segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Revolta dos Muckers


"O Ferrabrás é um dos montes mais imponentes no vale do rio dos Sinos, entre São Leopoldo e Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. O longo chapadão termina abruptamente numa agressiva escarpa coberta de mata virgem. Mais abaixo, fica a cidade de Sapiranga, com suas sessenta pequenas indústrias, e rosas vermelhas plantadas ao longo de todas as calçadas. Ainda hoje, um século depois dos sangrentos episódios que transformaram o vale num campo de batalhas medievais, uma palavra atemoriza os pacatos habitantes da região: mucker!

A revolta dos muckers é um dos episódios mais violentos e desconhecidos da história do Brasil. Fundada por uma colona alemã, histérica e desequilibrada, Jacobina Maurer, e por seu marido, João Jorge Maurer, carpinteiro que se transformou em médico-curandeiro, a seita foi exterminada pelo Exército e milícias civis.

Um dos primeiros documentos sobre o assunto, o livro publicado na Alemanha, em 1900, pelo padre jesuíta Ambrósio Schupp, apresenta os fanáticos como um grupo de bandidos sanguinários e seus destruidores como heróis que vieram redimir uma região conturbada. Na obra, baseada em testemunhas, jornais da época e relatórios oficiais, Jacobina aparece como uma mulher extremamente sensual e seus seguidores são classificados como uma matilha de sabujos. Entretanto, outro livro, publicado em 1957 por Leopoldo Petri, conceituado historiados da colonização alemã no Brasil, analisa os fatos de forma diferente. A responsabilidade pela tragédia do Ferrabrás é dividida entre os fanáticos e seus inimigos.

O que realmente se passou no vale dos Sinos nos alucinados anos de 1873 e 1874, por obra de fé e da loucura de Jacobina Maurer e seus apóstolos? Em busca de uma versão objetiva, REALIDADE ouviu historiadores, visitou museus, consultou obras antigas, relatórios oficiais, e percorreu o local dos acontecimentos ouvindo velhos colonos.

A seguir, REALIDADE apresenta um relato dos acontecimentos que levaram os muckers à sua trágica morte e que incendiaram o morro do Ferrabrás.

Desde menina, Jacobina Mentz apresentava sinais de desequilíbrio psíquico. Introvertida e solitária, ela era vítima de insônias e crises de catalepsia (morte aparente). Seu pai, Libório Mentz, homem rígido e muito religioso que chegara ao Brasil em 1824, após longo desentendimento com as igrejas protestantes da Alemanha, educou-a numa piedade extremada, entre horas de jejum e oração.

Em 1865, porém, com 23 anos, recém-casada com o carpinteiro João Jorge Maurer, 22 anos, três elementos viriam influir na vida do casal: um curandeiro, um pregador e um livro.

Buchorn, um médico popular, ensinou a João Jorge o segredo das plantas medicinais. Beneficiado pela lenda de que havia sido diplomado por uma voz celestial, o ex-carpinteiro começou a receitar.

Ao mesmo tempo, Hardes Fleck, um pregador aventureiro, iniciava Jacobina nos mitérios da Bíblica. Atenta às explicações do inesperado mestre, ela aprendeu desconexamente trechos esparsos do Apocalipse e dos mais violentos sermões evangélicos.

Entre os colonos alemães do vale corria um livro que afirmava ser o sonambulismo algo divino e venerável. Jacobina era sonâmbula e sua fé histérica somada ao curandeirismo de João Jorge encontraram campo fácil para aprofundar suas raízes. Angustiados pela vegetação desconhecida, por cobras e aranhas venenosas de um país estranho; analfabetos, os imigrantes passaram a buscar com os Maurer aquilo que podia amenizar suas vidas incertas: remédio e religião.

As curas e as pregações do casal, de repente, tornaram Sapiranga um lugar importante.Caravanas de cegos, aleijados, doentes, curiosos e desesperados vinham de longe, até de Porto Alegre e Pelotas, e eram recebidos carinhosamente na casa dos Maurer.

Não tardou muito para os seguidores de Jacobina serem apelidados de muckers. Isto é, beatos, santarrões, fanáticos.

'Eu vim trazer a guerra, separar o pai do filho' - Coagidas ou de vontade própria, 32 famílias passaram a reverenciar Jacobina, enquanto aumentavam as hostilidades contra a sua seita. Uma ovelha que aparecesse ferida ou morta era logo levada à conta dos fanáticos. E nem só ovelhas se ferem ou morrem num vale. José Kraemer, um comerciante da região, foi encontrado morto, no meio do mato. Provavelmente caíra do cavalo. Mas, para muitos, não houve dúvidas: era obra dos muckers. Dias depois, enforcava-se Pedro Hirst, um homem que vivia falando em doenças e suicídio. O povo logo espalhou que sua morte era devida aos conselhos de João Jorge, com quem conversara um dia antes.

Nesse clima tenso, um maio quente se aproximava, o de 1873. No dia 7, Jacobina fez seu mais ousado sermão. Para que mandar as crianças à escola se o fim do mundo estava anunciado? Para que ir à igreja, se lá não se explicava direito o conteúdo da Bíblia? Cristo viera trazer a guerra, não a paz. Viera separar pai de filho, marido de mulher. Por isso, a esposa que não queria acompanhar o marido às reuniões deveria ser trocada por outra. E vice-versa.

O escândalo provocado por essas palavras originou um abaixo-assinado de 47 pessoas ao delegado de São Leopoldo, solicitando providências contra as mistificações médicas e religiosas que se praticavam no Ferrabrás. Lúcio Schreiner, o delegado, era primo de João Jorge Maurer, com quem estava brigado devido a problemas políticos e a um empréstimo negado pelo esposo de Jacobina.

Duas semanas depois, Maurer e alguns devotos foram presos e encaminhados à delegacia de São Leopoldo.

Jacobina foi encontrada morta. O corpo embarcou numa carroça e viajou 40 quilômetros até São Leopoldo, onde ficou exposto na Casa de Câmara. Foi picado com alfinetes, canivetes, puxaram seus cabelos, moveram seus membros e nada. Veio o médico, doutor Hillebrand, e seu exame constatou que, independente de profunda letargia - Jacobina aprendera a dominar seus ataques catalépticos segundo as necessidades do momento - , a morta gozava de boa saúde. Os muckers presos puseram-se a cantar e logo sua profetisa acordou entre abraços e beijos de seus adeptos.

Transferidos para Porto Alegre, dias depois, todos os fanáticos foram soltos, por falta de provas.

A intriga cercava os caminhos dos muckers - Um atentado contra a vida do subdelegado de Sapiranga foi atribuído aos muckers e 33 deles passaram vários dias na prisão. Animais das criações dos fanáticos eram mortos, as cercas de suas casas incendiadas. Eles eram vaiados e humilhados nas ruas das cidades vizinhas.

Sem reagir, os líderes da seita resolveram apelar para o imperador. Maurer embarcou para o Rio de Janeiro com uma longa lista de queixas. Não houve resultados.

Na sua volta, atônito, soube que sua mulher o trocara por Rodolfo Sehm, alegando que este tinha um espírito mais forte, mais adequado ao momento. E aconselhava outras pessoas a trocar de parceiro, chegando a escolhê-los, em certos casos. 'Eu não controlo mais Jacobina' disse Maurer. 'Para mim ainda vai sobrar uma bala'.

Sua previsão era incompleta. Em breve o Ferrabrás estaria transformado num inferno.

O terror dos muckers começou efetivamente no dia 15 de junho de 1874. O colono Martinho Kassel, ex-seguidor da seita, intimado por Jacobina a voltar às práticas religiosas, foi a São Leopoldo apresentar queixa à polícia. Ao regressar, viu sua casa fumegando e, sob as cinzas, os cadáveres da esposa e de dois filhos. Nicolau, o filho mais velho, saiu do mato rastejando, ensanguentado e quase à morte. Mal pode dizer: 'Os muckers! Os muckers!

Sapiranga emudeceu de pavor.

Colonos arrecadaram seus bens e a família e fugiram. As casas dos que ficaram viraram fortalezas, armadas e vigiadas dia e noite. Em São Leopoldo, cem praças enviados pelo governo provincial para reforçar a guarnição local preparavam-se para investir contra os assassinos.

Mas os muckers estavam no auge de sua insanidade. Na noite de São João - 24 de junho - imensas fogueiras espalhadas pelo Ferrabrás iluminaram todo o vale dos Sinos. Armados e divididos em grupos, vingaram com sangue as ofensas recebidas. Incendiaram a casa de Carlos Brenner e mataram a coronhadas suas três crianças. Mataram a tiros a mulher e a filha de Filipe Sehm. Teodoro Balz foi carbonizado com toda a família dentro da sua casa. A golpes de facão foram mortos o velho Jacó Maurer e seu filho Guilherme. A tiros, a mulher e a mãe do colono Andreas Dick. Quatro casas comerciais de Sapiranga foram incendiada e um comerciante morto a tiros.

Na Picada dos Portugueses, próxima a Ferrabrás, os colonos iniciaram a reação. As casas de sete famílias muckers foram incendiadas, mulheres e crianças feitas prisioneiras e s homens, em fuga, caçados pelos matos. Mas o pior ainda iria acontecer.

Confusão e mortes no primeiro ataque - A notícia que corria em Porto Alegre dava conta de que o Ferrabrás era uma imensa fortaleza, com casamatas, víveres, munições e quinhentos homens armados. Anunciava-se que a seita tinha ramificações em todo o Estado e estava apoiada por uma potência estrangeira. Para lá seguiu o coronel Genuíno Sampaio, herói da recente guerra contra o Paraguai, à frente do 12o. Batalhão de Infantaria, parte do 3o. Batalhão e cem cavalarianos da Guarda Nacional.

Suas tropas chegaram a Sapiranga ao cair da tarde do dia 28 de junho. E o coronel, com 250 homens, decidiu investir imediatamente para pegar os fanáticos dormindo. Dividiu as forças para atacar pelas duas picadas que levavam a um casarão de madeira, onde Jacobina e quarenta fanáticos, mais mulheres e crianças, estavam entrincheirados. Porém, os dispositivos de defesa e a inabilidade dos soldados levaram o assalto ao fracasso.

Uma das picadas estava obstruída por troncos e a inadvertida coluna que seguiu para lá resolveu voltar, indo ao encontro da outra. Esta, ao perceber movimento de tropas atrás de si, sentiu-se encurralada. Foi quando os muckers abriram fogo cerrado. Cinco soldados morreram, 41 foram feridos e o resto debandou.

Novo ataque foi realizado no dia 19 de julho. As tropas estavam reforçadas por 108 praças do 3o. Batalhão de Infantaria, cem cavalarianos da Guarda Nacional, contingentes das cidades de Rio Grande e Pelotas e duzentos voluntários civis. O governo central enviara seis canhoneiras e a Companhia de Bondes de Porto Alegre emprestara cem mulas para transportar os víveres e munições até Campo Bom, a 15 quilômetros do imponente Ferrabrás.

Vinte vezes inferiores numericamente às forças do Exército que avançavam em três frentes, os muckers morreram um a um. Quase só mulheres e crianças ainda estavam vivas dentro do casarão de madeira quando foi dada a ordem de incendiá-lo.

Ao ver sua irmã, Maria Sehm, cair baleada, uma garota de 10 anos gritou enfurecida para os soldados: 'Você são tantos, não têm vergonha?'. E correu para junto da mãe, que também foi baleada com um filho no colo (mais tarde, esse menino foi prefeito de São Leopoldo). A mãe teve as orelhas e dedos cortados - os pilhadores não podiam perder tempo retirando brincos e anéis. Oito outras foram assassinadas e seus cadáveres seviciados. Várias crianças morreram nas chamas. Um civil, a golpes de baioneta, espetou uma velha cega contra a parede. Outro foi visto brandindo uma vara com dois fetos gêmeos pendurados na ponta. Todas as casas dos muckers foram pilhadas e incendiadas.

Na mesma tarde, o coronel Genuíno comunicou ao presidente da Província que a vitória fora completa. Mas não conseguiu saborear o seu feito. Pela madrugada morreu ferido, por seus soldados que, assustados por um movimento nas matas próximas, abriram fogo contra os companheiros.

O comunicado do capitão Santiago Dantas a Porto Alegre no mesmo dia, dizia: 'Escrevo ainda sob a impressão dolorosa da morte do coronel e de um dos espetáculos mais pungentes que tenho presenciado em minha vida, qual o incêndio e a carnificina feita sobre míseras mulheres e crianças'.

No dia seguinte, o corpo do coronel foi transportado para Porto Alegre juntamente com a notícia: Jacobina e seus principais apóstolos não estavam entre os mortos. Em algum recanto do Ferrabrás continuavam imbatíveis.

O último tiro, no peito de Jacobina - A 2 de agosto, ajudado por um ex-mucker que revelou o local onde Jacobina se refugiara, Santiago Dantas travou a batalha final. Encurralados numa clareira onde construíram ranchos de couro, os fanáticos - treze homens e quatro mulheres - não puderam escapar ao lento e minucioso cerco de tropas. Jacobina foi a última a morrer. Ferida no peito, desvairada, caiu sobre o corpo de Rodolfo Sehm, seu amante. O casal foi atravessado por baionetas. Duas covas abertas no próprio local receberam os corpos, inclusive o de uma garota de 3 meses, filha da profetisa. Em seu relatório, o capitão Dantas, que impediu atos de selvageria, referiu-se com respeito aquele punhado de homens e mulheres.

Em janeiro de 1875, João Jorge Maurer, que conseguira escapar a todas as batalhas, foi encontrado morto nas matas do Ferrabrás. 

Enforcara-se numa fina gravata de seda. Os 23 muckers presos foram condenados em março de 1876; a pena mais alta para Pedro Mentz, irmão da fanática, que recebeu prisão perpétua. Sete anos depois, todos foram absolvidos.

Em São Leopoldo, o atual diretor do Museu Regional, professor Telmo Müller, que há anos vasculha a região em busca de objetos e documentos relativos aos muckers, confessa: 'É falar em mucker e o pessoal fica mudo. Ainda hoje essa palavra inspira terror'."

Fonte: REALIDADE (SP), edição 95, ano 1974, pág. 72-75

domingo, 17 de junho de 2018

Inácio José de Alvarenga Peixoto


"Poeta brasileiro (1744-1793). Nascido no Rio de Janeiro, formou-se em Direito Canônico na Universidade de Coimbra. Exerceu as funções de juiz de paz na cidade de Sintra, Portugal e provavelmente em 1776 regressou ao Brasil, nomeado Ouvidor da Comarca do Rio das Mortes. Nomeado depois Coronel do Regimento de Cavalaria de Campanha do Rio Verde, casou-se com a poetisa Bárbara Heliodora, a quem dedicou os melhores versos. Influenciado por Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e sobretudo o seu cunhado Ten.-Cel. Francisco de Paula Freire de Andrade, participou ativamente da Conjuração Mineira de 1789 (deveu-se-lhe a escolha do dístico da bandeira, o verso de Virgílio Libertas quae sera tamen). Preso em maio de 1789, foi condenado à morte mas teve a pena comutada em degredo perpétuo na África. Deportado para Angola, morreu no presídio de Ambaca."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

sábado, 16 de junho de 2018

Histórias Curiosas LXIII

"Oswaldinho e o juiz

Num jogo Guarani e Farroupilha, realizado na cidade de Bagé (RS), pelo campeonato gaúcho de futebol, o juiz Mário Severo dirigiu-se de dedo em riste (à maneira do exigente Armando Marques) ao atacante Oswaldinho Langlois (F), que havia derrubado um adversário num lance desleal:

- Na próxima - advertiu ele - o senhor irá para o chuveiro mais cedo. Qual o seu número?

- Dezessete, seu juiz - respondeu o jogador, com um sorriso irônico.

Depois de olhar as costas de Oswaldinho, Severo investiu novamente contra ele, mas irritado ainda:

- Dezessete nada, seu moleque. É sete.

- Chiiii, seu juiz, então perdi o 1. Oi, turma, me ajuda a procurar, senão o roupeiro me mata.

Honório Sinott, Pelotas, RS."

Fonte: REALIDADE (SP), edição 101, ano 1974, pág. 9

sexta-feira, 15 de junho de 2018

O Sacerdote Folião


"Um Sacerdote Folião
Por LÉO LAURO

O padre brigou com o bispo. Não quer obedecer.

Cidadão prestante, é vereador combativo. Vivemos ou não vivemos numa democracia néo-capitalista?

Eleito pelo povo, é amigo do povo.

O bispo achou de certo que era exagero um sacerdote andar pelas ruas de Pelotas, animando cordões.

Segundo a imprensa, há antecedentes. Os meus possíveis leitores devem ter lido:

<<A briga entre o padre Ozy e o bispo Dom Antônio é antiga. Em 1973 o sacerdote foi censurado. Não ficava bem desfilar fantasiado. E com uma peruca loira, à frente do bloco <<Bafo de Onça>>. Isso, em 1973. E foi censurado. No ano passado, contrariou a orientação expressa do bispado e candidatou-se a vereador. Neste anos, transferiu os bens da Sansa (Sociedade Assistencial Nossa Senhora Aparecida) para outra sociedade que criou. Nessa nova sociedade, pôs o seu augusto nome: <<Fundação Assistencial Padre Doutor Ozy Alves Fogaça>>.

O bispo Antonio Zattera não gostou. Irritou-se. <<E teria ficado mais irritado ao saber que o padre, que se contentara por alguns anos em comandar a torcida do Grêmio Esportivo Brasil, o mais popular de Pelotas, preparava uma surpresa. Ia voltar a desfilar pelo <<Bafo de Onça>>. O padre foi excomungado. Creio que não foi por causa diso, mas também por isso. O bispo declarou que foi por <<atitudes contrárias ao decoro sacerdotal>>. Também por declarações à imprensa: <<inverídicas e desabonatórias>>. E ainda por esbulhar o patrimônio da Sansa>>. E <<não quis resolver harmoniosamente a questão>>.

Opina o advogado do padre: <<A excomunhão, baseando-se na questão da Sansa, é uma chantagem do bispo>>.

Mas há suavidade na nota episcopal. O padre José Ozy só está excomungado enquanto não faça a entrega dos bens em questão e tenha sido absolvido pela Sé apostólica>>.

O arrependimento ajudava muito. Mas o Padre Doutor não quer arrepender-se. A menos que no arrependimento não entre a devolução dos bens como penitência."

Fonte: LETRAS DA PROVÍNCIA (SP), Maio de 1977, número 195, pág. 02

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Cartomante


"Lê-se no Correio Mercantil de Pelotas, de 3 do corrente:

NO QUE DÃO AS ADIVINHAÇÕES. - A cartomante, a adivinha, que tem-se regalado de pilhar os cobres aos papalvos e ridiculos de espírito que abundam por esta cidade, acaba de passar por uma estrondosa decepção.

Alguns pandegos de bom gosto vestiram com os costumeiros trajos femininos um esbelto rapaz de 13 annos e apresentaram-lh'o para que prophetisasse o seu futuro ou lêsse a sua sina, como lá se diz.

A bruxa, que é mesmo uma bruxa no physico e no moral, porem que de bruxa tem apenas a esperteza necessaria para extorquir o dinheiro do proximo por meios illicitos e reprovaveis, não deu pelo logro, porque realmente estava perfeitamente preparado, e, acerca do rapaz que suppunha rapariga, fez correr as cartas.

E falla assim:

- Ha de casar com um moço rico e bonito, porém ao fim de vinte dias passará pelo desgosto de perder um parente. Ha de ter cinco filhos, que por sua vez também serão muito felizes.

Quando a bruxa fallou em filhos, os espectadores cahiram na gargalhada.

E seguio-se uma interessante scena, cheia de episodios curiosos, como é facil imaginar-se, entre alguns gaiatos e uma velha estonteada.

Calcule-se que descalabro para a cartomante.

Tambem nesse dia, que foi ante-hontem ás 3 horas da tarde, suspendeu os trabalhos e deliberou não mais adivinhar para mulher sem certificar-se que não era homem.

Eis ahi o que é a adivinha, a cartomante, a feiticeira, que tem explorado á vontade e com o consentimento da policia as algibeiras dos ignorantes e fanaticos.

Que a lição aproveite e sirva de exemplo, é o que desejamos.

Aos autores da brincadeira - um bravo."

Fonte:  DIARIO DO RIO DE JANEIRO, 14 de Junho de 1877, p.03, c.01-02


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Primeira obra em português de Khalil Gibran foi editada em Pelotas


Para saber mais sobre Khalil Gibran: Vide artigo na Wikipedia

"LAGRIMAS E SORRISOS

A primeira obra da literatura syrio-libaneza vertida para o portuguez.

A literatura syrio-libanesa é quasi desconhecida no Brasil, por isso, que ninguem até aqui se animou ao trabalho de verter para o vernaculo nenhuma das innumeras obras que a enriquecem. Graças, porém, a iniciativa do sr. José Mereb, um syrio que reside no Brasail ha 26 annos e que não obstante em haver naturalizado brazileiro conserva um grande amor pelas cousas de sua patria de origem, essa lacuna está hoje em parte preenchida, com a edição de um primoroso livro - 'Lagrimas e sorrisos' - do poeta Gibran Kalil Gibran, um dos mais eminentes vultos da literatura libaneza. Recebemos um exemplar deste trabalho, editado na typographia Guarany, de Pelotas, Rio Grande do Sul. Com 'Lagrimas e sorrisos', livro escripto aos vinte annos, Gibran Kalil obteve o primeiro triumpho de sua carreira literaria que, com os annos, e com o apparecimento de outras obras suas acabou por consagral-o como uma das maiores cerebrações do mundo arabe actual.

Encarregando-se da traducção desse interessante livro, o Sr. José Mereb não teve a preocupacção de buscar fama; elle se inspirou, sómente, no patriotico desejo de mostrar aos brasileiros que a literatura de sua terra natal, embora seja, como dissemos, quasi desconhecida de nós, tem a enriquecel-a obras de inestimavel valor. Aos nossos patricios recommendamos a leitura de 'Lagrimas e Sorrisos' e aos membros da laboriosa colonia syria desta capital concitamos a cooperar efficazmente, no louvavel esforço do sr. José Mereb."

Fonte: A GAZETA (SP), 08 de Maio de 1920, pág. 01, col. 03

terça-feira, 12 de junho de 2018

A rivalidade entre Buenos Aires e Montevidéu


"O processo de independência no Rio da Prata foi complexo envolvendo várias facções regionais assim como agentes políticos internacionais. Enquanto Buenos Aires rompia com o domínio espanhol no início da década de 1810, Montevidéu permaneceu como um bastião lealista no Rio da Prata até 1814. Durante esse período, as elites de Montevidéu mantiveram a centralidade dos pueblos como fonte de soberania na área, o cabildo de Montevidéu exerceu influência sobre o território de toda a província, ao mesmo tempo que a exploravam as diversas brechas legais das políticas comerciais para aumentar o intercâmbio comercial com potências estrangeiras, especificamente com a comunidade comercial do Rio de Janeiro. A diferença nas maneiras como as elites políticas e econômicas de Buenos Aires e Montevidéu reagiram à crise monárquica em Espanha constituíram o ápice de disputas que já se desenrolavam desde as últimas décadas do período colonial.

A expulsão dos portugueses da Colônia do Sacramento, em 1777, provocou profundas mudanças econômicas, políticas e sociais no estuário do Rio da Prata. No final da década de 1770, quando Buenos Aires tornou-se a capital do recém-fundado Vice-Reinado do Rio da Prata, Montevidéu tornou-se o principal porto atlântico no estuário do Rio da Prata. Montevidéu foi beneficiada pelas Reformas Bourbônicas tornando-se o porto de escala obrigatório para todos os navios que entram no Rio da Prata a partir do Oceano Atlântico, o único porto autorizado para o desembarque de escravos, e a base da frota naval espanhola Sul (e teve as Malvinas assim como os assentamentos patagônicos sob sua jurisdição). Além disso, Montevidéu foi sede da recém-criada Comandancia del Resguardo (órgão encarregado de reprimir o comércio ilegal, tanto marítimo como terrestre). Esta nova arquitetura imperial na região permitiu o surgimento de novos grupos comerciais e políticos baseados em Montevidéu, bem como exigiu que comerciantes de Buenos Aires passassem a manter procuradores e apoderados em Montevidéu, a fim de encaminhar as operações e agências comerciais através de autoridades Montevideanas.

O status imperial recém-adquirido não foi a única variável que contribuiu para o crescente papel comercial de Montevidèu no final do século XVIII. Após a queda da Colônia do Sacramento, Montevidéu tornou-se o centro das relações comerciais com os comerciantes portugueses e britânicos. Uma vez que as tropas espanholas conquistaram Sacramento em 1777, ricos e bem conectados comerciantes luso-platinos mudaram-se para Montevidéu, onde eles criaram alianças com a emergente elite Montevideana. Estes indivíduos ocuparam papéis estratégicos ao reconectar o comércio do Rio da Prata com a América Portuguesa. Entre 1778 e 1806, mais de 500 embarcações navegaram entre a América Portuguesa e Montevidéu, muitas vezes utilizando-se de diferentes pretextos legais para introduzir bens manufacturados europeus, açúcar, tabaco, e escravos em territórios espanhóis. Por volta de 1800, Montevidéu era o principal porto da região no que diz respeito ao comércio transatlântico, e as elites de Montevidéu contavam com redes de comércio de longa data com comerciantes luso-brasileiros.

As tensões entre as comunidades mercantis de Buenos Aires e Montevidéu emergiram durante a década de 1790 sob a forma de uma série de casos legais. Os comerciantes porteños questionaram legalmente o status de Montevidéu como porto de escala obrigatório para todos os navios atlânticos que entram no estuário, e questionaram também a jurisdição das autoridades Montevideanas sobre a repressão do contrabando marítimo. Apesar da dependência das elites comerciais de Montevidéu dos mercados e do capital de Buenos Aires, os comerciantes de Montevidéu não só defenderam o status legal do porto da Banda Oriental, mas também peticionaram à Coroa seu próprio Consulado de Comércio como uma tentativa de aumentar sua autonomia em relação às elites mercantis de Buenos Aires. A divergência de interesses entre as comunidades de Montevidéu e de Buenos Aires ficou ainda mais explícita depois das invasões britânicas de 1806-1807. Após a expulsão das forças invasoras de Buenos Aires, os comerciantes britânicos puderam permanecer em Montevidéu por sete meses. Durante este período, os comerciantes de Montevidéu lucraram com a aquisição de bens britânicos a preço de pechincha. Essa manobra provocou revolta entre os círculos mercantis de Buenos Aires. Além disso, depois das invasões britânicas, Santiago de Liniers, vice-rei provisório do Vice-Reino do Prata, apoiado pelas elites e forças militares de Buenos Aires, tentou despojar Montevidéu de sua condição de base da frota do sul, bem como da jurisdição da cidade sobre as Ilhas Malvinas e sobre os assentamentos patagônicos. Em 1808, as elites de Buenos Aires e de Montevidéu estavam em desacordo entre si em matérias políticas, legais e comerciais.

A crise política desencadeada pela invasão de Napoleão à Península Ibérica colocou as duas principais cidades portuárias do Rio da Prata em uma encruzilhada. Como resultado, o Cabildo Abierto de Montevidéu criou sua própria Junta que jurou lealdade à Junta Suprema de Sevilha, não reconhecendo a liderança de Buenos Aires. Tal dissensão foi reforçada em maio de 1810, quando os cabildantes de Montevidéu recusaram-se a seguir a radicalização da Junta de Buenos Aires e deposição do vice-rei Cisneros (1809-1810), o último vice-rei de Buenos Aires. A partir desse momento, Montevidéu tornou-se o centro do lealismo espanhol no Rio da Prata. As elites de Montevidéu proclamaram Montevidéu como a nova capital do vice-reinado, e, o então governador da cidade, Francisco Javier de Elío, como novo vice-rei do Rio da Prata. As elites de Montevidéu mantiveram as instituições administrativas do antigo regime, o projeto monárquico, e o princípio de soberania particular de los pueblos, com os cabildos como fonte de poder local. Este projeto, no entanto, não foi unânime, e no interior da Banda Oriental, projetos políticos rivais, republicanos, contaram com a adesão de um grande segmento da população rural.

Entre 1810 e 1814, Montevidéu manteve-se fiel à monarquia espanhola e manteve relações comerciais ativas com a América Portuguesa, com os Estados Unidos e com a Grã-Bretanha. O bastião lealista de Montevidéu caiu frente os ataques de forças revolucionárias de Buenos Aires (1814), posteriormente a cidade passou ao controle das forças da confederação de Artigas (1815), e por fim as forças do Império Luso-Brasileiro ocuparam Montevidéu e a Banda Oriental (1816). O controle luso-brasileiro sobre Montevidéu e a Banda Oriental, sob a hábil liderança de Carlos Lecor, o Barão de Laguna, perdurou até a independência brasileira, em 1822. A independência formal do Brasil provocou uma divisão entre tropas leais ao rei lusitano e tropas portuguesas em favor do imperador brasileiro. Após a independência do Brasil, tropas leais à monarquia portuguesa ocuparam Montevidéu, deslocando as tropas brasileiras sob o comando de Lecor para o interior da Banda Oriental. O conflito entre estas duas facções durou até 1824 e foi um dos mais longos e violentos movimentos de resistência à independência brasileira. No rescaldo da 'guerra civil' luso-brasileira, um grupo de caudilhos, os chamados 33 Orientais (1825), invadiu a Banda Oriental para acabar com o governo luso-brasileiro na região. Este foi o estopim da guerra entre o Brasil e as Províncias Unidas e, finalmente, culminou na independência do Uruguai em 1828. Durante a ocupação luso-brasileira (1817-1822), houve um aumento significativo do comércio com portugueses, britânicos e norte-americanos. Essas relações comerciais tiveram sua origem nas últimas décadas do período colonial."

Fonte: PRADO, Fabrício. Conexões Atlânticas: redes comerciais entre o Rio da Prata e os Estados Unidos (1790-1822). In: Anos 90, Porto Alegre, v. 24, n.45, jul. 2017, p. 136-139
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