do estado da Bahia.

A primeira colônia, Leopoldina, assim denominada em homenagem à futura Imperatriz, foi estabelecida às margens do rio Peruípe, no extremo sul da Bahia; seus fundadores foram, segundo registros de Frederico Edelweiss, publicado em 1970, o cônsul de Hamburgo na Bahia, Pedro Peycke, os naturalistas Freyreiss e Morhardt, de Frankfurt-am-Main e os suíços Abraão Langhans e David Pasche. Os números divulgados por Tölsner, em 1858, informam que a atividade agrícola principal era cultura do café com uma produção estimada em 100.000 arrobas/ano, maior parte da qual exportada, lembrando que esta funcionou em um modelo de empresa, dividida em fazendas e contando com mão-de-obra escrava. Além disto, a preocupação em povoá-la com imigrantes pareceu ser algo secundário tendo em vista as precárias condições oferecidas por ocasião do assentamento dos imigrantes e de sobrevivência após a formação do núcleo. Os dados disponíveis pouco informam sobre os primeiros anos desta colônia, o que parece justificar a relativa pouca atenção de pesquisadores da imigração alemã no Brasil no que diz respeito a estas iniciativas. De todo modo, não está claro, apesar do evidente malogro, o período de existência desta colônia.

No mesmo ano de 1818, outra colônia foi implantada por Weyll e Saueracker, à margem esquerda do rio Cachoeira, entre Ilhéus e Itabuna, contando com 28 famílias (totalizando 161 indivíduos). Aparentemente sofrendo de males semelhantes àqueles verificados na colônia Leopoldina, a denominada São Jorge dos Ilhéus, teve seu destino selado por uma série de contratempos: ausência, de estrutura adequada para a instalação dos colonos, epidemias, fome e a incapacidade dos empresários e do governo provincial de auxiliar devidamente na solução dos problemas, resultaram em óbitos da maioria dos indivíduos e dispersão. A visita do príncipe Maximiliano da Áustria, em 1860, nos dá uma ideia aproximada do que se tornara esta colônia e seus colonos, cujos '[...] meninos magros, de cara pálida e descolorida, olhos azuis de miosótis, cabelo amarelo-pálido, arrepiados' e, ao tentar se comunicar com eles, Maximiliano não conseguiu evitar o 'sentimento de indignação' ao percebê-los 'totalmente brasileiros', já que não falavam a língua dos pais, motivo ao qual atribuiu a melancolia destes últimos e a 'secreta dor' que todos os imigrantes alemães pareciam carregar. E, foi mais além, ao concluir, à época, que '[...] não é de se admirar que nunca adquiram uma posição independente, em vez de dominarem, encontram-se numa espécie de coisa intermediária, entre escravos e homens livres'.

Não muito distante da colônia Leopoldina, estabeleceu-se por volta de 1822 a colônia Frankenthal, em terras de Georg Anton von Schäffer, que as adquirira com a intenção de fixar-se como colonizador. A administração ficou a cargo de um amigo, Philippe Henning, alemão de Wertheim. Apenas 20 indivíduos viviam nesta colônia em 1824. Após o afastamento de Schäffer da corte, em 1828, o oficial francônio teria ido viver seus últimos dias em Frankenthal.

Em 1859, em razão da criação da Imperial Companhia Metalúrgica do Ouro, destinada a explorar a mina de Açuruá - entre os rios Verde e São Francisco - foram trazidas 50 famílias, segundo Overbeck (1923), em um total aproximado de 150 indivíduos. Para chegar ao seu destino, segundo, Fouquet (1974), percorreram grande parte da distância (cerca de 500 km) desde São Félix, caminhando. A seca e as altercações ocorridas entre os imigrantes e a direção da companhia contribuíram para o rápido insucesso de mais esta iniciativa. Eram estes alemães provenientes de Klausthal e Zellerfeld, norte da atual Alemanha e não permaneceram por mais de dois anos na localidade onde se deu esta tentativa de assentamento; ali passou a existir, posteriormente, a vila que recebeu o nome de Gentio do Ouro, hoje município baiano."

Fonte: RABELLO, Evandro Henrique. Deutschtum na Bahia: a trajetória dos imigrantes alemães em Salvador. Salvador/BA: Dissertação de Mestrado em Antropologia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, 2009, pág. 47-49.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A Falange Gaúcha - a primeira facção criminosa do Rio Grande do Sul


"No mês de julho de 1987, oito apenados, mantendo 31 reféns, se amotinaram no Presídio Central de Porto Alegre. Após horas de negociações com a polícia, todos fugiram do estabelecimento em automóveis que haviam sido cedidos pelas autoridades em troca da libertação de reféns. O 'dia de terror no presídio' (ZERO HORA, 29/07/1987, p.1), como a época foi noticiado, deixou duas pessoas mortas e inúmeras outras feridas. Já no início de janeiro de 1988, vinte presos da Penitenciária Estadual do Jacuí (PEJ), no município de Charqueadas/RS, iniciaram uma rebelião, da qual três agentes penitenciários e um apenado terminaram mortos. No dia seguinte, 620 presos deflagraram greve de fome no PCPA. Esses acontecimentos se inscreveram em um cenário mais amplo, de organização de um novo grupo criminal nos presídios rio-grandenses: a Falange Gaúcha, que emergia na esteira do Comando Vermelho, composta por apenados envolvidos com a Falange Vermelha Rogério Lemgruber, criada ainda na década de 1970 no Estado do Rio de Janeiro.

O aparecimento da Falange Gaúcha (ou Falange) se deu após um pacto firmado por apenados envolvidos no motim de 1987 (e por alguns outros apenados, que os apoiaram ou lhes eram próximos), e tinha como objetivo financiar dois projetos: o investimento em fugas vindouras, e a criação de um 'caixa' comum, que seria usado para financiar eventuais ações criminosas e melhorar as condições de vida dos aliados presos (especialmente pela compra de vantagens no PCPA). A vivência nos presídios se encontrava, naquela ocasião, instável: em março de 1991, uma disputa entre grupos menores no Central provocou a morte de seis apenados e ferimentos em 22. Em outubro, na Penitenciária Estadual de Charqueadas (PEC), uma briga entre grupos diferentes resultou na morte de três deles. Já, em dezembro, foi assassinado um dos braços direitos de Dilonei Melara - que, no início dos anos 1990, já era importante integrante da Falange, e que viria a ocupar posição central no 'mundo do crime' da cidade ao longo da década seguinte.

Entre 1992, 1993 e 1994, os motins, assassinatos por enforcamento e asfixia e as violências entre apenados - para além das promovidas por funcionários da segurança - seguiram ocorrendo. Ainda, em julho de 1994, seis presos-pacientes armados renderam 27 funcionários do Hospital Penitenciário, demandando a transferência de dois apenados da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (PASC) para o local do motim, incluindo-se, neles, Dilonei Melara. Após o acato das autoridades diante do pedido, também exigiram carros para fuga, que lhes foram concedidos. Trinta horas depois, o episódio terminou com a rendição de Melara (que já se estabilizava como um dos grandes líderes dos presídios rio-grandenses), com cinco pessoas mortas (quatro fugitivos e um policial civil) e com onze feridas, além de ter intensificado a preocupação coletiva diante da situação da segurança no Rio Grande do Sul, especialmente quanto às prisões. Menos de dois meses após o ocorrido, 45 detentos escaparam do Central. A fuga, em que pese ter sido a maior da história do sistema penitenciário gaúcho, não foi novidade: entre o ano de 1994 e o mês de julho de 1995, aconteceram sete grandes episódios de motins e de escapadas no PCPA.

Foi, enfim, no dia 25 de julho de 1995 - após um motim com 21 presos feridos e a insatisfação generalizada da população - que o governador à época, Antônio Britto, anunciou à imprensa que tomaria medidas dramáticas para acabar com os problemas dos estabelecimentos prisionais, especialmente do PCPA, que se encontrava em estado crítico. A estratégia do governador, que assumira em janeiro daquele mesmo ano, era construir novas prisões, transferir os apenados do Casarão para elas e, então, desativá-lo definitivamente. Entretanto, até que essas vagas estivessem disponíveis - o que tinha  como previsão de, no máximo, seis meses - a Brigada Militar coordenaria e ordenaria os quatro maiores presídios do Estado. Após o início ainda conturbado de administração do Central pela Brigada Militar, as coisas passaram a 'fazer efeito', e os índices de homicídios, violências físicas, motins e rebeliões começaram a despencar. A fim de alcançar as finalidades previstas, os policiais lançaram mão de mudanças na administração da população carcerária: dentre elas, espacializar os apenados de acordo com suas afinidades, separando 'contras' (inimigos) em galerias diferentes, e aproximando aliados entre si.

De outra banda, a frágil articulação que constituiu a Falange ao final dos anos 80 vinha se estabilizando progressivamente, e na década de 90 ela também passaria por um rearranjo. A nova fase do grupo foi marcada pela crescente centralização de seus integrantes em torno de duas figuras: Dilonei Melara - um dos únicos líderes ainda vivos da composição originária - e Jorginho da Cruz, que era braço direito de outro antigo líder da Falange (um traficante carioca que, antes de ser morto, havia contribuído com a associação entre o tráfico e as quadrilhas de assaltantes porto-alegrenses), e que dele herdou o comando do mercado de drogas do Morro da Cruz. A influência de Melara já havia sido exposta após o motim de 1994 no Central, que se descobriu ter sido arquitetado por ele enquanto estava preso na PASC - a 60 km de distância, e em uma época na qual os telefones celulares não chegavam aos presos. Esta ficou exposta, também, em novembro de 1995, quando 106 dos 206 presos da PEC rebelaram-se como rechaço à proibição, determinada por policiais, de que Melara recebesse visitas na PASC.

O antagonismo sobre o controle da Falange - possibilitado pelo esvaziamento das lideranças 'originais', já falecidas, e pela polarização de apenados entre os apoiadores de Melara e de Jorginho da Cruz que o seguiu - chegou ao fim em 1996, quando o líder do tráfico no Morro da Cruz foi assassinado em uma cela da PEJ. Por conseguinte, a parte da Falange que não 'fechou' (se aliou) com Jorginho despontou no domínio do 'mundo do crime' local: orientados por Melara - que trazia consigo as experiências e o reconhecimento advindos da participação de destaque na Falange -, os membros desse novo grupo passaram a se chamar de 'Manos'. Paralelamente, e procurando distribuir os 'contras' (inimigos) por espaços diferentes, a BM também agregava presos simpáticos aos Manos nas mesmas galerias, possibilitando que eles se articulassem ou se apoiassem nos presídios e, ao mesmo tempo, que se mantivessem vinculados às redes do mercado do tráfico de ilícitos da cidade.

Após a morte de Jorginho da Cruz, um novo grupo começou a se delinear no PCPA, ameaçando desestabilizar o recente monopólio dos Manos. Eram os 'Brasas', que apareceram, em meados de 1997, após acordo proposto pela BM a um apenado com quem 'simpatizava' - Valmir Pires, também conhecido como 'Brasa'. A proposta fora de que Brasa ocupasse um dos pavilhões do PCPA, podendo preenchê-lo com apenados de sua confiança. O lugar deveria permanecer limpo e organizado, e o grupo deveria se comprometer com não fazer motins e rebeliões (que haviam sido tradicionalmente condicionados pela precariedade do Central), e com não organizar tentativas de fuga (frequentes durante os últimos anos de gestão do PCPA pela SUSEPE). Em troca, teriam certa autonomia na gestão do pavilhão que, caso permanecesse em ordem e em paz, não seria duramente monitorado."

Fonte: CIPRIANI, Marcelli. Da "Falange Gaúcha" aos "Bala nos Bala": a emergência das "facções criminais" em Porto Alegre/RS e sua manifestação atual. In: Direito & Democracia, Canoas/RS, v.17, n.01, jan./jun. 2016, pág. 108-110


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