sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Sobrenome Vaca Laçada

 



Sobrenome encontrado no Ceará, de origem brasileira, verificado por Câmara Cascudo, em uma fazenda em Aracati.

Fonte: PROVÍNCIA - Revista de Antroponímia, Folclore & Cultura, Recife/PE, n. 02, pág. 37

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Sobrenome Comis

 


Sobrenome italiano originário da região do antigo Reino de Nápoles. Significa companheiro

Para que se entenda, dentro do contexto histórico: o auxiliar imediato de um líder feudal-militar, que por seus préstimos, recebia distinção, com direito a usufruto de terras, com ou sem servos. Vale lembrar que estamos falando da Europa medieval, e terras podem significar 100 ou mero um hectare. Na verdade, um determinado nobre, seja isso na Itália ou mesmo no restante da Europa Ocidental, normalmente possuía um séquito de auxiliares militares de confiança - os companheiros. Isso deriva do antigo Direito consuetudinário germânico. Em alguns casos, o companheiro podia se referir a qualquer pessoa próxima de confiança a determinado líder importante, seja ele prelado, funcionário real, juiz, comandante naval, etc.

Os registros Comite, Comites, Comes, Comis, Comise, Comitis já são perceptíveis em documentos feudais em 1028 e 1119. No caso, Comes e Comis são próprios da região e do falar do Vêneto.

Atualmente, Comis e Comes são concentrados na região de Belluno, Vêneto.

Entretanto, as formas Comis e Comes podem ser encontradas fortemente em algumas aldeias medievais da Sicília, tendo outra origem etimológica e significando cume, lugar alto em que se assenta um colono.

Fontes:

GRANDE, Gennaro. Origine de Cognomi Gentilizi nel Regno di Napoli. Nápoles/Itália: Vicenzo Pauria, 1858.

VITA, Guido. Diffusione del cognomi italiani. Roma: Ugo Belletti, 1947.


Sobrenome Ribeirão



 Sobrenome iniciado por Manoel Ribeirão de Freitas, natural da Ilha de São Sebastião, filho de Domingos Gonçalves da Silva Freitas e "Dona" Inácia, dita filha de Dona Antonia. Nasceu por volta de 1840.

Fonte: ANUARIO GENEALOGICO BRASILEIRO, Ano IV, 1942, pág. 332.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

E a noite virou dia

 



PHENOMENO CELESTE

A população noctivago d'esta cidade, os que procuram os theatros e outras casas de diversões para repouso do espirito durante algumas horas, os que passeaam, buscando um refrigerio na noite fresca que fazia, foram hontem, eram 10 1/2 horas, subitamente surprehendidos por um facto que por entendidos foi a princípio explicado como sendo um phenomeno celeste, commum nos paizes da zona torrida.

Áquella hora, as ruas estavam immersas n'essa meia-sombra que a fraquissima luz do gaz d'estes ultimos dias substitue muito discretamente pela illuminação publica a que a companhia por contracto se compromettera. Pouco mais - ou pouco menos, quem sabe? - de um palmo se avistava diante do nariz, e os noctambulos caminhavam pelos trevos e vias, levados por esse poderoso instincto que guia os cegos por toda a parte e ampara os myopes atravez da escuridão.

Repentinamente, como n'um deslumbramento provindo de uma scena feerica, de uma mutação de magica, um grande clarão abrio-se lá no alto da abobada celeste, rasgando as nuvens e projectando sobre a terra uma luz vivissima, que illuminou a cidade como um poderoso fóco electrico collocado nas alturas. As ruas, subitamente illuminadas, pareciam refulgir brilhos de prata em suas calçadas; os transeuntes pasmos, boquiabertos, sentiam a claridade ferir-lhes intensamente os olhos, algumas pessoas não puderam conter exclamações e gritos de surpresa, quasi angustia, vendo-se senhoras desmaiarem e cahirem no lagedo, temerosas de se haver dado algum horrendo cataclysmo, quando vozes imprudentes se faziam ouvir n'um brado de medo:

- Olha a catastrophe da Martinica!

Os animaes que tiravam os bonds disparavam em insofreavel galope, parecendo que os vehiculos voavam; o povo corria desvairado, os botequins e outros estabelecimentos commerciaes, ainda a essa hora abertos, fechavam ruidosamente as suas portas e gritos desesperados, pedindo soccorro, se faziam ouvir de toda a parte.

O clarão vivissimo quanto attingio ao seu apogeu, dava á cidade o aspecto de pleno dia - mas um dia mais claro do que os do sol a pino no verão, um dia fulgurante, brilhando de uma luz que maltratava a retina, que offuscava, deslumbrando...

O phenomeno durou seguramente 18 minutos, que pareceram uma eternidade... Depois, a claridade intensa foi quebrando, diminuindo, suavisando-se até que, algumas pessoas mais ousadas; tendo voltado os olhos para o céo, conseguiram vel-o todo salpicado de pontos luminosos, que faiscavam intermittentemente, indo aos poucos extinguindo-se a luz que d'elles emanava, luz sucessivamente encarnada, amarella, azul, verde e branca, até morrer n'um rápido brilho final.

A principio, cavalheiros lidos em sciencia, membros do Instituto, funccionarios do Observatorio Astronomico, professores da Escola Polytechnica quizeram explicar o phenomeno como uma revolução atmospherica originada de um desprendimento extraordinario de electricidade nas altas camadas. Depois verificou-se que eram as TOCHAS DE NERO, que pela primeira vez illuminavam a cidade do Rio de Janeiro com a projecção vivissima de seus raios fortemente luminosos.

Fonte: A NOTICIA (Rio de Janeiro/RJ), 12 e 13 de Junho de 1902, pág. 02, col. 02

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

O ritual antropofágico dos tupinambás

 



A função mais nobre da "espada Tupinambá" não era propriamente a de abater inimigos durante o combate, embora isso também acontecesse com frequência. Era com a ibirapema que as tribos litorâneas sacrificavam "os contrários" (como diziam os lusos do século XVI) que tinham capturado em batalha, com um golpe certeiro na região da nuca. O inimigo morto dessa maneira era imediatamente esquartejado e transformados numa espécie de churrasco, que devia ser consumido por todos os membros do grupo - inclusive os bebês, cujas mães faziam questão de besuntar os seios no sangue do inimigo antes de dar de mamar.

É difícil evitar a conclusão de que a antropofagia era um dos elementos centrais da sociedade dos Tupi da costa (e também de grupos como os Guarani e os Juruna). Capturar e devorar os membros de tribos rivais eram atividades que marcavam os homens corajosos e altivos. A justificativa para a prática não era a necessidade de exterminar os adversários ou de conquistar seus territórios, mas a obrigação de manter vivo um ciclo aparentemente interminável de vingança que enobrecia os que participavam dele. "Não sabes que tu e os teus mataram muitos parentes nossos e muitos amigos? Vamos tirar a nossa desforra e vingar essas mortes. Nós te mataremos, assaremos e comeremos", dizem os Tupinambá a uma vítima prestes a ser devorada no relato de frei Claude D'Abbeville, franciscano, que participou da tentativa de colonização francesa no Maranhão no começo do século XVII. A resposta do futuro assado? "Pouco me importa. Tu me matarás, porém eu já matei muitos companheiros teus. Se me comerdes, fareis apenas o que já fiz eu mesmo. Quantas vezes me enchi com a carne da tua nação! Ademais, tenho irmão e primos que me vingarão".

Além da justificativa social - a chance de ganhar renome e glória - , havia ainda uma justificativa que podemos chamar de religiosa. Só quem matasse e comesse muitos inimigos teria acesso à Terra Sem Mal, o "paraíso" Tupinambá onde haveria eterna abundância de comida (em especial carne de caça), bebida (o cauim, feito a partir de mandioca ou milho fermentados) e festejos. Os grandes guerreiros ganhavam a chance de se unir aos ancestrais igualmente valorosos na Terra Sem Mal depois de sua morte, mas alguns pajés-profetas, os caraíbas, pregavam que era possível encontrar esse jardim de delícias aqui mesmo na Terra. Predicando de aldeia em aldeia, arrebanhavam seguidores e podem ter desencadeado migrações em massa na época pré-colonial, embora seu papel só possa ser documentado com clareza a partir da chegada dos europeus. Os caraíbas também eram conhecidos pela eloquência e por reforçar, em suas pregações, a importância da vingança antropofágica como "passaporte" para a Terra Sem Mal.

É claro que, antes de poder comer o inimigo, é preciso derrotá-lo e capturá-lo. Para atingir esse objetivo, os Tupinambá e outros grupos litorâneos desenvolveram uma série de técnicas bélicas simples e eficazes. Para incursões de longa distância, o costume era montar "esquadras" com dezenas de canoas escavadas em troncos, cada uma delas carregando entre 20 e 30 guerreiros, que deslizavam rapidamente pelos rios ou pela costa até chegar ao território do inimigo. Batalhas navais envolvendo a troca maciça de flechas entre dois aglomerados de barcos podiam decidir a parada, ou então a primeira etapa da refrega acontecia em terra firme, com os arcos sendo usados para acertar inimigos a distâncias mais longas e as ibirapemas servindo como o principal armamento nos duelos corpo a corpo. Chegar a essa fase da luta já era uma proeza, aliás, considerando a letalidade das flechas - medindo cerca de 1,60 metro, com pontas que podiam ser de bambu, de dente de tubarão ou mesmo ferrões de arraia, "dando em qualquer pau o abrem pelo meio, e acontece passarem um homem de parte a parte, e ir pregar no chão", escreve um cronista. Quando o objetivo era atacar aldeias fortificadas com troncos de madeira, as pontas das flechas eram embebidas em algodão e incendiadas, o que produzia um bombardeio rudimentar de coquetéis Molotov voadores, queimando cabanas e forçando os defensores sobreviventes a deixar suas casas.

Os guerreiros que tentavam evitar os golpes das maças dos inimigos ou se proteger das flechas portavam escudos redondos de couro de anta. Se havia a chance de uma campanha militar prolongada, os Tupi preparavam mantimentos que podiam durar por muitos meses, como farinha de mandioca tostada e farinha de peixe (basicamente peixes tostados e moídos), ou então aproveitavam a época da piracema para atacar, o que lhes garantia acesso a um farto suprimento de pescado conforme os peixes se aglomeravam para tentar se reproduzir. A fim de atacar aldeias fortificadas levando o mínimo possível de flechadas, montavam ainda uma espécie de contramuro móvel, uma armação feita de galhos e folhas que permitia que os guerreiros detrás dela avançassem lentamente rumo ao povoado dos inimigos. E, ao cercar a comunidade que desejavam capturar, podiam fazer uso de uma forma rudimentar de guerra química: queimavam grandes quantidades de pimenta de maneira tal que o vento levaria os gases da combustão rumo aos defensores, fazendo com que os olhos deles ardessem.

Quando o combate finalmente acontecia, o principal objetivo era capturar inimigos para o ritual antropofágico, embora os gravemente feridos fossem sacrificados e assados no próprio campo de batalha. O sujeito capturado ia para a aldeia do guerreiro que o derrotara e podia ficar em cativeiro durante meses, recebendo comida, uma rede só para ele e até uma companheira (crianças que nasciam dessa união em geral também eram devoradas). No dia marcado para o sacrifício, todos consumiam grande quantidade de cauim, e o prisioneiro, amarrado ritualmente com cordas, tinha a chance de tentar se vingar antecipadamente atirando pedras em seus captores. Após o ápice do ritual com a pancada da ibirapema, o matador (em geral, o sujeito que capturara o inimigo) tinha de se abster da carne da vítima. Em compensação, ganhava um novo nome, de forma que a longa fieira de apelidos era uma das marcas do guerreiro Tupi que tivera a honra de sacrificar diversos inimigos.

Fonte: LOPES, Reinaldo José. 1499: a pré-história do Brasil. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017, pág. 119-121.

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