quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Eduardo Pereira de Campos


"Fallecimento

Em consequencia da ruptura de um aneurisma falleceu ás 11 horas da manhã de hoje o nosso co-religionario dr. Eduardo Pereira de Campos, engenheiro empregado na estrada de ferro de Porto Alegre a Uruguayana, desde o seu começo.

Era um cidadão geralmente estimado.

Penalisados por esse acontecimento, endereçamos á exma. familia do morto as expressões do nosso sentimento.

- O saimento se effectuará amanhã, ás 3 1/2 horas da tarde.

Ás 4 horas serão celebradas as cerimonias da encommendação, na Cathedral."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 11 de Maio de 1891, pág. 01, col. 04

Colônia Nossa Senhora da Piedade


"A COLONIA DE N. S. DA PIEDADE

Esta colonia compõe-se exclusivamente dos ex-escravos da fallecida condessa do Rio-Novo, que os deixou livres e deu-lhes condicionalmente (*) as terras de sua fazenda de Cantagallo, em Entre-Rios, no municipio da Parahyba do Sul, para serem divididas entre elles, ao mesmo tempo, que deixou a Irmandade de N. S. da Piedade, cuja sede se acha na Parahyba do Sul, outras porções de terras e os edificios principaes do estabelecimento e todos os instrumentos destinados ao beneficio ou tratamento industrial dos productos da lavoura, com a condição de ahi serem sempre beneficiados os productos dos colonos, mediante meação de café que deve ser todo ahi beneficiado. É das terras legadas á irmandade, e não das da colonia dos libertos, que trataremos, nos occupando das terras para a fixação de immigrantes, no correr d'este relatorio, sendo estas terras contiguas as dos libertos.

1o. - Consta a colonia de 30 lotes de terra, cada lote contendo um grupo natural de uma familia e adherentes prefazendo o numero total de colonos de ambos os sexos e de todas as idades pouco mais de duzentas pessoas (o numero exacto será em breve dado por um arrolamento que muito recommendamos á administração da colonia. O numero de libertos da condessa do Rio Novo era de 190 adultos e de perto de 40 ingenuos e menores. O facto de não podermos agora precisar as unidades que excedem de duzentas pessoas habitantes da colonia, acha-se nos recentes nascimentos e no numero ainda indeterminado de ingenuos, porquanto o numero exacto dos libertos de ambos os sexos, actualmente residentes na colonia, podemos dar, sendo estes 170. Entre elles só contam 70 casaes matrimoniaes, estabelecidos em suas respectivas habitações independentes, tendo-se ido os outros restantes colonos, segundo as tendencias naturaes de familia, de affeições ou de interesse, aggregar a esses nucleos.

Afóra esses libertos, fixados ao sólo da colonia como cultivadores, existem ainda 4 libertos homens e uma mulher (por doente, impropria ao serviço agricola), que se acham ao serviço da irmandade, no estabelecimento central da administração.

Nos lotes o agrupamento dos colonos foi feito, conforme eram crioulos e africanos, como facto geral: no mais seguem elles a gravida e social por familias, affeições e interesses mutuos, em geral em cada lote, tendo elles por isso edificado ou só uma ou mais de uma casa.

2o. - Desde a libertação dos escravos da condessa do Rio Novo até hoje falleceram sete individuos de ambos os sexos e de diversas idades. De entre os libertos retiraram-se logo após a recepção de sua liberdade oito individuos, todos do sexo masculino, e estes foram sómente dos que tinham officios e que preferiram exercel-os fóra da colonia, como mais rendosos. Foi interesse e não outro motivo que os fez emigrar.

Elles eram carapinas, ferreiros, pedreiros e cosinheiros. Estes retirantes deixaram de obter lotes na colonia, de harmonia com as disposições testamentarias, de sorte que em qualquer tempo que tenham de voltar á colonia, não têm mais direito a lotes de terras.

Não obstante, já se tem dado o facto significativo da volta de alguns d'esses libertos reclamando sua fixação na colonia e ainda no dia de nossa estada alli, um d'elles, que retirou-se para exercer o officio de cosinheiro em casa do Sr. visconde de Entre Rios, voltando casado á colonia, instava pela obtenção de um lote de terra para fixar-se como lavrador, ahi querendo edificar sua casa e estabelecer sua familia, composta apenas de sua esposa e de um filhinho.

Ainda convém notar que oito dos libertos, permanecentes na colonia, tendo officios diversos, exercem estes temporariamente fóra, attrahidos pelo maior interesse que isso lhes traz, não obstante serem proprietarios de lotes de terras, onde se acham estabelecidos com suas familias, lotes que elles alternativamente cultivam nos intervalos do exercicio exterior de sua profissão mecanica, notando-se ainda que alguns d'elles pagam a trabalhadores da colonia ou mesmo a trabalhadores livres e até brancos, de fóra, para beneficiarem seus cafesaes e roças durante sua laboriosa e interesseira ausencia.

Por estes factos fidedignos, se evidenciará que setamos na colonia de N. S. da Piedade um pouco longe da realisação das prophecias apocalypticas, que sempre precedem as reformas profundas.

3o. - Não se queixa a administração da colonia de que um unico dos libertos haja sonegado sequer, quando mais roubado, um grão de café, que elles colhem, e que devem levar ao beneficio industrial. Não se queixam nenhum visinho, nem ninguem na povoação, quer habitante fixo, quer viajante, de que os libertos da colonia tenham tirado objectos alheios, nem os viajantes se podem queixar de que elles lhes peçam cousa alguma, e menos que se entreguem á mendicidade na ruas e estradas, ou em illudir alguem com trapaças ou armadilhas á boa fé.

Quando visitamos as colonias, os homens achavam-se, pela maior parte, nos trabalhos do campo, e as mulheres em casa, occupando-se dos filhos e da sua economia domestica, rudimentar e mais que modesta ainda.

Penetramos em algumas habitações e reconhecemos o contentamento dos colonos por sua nova condição, mas todos se queixavam do que todos se queixam... da escassez de meios para realizarem seus desejos de melhoramentos.

Antes da libertação e da constituição da colonia, apezar da extrema bondade da condessa do Rio Novo, só havia oito casaes legitimos na fazenda; depois, porém de 20 de Janeiro de 1883 até hoje, dentro do espaço de um anno, ou desde a epocha em que foi constituida a colonia, realisaram-se mais 62 casamentos, a maior parte logo após a constituição da colonia, prefazendo ao todo 70 casamentos, ficando portanto a grande maioria dos colonos constituida em familias legaes e legitimando assim seus filhos aquelles que já os tinham antes do casamento.

(...)

6o. - A colonia contém 58 casas, feitas todas pelos colonos, depois de sua libertação e da constituição da colonia, depois de sua libertação e da constituição da colonia, isto é, de 20 de Janeiro de 1883, ou ha um anno exacto. Estas casas não se acham todas juntas, constituindo um povoado unico, mas separadas umas das outras e independentes. Ellas acham-se de preferencia dentro dos diversos lotes de terra.

Além dessas casas especiaes dos colonos, e por elles feitas, devemos mencionar duas casas maiores, já existentes antes da libertação, uma chamada Sítio e outra, Sant'Anna, constando de quatorze lances; ambas são cobertas de telhas, e ahi moram algumas familias de colonos.

Das 58 casas, 11 são cobertas de telhas, e apresentam já certa commodidade relativa, todas possuindo portas e janellas, e maior parte com caixilhos e entre ellas já havendo umas duas com portas e janellas pintadas, e alguns quartos soalhados."

Fonte: A IMMIGRAÇÃO: ORGÃO DA SOCIEDADE CENTRAL DE IMIGRAÇÃO (Rio de Janeiro/RJ), boletim 003, dez. 1883 a ago. 1884, pág. 10, col. 01, pág. 11, col. 01-02

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Histórico do Município de Vacaria/RS


"No parecer do curador da Fazenda das Índias, a história do município de Vacaria começa no momento em que os portugueses e paulistas se deram conta de que a Capitania Del Rey não era um vasto deserto utópico e aterrador que poderia ser doado a quem pretendesse.

Em 1672, nos portões de Vacaria, os jesuítas implantaram marcos com a legenda 'S.J. 1672'

Em 1680, expandiu-se o domínio português até o Rio da Prata através da fundação da Colônia do Sacramento. Aconteceram guerras envolvendo aventureiros e os empreendimentos jesuíticos das Missões, resultando no aprisionamento de índios para serem comercializados no mercado de escravos, posses de imensos rebanhos de gado que as 'baquerias' jesuíticas possuem e os campos de Vacaria passaram a ser objeto de inúmeras incursões por parte dos portugueses e paulistas.

De Laguna, o ponto mais meridional do povoado português, partiram duas expedições oficiais para determinar um caminho, por terra, para Sacramento. Uma escapou do cativeiro que sofreu na guerra contra os índios, a outra logrou êxito em seu objetivo. Porém, no caminho de volta, encontrou-se espanhóis que, com os índios civilizados e dependentes das Missões, vinham escolhendo outras localidades para se estabelecerem. Estes índios foram capturados e levados a Laguna e trouxeram de lá dos seus missionários a proibição de fundarem povoações na Capitania, agora totalmente de domínio português.

Os jesuítas das Missões espanholas fundaram oito baquerias para a criação de gado bovino. Estimava-se um total de 200 mil cabeças de gado, que foram sendo constantemente saqueadas por paulistas. Em 1712, abriram penosa picada em Mato Castelhano e Português por cuja clareira fizeram passar 120 mil cabeças para soltarem no recente pasto 'Baqueria de Los Piñales', sendo esta a última baqueria organizada no avanço jesuítico da margem esquerda do Uruguai, devido ao seu território ser delimitado pelos rios Pelotas e das Antas, evitando assim que o gado se perdesse.

Em 1735, Manuel Dias da Silva, comandando um magote de paulistanos, substitui os marcos espanhóis por títulos portugueses nos campos de Vacaria a porta oriental da conquista do Rio Grande do Sul.

Em 1752 e 1754, foram concedidas as quatro mais antigas sesmarias desta região, dando início ao povoamento.

Este município originalmente pertenceu a Santo Antônio da Patrulha. Em 22/10/1850, a Lei no. 185 criou o município de Vacaria, vinculando-o a São Borja, transferindo-o após para Lagoa Vermelha.

Em 16/02/1875, passou para Porto Alegre e a Lei no. 139, de 06/11/1857 extinguiu o município anexando-o novamente a Santo Antônio da Patrulha.

Pela Lei no. 12/04/1876, foi restaurada a condição de município, cuja sede era em Vermelha."

Fonte: ATLÂNTICO (RS), 25 de Janeiro de 1999, pág. 04

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Os "Novos Muckers"


"Novos Muckers

O Conservador deu-nos hontem esta noticia:

Por uma carta que recebemos de Santa Cruz, sabemos estar organisada, na linha Formosa, uma nova seita destes fanaticos, composta de 40 homens e que funccionam todos os sabbados, sob a direcção da mulher de um tal Feuerhammel, que tem o titulo de santa por estar em communicação com o archanjo S. Gabriel.

O marido da santa é um typo semelhante ao Maurer.

Já quizeram matar o padre Falch.

O delegado de policia do lugar já tomou suas providencias, no sentido de extinguir esses apostolos do fanatismo.

Veremos reproduzidas as scenas que tiveram como desfecho a morte do inditoso coronel Genuino?"

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 12 de Fevereiro de 1886, pág. 01, col. 05

"Novos muckers

Tivemos noticia minuciosa sobre a nova seita de muckers, organisada na colonia Dona Josepha.

Eis o que de Santa Cruz nos escreve um amigo, em 11 do corrente:

Na linha colonial Dona Josepha, d'este municipio, existe e vai de dia a dia tomando incremento uma nova seita de muckers, cuja chefe inspirada, nova Jacobina, é a mulher de um tal Feuerhammel.

Os competentes apostolo, Judas et reliquia já estão empertigados nas suas respectivas curúes, ao lado da preciosa santa.

Falta um Pilatos, e esse creio que não se fará esperar na pessoa do sr. dr. chefe de policia, impondo-se áquellas seraphicas creaturas por intermedio de providencias energicas que não convém por modo algum demorar.

Escolheram já para as suas praticas da fanatica estupidez, um lugar verdadeiramente estrategico e obrigaram o dono de uma casa que ali existe e que custou mais de dois contos de réis, a vendel-a por 800$000 á seita.

Pessoa muito acreditada relatou-nos hoje o seguinte curioso e bem significativo facto:

O pastor evangelico d'aquellas paragens, cidadão Eduardo Falk, foi convidado para fazer parte da seita e negou-se formalmente.

Entre os taes puritanos na occasião em que o refractario regressava tranquilamente de um dos seus misteres religiosos, esperaram-n'o em caminho e ahi aggrediram-n'o com insolentes ameaças de morte, tratando logo de unirem a acção ao gesto. O pastor Falk, conhecendo a inefficacia da luta por sua parte, á vista da superioridade numerica dos aggressores, teve uma lembrança felicissima. - Arrancou do bolso um vidrinho de tintura homeopathica, mostrou-o recuando um pouco, disse-lhes com voz firme: ' - Afastem-se, miseraveis! do contrario morrem todos com a explosão d'esta bomba de dynamite!'

Á vista d'isso, os piedosos puritanos trataram pressurosos de dar ás de villa Diogo, por julgarem assim mais barato.

Ahi ficam sem commentarios.

Sabemos que o actual delegado de policia d'este termo, sr. Pedro José Koelzer, dirigio-se ao sr. dr. chefe de policia reclamando providencias.

É tempo. Antes prevenir do que castigar."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 15 de Fevereiro de 1886, pág. 01, col. 02

"Os novos muckers

Escrevem-nos de Santa Cruz, em 19 do corrente.

O delegado de policia d'este termo, sr. Pedro José Koelzer abrio hontem inquerito sobre a questão dos suppostos muckers.

Até á hora em que escrevo (4 da tarde) foram inqueridos Francisco Müller, Guilherme Waldow e Ernesto Martin. Os dois primeiros membros da seita e o ultimo inspector do quarteirão.

Frederico Müller declarou que a seita não é de muckers e sim uma agremiação de individuos que, por espirito religioso, fazem suas reuniões para leitura e interpretação de trechos da Biblia, com o que pretendem obter o caminho do céo; e que só podem ser filiados á seita aquelles que fizerem antes uma profissão de fé confessando que, sendo grandes peccadores, ao entrarem para a sociedade, deixam fóra todos os peccados, e consideram-se lavados pelo sangue de Christo.

Disse tambem que a mulher de Feuerhammel não é inspirada por nenhuma divindade, mas que tem o espirito em alto gráo dominado pelas verdades da sua religião, e sob esse influxo procura incutir, com a fé que tem, nos animos dos adeptos, os mesmos sentimentos. - Que em algumas das reuniões, que têm sempre lugar aos domingos, tomou ella a palavra e discursou; mas elle respondente ponderou-lhe uma vez que a doutrina pelo discurso era mais conveniente ser prégada por homens.

Que os fundadores da seita foram o mesmo Feuerhammel e sua mulher, e que os adeptos homens são apenas em numero de doze, cujos nomes declarou.

Guilherme Waldow declarou que, depois de fazer parte da seita, sente em si a inspiração do Espírito Santo e que a mulher de Feuerhammel é tambem inspirada. Que essa inspiração, elle Waldow nunca sentio antes de pertencer áquella seita, que tem por um dos seus principios o anabaptismo.

O inspector Ernesto Martin affirmou a existencia da seita e o segredo com que funccionava esta em suas reuniões, que têm tambem lugar á noite, finalisando sempre depois da meia noite.

Rectificando a noticia que dei em data do 11 do corrente, cumpre-me declarar que a seita acha-se estabelecida na linha Formosa d'este termo e não na de D. Josepha como disse ali.

O inquerito prosegue.

Hoje veio a chamado da autoridade o tal Feuerhammel - a inspirada - allegou doença com o chamado e não veio.

Do apanhamento que eu fizer darei resumo á Federação.

São muckers ou anabaptistas?

É o que resta saber."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 23 de Fevereiro de 1886, pág. 01, col. 04




domingo, 18 de agosto de 2019

A Pedreira da Palma


"BARRA DA PROVINCIA

Do Rio-Grandense de Pelotas:

Estiveram na Palma, n'este municipio, fazenda do nosso distincto amigo sr. Manoel Nunes Baptista, o illustrado engenheiro hollandez sr. P. Calland, acompanhado de seu secretario, e os srs. drs. Bicalho, Saboia e Lopo Netto, e examinaram uma pedreira que ali existe e os mattos.

Pelo exame verificaram que a pedra é de superior qualidade e apropriada para empregar-se nas obras hydraulicas que se pretendem fazer na barra da provincia.

O illustre engenheiro sr. Calland e seus dignos companheiros foram obsequiados pelo distincto cavalheiro sr. Baptista com um lauto almoço."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 05 de Outubro de 1885, pág. 01, col. 02

A serenidade de um condenado


"ISTO É QUE É MORRER!

Extrahimos:

Ovando, coronel das forças de Entre-Rios, sendo prisioneiro em uma batalha contras as forças do general Lopez, governador de Santa Fé, foi levado á presença d'este em occasião que almoçava.

Lopez, que, além das condições de guerra, era inimigo pessoal de Ovando, soube recebel-o cortezmente, convidando-o a partilhar da sua mesa. Ovando aceitou com essa naturalidade e franqueza como se viesse a convite de um amigo.

Durante o almoço conversaram tranquilamente. No correr da convivencia disse Lopez:

- Coronel, se eu tivesse cahido em suas mãos, como cahistes agora nas minhas, o que farias?

- Convidava-o para almoçar, como o fez v. ex. comigo.

- E depois?

- Mandava-o fuzilar.

- Estimo muito que pense como eu: em acabando de almoçar será fuzilado.

- Se não quer demorar muito, póde ser já.

- Não, acabe de almoçar descansado; não tenha muita pressa.

Ovando continuou a almoçar placidamente, e, acabando, disse:

- Julgo ser tempo.

- Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse, respondeu Lopez.

E chamando seu camarada:

- O piquete está prompto?

- Sim, meu general.

Lopez voltando para Ovando:

- Adeus, coronel...

- Adeus, não: até á vista, porque não se vive muito tempo quando se fazem guerras como as nossas.

E comprimentando Lopez sahio.

Cinco minutos depois uma descarga annunciava que Ovando era cadaver."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 20 de Março de 1885, pág. 02, col. 01

  

sábado, 17 de agosto de 2019

Capitão Sezefredo e seus companheiros


"Um episodio de 35

Leitores, aquelle que vem hoje roubar-vos o tempo, occupando a vossa benevola attenção é aquelle mesmo ousado e obscuro camponio, que, abusando da complacencia que lhe tendes dispensado para os seus escriptos, attirou-se agora a maiores commettimentos, a mares mais largos, a horisontes mais vastos, a historiador, emfim, de um episodio de 35.

São protagonistas d'esse inaudito acto de valor o capitão da Republica Sezefredo Alves Coelho de Mesquita e seus companheiros - o mulato Lourenço Cabelleira, Ricardo Pimpão e o indio Ventura.

Ha 44 annos que nos campos de Jaguary, municipio de S. Gabriel, o então capitão da Republica Sezefredo Alves Coelho de Mesquita, morto nos campos do Paraguay, no posto de coronel, praticou um dos mais estupendos actos de bravura que registraram as armas da mesma Republica, como posso fielmente a narrar.

E não se me argúa de parcialidade por ser eu proximo parente d'aquelle finado e ter sido seu intimo amigo; fallo diante de um publico entre o qual ainda existem contemporaneos da benemerita cruzada de 35.

✤✤✤✤✤

O capitão Sezefredo dirigiu-se, com uma partida de 20 homens mais ou menos, em direcção a Jaguary, com o fim de bater, uma partida inimiga, commandada por um celebre cabo Cardoso, mais altaneiro e bandido do que verdadeiro soldado da legalidade, mas que a esse partido prestava seu apoio em certas e determinadas occasiões, ou, para melhor dizer, quando queria e lhe convinha.

Disse que Sezefredo commandava mais ou menos 20 homens. Não. Elle, é verdade, tinha esse numero de gente, porém HOMENS só tinha os tres companheiros acima citados.

O restante da gente de Sezefredo era puramente uma creançada.

Sezefredo ia e Cardoso vinha, ambos pela mesma estrada, e, sem se terem avistado ate´ali, encontraram-se, quando menos o esperavam, ao coroar uma coxilha.

Ambos fizeram alto.

Cardoso trazia mais ou menos doze homens, d'estes de dar e tomar, para o que désse e viésse.

Cardoso tinha receio de carregar, não só pela superioridade do numero, como pelo respeito que lhe impunha o chefe inimigo que tinha em sua frente.

Sezefredo, por seu turno, tambem receiava carregar, porque contava para o effeito sómente com quatro homens, inclusive elle.

Entretanto, emquanto ambos assim reflectiam, a troca de tiros tinha principiado.

Bala para lá, bala para cá, carrega, não carrega, uma bala inimiga mata o cavallo de Sezefredo, o qual cahe apertando-lhe a perna esquerda debaixo do corpo, ficando demais a mais a chilena presa na barrigueira da sincha!

A creançada inexperiente, vendo cahir seu chefe, assusta-se e dispara, e o inimigo encoraja-se e atropella.

Lourenço, Ricardo e Ventura bolleam a perna e amparam Sezefredo.

Metade da força inimiga cerca-os e a outra parte segue a derrota, indo Cardoso n'este numero.

Aquelles fazem carga sobre Sezefredo, que é defendido pelos seus tres heróes, defendendo-se elle tambem com a espada, conforme lhe permittia a critica posição em que se achava.

O inimigo fazia carga sobre carga, afim de não dar tempo que os companheiros de Sezefredo pudessem tirar-lhe o cavallo de cima.

Lourenço, que n'essa situação excepcional e difficillima valia por cem e que o quanto tinha de valente tinha de dextro nas armas, regeita, isto é, jarretou com a espada o cavallo de um dos inimigos.

Este vem ao chão e elle o mata a golpes de espada e toma-lhe a lança.

Senhor d'esta arma e quando o inimigo tinha cahido sobre seus companheiros, ferindo Ricardo com muitos golpes, Lourenço de um salto alcança outro inimigo e arremeçando a lança pelo ar, atravessa-o de lado a lado.

É n'este interim que chegam Cardoso e seus companheiros, a meia redea, nada tendo feito, porque a rapaziada, bem montada, toda se havia escapado.

O momento agora era supremo.

Eram dez contra dois, porque um estava preso e o outro gravemente ferido.

Cardoso, na furia em que vinha, enrista a lança e manda sua gente carregar sobre Lourenço, Ricardo e Ventura, indo elle em pessoa contra Sezefredo, que ainda se achava na mesma difficil posição.

Cardos apruma-se nos estribos, cala a lança e brada:

- Oh! grande Fredo! és tu mesmo que eu queria encontrar!

Sezefredo, que tinha posto a mão e em reserva a um pistolão carregado, para um lance extremo, antes que Cardoso desferisse o golpe, prende-lhe fogo, entrando a bala no estômago do inimigo e sahindo-lhe na nuca!

Cardoso larga a lança e cahe abraçado ao pescoço do cavallo. Seus companheiros assustam-se; um, porém, salta na garupa do cavallo de Cardoso, segura-lhe o corpo ainda semi-vivo e partem todos em fuga campo fóra.

Lourenço e Ventura soltam o cavallo morto e o tiram de cima de Sezefredo, que, ainda com a perna morta, por falta de circulação, manda sua gente montar a cavallo, pula em um dos cavallos dos inimigos, e, brandindo a lança de Cardoso, sahe em perseguição dos fugitivos.

O arrojo, a audacia, a temeridade tinham se apoderado de Sezefredo e de seus tres companheiros.

N'aquelle faustoso momento eram alguma cousa mais do que homens. Eram indomitos e sedentos leões espumantes de cólera!

Parecia que a propria natureza como que curvava-se e obedecia aos seus menores acénos.

Brandindo as lanças, partem a toda brida.

A pouca distancia alcançam o inimigo e o desbaratam completamente, tomando ainda o cadaver de Cardoso, que seus companheiros o lançaram por terra para melhor se poderem escapar.

Ficou por esta fórma Sezefredo victorioso, senhor do campo, tendo colhido o mais brilhante florão de gloria para as armas da Republica.

Por este acto de inexcedivel bravura, o general Netto e quiz promover ao posto de major. Elle agradeceu, respondendo que a gloria d'aquella acção cabia toda inteira sobre os seus três dignos e valentes companheiros.

✤✤✤✤✤

Como complemento a esta noticia, accrescento:

Os estraviados de Sezefredo vieram dar a S. Gabriel, onde Sezefredo tinha sua familia, isto é, mãi, irmãs e seu cunhado, o capitão Militão da Silva Lemos, commandante da policia, asseverando a este e áquella afflictissima familia que Sezefredo era morto, pois que o tinham visto cahir e o inimigo apoderar-se d'elle.

Militão communica o facto ao general Canabarro, que se achava acampado a poucas legoas.

O general manda sem perda de tempo sahir uma partida, da qual faz parte o que escreve estas linhas, para apresentar-se a Militão e d'elle receber instrucções para a perseguição do inimigo.

Sem perder tempo, chegámos a S. Gabriel, e nos apresentamos a Militão, que, de mãos para traz, passeava na frente de sua casa, opprimido ao peso da dor.

Era pungente e indescriptivel o quadro de afflicção, de desespero da familia de Sezefredo, por quem era elle idolatrado.

No meio, porém, d'essa pungente desolação, eis que na outra extremidade da rua aponta um garboso e elegante cavalleiro, á frente de tres homens em fórma.

Eu os vi primeiro do que ninguem, chamei Militão (que era meu primo irmão, assim como tambem o era de Sezefredo) e apontei para o lado d'onde vinham os cavalleiros.

Militão fica por um momento estatico. Cobra animo, corre para dentro e diz á familia:

- Não choram, é falsa a noticia; Sezefredo não demora aqui, são e salvo!

A familia fica surpreza.

Militão corre ao encontro de seu cunhado e em duas palavras conta-lhe tudo.

Volta outra vez para dentro e affirma o que já havia dito.

Prevenidos assim os animos da familia para a transição por que ia passar, entrou Sezefredo a cavallo pelo portão que deitava para o páteo, onde foi apeiar-se.

Deixo agora á apreciação do leitor ajuizar o que houve então de pranto, riso e lagrimas.

✤✤✤✤✤

Que é hoje feito d'esses quatro heróes, ao cabo de 44 annos?

Sezefredo, como já disse, morreu de cholera-morbus, na guerra do Paraguay.

Lourenço foi mandado fuzilar, logo depois d'aquella época, pelo general Canabarro, pelos muitos assassinatos que praticou e entre elles o de Joaquim da Rocha e Souza, em sua residencia, no Passo Queimado, sem outro motivo para semelhante fim mais do que a sêde de sangue.

Devemos convir que se Lourenço era um leão indomito na bravura, era tambem um tigre na ferocidade.

Ricardo, não sei o que é feito d'elle, se é vivo ou morto.

Ventura, consta-me que existe em S. Gabriel, aggregado a um dos membros da familia Prates.

✤✤✤✤✤

Sezefredo Alves Coelho de Mesquita nasceu a 14 de setembro de 1820, tendo, portanto, 47 annos de idade ao tempo de sua morte e sómente 21 quando praticou os prodigios de valor que acabo de referir.

Apresentou-se voluntario ás armas da Republica tendo apenas 16 annos, aos 17 era tenente e aos 20 incompletos capitão.

É que os generaes da Republica sabiam premiar o merito e por isso tiveram espadas como as de Guedes, Teixeira, Amaral, Juca Jacintho, Valença, Portinho, Carvalho, Fructuoso e centenares de outros, com os quaes obrigaram o governo imperial a vir no fim de dez annos de luta a propor e firmar o tratado de paz de 28 de fevereiro, cabendo para as armas da Republica o mais brilhante e o mais honroso quinhão de gloria.

A.N. DE MELLO COSTA

S. Sepé, 31 de julho de 1885."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 14 de Agosto de 1885, pág. 02, col. 04




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