História, Genealogia, Opinião, Onomástica e Curiosidades.Capão do Leão/RS. Para informações ou colaborações com o blog: joaquimdias.1980@gmail.com
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sábado, 26 de outubro de 2024
sexta-feira, 25 de outubro de 2024
Sobrenome Johansson
Sobrenome patronímico simples escandinavo (sueco, norueguês, dinamarquês) do nome Johann (João em português). Segundo sobrenome mais comum na Suécia segundo dados de 2020.
quinta-feira, 24 de outubro de 2024
Bandoleiros & Salteadores no Rio Grande do Sul 08
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
O Folclore da Cachaça no Rio Grande do Sul
Por Carlos Galvão Krebs
A bebida popular no Brasil, de Norte a Sul, é a cachaça. O Rio Grande do Sul não escapa a isso. As três armas que o gaúcho usa, paradoxalmente, contra o calor e contra o frio, são o pala, o chimarrão e... a cachaça.
Precisamente por ser a bebida popular por excelência é que a cachaça vem despertando a atenção dos folcloristas nos últimos tempos. Desde o sociólogo Gilberto Freyre, desde o respeitabilíssimo Luiz da Câmara Cascudo até José Calazans que publicou "CACHAÇA BRANCA" na série oficial das edições do Museu do Estado da Bahia.
Seguindo a trilha, vamos alinhavar aqui o pouco que sabemos a respeito do folclore da cachaça no Rio Grande do Sul.
A SINONÍMIA
Como em tôda a parte do país, também aqui a voz mais comum para designar a aguardente é CACHAÇA. Mas se fala muito em CANINHA, CANA, e CANHA, por influência de CAÑA, forma castelhana. Às vêzes se ouve dizer BRANQUINHA. Um dos sinônimos mais curiosos que temos ouvido é RAMA. "Meter rama" é beber muito, especialmente caninha. Depois da descoberta de Fleming, como na Bahia, também se diz no Rio Grande: "Bota aí uma penicilina".
A MAIS FAMOSA
Sem dúvida alguma pelo que temos ouvido no Estado e fora dele referida por gaúchos saudosos do pago, a mais famosa cachaça do Rio Grande do Sul é a caninha azulada, de Santo Antônio da Patrulha. Sob a luz natural apresenta uma bela coloração azulada, conseguida à base de casca de bergamota segundo uns, ou de carvão vegetal segundo outros. Infelizmente, como Santo Antônio fica na rota das praias atlânticas, sua cachaça vem sendo por demais solicitada. Disto resulta uma queda de qualidade. Na própria fonte de produção nos chegamos a adquirir a AZULADA ainda morna, recém saída do alambique.
AS MARCAS DE CACHAÇA
Para ilustração desta pesquisa apresentamos ao lado uma pequena coleção de cêrca de cinqüenta rótulos. Todos de caninhas vendidas e bebidas dentro do Estado. Muitas delas produzidas aqui mesmo. Outras tantas, importadas de outras regiões do país. Com base neste material e através dos títulos, os especialistas podem realizar um belo estudo psicológico.
A coleta de rótulos para coleção exige uma técnica muito simples. Muitos rótulos são impressos em papel de pouco pêso, isto é papel muito fino. E frequentemente os produtores usam goma muito forte. Daí surgir dificuldades para a retirada dos rótulos, que se rasgam à menor tentativa. Entretanto basta deitar a garrafa horizontalmente, cobrindo o rótulo com um pano leve, sôbre o qual se derrama vagarosamente o conteúdo de uma chaleira de água fervendo. Ao final o rótulo pode ser destacado com relativa facilidade e com prejuízo mínimo para a sua integridade.
O RITUAL DOS BEBEDORES
Os bebedores da campanha do Rio Grande conservam uma bela fórmula para beber tradicionalmente sua cachaça. Velha fórmula e sempre nova, porque antiga e atual. Chega um gaúcho a uma venda qualquer. Cumprimenta todos e ordena ao bodegueiro que "bote" uma dose de cana. Sempre há pelos cantos alguns guáscas, bebericando e conversando. Servida a cana o recém chegado apanha o copo e o passa sem beber - ao que lhe está mais próximo. Êste recusa:
- "Não, senhor, está em boa mão".
- "Mas para melhor vai!"
Só então o convidado apanha o copo e bebe um trago. E passa a caninha ao seguinte da roda. Ao terminar a volta, sobra ao pagante um gole exatamente igual ao que todos beberam. Aquêle que paga - e isto é essencial à gentileza gaúcha - é sempre o último a beber.
Acreditamos que haverá muitas outras fórmulas para registrar. Entretanto não nos parece existirem no Rio Grande do Sul aquelas loas, lodaças e glosas de que fala Calazares na Bahia, seja para pedir um gole, seja para agradecer uma bicada.
ANEDOTÁRIO
Embora relutando, um gaúcho certo dia deu com os costados num consultório médico. Depois do exame o doutor lhe proibiu terminantemente a cachaça. Em casa o pobre homem deu para sentir uma dor de cabeça tremenda. Não teve dúvidas: foi à venda e mandou botar a dose que então se chamava "quatrocentão de cana". De uma só vez metia no copo três dedos: o polegar, o indicador e o médio da mão direita. Em seguida enquanto dois dedos esfregavam a cachaça na testa para passar a dor, o guásca chupava o polegar avidamente...
Também a outro pêlo duro foi proibida a cachaça. Ao voltar ao doutor êste não viu nenhuma melhora com o tratamento. Pergunta severamente:
- "O senhor não bebeu cachaça, mesmo?"
- "Não, senhor! Quando eu tava com muita gana, botava farinha de mandioca num prato, despejava cachaça em cima, mexia bem e... comia o pirão!"
A CACHAÇA NA POESIA POPULAR
O estudante Mário Vieira recolheu em 1850, na Estância do Umbú, município de Cruz Alta, uma deliciosa "décima" sôbre a cachaça. Ouviu-a do negro Adolfo, posteiro da fazenda e cantador nas horas vagas. Adolfo morreu no verão de 1953 para 1954. Não fôsse a coleta de Mário Vieira e talvez tivéssemos perdido para sempre estes saborosos versos:
"Saudade, tenho saudade
Da terra onde nasci
Saudade duma aguardente
Da cachaça que eu bebi"
"A cachaça é minha prima
O vinho meu primo, irmão
A cachaça eu bebo em copo
O vinho em garrafão"
"Eu não gosto da cachaça
E o vinho não posso ver
Quando eu pego na garrafa
Deixo os outros sem beber"
"Uma moça me pediu
Que eu deixasse de beber
Eu de beber eu não deixo
De um porre eu quero morrer"
"No fundo de um alambique
Vou fazer minha sepultura
Que mesmo depois de morto
Quero viver na fartura"
"Da garrafa eu faço a vela
Da pipa faço caixão
Do funil faço a mortalha
Me botem um copo na mão"
"Quando eu morrer ninguém chora
Quem chora são as garrafa
Eu quero que o povo diga
Morreu o pai da cachaça"
O PEJORATIVO DA CACHAÇA
Bebida barata e popular, a cachaça estigmatiza tôda uma classe social. "Negro cachaceiro!" é expressão comum no Rio Grande do Sul. Na frase feita, o NEGRO não funciona como epiderma, como raça, mas sim como CLASSE, a mais baixa, a ínfima classe social. Pelo menos essa é a intenção consciente ou inconsciente. Recordamos um fato que torna isto bem flagrante. O advogado Sylvio Faria Correia (agora falecido) foi prêso junto com Borges de Medeiros quando peleava nas coxilhas a favor dos constitucionalista de São Paulo, em 1932. Passada a revolução, publicou (no estrangeiro, é claro) um livro de memórias - "Serro Alegre". Narra que, em momentos de frio intenso, êle e seus companheiros se aqueciam com tragos de "rhum". O livro circulou clandestinamente em Pôrto Alegre. Logo um jornal governista apanhou o pião na unha e lançou um artigo ridicularizando o movimento constitucionalista, os revolucionários e o autor do livro. Título do artigo: "RHUM NÃO: CACHAÇA!" A darmos crédito ao artigo, o episódio comprova, pelo direito e pelo avêsso, aquilo que queremos demonstrar. De um lado, o revolucionário gaúcho transforma a rude e singela em "rhum" sofisticado inteiramente estranho à campanha do Rio Grande do Sul. Isto, para furtar-se ao estigma pejorativo da caninha. Do outro lado o jornal, a acentuar precisamente tal estigma. O título "Rhum não: cachaça!" nada mais queria dizer senão êste insulto, visando os revolucionários - "Negros cachaceiros!"
AS MISTURAS DE CACHAÇA
Com vistas à medicina lembramos logo a cachaça com arnica, vegetal abundante no Estado. Arnica (subentendido: em infusão na cachaça) sempre foi uma verdadeira panacéia. Servia para tudo, desde a simples luxação até o ferimento grave.
Mas foi para a bebida que a cana teve e tem maior utilidade. Não houve uma senhora, mulher de estancieiro que não tivesse feito seus licôres à base de caninha. Dentre êles sobressai o universal licor de butiá. O butiázeiro é uma palmeira típica do Sul do país. Seus "coquinhos" com cêrca de uma polegada de diâmetro são gordos e saborosos. Cachaça, butiás, açúcar, mais algum tempinho para descançar, sempre deram como resultado êsse licor tradicional do Rio Grande do Sul. Hoje com o progresso, muitos estancieiras adquirem nas farmácias "da cidade" o álcool puro a tantos gráus para fazer seus licores.
Em Pôrto Alegre, mesmo o gaúcho citadino encontra em qualquer bar (e não é fôrça de expressão, é a pura verdade) as mais variadas misturas de caninha.
Por exemplo:
Caninha com "bagos de zimbro", ou "bagas de zimbra", também chamadas "Wacholder" em alemão. Desta vez os luso-brasileiros freqüentemente fazem uma corruptela dizendo "Bacholda" com o CH alemão. As bagas de zimbro são sementes pequenas, redondinhas, de um verde escuro, que se deitam em quantidade dentro de um recipiente cheio de cachaça. Dão um gôsto especial à caninha. Sua finalidade é estomacal, segundo se afirma. Tal mistura há tempo vem sendo explorada industrialmente por uma emprêsa da Capital do Estado.
Caninha com mastruço, erva do gênero das crucíferas medicinais.
Caninha com losna, outro vegetal com qualidade estomacais, conforme a crença popular.
Caninha com cabriúva (casca) que deve ser cortadinha para poder entrar pelo gargalo da garrafa. A cabriúva, que é árvore transmite à cachaça um perfume delicado e especial, como se lhe tivessem adicionado gôtas de perfume nobre.
E ficamos aqui.
Sabemos, melhor do que ninguém, que isto não esgota o tema. Ao contrário constitui apenas uma lembrete aos folcloristas e tradicionalistas gaúchos que poderão registrar muito mais coisa do que nós.
Fonte: A HORA (Porto Alegre/RS), 21 de Fevereiro de 1959, sem indicação de página
terça-feira, 22 de outubro de 2024
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
Sobrenome Wetere
Sobrenome maori que significa filho de Wetere. Wetere é a transliteração maori para o nome inglês Wesley. Mais comum na Nova Zelândia.
domingo, 20 de outubro de 2024
Os antigos bailes e bochinchos do Rio Grande do Sul
Fernan Silva Valdez me fez recordar, com seus estudos folclóricos sôbre "Bailes e Bailongos" uma época da minha vida que ascende ao primeiro quartel deste século quando, menino ainda, comparecia aos bailes e bochinchos das solitárias campanhas de Itaqui. Os bailes realizavam-se nas fazendas, naqueles salões assoalhados, revestidos de cadeiras com assentos de palha e pernas torneadas colocadas ao correr das paredes; pequenas mesas de canto, em cada quadrante; enfeitadas de vasos antigos e de bisquits com figuras românticas do século XVIII e, às vêzes, flores de papel e cascas de ovos de avestruz pintadas e atravessadas por uma linha ou fita, pendentes das paredes. Nestas, ainda uma folhinha da casa comercial mais próxima e duas ou três reproduções fotográficas, a crayon, emolduradas em caixilhos de um mau gosto incrível.
À porta de entradas, abrigados pela meia fôlha aberta o gaiteiro, o violeiro e o italiano da rabeca. Do teto, pendente, um lampeão à gás e, às vêzes, outros, sôbre as cantoneiras altas.
Quando as donas de casa erram jovens e românticas, costumavam perfumar a sala queimando raminhos de alecrim.
A música obedeceu a dois ciclos, perfeitamente definidos. Nos primeiros tempos, por influência dos vizinhos do outro lado do Uruguai, dançava-se o pericon, de mistura com as quadrilhas e lanceiros. A chimarrita e a tirana eram referidas apenas pelos velhos avós. Depois, nos tempos a que me transponho, isto é, ao ano de 1920, dançavam-se a mazurca, a polca de relação, a habanera, o chotes e a valsas, todos de marcado cunho europeu.
O bochincho, tanto quando chamavam de meio-pêlo, contavam apenas com uma sala de rancho, de chão batido, poucos os bailes que os platinos colocavam cadeiras guenzas, de pau, bancos compridos e cêpos duros. Ao oitão, um candieiro, de flandres, de forma cônica, com um pavio de lã torcida. De baixo, sob a luz nervosa que projetava sombras inquietas nas paredes, o gaiteiro, de botas, de bombachas e chapéu tombado sôbre as costas, preso ao pescoço pelo barbicacho. Dançava-se arrastando os pés e, do chão, de terra batida, erguia-se a polvadeira que enruivava os cílios e as sobrancelhas. Quando as moças começavam a tossir, o bastoneiro, o mestre de sala, mandava parar a gaita e fazia a assistência sair para a noite aberta. Entrava a piona, com uma bacia de água e um raminho de guanxuma, salpicando o chão, tratando de não fazer barro. Depois, a festa recomaçava, mais animada. A canha, corrida no gargalo da garrafa, despertava o entusiasmo da gauchada, o mate passeava de mão em mão e, na roda das mulheres, o licor de araçá e potes de sequilhos, queijadas e pés-de-muleque.
Tanto nos bailes de categoria como nos bailes de meio-pêlo, e principalmente nos bochinchos onde as liberdades eram mais amplas, podiam ocorrer rivalidades amorosas que degenerassem em conflito. Os incidentes eram raros nos bailes das fazendas, para onde acorriam gente rica, autoridades distritais e comerciantes da região, cujas famílias chegavam em carretas, carretilhas e jardineiras. Mas nos bailes de meio-pêlo e nos bochinchos, nestes sobretudo, era raro que uma desconfiança ou um ciúme violento não terminassem em peleia. Em peleia, onde o candieiro voasse num tapa e a gaita fosse partida pelo meio, num habilíssimo golpe de facão.
Às vêzes, algum gaiato esparramava na sala de chão puro um punhado de pimenta do reino moída, que subia, de mistura com o pó, até os brônquios e pituitárias... E o resultado era sempre o mesmo das cenas de ciúme ou desconfiança: "quem atirou pimenta no baile?" acompanhado de um gesto de desafio, de chapéu tapeado para a nuca, e mão no cabo da adaga.
Lembro de um baile de meio-pêlo, realizado no Curuçu, região naqueles tempos, muito primitiva, nas campanhas de Itaqui. O rancho era de Siá Domingas, mulata de respeito que criava meia dúzia de filhas, que traziam inquietos os olhos e os corações de todos os gaúchos de, pelo menos meia légua de redondeza. Proximo, residia um tal Jacinto, castelhano pachola, casado com uma alemã côr de garopa - a Honoria, cabelo seco. O castelhano andava seduzido pela beleza de uma das filhas de Siá Domingas. E foi nessa noite de baile, que eu vi, na sala banhada por uma névoa pastosa e negra de picumã, o correntino atravessar a sala e convidar a chinoca de Siá Domingas para uma habanera arrastada e longa. A chinoca olhou para o chão, depois correu os olhos pela assistência, encontrou o olhar fuzilante da velha e negou-se a sair. O correntino não teve dúvidas:
- "No es la primera égua que me nega el estribo!"
E o rolo foi imediato. Ali, por perto, andava uma pretendente da chinoca, E os facões se cruzaram para resolver o agravo e decidir o premio... O castelhano Justino levou levou, pelo menos, cinco costuras na cara.
De outra feita, o baile seguia animado, polvorente, sala azul-negra de fumaça e picumã. Dançava-se, como sempre, de bombachas, de botas e de esporas. De repente, um gaúcho enroscou a roseta da chilena no babado de rendas da saia de sua chinoca. E um outro gritou - provocante e irônico:
"Pára o baile! que se mancou uma égua!"
A simples frase picaresca, dita por gosto e maldade, aumentou de mais um volume a pilha de autos criminais que no Juiz da Comarca levantava sôbre a escrivaninha da sua casa na cidade.
Os homens, nos bailes de categoria, usavam trajos da cidade. Nos comêços do século, levavam, em pessuelos, de léguas distantes, os croises e as sobre-casacas dos tempos imperiais. As mulheres, ostentavam, durante a noite, diversos vestidos, de variadas côres e feitios, cada qual com seus adereços apropriados, hábito que verifiquei estar ligado a uma tradição que Eduardo Dias acusou nas festas semelhantes de diversas regiões da Arábia.
Nos bailes de meio-pêlo e nos bochinchos, o gaúcho trajava sua vestimenta ordinária, e chiripá, nos tempos idos, e, depois a bombacha, botas, o chapéu de abas largas e as esporas choronas. As mulheres, o vestido de chita colorida. Dêsses bailes, nasciam os casamentos. E muitas vêzes, o baile começado ao cair da tarde, prolongava-se ao sair do sol do dia seguinte. Se a casa era rica, a sala era grande e os convivas de bôa cepa, recolhiam-se as moças para o interior da casa de largo espaço e os homens a sombra das figueiras e dos umbus, ou pelas tarimbas dos galpões e dormia-se a farta, pela manhã e a tarde e, ao cair da noite, o baile recomeçava. Fechavam-se as portas e as janelas, ao amanhecer, para que os convivas não fossem surpreendidos pela luz do sol. E os lampiões, na sala fechada, continuavam a dar a impressão de noite grande.
Depois, a festa terminava, deixando alguns casamentos apalavrados. As famílias retiravam-se nas suas carretilhas, jardineiras ou carretas e os moços guapos, no lombo de seus cavalos para um troteada de 10 ou 20 léguas, campo fóra...
Fonte: DIÁRIO DE NOTÍCIAS (Porto Alegre/RS), 20 de Setembro de 1955, 2o. Caderno, pág. 01; 04




