segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Joaquim da Cruz Ferreira Soares



"Deu-se hontem o passamento do nosso bom amigo, o tenente-coronel honorario do exercito Joaquim da Cruz Ferreira Soares.

Contava 72 annos de existencia honrada, toda consagrada a causa do bem.

Fez a campanha do Paraguay, e exerceu varios cargos publicos. Ultimamente, o de escrivão privativo do registro de nascimentos e obitos.

Era nosso dedicado co-religionario e pertencente á Illustre familia Telles, á qual apresentamos sincero pezames.

- As cerimonias do enterramento celebraram-se esta tarde, comparecendo a ellas grande numero de pessoas gradas.

O sr. presidente do Estado esteve presente ao acto."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 02 de Setembro de 1895, pág. 02, col. 03

domingo, 31 de julho de 2022

Visconde de Jaguaribe

 



Falleceu hontem subitamente este modesto e honrado servido da patria.

Natural de Icó, no Ceará, junto ao rio cujo nome associou ao seu, era de familia pauperrima. A muito esforço, conseguiu meios de ir para Olinda, onde seguiu o curso juridico e bacharelou-se. Entrou depois para a magistratura, e foi juiz de direito em diversas comarcas de sua provincia.

Nos diversos logares em que exerceu a magistratura, soube fazer-se estimar e respeitar por tal modo que, desde a primeira vez que se apresentou candidato a deputado geral, alcançou votação numerosa. Da segunda foi eleito, e depois reeleito muitas vezes, até ser escolhido senador em 1870.

Motivos particulares levaram-o a pedir aposentadoria de juiz de direito, mudando-se para a Fortaleza, onde fundou e redigiu, por muitos annos, a Constituição, orgão conservador, e leccionou rhetorica e poetica no Lyceu Provincial.

Em 1866, sendo depurado pela camara liberal, acceitou o logar de auditor de guerra no Paraguay. Fez parte do glorioso gabinete de 7 de março, occupando a pasta da guerra, em 1871. Mezes depois de sahir do ministerio tornou á carreira da magistratura e foi nomeado juiz dos feitos da fazenda. O governo provisorio promoveu-o a desembargador da Relação de Pernambuco, e depois transferiu-o para a d'aqui. De Pernambuco não lhe consentiu o coração que partisse sem primeiro ir vêr os amigos e a terra natal, de que ha vinte annos estava ausente e que não devia mais rever. D'esta viagem chegara esta semana.

O visconde de Jaguaribe, sabem todos que o conheceram, era o typo da honradez e da bondade, e era-o tão naturalmente como os passaros cantam ou como as aguas correm. Não havia uma sombra n'aquella alma, não havia um travo n'aquelle coração. E era tão simples, que só com o tempo se conhecia o que elle tinha de grandioso.

Politico, não hesitou em oppôr-se á candidatura de um ministro por provincia estranha, e fel-o por tal modo, que o reconhecimento no senado só se fez por um voto de maioria, graças aos manejos da ultima hora.

Conservador, não teve um só momento de hesitação, desde que começou o movimento abolicionista.

Era o membro mais respeitado da colonia cearense, e quantos tiveram a felicidade de conhecel-o, hão de guardar com emoção a lembrança sagrada de Domingos José Nogueira Jaguaribe.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 06 de Junho de 1890, pág. 01, col. 07

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Bateram nos seresteiros

 



BAILES E SERENATAS

Serenatas au clair de la lune... e do gaz, em plena rua, e um bailarico puxado á sustancia, deram hontem em resultado, ás 3 1/2 horas da madrugada, grosso sarilho na rua Joaquim Silva.

Dançava-se em uma estalagem d'aquella rua, em frente á travessa do Imperio, e na esquina proxima uns trovadores, de olhos em alvo, namoricando a lua, deitava, ao som dos violões e dos cavaquinhos, uns descantes cheios de sentimentalismo e erros de prosodia.

De repente... sahiram para a rua os do baile e pegaram-se á unha com os dos violões. Momentos depois coriscaram navalhas e facas, aos gritos de mata! mata!

A pacifica visinhança acudiu ás respectivas janellas e poz-se a apitar. Porém, nada! nem sombra de policia!

E o barulho continuava. Felizmente, depois de uma gritaria de emmudecer um surdo, e de repetido trilar de apitos compareceu o Sr. tenente de policia Maceió, morador n'aquella rua, acompanhado de uma praça do exercito. Os desordeiros fugiram, sendo presos um individuo e uma mulher, que foram recolhidos á 11a. estação policial.

E dizer que esta scena se repete uma noite sim e outra tambem, na supracitada rua onde fervem os bailes, as serenatas, tudo isso sem o constrangimento de ummas visitas da policia!

Conviria que o Sr. Dr. chefe da dita, pelos meios ao seu alcance, fizesse essa gente comprehender que podem dançar e podem dar descantes á lua, mas o que não pódem é interromper o tranquilo e calmo somno do proximo.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 04 de Fevereiro de 1890, pág. 01, col. 06

quinta-feira, 28 de julho de 2022

O entrudo em Alegrete em 1843

 



CORRESPONDENCIA

Sr. Redactor.

Hum dos costumes barbaros, que nossos pais herdaraó de seus maiores que por desgraça ainda está em voga, hé o jogo do entrudo; essa festividade bachanal, essa loucura, essa alegria de poucos dias, á que commumente se segue longas penitencias, e quiçá dores do espaço de toda a quaresma. Como tão largo tempo de penas pode compensar hum prazer de tão curta duração? Certamente os quarenta dias de quaresma naó saó sufficientes para curar as catarrahaes, as constipaçoens, e as phthysicas, que, segundo opiniaó dos Medicos, costumaó derivar-se muitas vezes das imprudentes molhadelas do intrudo; assim como, não bastaó igualmente os jejuns mais austéros, e a mais severa economia para reparar o vasio, que deixa na bolsa essa ruinosa prodigalidade, esse disperdicio causado pelo dispendioso entrudo dos limoens de cheiro. E que direi do uso, da seringa, e da agua pura? Elle hé sem duvida mais commodo, e barato; quatro barris de agua fazem a festa; o effeito hé o mesmo, e poupa-se o dinheiro, que improductivamente se gasta com tal brincadeira, porem nada hé mais grosseiro, nem mais indigno de pessoas bem educadas, que despejar gamellas, e gamellas de agua sobre os infelizes, que andaó na rua. A hygiene reprova o entrudo, como pernicioso á saude; os medicos dizem, que ceifaó, em todos os annos milhares, de vidas, e a experiencia demonstra, que durante a perturbaçaó desses dias, costumaó os ladroens e malfeitores perpetrar impunemente os mais horrorosos atentados. Alem disto semelhante divertimento hé algumas vezes tambem immoral; porque muitos insolentes aproveitaó-se da confusão geral, e da desordem, que há nos entrudos, para tomar certas licenças e liberdades offensivas da moral publica, e dos bons costumes, e commumente as senhoras, que saó victimas de taes insultos, tem por decencia obrigaçaó de calar-se. De tudo quanto fica dito, snr. Redactor, se conclue, que o jogo do entrudo hé nocivo á saude, e á bolsa; algumas vezes grosseiro, e immoral; e por consequencia deve ser proscripto, e banido da sociedade como indigno de huma Naçaó civilisada. Snr. Redactor, se julgar dignas de publicidade as presentes reflexóes queira admitti-las em huma das suas Folhas; pelo que lhe será grato.

Hum que naó gosta do entrudo.

Fonte: ESTRELLA DO SUL (Alegrete/RS), 04 de Março de 1843, pág. 01-02

quarta-feira, 27 de julho de 2022

O batalhão feminino de Siracusa

 



Em Siracusa, Estados Unidos, organisou-se um batalhão composto unicamente por mulheres solteiras, cuja edade varia de dezesseis a trinta annos. O vestuario destes militares femininos é, na verdade, pittoresco; consiste, numa saia curta, côr de azul carregado, um corpete guarnecido de botões de coiro, um kepi, um cinturão e polainas.

O batalhão faz marchas nas avenidas e principaes ruas da cidade e é seguido por canhões e por uma banda de musica.

O commandante do batalhão não quer sinão mulheres solteiras. Os maridos causar-lhe-iam sem duvida grandes transtornos, como, por exemplo, pedirem ás mulheres para serem commandantes do batalhão, ou não as deixarem ficar fóra de casa até altas horas da noite, como as circumstancias o exigiriam muitas vezes.

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 06 de Setembro de 1902, pág. 01, col. 05

terça-feira, 26 de julho de 2022

Brasileiros caçados no Uruguay

 



Recebemos hontem a seguinte carta do Sr. Marianno Porto, ex-redactor do Brasil, de Montevidéo:

"Coincidindo com a narrativa que ha alguns dias fizeram-nos em carta dois importantes estancieiros brasileiros dos departamentos de Paysandú e Tacuarembó, do Estado Oriental do Uruguay, sobre os barbaros castigos pelo celeberrimo coronel Klinger, do exercito d'aquella republica, inflingidos na pessoa do cidadão Bernardino Costa, filho do Estado do Rio Grande do Sul; coincidindo com essa narração, deparamos no periodico O Brasil, de Montevidéo, com algumas linhas de gazetilha que em sua manifesta simplicidade confirmam, sem discrepar uma só circumstancia, tudo quanto em carta nos contaram aquelles nossos compatriotas. La Razon, de Montevidéu, folha oriental, a mesma que no tempo de Maximo Santos constituiu-se acerrima defensora dos cidadãoes brasileiros, crucificados no Paso-Hondo, tambem se incumbiu de estigmatisar o procedimento criminoso do coronel Klinger.

Jamais nos guiaremos, porém, pelos ataques, porém, pelos ataques das folhas de Montevidéo, porque sabemos que ellas, quando se envolvem em questões d'essa natureza, são sempre inspiradas no espirito de opposição aos adversarios politicos.

É phenomeno que não falha, não em um, mas em todos os partidos em que se divide o povo oriental. Não é isso, no entanto, motivo para que não sejamos gratos ao illustrado jornalismo uruguayo. Sempre o fomos, e a prova existe no agradecimento que escrevemos em março de 1888, dirigido á imprensa uruguaya, que, com excepção de duas ou tres folhas, subvencionadas pelo governo, pediu, mesmo implorou, que nos fizesse justiça, quando, incendiado pelo amor patrio, tomámos a defeza do misero pernambucano Leopoldo Marques; e, quanto mais tarde, respondemos a tres julgamentos no departamento do Salto. E, caso singular, e do qual nunca os governos da monarchia fizeram cabedal; eramos absolvido pelos cidadãos jurados e incontenenti condemnado pelos tribunaes do governo!

N'essa época, repetimos, deixámos evidenciada nossa sympathia e gratidão para com a imprensa de Montevidéo.

Nosso intento, hoje, publicando na conceituada e popular Gazeta de Noticias este ligeiro artigo é - chamar a attenção do benemerito jornalismo fluminense para as folhas platinas, cujas columnas, é rarissimo passar-se um mez, que não constatem factos como o que nos foi narrado por dous compatriotas, O Brasil e La Razon.

A diplomacia nem sempre póde agir em taes casos: e, não obstante ser alli nosso ministro o Dr. Ramiro Barcellos, filho do Rio Grande, ainda assim nos aventuramos a consignar que serão totalmente infructiferos os esforços de S. Ex., desde que não seja apoiado sem reservas pelo glorioso governo provisorio. E a este, por sua vez, é indispensavel a palavra do jornalismo da capital federal.

Nós imploramos, em nome da briosa e patriotica communhão brasileira, residente no Estado Oriental do Uruguay, á illustrada imprensa fluminense o seu valioso auxilio, para a divulgação dos repetidos crimes de que são victimas alguns de nossos compatriotas que têm a infelicidade de cahir nas unhas dos Klingers d'aquelle bello paiz.

Si o honrado gabinete do immortal cidadão Deodoro da Fonseca deseja saber quem é o coronel Klinger, quaes os seus actos, passem os Srs. ministros, embora ligeiramente, os olhos por um exemplar do nosso livro - Leopoldo Marques ou o Volpi Patroni Brasileiro. SS. Exas. o encontram em poder do Dr. João Severiano da F. Hermes, a quem tivemos a honra de offerecer o unico volume que possuiamos.

O qualificativo - torturador - com que o mimoseou (ao coronel) La Razon, não ha muito, é propriedade nossa. Ha dous annos, em artigo firmado, o empregámos tratando das correrias de Klinger contra cidadãos brasileiros do departamento de Tacuarembó.

Concluiremos com o novo attentado:

Bernardino Costa, brasileiro, vai todos os annos a Corrales, na qualidade de capataz, levar tropas de gado. N'uma d'essas viagens, ha um mez mais ou menos, Klinger, por meio da força, fal-o sentar praça. Costa pensa em desertar e escreveu uma carta a Klinger, dizendo-lhe francamente que a servir á força ou de qualquer outro modo no exercito oriental preferia fazer o serviço das armas no Brasil, que era a sua patria. Chegada que foi essa carta ao conhecimento de Klinger, este, depois de a ler, mandou chamar Bernardino e perguntou-lhe se era elle o auctor da carta. Bernardino respondeu affirmativamente. Klinger ordenou que por occasião da parada fossem apllicados em Costa TRES MIL AÇOITES!! A ordem foi cumprida á risca. A victima não soubre o numero de açoites, porque perdeu os sentidos! No outro dia tinha o corpo em chaga viva! Klinger foi á enfermaria, dias depois, e perguntou ao praticante:

- Como vá el brasilero? - Responderem-lhe: está bastante machucado. O coronel, com desprezo, disse:

"Déjelo que se jorobe! Si muere hagan un agujero en el monte y métanto adentro y sinó, larquen'o...ya tiene bastante para quejarse en su tierra!"

Não ha commentario digno.

Tenho comprido com estas linhas o pedido dos dous estrangeiros, e o dever de brasileiro patriota. - Marianno Porto.

Sobre esta occurrencia informaram-nos que o governo oriental já tomou providencias, suspendendo de suas funcções o coronel Klinger e mandando abrir inquerito.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 10 de Julho de 1890, pág. 01, col. 02-03

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