quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Álvaro José Gonçalves Chaves


Por Fernando Osório

"Nasceu em Pelotas, a 13 de setembro de 1861. Ramo pujante de uma árvore genealógica de vigorosa seiva. De seu ilustrado avô, Antonio José Gonçalves Chaves, de quem, por vêzes, se falou neste ensaio, e de seu pai o Dr. Antônio José Gonçalves Chaves (a cuja memória ilustre foi dada à antiga Rua Jatahy, como homenagem, a denominação - Gonçalves Chaves) herdou nobilíssimas faculdades de trabalho, de espírito e de caráter. 

Formado em Direito pela Faculdade de S. Paulo, em 1883, e lançado na vida pública, o talento forte e singular do jovem pelotense procurou dar forma ao seu ideal de liberdade e humanidade. Nestas condições, foi o fundador do Clube Republicano 20 de Setembro e redator-chefe de 'A República', de S. Paulo; um dos organizadores do Partido Republicano Pelotense, e um dos mais generosos e extremados propagandistas da abolição da escravatura. 

Promotor e membro da comissão que, em 1888, erigiu a Coluna Domingos de Almeida, no Areal, em Pelotas (Costa), considerada o primeiro monumento publicamente, no Brasil, consagrado ao ideal republicano, no regime monárquico. Foi um dos fundadores e redatores de 'A Federação'. Ao lado de Saldanha Marinho foi o verdadeiro reorganizador do Partido Republicano do Rio de Janeiro. Aí, em 20 de agôsto de 1885 fundou, ao lado de seus irmãos, os ilustres Drs. Bruno e José Chaves e de Romaguêra Corrêa, o Clube Republicano Sul-Rio-Grandense, que ao depois foi um dos melhores esteios do abolicionismo, e logo a 'Revista Federal', órgão doutrinário, que sustentou-se cêrca de dois anos.

Excursionou pelo Paraná e pelo interior do Rio Grande levantando a orientação republicana. Achando-se doente, seguiu para a Europa, e em Paris, teve a notícia da proclamação da República no Brasil, e regressou, vindo pela Espanha. Realizou, então, em Madrid, sob auspícios do notável Py y Margall, uma conferência política, memorável.

Recolheu-se ao lar e quando sua capacidade ia ser chamada para a colaboração junto ao novo regime, aqui faleceu em 22 de fevereiro de 1890. Prestou serviços a Pelotas; ainda persiste na lembrança dos contemporâneos o brilho de suas conferências políticas. Morreu muito moço, como se vê, mas teve a felicidade de ver, pouco antes de cerrar os olhos para sempre, realizados os seus sonhos: a abolição da escravatura negra, pela Lei de 13 de maio de 1888 e a redenção dos escravos brancos pela proclamação da República em 15 de novembro de 1889. Foi uma das mais risonhas esperanças que já floresceram em terras do Rio Grande."

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Feijão de Bolanta do Passo das Pedras


Bolanta é um tipo de habitação móvel encontrada no Rio Grande do Sul, que se assemelha a uma casa de madeira com rodas. Serve como abrigo a trabalhadores rurais (peões) que necessitam se deslocar de um lugar para outro em grandes distâncias. Essa receita recolhida oralmente foi encontrada junto a um "bolanteiro" da localidade de Passo das Pedras, município de Capão do Leão, Rio Grande do Sul. Preferencialmente, é um prato de inverno.

Ingredientes:

Feijão preto (o quanto baste, normalmente a quantidade normal para uma refeição)

Cebola (o quanto baste)

Alho (o quanto baste, mas não demais para não ficar marcado o sabor)

Pimentão (o quanto baste)

Caldo instantâneo de sua preferência

Um pedaço médio de bacon

Abóbora (o quanto baste)

Carne de ovelha assada (o quanto baste)

Sal a gosto

Preparo:

Após deixar o feijão de molho por umas duas horas, inicie o processo normal de cozimento na panela de pressão do feijão temperado somente com sal e alho picado, coberto com água.

Depois de 15 minutos após o início da fervura, retire o feijão do fogo e junte a cebola, o pimentão e o bacon picados ao feijão mais um cubo do caldo de sua preferência. Retorne ao fogo e acrescente um pouco mais de água.

Corte a abóbora em pequenos cubos. Pegue o pedaço de carne de ovelha assada e igualmente corte em pequenos pedaços de sua preferência. Junte a abóbora e o carne de ovelha em picadinho ao feijão. Espere ferver mais uns 15 minutos e está pronto.

O "Feijão de Bolanta" fica melhor acompanhado com uma boa pimenta e pão-d'água (pão francês).

Obs.: recomenda-se usar um pedaço de carne de ovelha relativamente "magro" para não tornar a receita muito gordurosa.




terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Conselheiro Francisco Carlos de Araújo Brusque


Por Fernando Osório

"Nasceu esse ilustre rio-grandense em Porto Alegre, a 24 de maio de 1822, filho do Cel. Francisco Vicente Brusque e Exma. D. Delfina de Araújo Brusque. Formou-se na Academia de Direito de S. Paulo, em 1845. Sendo estudante, tomou parte na revolução liberal da Província de Minas.Serviu, como auditor de guerra, com o posto de major, na campanha cisplatina de 1852, sendo condecorado. 

Foi Presidente da Província do Pará, de 1863 a 1864, opondo-se, à mão armada, contra a invasão nas águas do Amazonas de duas corvetas de guerra do Peru. O fato deu-se no referido ano de 1863. Os vapores de guerra peruanos chamavam-se Morona e Pastora. Era comandante dessa quadrilha o Comandante Ferreiros. O Morona veio preso e rebocado até Belém, pela esquadrilha ao mando do chefe da esquadra Parker e o Pastora ficou arrombado e encalhado em frente à velha fortaleza de Óbidos. Trocados os necessários entendimentos entre os ministros do Brasil e Peru, foi em 23 de abril considerado terminado o incidente entre os dois, e comunicado isso à Presidência do Pará. Em consequência, partiu o vapor Morona do porto de Belém para o Peru a 12 de junho do mesmo ano e, ao frontear a fortaleza de Óbidos, parou, e salvou-a com 21 tiros, salva que foi correspondida. Pouco depois, consertado o Pastora salvou a fortaleza e seguiu o mesmo destino de seu companheiro. As conferências com o representante do Peru no Rio foram a 15 e 22 de janeiro de 1863. Os navios peruanos desatenderam às intimações feitas em Gurupá e Óbidos para pararem e, por último, resistiram à bala em Óbidos, sendo então alvejados pela fortaleza de Óbidos, que conseguiu afundar um e estragar o outro. Por essa ocasião, o Dr. Brusque foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Leão de Ouro da Holanda. Era também o eminente conselheiro - oficial de Cristo e da Rosa (Brasil).

Exerceu a Presidência da Província de Santa Catarina de 1862 a 1863. Deixou a Presidência do Pará (dezembro, 1864) por ter sido eleito deputado geral pelo Amazonas. Foi, ainda, deputado pelo Rio Grande do Sul em quatro legislaturas e deputado provincial - militando, até 1874, na política liberal. Na tribuna, de uma e outra casa, pôs em acentuado relevo seu formoso talento, iluminado pelas irradiações de vasto saber... 'Quando orava' era um encanto ouvi-lo; o auditório ficava preso à sua palavra arrebatadora.

Pouco antes da Guerra do Paraguai, ocupou a pasta da Marinha (1864-1865), tomando o mais vivo interesse pelos deveres inerentes a esse cargo. Não transitou por ali sem deixar um traço luminoso da sua passagem rápida, mas proveitosa. Quando ele abandonou o ministério, a imprensa carioca teceu os mais rasgados elogios à sua administração, que só se inspirou no bem público. 

E foi uma figura obrigada, durante certo tempo nas assembleias do passado do Rio Grande, em cujo recinto se enfileiravam os homens mais ilustres de nossa terra pelo saber, pelas virtudes ou cheios de serviços à pátria. Aquela velha casa, onde se reuniam os nossos representantes, no seu modesto interior, apresentava o aspecto venerando de um cenáculo. Não parecia uma assembleia de homens, parecia antes uma assembleia de deuses. E o Dr. Araújo Brusque ocupou, sempre, aí, um lugar de destaque.

Em Pelotas, a 12 de dezembro de 1882, celebrando a formatura de seu filho Francisco, fê-lo entregar cartas de liberdade a seus escravos. Faleceu, nesta cidade, a 23 de setembro de 1886, com 64 anos. Honram-lhe o nome seus dignos descendentes."

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A Laguna dos Patos por Hermann von Ihering


"É conhecido que a Província do Rio Grande do Sul possui os maiores lagos brasileiros na Lagoa dos Patos e na Lagoa Mirim, que se comunicam. Há muito pretendia submeter estas lagoas a um estudo pormenorizado, principalmente, a respeito de sua fauna, pois, pelo que sei, isto ainda não foi feito e tive oportunidade de fazê-lo no ano de 1884, quando me alojei na cidade de Rio Grande, e tinha vivido durante época em Pedras Brancas, no Guaíba, em frente de Pôrto Alegre, e pude estudar o afluente principal da Lagoa dos Patos, o majestoso Rio Guaíba e que lá tem caráter de lago e, muitas vêzes, é chamado de Lagoa de Viamão. Apesar de, como já disse, minhas pesquisas visarem, principalmente, fins faunísticos, resultou também tão interessante em sentido geográfico e, até agora, desconhecido que os seguintes comentários me parecem justificados.

Os dados gerais a respeito da posição, extensão e afluentes dêstes lagos podem ser obtidos, fácilmente, em algum compêndio geográfico, como por exemplo, Wappaeus: Manual do Brasil. Por conseguinte abstenho-me de repetir êstes dados conhecidos e relatarei em traços gerais, sómente, os aspectos mais importantes. Em sentido hidrográfico, a Província do Rio Grande do Sul se divide em duas regiões: uma ocidental e a outra oriental, se não considerarmos alguns rios menores que deságuam diretamente no mar. A região ocidental é representada pelo Rio Uruguai; a oriental por ambas as lagoas e seus afluentes. A Lagoa Mirim é a menor, o que já indica seu nome (mirim=pequeno) e não recebe rios consideráveis. O mais importante dêstes é o Rio Jaguarão, navegável para embarcações de pequeno porte até a cidade do mesmo nome. Esta lagoa está em comunicação com a Lagoa dos Patos por meio de um canal semelhante a um rio, o São Gonçalo, cuja parte inicial é denominada de Sangradouro. A Lagoa dos Patos recebe em sua margem ocidental, as águas que descem da Serra dos Tapes e da Serra do Herval e, entre os rios o Camaquã é o mais forte; e continua, a partir da Ponta de Itapoã, no Rio Guaíba, o qual, por sua vez, é formado pela confluência dos rios Jacuí, Caí, dos Sinos e Gravataí. Tôda a quantidade de água se junta na Lagoa dos Patos, que está em comunicação com o Oceano, sómente, através de uma saída curta e estreita, o Canal do Norte.

Êste, inicialmente, era considerado rio e, por isso, a cidade recebeu o nome de Rio Grande. Os bancos de areia que se encontram na desembocadura dêste canal, formam a mal afamada Barra do Rio Grande. (...)

A Lagoa dos Patos não deve seu nome, como muitas vêzes parece, aos patos grandes (Cairina moschata L.) que são muito raros e não ocorrem absolutamente, perto de Rio Grande, mas, aos índios da Tribo dos Patos que, antigamente, moravam nesta região. (...)

(...)

O Canal do Norte constitui um raro fenômeno por ser a única saída para o despêjo de massa total de água duma área enorme, sem no entanto possuir correnteza constante. Isto se pode compreender sómente, lembrando-se que o nível da Lagoa não difere, ou difere muito pouco do nível do oceano e que as correntezas, por conseguinte, são únicamente, expressão de equilíbrio de diferenças de nível, causadas pelo vento. Esta influencia do vento não se constata sómente na Lagoa dos Patos, mas também no Guaíba onde observei êste fato na desembocadura do Rio Passo Fundo, perto de Pedras Brancas. Lá tirei muitas vêzes do solo lodoso as grandes conchas que permaneceram ao recuar rápido da água em lugares onde no dia anterior, a água tinha ainda profundidade de 20 até 30 cm. Na desembocadura do Rio São Lourenço, na Lagoa dos Patos, a influência do vento exercida sôbre a altura do nível da água também é tão grande que a possibilidade de passagem da barra é determinada essencialmente pela direção do vento. A Barra é rasa e o Rio São Lourenço é navegável sómente por 2 ou 3km. Quando passei a Barra recentemente, de veleiro, vindo de Rio Grande, a profundidade do canal de navegação estava apenas a 4 palmos. Esta podia ainda ser superada, arrastando-se o navio pela âncora através do banco de areia. No dia seguinte, com a profundidade de 3 ou 3 e meio palmos isto não mais seria possível. Pelo fato que, neste ponto, não ocorre sedimentação forte, correnteza, etc., seria fácil aprofundar um canal de navegação por dragagem e que, provávelmente, se conservaria durante muitos anos. Atualmente, o Govêrno pretende mandar fazer êste trabalho útil com draga.

(...)

Compreende-se que tais transformações não podem deixar de influir na vida faunística da lagoa. Não existe regra geral sôbre a relação dos animais aquáticos para com a composição química da água; geralmente os animais, habituados a determinada composição da água, toleram dificilmente alterações consideráveis da mesma. Nunca se pode manter, em sua maioria, vivas: mães-d'água, estrêlas-do-mar, etc.; na mesma água doce dos carangueijos, caracóis, conchas, etc perecem rápidamente, transportados à água do mar. Outros animais toleram alterações mais ou menos acentuadas de salinidade, tais como certos peixes do mar, que descem nos rios, ou seja os que vivem nos estuários. Segundo Moebius, chamam-se 'eurialinos' os animais que toleram consideráveis oscilações da salinidade, e 'estenoalinos', aquêles que pouco toleram estas oscilações. Mas, deve ficar constatato que as variações constante dentro de tôda a escala da água doce até à água marinha de quase 4%, são toleradas por poucos animais, com exceção de alguns peixes. Por conseguinte, não é milagre, que a fauna do estuário de Rio Grande seja tão extraordináriamente pobre. Crustáceos maiores ocorrem únicamente: Helice granulata, uma espécie de Lupe e Palaemon brasiliensis, regularmente, em maior número; no verão, ocorre ademais Penaeus brasiliensis Latr., o saboroso camarão. Tôda a fauna de moluscos é reduzida a duas conchas - Solecurtus platensis e Corbula (Azara) labiata - e um caracol ínfimo, Hidrobia australis.

Os últimos se encontram em milhões. As margens das baías mais rasas em volta de Rio Grande são revestidas por espessas massas de Confervales, Ulva e uma espécie de Zostera marítima. Nesta massa de plantas ocorre, freqüentemente, a Hydrobia; ademais, se encontram alguns crustáceos menores, uma Bryozoa e algumas Infusoria e grandes colônias de Epistylis. Não ocorrem vermes, lesmas, nem se fala de Echinoderma, naturalmente.

O número de peixes é limitado apesar de certas espécies ocorrerem em tais quantidades que a pesca é fonte de renda considerável da população. Jenynsia lineata e Girardinus decemmaculatus se encontram em tôda a parte e em grandes quantidades; mais raro, Cyprinodontae. De peixes maiores e comestíveis se encontram os seguintes, durante todo o ano e não dependem diretamente, ou pelo menos em menor grau, de salinidade: Lobotes auctorum Gthr., chamadao Breixereive; Pogonias chromis L., chamado Miraguaia; Pogonias fasciatus Lac., chamado de Burriquete; Umbrina sp. (martinicensis C.V.), chamado Papa Terra; Sciaena aduata Ag., chamada Corvina e Cascudo; Ancylodon jaculidens C.V., chamada Pescadinha; Atherinichthys C.V., chamada Peixe-rei; Mugil lizza C.V., chamada Tainha; Pseudorhombus vorax (?), chamado Linguado; Arius Commersonii Lac., chamado Bagre; Clupea aurea Ag., chamado Javelha.

São êstes os peixes mais freqüentemente representados no mercado de Rio Grande e que aparecem quase diáriamente em enormes quantidades, principalmente os maiores (Cascudo ou Corvina). Outros, como Bagres, escasseiam no verão, pois nessa estação permanecem na Lagoa dos Patos ou no Guaíba. Corvina, Tainha, Peixe-rei e Linguado são, provávelmente, os peixes melhor adaptados à vida no Canal. Outros, por exemplo a gigantesca Miraguaia, vivem sómente nas proximidades da Barra e apenas entram mais quando a água do mar se introduz e penetra duradoura e profundamente. Esta Miraguaia é idêntica ao Trommler da costa oriental da América do Norte, peixe comercialmente muito apreciado por lá e cuja propagação até a América do Sul, talvez com exceção da própriamente tropical é tão pouco conhecida como a dos Lobotes, tão apreciados. Peixes menos freqüentes são os que entram sómente no auge do verão com a água marinha, parcialmente são espécies mais conhecidas, provenientes do Rio de Janeiro ou outros lugares da costa brasileira, parcialmente também vivem na desembocadura do Rio de La Plata.

Ao todo encontram-se, entre as 40 espécies de peixes do Rio Grande, 10, isto é, cêrca de 25%, que também ocorrem no estuário La Plata. Com conhecimentos mais pormenorizados dos peixes, esta cifra certamente ainda se elevará, pois, a fauna do estuário La Plata ainda não foi estudada, tão pormenorizadamente, como a fauna de Rio Grande. Para a última, as minhas verificações, que relatarei mais detalhadamente noutro lugar, podem ser consideradas completas, pois as demais espécies não por mim observadas, são peixes marinhos que sómente entram ocasionalmente, no verão, enquanto os habitantes permanentes do estuário em traços gerais, é mais conhecida que a fauna de peixes dos rios que desembocam na Lagoa.

A Tartaruga aparece, às vêzes, a Thalassochelys caretta (Linn.) no mercado, onde é vendida muito cara como iguaria (cêrca de 25-30 marcos). Na água salobre vive, ademais Platemys Hilarii L.B., que recebi também procedente do Rio Jaguarão, enquanto nos afluentes ocidentais da Lagoa dos Patos se encontra Hydromedusa Maximilianii Fitz. Os mamíferos do estuário do Rio Grande são sómente dois tipos de golfinhos, Stenodelphia Blainvillei e que parece precisar de água do mar, e um golfinho muito grande provávelmente Delphinus cymodoce Gray, que não pude captar; sómente seu crânio me serviu de indicação.


Enquanto a fauna própria do estuário de Rio Grande pode ser denominada escassa, devido às condições desfavoráveis a qualquer vida animal, a riqueza e variação das aves que alegram o aspecto da paisagem formam um contraste agradável. O número de espécies de patos, galinholas, andorinhas-do-mar, gaivotas, etc. observadas é, de fato, muito grande. Não podemos tratas mais extensamente dêste assunto, mas também devemos ressaltar que entre estas aves constam as duas espécies sul-americanas de cisnes, Cygnus nigricollis, chamado Pato harminho e Cygnus coscoroba, chamado Capororoca. Mais estranhas nesta fauna variada são algumas aves das quais não se sabia, até então, que se encontram na costa brasileira, porque seu 'habitat' é a região ártica; é o pingüim do grupo Spheniscus. Depois de grande tormenta encontrei um exemplar na costa, já morto, mas sei de vários casos, em que êstes foram capturados com vida. Da mesma maneira obtive dos pescadores o Podiceps dominicus Lath., pêgo na rêde, enquanto o mergulhão (Pediceps bicornis Licht.), se pode obter sómente por tiro certeiro, porque, quase sempre, desaparece a cabeça no momento em que se movimenta o gatilho. Chamou-me a atenção que o Phalacroccorax brasilianus (chamado Biguá) não recusa a água salobre como campo de caça.

Em comparação com a escassês do resto da fauna do estuário de Rio Grande a classe de peixes é relativamente bem representada, pois, durante um ano de coleta captei cêrca de 50 espécies. Desta cifra devem ser subtraídos sómente os peixes de água doce, que durante as enchentes, são freqüentemente carregados pela água até Rio Grande, respectivamente, ao mar. Que, de fato, as enchentes são as responsáveis, se conclui das quantidades de plantas, únicamente ocorrentes na água doce, principalmente, Pontederiaceas, o água-pé dos brasileiros, e que flutuam várias vêzes, através do Canal. Um dia fiquei especialmente admirado pela ocorrência de um Pimelodus sapo entre os peixes do mercado. As pesquisa levaram ao resultado que imediatamente antes o Rio São Gonçalo aumentou considerávelmente seu volume por causa das fortes chuvas. No que êstes peixes, durante a vazante, se encontram em água predominantemente doce, são encontrados em estado normal; chegando à água salgada, ficam tontos rápidamente e podem ser capturados fácilmente; mais tarde, pérecem e flutuam mar adentro, ou são lançados à praia. Encontrei, uma vez na praia do Canal, perto de São José do Norte, um Macrodon trahira e soube depois que, freqüentemente, peixes de água doce são lançados à praia.

O que ocorre aqui isoladamente, ocorre em grande escala na Lagoa dos Patos, quando no auge do verão, a água marinha se introduz na Lagoa. Então os peixes da água doce ficam tontos e são coletados em massa pelos barcos. Mas, inúmeros perecem e infestam o mar. Aparentemente os peixes não compreendem de que direção vem a água marinha para poder fugir desta. Assim a natureza aniquila cruelmente, com um golpe, tôda a fauna existente, periódicamente, no que esta não consiste de formas eurialinas. É esta a razão, por que a fauna da Lagoa dos Patos é tão pobre na região média como no Rio Grande. No farol Cristóvão Pereira, na baía de Mostardas, encontram-se únicamente as duas espécies mencionadas de moluscos Corbula e Hydrobia, escassez que contrasta estranhamente com a rica fauna de moluscos do Guaíba, na qual existem numerosas espécies de Anodonta, Unio, Leila, Cyrena, Ampullaria, Chilina, Hydrobia e outras. De carangueijos decápodos encontram-se ainda algumas espécies no Guaíba, também observadas no Rio Grande. Fiquei muito surprêso em encontrar algumas carapaças de Corbula, ornadas de Balanus vivos. Êstes se encontram só excepcionalmente na água doce. Por conseguinte, também em sentido zoológico se observa um contraste nítido entre o Guaíba, que revela em sua fauna, o caráter de seus afluentes e da Lagoa dos Patos. Relação semelhante ocorre entre a Lagoa Mirim e o Rio Jaguarão. Corbula labiata, falta no último, assinala também o caráter peculiar do lago, enquanto se encontram no Rio Jaguarão espécies de Planorbis, Physa e outras, que não ocorrem na Lagoa Mirim pelo menos, em sua metade norte, pois desconheço a outra. Assim, como a água marinha ocasiona o perecimento dos peixes do rio, inversamente, a repentina predominância da água doce pode ser fatal para os peixes marinhos. As miraguaias são especialmente sensíveis neste sentido. Quando estas, na Barra ou na terminação do Canal, se encontram repentinamente na água doce, devido á forte vazante, o efeito é o mesmo anteriormente relatado, com relação aos peixes de água doce.

(...)

A costa da Província é rasa e arenosa; não oferece lugares protegidos aos navegantes, principalmente perto de Rio Grande, razão pela qual não existe pesca regular na costa e os pescadores raras vêzes se aventuram a sair ao mar com suas embarcações frágeis e nunca vão a longa distância da barra. Pratica-se a pesca, especialmente no Canal do Norte até a Barra do Rio Grande, assim como nas baías vizinhas da Lagoa, como por exemplo no Saco da Mangueira, sendo que sempre trabalham vários pescadores em conjunto. Para as espécies mais freqüentes de peixe têm diferentes tipos de rêdes. Recentemente a Câmara Municipal decretou que, na região principal de reprodução, sómente se permite a pesca com rêde de malhas largas. Uma exceção disso é a rêde do camarão, a mais fina de tôdas, mas geralmente só usada na praia, em lugares arenosos e arrastam na terra. As rêdes são fabricadas pelos próprios pescadores, em parte de cânhamo russo (foi da Rússia), outras de fibras nacionais, especialmente tucum - de uma palmeira baixa e espinhosa (Astrocarium vulgaris). Esta ocorre também no Rio Grande, onde antigamente forneceu aos índios a fibra para as cordas de seus arcos, mas atualmente não é mais aproveitada e o tucum, empregado pelos pescadores, vem de Pernambuco. Ademais se empregam na fabricação das rêdes as fibras das fôlhas da Pita,
uma Bromeliácea grande que é freqüente na região norte da costa de Rio Grande. Os pescadores nas povoações pequenas da costa norte da Província, como Tramandaí, Cidreira e outras, como também os pescadores de Santa Catarina, usam para a confecção de rêdes a Pita. As rêdes têm seu nome pela espécie de peixe para a qual são destinadas, por exemplo, rêde de tainha, rêde de cascudo. É interessante que os pescadores já podem julgar de antemão o que quererão e poderão pegar. Em certos casos, por exemplo, nas tainhas, que ocorrem em grandes quantidades em maio, isto se orienta pela estação do ano. A época de pesca de Bagre e Miraguaia é o inverno.

(...)

Rio Grande, 20 de janeiro de 1885."

Fonte: Relatório originalmente publicado no periódico Deutsche Geographische Blätter, vol. VIII, fascículo 2, Bremen, Alemanha, 1885, pp. 164-203 sob o título "Die Lagoa dos Patos".

A tradução para o português foi feita por Luise H.G. Körner e reproduzida na revista "Organon"



domingo, 21 de janeiro de 2018

A gastronomia gaúcha


"Segundo Marques e Campos cada etnia deixou suas contribuições para a gastronomia gaúcha. As autoras ressaltam alguns exemplos, como a herança indígena percebida pela utilização da mandioca e de seus produtos e de seus produtos, no cozimento dos alimentos, que era realizado na tucuruva (trempe de pedras), no moquém (grelha de varas), utilizado para assar carne ou peixe e, finalmente, o mate, difundido como Chimarrão. As técnicas de churrasco, prato símbolo do estado e destacado como comida de festa por todos os entrevistados foram adaptadas para carne bovina quando da ocupação dos espanhóis que instituíram a criação de gado, principalmente na região dos pampas gaúchos, situado principalmente ao extremo sul do estado e nas regiões fronteiriças com a Argentina e Uruguai.

A cultura do gado e das migrações com as boiadas desenvolveu, também, outro produto emblemático do estado: a carne de charque, que é a carne bovina cortada em mantas, salgada e seca ao sol, ingrediente principal do arroz de carreteiro, que também ocupa posição de destaque entre os preparos considerados típicos do estado.

Os imigrantes italianos introduziram as massas recheadas, o galeto al primo canto (frango pequeno assado na brasa), a polenta, o salame, a sopa de capelleti (massa recheada de carnes cozida no caldo de frango) e o vinho. Dos alemães herdou-se o joelho de porco, as cucas, küschimier, as salsichas, os salsichões, preparos à base de batata e as cervejas; e, dos monastérios e portugueses, a produção de doces, principalmente de ovos, feitos na região de Pelotas.

Apesar da influência das diversas etnias ser tão presente na identidade gaúcha, em suas várias regiões e na própria capital Porto Alegre, os hábitos tradicionais de cada uma destas etnias vêm sofrendo um processo de hibridização cultural. Esse processo influencia e é influenciado tanto pela cultura já instalada no Rio Grande do Sul e pelos turistas vindos de outras localidades do Brasil e do mundo, como, também, pelas mudanças econômicas, tecnológicas e sociopolíticas forçando a sua adaptação ao novo contexto e à novas demandas, (...)

(...)

Sobre isso, observa-se que há heterogeneidade de significados para os atores envolvidos com a gastronomia tradicional. Woortman observa, em suas pesquisas numa colônia alemã no Rio Grande do Sul, que há uma diferença de valorização da gastronomia tradicional entre os mais velhos e os mais jovens. Para os mais velhos, comer o que é produzido em casa é fator de orgulho por terem conseguido produzir, além de considerarem mais seguro e saudável. Para os jovens comer o que é feito em casa é uma fraqueza, revelando o baixo poder aquisitivo para comprar os alimentos, por isso 'ocorre o caso da desvalorização do que é 'feito em casa', pelo signo de atraso e pobreza que podem evocar'.

A mesma autora afirma que o turismo e a migração tem um papel fundamental para a ressignificação dos alimentos tradicionais, atrelando um aumento de valor simbólico e econômico para os produtos tradicionais, como explica no trecho 'As comidas tradicionais sofreram adaptações, devido ao impacto de turismo e da migração para áreas urbanas. É o caso da sofisticação (...) O turismo conduziu a uma ressignificação dos hábitos de consumo de comidas tradicionais e conduziu a uma revolarização da comida 'étnica'.

Visto a diversidade de elementos que compõe a cultura culinária do RS, seria simplista afirmar que exista uma única identidade gastronômica gaúcha. Nessa perspectiva, no ano de 2010, foi realizada uma pesquisa pela DCS Comunicação e Segmento. Pesquisa em vinte municípios do Estado com uma amostragem de 1,2 mil entrevistas, em 20 cidades do estado para investigar a autopercepção dos gaúchos sobre sua identidade. A pesquisa mostrou que 77% deles identificou o churrasco como sua comida típica, seguido de 9% das indicações para o arroz de carreteiro."

Fonte: ZANETI, Tainá Bacellar. A Cozinha Gaúcha: um resgate dos sabores e saberes da Gastronomia do Rio Grande do Sul. In: Ágora, Santa Cruz do Sul/RS, v. 18, n. 01, jan./jun. 2016, p. 33-35

sábado, 20 de janeiro de 2018

A breve história do município de Santa Isabel do Sul


"Em 1865, durante a viagem a Jaguarão, D. Pedro II foi visitar a nascente Vila de Santa Isabel, episódio a que o Conde D'Eu fez referência em suas Memórias Militares. Naquele tempo, sua igreja já estava benta; o terreno para a construção da igreja foi doado em 1859 e as obras concluídas em 1861. Movimentos no porto, produtos importados do Uruguai, e nos empórios da Vila o vinho do Porto, sabonetes Alvar, munição, tecidos de seda e anis fomentavam a rede de comércio que subia a serra até Arroio Grande.

As queixas contra Arroio Grande e o descaso de sua administração cresceram. Os novos sopros liberais e movimentos de emancipação irremediavelmente sairiam dos fuxicos interioranos para converter-se na mais importante experiência emancipatória do extremo sul. Em 9 de maio de 1882, com a Lei Provincial 1.368, foi criada a Vila de Santa Isabel. As eleições para vereadores ocorreram em 01 de julho de 1882 e o Auto de Instalação ocorreu no dia 27 de janeiro de 1883.

A arrecadação da Vila girava em torno de impostos taxados das exportações de gado, olarias, caieiras, casas de comércio e arrematações dos Passos dos Canudos, Maria Gomes e Orqueta. Com percentuais menores, apareciam as ferrarias, carpintarias e mascates. Não era tipicamente um município rico, mas as principais dificuldades estavam nos constantes embates com Arroio Grande, que não aceitava a perda de seu ex-distrito.

Com a queda do Império e a chegada da República em 1889, novos e fortes rumores circulavam e atormentavam a Junta Municipal. Depois das rixas ao longo dos anos, agora os liberais sairiam da cena da vida política e uma nova batalha se avizinhava. Arrastou-se até 1893, quando o Ato no. 11 de 16 de janeiro, com a rubrica já preestabelecida de Julio de Castilhos, Presidente do Estado, suprimiu o município isabelense, que lhe fora infiel politicamente.

Novos tempos começaram, Santa Isabel voltou a ser distrito e os antigos prédios públicos ficaram vazios. Viriam, ao mesmo tempo, a Revolução Federalista e os caminhos flancos aos revolucionários de Gaspar Martins e Gumercindo Saraiva. Desordem social, vândalos, oportunistas, abandono e despreparo das forças policiais e processos de imigrações forçadas caracterizaram a curta resistência que Santa Isabel poderia oferecer. Restaram frágeis raízes que vêm se perdendo ao longo do tempo, além do desconforto de não serem reconhecidos os herdeiros da antiga Santa Isabel."

Fonte: SALABERRY, Jeferson Dutra. Inventário do patrimônio arquitetônico e histórico em Santa Isabel do Sul - Arroio Grande-RS: o caso das edificações institucionais e de socialização. In: XIII - SHCU - Tempos e Escalas da Cidade e do Urbanismo, Brasília, 2014, p. 146-147

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Pedras do Capão do Leão na Argentina


"O Rio Grande do Sul vae fornecer pedras á Republica Argentina - Um syndicato inglez acaba de fechar contracto com o dr. Eduardo Traverssi, que há muito tempo explora as pedreiras de Capão do Leão, município de Pelotas, para o fornecimento de pedras á República Argentina.

Para esse fim, o referido syndicato manterá ali uma turma de 300 homens para proceder a extracção das pedras.

Como os leitores não devem ignorar, Capão do Leão representa uma das multiplas riquezas naturaes do nosso solo, como grande e inexgottavel jazida de pedra que é, a par do seu notavel progresso que dia a dia se desenvolve e toma impulso e incremento.

A referida pedreira já tem fornecido material para a construcção de grandiosas obras, não só no porto e cidade do Rio Grande como em Pelotas e, agora, para a Argentina."

Fonte:  A FEDERAÇÃO, 28 de novembro de 1924, p. 6, c. 3

"ARGENTINA

O arrendamento das pedreiras do Capão do Leão

BUENOS AIRES, 3 (A.A.) - (Pelo submarino). - A noticia de que um Syndicato Anglo-Argentino arrendou as pedreiras do Capão do Leão e Monte Bonito, no Rio Grande do Sul, causou optima impressão em todos os circulos, commentando-se este como o primeiro fructo da projectada linha da Companhia de Navegação Costeira, - pois, assim, ter-se-á assegurado o transporte de pedras a todas ás municipalidades do littoral argentino, que estão precisando e pagando preço carissimo."

Fonte: A FEDERAÇÃO, 03 de fevereiro de 1926, p. 4, c.5

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