segunda-feira, 14 de outubro de 2024

A Lenda do Boi Santo

 



(...)

O carater sagrado domina a base psicologica da "Lenda do Boi Santo", tal qual é contada pelo povo de Campos de Jordão e conforme o texto da autoria de João de Sá. ("Pequena monografia de Campos do Jordão", sem editor e sem data).

✤✤✤✤✤

Um monge esmoler que andava em peregrinação, colhendo donativos para a construção de uma igreja - que deveria ser edificada em Pindamonhangaba - bateu na porta de um rico fazendeiro, que vivia no alto da Serra da Mantiqueira, e que possuía centenas de cabeças de gado, e pediu-lhe um óbolo. Negou-o o fazendeiro e ainda ameaçou o religioso, expulsando-o de suas terras. Continuando na sua peregrinação, notou o monge, ao entrar nas matas, que vinha sendo seguido. Temeroso, porque havia naquele muitas onças, recomendou-se a Deus e esperou a Sua Misericordia. Parando junto a uma fonte, viu que era seguido por um boi muito bonito, que se aproximou dele e lambeu-lhe as mãos. Tranquilo, o monge continuou a sua caminhada, sempre seguido pelo animal e, assim, entrou na cidade. A cena despertou a curiosidade popular e inumeras pessoas acompanharam o religioso. Este, por mais que enxotasse o boi, não conseguia demovê-lo do seu proposito, que era acercar-se sempre do monge. O povo achou que o boi era movido por uma força divina, para ser vendido em benefício da igreja, compensando desse modo, o mau tratamento que o fazendeiro dispensara ao sacerdote, quando este lhe pediu um auxilio. Posto o boi em leilão, o primeiro arrematador deu-o à igreja para novo leilão, o mesmo fazendo o segundo e o terceiro e, assim, sucessivamente, até que o boi santo, muito velho, morreu, tendo dado, porem, antes disso, dinheiro mais que suficiente para construção da igreja.

Fonte: DIÁRIO DE SÃO PAULO (São Paulo/SP), 08 de novembro de 1959, pág. 09

domingo, 13 de outubro de 2024

A cabeça da jiboia

 



A cabeça da jiboia para atrair mulher

(Crendice ouvida no Amazonas e Pará)

ALBERTO CANELAS FILHO

A jiboia (Constrictor constrictor), grande serpente espalhada de São Paulo para cima, e muito abundante no Norte, é um reptil que na Amazonia é estimado. Os especimes de 6 metros não são muito raros e falam que já encontraram destes ofidios de 8 metros de comprimento. A jiboia como a sucuri, não possui veneno, mata a vitima enrolando-se-lhe no corpo e moendo-lhe os ossos, para depois degluti-la.

Chega a engulir animais do tamanho da jaguatirica e não ataca o homem. É lerda, habita na floresta, e durante o dia, quase só descança ou dorme. O povo diz que o seu "bafo" produz feridas terríveis, e tambem que quando este reptil fica velho, atingindo proporções enormes, ele passa a viver quase que somente na agua.

A respeito da jiboia, na Amazonia há diversas lendas interessantes. Aliás, sobre cobra há muita crença, pois ela representa a perfídia e a traição. O fato da Bíblia contar o caso de Adão e Eva, motivado pela serpente, os povos com religião fundamentada nesse livro, têm todas as cobras, mesmo as não venenosas, como a maldade personificada. Mas respeitam-nas porém, devido a astucia e poderes sobrenaturais que lhes atribuem, como tambem repelem-nas pela sua forma horripilante. Todos nós sabemos, que a grande fealdade causa admiração, respeito e medo.

Contaram-me no Amazonas e Pará, que a jiboia fica de emboscada na florestas; passando ainda que longe, um animal de vulto medio ou mesmo o homem, sente uma força que o atrai para um determinado ponto, tenta ir embora, mas qual, fica meio desnorteado até ir parar direitinho onde a cobra está. Tambem me contaram, que para se atrair mulher, basta levar no bolso uma cabeça embalsamada de jiboia. É tiro e queda, mulher daí sobra...Liguei uma crença à outra: nas duas há o fascínio da jiboia. A forma falica do reptil, talvez tenha induzido o caboclo a formular e aceitar a segunda crendice. Coibido pelo sentimento de pudor e pelos preconceitos morais, religiosos e sociais - que se orientam pelo super égo - de mostrar-se nas partes pudicas às mulheres, então o inconsciente do homem simples da mata, ou mesmo da cidade, fez esse impulso se exteriorizar transformado.

Como toda cobra pelo seu olhar fixo e aspecto repugnante, causa terror, principalmente as grandes, a vítima fica apalermada de medo, como se estivesse magnetizada, provindo disto que a jiboia atrai a presa mesmo de longe. A primeira crença se entrosa na segunda, que procuramos explicar pelo fenomeno psicanalítico da transferencia.

Vi um amansador de jiboia no cais de Belem do Pará; domesticava em pouco tempo, os filhotes já grandinhos (com cerca de 1,5 m) para vende-los depois, É costume no Norte todo, usarem este ofídio nas casa, para a exterminação de ratos, prestando assim um bom serviço ao homem. Apesar da jiboia ser muito mansa, quando ela vai atingindo seus 4 metros, soltam-na no mato. Lá perto do famoso "Ver-o-Peso", vendiam cabeças preparadas de filhotes de jiboia, (sendo menores são mais faceis de se carrega-las no bolso) para quem quisesse se por à "D. Juan". O caboclo e o morador inculto e mediocremente culto da cidade, acreditam nessas crendices.

Conheci um pratico dos rios Madeira e Amazonas, que me mostrou uma cabeça de jiboia, que ele trazia consigo e que dizia lhe dar muita sorte com o belo sexo; pois, se não me engano, já era casado quatro vezes...

Fonte: O PAULISTA (São Paulo/SP), 03 de Março de 1959, pág. 06

sábado, 12 de outubro de 2024

Gado Bagual



Como na maior parte das regiões de população escassa e abundantes pastagens naturais, a criação de gado em Mato Grosso é quase que totalmente extensiva.

Os campos são enormes e nem sempre limpos. Há zonas de cerrado e cerradão onde, com a falta de costeiro, o gado torna-se arisco, ligeiro, e por fim bagual ou alçado.

Bagual é o nome que se dá ao gado bravio, que já não obedece mais ao homem - não dá rodeio. Cria-se à lei da natureza. O sal, encontra-se nos barreiros. Procuramos nestas linhas descrever uma batida de gado bagual, como é feita "em baixo da serra", região variadíssima, que compreende os contra-fortes e fraldas das serras de Amambahy e dos Baús, até se perderem nos Pantanais. Nesse serviço o peão matogrossense, quase desconhecido, exibe toda a sua perícia de campeiro.

O bagual em lugares onde é perseguido, passa os dia na crôa dos cerradões e nas matas; só sai de noite para beber água e pastar nas cabeceiras. Assim, os bagualeiros escolhem as noites para trabalhar, de preferência as de luar.

A comitiva nesse serviço nunca é muito numerosa. Compõe-se geralmente de cinco a seis peões. O encarregado escolhe um retiro ou faz um rancho para centro de suas operações. O crepúsculo é a hora de sair para o campo, seguindo os peões em fila, o mais prático na frente; vão de cabeceira no passo do matungo, contra o vento e num silêncio quase fúnebre.

Avistam afinal u'a manada que está "branqueando" a cabeceira; param, consultam-se, discutem e deliberam à meia voz o que vão fazer. Aproximam-se agora no passo do animal e alerta sempre. Quando as rezes dão sinal de ter percebido qualquer coisa, levantando alto a cabeça, a peonada dá uma "arrancada dura" para logo alcançá-las. A orilha do cambuaval, impenetrável ao cavalheiro, fica às vezes a menos de 300 metros.

Daí em diante cada um trabalha para si; tem que alcançar a rez que escolheu, ou que estiver a geito, laçando-a e maneando-a, o que não se faz sem agilidade ou presteza. "É moço! Sou índio que sahio em cima de qualquer tucura, orelhano, lasso e, quando ele amontôa no estirão, boleio a perna de cima do arreio, aperto e já tô, maneando". É assim: quando a rez cai no estirão, pulam do pingo, que fica chinchando, e apertam-na antes de ter tempo de levantar. E dizer, seguram o pé que está por cima, ou o rabo passado por uma das pernas. Maneiam agora, amarrando os dois pés de encruzado, os dois pés a uma das mãos, ou ainda um pé ou u'a mão encruzados. Para isso trazem um peador na cintura, amarrado com um nó fácil. Em seguida reunem-se todos no lugar de partida, de onde ajuio o gado. Algum extraviado toca a capoeira para orientar-se. É um som que se produz assoprando com força num vazio feito com as duas mãos. Ouvindo-o os companheiros respondem, dando assim uma direção ao perdido.

Reunidos, amarram as rezes pegadas a qualquer árvore forte mais próxima - é o tambo. A operação chama-se tambear e consiste em amarrar a rez ao pau por meio de um maneador. Dão umas quatro ou cinco voltas de maneador em roda do pescoço ou chifres do bagual e outras tantas em volta do tambo, passando pelas primeiras. As voltas devem estar todas certas. Durante a noite podem dar mais de uma batida e muitos peões não se satisfazem em lassar uma rez só.

De dia uma partida de bois de carros amestrados, vai de lugar em lugar, onde estiverem tambeados os baguais, que são ajojados pelos chifres ao pescoço do boi manso. Costuma-se aparar as aspas dos baguais para que não machuquem seus condutores.

Vão assim, meio contrariados, até a fazenda ou rancho onde são carneados para o consumo ou para fazer charque. O bagual amansa dificilmente.

FREDERICO LANE

Fonte: SEMANA NACIONAL (São Paulo/SP), edição 009, março de 1956, pág. 60.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Um caso de escravização indígena no Império do Brasil



De uma carta escripta do Amazonas extrahio a
Folha Nova os seguintes tópicos:

"No princípio de cada enchente do rio Negro, sahem, annualmente, cerca de duzentas canôas em que os seringueiros mandam buscar escravos.

N'essas canôas vai grande quantidade de missangas, agoardente, etc.

Quando chegam acima da cachoeira negociam com os tuchauas, que, em troca, lhes entregam os prisioneiros feitos em guerra com as tribus inimigas.

É calculado de setecentos a mil o numero dos indios que, annualmente, descem o rio, amarrados nos fundos das canôas.

É uma verdadeira reproducção das scenas que antigamente se passavam na costa africana."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS),  18 de Junho de 1884, pág. 01, col. 03

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