domingo, 24 de junho de 2018

A História dos Dias da Semana


"É bom que nos detenhamos neste assunto, porquanto nem todos os povos usaram ou usam os mesmos designativos.

Domingo - Primitivamente, o 'dia do Sol'. O astro-rei era tudo para o homem primitivo. Espantava as trevas, aquecia os membros entorpecidos, sazonava os frutos, amadurecia as colheitas, trazia para fora de seus covis as peças de caça, amornava as águas para o passeio dos cardumes. Sem ele no céu, reinava nos corações humanos o pavor pelas sombras e o temor da morte chegada nos azares das tempestades! Era forçoso amar e respeitar, até ao temor, aquela força infalível, poderosa. O Sol era deus. A ele cabiam as primeiras oferendas e homenagens. Assim identificado com Deus, o seu dia dedicado à Suprema Majestade. Desse 'Dies Dominica' ou 'dia do Senhor', surgiu o nosso domingo, o dimanche dos franceses, o domenica dos italianos. Mesmo entre os povos mais cultos, que medem do mesmo modo pelo qual medimos nós os dias da semana, o domingo lembra o culto ao Sol. Exemplos? Em alemão diz-se Sonntag, em inglês Sunday, ambos significando 'dia do Sol'.

O primeiro a chamar Domingo, isto é, dia do Senhor a um dia da semana foi São Justino, fundador da primeira escola cristã em Roma, onde veio a ser martirizado em 165. O Concílio de Elvira, no ano 300, punindo com excomunhão quem faltasse à missa em três domingos como que oficializava o domingo cristão, já de uso nos três séculos precedentes. O descanso dominical sofreu muitas alternativas e até foi condenado pelo Concílio de Orléans antes que um edito de Constantino proibisse o trabalho a algumas classes liberais.

Dia da Lua (Segunda-feira) - Depois do Sol e sempre no céu, a Lua era a impressão mais forte recebida pelo homem. Influía nas marés, no plantio, no corte de madeiras, talvez mesmo no nascimento das criaturas. Tão poderosa e influente nos destinos humanos que a imaginação dos primitivos fê-la também ser Prosérpina, a rainha dos infernos, e Diana, deusa solitária e caçadora. Com todas as honras, portanto, coube-lhe um dia da semana.

Dia de Marte (Terça-feira) - Na escala dos poderes que governavam céus, terras e criaturas humanas, Marte pontificava. Era o senhor da guerra e, portanto, dos destinos das nações e dos povos. Em Roma, onde lhe deram um mês inteiro (março), esse astro era invocado quando se decidiam as guerras e recebia ações de graças, depois das jornadas vitoriosas. O Rei Numa depositou aos pés desse deus os destinos da cidade e instituiu um corpo de sacerdotes - os sálios - para honrarem o poderoso superintendente dos destinos humanos. Tamanha honra teria lisonjeado a tal ponto o impressionável senhor dos céus, que, certo dia, fez cair um escudo de bronze junto do rei que orava. Numa entendeu a mensagem: a cidade e o reino que criara durariam tanto aquele escudo. Mandou fundir outros onze escudos em tudo iguais àquele descido do céu e confiou-os à guarda dos sálios. Ao deus protetor dedicaram desde então as preces de um dia especial da semana.

Com outros nomes e diferente apresentação, o senhor da força e da guerra merecia o mesmo culto de todos os povos. Era Tyr para os primitivos ingleses e batizou com seu nome a terça-feira - Tuesday. Tão potente quanto o romano tinha, no entanto, uma só mão. A outra, perdera-a ao prender Féuria, potência maligna que infestava a terra sob a forma de lobo e prometera deixar-se prender se um deus especialmente corajoso e forte descansasse a mão, por um momento, entre as suas mandíbulas. Tyr ousou e vencendo a fera perdeu a mão. Por esse e muitos outros atos de coragem em favor dos homens mereceu a veneração dos mortais e a honra de ver dedicado ao seu culto um dia da semana.

Dia de Mercúrio (Quarta-feira) - Mercarii verbo latino que traduzimos por comerciar, mercadejar, ligou-se a Mercúrio, deus do comércio, dos viajantes e dos...ladrões! Apresentava-se armado com uma vara de duas serpentes, e era positivamente amigo da rapidez e do voo, pois, além de ter asas nos pés, usava um chapéu alado. Mensageiro e arauto de Júpiter, protegia os negociantes e os seus negócios; operações e criaturas essas tão importantes em todos os tempos e lugares que, por fim, alcançaram para o deus a consagração de um dia da semana.

Os germanos quebraram a esta altura a tradição de aliar uma invocação divina a cada dia da semana. À nossa quarta-feira chamaram e chamam Mittwochi, ou seja, meio da semana. Já os ingleses mantiveram o costume denominando a este dia Wednesday, que parece referir-se a Odin, ou Wotan, o maior dos deuses das raças nórdicas. Vivia num palácio de ouro e prata, o Valhala, conhecendo o andamento das coisas do mundo pelas notícias que periodicamente lhe traziam dois mensageiros especiais. Eram dois corvos que, ou estavam viajando à procura de novidades, ou pousados sobre os ombros do deus relatando as bisbilhotices humanas.

Dia do Júpiter (Quinta-feira) - Jeudi, jueves ou giovedi - origina-se de Júpiter (jovis dies), honraria conferida ao pai dos deuses pagãos, comandante dos ventos e das tempestades, cujas mãos dirigiam os raios e liberavam os estrondosos passeios dos trovões.

A ideia quase necessária de homenagear e assim aplacar um deus totalmente poderoso esteve presente também no espírito de vários outros povos. Donnerstag (dia de Donner, o trovão) é a quinta-feira dos alemães. Na Escandinávia, as honras deste dia cabem a Thor, deus proprietário de um martelo tão pesado que só ele o podia manejar e que, ao ser vibrado contra a concavidade do céu, produzia os trovões semeadores de pânico entre os homens. E não só os homens se irritavam e temiam os trovões assim produzidos. Pois o forçudo gigante Thrym, um pouco enervado e roído de inveja, apoderou-se do martelo e ocultou-o. Surdo aos rogos e ameaças de Thor, resolveu devolver o martelo mediante um alto preço: permissão para casar com a deusa Friga. Era coisa que nem mesmo um deus tão poderoso como Thor poderia conceber. Mas como estaria desonrado sem o seu martelo, concebeu uma esperteza audaz: vestiu-se, adornou-se e perfumou-se como a própria Friga e foi ao encontro do gigante que lhe abriu a casa para uma recepção de gala. Mas durante o jantar o apaixonado Thrym assustou-se quando viu a suposta Friga engolir muito à vontade um boi inteiro e oito salmões de tamanho avantajado. Contentou-se, porém, com a explicação de que mesmo para uma deusa a jornada fora longa e o apetite era grande... Quando Thrym sentiu os efeitos do vinho e dos temperos. Thor livrou-se do disfarce, retomou o seu martelo e saiu a vibrá-lo contra o céu, provocando assustadoras trovoadas.

Dia de Vênus (Sexta-feira) - Nascida da espuma para distribuir belezas pelo mundo. Vênus, com este nome ou outro qualquer dos que lhe emprestaram os homens de vários países, traduziu para os pagãos os ideais da formosura, harmonia e amor. Desempenhando função assim importante na vida sentimental e estética dos homens, estava a merecer a homenagem de um dia. Veneris dies dos romanos resultou no venerdi dos italianos, no vendredi dos franceses, no viernes dos espanhois, quando o evoluir dos idiomas neolatinos deixara sepulto no rolar dos tempos as razões primeiras da terminologia romana.

Não só os latinos dedicaram esse dia à deusa do amor e da beleza. Entre os nórdicos ela se chamava Friga e em sua honra os ingleses chamam a este dia friday e os alemães freitag.

Sábado - O deus especialmente caro aos velhos romanos foi exatamente o único despojado, pelo uso e pelo tempo, da homenagem consistente em dar nome a um dia da semana. Isso ocorreu assim: segundo a escala da devoção popular o sexto dia caberia a Saturno. Este era um deus praticamente particular dos povos itálicos, ou melhor, dos romanos. Segundo as mais antigas lendas, Saturno era o senhor principal do Olimpo. Despojado por Júpiter de suas prerrogativas, foi procurar refúgio na região que mais tarde se chamaria Lácio (da palavra latina latere, que significa esconder-se, ocultar-se). Aos homens que acorreram a servi-lo ensinou a agricultura e inaugurou uma era que passou a ser apontada pelos romanos e italiotas como a Idade do Ouro. Sua presença na península emprestou à Itália o nome de Saturnia Tellus, isto é - Terra de Saturno. A mitologia ficou para trás, mas o culto dos romanos continuou. Entregaram ao deus a proteção das semeaduras e da agricultura, proteção essa que agradeciam e invocavam todos os anos com as grandes festas Saturnais celebradas em dezembro. Elas duravam quatro dias com tribunais cerrados, escolas vazias, soldados licenciados, escravos sentados à mesa com os seus senhores! No quarto dia, as honras da festa eram distribuídas entre o deus e a sua esposa Opi ou Rea, deusa identificada com a mãe terra, produtora da vida e da fartura. A festa não era mais do que um retorno imaginário e temporário aos bons tempos em que o deus Saturno reinara e ensinara todas as artes e técnicas aos homens do Lácio.

As festas perpetuaram-se, embora desvirtuadas, por toda a história romana. Mas a homenagem a Saturno correspondente a um dia da semana perdeu-se nas línguas latinas, substituídas pelo termo hebraico Shabbath, que traduz o repouso indicado na velha lei judaica como sendo o dia dedicado ao descanso e às orações.

O idioma inglês permaneceu fiel ao velho Saturno chamando ainda ao seu sábado Saturday."

Fonte: DONATO, Hernâni. História do calendário. São Paulo: Melhoramentos, 1993, pág. 22-26.

sábado, 23 de junho de 2018

Execução em Pelotas


"RIO GRANDE DO SUL
Rio-Grande, 28 de julho de 1847.

Execução dos tres réos sentenciados pelo jury da cidade de Pelotas, em sessão de 23 de março do corrente anno, pelo horroroso crime commettido a bordo do hiate brasileiro - Quibebe.

Na manhã de 22 do corrente mez o sino da matriz de S. Francisco de Paula, chamava a attenção do publico desta cidade a presenciar um acto exemplar da justiça.

Em um dos logares da cadeia se havia erigido o altar, aonde se achava exposta a imagem do Salvador, allumiada por quatro velas, e os réos condemnados á morte, Salvador, Bento e João, recebião as consolações religiosas na hora derradeira.

Os reverendos padres João Baptista Domingues, Pedro Puritany, Antonio Augusto da Assumpção e Souza, Manuel da Silva Lima e João Calisto, forão incansaveis em exortar os infelizes no seu derradeiro dia.

Serião 11 horas pouco mais ou menos, quando chegou a irmandade da misericordia para acompanhar os padecentes, e encontrou o Dr. Juiz municipal Amaro José d'Avila da Silveira, seguido do escrivão Francisco José Ferreira Lagôas, e officiaes de justiça e pregoeiro, e igualmente uma força  de 50 soldados do 8o. batalhão de caçadores, e 20 homens da policia, que postados esperavão para acompanhar os padecentes ao logar da sua execução.

Apenas se approximarão os irmãos da misericordia, os reverendos sacerdotes disserão aos réos que era chegada a hora em que devião marchar, afim de se cumprir a sentença que os condemnava a padecer: que se armassem de uma forte resignação para receberem o golpe fatal, e salvarem sua alma; um dos infelizes derramou copiosas lagrimas e os outros consternados, se entregarão nas mãos dos seus confessores.

Sahio o prestito funebre, e percorreo a rua chamada do Poço, seguindo a da Igreja.

A campa da agonia annunciava o transito dos desgraçados e os corações sensíveis se compungião ao vel-os caminhar ao supplicio.

De espaço em espaço o pregoeiro lia em voz alta a sentença do jury que os havia condemnado a morte.

Chegarão á igreja matriz na occasião em que se dizia a missa do dia, e ali de joelhos encommendarão sua alma a Deos.

Apenas tocou a Santos o prestito seguio ao logar chamado da Luz aonde, ao lado direito do cemiterio, se havia levantado a forca.

Mais de mil pessoas de todos os sexos e idades atulhavão a longa campina, e com um silencio funebre, e de um aspecto reverente observarão attentamente o cumprimento da lei.

O primeiro dos réos executados foi o preto João, que por incuria ou negligencia do carrasco, depois de com elle executar as operações usadas em similhantes casos, passou ao segundo, e logo que acabou deste, o primeiro fez alguns movimentos dando signaes de vida, tendo por isso de ser levado novamente a padecer, ficando pendurado até que se executasse o terceiro.

Não houve a pratica costumada em taes actos, feita pelo sacerdote disso encarregado, em consequencia do muito vento que fazia, e nada se poder ouvir.

A uma hora estava concluido.

Possa este exemplo servir de correcção aos malfeitores, e affastar da sociedade os crimes horroroso: a lei em taes actos faz estremecer os homens, porém a justiça cumpre um dever, punindo o deliquente, e a humanidade exulta, vendo punido o crime do agressor. 

(Do Rio-Grandense)."

Fonte:  O MERCANTIL (RJ), 31 de Agosto de 1847, p.01, c.03-04


sexta-feira, 22 de junho de 2018

A farda do marechal


"Existe na cidade de Pelotas, em poder do apreciavel cavalheiro, sr. coronel Urbano Martins Garcia, uma preciosa reliquia para a nossa existencia republicana - a farda que vestia, na manhã de 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca, quando dirigiu o generoso movimento militar de que resultou o estabelecimento das instituições democraticas na nossa Patria.

Essa farda foi pelo glorioso soldado, cujo nome o Brasil ha de sempre recordar em homenagem de veneração, como tendo vínculo de amizade, ao sr. Cesar Pereira Navarro, que durante muitos annos residiu na referida cidade, onde exerceu a profissão de advogado."

Fonte: DIARIO DE MINAS (MG), 05 de Novembro de 1899, pág. 01, col. 02

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A casa do imigrante italiano


"Com o florescimento das colônias, já no início do século XX, casas em pedra, com ou sem reboco, começaram a ser construídas: marcadas ainda estavam as características arquitetônicas das regiões de procedência. A tradicional casa colonial vêneta de dois ou três pisos pode ser vista nas mais diversas localidades de colonização italiana na serra gaúcha. Construída em três andares, a habitação era constituída de uma cantina no andar inferior, de uma zona diurna no nível intermediário e de uma zona noturna no último piso.

O andar mais baixo da moradia, muitas vezes abaixo do nível do terreno, servia para a conservação dos gêneros alimentícios, tais como queijos e salames, bem como para a produção do vinho. Imediatamente acima, tinha-se o espaço da vida social familiar e comunitária - era o lugar da cozinha e da 'sala de estar', onde a família se encontrava durante o dia e onde se recebiam os visitantes, especialmente nas noites de filò. O terceiro piso era onde se encontravam os quartos, era uma zona mais reservada e íntima da casa.

Algumas moradias, especialmente aquelas feitas em madeira, tinham a cozinha em um espaço fora da casa, construído a uma certa distância. Isso se devia grandemente ao perigo de incêndio que a precariedade dos antigos focolare trazia. Assim, a distância entre a cozinha e a habitação permitia uma segurança maior à família quando da utilização do fogo.

O espaço doméstico, além de ser o lugar da vida familiar do imigrantes, também é, por excelência, o locus da rememoração das experiências da trajetória da família e do grupo étnico. No interior da residência, as histórias coletivas são reinventadas e o mito civilizador da imigração italiana é edificado. Dessa forma, os preceitos religiosos são mantidos e enriquecidos pelos rituais quotidianos de orações, invocações, súplicas e ladainhas e a trajetória da imigração vai sendo revisitada, especialmente a partir das aventuras de Nanetto Pipetta."

Fonte: BENEDUZI, Luís Fernando. Conquista da terra e civilização do gentio: o fenômeno imigratório italiano no Rio Grande do Sul. In: Anos 90, Porto Alegre, v. 12, n. 21/22, ja./dez. 2005, p. 279-280.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Benjamin Constant


"Militar, professor e político brasileiro (1833-1891), que se notabilizou como um dos fundadores da República. Cursou a Escola Militar, dedicando-se, porém, mais à Matemática que às coisas das armas. Tendo sido um dos grandes discípulos de Augusto Comte no Brasil, fundou a Escola Normal Superior. Distinguiu-se por atos de bravura na Guerra do Paraguai, mas não participou dela até o fim: atacado por febres palustres teve de regressar ao Rio de Janeiro: logo depois fundaria nesta cidade o Instituto dos Meninos Cegos, posteriormente chamado Instituto Benjamin Constant. Já como tenente-coronel (1888), bateu-se ardorosamente pela República, tendo ocupado a pasta da Guerra durante o Governo Provisório. Atingiu o posto de general-de-brigada e foi ministro da Instrução Pública em 1890: foi quem ideou a divisa Ordem e Progresso para a Bandeira Nacional."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Atentado maragato em Piratini em 1895


"- O Diario Popular de Pelotas teve as seguintes informações sobre um hediondo attentado que contra o cidadão Patricio Nunes, em Piratiny, praticou um grupo de revoltosos;

<<A proposito do assalto que os maragatos fizeram á casa do nosso amigo capitão Patricio, conta nos pessoa bem informada tudo o que se passou, minunciosamente.

Os miseraveis, á noite chegaram á casa do capitão Patricio, e, entre mil improperios, chamavam em altos brados indecentes - que abrisse a porta, para pagar o que em tempo fizera contra a familia Caldeira.

Como é natural, o capitão Patricio não satisfez a exigencia dos canalhas, e, então elles, que não recuam diante dos mais horrorosos crimes, ameaçaram incendiar a casa, o que realmente começaram a tentar, pelos fundos, n'uns contrafeitos.

Depois, voltaram á frente e amontoaram lenha e taboas na porta, com o fim de tambem alli atearem fogo.

Imagine se a situaçao das pessoas que se achavam no interior da casa: o capitão Patricio Rosalino Nunes, sua esposa, um seu cunhado e seu filhinho.

A mulher do capitão foi a primeira que tentou fugir, com seu filho, pensando, que em attenção ao seu sexo, os maragatos nada lhe fizessem.

Engano cruel; pois os crapulosos bandidos apunhalaram-n'a covardemente, matando a pobre criança com horrivel talho na cabeça!

O capitão Patricio e seu cunhado foram mais bem succedidos na fuga, tendo ambos conseguido escapar a muito custo, este sob o fogo dos bandidos e aquelle tendo de matar o criminoso que na janela por que elle saltou, quiz atacal-o.

Mais tarde, voltou o capitão á sua casa, conseguindo dominar o fogo que nella lavrava, graças á ausencia dos miseraveis.

A malóca que atacou a casa do capitão Patricio era composta de 23 galés.>>"

Fonte: MINAS GERAIS (MG), 05 de Fevereiro de 1895, pág. 05, col. 01

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Revolta dos Muckers


"O Ferrabrás é um dos montes mais imponentes no vale do rio dos Sinos, entre São Leopoldo e Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. O longo chapadão termina abruptamente numa agressiva escarpa coberta de mata virgem. Mais abaixo, fica a cidade de Sapiranga, com suas sessenta pequenas indústrias, e rosas vermelhas plantadas ao longo de todas as calçadas. Ainda hoje, um século depois dos sangrentos episódios que transformaram o vale num campo de batalhas medievais, uma palavra atemoriza os pacatos habitantes da região: mucker!

A revolta dos muckers é um dos episódios mais violentos e desconhecidos da história do Brasil. Fundada por uma colona alemã, histérica e desequilibrada, Jacobina Maurer, e por seu marido, João Jorge Maurer, carpinteiro que se transformou em médico-curandeiro, a seita foi exterminada pelo Exército e milícias civis.

Um dos primeiros documentos sobre o assunto, o livro publicado na Alemanha, em 1900, pelo padre jesuíta Ambrósio Schupp, apresenta os fanáticos como um grupo de bandidos sanguinários e seus destruidores como heróis que vieram redimir uma região conturbada. Na obra, baseada em testemunhas, jornais da época e relatórios oficiais, Jacobina aparece como uma mulher extremamente sensual e seus seguidores são classificados como uma matilha de sabujos. Entretanto, outro livro, publicado em 1957 por Leopoldo Petri, conceituado historiados da colonização alemã no Brasil, analisa os fatos de forma diferente. A responsabilidade pela tragédia do Ferrabrás é dividida entre os fanáticos e seus inimigos.

O que realmente se passou no vale dos Sinos nos alucinados anos de 1873 e 1874, por obra de fé e da loucura de Jacobina Maurer e seus apóstolos? Em busca de uma versão objetiva, REALIDADE ouviu historiadores, visitou museus, consultou obras antigas, relatórios oficiais, e percorreu o local dos acontecimentos ouvindo velhos colonos.

A seguir, REALIDADE apresenta um relato dos acontecimentos que levaram os muckers à sua trágica morte e que incendiaram o morro do Ferrabrás.

Desde menina, Jacobina Mentz apresentava sinais de desequilíbrio psíquico. Introvertida e solitária, ela era vítima de insônias e crises de catalepsia (morte aparente). Seu pai, Libório Mentz, homem rígido e muito religioso que chegara ao Brasil em 1824, após longo desentendimento com as igrejas protestantes da Alemanha, educou-a numa piedade extremada, entre horas de jejum e oração.

Em 1865, porém, com 23 anos, recém-casada com o carpinteiro João Jorge Maurer, 22 anos, três elementos viriam influir na vida do casal: um curandeiro, um pregador e um livro.

Buchorn, um médico popular, ensinou a João Jorge o segredo das plantas medicinais. Beneficiado pela lenda de que havia sido diplomado por uma voz celestial, o ex-carpinteiro começou a receitar.

Ao mesmo tempo, Hardes Fleck, um pregador aventureiro, iniciava Jacobina nos mitérios da Bíblica. Atenta às explicações do inesperado mestre, ela aprendeu desconexamente trechos esparsos do Apocalipse e dos mais violentos sermões evangélicos.

Entre os colonos alemães do vale corria um livro que afirmava ser o sonambulismo algo divino e venerável. Jacobina era sonâmbula e sua fé histérica somada ao curandeirismo de João Jorge encontraram campo fácil para aprofundar suas raízes. Angustiados pela vegetação desconhecida, por cobras e aranhas venenosas de um país estranho; analfabetos, os imigrantes passaram a buscar com os Maurer aquilo que podia amenizar suas vidas incertas: remédio e religião.

As curas e as pregações do casal, de repente, tornaram Sapiranga um lugar importante.Caravanas de cegos, aleijados, doentes, curiosos e desesperados vinham de longe, até de Porto Alegre e Pelotas, e eram recebidos carinhosamente na casa dos Maurer.

Não tardou muito para os seguidores de Jacobina serem apelidados de muckers. Isto é, beatos, santarrões, fanáticos.

'Eu vim trazer a guerra, separar o pai do filho' - Coagidas ou de vontade própria, 32 famílias passaram a reverenciar Jacobina, enquanto aumentavam as hostilidades contra a sua seita. Uma ovelha que aparecesse ferida ou morta era logo levada à conta dos fanáticos. E nem só ovelhas se ferem ou morrem num vale. José Kraemer, um comerciante da região, foi encontrado morto, no meio do mato. Provavelmente caíra do cavalo. Mas, para muitos, não houve dúvidas: era obra dos muckers. Dias depois, enforcava-se Pedro Hirst, um homem que vivia falando em doenças e suicídio. O povo logo espalhou que sua morte era devida aos conselhos de João Jorge, com quem conversara um dia antes.

Nesse clima tenso, um maio quente se aproximava, o de 1873. No dia 7, Jacobina fez seu mais ousado sermão. Para que mandar as crianças à escola se o fim do mundo estava anunciado? Para que ir à igreja, se lá não se explicava direito o conteúdo da Bíblia? Cristo viera trazer a guerra, não a paz. Viera separar pai de filho, marido de mulher. Por isso, a esposa que não queria acompanhar o marido às reuniões deveria ser trocada por outra. E vice-versa.

O escândalo provocado por essas palavras originou um abaixo-assinado de 47 pessoas ao delegado de São Leopoldo, solicitando providências contra as mistificações médicas e religiosas que se praticavam no Ferrabrás. Lúcio Schreiner, o delegado, era primo de João Jorge Maurer, com quem estava brigado devido a problemas políticos e a um empréstimo negado pelo esposo de Jacobina.

Duas semanas depois, Maurer e alguns devotos foram presos e encaminhados à delegacia de São Leopoldo.

Jacobina foi encontrada morta. O corpo embarcou numa carroça e viajou 40 quilômetros até São Leopoldo, onde ficou exposto na Casa de Câmara. Foi picado com alfinetes, canivetes, puxaram seus cabelos, moveram seus membros e nada. Veio o médico, doutor Hillebrand, e seu exame constatou que, independente de profunda letargia - Jacobina aprendera a dominar seus ataques catalépticos segundo as necessidades do momento - , a morta gozava de boa saúde. Os muckers presos puseram-se a cantar e logo sua profetisa acordou entre abraços e beijos de seus adeptos.

Transferidos para Porto Alegre, dias depois, todos os fanáticos foram soltos, por falta de provas.

A intriga cercava os caminhos dos muckers - Um atentado contra a vida do subdelegado de Sapiranga foi atribuído aos muckers e 33 deles passaram vários dias na prisão. Animais das criações dos fanáticos eram mortos, as cercas de suas casas incendiadas. Eles eram vaiados e humilhados nas ruas das cidades vizinhas.

Sem reagir, os líderes da seita resolveram apelar para o imperador. Maurer embarcou para o Rio de Janeiro com uma longa lista de queixas. Não houve resultados.

Na sua volta, atônito, soube que sua mulher o trocara por Rodolfo Sehm, alegando que este tinha um espírito mais forte, mais adequado ao momento. E aconselhava outras pessoas a trocar de parceiro, chegando a escolhê-los, em certos casos. 'Eu não controlo mais Jacobina' disse Maurer. 'Para mim ainda vai sobrar uma bala'.

Sua previsão era incompleta. Em breve o Ferrabrás estaria transformado num inferno.

O terror dos muckers começou efetivamente no dia 15 de junho de 1874. O colono Martinho Kassel, ex-seguidor da seita, intimado por Jacobina a voltar às práticas religiosas, foi a São Leopoldo apresentar queixa à polícia. Ao regressar, viu sua casa fumegando e, sob as cinzas, os cadáveres da esposa e de dois filhos. Nicolau, o filho mais velho, saiu do mato rastejando, ensanguentado e quase à morte. Mal pode dizer: 'Os muckers! Os muckers!

Sapiranga emudeceu de pavor.

Colonos arrecadaram seus bens e a família e fugiram. As casas dos que ficaram viraram fortalezas, armadas e vigiadas dia e noite. Em São Leopoldo, cem praças enviados pelo governo provincial para reforçar a guarnição local preparavam-se para investir contra os assassinos.

Mas os muckers estavam no auge de sua insanidade. Na noite de São João - 24 de junho - imensas fogueiras espalhadas pelo Ferrabrás iluminaram todo o vale dos Sinos. Armados e divididos em grupos, vingaram com sangue as ofensas recebidas. Incendiaram a casa de Carlos Brenner e mataram a coronhadas suas três crianças. Mataram a tiros a mulher e a filha de Filipe Sehm. Teodoro Balz foi carbonizado com toda a família dentro da sua casa. A golpes de facão foram mortos o velho Jacó Maurer e seu filho Guilherme. A tiros, a mulher e a mãe do colono Andreas Dick. Quatro casas comerciais de Sapiranga foram incendiada e um comerciante morto a tiros.

Na Picada dos Portugueses, próxima a Ferrabrás, os colonos iniciaram a reação. As casas de sete famílias muckers foram incendiadas, mulheres e crianças feitas prisioneiras e s homens, em fuga, caçados pelos matos. Mas o pior ainda iria acontecer.

Confusão e mortes no primeiro ataque - A notícia que corria em Porto Alegre dava conta de que o Ferrabrás era uma imensa fortaleza, com casamatas, víveres, munições e quinhentos homens armados. Anunciava-se que a seita tinha ramificações em todo o Estado e estava apoiada por uma potência estrangeira. Para lá seguiu o coronel Genuíno Sampaio, herói da recente guerra contra o Paraguai, à frente do 12o. Batalhão de Infantaria, parte do 3o. Batalhão e cem cavalarianos da Guarda Nacional.

Suas tropas chegaram a Sapiranga ao cair da tarde do dia 28 de junho. E o coronel, com 250 homens, decidiu investir imediatamente para pegar os fanáticos dormindo. Dividiu as forças para atacar pelas duas picadas que levavam a um casarão de madeira, onde Jacobina e quarenta fanáticos, mais mulheres e crianças, estavam entrincheirados. Porém, os dispositivos de defesa e a inabilidade dos soldados levaram o assalto ao fracasso.

Uma das picadas estava obstruída por troncos e a inadvertida coluna que seguiu para lá resolveu voltar, indo ao encontro da outra. Esta, ao perceber movimento de tropas atrás de si, sentiu-se encurralada. Foi quando os muckers abriram fogo cerrado. Cinco soldados morreram, 41 foram feridos e o resto debandou.

Novo ataque foi realizado no dia 19 de julho. As tropas estavam reforçadas por 108 praças do 3o. Batalhão de Infantaria, cem cavalarianos da Guarda Nacional, contingentes das cidades de Rio Grande e Pelotas e duzentos voluntários civis. O governo central enviara seis canhoneiras e a Companhia de Bondes de Porto Alegre emprestara cem mulas para transportar os víveres e munições até Campo Bom, a 15 quilômetros do imponente Ferrabrás.

Vinte vezes inferiores numericamente às forças do Exército que avançavam em três frentes, os muckers morreram um a um. Quase só mulheres e crianças ainda estavam vivas dentro do casarão de madeira quando foi dada a ordem de incendiá-lo.

Ao ver sua irmã, Maria Sehm, cair baleada, uma garota de 10 anos gritou enfurecida para os soldados: 'Você são tantos, não têm vergonha?'. E correu para junto da mãe, que também foi baleada com um filho no colo (mais tarde, esse menino foi prefeito de São Leopoldo). A mãe teve as orelhas e dedos cortados - os pilhadores não podiam perder tempo retirando brincos e anéis. Oito outras foram assassinadas e seus cadáveres seviciados. Várias crianças morreram nas chamas. Um civil, a golpes de baioneta, espetou uma velha cega contra a parede. Outro foi visto brandindo uma vara com dois fetos gêmeos pendurados na ponta. Todas as casas dos muckers foram pilhadas e incendiadas.

Na mesma tarde, o coronel Genuíno comunicou ao presidente da Província que a vitória fora completa. Mas não conseguiu saborear o seu feito. Pela madrugada morreu ferido, por seus soldados que, assustados por um movimento nas matas próximas, abriram fogo contra os companheiros.

O comunicado do capitão Santiago Dantas a Porto Alegre no mesmo dia, dizia: 'Escrevo ainda sob a impressão dolorosa da morte do coronel e de um dos espetáculos mais pungentes que tenho presenciado em minha vida, qual o incêndio e a carnificina feita sobre míseras mulheres e crianças'.

No dia seguinte, o corpo do coronel foi transportado para Porto Alegre juntamente com a notícia: Jacobina e seus principais apóstolos não estavam entre os mortos. Em algum recanto do Ferrabrás continuavam imbatíveis.

O último tiro, no peito de Jacobina - A 2 de agosto, ajudado por um ex-mucker que revelou o local onde Jacobina se refugiara, Santiago Dantas travou a batalha final. Encurralados numa clareira onde construíram ranchos de couro, os fanáticos - treze homens e quatro mulheres - não puderam escapar ao lento e minucioso cerco de tropas. Jacobina foi a última a morrer. Ferida no peito, desvairada, caiu sobre o corpo de Rodolfo Sehm, seu amante. O casal foi atravessado por baionetas. Duas covas abertas no próprio local receberam os corpos, inclusive o de uma garota de 3 meses, filha da profetisa. Em seu relatório, o capitão Dantas, que impediu atos de selvageria, referiu-se com respeito aquele punhado de homens e mulheres.

Em janeiro de 1875, João Jorge Maurer, que conseguira escapar a todas as batalhas, foi encontrado morto nas matas do Ferrabrás. 

Enforcara-se numa fina gravata de seda. Os 23 muckers presos foram condenados em março de 1876; a pena mais alta para Pedro Mentz, irmão da fanática, que recebeu prisão perpétua. Sete anos depois, todos foram absolvidos.

Em São Leopoldo, o atual diretor do Museu Regional, professor Telmo Müller, que há anos vasculha a região em busca de objetos e documentos relativos aos muckers, confessa: 'É falar em mucker e o pessoal fica mudo. Ainda hoje essa palavra inspira terror'."

Fonte: REALIDADE (SP), edição 95, ano 1974, pág. 72-75
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...