domingo, 10 de dezembro de 2017

Significado e origem de sobrenomes alemães - Parte 60 - O uso do predicado nobre "von" nos sobrenomes alemães

O uso do predicado "von" é atestado desde Idade Média na área do antigo Sacro-Império Romano Germânico, principalmente na área do alto alemão medieval (centro e sul da Alemanha, Suíça, Áustria e regiões periféricas como a Boêmia, Alsácia-Lorena e norte da atual Itália, entre outras). Todavia, longe de ser uma preposição exclusiva para indicar uma procedência nobre, correspondia tão somente para denotar residência, domínio ou jurisdição. Isto é, até poderia, em determinados casos apontar uma pessoa da nobreza, mas poderia ser usado igualmente por um simples camponês, um artesão ou por um indivíduo de posição social intermediária empregado a um serviço administrativo ou judiciário. 

Somente a partir de 1630, o uso do preposição "von" começou a ser usado com mais frequência por casas aristocráticas como forma de indicar uma ascendência nobre. Porém, isto não foi um costume universal na área comum das línguas germânicas. No norte da Alemanha, imperou a tendência de acrescentar o sufixo "-mann" ao sobrenome como maneira de identificação fidalgal. 

O uso do "von" foi bastante generalizado, na verdade, na época da ascensão da Prússia, a partir do século XVIII. Com a expansão prussiana e a formação de uma influente nobreza terratenente a partir do leste, uma grande parcela das famílias nobres adotaram o "von" como um predicado para indicar sua origem aristocrática.

Mesmo com o apogeu prussiano durante o século XVIII e a primeira metade do século XIX, que culminou com a formação do Império Alemão em 1871, o uso de "von" em várias regiões setentrionais da Alemanha continuou apenas para indicar procedência geográfica. 

Por isso, somente uma pesquisa genealógica profunda pode dizer se alguém que possui um sobrenome de origem germânica com o preposição "von" é realmente de origem aristocrática. É consenso entre os principais estudiosos de Genealogia e Onomástica alemãs que o uso do "von", antes de ser considerado um título ou predicado nobre, era empregado para indicar origem.

Na verdade, o costume de associar uma preposição a uma procedência aristocrática foi mais comum na França do que na Alemanha. Lá sim, na maior parte dos casos, as preposições "de", "d'" ou "du" foram empregados por integrantes da alta, média e baixa nobrezas.

Significado e origem de sobrenomes alemães - Parte 59


885. Joachim: sobrenome patronímico que significa filho de Joachim (Joaquim em português). Pelo fato de ser um nome de origem hebraica e associado ao cristianismo, seu uso na Europa é muito antigo, remontando à Alta Idade Média. O mais antigo uso do patronímico na Alemanha data de 1359. O sobrenome ocorre em toda a Europa de língua alemã, com uma maior concentração no norte e leste da Alemanha.
Variantes:
Jaquim - variante arcaica na língua alemã, mas encontrada em outras línguas e dialetos na forma moderna.
Jochem, Jochen - variantes na área do baixo-alemão.
Achim, Jochin, Jochim, Kim, Jachi, Jojo, Jo, Joe, Joey, Jochi, Joschi, Joschy, Jockel, Jogi - variantes que ocorrem em diferentes regiões alemãs, conforme os dialetos e falares de determinados locais.
Achim, Akim, Jacim, Jacin, Joacim, Joakim, Jochum, Jock, Jocke, Jockum, Jokum, Kim, Kimm, Kimmy, Kimo - variantes encontradas na Dinamarca, norte da Alemanha, Países Baixos, Suécia e Bélgica.
Jochem, Jochum, Joggen, Jogen, Joggun, Jogun - variantes mais comuns nos Países Baixos e noroeste da Alemanha.
Jachym, Jochym, Achym - variantes mais comuns na língua polonesa.
Giuachin - variante no dialeto romanche.

886. Nienow: sobrenome toponímico que significa procedente de Nienowice (nome alemão Ninoff ou Ninhof). Nienowice é uma aldeia no município de Radymno, distrito de Jaroslaw, província da Subcarpácia, Polônia. O significado de Nienowice aproximadamente é campo plano, lugar de relevo plano, planície. A forma antiga Niniow é mais frequente na Europa. Data do século XVIII.
Variantes:
Ninow, Niniow, Ninof, Ninhof, Ninoff, Nieniow - variantes comuns.

887. Lietzow: sobrenome toponímico que significa procedente de Lietzow. Lietzow é um nome de lugar que ocorre quatro vezes:
1. Uma área no bairro de Charlottenburg, Berlim, Alemanha.
2. Um distrito rural na cidade de Havelland, Brandemburgo, Alemanha.
3. Um município no distrito de Vorpommern-Rügen, Mecklemburgo-Pomerânia, Alemanha.
4. Pode corresponder também à cidade de Ploty (nome alemão Lietzow), distrito de Gryfice, Pomerânia Ocidental, Polônia.
O sobrenome é comum no norte e nordeste da Alemanha.
Variantes:
Litzow, Letzow, Lietzof, Lietzoff, Litzof, Letzof - variantes comuns.

888. Hackbarth: sobrenome toponímico que significa machado picador ou martelo picador. Para que se compreenda, o hackbarth seria uma espécie de instrumento encontrado na Idade Média, em que um dos lados tem a lâmina típica de uma machado e, o outro lado, apresenta uma ponta alongada como o de uma picareta. Pode estar associado ao contexto militar, designando portanto um soldado que usa um hackbarth. Todavia, o instrumento também aparece vinculado ao ofício de açougueiro, pois era usado para moer ou retalhar carne, por isso, pode tão somente designar o açougueiro que produz carne moída ou bolo de carne. Na Alemanha, nas regiões setentrionais, a carne podia ser armazenada moída e salgada no inverno. Não por acaso, a maior ocorrência deste sobrenome se dá em Mecklemburgo-Pomerânia, Schleswig-Holstein e nordeste da Baixa Saxônia. A maior concentração desta família (e a Genealogia atribui isto com certa segurança) seria a região do distrito de Greifenberg, Mecklemburgo-Pomerânia.
As primeiras ocorrências do sobrenome são do século XVIII.
Variantes:
Hackbart, Hackbardt - variantes comuns.

889. Spillner: sobrenome metanímico que significa aproximadamente cabestrante ou fuso. O cabestrante é um instrumento usado em embarcações para içar âncoras e outros corpos náuticos. Todavia, o vocábulo spillner em alemão também pode designar o fuso usado na confecção têxtil. Por isso, o sobrenome pode tanto designar genericamente:
1. Um marinheiro responsável pelo cabestrante de um navio.
2. Um fabricante de cabestrantes ou guinchos. 
3. Um fabricante de fusos têxteis (hipótese mais provável no sul da Alemanha).
O sobrenome é registrado pela primeira vez em 1294, em Estrasburgo. Está irregularmente distribuído entre o norte (pequena concentração no sudeste da Baixa Saxônia) e centro da Alemanha.
Variantes:
Spilner - variante simples.
Spiller - variante com origem na Silésia, mas que se distribui com certa uniformidade em toda a Europa de língua alemã, com concentrações significativas em Brandemburgo, Saxônia, Baden-Württemberg, Turíngia, Baviera e Suíça.
Spilnermann, Spillnermann, Spillermann, Spilerman - variantes derivadas encontradas mais ou menos uniformemente na Alemanha e Suíça.
Spinnler - variante mais comum no sul da Alemanha, Suíça e Áustria.
Spindler, Spinndler - variantes mais comuns na região renana.
Spintler - variante encontrada com mais frequência na região renana, Westfália e Baixa Saxônia.
Spielner, Spieler, Spiellner, Spieller - variantes do centro e centro-norte da Alemanha.








sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Zola Amaro


Por Waldemar Coufal (1944)

"Condigna sucessora de uma grande voz de um passado glorioso - que foi a Baronesa do Sobral, amadora para quem Carlos Gomes ouvindo-a na balada do Guarani escreveu uma cadência especial - Zola Amaro, cantora de vocação e coração, já aos 14 anos fazia em Pelotas a sua inesquecível 'Verônica' na 'Procissão do Senhor Morto', dias antes de seu matrimônio. Depois vêm os filhos, e sua voz de ouro ecoa no recinto do lar, em cantigas de ninar; mas aos poucos aparece nas grandes festas sociais, como amadora sem rival. Sua residência torna-se um verdadeiro centro de cultura musical onde são recebidos os 'astros' da cena lírica que chegam a Pelotas. Amelita Galli-Curci e Lázaro, o célebre tenor, atuam em 1915 no veterano Sete de Abril. Recepcionados pela soprano pelotense na hora da arte que então se realizou, cantam, cantando também Zola Amaro, que ouve de Galli-Curci a seguinte frase: 'A senhora será a maior 'Norma' do mundo!' Palavras proféticas.

Como sabem com orgulho os brasileiros, Zola Amaro cantou, depois, no apogeu de sua carreira a 'Norma' na pátria do imortal autor Bellini, em sua própria cidade natal, Catânia, por ocasião do centenário dêsse gênio da música. 'Essas récitas de 'Norma' marcaram uma data e uma lembrança na história do Anfiteatro Gangi', proclamou a crítica jornalística da época. 'Zola Amaro, que tem doçuras de fraseio e de inflexões, não menos louváveis que o ímpeto dramático que a investe, empolga, cantora e atriz na mais alta expressão da dignidade artística, convencendo e comovendo o público, o grande público ligado pela tradição ao culto de Vincenzo Bellini'. Não poderia confirmar-se melhor aquêle vaticínio feito à amadora pelotense. 

No entanto, para decidir-se sua carreira, uma personagem, ainda, devia ser ouvido, pois queriam dar-lhe o prestígio de resolver se a amadora devia se transformar em artista, fazendo ecoar a maviosa voz nos grandes palcos do mundo. Êsse personagem era Caruso. A seu encontro, seguiu Zola Amaro para Buenos Aires, acompanhada do espôso, com sua mãe e com seus filhos para saber da decisão sôbre seu futuro artístico. Fêz-se ouvir, e conta-se que Caruso apenas lhe disse: 'Como está nervosa! Quero ouvi-la novamente amanhã e quero trazer meu maestro para que a ouça também'. No dia seguinte Caruso exclama: 'Que lhe dizia, maestro?' E assim Caruso, o imortal, decidiu que o Brasil teria a sua primeira celebridade mundial na arte do canto, e o mundo conheceria uma das mais lindas e poderosas vozes da história da arte lírica.

Zola Amaro instala-se em Buenos Aires, onde - depois de haver-se iniciado em Pelotas com o maestro Bandeira e o barítono Gambini - começa verdadeiramente seus estudos com o eminente maestro Fatuo. Dois anos depois, é contratada pelo mais renomado empresário da época, Valter Mocchi (o mesmo que lançaria Bidú Sayão) fazendo estrear a soprano pelotense em Baía Blanca com 'Aida', de Verdi, uma de suas maiores interpretações. O sucesso é triunfal, o público delira, e das galerias se ouve: 'Usted es para cantar con Caruso!' Mocchi leva-a, então, para a Itália. Acompanham-na seu espôso e sua filha, de quem ela não queria se separar, e só depois de seus primeiros triunfos na Itália, viria a soprano brasileira cantar para seus patrícios, apresentada ainda por Valter Mocchi, em memoráveis temporadas no Municipal do Rio.

Zola Amaro cantou em Buenos Aires, no Rio de Janeiro, no 'Scala' de Milão, em Roma, em Veneza, Turim, Palermo, Catânia, Trieste, Pezaro, Florença, Bolonha, Udine, Haia, Rotterdam, Amsterdam. Cantou ao lado de Cláudia Muzzio, Gabriela Bezansoni, Gigli, Schipa. Cantou 'Norma', 'Aida', 'Gioconda', 'Don Carlos', 'Trovador', 'Cavalleria Rusticana', 'Tôsca', 'Sóror Angélica', 'Hernani', 'Baile de Máscara', 'Força do Destino', 'Condor', 'Guarani', além de outras óperas. Um de seus maiores triunfos foi no citado 'Festival de Bellini', ao ar livre, sob a regência de Toscanini.

No Rio, o consagrandíssimo crítico Guanabarino, qualificou-a de 'soprano absoluto', tal a prodigiosa extensão de seus registros vocais, realçada pela técnica de autêntico bel-canto, em que esplendiam sonoridades singulares, a par da sentida dramaticidade.

É pois, a mais legítima representante do musicismo pelotense que aqui estamos homenageando, Zola Amaro, aquela que há pouco cerrou os olhos em seu torrão natal, no anoitecer de um domingo do mês de Maria, para ressurgir na saudade eterna de seus conterrâneos."

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Nossa visita à região da Quarta Colônia de Imigração Italiana no Rio Grande do Sul

Sobrado típico na agradável e simpática cidade de São João do Polêsine

Tivemos a oportunidade de, numa excursão promovida pela Secretaria de Educação de Pelotas, visitar alguns lugares da chamada região da Quarta Colônia da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul, no último dia 29 de novembro de 2017. Uma viagem repleta de agradáveis surpresas e muito conhecimento, numa zona marcada pela herança dos imigrantes italianos.

Monumento ao Centenário da Imigração Italiana em São João do Polêsine, erguido em 1993

A região localizada na Depressão Central do estado, composta pelos municípios de Silveira Martins, Ivorá, São João do Polêsine, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Nova Palma, Pinhal Grande e parte dos municípios de Agudo, Itaara e Restinga Seca, recebe a denominação de "Quarta Colônia" devido ao fato dos imigrantes italianos terem se estabelecido naquele perímetro em 1877, após ter se iniciado o processo de ocupação da zona da Serra. No caso, as "três primeiras" teriam sido Campo dos Bugres (Caxias do Sul), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Conde D'Eu (Garibaldi), todas justamente na região da Serra. Fato que também confere à região da "Quarta Colônia" uma singularidade, pois a chegada dos procedentes da Península Itálica ocorreu numa área relativamente mais afastada das três primeiras.

Monumento à Nossa Senhora de La Salette, em São João do Polêsine

Mural em homenagem aos Tropeiros, São João do Polêsine

Após uma pequena parada no município de Agudo, tivemos a oportunidade de conhecer a interessante zona central de São João do Polêsine, sendo muito bem recebidos pela população local. Há um boa variedade de locais turísticos acessíveis, que requerem apenas uma pequena caminhada a pé. A igreja matriz de São João Baptista possui um interior muito bonito, repleto de belos vitrais. No fim da manhã, tivemos a oportunidade de visitar o CAPPA (Centro de Apoio a Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia), onde existe um museu paleontológico bem organizado.

Vitral na Igreja matriz de São João do Polêsine

Lindo mural no teto da igreja matriz de São João do Polêsine

O efeito de luz nos vitrais da igreja matriz de São João do Polêsine

Representação dos fósseis da evolução humana no CAPPA - Centro de Apoio e Pesquisa a Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia - em São João do Polêsine

Detalhe da exposição no museu do CAPPA

Representação de um fóssil de dinossauro

Madeira petrificada na área externa do CAPPA

Próximo à zona central de São João do Polêsine, deslocando-se não mais do que dez minutos de ônibus, visitamos à antiga casa do missionário católico João Luiz Pozzobon, personalidade relacionada ao Movimento de Schoenstatt. Por volta do meio-dia, seguimos até o bonito e organizado distrito de Vale Vêneto, ainda no município de São João do Polêsine, onde almoçamos no Restaurante Romilda, tipicamente italiano. No lugar, apreciamos a incrível variedade de licores, além de saborear um delicioso risoto e o suco de uva também muito gostoso.

Casa de João Luiz Pozzobon, em São João do Polêsine

Interior da casa de João Luiz Pozzobon com objetos antigos

Igreja de Corpus Christi em Vale Vêneto

Aspecto de Vila Vêneto

Simpático monumento à imigração italiana em Vale Vêneto

Prédio que abriga o Museu do Imigrante Italiano Eduardo Marcuzzo

O Museu do Imigrante Italiano Eduardo Marcuzzo é um dos mais bonitos, organizados e completos que já visitei, com um rico acervo relacionado à imigração italiana na região. Salas muito bem dispostas e organizadas que transmitem uma sensação de retorno ao passado. Logo em seguida, rumamos até a cidade de Silveira Martins, onde conhecemos a zona central e o Monumento ao Imigrante Italiano. Por fim, ainda visitamos o distrito de Arroio Grande, pertencente ao município de Santa Maria, onde conhecemos uma interessante produção de cutelaria artesanal.

Interessante peça no porão do Restaurante Romilda

Interior do Museu do Imigrante Italiano Eduardo Marcuzzo

Interior do museu

Interior do museu

Interior do museu

Interior do museu

Interior do museu

Igreja de Santo Antônio de Pádua em Silveira Martins

Monumento à Imigração Italiana em Silveira Martins

Monumento a Giuseppe Garibaldi em Silveira Martins

Hotel Pippi em Silveira Martins

Colégio Bom Conselho em Silveira Martins

Bandeiras no Monumento ao Imigrante em Silveira Martins

Detalhe em alto-relevo do Monumento ao Imigrante em Silveira Martins

As belas serras da região (foto captada em Silveira Martins)

Uma cutelaria no distrito de Arroio Grande, Santa Maria

Excelente passeio cultural, barato enriquecedor, numa região acessível pelas mais diversas rotas no Rio Grande do Sul.







terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O Quilombo do Manoel Padeiro - Parte III

"Possivelmente em fins de abril, Mariano pediu licença a Manoel Padeiro para ir vender milho e comprar fumo e pólvora nas proximidades da vila de Pelotas. O general concedeu a permissão e enviou pai Francisco com o crioulo. A documentação sugere a fina razão da escolha. Depois de roubarem e ensacarem milho, os dois quilombolas dirigiram-se, numa viagem de nove dias (ida e volta), a uma venda em Boa Vista, nas proximidades de Pelotas, de propriedade do africano liberto Simão Vergara, conhecido pelos quilombolas como pai Simão. O africano alugava parte da casa em que morava, e outras casas de sua propriedade, para negros ganhadores.

A venda do pai Simão não seria das mais providas. Sua esposa, a preta Teresa, acompanhou pai Francisco para que comprasse sem problemas erva-doce, pimenta-do-reino, açúcar e cominhos, em outra bodega. Na venda de pai Simão, os quilombolas compravam fumo e a preciosa pólvora. Mariano declarou que as negociações entre pai Simão e pai Francisco se deram na 'língua do Congo', que ele não conhecia. O fato de os dois africanos serem chamados de pai e conhecerem o quicongo, sugere que seriam congos de nação e, talvez, da mesma idade.

Não seria muito sólida a solidariedade nacional. Pai Simão trapaceou de tal modo o conterrâneo, pouco afeito aos negócios, ao trocar a valiosa moeda que o Padeiro lhe entregara para as compras, que o general castigou com laçaços os viajantes, quando voltaram ao quilombo. Mariano, talvez por pudor, relatou apenas que pai Francisco teria sido 'xingado' pelo Padeiro. Chama a atenção o fato de que o castigo físico, como forma de punição de faltas cometidas, um dos pilares do escravismo, penetrasse tão fundo na consciência dos trabalhadores escravizados que fosse por eles adotado mesmo na liberdade do quilombo.

Depreende-se igualmente da documentação a dominância das determinações sociais sobre as raciais e étnicas na ação dos quilombolas. Era o fato de serem cativos fugidos e perseguidos que unificava o grupo formado de trabalhadores escravizados nascidos no Brasil ou na África. A ação dos quilombolas não parece ter sido regida por uma consciência racial que se sobrepusesse às contradições e às necessidades vividas pelo grupo. As crioulas e as pretas Maria, Florência e Doroteia foram notificadas pelos quilombolas que ficavam livres, ao serem obrigadas, à força, a acompanharem os atacantes. Durante o tempo que permaneceram com o grupo, foram estreitamente vigiadas pelos quilombolas.

A serra dos Tapes era uma zona de médias e pequenas propriedades dedicadas à produção de gêneros de subsistência. Grandes, médios e pequenos senhores tinham chácaras na serra. As nove casas incendiadas possuíam coberturas de palha, o que sugere, numa região onde eram abundantes as olarias, parcos recursos ou investimentos. Propriedades assaltadas, queimadas ou saqueadas pertenciam a pardos, livres ou libertos. Alguns deles eram senhores de escravos.

Os quilombolas pareciam não fazer diferença entre senhores brancos e negros. Eles arrombaram a residência e assassinaram o pardo liberto José Alves, segundo parece, pequeno proprietário. Após saquearem e incendiarem a casa, carregaram à força a filha de Alves, a mulata Senhorinha. Israel, irmão de Senhorinha, integrou o grupo armado que atacou os quilombolas, libertou as mulheres e matou João, 'Juiz de Paz', e Rosa.

A documentação registra também o ódio dos quilombolas aos capatazes, como eram chamados os feitores gaúchos. Os capatazes Domingos José Enes, português de 54 anos, e Eufrázio Antônio de Silva, foram duramente feridos e castigados pelos quilombolas. Durante o ataque da chácara de Tomás Flores, ao saberem que o capataz se encontrava na casa, os quilombolas arrombaram uma janela a machadadas e retiraram e balearam Domingos Enes, deixando-o por morto. Na ocasião, a mulata Maria, sequestrada pelos quilombolas, teria gritado que matassem o português porque 'era mau'. A consciência dos trabalhadores escravizados - fugidos ou sequestrados - se fundia diante da possibilidade de ajustar contas com um capataz talvez sobremaneira impiedoso.

Após porém a serra dos Tapes em chamas e despertarem a ira e o medo dos senhores pelotenses, em 16 de junho de 1835, como vimos, os quilombolas foram atacados por uma patrulha que caiu sobre o acampamento e apoderou-se das mulheres e do tesouro de guerra dos quilombolas. Dois fujões morreram no combate e os outros conseguiram escapar. Porém, mesmo debilitados, a seguir os quilombolas reagruparam-se e reiniciaram os ataques.

Duas semanas mais tarde, no início de julho, os seguidores de Manoel Padeiro, em número de seis a oito, atacaram à noite uma olaria, próxima de Pelotas, com o intento de libertarem 'negros' e 'negras'. No assalto, o mulato Antônio feriu gravemente o capataz do estabelecimento. Segundo parece, os fujões não conseguiram seus intentos. Na mesma noite, atacaram uma venda, no caminho da serra, onde obtiveram pão, farinha e fumo. Em 9 de julho, durante a marcha de volta à serra dos Tapes, encontraram Antônio Grande, que foi chumbeado, degolado e decapitado, segundo Mariano, por ter feito a 'partida' a 'João, Juiz de Paz'.

Entretanto, a sorte dos quilombolas estava selada. Em 12 de agosto, o juiz de paz do Terceiro Distrito participava que uma 'partida' atacara um grupo de oito quilombolas e conseguira matar Manuel Cabunda, que, como vimos, se incorporara aos quilombolas após escapar de por eles ser morto. Após este ou um outro ataque subsequente, Mariano, desgarrado dos companheiros, procurou refúgio, em 10 de setembro, na propriedade de Bernardino Rodrigues Barcelos, onde foi, três dias depois, preso à traição.

Mariano foi julgado por aqueles que ofendera, quando fugira ao trabalho e ao látego e atentara contra a vida e a propriedade senhoriais. Seu processo foi mais uma farsa da justiça escravista. Abandonado pelo senhor, Mariano foi 'defendido' por um advogado, nomeado de ofício, que nem mesmo se deu ao trabalho de recorrer contra a pena de morte votada 'unanimamente' pelos jurados. Se sua pena não foi posteriormente reformada, Simão Vergara pagou com quinze anos, seis meses e vinte dias de prisão o ato de ter vendido pólvora aos sublevados.

Segundo uma publicação pelotense, de 1928, no início da revolta Farroupilha, em 1835, teria sido entregue 'como contribuição de guerra' a quantia de 'dois contos e duzentos mil-réis', para o combate aos quilombos pelotenses. A expedição, que contou com um 'destacamento de alemães', teria sido feita sob a direção do juiz de paz Boaventura Inácio Barcellos, que teve Joaquim Luiz da Lima como 'lugar-tenente'. As duas principais concentrações de cativos fugidos se encontrariam 'sobre margens de dois arroios de cursos encobertos por densa mataria, afluentes, um do Pelotas outro do Arroio Grande. Não sabemos se esse quilombo era formado por remanescentes do bando de Manoel Padeiro.

Com a revolução Farroupilha, as fugas de escravos multiplicaram-se. Os farroupilhas assaltavam as fazendas dos inimigos e libertavam os cativos que aceitassem lutar como soldados. Os soldados do Império faziam o mesmo nas propriedades farroupilhas. Nas duas fileiras, senhores convocados libertavam trabalhadores escravizados para que os substituíssem na frente de batalha. Um bom número de escravizados procurou um refúgio mais seguro do que as fileiras dos exércitos em luta. A fuga para os países vizinhos e o refúgio em quilombos atraíram um número incerto de escapados. Com a pacificação, temos notícias de várias expedições contra quilombos formados durante o decênio revolucionário. A documentação sobre o período farroupilha foi em parte perdida ou é bastante incompleta."

Fonte: MAESTRI, Mário. Pampa negro: quilombos no Rio Grande do Sul. In: REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2012, p. 353-355.

O Quilombo do Manoel Padeiro - Parte II

"Na primeira chácara assaltada, encontrava-se Lindaura, a esposa do proprietário, Jerônimo Lopes Garcia, o que sugere que a serra não se achava ainda deflagrada pelos ataques quilombolas. Na residência, os quilombolas obtiveram farinha, roupas e três armas de fogo. Na ocasião, Alexandre Moçambique propôs o sequestro da senhora Lindaura. Ao que se opôs Manoel Padeiro, certamente consciente de que a ação determinaria uma perseguição implacável ao seu grupo.

Entretanto, o desejo de Alexandre não foi totalmente negado. Os quilombolas terminam carregando consigo a parda Maria, dos Garcias, de 25 anos, que permaneceu com os quilombolas, segundo parece contra sua vontade, por dois meses. Maria foi a primeira de quatro mulheres - três cativas (Maria, Florência e Doroteia) e uma livre (Senhorinha Alves) - sequestradas pelos fujões. O que corrobora a tese de que os quilombolas iniciaram, com esse ataque, a fase mais agressiva de suas andanças na serra.

O processo registra a quase obsessão dos quilombolas por 'crioulas' e 'pretas'. Após serem desbaratadas por uma partida policial, a primeira iniciativa do grupo - não concretizada - foi assaltar uma fazenda para conseguir aliados e 'pretas'. O fato é compreensível. O desequilíbrio sexual da escravidão é fato registrado pela historiografia. Em média, da África chegavam dois africanos para cada africana. Em 1850-88, nas charqueadas pelotenses a taxa de masculinidade encontrava-se em torno dos 87%. Em geral, os quilombos eram formados sobretudo por homens.

Quando do primeiro ataque registrado, o grupo quilombola da serra dos Tapes compunha-se de onze homens e apenas uma mulher. A mulata Rosa, do comendador Barcellos, seria uma decidida quilombola. Vestida de homem e carregando duas facas na cintura, participava ativamente dos ataque calhambolas. Segundo parece, ela não possuía um companheiro fixo. Rosa morreu, resistindo ao primeiro ataque reescravizador, em 16 de abril, junto com João, 'Juiz de Paz'.

Após o assalto à chácara de Jerônimo Lopes Garcia, os quilombolas prosseguiram numa quase incessante peregrinação pela serra. Sem jamais assentarem raízes em um local preciso, alternavam paradas - para descanso, geralmente em acampamentos já utilizados - com o assalto às residências da região. Nove moradias e duas senzalas foram roubadas e incendiadas e um número determinado de casas, rapinadas. As últimas residências assaltadas, antes do ataque policial de 16 de junho, pouco renderam aos quilombolas. Segundo parece, aterrorizados, os moradores haviam abandonado a região, levando o que podiam. Nos assaltos, além das preciosas crioulas e mulatas, os quilombolas obtiveram alimentos (farinha de mandioca, milho, feijão, etc.), vestimentas, fumo, pólvora, armas de fogo e objetos de valor (estribos e colheres chapeadas a prata).

A documentação em questão evidencia um fenômeno comum em outras regiões do Brasil: a promiscuidade entre os quilombolas e a população escravizada. Os seguidores de Manoel Padeiro obtinham informações dos escravos das casas assaltadas. Cativos participantes de ataques, sem em seguida acompanharem os quilombolas. Negros eram trazidos para o acampamento, onde passavam a noite dançando e comendo, para partir ao amanhecer. Porém nem sempre o apoio aos quilombolas era voluntário ou desinteressado. A documentação sugere uma realidade mais complexa. Entre quilombolas e trabalhadores escravizados existia uma identidade, social e cultural, de fato, que levava a que uns e outros dialogassem com singular facilidade e frequência, mesmo quando um cativo se opunha à fuga e ao aquilombamento como solução de seus problemas. Esses profundos laços punham também em contato, algumas vezes em forma contraditória, escravos e ex-escravos."

Fonte: MAESTRI, Mário. Pampa negro: quilombos no Rio Grande do Sul. In: REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2012, p. 352-353.

O Quilombo de Manoel Padeiro - Parte I

"As súplicas dos senhores pelotenses faziam-se ouvir. A ata da sessão da Câmara Municipal de 9 de julho de 1835 registra ofício provincial, de 30 de junho, determinando a soma de 1600$000 réis 'para se despenderem com a destruição dos quilombolas'. Na ocasião, os edis, insaciáveis, escreveriam à presidência lembrando terem comprometido soma maior com a recompensa dos que prendessem e destruíssem 'os dez quilombolas considerados motores dos roubos, incêndios e assassinatos perpetrados no município'. A recompensa era de 400 mil-réis, pelo chefe do quilombo 'Manoel Padeiro', e de 100 mil-réis por 'cada um dos' seus 'nove companheiros'. Somas, na época, avultadíssimas. Nos anos 1840, comprava-se, em Pelotas, 'uma morada de casa térrea' por 500 mil-réis. Na mesma correspondência, a presidência era informada sobre a gravidade dos fatos e o combate aos quilombolas:

(...) dia a dia se aumentam os roubos, incêndios, assassinatos perpetrados pelos quilombolas, que ousada e astuciosamente têm aterrado os pacíficos moradores da serra dos Tapes e feito abandonar casas e lavouras, tendo-se já perdido muitas colheitas de milho e feijão, que infalivelmente farão falta considerável no consumo da população desse município; e apesar das diligências de dois inspetores de quarteirão da dita Serra, mediante as ordens do respectivo juiz de paz, que tem mandado algumas partidas de gente armada a concluir com semelhantes salteadores, apenas se pode conseguir a tomadia de uma rapariga liberta, que os quilombolas haviam roubado de casa de seu pai, matando a este, nos Potreiros de São Lourenço; e de três escravas que haviam roubado de outras casas, ficando um dos ditos quilombolas morto nesse ataque, e os mais conseguiram escapar-se, entranhando-se pelos matos, talvez por não ser esta empresa determinada como devia: poucos dias depois, apareceram os mesmos quilombolas em alguns lugares, cometendo atentados, chegando a sua ousadia a virem, uma noite, perto desta vila, onde roubaram uma taberna e atacaram uma olaria, cujo capataz ficou gravemente ferido; e há cinco dias mataram um homem casado e com família; e feriram outro, que o acompanhava, isto a pouco mais de duas léguas de distância desta vila, ficando o morto na estrada com a cabeça separada do corpo. Por todos estes motivos, a Câmara, para animar as pessoas que em diferentes partidas andam na diligência de prenderem ou extinguir, na forma da lei, tais malévolos, tem prometido gratificar, com a quantia de quatrocentos mil-réis, a prisão ou extinção do chefe dos ditos quilombolas, Manoel Padeiro, e com duzentos mil-réis por cada um dos nove companheiros daquele facinoroso (...)

No mês seguinte, em 17 de agosto, a Câmara decidia, em poder dos fundos fornecidos pela presidência, e após haverem alcançado algumas vitórias sobre os quilombolas:

(...) aberta a sessão, às dez horas da manhã, depois de se haver conferenciado com o juiz de paz do terceiro distrito, Boaventura Inácio Barcellos, sobre as providências que se precisam dar para a extinção dos quilombos da serra dos Tapes, foi deliberado, por unanimidade de votos, que o dito juiz de paz determinaria haver efetivamente uma partida de sete homens e um comandante, na diligência de prenderem ou extinguirem, na forma da Lei, os ditos criminosos quilombolas, vencendo diariamente o comandante 1280 réis, e os camaradas 640 réis cada um, além da gratificação que terá a partida para prender ou extinguir os quilombolas, a saber, pela cabeça dos ditos malfeitores, Manoel Padeiro 400$000 réis, e de cada um dos seis companheiros do dito cabeça, 100$000 réis; que finalmente, se ordenasse ao procurador desta câmara a entrega de quantia de 300$00 réis ao referido juiz de paz, para as despesas da dita partida, dando ele conta final para se fazerem os competentes assentos.

Em meados de setembro de 1835, na serra dos Tapes, o quilombola Mariano, após se ter dispersado de seus seis companheiros devido à perseguição de tropas policiais, dirigiu-se a um ponto de reencontro, determinado por Manoel Padeiro, general do quilombo. Desarmado e faminto, Mariano pediu ajuda a Luiz, trabalhador escravizado da chácara do comendador Bernardino Rodrigues Barcellos. O companheiro de infortúnio deu-lhe de comer e convidou-o, devido ao frio e à chuva, a se refugiar em uma casa do engenho.

Sobre a cabeça de Mariano pesavam 100 mil-réis de prêmio. O crioulo, natural de Santa Catarina, com uns 25 anos, foi preso em um quarto do engenho, pelo seu suposto protetor. Enviado imediatamente para Pelotas, Mariano foi julgado no início de dezembro, junto com Simão Vergara, africano forro, vendeiro, acusado de vender pólvora aos calhambolas. No processo de Mariano e de Simão, encontram-se anexados os interrogatórios de quatro cativas e uma adolescente livre sequestradas pelos quilombolas. Essa documentação fornece uma rica informação sobre o quilombo que agoniou os senhores pelotenses.

O quilombo de Manoel Padeiro teria sido formado no segundo semestre de 1834. Como vimos, em 10 de outubro a Câmara registrava que os 'quilombolas' estariam cometendo 'atentados na serra'. Segundo o processo, Manoel Padeiro vivera fugido anteriormente na região em companhia da preta Marcelina, que morrera de morte natural e fora enterrada em um dos diversos ranchos em que se refugiavam os quilombolas.

É crível que Manoel Padeiro, recapturado, tivesse escapado novamente, sozinho ou acompanhado. Dos doze fujões que formaram o núcleo central do quilombo, quatro eram cativos do senhor de Manoel Padeiro - o rico comendador Boaventura Rodrigues Barcellos. A documentação revela também que eram íntimos e constantes os contatos dos quilombolas com a escravaria daquele senhor. Foi precisamente a um cativo do comendador que o malogrado Mariano recorreu, quando se encontrou em dificuldades.

Não sabemos exatamente quando e como os quilombolas se reuniram. O certo é que, nos primeiros dias de abril de 1835, sob a indiscutível autoridade do Padeiro, o bando passou a assaltar chácaras da serra dos Tapes. Os ataques só teriam terminado, meses mais tarde, em fins de 1835, com o debilitamento dos quilombolas devido a mortes e capturas. A documentação registra o primeiro ataque, à casa de Jerônimo Lopes Garcia, por doze quilombolas, provavelmente em inícios de abril de 1835. Do grupo participavam Manoel Padeiro, general do quilombo, João, juiz de paz; Alexandre Moçambique, capitão; pai Mateus; Mariano Crioulo; Antônio Mulato; Antônio Cabinda ou Cabunda; pai Francisco, congo; Francisco Moçambique; João, cozinheiro e africano; e a mulata Rosa. O cativo Manoel, africano, também do comendador Barcellos, foi preso em uma estrada e teve sua morte pedida por Mariano e negada por Manoel Padeiro. A seguir, incorporou-se aos quilombolas. Não foi possível elucidar o sentido dos títulos juiz de paz e capitão."

Fonte: MAESTRI, Mário. Pampa negro: quilombos no Rio Grande do Sul. In: REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2012, p. 349-352.
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