segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Relato de um negro gaúcho em 1924

 



Relato de Sebastião, de profissão "trançador", residente em Cerrito, em agosto de 1923, em entrevista ao Major João Fernandes Braga. Nota: o entrevistador transcreveu o relato tal qual a fonética de Sebastião lhe parecia.

Primêra - eu sô filhu da Fachina, lá mi criei sabi Deus cumu, purqui u meu pai veiu invalidu du Paraguay i nois tivemu qui sustental-o u resto da vida.

Dispois qui meu pai morreu, vim pra sua cumpanhia, mi casei, mi meti nesti rancho, criandu us filhu a custa du meu suór.

Nus dia bunitu, entru nu matu com u meu machadu i façu us meus quatru metrus di lenha; compônho carretas quebrada, sei cambotiá uma róda cumu qualquéra otro, disimpêno uma raiação, façu xêdas, recavens, cabeçalhus, fuêros i jugus sem invejá ninguem.

Quandu istô cançadu ô aborricidu, mi sentu o mi deitu, i têje sentado ô deitadu, ninguem mi manda.

Nus dias feiu, di chuva o di giadas, mi sentu pértu du fogu i façu butão in maneias, custuro peitoraes i rabichus, façu cabrestus i maniadores, pespontu ô tranço, buçais, cabeçadas e rédias, torço tamuêros i torçais, faço sógas di quilina de cavallu qui durum mais, interus, i chicótes di variá parilhéros, rebenques camperos di todus us feitio, trança di relho di inxiquirá, inparelhu cunjuntas i rigêras, tramu barrigueras di sincha, faço travessões di lumbilhu i latigus i istribêras e tudu qui si podi fazê di guascas.

Façu cestas, juêras, jacás i tudu que é perciso, di cipó, cresciume i tala di palmito.

Na primavéra plantu o meu cercadinhu, criêmu us nossus pintus, ingordemu u nossu leitão. Quandu quêro cumê caça, levantu a minha reiúna i vem jacú, vem pumbão du matu, vem perdigão da macéga, vem marrecão du banhadu.

Quandu quero cumé pêxe, atiru um dinamiti nu lagoão i é só imbarcá nu cahiqui e juntá, o intão, atiro a linha n'agua, i mi sentu na barranca, fazendu u meu cigarru di nacu criolo, i inparelhandu i sovandu as minhas palhas di milhu catéti, i é trahira na certa.

Anno mundéo pras pacas, dispois qui istão cevadas cum as ispiguinhas de milho que botu todus us dia na porta da furna..

Cavo us tatú i as mulita nas tóca, matu grachaim, raposa, mão pelada, oriços i otros bichu a tiru, pra livrá u campu dessas praga i vendê us côro na venda i surti a dispensa.

Nu tempu di fruta é fartura qui Deus manda - é araçazinho du campu, é gaviróra a rôdo, cereja qui não se acaba, pitanga, cambuim, araçá, veludinho, butiá, coquinho, laranja, banana di ispinho, mil coisa, qui a providencia divina, manda pra u natal dus pobris.

I u amor a este ranchu, a estas curunilhas velhas, a este umbú qui não tem éra, a este arvorêdo todu qui chóra quandu a genti chora, i canta quando a genti ri.

I us baralhu das cachoêra, i u cantu dus sabiás e da passarinhada fazenu ninho.

I tanta coisa qui a genti vê i aprendi aqui, qui pódi, tudu issu, ser piquenas coisas prá genti da cidade, mas são grandis pa nóis.

Fonte: ILLUSTRAÇÃO PELOTENSE (Pelotas/RS), Ano VI, números 1 e 2, 16 de janeiro de 1924, pág. 06-08.


domingo, 1 de janeiro de 2023

Água de Bananeira

  



A AGUA DE BANANEIRA NA CURA DO VENENO OPHIDICO

PORTO ALEGRE, 23 (A) - Um telegramma aqui recebido, informa que no municipio de Lageado, no local denominado Brusque, Antonio Stanotti, havendo sido mordido por uma cobra jararáca e não tendo á mão remedio algum, applicou sobre a ferida agua de bananeira, ficando, com geral surpreza, immediatamente curado.

No dia seguinte Stanotti poude entregar-se aos seus trabalhos habituaes.

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 24 de Março de 1911, pág. 02, col. 02

sábado, 31 de dezembro de 2022

Feliz Ano Novo 2023!

 


Desejamos um 2023 repleto de paz, saúde, amor, prosperidade, sucesso e muitas realizações!
Obrigado por nos visitar, colaborar e seguir!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Sobrenome Höping

 



HÖPING, HOEPING - uma forma para "produtor de lúpulo", ou ainda, um patronímico do nome aleão Hoppe. Segue um link com a distribuição do sobrenome: http://wiki-de.genealogy.net/H%C3%B6ping_(Familienname)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Dia D'Rock

 



Com o objetivo de mostrar o potencial do rock garibaldense e o que foi feito em termos de música urbana até agora no município, é o que acontece, logo mais, às 21h no Cine Rex, o Dia D'Rock.

Na ocasião, estarão se apresentando três bandas de Garibaldi: Mutação, Casa de Fundos e Aro Zero.

Fonte: O PIONEIRO (Caxias do Sul/RS), Segundo Caderno, 05 de Junho de 1987, pág. 03

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O Mate Brasileiro

 



O MATTE BRASILEIRO SERVINDO A NEGOCIOS POUCO ESCRUPULOSOS

BUENOS AIRES, 19 (E) - Vende-se aqui e em Rosario, com o nome de "Matte brasileiro" uma boa herva do Paraná, misturada com outra chamada "cauna", fortemente purgativa.

Essa especulação desacredita o matte brasileiro especialmente o do Paraná

Do Rio Grande do Sul acabam de exportar para Rosario 20.000 saccos de "cauna".

O governo já prohibiu essa exportação, e é de extranhar que o Rio Grande do Sul ainda a permitta.

Annualmente se recebe do Paraná 50 milhões de kilos de matte.

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 20 de Dezembro de 1911, pág. 05, col. 02

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

O Tratado de Methuen



 Mecanismo essencial na vinculação do sistema colonial à economia de um mundo em desenvolvimento era o comércio anglo-português. Pelo tratado de Methuen de 1703 os produtos de lã, britânicos, entravam em Lisboa e Porto isentos de tributos e, em troca, os vinhos portugueses recebiam privilégios no mercado inglês. Na primeira metade do século XVIII o intercâmbio foi muito favorável à Inglaterra, sendo altos os lucros individuais. Tecidos de lã constituíam dois terços do total das exportações inglesas e de 1756-60 o vinho do Porto representou, em valor, 72% de todo o consumo de vinho da Inglaterra. Desde o início da década de 1730 o grande influxo de ouro e diamantes exagerara o desequilíbrio do intercâmbio anglo-lusitano. Os déficits podiam ser compensados e a aquisição de produtos estrangeiros era facilitada pela saída de ouro que, como observou Henry Feilding, "Portugal distribuía tão liberalmente para a Europa".

Na primeira metade do século XVIII somente a Holanda e a Alemanha sobrepujavam Portugal como consumidores das exportações inglesas, e apenas nos momentos mais críticos da Guerra dos Sete Anos os navios britânicos no porto de Lisboa ficaram aquém de 50% do total. O valor do intercâmbio português era óbvio e bem conhecido: "Com este tratado ganhamos maior saldo de Portugal do que de qualquer outro país", escreveu Charles King. Havia quem visse menos favoravelmente tal relacionamento: o terremoto de Lisboa de 1755 poderia ser transformado em vantagem, proclamava o panfletário Ange Goudar, desde que Portugal aproveitasse a oportunidade para romper vínculo rapace com a Inglaterra. O embaixador francês Choiseul escreveu, rudemente, cinco anos depois: "Portugal tem de ser considerado como uma colônia inglesa".

A facilidade com que o ouro em barras podia ser carregado pelos navios de guerra ingleses e pelos correios de Falmouth baseava-se na longa tradição do comércio britânico com Portugal. As feitorias ou comunidades comerciais inglesas de Lisboa e Porto tinham posição legal e privilegiada desde o século XVII. O tratado de 1654 assegurava aos ingleses não só as "mesmas liberdades e privilégios e isenções do comércio português metropolitano e colonial" como garantia tolerância religiosa e, por um artigo secreto, proibia a majoração das tarifas aduaneiras sobre os produtos britânicos além de 23%. Uma parte do tratado sempre foi letra morta, especialmente relacionada com a presença de comerciantes ingleses nas possessões portuguesas, mas o tratado de 1654 e os que vieram depois proporcionaram um ambiente favorável à criação de um estado de dependência semicolonial que caracterizou as relações do país com seu aliado do norte, no século XVIII. Em 1750 a feitoria contava com muitas velhas empresas britânicas influentes e há muito estabelecidas: entre elas a Bristow, Ward and Co., os agentes de John Bristow de Londres; a Burrel, Ducket and Hardy, agentes de Burrel and Raymond, Chase, Wilson and Co., agentes de T. Chase. "Ricos e opulentos, vendo a cada dia suas fortunas e interesses aumentarem, residiam em Lisboa um grande número de súditos de Sua Majestade", segundo comentário de Lord Tyrawly quando em missão especial em Portugal. "É um dito popular dos nativos", afirmou Costigan, "que, salvo pessoas das mais baixas camadas, não há ninguém nas ruas nas horas mais quentes do sol além dos cães e dos ingleses".

O ouro brasileiro não era o único vínculo entre os britânicos e o complexo colonial. "As cazas de negocio inglezas, associadas com outras estabelecidas na Grã-Bretanha e á imitação dellas outras muitas das differentes Nações da Europa encheu-se Portugal por estes canaes de manufacturas Estrangeiras, e com ellas e o grande cabedal que igualmente destinarão ao trafico deste Reino, se fizerão absolutas Senhora de todo o nosso Commercio assim interior como do Brasil", comentava um contemporâneo. "Poucos ou rarissimos forão os Negociantes Portuguezes em estado de negocear com os seus proprios fundos; nenhum com fazendas que não fossem estrangeiras. Todo o commercio do Brasil se fez a credito, e a maior parte delle por caixeiros das proprias Cazas Estrangeiras, e por commissarios volantes que levavão de Portugal para a America as Fazendas, e ali as vendião e negoceavão por conta dos mesmos Estrangeiros, recebendo uma simples commissão do seu trabalho ou alguma gratificação mais, quando fazião milhor a utilidade dos originarios senhores das mesmas fazendas".

Os "comissários volantes" - comerciantes portugueses itinerantes - compravam mercadorias na metrópole e vendiam-nas, pessoalmente, na América, recomeçando o processo. Eram um elemento essencial das conexões comerciais transatlânticas. Viajavam com falsos pretextos, levando a mercadoria em suas acomodações de bordo, com o que evitavam as despesas de frete, comissões e armazenagens.

Uma grande percentagem dos produtos ingleses exportados para o Brasil, via Portugal, iam diretamente para as colônias espanholas como contrabando. O resultado era importante, pois o funcionamento do sistema no máximo de sua prosperidade proporcionava prata à Inglaterra: vital para o comércio inglês na Ásia.

Fonte: MAXWELL, Kenneth R. A Devassa da devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil - Portugal, 1705-1808. São Paulo: Paz e Terra, 2001, 5a. ed., pág. 25-27.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...