quarta-feira, 4 de julho de 2018

O Namoro de Bufarinheiro


"Uma vez que, na Idade Moderna, erótico designava 'o que tivesse relação com o amor', como essa definição se materializaria em práticas? Há registros de estratégias de sedução que soariam pouco familiares e mesmo pueris aos olhos de hoje. É o caso do 'namoro de bufarinheiro', descrito por Júlio Dantas, corrente em Portugal e no Brasil, ao menos nas cidades. Consistia em passarem os homens a distribuir piscadelas de olhos e a fazerem gestos sutis com as mãos e bocas para as mulheres que se postavam à janela, em dias de procissão, como se fossem eles bufarinheiros a anunciar seus produtos. É também o caso do 'namoro de escarrinho', costume luso-brasileiro dos séculos XVII e XVIII, no qual o enamorado punha-se embaixo da janela da moça e dizia nada, limitando-se a fungar à maneira de gente resfriada. Caso a declaração fosse correspondida, seguia-se uma cadeia de tosses, assoar de narizes e cuspidelas. Escapa-nos, sobremaneira, o apelo sedutor que os tais 'escarrinhos' poderiam ser naquele tempo, mas sabe-se que até hoje, no interior do país, o namoro à janela das moças não desapareceu de todo."

Fonte: DEL PRIORE, Mary. História íntima. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011, pág. 45-46.

terça-feira, 3 de julho de 2018

A Nobreza Gaúcha - Parte 03


" - Visconde de Serro Alegre
João da Silva Tavares.

Nasceu em Erval, RS, em 1792, e morreu em Bagé, RS, em 1872.
Militar, combateu contra os farroupilhas no Rio Grande do Sul. Deputado e estancieiro. Já perto dos 70 anos, combateu na Guerra do Paraguai.
Pai do Barão de Itaqui e do Barão de Santa Tecla.
Recebeu o título de Barão, em 1866, e o de Visconde, em 1871, de Dom Pedro II.

- Visconde de Serro Azul
João Antônio Pereira Martins.

Nasceu em Ponte Lima, Portugal, no ano de 1768, e morreu em Pelotas, RS, em 1847.
Foi o maior latifundiário de toda a história do Rio Grande do Sul.
Suas estâncias começavam em Piratini e Bagé, entrando pelo Uruguai adentro. Por isso, podia ir do Rio Grande do Sul até Montevidéu viajando pelas suas terras.
Participou das lutas da Banda Oriental (Uruguai) e Guerra Cisplatina. Foi ferido na Batalha do Passo do Rosário, onde morreu o Barão de Cerro Largo.
Colaborava com obras de caridade e contribuía para comprar armas.
Recebeu o título, em 1826, de Dom Pedro I.

- Visconde de Serro Formoso
Francisco Pereira Machado.

Nasceu em Rio Pardo, RS, no ano de 1806, e morreu em Porto Alegre, RS, em 1888.
Comandante da Guarda Nacional. Grande proprietário. Durante a Guerra do Paraguai mandou para a luta os quatro filhos e cinquenta escravos.
Durante a campanha abolicionista, libertou todos os seus escravos.
Barão em 1872, Visconde em 1885, títulos recebidos de Dom Pedro II.

- Barão de Três Serros
Aníbal Antunes Maciel.

Nasceu em Pelotas, RS, em 1838, e morreu em 1887, na mesma cidade.
Grande proprietário.
Membro de destaque na sociedade pelotense. Advogou muitos anos.
Recebeu o título, em 1884, de Dom Pedro II.

- Barão de Viamão
Hilário Pereira Fortes.

Nasceu em Rio Pardo, RS, em 1810, morreu em Cachoeira do Sul, RS, em 1889.
Foi grande proprietário e Coronel da Guarda Nacional.
Recebeu o título de Dom Pedro II, em 1871.


Fonte: BELLOMO, Harry Rodrigues. A Nobreza Titulada Gaúcha. In: NEUBERGER, Lotário. RS no contexto do Brasil. Porto Alegre: CIPEL/EDIPLAT, 2000, p. 219-221.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

A Colônia de São Lourenço do Sul em 1876


"SUL DO IMPERIO

(...)

- O Paiz, jornal de Pelotas, apresentou em um de seus ultimos numeros o seguinte esboço a respeito da colonia de S. Lourenço, que bem deixa de ver o estado florescente em que marcha aquelle moderno estabelecimento, que tão util já nos tem sido, e muito cooperará para o engrandecimento de Pelotas, em cujo município se acha situado:

Os primeiros colonos chegaram aqui no dia 18 de Janeiro de 1858.

Tem a colonia 734 fogos com 5.130 habitantes, dos quaes professam 430 a religião catholica e 4.700 a religião protestante.

Existem 16 escolas particulares, seus mestres são pagos pelos colonos.

Não ha aula publica.

Ha completa falta de igrejas, e existe na colonia só um padre protestante, que celebra as ceremonias de seu culto nas casas das escolas.

Ha umas igrejas catholicas que ainda não estão acabadas.

Os productos de exportação são: milho, feijão, batatas, trigo, centeio, cevada, estes três ultimos em grão e em farinha; manteiga, banha, toucinho, ovos, galinhaas, lenhas e madeiras de construcção; a exportacção tem sido pouca ou quasi nenhuma este anno, em consequencia dos estragos causados pelos ratos que tem havido na Serra dos Tapes, e em logar de exportar, tiveram os colonos de comprar de outros logares, principalmente milho, como também feijão e batatas; assim foi este anno muito infeliz para os moradores da Serra de Tapes.

A saude publica foi satisfactoria.

Ha um medico e uma botica.

Existem na colonia cinco moinhos movidos por agua e um a vapor, todos muito pouco tiveram que fazer em consequencia dos estragos feitos pelos ratos.

Casas de negocio ha 16, e ha os seguintes officios: 10 ferreiros, 12 carpinteiros, 5 alfaiates, 10 sapateiros, 12 (ilegível), 4 correeiros, 4 curtidores, 3 pedreiros e uma fabrica de cerveja.

Tendo havido no anno de 1875 uma exportacção no valor de 350:000$, pouco mais ou menos, mas neste anno o valor dos productos exportados nem chega para as despezas das diversas familias. 

Ha como 320 carretinhas, de quatro rodas puxadas por cavallos, pertencentes aos mesmos colonos, que levam seus productos a Pelotas, no porto de S. Lourenço e para o interior da campanha até Bagé, para vendel-os.

É para lamentar-se a falta de ordem, e enormes abusos que tem havido nesta colonia por parte das autoridades policiaes."

Fonte: DIARIO DO RIO DE JANEIRO (RJ), 26 e 27 de Dezembro de 1876, p.01, c.05-06




domingo, 1 de julho de 2018

Histórias Curiosas LXIV

Barbearia do centro do município de Capão do Leão, sábado à tarde, e a copa de mundo rolando lá na Rússia. A Argentina havia sido batida nas oitavas de final pela França e o barbeiro atendia um cliente conversando sobre futebol, jogadores, a eliminação argentina, e etc. Outros três homens aguardavam a sua vez e logo iria começar outro jogo na televisão. Enfim, todo mundo no mesmo assunto.

Na animada conversa, as pérolas saem naturalmente. 

 - Tchê, aquela zaga da Argentina é muito fraca! Tu viu aquele jogador da França, o Mibatê? Como corre aquele guri! (Mbappé virou "Mibatê").

- O Nilmar é muito exibido, aquele choro no final do jogo foi para chamar atenção! (Nilmar é o Neymar, e olha que foi ouvida umas quantas vezes o tal de "Nilmar").

- Olha, se o Brasil passar pelo México, eu tenho medo da Bélgica. Como jogam aqueles caras. Eles tem um atacante forte, trombador, o Lucas Sú ("Lukaku"?).

- Quem tá levando o Brasil nas costas é o Felipe Godinho!! Aquele outro guri, o Vágner ("Fágner" - esse foi o menos pior) também entrou bem.

Barbearia: centro de excelência para discutir futebol e política entre homens.

A Nobreza Gaúcha - Parte 02


" - Barão de Itaqui
João Nunes da Silva Tavares.

Nasceu em Erval, a 24/05/1816, morreu em Bagé, RS, em 1906, filho do Visconde de Serro Alegre e irmão do Barão de Santa Tecla.
Grande estancieiro, seguiu a carreira militar, chegando a brigadeiro.
Teve participação relevante na Guerra do Paraguai (1864-1870). Foi um dos principais chefes da Revolução Federalista (1893).
Recebeu o título de Dom Pedro II, em 1870.

- Visconde de Jaguari
Domingos de Castro Antiqueira.

Nasceu em Viamão, RS, e morreu em Pelotas em 1852.
Recebeu o título de Barão de Dom Pedro I, em 1829 e o de Visconde, de Dom Pedro II, em 1846.
Foi político e grande proprietário.

- Barão de Jaraú
Joaquim José de Assunção.

Nasceu em Pelotas, RS, em 1830, morreu na mesma cidade em 1898.
Proprietário e figura expressiva da sociedade pelotense, era cunhado do Visconde da Graça. Foi um dos maiores industriais da região.
Recebeu o título, em 1888, de Dom Pedro II.

- Barão de Nonoai
João Pereira de Almeida.

Nasceu em Santa Maria, RS, em 1830, e morreu em Porto Alegre, RS, em 1897.
Foi grande proprietário e Coronel da Guarda Nacional. Tinha grande influência política.
Recebeu o título, em 1886, de Dom Pedro II.

- Conde de Piratinim ou Piratini
João Francisco Vieira Braga.

Nasceu em Piratini, RS, em 1793, morreu em Pelotas, RS, em 1887.
Grande proprietário. Deputado e vice-presidente da Província do Rio Grande do Sul.
Fundou a Santa Casa de Pelotas, asilos e a Biblioteca Pública.
Contribuiu com grande quantias para a Guerra Cisplatina (1826) e a Guerra do Paraguai.
Foi Barão em 1854, Visconde e Conde em 1885, títulos recebidos de Dom Pedro II.

- Barão de Quaraim
Pedro Rodrigues Fernandes Chaves.

Nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1810, morreu na cidade de Pisa, Itália, em 1866.
Formado em Direito, seguiu a carreira na magistratura. Foi juiz, desembargador, deputado, senador, presidente da Província da Paraíba e representou o Brasil no Uruguai e Estados Unidos. Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.
A Condessa de São Clemente era sua filha.
Recebeu o título, em 1855, de Dom Pedro II.

- Visconde de Ribeiro Magalhães
Antônio Nunes Ribeiro Magalhães.

Nascido em Portugal, foi grande proprietário de terras e charqueadas na região da cidade de Bagé (RS).
Protetor de obras filantrópicas, recebeu o título de Visconde do Rei Dom Carlos I de Portugal, em 1905.
Morreu no início do século XX.

- Barão de Saicá
João Maria da Gama Lobo de Eça.

Nasceu em Santa Catarina, em 1800, e morreu no Rio Grande do Sul, em 1872.
Seguiu a carreira militar, chegando a brigadeiro.
Grande proprietário, participou das lutas da época. Sua esposa, Maria Alvares Trilha (1803-1876), era natural de Rio Pardo, RS.
Foi sogro do Conde de Porto Alegre.
Recebeu o título, em 1866, de Dom Pedro II.

- Barão de Santa Tecla
Joaquim da Silva Tavares.

Nasceu em Erval, RS, em 1830, e morreu em Bagé, RS, em 1900.
Grande proprietário, Coronel da Guarda Nacional, filho do Visconde de Serro Alegre, irmão do Barão de Itaqui.
Foi político e presidente da Província do Rio Grande do Sul.
Recebeu o título, em 1866, de Dom Pedro II.

- Visconde de São José do Norte
Eufrasio Lopes de Araújo.

Nasceu em Viamão, RS, em 1815, e morreu na mesma cidade, em 1880.
Foi grande estancieiro, chefe político e banqueiro. Contribuiu com grandes somas para a Guerra do Paraguai.
Recebeu o título de Barão em 1877, e o de Visconde, em 1888, ambos de Dom Pedro II.
Foi pai da Baronesa de Cruangi, depois Baronesa de Pinto Lima.

- Barão de São Lucas
Pedro Pereira de Escobar.

Nasceu em São Borja, RS, em 1808, e morreu nesta mesma cidade em 1893.
Grande proprietário.
Recebeu o título, em 1889, de Dom Pedro II.

- Conde de São Simão
Paulo Fernandes Carneiro Viana.

Nasceu no Rio Grande do Sul, em 1804, e morreu no Rio de Janeiro, em 1865.
Figura de destaque na Corte de Dom João VI e Dom Pedro I.
Casou com a filha da Baronesa de São Salvador dos Campos. Sua filha foi Viscondessa da Cachoeira.
Foi grande estancieiro.
Recebeu o título de Barão, em 1818, de Dom João VI, e, mais tarde, o de Barão (1823) e de Conde (1826) de Dom Pedro I."

Fonte: BELLOMO, Harry Rodrigues. A Nobreza Titulada Gaúcha. In: NEUBERGER, Lotário. RS no contexto do Brasil. Porto Alegre: CIPEL/EDIPLAT, 2000, p. 216-219.





sábado, 30 de junho de 2018

Santos populares argentinos


"A cúpula da Igreja Católica não reconhece esses santos no 'panteão' oficial dos santos canonizados pelo Vaticano, já que para isso seriam necessários dois milagres confirmados, verificados por doutores em teologia. O segundo e o terceiro escalão do clero geralmente encaram os cultos como 'manifestações de intensa fé'. Mas tentam conduzir os fiéis para o culto de santos 'autorizados'.

Os santos 'populares', com raras exceções, tiveram mortes trágicas. Geralmente são falecimentos de elevado sofrimento... uma espécie de 'passaporte' com visto especial que os coloca em contato direto com Deus. E, além disso, as mortes trágicas limpam os mártires de todos os seus pecados.

De quebra, são santos 'locais', isto é, uma espécie de encarregados diretos, com menos serviço do que os santos ou virgens de alçada mundial. Dessa forma, o milagre solicitado deve - teoricamente - ser concedido (se for o caso) de forma mais rápida.

As lendas indicam que esses santos não oficiais possuem maior 'percepção social' do que seus congêneres europeus e compreendem melhor eventuais escorregões de seus fiéis, como roubar por necessidade.

Não seria adequado solicitar ajuda celestial a um santo como São Francisco, São Miguel, Santa Teresa ou as Virgens de Covadonga, Fuencisla ou Lourdes para ter sucesso em um eventual roubo com o qual poderá saciar a fome de sua família. Mas a pessoa em questão pode, sim, pedir ao Gauchito Gil um respaldo santificado nessa empreitada. No entanto, o Gauchito condenaria e puniria um roubo por cobiça. A Difunta Correa, por sua vez, além de ajudar as pessoas, castigaria aquelas que se comportam mal.

O culto a alguns santos 'populares', que no final do século XIX ou na primeira metade do século XX estava restrito a suas áreas originais de influência nas pequenas cidades do interior da Argentina, começou a expandir-se para as grandes cidades do país. Dessa forma, atualmente é comum ver taxistas com estampas do Gauchito Gil ou comerciantes com uma foto do altar de Gilda ao lado da caixa registradora. O Gauchito Gil conta até com grupo na rede social Facebook.

Entre os vários santos 'populares', estão também Vairoleto, em La Pampa e Mendoza; San La Muerte, em Corrientes e no Chaco; María Soledad, em Catamarca.

Ainda são alvos de adoração os cantores argentinos do estilo musical cumbia Gilda e Rodrigo Bueno. Ambos morreram em acidentes de automóvel (respectivamente em 1996 e 2000), quando viajavam nas estradas, de um show para outro.

E quem são eles? Deolinda Correa, mais conhecida como a Difunta Correa (A defunta Correa), era a mulher de um homem que foi obrigado a engajar-se em um dos exércitos que protagonizavam a miríade de guerras civis que assolavam a Argentina nas primeiras décadas do século XIX.

Deolinda tentou seguir a trilha dos soldados que haviam levado seu marido. Mas, carregando seu bebê nos braços, perdeu-se no meio de uma área desértica. Esgotada, sentou-se no chão e morreu de sede.

Dias depois, um grupo de gauchos  passou por ali. Os homens viram o corpo sem vida de Deolinda. E em seus braços - diz a lenda - estava seu bebê, que ainda mamava dos seios cheios de leite da mãe morta. A criança foi resgatada.

Gradualmente, os gauchos, que nos anos seguintes passavam pelo local, começaram a deixar garrafas d'água para saciar a eterna sede da Difunta Correa. No final do século XIX, a peregrinação até o lugar começou a ficar intensa. O fenômeno consolidou-se no século XX.

No início, ela era procurada para realizar milagres relacionados à saúde, além de proteger os viajantes. Mas, em meio à série de crises que afetaram a Argentina nas últimas décadas, a Difunta passou a ser requerida para outras áreas.

Antonio Mamerto Gil Núñez, que entrou para o panteão extraoficial dos santos argentinos com o nome de Gauchito Gil, era um jovem gaucho que - segundo a lenda - comportava-se como uma espécie de Robin Hood local, roubando dos ricos para dar dinheiro às pessoas que passavam fome. No entanto, as autoridades da região, na época, o consideravam um gaucho briguento e ladrão.

Era misto de bandoleiro e benfeitor foi recrutado pelo Exército com o início da Guerra do Paraguai (1865-1870). Gil fugiu e tornou-se desertor. Outras versões indicam que não desertou e que também participou de um guerra civil interna em sua província. No meio desse segundo conflito bélico, teria tido uma visão, enquanto dormia, do deus guarani Ñandeyara, que lhe ordenou 'não derramar sangue dos irmãos'. Nesta segunda versão, Gil teria desertado dessa guerra civil.

Após desertar, dedicou-se a uma vida de 'Robin Hood'. Nas pausas, aproveitava para participar de festas e bailes.

Anos depois, foi encontrado pela polícia. Não tentou resistir, obedecendo à ordem de Ñandeyara.

Depois de uma longa sessão de torturas no meio do campo, os policiais penduraram Gil em um algarrobo (uma árvore de madeira muito dura) de cabeça para baixo.

Um dos policiais ergueu o punhal e preparou-se para cortar o pescoço de Gil. Nesse instante, o gaucho murmurou: 'seu filho está muito doente. Se você rezar para ele, a criança viverá. Caso contrário, morrerá'.

Gil também teria dito que, quando o policial voltasse para o vilarejo de Mercedes, além de saber da doença do filho, também ficaria sabendo que as autoridades haviam indultado o foragido. 'Você vai derramar sangue inocente, por isso, reze para mim para que eu interceda perante Deus Nosso Senhor pela vida de seu filho... o sangue dos inocentes costuma servir para fazer milagres', disse o prisioneiro.

O policial ignorou as informações e o degolou. Poucas horas depois, de volta a seu vilarejo, o policial foi informado de que seu filho estava profundamente doente. Desesperado, o policial rezou a Gil para que salvasse a criança. Segundo a lenda, o executado desertor salvou o menino do além. Agradecido, o policial enterrou Gil com as correspondentes honrarias cristãs e ergueu um santuário para ele.

Assim, o culto ao santo 'popular' começou no dia seguinte à sua morte. E, de quebra, seu primeiro devoto foi o próprio verdugo. Mas, apesar de sua morte em 1874, seu culto só tornou-se nacionalmente intenso nos últimos 30 anos, por causas econômicas.

Diplomaticamente, perante o crescente culto ao Gauchito Gil, em 2006, Ricardo Faifer, bispo da cidade de Goya, perto de Mercedes, o definiu como 'um irmão falecido que, acreditamos, está perto do Criador'.

O santuário, nas vizinhanças da cidade de Mercedes, na província de Corrientes, é objeto de peregrinações permanentes, para irritação da cúpula da Igreja Católica, que considera que seu culto é 'pagão'. A data em que o Gauchito é mais intensamente celebrado é 8 de janeiro, dia que teria marcado seu sacrifício.

A peregrinação ao santuário do Gauchito Gil reúne em média 130 mil pessoas no dia desse santo. Essa marca, na Argentina, só é ultrapassada pela romaria realizada à Basílica de Itatí, onde está a imagem da Virgem de Itatí.

O Gauchito Gil é retratado como um gaucho jovem, de cabelos longos e rebeldes que caem sobre os ombros, bigode e boleadoras (armas feitas de corda, com duas bolas na ponta) nas mãos. Atrás dele, costuma aparecer uma cruz. Se não fosse pela ausência da barba (somente possui o bigode) e a vestimenta gauchesca (e as boleadoras), sua figura poderia ser confundida com a iconografia costumeira de Jesus Cristo.

Entre todos os santos 'populares', o culto do Gauchito Gil é o que mais teve repercussões artísticas, tanto em forma de canções, filmes, como peças de teatro, além de obras repentistas.

Há um santo muito festejado que não é local. Headhunter celestial, San Cayetano (São Caetano) é o santo com maior ibope entre os argentinos, já que sua especialidade é a de conseguir trabalho para os desempregados e manter o emprego daqueles que já o possuem. Especialidade, por sinal, utilíssima nas últimas décadas. Sua data é 7 de agosto, dia de peregrinar às paróquias que esse santo possui em diversas partes do país."

Fonte: PALACIOS, Ariel. Os argentinos. São Paulo: Contexto, 2013, p. 204-208.




sexta-feira, 29 de junho de 2018

Colonos russos em Pelotas


"- Refere o Correio Mercantil de Pelotas:

<<Ha doze dias que se acham n'esta cidade dez dos colonos russos que se evadiram para Jaguarão no intuito de passar para o Estado Oriental, deixando de cumprir os compromissos que estavam obrigados para com o governo imperial.

<<Detidos alli, foram remettidos pela autoridade policial para esta cidade e aqui estão accommodados em casa do Sr. Antonio Jacobs, fazendo despezas ao cofre geral do estado e a espera de ordens quanto ao destino que lhes esta reservado.

<<Isso porém é o menos. O peior é que esses infelizes deixaram em Jaguarão as esposas e os filhos!

<<Separaram os das familias e elles lamentam hoje mais do que nunca as suas desgraças.

<<Que será feito d'essas pobres crianças, d'essas mulheres sem o apoio de seus maridos e de seus paes!

<<E' realmente um quadro contristador o que offerecem esses colonos.

<<Esperando esperanças que ligassem á sua sorte aos que lhe são caros e até hoje d'elles nem noticia!

<<Nem mais um colono veio de Jaguarão, como se tinha noticiado.>>"

Fonte: O MONITOR (BA), 30 de Julho de 1878, pág. 03, col. 01

"Os colonos russos, que estavam presos em Pelotas, foram postos em liberdade por ordem do sr. chefe de policia da provincia do Rio-Grande. O fundamento para a soltura foi que aquelles presos estavam sobrecarregando os cofres publicos."

Fonte: DIARIO DO MARANHÃO (MA), 11 de Setembro de 1878, pág. 02, col. 03


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...