quarta-feira, 13 de junho de 2018

Primeira obra em português de Khalil Gibran foi editada em Pelotas


Para saber mais sobre Khalil Gibran: Vide artigo na Wikipedia

"LAGRIMAS E SORRISOS

A primeira obra da literatura syrio-libaneza vertida para o portuguez.

A literatura syrio-libanesa é quasi desconhecida no Brasil, por isso, que ninguem até aqui se animou ao trabalho de verter para o vernaculo nenhuma das innumeras obras que a enriquecem. Graças, porém, a iniciativa do sr. José Mereb, um syrio que reside no Brasail ha 26 annos e que não obstante em haver naturalizado brazileiro conserva um grande amor pelas cousas de sua patria de origem, essa lacuna está hoje em parte preenchida, com a edição de um primoroso livro - 'Lagrimas e sorrisos' - do poeta Gibran Kalil Gibran, um dos mais eminentes vultos da literatura libaneza. Recebemos um exemplar deste trabalho, editado na typographia Guarany, de Pelotas, Rio Grande do Sul. Com 'Lagrimas e sorrisos', livro escripto aos vinte annos, Gibran Kalil obteve o primeiro triumpho de sua carreira literaria que, com os annos, e com o apparecimento de outras obras suas acabou por consagral-o como uma das maiores cerebrações do mundo arabe actual.

Encarregando-se da traducção desse interessante livro, o Sr. José Mereb não teve a preocupacção de buscar fama; elle se inspirou, sómente, no patriotico desejo de mostrar aos brasileiros que a literatura de sua terra natal, embora seja, como dissemos, quasi desconhecida de nós, tem a enriquecel-a obras de inestimavel valor. Aos nossos patricios recommendamos a leitura de 'Lagrimas e Sorrisos' e aos membros da laboriosa colonia syria desta capital concitamos a cooperar efficazmente, no louvavel esforço do sr. José Mereb."

Fonte: A GAZETA (SP), 08 de Maio de 1920, pág. 01, col. 03

terça-feira, 12 de junho de 2018

A rivalidade entre Buenos Aires e Montevidéu


"O processo de independência no Rio da Prata foi complexo envolvendo várias facções regionais assim como agentes políticos internacionais. Enquanto Buenos Aires rompia com o domínio espanhol no início da década de 1810, Montevidéu permaneceu como um bastião lealista no Rio da Prata até 1814. Durante esse período, as elites de Montevidéu mantiveram a centralidade dos pueblos como fonte de soberania na área, o cabildo de Montevidéu exerceu influência sobre o território de toda a província, ao mesmo tempo que a exploravam as diversas brechas legais das políticas comerciais para aumentar o intercâmbio comercial com potências estrangeiras, especificamente com a comunidade comercial do Rio de Janeiro. A diferença nas maneiras como as elites políticas e econômicas de Buenos Aires e Montevidéu reagiram à crise monárquica em Espanha constituíram o ápice de disputas que já se desenrolavam desde as últimas décadas do período colonial.

A expulsão dos portugueses da Colônia do Sacramento, em 1777, provocou profundas mudanças econômicas, políticas e sociais no estuário do Rio da Prata. No final da década de 1770, quando Buenos Aires tornou-se a capital do recém-fundado Vice-Reinado do Rio da Prata, Montevidéu tornou-se o principal porto atlântico no estuário do Rio da Prata. Montevidéu foi beneficiada pelas Reformas Bourbônicas tornando-se o porto de escala obrigatório para todos os navios que entram no Rio da Prata a partir do Oceano Atlântico, o único porto autorizado para o desembarque de escravos, e a base da frota naval espanhola Sul (e teve as Malvinas assim como os assentamentos patagônicos sob sua jurisdição). Além disso, Montevidéu foi sede da recém-criada Comandancia del Resguardo (órgão encarregado de reprimir o comércio ilegal, tanto marítimo como terrestre). Esta nova arquitetura imperial na região permitiu o surgimento de novos grupos comerciais e políticos baseados em Montevidéu, bem como exigiu que comerciantes de Buenos Aires passassem a manter procuradores e apoderados em Montevidéu, a fim de encaminhar as operações e agências comerciais através de autoridades Montevideanas.

O status imperial recém-adquirido não foi a única variável que contribuiu para o crescente papel comercial de Montevidèu no final do século XVIII. Após a queda da Colônia do Sacramento, Montevidéu tornou-se o centro das relações comerciais com os comerciantes portugueses e britânicos. Uma vez que as tropas espanholas conquistaram Sacramento em 1777, ricos e bem conectados comerciantes luso-platinos mudaram-se para Montevidéu, onde eles criaram alianças com a emergente elite Montevideana. Estes indivíduos ocuparam papéis estratégicos ao reconectar o comércio do Rio da Prata com a América Portuguesa. Entre 1778 e 1806, mais de 500 embarcações navegaram entre a América Portuguesa e Montevidéu, muitas vezes utilizando-se de diferentes pretextos legais para introduzir bens manufacturados europeus, açúcar, tabaco, e escravos em territórios espanhóis. Por volta de 1800, Montevidéu era o principal porto da região no que diz respeito ao comércio transatlântico, e as elites de Montevidéu contavam com redes de comércio de longa data com comerciantes luso-brasileiros.

As tensões entre as comunidades mercantis de Buenos Aires e Montevidéu emergiram durante a década de 1790 sob a forma de uma série de casos legais. Os comerciantes porteños questionaram legalmente o status de Montevidéu como porto de escala obrigatório para todos os navios atlânticos que entram no estuário, e questionaram também a jurisdição das autoridades Montevideanas sobre a repressão do contrabando marítimo. Apesar da dependência das elites comerciais de Montevidéu dos mercados e do capital de Buenos Aires, os comerciantes de Montevidéu não só defenderam o status legal do porto da Banda Oriental, mas também peticionaram à Coroa seu próprio Consulado de Comércio como uma tentativa de aumentar sua autonomia em relação às elites mercantis de Buenos Aires. A divergência de interesses entre as comunidades de Montevidéu e de Buenos Aires ficou ainda mais explícita depois das invasões britânicas de 1806-1807. Após a expulsão das forças invasoras de Buenos Aires, os comerciantes britânicos puderam permanecer em Montevidéu por sete meses. Durante este período, os comerciantes de Montevidéu lucraram com a aquisição de bens britânicos a preço de pechincha. Essa manobra provocou revolta entre os círculos mercantis de Buenos Aires. Além disso, depois das invasões britânicas, Santiago de Liniers, vice-rei provisório do Vice-Reino do Prata, apoiado pelas elites e forças militares de Buenos Aires, tentou despojar Montevidéu de sua condição de base da frota do sul, bem como da jurisdição da cidade sobre as Ilhas Malvinas e sobre os assentamentos patagônicos. Em 1808, as elites de Buenos Aires e de Montevidéu estavam em desacordo entre si em matérias políticas, legais e comerciais.

A crise política desencadeada pela invasão de Napoleão à Península Ibérica colocou as duas principais cidades portuárias do Rio da Prata em uma encruzilhada. Como resultado, o Cabildo Abierto de Montevidéu criou sua própria Junta que jurou lealdade à Junta Suprema de Sevilha, não reconhecendo a liderança de Buenos Aires. Tal dissensão foi reforçada em maio de 1810, quando os cabildantes de Montevidéu recusaram-se a seguir a radicalização da Junta de Buenos Aires e deposição do vice-rei Cisneros (1809-1810), o último vice-rei de Buenos Aires. A partir desse momento, Montevidéu tornou-se o centro do lealismo espanhol no Rio da Prata. As elites de Montevidéu proclamaram Montevidéu como a nova capital do vice-reinado, e, o então governador da cidade, Francisco Javier de Elío, como novo vice-rei do Rio da Prata. As elites de Montevidéu mantiveram as instituições administrativas do antigo regime, o projeto monárquico, e o princípio de soberania particular de los pueblos, com os cabildos como fonte de poder local. Este projeto, no entanto, não foi unânime, e no interior da Banda Oriental, projetos políticos rivais, republicanos, contaram com a adesão de um grande segmento da população rural.

Entre 1810 e 1814, Montevidéu manteve-se fiel à monarquia espanhola e manteve relações comerciais ativas com a América Portuguesa, com os Estados Unidos e com a Grã-Bretanha. O bastião lealista de Montevidéu caiu frente os ataques de forças revolucionárias de Buenos Aires (1814), posteriormente a cidade passou ao controle das forças da confederação de Artigas (1815), e por fim as forças do Império Luso-Brasileiro ocuparam Montevidéu e a Banda Oriental (1816). O controle luso-brasileiro sobre Montevidéu e a Banda Oriental, sob a hábil liderança de Carlos Lecor, o Barão de Laguna, perdurou até a independência brasileira, em 1822. A independência formal do Brasil provocou uma divisão entre tropas leais ao rei lusitano e tropas portuguesas em favor do imperador brasileiro. Após a independência do Brasil, tropas leais à monarquia portuguesa ocuparam Montevidéu, deslocando as tropas brasileiras sob o comando de Lecor para o interior da Banda Oriental. O conflito entre estas duas facções durou até 1824 e foi um dos mais longos e violentos movimentos de resistência à independência brasileira. No rescaldo da 'guerra civil' luso-brasileira, um grupo de caudilhos, os chamados 33 Orientais (1825), invadiu a Banda Oriental para acabar com o governo luso-brasileiro na região. Este foi o estopim da guerra entre o Brasil e as Províncias Unidas e, finalmente, culminou na independência do Uruguai em 1828. Durante a ocupação luso-brasileira (1817-1822), houve um aumento significativo do comércio com portugueses, britânicos e norte-americanos. Essas relações comerciais tiveram sua origem nas últimas décadas do período colonial."

Fonte: PRADO, Fabrício. Conexões Atlânticas: redes comerciais entre o Rio da Prata e os Estados Unidos (1790-1822). In: Anos 90, Porto Alegre, v. 24, n.45, jul. 2017, p. 136-139

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Canteiro Cultural do IHGCL - Colóquio de Junho


No próximo sábado, 16 de junho, estaremos conduzindo a oitava edição do Colóquio do Canteiro Cultural do Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão, na sede do instituto, à Avenida Narciso Silva número 2131, centro do município. O evento começa a partir das 15 horas e a entrada é franca. Na ocasião, abordarei o tema "Imigração e Urbanização em Capão do Leão". Participe! Prestigie!

Pero Coelho de Sousa


"Colonizador português de fins do século XVI e começos do século XVII. Residente na Paraíba, em 1603 chefiou uma expedição destinada a conquistar aos pitiguaras (ou Potiguaras) as terras que hoje compõem o Estado do Ceará. Autorizado pelo Governador-Geral Diogo Botelho, partiu da Paraíba rumo a terras maranhenses, seguindo ao longo do litoral: ao tempo que uma coluna seguia por terra, três naus velejavam por mar. Deu combate aos indígenas e a franceses traficantes de pau-brasil, e à altura do Rio Punaré (hoje Parnaíba), levantou, na Barra do Ceará, um arraial a que deu o nome de Nova Lisboa, primeiro núcleo de colonização daquelas terras. Numa segunda viagem que fez a esse local (1606), encontrou Nova Lisboa completamente desmantelada; quis, então, mudar-se para mais perto da Capitania do Rio Grande e estabeleceu-se no Vale do Jaguaribe. Contudo, vítima da primeira grande seca de que se tem notícia empreendeu a retirada, com a mulher, cinco filhos menores e seus homens, doentes e estropiados. Seguiu pelos desertos da costa nordestina, rumo ao Forte dos Reis Magos, no Rio Grande do Norte, iniciando, com sua odisseia, o drama dos retirantes nordestinos, que se prolongaria até os nossos dias."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

domingo, 10 de junho de 2018

A toureira Julia Rachel



Obs.: Reconstituição com base em reportagens dos jornais Diario do Rio de Janeiro, O Lábaro, Correio Paulistano e Correio Mercantil de 1875, no período de março a agosto.


Julia Rachel da Figueira foi uma jovem moça proveniente de Jaguarão que alcançou fama em 1875 em vários lugares do Rio Grande do Sul e teve esse sucesso repercutido em jornais de vários pontos do País, a ponto de receber um elogio do escritor e cronista fluminense João Curvello.

A moça começou a ser reconhecida em sua cidade de origem pela exímia capacidade como toureira, apresentando-se para plateias que ficavam admiradas com sua coragem e também pelo fato insólito para a época de ser uma mulher. Até gente do outro lado da fronteira vinha assistir as toreadas de Julia Rachel. Não obstante, seja por sua competência ou pela curiosidade de uma sociedade predominante machista, os feitos da moça a levaram a se apresentar para outros públicos, em várias cidades da Campanha Gaúcha.

Sem nunca ter saído derrotada de uma arena, seu grande momento se deu quando foi convidada para se apresentar nas duas cidades mais importantes do interior da província naquele momento, respectivamente Pelotas e Rio Grande. Em Rio Grande, Julia Rachel foi plenamente aclamada, além de ter recebido diversas homenagens da população. Em Pelotas, houve a coroação de sua carreira. Numa plateia formada por membros diversos da sociedade local, importantes negociantes e políticos da capital do Império, além de estrangeiros (conta-se que até membros da companhia dramática ligada à Ópera de Paris), Julia Rachel pois a termo final, numa batalha contra um touro pampeano, o animal na arena em que outrora se praticava este esporte sangrento. Além de vivas e gritos de aclamação, a moça recebeu uma medalha simbólica de campino feminino (isto é, campeão feminino, campeã) pelas autoridades locais.

Posteriormente, a moça ainda se apresentaria em Porto Alegre e, segundo consta, até em Santa Catarina. Terminou por voltar a Jaguarão para o casamento com um rapaz daquela cidade, o que, de acordo com o costume da época, foi o final de sua carreira como toureira. 

No Rio de Janeiro, os jornais até alcunharam uma expressão diante do ineditismo e da intrepidez da toureira rio-grandense: em política, os homens devem ser como Julia Rachel e não se acobardar ante as muitas e pesadas difficuldades, tal qual a moça não teme as marradas e investidas do touro.

Vale a lembrança pela atitude de vanguarda da moça, embora, simplesmente, após seu casamento, provavelmente confinada agora à vida doméstica, tudo o mais que se poderia saber dela, desapareceu.








sábado, 9 de junho de 2018

Um duelo em Alegrete em 1846


"No ano de 1846, ao fim do mês de maio ou no princípio do mês de junho ocorreu um duelo no Terceiro Distrito da Vila de Alegrete, entre o alferes Francisco Machado Pacífico e Patrício Pinheiro, resultando na morte deste último. O autor do repto, Patrício Pinheiro, que desafiou seu oponente através do envio de uma carta acompanhada de uma luva, foi o próprio vitimado do embate. Francisco Machado Pacífico, por sua vez, figura no processo como réu por haver assassinado ao seu contendor. Conforme o auto de corpo de delito, o corpo de Patrício Pinheiro, possuía talhos no rosto, um 'pontaço' no meio do peito e estava degolado.

Conforme o depoimento do réu no processo crime, este afirma que quando recebeu a carta de ofensa e a luva, se negou a duelar; porém, indo para a sua casa encontrou Patrício Pinheiro em uma coxilha e este o provocou, ao que Francisco Machado Pacífico viu-se obrigado a reagir e defender-se.

Diz o Alferes do (ilegível) 2 Linha Francisco Machado Pacífico que tendo recebido o cartel junto o [Suplicante] se portou com dignidade e não quis aceitar a luva porem sahindo para sua casa na Costa de Quarahim, encontrou com Patricio Pinheiro, que na coxilha o desafiou, e o [Suplicante] para defender a sua vida pos-se em guarda, e o Supplicando lhe deo um tiro de pistola que felizmente não foi (ilegível) e puxando ambos por armas brancas recebeo o [Suplicante] as feridas no joelho e outra na mão esquerda [...].

Conforme o depoimento da testemunha, Marcos Joze de Souza, Patrício Pinheiro havia lhe contado que o Alferes Francisco havia recusado um negócio com Patrício, que julgava haver sido por proibição da mulher de Francisco, dizia Patrício caçoando do oponente, 'por medo de apanhar da mulher'. Passados alguns dias, Patrício teria enviado uma carta de conteúdo bastante ofensivo a Francisco desafiando-o para baterem-se em duelo. Segundo o relato da testemunha João Batista de Souza, no momento do desentendimento, Francisco Machado, que estava armado com um rebenque, teria afrontado a Patrício Pinheiro que respondeu dizendo 'Patife, voucé me dis isto, he porque eu estou desarmado, eu não sou como voucé, que se dizia governar por mulhe'.

No auto do corpo de delito, os peritos indicam que talvez não fosse apenas um homem que matara Patrício Pinheiro 'por serem [feridas] (ilegível) pelaz Costa e todas mortaes' e por haver vários rastros de cavalos no local. A mesma afirmação é feita por Floriana Maria Pinheiro, esposa de Patrício Pinheiro. Porém, a quinta testemunha, Clementino Joze Pereira, que foi quem enterrou o corpo e avisou o cunhado do falecido, afirmou que a ferida nas costas era da ponta da espada que varou o corpo e que os vários rastros de cavalos eram do seu cavalo e do cunhado de Patrício Pinheiro que foram ao local duas vezes, afirmando, assim, que o Alferes estava sozinho com Patrício Pinheiro.

Basicamente, considerado os aspectos que constituem as regras de um duelo, este só deverá ter lugar quando o sentimento de honra de um indivíduo é ofendido e o insultado pode revidar. Um duelo só pode ocorrer entre pessoas que se reconhecem mutuamente como cavalheiros, ou seja, desafios vindos de sujeitos considerados inferiores social e moralmente sequer deveriam ser levados em conta. Antes do lançamento do desafio podem haver tentativas de reconciliação através de pedidos de desculpa, nos casos mal sucedidos o ofendido desafia o rival, jogando a luva na sua frente e/ou enviando um cartão de desafio, com hora e local marcados. Nos duelos de cavalheiros, carregados de normatizações, a presença de padrinhos - que muitas vezes tentavam conciliar os rivais para evitar o duelo - e médicos era comum, já que a assistência de terceiros também cumpria papel no reconhecimento público de que a honra fora reabilitada. Normalmente as armas utilizadas eram brancas e deveriam ser do mesmo tipo entre os querelantes; caso um deles estivesse em desvantagem, o desafio não devia acontecer. Geralmente, aquele que está vencendo podia escolher entre preservar a vida do adversário ou matá-lo; contudo, o super regramento e a cavalheirização pela qual passa a prática do duelo no Prata leva a que a maior parte dos duelos não acabassem em morte, sendo que esse desfecho nem parecia mais ser a intenção de fato da disputa, mas apenas provar a coragem de aceitar o desafio e lavá-lo até que uma das partes fosse apenas ferida ou até que a parte ultrajada declarasse sentir-se satisfeita e reparada.

Neste processo-crime, podemos perceber elementos que pertencem ao ritual de duelar, os quais acabam por diferenciar este caso das demais ocorrências. Entre eles destaca-se a carta de desafio em que Patrício Pinheiro lança o repto e chama o oponente para o duelo com palavras ofensivas. Outro elemento componente do ritual e presente no processo é a luva que, ao ser jogada no chão perante o adversário, o interpela para a disputa. Nesse caso a luva foi enviada junto com a carta, mas aponta o conhecimento de algum código. A recusa do desafio, em um primeiro momento, por parte de Francisco, também pode indicar certo domínio dos códigos que informam o ritual, considerando que o desafiado pode não ter reconhecido no desafiante um oponente 'a sua altura'. Contudo, outros elementos aproximam essa ocorrência de uma prática não ritualizada por códigos de honra de elite: o teor da carta de desafio, por exemplo, adota uma linguagem extremamente ofensiva, e a morte seguida de, ou através de, degola também constitui um ato revelador da ausência de normatização.

A princípio não se deve recusar um duelo, isso demonstra fragilidade e covardia, a não ser que o desafiado considere que aquele que o desafia lhe é inferior e, portanto, não é digno de duelar. É possível, portanto, considerar que o desafiado tenha recusado o duelo por não reconhecer dignidade e honradez no oponente; mas, de outra parte, Francisco também não se mostra totalmente imbuído dos regramentos rituais quando, ao enfrentar seu oponente, imprime como desfecho da morte a degola do mesmo. Segundo Bouton, 'bien sabemos que degollado un animal, es la mejor manera de que sangre bien'. Dessa maneira, a degola, ou qualquer ferimento produzido na cabeça, é uma ação carregada de significado que remete à submissão e inferiorização proposital do oponente, sendo um expediente reconhecidamente utilizado na cultura bélica platina em vários conflitos, chegando a denominar um deles: a Revolta da Degola, ou Revolução Federalista de 1893. Com isto percebemos que a degola cometida pelo Alferes Francisco corresponde a um elemento presente nessa cultura, que tem por finalidade a humilhação irreversível do rival através da profanação do corpo que levaria a desonra da derrota para o túmulo."

Fonte: FLORES, Mariana Flores da Cunha Thompson & AREND, Jéssica Fernanda. Noções de honra e justiça entre as classes populares da fronteira no Brasil meridional na segunda metade do século XIX - estudo de casos. In: Aedos, Porto Alegre, v.9, n.20, ago. 2017, p. 306-308.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Pelotas em 1887


"A CIDADE DE PELOTAS

A crescente prosperidade das provincias de S. Paulo e Rio Grande do Sul deve attrahir a attenção dos mineiros, estimulando-lhes o patriotismo em bem de nossa provincia, que continua em grande parte ou em triste decadencia, ou estacionaria.

Não fallamos já das cidades de S. Paulo e Porto Alegre - capitaes -; basta mencionar diversas outras, que excedem  muitas vezes ao que se poderá encontrar na melhor cidade de Minas.

Nessas condições estão Campinas, Santos, Pelotas, Rio Grande e ainda outras cidades das referidas provincias.

Eis, em resumo, o que é a cidade de Pelotas, conforme uma exacta noticia que lemos no Monitor Sul-Mineiro, no interessante itinerario - DO SUL DE MINAS AO SUL DO IMPERIO:

- Pelotas possue 1,109 casas de negocio que pagão de imposto annual 45:693$000; e fóra do dominium urbis,  mas nas proximidades da cidade, existem muitas casas commerciaes e 25 estabelecimentos de charqueadas, em que se prepara a carne secca, sendo todas movidas a vapor e empregando-se nellas mais de 1,500 operarios.

Os mais importantes desses estabelecimentos são os dos Srs. Junius Brutus Cassio de Almeida e Barão de Santa Tecla, ao primeiro dos quaes visitei e assisti a todo trabalho, penhorando-me a maneira benevola e attenciosa com que acolheu-me o sr. Brutus de Almeida, intelligente e laborioso industrialista.

Nessas 25 charqueadas abatem-se anualmente 300 mil cabeças de gado vaccum, cujo valor excede de dez mil contos de réis e produzem 18 milhões de kilos de carne secca, 6 milhões de graxa e cebo, mil toneladas de guano artificial, couros, linguas, chifres e ossos, sendo os ossos pequenos convertidos em cinza, que eleva-se a mais de cinco mil toneladas e que em barricas é exportada para a Inglaterra onde a empregão no fabrico de louça: - todos esses productos attingem ao valor de 15 mil contos.

Para o preparo das linguas ha 4 fabricas e para o do guano ha uma, e seu proprietario goza de privilegio, sendo seu estabelecimento montado com apparelhos modernos, movidos á vapor, empregando-se nelle grande pessoal e no serviço de recolher os residuos das charqueadas trabalha uma barca a vapor.

Existem dentro da cidade e em seus suburbios mais as seguintes fabricas: 1 de couros invernisados; além de bezerros e sollas invernisadas preparão-se nellas os chamados couros da Russia, tão bons ou melhores do que os que são importados, e cujo preço é inferior aos destes, de 20 a 30 por cento. E' o Rio de Janeiro o unico mercado a que tem vindo esses couros, assim como é Pelotas o único lugar em que os prepara;

Duas fabricas de sabonetes iguaes aos similares estrangeiros, quer na côr, fórma e perfume, quer em seu acondicionamento, e inferiores em preço; - são já exportados em grande quantidade para o Rio de Janeiro, S. Paulo, Bahia e Pernambuco;

Oito fabricas de sabão commum e de vellas de superior qualidade; 

Cinco de seges, em que trabalha numeroso pessoal e sendo os carros de passeio, caleches, victorias e coupés feitos das melhores madeiras e muito elegantes;

Vinte de cortume;

Duas de distillação, sendo uma dellas á vapor;

Seis de chapéos, em duas das quaes trabalha o vapor e tem mais de cem operarios;

Seis de cerveja;

Uma padaria mechanica e serraria á vapor, cujo proprietario pretende supprir o mercado de Montevidéo de madeiras serradas em seu estabelecimento;

Duas de preparar fumos, pertencendo a mais importante dellas ao Sr. Jacob Klaes, que por algum tempo residio no sul de Minas e que tem ganho muito com o estabelecimento que fundou em Pelotas, no qual, além do vapor, tem empregado mechanismo modernos e aperfeiçoados;

Uma de moagem de grãos que póde produzir centenares de arrobas de farinha de trigo por dia, e que vai ser poderoso incentivo para se desenvolver a cultura deste importante genero;

Sete fabricas de vinho, collocadas fóra da cidade, sendo os próprios fabricantes os plantadores da vinha; e em uma dellas, além do muito apreciado vinho, prepara-se licôres de differentes qualidades, superior cognac, frutas em conservas e queijos especiaes;

Um para refinação de assucar, á vapor;

Duas de vella de cêra;

Duas de colla, sendo uma em grande escala;

Uma de louça de barro;

Uma de chapéos de sol; 

Duas de chocolate;

Dezenove olarias;

Seis estabelecimentos typographicos, dois dos quaes são á vapor e perfeitamente montados;

Um estaleiro, com um dique artificial, para concerto de qualquer navio;

Um prado administrado por uma companhia que promove corridas e distribue premios.

Visitei a maior parte destas fabricas, sempre acompanhado pelo honrado Sr. Miguel Ribas, a quem devo as minuciosas informações que me forão prestadas, e que aqui consigno com sinceros e profundos agradecimentos a elle e a quantos se mostrarão benevolos satisfazendo a minha curiosidade.

Existem em Pelotas as seguintes sociedades anonymas:

Companhia de illuminação a gaz, que tem por fim illuminar tres cidades, Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas, com o capital realisado de 1,300:000$000;

Companhia Hydraulica Pelotense, - que suppre de agua potavel a cidade e seus arrabaldes, com o capital realisado de 600:000$000;

Companhia de seguros Pelotense, contra riscos maritimos e terrestres, com o capital de 1,000:000$000;

Companhia Ferro Carril com o capital de 540:000$000 e está em projecto a formação de uma companhia de illuminação electrica.

Entre os edificios publicos, são dignos de menção o paço da camara municipal, grande sobrado de architectura moderna e luxuosamente decorado, cujo custo foi de cem contos de réis;

- A escola Maciel, elegante edificio em que vai ser estabelecido a escola veterinaria, feito á expensas da familia do conselheiro Maciel e por ella doado ao municipio;

O mercado, que fôrma um vasto quadrilatero de soteia, mandado construir pela camara municipal, que nesta obra despendeu cincoenta contos de réis;

O matadouro, edificio novo e moderno com todas as accomodações, feito por contrato entre a camara municipal e um particular;

O cemiterio, espaçoso e cheio de monumentos de sabido valor, tendo no centro uma capella;

A santa casa de misericordia, importante edificio ainda não concluido, pois está apenas construida a 4a. parte da planta que foi adoptada, e entretanto tem já capacidade para o duplo de enfermos que ahi estão. A capella da santa casa é um primor, o retabulo é de marmore e seus adornos são modernos e do melhor gosto: seu patrimonio approxima-se da quantia de 500:000$000;

Asylo de Nossa Senhora da Conceição, que tem a seu cargo 30 orphãos desvallidos e cujo patrimonio excede de cem contos de reis: - amnexo á este pio estabelecimento ha uma bonita capella;

A egreja matriz, construida com donativos particulares e pequenas subvenções do governo provincial; embora pequena para matriz de uma grande cidade, é um edificio vistoso, bem decorado internamente, no gosto moderno, branco e ouro;

Bibliotheca publica, elegante edificio de moderna architectura, com vastos salões, construido por subscripção popular que attingio á sessenta contos de réis: - sustenta aulas nocturnas gratuitas.

Theatro <<Sete de Abril>>, propriedade de uma associação;

Hospital da beneficencia portugueza, de que só está concluida uma parte, importando as despezas já feitas em 77:000$000 e que tem de patrimonio 150:000$000;

O club commercial, á que concorrem quotidianamente os principaes commerciantes, que ali discutem e resolvem importantes negocios, jogão, lém jornaes, etc.

- O serviço de locomoção é feito por bonds de uma companhia, e por 150 carros de aluguel, todos de 4 rodas; além destes carros ha mais de 250 pertencentes a particulares. Há 4 linhas de bonds;  uma do porto á egreja, tendo de extensão 2,500 metros; outra do mercado; outra do mercado á Tablada e matadouro, com 3,000 metros; a terceira vai á estação da estrada de ferro e tem 1,000 metros, e a quarta se estende até o Parque Pelotense, percorrendo a distancia de 3,000 metros.

A Tablada é o lugar em que se vendem as boiadas, e onde todos os dias, mesmo aos domingos, se reunem muitos negociantes, charqueadores e curiosos que vão assistir ao leilão ou ver reunida grande quantidade de gado vaccum, que todos os annos, nos mezes de Dezembro á Junho, é remettido para alli.

O Parque Pelotense é o passeio favorito; construido pelo subdito portuguez José Alves de Souza Soares, foi inaugurado a 2 de Fevereiro de 1883. Occupa uma área superior a 200 mil metros quadrados e o caminho que da cidade vai alli é uma avenida de 25 metros de largura e 440 metros de comprimento, toda arborisada. No Parque ha lindos jardins, lagos, repuchos, cascatas, grandes labyrintos, praças com estatuas, alamedas, magnifica estufa que vi cheia de plantas raras, diversos jogos, rink, etc. Funccionão ahi uma escola gratuita que é frequentada por muitas meninas e um laboratorio homeopathico. - Tem um vasto e bonito e edificio, existindo em parte delle o estabelecimento em que se prepara o Peitoral de Cambará, preconisado para moléstias do peito.

Tudo isto foi feito por um individuo que de mui poucos recursos dispunha, mas que póde ser apresentado como typo de homem laborioso e que vê ao longe.

Pelotas tem 53 ruas largas, perfeitamente alinhadas, sendo 27 traçadas de N. a S. e 26 de L. a O., e 5 praças. Destas a de Pedro II, situadas bem no centro da cidade, cercada de gradil de ferro elegantemente ajardinada, é verdadeiro primor; é ahi que as familias se reunem todas as tardes na estação calmosa para se recrearem ao som de agradavel musica; é ahi que eu verifiquei ter fundamento a fama de bellas de que gozão as pelotenses.

- Dentro dos limites urbanos existem 3,595 predios, que produzem do imposto de decima mais de 112:000$000; e fóra desses limites existem cerca de 500 casas, sendo muitas dellas comerciaes; elevando-se á 30,000 almas a população da cidade e seus arrabaldes.

O porto de Pelotas é frequentado por todos os vapores que se dirigem á provincia do Rio Grande do Sul e annualmente por mais de 300 navios de alto bordo, que alli vão procurar os productos bovinos e que estabelecem importantissimo commercio.

A mesa provincial de Pelotas rende mais de 500:000$000 annuaes; a geral no ultimo exercicio excedeu de 600:000$ e á muito mais se elevaria esta renda si concedessem a esta cidade porto alfandegado, unica e legitima aspiração que tem seus habitantes e que injustamente não tem sido attendida, sob a allegação de não se facilitar o contrabando."

Fonte: A PROVINCIA DE MINAS (MG), 31 de Março de 1887, pág. 01, col. 04-05, pág. 02, col. 01-02


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...