sábado, 19 de outubro de 2024

Os antigos vendedores ambulantes do Rio de Janeiro

 



Vendedores ambulantes: uma tradição que desaparece da Cidade Maravilhosa. Substituídos pelos sofisticados "camelôs", os vendedores ambulantes, tôda uma gama de tipos populares, estão cada dia se afastando mais do centro da cidade, expulsos que são pelo progresso. Nos subúrbios e, mesmo em alguns bairros, êstes vendedores ainda nos fazem recordar com seus pregões, o nosso tempo de calças curtas.

Vassoureiro, garrafeiro, sorveteiro, funileiro, o homem do periquito e tantos outros, faziam e ainda fazem de sua profissão a alegria de muita gente. Seus pregões, suas melodias de vendas, eram e são tão simples como êles, mas seu efeito publicitário persiste por muito: quem não sente desejo de comprar sorvete, ao ouvir um dos remanescentes sorveteiros, a anunciar em versos de pé quebrado, o "geladinho" de côco e de abacaxi?

Até o final da última guerra, os vendedores ambulantes dominavam a Cidade Maravilhosa.

Era o homem que comprava garrafas e jornais, o que vendia vassouras, o que consertava panelas, o que, com seu periquito verde, vendia a sorte para as mocinhas desejosas de encontrar príncipes encantados. Havia sempre quem fôsse a sua porta para vender ou comprar alguma coisa. Mas os tempos passaram-se. O progresso caminhou mais rápido que a tradição, e foi aos poucos expulsando êstes tipos. Muitos se retiraram para os bairros e subúrbios mais longínquos, onde até hoje se pode ouvir os seus pregões; outros, preferiram se estabelecer.

NACIONALIDADES

A nacionalidade, também influi na especialidade. Peixeiro, por exemplo, só italiano; garrafeiro, só portuguêses; sorveteiro um nacional, um baiano que saiba bem preparar um sorvete de côco.

É interessante observar como ainda hoje se mantém certas tradições de nacionalidade entre os vendedores ambulantes. O amolador de facas, que empurra o cavalete com a pedra de amolar, é sempre um italiano; o jornaleiro, também. Os portuguêses preferem atividades como vender frutas e legumes, gêlo, flôres e plantas.

Os judeus dão sua preferência ao comércio de venda e compra de roupas. Quem ainda não ouviu o clássico pregão do homem que compra tudo. Êste ramo pertence, sem dúvida alguma, aos judeus. E ninguém tenta roubar-lhes o campo. Mesmo porque não saberia esta difícil arte de comprar sapatos velhos para depois vendê-los.

Mas também ninguém, que não fôsse brasileiro, teria a ousadia de vender quitutes baianos ou sorvetes ou amendoim torrado.

Portanto, nesta questão de comércio ambulante, não há perigo de concorrência. Há o lugar para todos, desde que o "rapa" permita.

PREGÕES

Os pregões dos vendedores ambulantes é uma outra faceta desta tradição. Mesmo sem conhecer o português, muitos foram os vendedores ambulantes que nos legaram belíssimos pregões que fariam inveja a muito criadores de "jingles". Quem não se lembra dos vendedores de laranjas, quando se vendia a fruta ao cento por cinco ou dez mil reis. O caminhão transbordando de laranjas, parava numa esquina. O vendedor, em plenos pulmões, anunciava a sua presença: "Olha a laranja, dona Teresa. Traga a sacola pois vou embora". Na verdade, não havia rima, entretanto, sabia musicar os seus "jingles".

NAS MÚSICAS DE CARNAVAL

Os vendedores ambulantes também já serviram de temas a muitas músicas de Carnaval. Por volta de 1937 ou 1938, Dircinha Batista gravou uma marchinha que foi grande sucesso: "O Periquitinho Verde". Não há dúvida que era uma homenagem ao homem do realejo que depois de tocar alguma velha música, abria a gaiola do periquito (algumes vêzes papagaio), sob a qual havia uma gaveta com papéis dobrados. Em troca de um pagamento, o homem do realejo batia com o dedo na cabeça do pássaro e êste, mais do que rápido, tirava a sorte. Era o homem que vendia um pouco de sonho. Hoje ainda existem alguns, espalhados por êste grande Rio de Janeiro.

O PROGRESSO

Mas o progresso é, realmente, o grande inimigo dos vendedores ambulantes, pior ainda do que a fiscalização (o "rapa"). O geleiro, por exemplo, que antes passeava pela cidade com a sua bicicleta, já não tem muito o que fazer; as geladeiras elétricas estão lhe tirando o pão de cada dia. Os sorveteiros não podem concorrer com os das carrocinhas. A matéria plástica suplantou o artezanato de flôres de papel crepon e os seus vendedores não mais encontram com facilidade, compradores para as suas mercadorias. E assim, aos poucos, vão cedendo o seu lugar. Mas para quem os ouviu e viu, ficou a grata lembrança de seu tipo, de seu pregão.

Fonte: CORREIO DA MANHÃ (Rio de Janeiro/RJ), 20 de Janeiro de 1960, sem página definida


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

O Regatão na Amazônia

 



O comércio de Santarém, como o de tôda a Amazonia, apresenta uma figura singular, o "regatão", comerciante que transporta suas mercadorias em batelões ou lanchas. Atualmente, é possível distinguir pelo menos três tipos de "regatões", o pequeno, o médio e o grande. O pequeno é o mascate, figura tradicional, o médio já é evoluído e procura manter transações regulares, com os habitantes do município; os grandes "regatões" estabelecem-se de preferência numa bôca de rio, dondo passam a irradiar o seu comércio, criando ali uma espécie de entreposto, mantido com caipiras próprios ou com créditos e "aviamento" feito por "aviadores" de Manaus e de Belém.

Fonte: O JORNAL (Rio de Janeiro/RJ), 08 de Março de 1959, pág. 06

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Pelagens Bovinas


(...)

Bem. Começamos falando de boi. Tão importante como o homem. Mais velho que êste, mais educado que êste, porque docil e domesticável. Até a música do carro de bois o hipnotiza. Ele vai no abôio, ao ritmo e na melódica do berrante, ou do carreiro.

Por isso é que abistelado tem estrêlas ou manchas brancas; albardado, não malhado, nem sardo, mas tendo no lombo mazela de côr diferente da do resto do pêlo; almarado, que tem em volta dos olhos uma circunferência de côr diversa da do resto da cabeça; alvação, branco, sem manchas; araçá (bras.), amarelo mascarado, ou matizado de prêto; barroso (bras.) de pêlo branco-amarelado; bisco, que tem uma haste mais baixa que a outra; bocalvo, com focinho branco em cabeça escura; borralho, côr de cinza; botineiro, cujo pêlo das pernas difere do resto do côrpo; brasino, de pêlo avermelhado com listras pretas ou muito escuras; braúna (bras.) ou caraúno (bras.) muito prêto; broco, que tem um ou os chifres pequenos e cheios de rugas; cabano, que tem os galhos inclinados para baixo; caldeiro, de chifres um tantos baixos e menos unidos que os das gaiolas; cambraia (bras.), inteiramente branco; camurça, pardo-vermelho; capirote, de cabeça e pescoço da mesma côr e pintas diferentes no corpo; capuchinho, que desde a fronte à parte superior do pescoço, tem côr diferente da do resto do corpo; cardim, branco e preto; chita, branco e vermelho; chamurro, novilho castrado, que fica tendo a dupla aparência de boi e touro; chumbado, branco, vermelho ou castanho chumbado de prêto; churriado (bras.) que tem extensas listras brancas sôbre o pelame prêto ou vermelho; cornalão, de chifres muito grandes; cornicurto, de cornos curtos; cornífero ou cornígero, que tem cornos; cornilargo, de pontas muito afastadas uma da outra; cornudo, que tem cornos; corombó, de chifres pequenos ou quebrados; cubeto, que possui hastes muito caídas ou quase juntas das pontas; cumbuco (bras.) de chifres curvos, com as pontas voltadas uma para a outra; ensabanado, de pêlo todo branco; escardado, designativo dos chifres, quando se desfiam, batendo de encontro a objetos resistentes; espácio, de chifres muitos abertos; estorninho, zaino, com pequenas manchas brancas; fubá (bras.), de pêlo branco puxando a azul; fumaça (bras.) de pêlo vermelho tirante a prêto; fusco, de pêlo escuro, prêto; gaiola, de chifres em forma de meia lua, e muito próximos nas pontas; gravito, que tem armas direitas e quase verticais; hosco, de côr escura, com o lombo testado; jaguané (bras.), que tem branco o fio do lombo, prêto ou vermelho o lado das costelas e de ordinário branca a barriga; laranjo, de côr de laranja; listão o que tem no dorso uma listra de côr diferente da do resto do corpo; lobuno, de pêlo escuro e um tanto acinzentado como o do lôbo; lombardo ou lompardo, negro com o lombo acastanhado; machacá (bras.), mal castrado; malacara (bras.), de testa branca com listra branca do focinho ao alto da cabeça; mal-armado, de chifres defeituosos; malesso, que tem mau sangue; malhado ou lavrado, listrado, betado de prêto e branco, ou manchado ou raiado de castanho claro e escuro; mascarado, de cara branca, ou que tem uma grande malha na cara; meano, que tem branco o pêlo dos órgãos reprodutores; meirinho, diz-se do gado que no verão pasta nas montanhas, e no inverno, nas planícies; melanuro, que tem cauda preta; mocho, sem chifres; mogão, de chifres sem ponta; moico (reg.) privado de um dos chifres ou de ambos; moreno, menos avermelhado que retinto; mouro, prêto salpicado de pintinhas brancas; nambigu (bras.), o que tem orelhas fulvas ou amarelas; nevado, que algumas manchas brancas; nilo (bras.) com a cabeça metade dela branca e o resto do corpo de outra côr; oveiro, de malhas no corpo; pampa, de cara branca, ou malhado, no corpo inteiro; parrado, de orelhas caídas; pinheiro, de chifres direitos; pintarroxo, pintado de castanho-claro; pombo, branco ou camurça, com olhos brancos; punaré (bras.) amarelado; rabicho, sem pêlo na extremidade da cauda; retinto, que tem côr carregada ou pêlo semelhante ao dos cavalos castanhos; rosado, branco, mesclado de amarelo, vermelho ou prêto; rouxinol, da côr do pássaro de igual nome; salino, com o corpo salpicado de pintas brancas, pretas ou vermelhas; salmilhado (bras.), salpicado de branco e amarelo; silveiro, com malha branca na testa, tendo escura a cabeça; torrado, que têm o pêlo negro do meio para baixo; taruno, mal castrado e que ainda procura as vacas; troncho, a que falta uma orelha; vareiro, que tem o corpo mais comprido do que é vulgar; vinagre, de pêlo castanho claro, tirante a rubro.

JOÃO CHIARINI

Fonte: JORNAL DE PIRACICABA (Piracicaba/SP), 01 de Outubro de 1964, 1o. Caderno, pág. 01

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

A Lenda do Boi Santo

 



(...)

O carater sagrado domina a base psicologica da "Lenda do Boi Santo", tal qual é contada pelo povo de Campos de Jordão e conforme o texto da autoria de João de Sá. ("Pequena monografia de Campos do Jordão", sem editor e sem data).

✤✤✤✤✤

Um monge esmoler que andava em peregrinação, colhendo donativos para a construção de uma igreja - que deveria ser edificada em Pindamonhangaba - bateu na porta de um rico fazendeiro, que vivia no alto da Serra da Mantiqueira, e que possuía centenas de cabeças de gado, e pediu-lhe um óbolo. Negou-o o fazendeiro e ainda ameaçou o religioso, expulsando-o de suas terras. Continuando na sua peregrinação, notou o monge, ao entrar nas matas, que vinha sendo seguido. Temeroso, porque havia naquele muitas onças, recomendou-se a Deus e esperou a Sua Misericordia. Parando junto a uma fonte, viu que era seguido por um boi muito bonito, que se aproximou dele e lambeu-lhe as mãos. Tranquilo, o monge continuou a sua caminhada, sempre seguido pelo animal e, assim, entrou na cidade. A cena despertou a curiosidade popular e inumeras pessoas acompanharam o religioso. Este, por mais que enxotasse o boi, não conseguia demovê-lo do seu proposito, que era acercar-se sempre do monge. O povo achou que o boi era movido por uma força divina, para ser vendido em benefício da igreja, compensando desse modo, o mau tratamento que o fazendeiro dispensara ao sacerdote, quando este lhe pediu um auxilio. Posto o boi em leilão, o primeiro arrematador deu-o à igreja para novo leilão, o mesmo fazendo o segundo e o terceiro e, assim, sucessivamente, até que o boi santo, muito velho, morreu, tendo dado, porem, antes disso, dinheiro mais que suficiente para construção da igreja.

Fonte: DIÁRIO DE SÃO PAULO (São Paulo/SP), 08 de novembro de 1959, pág. 09

domingo, 13 de outubro de 2024

A cabeça da jiboia

 



A cabeça da jiboia para atrair mulher

(Crendice ouvida no Amazonas e Pará)

ALBERTO CANELAS FILHO

A jiboia (Constrictor constrictor), grande serpente espalhada de São Paulo para cima, e muito abundante no Norte, é um reptil que na Amazonia é estimado. Os especimes de 6 metros não são muito raros e falam que já encontraram destes ofidios de 8 metros de comprimento. A jiboia como a sucuri, não possui veneno, mata a vitima enrolando-se-lhe no corpo e moendo-lhe os ossos, para depois degluti-la.

Chega a engulir animais do tamanho da jaguatirica e não ataca o homem. É lerda, habita na floresta, e durante o dia, quase só descança ou dorme. O povo diz que o seu "bafo" produz feridas terríveis, e tambem que quando este reptil fica velho, atingindo proporções enormes, ele passa a viver quase que somente na agua.

A respeito da jiboia, na Amazonia há diversas lendas interessantes. Aliás, sobre cobra há muita crença, pois ela representa a perfídia e a traição. O fato da Bíblia contar o caso de Adão e Eva, motivado pela serpente, os povos com religião fundamentada nesse livro, têm todas as cobras, mesmo as não venenosas, como a maldade personificada. Mas respeitam-nas porém, devido a astucia e poderes sobrenaturais que lhes atribuem, como tambem repelem-nas pela sua forma horripilante. Todos nós sabemos, que a grande fealdade causa admiração, respeito e medo.

Contaram-me no Amazonas e Pará, que a jiboia fica de emboscada na florestas; passando ainda que longe, um animal de vulto medio ou mesmo o homem, sente uma força que o atrai para um determinado ponto, tenta ir embora, mas qual, fica meio desnorteado até ir parar direitinho onde a cobra está. Tambem me contaram, que para se atrair mulher, basta levar no bolso uma cabeça embalsamada de jiboia. É tiro e queda, mulher daí sobra...Liguei uma crença à outra: nas duas há o fascínio da jiboia. A forma falica do reptil, talvez tenha induzido o caboclo a formular e aceitar a segunda crendice. Coibido pelo sentimento de pudor e pelos preconceitos morais, religiosos e sociais - que se orientam pelo super égo - de mostrar-se nas partes pudicas às mulheres, então o inconsciente do homem simples da mata, ou mesmo da cidade, fez esse impulso se exteriorizar transformado.

Como toda cobra pelo seu olhar fixo e aspecto repugnante, causa terror, principalmente as grandes, a vítima fica apalermada de medo, como se estivesse magnetizada, provindo disto que a jiboia atrai a presa mesmo de longe. A primeira crença se entrosa na segunda, que procuramos explicar pelo fenomeno psicanalítico da transferencia.

Vi um amansador de jiboia no cais de Belem do Pará; domesticava em pouco tempo, os filhotes já grandinhos (com cerca de 1,5 m) para vende-los depois, É costume no Norte todo, usarem este ofídio nas casa, para a exterminação de ratos, prestando assim um bom serviço ao homem. Apesar da jiboia ser muito mansa, quando ela vai atingindo seus 4 metros, soltam-na no mato. Lá perto do famoso "Ver-o-Peso", vendiam cabeças preparadas de filhotes de jiboia, (sendo menores são mais faceis de se carrega-las no bolso) para quem quisesse se por à "D. Juan". O caboclo e o morador inculto e mediocremente culto da cidade, acreditam nessas crendices.

Conheci um pratico dos rios Madeira e Amazonas, que me mostrou uma cabeça de jiboia, que ele trazia consigo e que dizia lhe dar muita sorte com o belo sexo; pois, se não me engano, já era casado quatro vezes...

Fonte: O PAULISTA (São Paulo/SP), 03 de Março de 1959, pág. 06

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