segunda-feira, 4 de março de 2019

As pulperías


"Pulpería é um nome confuso, inclusive se sucumbimos ao costume de buscar a origem das palavras. Tenda onde se vendem pulpas [nota nossa: polpas], comércio de pulpos [nota nossa: lugar onde se vendem produtos de primeira necessidade], uma derivação das pulquerías mexicanas [nota nossa: no México, o mesmo que botequim] ou simples deformação das abacerías espanholas [nota nossa: comércio que vende legumes, azeite, bacalhau, etc., comum na Espanha de outrora], são algumas das definições que tomam de assalto o investigador ávido para dar forma ao que se desvanece a cada indício.

Nas pulperías havia de tudo, mas também quase nada. Isto dependia da oferta dos produtos, da ênfase que cada um pusera na forma de cumprimentar o pulpero [nota nossa: o dono da pulpería], ou da soma de dinheiro que se tinha na mão. A ordem da pulpería, igual ao da memória, se alimentava de recordações e esquecimentos que o pulpero manejava de forma magistral.

Centro de sociabilidade por excelência, a pulpería foi, mais que o espaço ideal da revolução - entendida esta como um movimento letrado orgânico que produz códigos e constituições - o espaço da revolta, de espasmos entrecortados que traziam consigo resplendores de esperança na Venezuela do período entre 1750 e 1850.

Na pulpería se podia falar muito, mas também tinha-se que saber falar, e nada melhor que o pulpero para controlar as conversas. Assim, este personagem se move entre os rumores que o situam como ladrão e salvador da vez, como o homem que em determinado momento pode defender o mais pobre e que também sabe cobrar os favores de um oportuno 'fiado'.

Embora a pulpería não foi o âmbito de um utopia igualitária, se constituiu num micro espaço em que 'uma plebe inquieta elaborava a síntese de suas cores', como sustenta Ramón Díaz Sánchez."

Fonte livremente traduzida do original em espanhol de: ZAMORA 200, 08 de Fevereiro de 2017, pág. 01

domingo, 3 de março de 2019

Rio Grande em 1849


"UM GOLPE DE VISTA SOBRE ESTA CIDADE.

Haverá quatro para cinco annos tem esta cidade, soffrido algumas mudanças que longe de a prejudicarem, pelo contrario lhe tem dado um outro aspecto mais brilhante e mais condigno com o seu commercio e população.

Sentimos um indisivel prazer, todas as vezes que vemos irem-se consumindo esses enormes comoros de areia, que além de impedirem um terreno que podera ser aproveitado, incommodão os habitantes, quando sopra uma brisa forte e tempestuosa.

O tempo ajadado das humanas fadigas, consumirá de todos esses colossos que tornão esta cidade tão insipida, e poderemos espalhar as vistas sem perigo de termos um obstaculo que occulte as planicies que almejamos encontrar.

Já possuimos alguns edificios bons, situados em uma praça que vae proporcionalmente embeilecendo com a sua eddificação. A praça municipal é sem duvida, a melhor cousa que possuimos e que dá algum valor a esta cidade, ainda não ha muitos annos despida de bons predios e inteiramente defeituosa. A alfandega encerra uma bella peça de obra; o interior desse edificio é vasto. As differentes repartições bem divididas; a maior parte dellas independentes, de modo que não ha receio de confusão, como se observa em muitas alfândegas, onde por falta de um bom combinado delineamento perigão muitas vezes a boa ordem e andamento das differentes repartições. A nossa alfandega não sendo um daquelles edificios gothicos, que só serve de magnificencia aos grandes, é não obstante magestoso e solida, de modo resistir ás intemperies do tempo.

Ao lado da alfandega podemos ver o edificio que serve para as reuniões commerciaes desta praça, que não deixa de ser elegante e assás espaçoso para o fim que moveu a sua edificação. A sala principal é boa, e offerece ás commodidade para o concurso que por ventura ahi afflúa. Tem mais algumas salas independentes e commodas para effeitos aproveitaveis.

No meio da praça apercebe-se um passadiço de pedra que conduz ao mercado, ornado com algumas pilastras que realmente realção e embellesão o lugar; circundão esse passadiço bancos de pedra, que são bem uteis muito principalmente na estação calmosa em que se torna necessario um refrigerio. É lástima porém, que o material de que são compostas as pilastras não seja mais consistente para poder resistir ao tempo.

Entra-se no mercado, que vai gradualmente augmentando, e adoptando aquella boa ordem, estabelecida em todos os mercados europeos; já não se vê reinar como outr'ora a confusão, que tornava daquella praça mais um mercado de marchantes, do que um lugar destinado para as vendedeiras de fructas e hortaliças. Tem-se escrupulisado bastante na limpesa, ponto essencial que sempre estabelece uma idéa boa ou ruim da administração que o dirige. Os açougues hoje conservão mais aceio, e já não se vê comparativamente a outros tempos, as portadas salpicadas e besuntadas de sangue de carne pendurada, que impedião muitas vezes a entrada ao comprador, infundindo-lhe o receio de sujar as vestes nessa materia chamariz das moscas.

Estamos convencidos dos progressos que tem feito a praça do mercado, e estamos tambem convencidos de que se a presente administração continuar incansavel em seus trabalhos em pouco tempo essa praça ha de apresentar uma perspectiva brilhante, e serviu de recreio, como já vae servindo, a todos aquelles que queirão distrahir-se em passeios.

Notamos porém neste edificio dois defeitos, que remediados muitos realçarião a nossa praça do mercado. O primeiro ser elle um pouco baixo, defeito este que o torna acanhado, na posição que occupa. O segundo o ser o interior pouco vasto, para a população desta cidade.

Á direita da praça do mercado, está situado o edificio que tem de servir para a camara municipal e audiencias, etc. O plano deste edificio é delicado. A sua fachada assás elegante, as janellas arcadas, o seu portico, as frisas que avultão por baixo da cimalha, bem demonstrão que os obreiros que em tal obra se empregão, comprehendem as finas proporções que se dilatão na architectura.

A sala destinada para as reuniões da camara é bella e espaçosa, e logo que forem concluidas as obras que ainda se achão entre mãos, hade indubitavelmente ser uma das peças do edificio mais magnifica.

A sala que dizem destinada para as reunioes do jury é mais pequena do que a que acabámos de descrever. Não deixa de ser elegante e airosa.

Abstemo-nos de elogiar as demais divisões do edificio; só diremos que merecem ellas os nossos elogios.

A Matriz desta cidade erecta em um tempo, em que ainda quasi nenhuns edificios apparecião nesta cidade, devia necessariamente no futuro apresentar muitos defeitos. Hoje que a cidade do Rio Grande está mais augmentada, que ha mais concurrencia de estrangeiros, e por conseguinte mais população, offerece este templo diminutas proporções. Podia elle ser magnifico sem a dependencia de outro que lhe corta toda a extensão que podera ter. Se com effeito se obtivesse a trasladação da igreja de S. Francisco para outro qualquer ponto da cidade, ficando então aquella de posse do terreno devoluto, não podia por ventura ficar mais augmentada a matriz, um dos edificios que tanto atrahe as vistas do estrangeiro? - Tirar-se-hia deste augmento ainda uma vantagem, qual fosse a de situar o templo com a frente para uma praça publica, onde soffreria menos a inclemencia dos ventos que impellem a areia dos Comoros que lhe ficão fronteiros.

Tem apparecido algumas ideias, sobre a trasladação da matriz para a Praça da geribanda, mas taes ideias não podem fortificar-se, attenta uma melhor posição qual seja a da praça Municipal, mais frequentada, e onde figurão melhores edificios.

Sem duvida que muito aproveitaria a matriz com esta mudança; mas estamos certos de que ao decorrer do tempo, esta nossa ideia hade ser apoiada.

A cadeia, é um dos edificios sobre o qual desejavamos mais extensivamente lançar as vistas, mas tanto della se tem fallado, já na tribuna provincial, já mesmo nas sessões de jury que nos abstemos de fazer longos commentarios.

Entristece-nos por sem duvida a perspectiva que apresenta este edificio e suas hediondas paredes, e ainda mais nos entristece a lembrança da desditosa collisão em que se achão alguns presos, a quem ainda por ventura possão restar sentimentos nobres, e cuja posição decente requer certas attenções, que por modo algum podem ter lugar todas as vezes que não haja em tal edificio as commodidades, isto é as divisões competentes, que afastão os grandes dos pequenos crimes. De facto, é duplicada a pena, quando somos constrangidos a tratar com outros cujos cries são em maior escala, pois que para estes já é difficil o arrependimento, por já estarem avesados a trilhar uma senda torpe, em quanto que aquelles são ainda susceptiveis de emenda, e abrem seu coração ás suaves revelações da consciencia.

Oxalá que não passe desapercebida a intenção de edificar uma nova cadeia; essa é talvez uma das necessidades mais urgentes que se faz sentira nesta cidade afim de que o estrangeiro não faça uma opinião desfavoravel da nossa civilisação.

Não proseguimos em nossa analyse, pois cremos haver tocado em todos aquelles edificios que mais interessão este lugar. Evultaremos, se as ideias que vimos de laborar, produzirem algum effeito em abono desta cidade."

Fonte: O RIO-GRANDENSE (RS), 29 de Novembro de 1849, pág. 02, col. 03-04, pág. 03, col. 01

sábado, 2 de março de 2019

Afonso Pena em Pelotas em 1906


"Affonso Pena no Sul
MANIFESTAÇÕES AO CHEFE

O nosso desenvolvido serviço telegraphico já noticiou, sabbado, o que de mais importante occorreu em Pelotas e Rio Grande sob a visita dos drs. Affonso Penna e Borges de Medeiros áquellas cidades.

A viagem desta capital, para o sul do Estado foi regular, tendo o vapor fundeado algum tempo devido ao temporal que caiu e por isso chegado a Pelotas só depois de 2 horas da tarde.

Por occasião da passagem do Florianopolis para o Mercedes, na barra de Pelotas, este atracou rapidamente áquelle, tendo o dr. Affonso Penna felicitado o commandante Gadret pela precisão da manobra.

No porto de Pelotas estava a população daquella cidade, em peso, aguardando o desembarque.

Na barra daquella cidade, do edificio da conservação do porto, foi solta uma grande gyrandola de foguetes de dynamite.

O dr. Affonso Penna conservou-se de binoculo na mão, analysando as margens do rio e as xarqueadas.

Na altura da xarqueada Alfredo Braga estava uma flotilha de rebocadores, gigs, barcos-escolas do Club Sportivo com socios uniformisados, que aguardavam a passagem do Mercedes, tendo comboiado o vapor até á cidade.

Num rebocador especial vinham o major Gonçalves de Almeida, director do Diario Popular, e dr. Boloto, que tomaram conta dos jornalistas da comitiva.

Um esquadrão da União Gaucha, com o respectivo estandarte, esperava a passagem do vapor na xarqueada Pedro Osorio, tendo dado estrepitosos vivas ao dr. Affonso Penna, ao frontear o Mercedes. 

Fundeado o vapor, atracou a elle o escaler da capitania do porto no qual vinha o capitão-tenente Raphael Brusque, e outro conduzindo o vice-presidente do Estado, o intendente de Pelotas e o presidente do conselho municipal.

Em outro escaler vinham o dr. Cassiano do Nascimento e conselheiro Francisco Maciel.

Os drs. Affonso Penna e Borges de Medeiros desembarcaram em escaler, em companhia do coronel Pedro Osorio, dr. Cypriano Barcellos e capitão-tenente Raphael Brusque.

Ao pisarem no caes foram erguidos vivas aos drs. Penna e Borges de Medeiros, seguindo todos a pé até o edificio da mesa de rendas federaes, onde tomaram os carros que eram em grande numero, todos os existentes em Pelotas.

No caes tocavam tres bandas de musica.

Em bondes especiaes estavam os collegios devidamente uniformisados.

Os alumnos eram em numero aproximado a 600, tendo faixas distinctivas com as cores da bandeira republicana.

Tomaram conta da organisação das aulas os professores Bernardo Figueira Filho e Romeu Irusen.

No porto estavam tambem praças da Brigada Militar do destacamento ali aquartellado.

O carro do dr. Affonso Penna era escoltado por um piquete de policia administrativa, apresentando bonito aspecto.

A commissão de recepção no porto era composta do capitão-tenente Raphael Brusque, Delfino Resende, Delfino Costa, drs. Hypolito Boleto e Emílio Leão.

O prestito começou a desfilar pelas ruas Benjamin Constant e era bellissimo.

Todos os carros de Pelotas nelle formavam, conduzindo as comitivas dos presidentes e pessoas graudas da localidade.

Ás janellas dos predios affluiam senhoras e moças, dando um alegre aspecto á recepção.

Muita gente foi a pé para a cidade, que fica a regular distancia.

Outros que quizeram tomar carros pagaram 50 e 60$000 pela conducção.

Nas ruas estavam erguidos arcos e a de 15 de Novembro apresentava o aspecto de uma avenida pela disposição da ornamentação.

No primeiro carro iamo os drs. Affonso Penna e Borges de Medeiros.

No segundo tomaram passagem o vice-presidente do Estado e o general Godolphim.

Ambos eram escoltados por praças da policia administrativa.

O prestito parou ao edificio da intendencia.

A commissão de recepção na intendencia era composta dos seguintes cavalheiros: dr. João Jacintho de Mendonça, dr. Joaquim Augusto de Assumpção, commendador A.P. Rego Magalhães, Carlos Ritter, dr. João Py Crespo, coronel Manoel Simões Lopes, coronel Luiz Carlos Massaud, dr. Manoel Luiz Osório, capitão Augusto Leão Pinheiro, dr. Joaquim da Costa Leite, coronel Manoel Soares da Silva, José Ignacio do Amaral, capitão Joãos Simões Lopes Neto e dr. Francisco Luiz Osorio.

A commissão da cidade, encarregada da formação do prestito da Intendencia ao Club Caixeiral, compunha-se do dr. José Chaves, Emilio Nunes, dr. Nunes Vieira, capitão Pedro Lourival, drs. Edmundo Berchon, Frederico Bastos e Joaquim Luiz Osorio, Baldomero Trapaga y Zorrilla e Lucio Lopes dos Santos Sobrinho.

Ahi o dr. Affonso Penna e mais pessoas presentes subiram ao palacio municipal, sendo feita a saudação pelo dr. Cypriano Barcellos, intendente de Pelotas.

Foi-lhes offerecido, então, um artistico ramalhete com as chaves da cidade, ceremonia usada em paizes extrangeiros.

Dahi o dr. Penna seguiu a visitar a Bibliotheca Publica e a Santa Casa de Misericordia, tendo admirado os dois estabelecimentos.

Nesta s.ex. elogiou a sala de operações, que é excellentemente installada.

Os sinos repicaram festivamente á chegada de s.ex. na Santa Casa.

Dahi o dr. Penna veio para o Club Caixeiral, onde lhe foi offerecido um sumptuoso banquete, pelo municipio.

O aspecto do local, a praça da Republica, era excepcional e o povo que se apinhava em frente ao edificio do club constituia uma verdadeira multidão.

Ao chegar o dr. Affonso Penna, os nossos collegas do Diario Popular fizeram-lhe significativa homenagem, entregando-lhe, em quadro, a primeira pagina do jornal impressa em setim e tendo o retrato do presidente eleito envolto na bandeira mineira que foi hasteada na frente do Diario durante o dia.

Logo após, começou o banquete.

O edificio do Club Caixeiral é um palacio, tendo custado 180 contos e sido feito a expensas da classe.

Referindo-se ao salão do banquete, havia dito o Diario Popular:

<<É bellissimo o salão nobre, cognominado Salão Belmondy, onde terá logar o banquete.

A sua architectura é magestosa, magestosas são as alteroas columnas, encimadas por lindos capiteis, de que destacam-se em relevo emblemas do commercio.

O forro do salão é todo de aço, esmaltado de branco, com filetes roseos e dourados.

Do teto pendem quatro artisticos lustres de bronze, a gaz corrente, e cinco luzes duplas.

Adaptadas ás paredes ha mais seis arandelas do mesmo metal.

Ha ainda quatro grandes e lindos lampeões-estatuetas, de bronze, em pedestal de alvenaria.

Encrustados em uma das paredes lateraes, vêm-se dois enormes espelhos de crystal bisauté, circumdados de artistica moldura de cantaria e gesso.

O salão tem quatro escadas, que dão para a rua General Victorino.

Nas tribunas que deitam para o salão e onde tocará a orchestra de professores, regida pelo maestro Cavalcanti, nota-se uma tela a oleo, do pintor Litran, do grande bemfeitor e querido membro do Club Caixeiral, major Eugenio Belmondy.

A ornamentação de flores é surprehendente, de extraordinario e encantador effeito, embora a sra. d. Maria Izabel Lopes Barcellos, encarregada da ornamentação, lutasse com grandes dificuldades para conseguir flores, que nesta época são raras.

Ainda assim, alcançou a habil florista confeccionar trinta corbeilles, que revelam aprimorado gosto.

Ao fundo do salão, no logar de honra, avulta magestoso tropheu de bandeiras e do centro do qual ressaltam duas grandes letras - A.P., em fragrantes flores.

Em toda a volta da toalha adamascada, que cobre a ampla mesa do banquete, vê-se delicada guirlanda de hera, em graciosas curvas.

A mesa era sumptuosa, em fórma de A. do comprimento de 14 metros.

A base do A era de 8 1/2 metros e o cabeço de 4.

Havia 122 logares dispostos na mesa, sendo esta coberta com baixella nobre de crystaes e prata e cheia de artisticos ramalhetes.

No travessão do A havia duas estatuas de bronze e por sobre todo elle lindas fructeiras e doceiras repletas.

Os guardanapos eram armados em fórma de cysne.

Cada logar era assignalado pelo nome da pessoa que o devia occupar, impresso em cartão amnexo ao cardapio.

O banquete foi servido pelo Hotel Alliança.

Às 4 horas da tarde este começou.

Sentavam-se no cabeço do A os drs. Affonso Penna, Borges de Medeiros, general Godolphim, dr. Cassiano do Nascimento, coronel Pedro Osorio, dr. Cypriano Barcellos e capitão Guilherme Echenique.

Dos lados ostentavam-se os outros convidados e pessoas gradas da localidade.

O cardapio era o seguinte:

BANQUETE OFFERECIDO PELO MUNICIPIO DE PELOTAS AO EXMO. SR. DR. AFFONSO A. M. PENNA, PRESIDENTE ELEITO DA REPUBLICA, EM 17-8-1906. - Menu: Potage, créme votaille; mayonnaise de saumon; vol-au-vent à la reine; galantine de canard; cotelletes panées à la belle-vue; dindon farci à la rio-grandense; tournedos truffé à la parisienne; asparges au beurre; desserts à la mode de Pelotas; fruits de saison, café, liqueurs; vins: Xérez, Collares, Blanc, Chateau-Bordieu, Borgone, Champagne-Clicquot.

Este cardapio tinha no canto as armas do Rio Grande e era impresso com lettras douradas.

Em logar apropriado, onde ensaia a banda do Club Caixeiral, uma orchestra dirigida pelo maestro Cavalcanti executou o seguinte:

Programma do concerto - Hymno nacional - 1a. Keler Bella - Lustspiel - ouverture, 2o. Waldteufel - Mon Rève - walze, 3o. G. Verdi - Rigoleto Potpourri, 4o. G. Mariani - Rosa delle Alpi - mazurka, 5o. G. Puccini - La Bohême - fantasia de E. Cavalcanti, 6o. Pirani - Flora - polka, 7o. C. Gomes - Condor - preludio, acto 3o. (Notturno), 8o. Leoncavallo - Il Pagliacci - fantasia de E. Cavalcanti, 9o. Waldteufel - Berceuse - walzer, 10o. A. Boito - Mefistofele - Centone, 11o. Donizetti - Lucia di Lammermoor - Potpourri, 12o. J. Bayer - Hoch Wien - marcha, hymno nacional.

Nessa especie de tribuna achavam-se exmas. familias, entre as quaes d. Cecilia Osorio, esposa do coronel Pedro Osorio, acompanhando d. Carlina de Medeiros, esposa do dr. Borges de Medeiros.

A commissão do banquete era a seguinte:

Coronel vice-presidente do Estado, intendente e vice-intendente municipal, dr. Cassiano do Nascimento, dr. Bruno Chaves, capitão Alfredo José Rodrigues de Araujo, presidente do conselho, e dr. Joaquim Luiz Osorio.

Servido o quarto prato, devido ao adeantado da hora, o dr. Affonso Penna foi saudado pelo dr. Cassiano do Nascimento, deputado federal.

Respondeu o dr. Affonso Penna em rapidas palavras, bebendo á saude do povo de Pelotas.

O dr. Borges de Medeiros fez o brinde de honra ao dr. Rodrigues Alves, presidente da Republica.

O dr. Affonso Penna retirou-se logo, ficando em meio o banquete.

S.ex. pediu desculpas, mas tinha pouco tempo e desejava sair no dia seguinte a barra.

Fez uma visita particular á familia do conselheiro Maciel e em seguida foi no Club Commercial, onde foi saudado pelo sr. Emilio Nunes, respondendo o dr. Penna, fazendo votos pela prosperidade do club e da classe commercial.

Dali s.ex. dirigiu-se para a estação da estrada de ferro, onde devia tomar o trem para o Rio Grande.

Na passagem pelo 29o. batalhão formou a guarda e a officialidade, que já havia estado no porto, em segundo uniforme, para cumprimentar s.ex.

Na estação foi o presidente eleito recebido pelos drs. Octacilio Pereira, Lassance Cunha e Alfredo Avila, da administração e fiscalisação da viação ferrea.

Era enorme a multidão que aguardava ali os drs. Penna e Borges de Medeiros, entre a qual muitas exmas. familias e moças de Pelotas.

A estação estava ornamentada com muito gosto.

Ás 6 horas mais ou menos o trem dava apito de partida, movendo-se logo em seguida lentamente o comboio, por entre vivas aos drs. Borges de Medeiros e Affonso Penna, tocando as bandas de musica.

A multidão premia-se na estação e o trem teve que caminhar muito devagar para evitar algum desastre.

Incorporaram-se á commitiva republicanos e amigos de Pelotas, entre os quaes o vice-presidente do Estado, e aos jornalistas que daqui partiram o nosso collega Florentino Paradeda, talentoso redactor do Diario Popular."

Fonte: A FEDERAÇÃO (RS), 20 de agosto de 1906, pág. 01, col. 04-05


sexta-feira, 1 de março de 2019

O Lobisomem de Ponta Grossa


"Um homem que se transforma em féra

A imprensa de Ponta Grossa, Estado do Paraná, divulga com carater de escândalo outro caso, mal haviamos passado do pasmo mulher <<caçada>> nas matas de Avaí. Desta vez trata-se de um homem que nas noites de lua cheia, como nas velhas histórias que povoaram a nossa imaginação infantil, transforma-se em féra e ataca sanguinário: um Lobishomem.

Segundo essa noticia, que adquiriu um sentido sensacional e despertou a curiosidade geral, Ivan Santos, operário pintor, há tempos vivia maritalmente com uma doméstica, de cuja união, aliás, possui um filho de quatro anos. Numa das ultimas sextas-feiras - e esse é o dia das bruxarias - pelo dito <<o diabo entrou no corpo>> do operário. Conta a mulher que ouvindo um cão uivar à sua porta foi enxotá-lo e qual o seu espanto ao encontrar ali um estranho ser meio homem, meio animal, no qual teria reconhecido o seu amásio.

Ao voltar a ser <<Mr. Hyde>>, aquele <<dr. Jeckil>> nativo ameaçou a mulher de matá-la se contasse o seu segredo, mas a vida da mulher passou a ser de pavor e ela <<deu com a lingua nos dentes>> o que teria provocado violenta cena de agressão, na qual intervieram os visinhos, evitando assim um assassinato. Perseguido pelas pessoas que foram socorrer a amasia, Ivan desapareceu, tendo a Policia no seu encalço.

Contou a mulher á Policia que Ivan lhe confessara que dêsde criança, nas noites de lua cheia, sentia coisas exquisitas no corpo, logo transformando-se num cão que passava a perseguir quantos encontrava, sem que no entanto pudesse reprimir a fúria sanguinária.

A Policia espera prender o operário para apurar essa história de Lobishomem. Enquanto isso a mulher, em companhia do filhinho, estão aguardando uma solução se Ivan deve baixar ao xadrez local, ou como Lobishomem vai baixar noutro <<Centro>>."

Fonte: O MOMENTO (RS), 30 de Julho de 1949, pág. 01, col. 04-05

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A expansão portuguesa na Amazônia no século XVIII


"Durante o século XVII ocorre, o que Lia Machado (1989:28) denomina de 'primeiro sistema de controle territorial', baseado na construção de fortins nos locais de concentração de população indígena, com o objetivo de capturá-los e impedir sua aliança com as nações europeias, e na introdução de companhias religiosas com o objetivo de pacificar os indígenas. A área das missões ou 'território das missões' foi dividida entre várias ordens religiosas: carmelitas, franciscanos, mercedários e jesuítas, tendo sido a distribuição territorial das missões entre essas ordens regulamentada pela Coroa a fim de evitar conflitos de jurisdição. Assim sendo, os jesuítas ficaram com o sul do rio Amazonas até a fronteira com as possessões espanholas, abrangendo os rios Tocantins, Xingu, Tapajós e Madeira; os franciscanos da Piedade, ficaram com a margem esquerda do Baixo Amazonas e centro de Gurupá até o rio Urubu; os franciscanos de Santo Antônio, com as missões do Cabo Norte, Marajó e Baixo Amazonas; os mercedários com o vale do Urubu e os carmelitas com o vale dos rios Negro, Branco e Solimões.

'A Carta Régia de 21 de outubro de 1652 dava ao Padre Antônio Vieira ampla autorização para levantar igrejas, estabelecer missões, descer índios ou deixá-los em suas aldeias, tudo segundo julgasse mais conveniente, podendo requisitar dos governadores e demais autoridades quaisquer auxílio'.

Dentre todas as ordens que atuaram no Vale Amazonas, a dos Jesuítas foi a mais poderosa, pois a ela foi entregue a grande parte do poder de gestão da mão-de-obra (escrava) indígena.

Durante o século XVIII foram fundadas 62 freguesias, grande parte delas estabelecidas a partir das missões e aldeias administradas pelos missionários. Com a política pombalina essas missões passam à condição de vilas com a denominação de cidades portuguesas. As vila criadas foram as seguintes: Abaetetuba (1750); Aveiros (1751); Macapá e Ourém (1752); Colares, Maracanã, Muaná, Salvaterra, Soure e Souzel (1757); Acará, Alenquer, Almerim, Chaves, Curuçá, Faro, Melgaço, Monte Alegre, Óbidos, Oeiras, Portel, Porto de Moz e Santarém (1758); e Mazagão (1770), além de outras que foram consideradas povoados, devido à pequena população: Benfica, Monforte, Monsarás e Vila do Conde (1757); e Arrayolos, Alter do Chão, Boim, Esposende, Fragoso, Pinhel, Pombal, Veyros e Vila Franca (1758). A transformação das aldeias e missões em vilas por ordem de Mendonça Furtado, consistiu na mudança de nome, substituindo-se os nomes indígenas pelo de cidades portuguesas.

Foi o Alvará de 7 de junho de 1775, que determinou a conversão das aldeias em vilas e lugares, e segundo SIMONSEN:

'Havia por este tempo no Estado do Maranhão e Grão-Pará sessenta aldeias de índios, das quais cinco administradas por padres das Mercês, onze por Carmelitas, quinze por Capuchinhos e vinte e oito por Jesuítas. Pela simples operação de dar-lhes novos nomes, e mandar na praça do mercado de cada uma erigir um pelourinho, converteu Mendonça Furtado, estas últimas em nove lugares, dezoito vilas e uma cidade. O pelourinho (...) era nas vilas da Península Ibérica um pilar de pedra, de estilo por via de regra burlesco, (...), não pode Mendonça Furtado conter-se que não exclamasse: 'ora vejam com que facilidade de se faz uma aldeia, uma vila'.

'Tal era a configuração territorial do Brasil em 1757 quando no Governo Pombalino, os jesuítas foram expulsos, os seus bens confiscados pela Coroa e a tutela das aldeias arrancadas às Missões, passando aquelas à categoria de vila com as denominações primitivas alteradas para topônimos portugueses'.

Sebastião José de Carvalho, o Marquês de Pombal, foi encarregado pelo governo colonial por reformas como: a execução do tratado de limites (1750); o estabelecimento da Companhia Geral do Comércio do Grão Pará; o estímulo a agricultura de exportação (1755); a declaração da liberdade dos indígenas; o estímulo a miscigenação entre índios e portugueses; a expulsão dos jesuítas e de outras ordens religiosas e a introdução de escravos africanos para servir de mão de obra.

'Nas terras próximas à capital era praticado o cultivo de cana-de-açúcar e numerosos eram os engenhos e as engenhocas destinados à fabricação de aguardente. Entre as novas lavouras estimuladas por Pombal encontravam-se o cacau, o anil, o café, o algodão, o arroz branco, o cravo. Foram inclusive chamados na Europa especialistas em alguns produtos como o anil. Apesar de alguns aperfeiçoamentos técnicos e de algumas inovações, as tentativas não alcançavam resultados duráveis: só a cacauicultura apresentou êxito, principalmente na região de Cametá e Santarém, chegando a se constituir no principal produto de exportação'.

A partir desse momento, configura-se um novo sistema de controle territorial que, 'se apoiava em pelo menos quatro elementos: as fortificações; o povoamento nuclear; a criação de unidades administrativas; e o conhecimento geográfico do território'.

A criação das vilas esteve ligada à política pombalina, de expulsão dos religiosos com confisco de seus bens pela Coroa, tendo sido a tutela dos indígenas retirada das ordens religiosas. É o momento da criação das novas unidades administrativas (em 1755 é criada a Capitania de São José do Rio Negro, tendo Barcelos como capital) e a incorporação das capitanias privadas à Coroa.

Nas vilas passa a funcionar uma Câmara Municipal, cujos vereadores seriam eleitos entre os indígenas, e que teriam por objetivo estimular o desenvolvimento local. Também visava-se controlar e dar continuidade à exploração do trabalho indígena, além de prever o dízimo a ser pago por cada comunidade sobre o produto da lavoura no valor de 6%, com o objetivo de controlar a renda da produção agrícola:

'...Elevou os antigos aldeamentos de missionários à condição de vila (...), passando a funcionar uma Câmara Municipal, cujos vereadores foram tirados da massa indígena...'

A transformação das antigas missões em vilas foi somente formal, porque de fato o que ocorreu foi a desestruturação da organização produtiva dos religiosos. Em consequência, se verificou o esvaziamento populacional dos núcleos do vale do rio Amazonas e a permanência de uma população residual que subsistia por uma associação de economia de subsistência com a 'economia natural' local.

As iniciativas pombalinas só tiveram êxito no que se refere ao estímulo à agricultura de exportação, principalmente a do cacau. No entanto, se comparado ao Nordeste e Sudeste, o êxito foi modesto. Contudo, permitiu uma expansão das atividades agrícolas no Baixo Tocantins, onde Cametá, se tornou o principal centro de cultivo de cacau."

Fonte: TAVARES, Maria Goretti da Costa. A formação territorial do espaço paraense: dos fortes à criação de municípios. In: Revista ACTA Geográfica, ano II, no. 03, jan./jun. 2008, pág. 60-63


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Festa patriótica em Camaquã em 1892


"Festas patrioticas
EM CAMAQUAM

Um amigo descreve-nos do seguinte modo, de S. João Baptista de Camaquan, um sumptuoso baile ali offerecido pelo bello sexo aos nossos valorosos amigos que tomaram armas na gloriosa revolução de 17 de junho:

<<Marcharam, para Pelotas, o 11o. e 103o. corpos da Guarda Nacional, d'esta comarca. Era mais um grupo de heróes, em desaffronta da Patria, aviltada pela anarchia desenfreada, que chegou até ao assassinato!

Não chegaram, porém, ao seu destino; e voltaram felizmente, sem manchar suas armas no sangue fratricida.

Isto deu causa ao bello sexo de Camaquam - para offerecer-lhes um esplendido baile, de que nos vamos occupar.

Teve elle lugar no dia 6 de agosto, na camara municipal.

Fizeram parte da commissão promotora as exmas. sras. dd. Elvira de Azevedo do Espírito Santo, esposa do distincto juiz de direito interino d'esta comarca, dr. Terencio Francisco do Espírito Santo, d. Amelia de Souza e Silva e d. Celanira de Azevedo.

Incançaveis no cumprimento do dever que lhes impunha o patriotismo - conseguiram essas exmas. sras. ornamentar o vasto salão da Camara Municipal, com todo o esplendor.

Entre gentis arabescos de folhagem, se entrelaçavam mimosas flôres; predominando, em grande profusão, delicadas camelias. Finalmente, o salão da Camara apresentava o aspecto de um jardim aéreo.

Pelas distinctas promotoras foi offerecido ao Club Republicano de Camaquam, um lindo  quadro, bordado á seda, trabalho da exma. sra. d. Amelia de Souza, contendo o retrato de Julio de Castilhos.

Singular coincidencia!

Foi collocado o retrato do benemerito cidadão sobre imperceptiveis vestígios que deixou sobre a parede o retrato de Pedro II...

Ás 9 horas da noite, uma salva annunciou a chegada do estado-maior e officialidade do 11o. e 103o. corpos.

Uma commissão de senhoras foi recebel-os, dando o braço aos officiaes de graduação mais elevada; acompanhando-os, os outros. Chegados ao lugar de honra, a exma. sra. d. Celarina Azevedo, interessante e intelligente filha do major João da Silva Azevedo, como representante da commissão, disse-lhes:

<<Cidadãos! O motivo que, do intimo d'alma, e bom grado nosso, obriga-nos a fazer-vos a presente manifestação, é duplamente justo e nobre!

Os 11o. e 103o. corpos da Guarda Nacional, tendo em vista o patriotismo, a abnegação de todo cidadão que vê sua Patria aviltada, marcharam para desaffrontal-a!

Foi a pomba da arca da alliança - em busca do ramo de oliveira da legalidade!...

Abandonaram o lar as esposas, os tem os filhinhos - tudo o que mais amavam, porque justa era a causa.

Mas a Divina Providencia entendeu que suas armas não deviam ser manchadas no sangue de seus irmãos. Voltaram: - Eis o motivo pelo qual o sexo a que chamam fraco. Vos offerece o presente baile, nobres e dedicados soldados da causa da legalidade!

Viva o dr. Julio de Castilhos!

Viva o partido republicano!

Seguiu-lhe o coronel commandante superior, Patricio Vieira Rodrigues - agradecendo, em seu nome e no dos corpos a que se referia - a esplendida manifestação, de que tinham sido alvo.

Fez diversas apreciações sobre o governo decahido; seu estado de anarchia, que, felizmente, tinha desapparecido com o governo legal, etc.; terminando com diversos brindes.

Tomou a palavra o tenente-coronel Christovem d'Andrade, commandante do 11o. corpo, e disse que os corpos de guarda nacional a que se referia a exma. sra. d. Celanira d'Azevedo, não fizeram mais do que cumprir seu dever de republicanos e patriotas; historiou as atrocidades do governicho; em phrases vehementes, disse que a victoria da revolução de 17 de junho não o surprehendia; que ha muito considerava um facto consumado, porque conhecia o patriotismo do partido republicano, a confiança illuminada que este depositava em seu eminente chefe dr. Julio de Castilhos e, do quanto é capaz este illustre cidadão, a quem considera um verdadeiro ídolo, porque libertou um povo.

Tratou da organisação do partido republicano rio-grandense, do apparecimento de seu orgam A Federação, da sabia direcção que lhe deu Venancio Ayres, de saudosa memoria, e das glorias que em suas columnas colheu para si e para seu partido o illustre dr. Julio de Castilhos.

Assignalou os serviços prestados pelo coronel Patricio Vieira ao partido republicano d'esta localidade, de quem foi o fundador, disse que elle de um punhado de bravos, fez um exercito de combatentes. Demonstrou os assignalados serviços prestados ao partido pelo tenente-coronel Netto, e a quem tambem saudou, e terminou saudando á legalidade, o dr. Julio de Castilhos e o partido republicano rio grandense, sendo calorosamente applaudido por muitissimas e prolongadas palmas, etc.

Em seguida o tenente Napoleão José Ribeiro, pedindo a palavra, fez apologia da mulher, demonstrou sua importante missão social, a parte importante que tambem indirectamente lhe cabe nas luctas politicas e concluiu saudando o bello sexo. Começou o baile ás 10 horas da noite em que suas distinctas promotoras offereceram um calix de champagne aos officiaes presentes. O baile foi extraordinariamente concorrido, e n'elle reinou a melhor ordem possivel.

A commissão providenciou de modo que, ao aspecto da ornamentação a que nos referimos - juntou excellente copa, provida de deliciosas bebidas, doces - de tudo emfim de ha mister um baile esplendido - em toda a plenitude da palavra, como foi esse. Sabe nos o que é uma toilette chic. As que vimos, n'esse baile, nada deixam a desejar.

Ás 3 horas, concluido o baile retiraram-se os officiaes e mais convidados acompanhados pela musica. Concluimos com um viva ao bello sexo em geral e, com mais enthusiasmo, ao de S. João de Camaquam!>>"

Fonte:  A FEDERAÇÃO (RS), 23 de Setembro de 1892, pág. 02, col. 02-03

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A proposta de nova divisão territorial do Brasil de 1931


Dois interessantes artigos publicados num jornal paulista em 1931, logo após a Revolução de 1930, que propunha, naquela época, uma nova divisão territorial no Brasil.


"Divisão territorial do Brasil - V
J. Testa

Esplanadas, nos artigos anteriores, as nossas idéas geraes sobre a questão, tentamos synthetizar o que dissemos e usar do assumpto as conclusões que elle nos sugere.

Vimos quaes as razões que militam em favor de uma revisão da nossa partilha geográfica: falta de eqüidade na divisão e desequilibrios della decorrentes, tanto no terreno economico quanto no politico; regionalismo; separatismo; rivalidades politicas e uma quasi hostilidade economica entre as unidades federadas.

Analysámos as varias soluções que têm sido aventadas para o problema - dos srs. Christiano das Neves, commandante Segadas Vianna e Sud Menucci - e vimos que as mesmas, apesar de habeis, especialmente a ultima, não resolvem todos os aspectos da questão, visto como, mantendo os mesmos nomes actuaes e Estados equivalentes, não solucionam o assumpto, transferindo-o apenas para outra ordem de idéas. Mudam-n'o de aspecto, mas seria sempre possivel recomeçar a discussão, no novo terreno.

A reforma que propomos é mais radical: o Brasil futuro não se parecerá em nada com o presente, sob esse ponto de vista; os nomes das unidades serão mudados, proscrevendo-se os antigos; as fronteiras actuaes se interpenetrarão, numa [ilegível] que não permittirá reconstituições; em vez de 3 ou 4 unidades equilibradas, o que daria, com pouca differença, a actual situação, teremos 10, alem de varias outras immediatamente collocadas; as regiões de pequena população e, pois, incapazes de se governarem a si proprias com a devida efficiencia, tornar-se-ão territorios; e, por ultimo, o retalhamento dos latifundios estaduaes presentes, permittirá ao paiz um maior desenvolvimento, além de acabar com o fantasma do separatismo.

Uma divisão assim feita, como já tivemos occasião de discutir, satisfaria de uma só vez a todas aquellas razões que acima apontámos.

Vejamos, agora, o modus faciendi. Ao contrario do que poderia parecer, não pretendemos preconisar uma formula rigida e inalteravel. Antes, ao contrario, o modo como se fará a divisão poderá obedecer a criterios variaveis, desde que só enquadre, de um modo geral, dentro daquellas normas que expuzemos. Por outras palavras, queremos dizer que o numero de 18 provincias e 10 territorios, que propomos, poderá ser levemente alterado, desdobrando-se, por exemplo, em duas a da Amazonia, ou subdividindo mais os territorios, sem que isso importe alteração á essencia do plano. Da mesma forma, as linhas divisorias poderão ser ou não naturaes e, ainda, na zona central, occupada pelos Estados de Diamantina, Guanabara, Itatiaya, Mogy Guassú e Tietê, poderia talvez ser estabelecida uma dupla fileira, de estados centraes e maritimos, para evitar as estensas linguas de terra que dariam os quaes propomos.

São, porém detalhes. De um modo geral, o plano que suggerimos é o representado no clichê amnexo. Daria elle em resultado 18 estados ou provincias, todos maritimos, com um maximo de 4.000.000 habitantes ou 400 mil km2, e um minimo de 1.000.000 de habitantes e 100.000 km2, mínimo esse que nos parece sufficiente para permittir a organização de um Estado.

Os territorios apresentariam uma media de 600.000 km2 a 700.000 habitantes, se fossem 10. Seria, entretanto, preferível augmentar-lhes o numero para 12 ou 15.

É evidente que os Estados occupariam a faixa litoranea, em cujos 2.500.000 de km2, approximadamente, se accumula 4/5 da nossa população. A 5a. parte, restante, que occupa no 'hinterland' cerca de 6.000.000 de km2, seria partida em territorios nacionaes, governados por mandatarios da União, até que futuramente, pudessem ser elevados a Estados, quando o seu desenvolvimento o permittisse. A futura constituição preveria esse caso, e, ou prescreveria uma reforma geral da divisão geographica em occasião determinada, ou requerida pelos interessados, ou estabeleceria a passagem automatica de cada territorio a Estado, desde que sattisfizesse ás condições exigidas, que seriam previamente fixadas.

Eis a divisão que proporiamos, e de que dá melhor idéa o 'clichê' ao lado:

Amazonia (parte de Amazonas e de Pará, até o Tocantins e o delta; cap. Manáos; sup. 400.000 km2 e popul. 1.000.000 habs.).

Gurupy (parte de Pará e de Maranhão, até o Mearim; cap. Belém; 200.000 km2 e 1.000.000 habs.).

Parnahyba (parte de Maranhão, de Piauhy e de Ceará, até o Acarahú; cap. Terezina; 180.000 km2 e 1.000.000 de habs.).

Nordeste (parte de Ceará, de Rio Grande do Norte e de Parahyba e de Pernambuco, até o Piranhas; cap. Fortaleza, 100.000 km2 e 1.800.000 habs.).

Borborema (parte de Rio Grande do Norte, de Parahyba e de Pernambuco até o Pajehú e o Capiberibe; cap. João Pessoa; sup. 120.000; e pop. 1.800.000).

Guararapés (parte de Pernambuco e todo o actual Estado de Alagoas, até o S. Francisco; cap. Recife; 110.000 km2 e 2.800.000 habitantes).

São Francisco (Sergipe e parte da Bahia, até o Jacuhype; cap. Salvador; 100.000 km2 e 2.000.000 habs.).

Paraguassú (parte do Estado da Bahia, do Jacuhype ao Pardo; cap. Ilhéos; 130.000 km2 e 2.000.000 de habs.).

Belmonte (parte da Bahia, de Minas e do Espírito Santo, do Pardo ao Doce; cap. Caravellas; 150 mil km2 e 1.000.000 de habs.).

Diamantina (parte de Espírito Santo, de Minas e do Rio de Janeiro, do Doce ao Parahyba; cap. Victoria; 100.000 km2 e 2.500.000 habs.).

Guanabara (parte dos Estados de Minas e Rio, do Parahyba á margem oriental da bahia de Guanabara; cap. Bello Horizonte; 100 mil km2 e 3.000.000 de habs.).

Itatiaya (Districto Federal, parte do Rio de Janeiro, de S.Paulo e de Minas, da margem occidental da bahia de Guanabara até Ubatuba; cap. Rio de Janeiro. 100.000 km2 e 4.000.000 de habs., inclusiveis 2.000.000 da Capital Federal).

Cafelândia ou Mogy-Guassú (parte de São Paulo, de Minas e de Goyaz; de Ubatuba até Bertioga, no litoral e alargando-se para o interior; cap. Ribeirão Preto; 120.000 km2 e 2.500.000 habs.).

Tietê (parte do Estado de São Paulo, de Bertioga até Itanhaen, no litoral, e abrangendo S. Paulo e Santos; cap. São Paulo; 100.000 km2 e 3.000.000 de habs.).

Tibagy (parte de S. Paulo e de Paraná, de Itanhaen a Paranaguá e subindo pelo Tibagy; cap. Corityba; 100.000 km2 e 2.000.000 de habs.).

Rio Negro (parte do Paraná, de Sta. Catharina, e do Rio Grande, até á ilha de Sta. Catharina, no litoral; cap. Florianopolis; 100.000 km2 e 1.000.000 de habs.).

Coxilha (parte de Santa Catharina e de Rio Grande, até Porto Alegre; cap. Porto Alegre; 120.000 km2 e 2.000.000 de habs.).

Pampa ou Piratiny (de Porto Alegre ao extremo sul; cap. Pelotas; 130.00 km2 e 1.200.00 habitantes)."

Fonte: DIARIO NACIONAL: A DEMOCRACIA EM MARCHA (SP), 20 de Março de 1931, pág. 04

"Divisão Territorial do Brasil - VI

(...)

Territorios. (...)

1) O primeiro territorio de Rio Branco, poderia ser constituido pela zona limitada entre os rios Branco, Negro e a Venezuela. A séde do governo seria Bôa Vista.

2) Viria, a seguir o de Rio Negro, a sudoeste desse, limitado entre esse rio e o Amazonas; capital S. Gabriel.

3) Javary, entre esse rio e o Juruá, abrangendo, nas cabeceiras, parte do Acre actual; cap. Cruzeiro do Sul.

4) Juruá, entre este rio e o Purus; cap. Teffé.

5) Madeira, entre o Purus e o Roosevelt; cap. Humaytá.

6) Tapajós, entre o Roosevelt e o Telles Pires, descendo pelo Tapajós. Essa zona é tão aspera como as anteriores, porém ainda mais deserta, donde o ser esse territorio talvez inexequivel, a menos que se fizesse especialmente uma conquista ao sertão bruto, a começar pela edificação de uma capital e pela construção de estradas.

7) Xingu, entre este rio e o Telles Pires. Nas mesmas condições do anterior territorio. As cachoeiras do Xingu, Tapajós, e seus affluentes, têm impedido, nessa zona, o accesso do seringueiro-bandeirante para o interior, como fez no Amazonas e Acre.

8) Araguaya, entre este rio e o Xingú. Já era possivel, aqui, obter-se uma capital em S. João da Barra. E o Araguaya, com pequenos trabalhos de desobstrucção, torna-se francamente navegavel. Haja vista o que realizou o heroico e malogrado Couto de Magalhães.

9) Tocantins, entre este rio e o Araguaya. Zona já perfeitamente aproveitavel, pelo interior de Goyaz. A cap. seria Bomfim ou Porto Nacional.

10) Planalto. Do Tocantins á Serra de Taguatinga, abrangendo também a metade sul do Maranhão. Capital em Palma ou Carolina.

11) Rio Grande, abrangendo o sul de Piauhy e de Ceará, oeste de Pernambuco e nordeste de Bahia, até o Rio Grande. Capital em Joazeiro, Petrolina ou Barra do Rio Grande.

12) Paracatu, sul da Bahia, norte de Minas e centro leste de Goyaz. Capital Januaria.

13) Cuyabá, centro de Mato Grosso e centro-oeste de Goyaz. Capital Cuyabá.

14) Corumbá, sul de Mato Grosso, menos a parte que formaria, com S. Paulo e Paraná, o Estado de Tibagy. Capital Corumbá ou Aquidauana.

15) Trombetas (zona fronteiriça da Guyana Ingleza, do Rio Branco ao Trombetas). Esta região, que o general Rondon ha pouco explorou e sobre a qual escreveu o sr. Gastão Cruls 'A Amazonia que eu vi', seria tambem, por ora, inaproveitavel, devido ás cachoeiras, a menos que se construisse uma estrada de penetração.

16) Oyapock. Zona pouco mais accessivel, do Trombetas ao Oceano. Poderia ser estabelecida a sêde do governo em uma das pequenas povoações que orlam o rio Parú."

Fonte: DIARIO NACIONAL: A DEMOCRACIA EM MARCHA (SP), 26 de Abril de 1931, pág. 04




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