terça-feira, 11 de agosto de 2015

Uma explicação americana para a origem do nome da Laguna dos Patos



Curiosa interpretação do viajante norte-americano sobre o nome da Laguna dos Patos, quando esteve no Rio Grande do Sul na década de 1930. Não fugiu ao senso comum de quem visita a região lagunar pela primeira vez. De certa forma, seu empirismo foi bastante lógico. A propósito, o nome da laguna (ou lagoa, em tempos idos) "dos patos" deve-se a antiga tribo homônima existente às suas margens.

Trecho extraído de: NASH, Roy. A conquista do Brasil: edição ilustrada. (trad. Moacyr N. Vasconcelos). Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, p. 254.

 "Desde a saída da barra o "Itajubá" ia navegando pelas águas rasas da lagoa dos Patos; e, ao passarmos por entre os arrozais que debruam o estreito canal, ao norte de Pelotas, descobrimos a origem do nome da lagoa, num bando de patos negros que, em formação irrepreensível, atravessava em direção a Leste. À medida que navegávamos para o Norte, novos bandos de patos selvagens levantavam voo das lagoas, e, como numerosas flotilhas de minúsculos hidroaviões, iam amerissar mais adiante; alvas garças reais, imóveis como pássaros empalhados fincados na lagoa, contemplavam o navio; um bando de colhereiros alçou voo ruidosamente e, ao longe, uma ema — o avestruz sul-americano — trotava displicentemente pelo campo. Sem dúvida, essas cenas desenrolam-se bem longe dos movimentados portos do Rio de Janeiro e de Santos."

domingo, 9 de agosto de 2015

A cidade de Pelotas na visão de um norte-americano na década de 1930

Pelotas na década de 1930. Fonte da imagem: http://www.novomilenio.inf.br/santos/bonden36.htm 

A visão de um norte-americano que visitou a cidade de Pelotas nos anos 30, vindo de trem de Rio Grande. O interessante é que ele estabelece um paralelo entre Pelotas e Rio Grande. Logicamente, seu relato deve ser apreciado com um olhar crítico, sem ser tomado ao pé da letra, afinal era um estrangeiro que chegara a uma terra desconhecida.


Trecho extraído de: NASH, Roy. A conquista do Brasil: edição ilustrada. (trad. Moacyr N. Vasconcelos). Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1939, p. 253.


 "Debruçados sobre a amurada do navio e com a visão barrada pela linha interrompida que oferecem os armazéns do Frigorífico Swift, maldizemos o rigor dos funcionários portuários; depois de uma hora em terra, porém, esquecemo-nos da demora. Rio Grande é uma cidade esquálida, pousada sobre uma planície arenosa. Lugar onde ainda existem sarjetas e fossas e onde não parece que haja o desejo de remover nem o lixo e nem a água estagnada. Duas horas são tempo escasso para vermos alguma cousa de interessante, e, por isso, tomamos o trem para Pelotas, ansiosos por deixarmos Rio Grande.

   Ah! mas Pelotas é bem diferente! Tem uma população urbana de cerca de 50 mil almas possuídas do desejo de dotar a cidade de tudo quanto há de melhor e mais moderno no mundo. Aí encontram-se bondes chegadinhos de novo dos Estados Unidos e nos quais as funções do condutor e do motorneiro são combinadas de forma a forçar tanto o passageiro que entra como o que sai a passar pelos olhos de uma única "autoridade". Indaga-nos então o nosso cicerone se há cousa melhor em Nova York. Somos forçados a confessar que quando o novaiorquino sobe num elétrico, dois empregados logo lhe gritam — sem nenhuma cortesia — "suba depressa". A cidade abriga ainda um cine-palácio para mil pessoas e no Club Comercial, mobiliado pelo Maple, de Londres, vê-se pela primeira e última vez, no Brasil, essa cousa que tanto maravilha o americano: um prédio com aquecimento central. O nosso tempo é curto, mas, basta para nos convencermos de que Pelotas bem merece o título de "Rainha do Sul!"

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Índios minuanos e charruas na região de Rio Grande no século XVIII


Destaquei o pequeno trecho do artigo por fornecer uma visão geral da presença de grupos indígenas minuanos e charruas em nossa região. Devemos lembrar que a Vila de Rio Grande no século XVIII possuía um território considerável e imenso e os deslocamentos portugueses pela região incluíam territórios que hoje incluem, além do próprio município de Rio Grande, Pelotas, Capão do Leão, Piratini, chegando até à Lagoa Mirim. O próprio Capão do Leão fazia parte do chamado distrito do Cerro Pelado da Comandância Militar de Rio Grande.


Trecho extraído de: MIRCO, Carmen Helena Braz & RODRIGUES JÚNIOR, Gonçalo. Toponímia indígena do município de Rio Grande. In: BIBLOS, Rio Grande, v.2, 1987, p. 63.


"No município do Rio Grande, através de pesquisas arqueológicas até agorrealizadas se pode constatar que sua ocupação pelo homem ocorreu por volta d500 anos antes de nossa era. Eram pequenos grupos de caçadores-coletores quocupavam sazonalmente aterros, barrancos ou dunas próximos aos cursos d'água.

Este grupo caçador-coletor desconhecia a cerâmica e, seus vestígios (material lítico) são encontrados até aproximadamente o início de nossa era. A partir daí as pesquisarevelam o aparecimento de cerâmica entre o grupo de caçadores-coletores. Supermanência na área é constatada até o início da colonização portuguesa na primeirmetade do século XVIII.

A cerâmica deste grupo de caçadores -coletores é classificada como TradiçãVieira. Estes caçadores-coletores viviam em pequenos grupos que se deslocavam continuamente devido ao seu modo de subsistência. O seu sistema econômico desenvolvia-se em um espaço geográfico determinado, sendo a divisão do trabalho baseada no sexo, e a divisão dos recursos alimentares feita através da partilha entre os componentes do grupo. Certamente havia intercâmbio matrimonial entre os diversos bandos locais pertencentes a uma mesma unidade lingüística.

No contato com os grupos horticultores desenvolvem uma agricultura incipiente, adotando também outros traços culturais inclusive elementos da sucerâmica.

Na época da chegada do europeu na região habitava o grupo denominado Charrua na zona de campo e Minuano nas margens das lagoas dos Patos, Mirim e Mangueira. No entanto não há dados suficientemente esclarecedores para qupossamos afirmar que haja um vínculo entre os elementos arqueológicos e históricos.

Os Charruas e Minuanos eram nômades, ferrenhos adversários dos espanhóis e dos índios aldeados, tendo -se aliado aos portugueses auxiliando -os na defesa dobaluartes erigidos para proteger os núcleos recém fundados. Entre eles Rio Grande. Este auxilio aos portugueses já ocorre antes da fundação do Presídio de São Pedro, como se pode perceber na carta de Cristóvão Pereira a Gomes Freire de Andrada, de 8 de novembro de 1736, onde este comunica que já utilizava os préstimos dos índios Minuanos, porém com alguma desconfiança."

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A questão dos quilombos em Capão do Leão

Nos meus inúmeros anos de pesquisa sobre a história do município de Capão do Leão, várias pessoas já me procuraram por meio das redes sociais, e-mail ou pessoalmente para perguntar a respeito da existência de quilombos aqui. Sendo muito sincero respondo que não tenho conhecimento sobre nenhum registro de quilombos no território do município e me apoio também nos trabalhos dos pesquisadores Arthur Victória Silva e Bruno Farias - que são meus contemporâneos e desenvolvem um trabalho similar ao meu.

Todavia, o que quero dizer é que a ausência de registros sobre quilombos em Capão do Leão, não significa que não possa em algum momento do século XIX ter existido algum aqui. Entretanto, por vários fatores sou levado a pensar que é bem pouco provável. Mesmo considerando que possa ter existido algum, possivelmente ele teria sido efêmero.

Vamos às ponderações. Os dois locais que historicamente tem ligações com a escravatura em Capão do Leão são a região do Pavão e a Fazenda da Palma. Também podemos apontar na região do Cerro das Almas e no Passo das Pedras alguma população escrava significativa durante o século XIX, mas não tão numerosa quanto nos dois primeiros locais citados. Seguramente, houve fugas de escravos desses locais em alguns momentos dos séculos XVIII e XIX. Mas a questão que se apresenta é a seguinte: onde esses escravos fugitivos poderiam se refugiar?

A região do Pavão é uma planície, coberta por extensas campinas, entremeadas por alguns caponetes e capões de mato, além de várias várzeas alagadiças e banhados permanentes. Não penso que seria lógico se esconder num relevo assim. Cruzar o São Gonçalo a nado ou fugir atravessando o rio Piratini seriam opções realistas, mas arriscadas. Seguir a nordeste em direção à Pelotas então seria alternativa suicida. O mais provável seria fugir em direção a oeste, rumo à Serra dos Tapes e regiões como o Descanso, o Cerro das Almas, o Passo das Pedras de Cima, o Boquête. A mesma rota serviria para um fugitivo da extensa Fazenda da Palma. 

Mesmo assim, esse primeiro "paredão" de morros da Serra dos Tapes não seria o mais propício para fixar-se em refúgio permanente. A vegetação fechada das encostas até favorece alguns locais como esconderijos. Entretanto, devemos lembrar que toda a zona ocidental de Capão do Leão é cortada desde seus primórdios no século XVIII por diversos corredores, caminhos, estradas e trilhas, povoadas durante décadas por tropeiros de gado que se dirigiam à Tablada, em Pelotas, para negociar rebanhos, ou para a própria região do Pavão, para invernadas de engorda. Se partirmos do princípio que um quilombo é um acampamento de vários escravos fugitivos, talvez na casa de uma ou duas dezenas de pessoas, no mínimo, num espaço não tão extenso, fatalmente sua presença seria logo notada em pouco tempo.

Penso que o caminho de fuga situava seu destino um pouco mais além. Na própria Serra dos Tapes, porém quilômetros mais adiante, nas regiões que seriam mais tarde sedes das primeiras colônias europeias pelotenses e no próprio município de Morro Redondo (encontrei uma notícia de 1885 no jornal pelotense A Discussão que confirma esse fato).

Ressalvo porém que a região de serras e morros que começa no Cerro Santanna (a primeira elevação do município que todos podem perceber a partir da zona central do município) e se desenrola pelo Cerro das Almas, Descanso, Cerro do Lombilho, Cerro da Paulina, Passo das Pedras de Cima, Cerro dos Cabritos, etc., pode ter sim registros arqueológicos da presença de fugitivos escravos de séculos passados. Mas seriam mais seguramente esconderijos individuais ou de pequenos bandos, sem serem locais que agregaram um número mais expressivo de pessoas como os quilombos. Devemos lembrar que, como comparação mais quantitativa, toda a região supracitada foi também covil de abigeatários e criminosos no século XIX, que também se escondiam de modo individual ou em pequenos grupos.

Creio, em suma, que essas observações não esgotam a discussão sobre o assunto. Além disso, a própria questão da escravatura no município é alfo que ainda precisa ser estudado com muito mais atenção em nosso município.


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