terça-feira, 31 de maio de 2022

O Carrasco Fortunato

 



Nota nossa: biografia de um real e últimos carrascos da História do Brasil.

Era um homem jovial, o verdadeiro typo d'esses bons tropeiros dos sertões de Minas, que á noite, nos pousos, divertem os camaradas rasgando uma chorada chula, na viola, emquanto ao longe pasta a boiada.

Quem não conhecesse a terrivel historia d'aquelle homem, ao vel-o risonho, de bentinhos e patuás no petio, sempre a fallar em Deus e Nossa Senhora, estaria longe de julgar que era elle o celebre carrasco, terror da provincia de Minas Geraes.

O crime não deixara n'aquelle rosto as estrias do remorso. O sangue que elle derramava por conta da injustiça não lhe produzia no espirito impressão alguma.

Fizera-se carrasco como quem se faz sapateiro. Enforcar um homem, era para elle como se deitasse umas tombas.

Usava de uma phrase especial para dizer que havia justiçado um criminoso:

- Mandei-o embora.

A vida para elle era cousa somenos. E se o quizessem vêr alegre, era dizer-lhe que se preparasse para ir enforcar um réu.

Nas vesperas da execução mostrava-se Fortunato de uma expansibilidade extraordinaria. Ria, fallava comsigo mesmo, gesticulava, e punha-se até a cantarolar.

Para o criminoso a quem tinha de mandar embora, era elle de uma ternura quasi paternal. Tinha então extremos de delicadeza, e, fallando-lhe, uma doçura verdadeiramente feminil, na voz.

No momento, porém, em que deitava a corda ao pescoço do miseravel, dilatavam-se-lhe os olhos e brincava-lhe no rosto uma alegria feroz.

Os gestos eram então sacudidos e nervosos. Rapido como um relampago, cumpria o seu degradante e infame dever, recuperando logo depois a calma e a tranquilidade de um justo.

Dormia aquelle homem como póde dormir quem nunca teve um mau pensamento, nem praticou uma acção indigna. Tinha amor ao officio, e exercia-o com prazer.

Era um typo digno de estudo, o carrasco Fortunato; e, graças á obsequiosidade de pessoa que o conheceu, podemos hoje offerecer aos leitores alguns dados sobre a vida d'esse sinistro personagem, que figurou em tantas tragedias judiciarias.

✤✤✤✤✤

Fortunato nascera em 1811, em Lavras, na provincia de Minas Geraes. Era filho de Jeronymo e Engracia, escravos, como elle, de Antonio Carlos Garcia.

Era negro e tinhas bastos bigodes. As barbas, em carapinha, emmolduravam-lhe o rosto cheio e arredondado. O olhar era vivo e scintillante. As orelhas apresentavam tamanho fóra do natural, e como que se moviam, quando elle fallava com animação.

No abdomen, volumoso e crescido, bem como nas costas, notavam-se duas grandes cicatrizes.

Tinha 62 pollegadas de altura, era analphabeto, e apresentava um aleijão na mão esquerda.

Fortunato era estimado na fazenda pelo seu humor folgazão, e porque sabia entreter os seus miseros companheiros de captiveiro, por meio de historias que elle contava com certa graça.

Um dia, porém, revoltado por ter sido castigado, premeditou um assassinato, e o executou com a maior calma.

Foi victima do miseravel uma infeliz mulher, sua senhora, de nome Anna Custodia de Souza, esposa do fazendeiro Garcia.

Recolhido á prisão, e transferido depois para a cadeia de Ouro Preto, foi elle condemnado a galés perpetuas, como incurso no grau maximo do art. 192 do codigo criminal, em virtude do art. 194 do codigo do processo, por sentença datado de 13 de novembro de 1868, tendo havido appelação, que não foi decidida.

Tinha elle 24 annos de idade, em 1835, quando fez a sua estréa, como carrasco. Estava preso, mas não tinha sido ainda comdemnado.

É esta a longa serie de seus sinistros trabalhos:

No dia 20 de março de 1835 seguiu de Ouro Preto para Itabira, onde enforcou um criminoso, voltando a 2 de junho de 1840 para a sua prisão.

Foi uma estréa auspiciosa, Fortunato mostrou-se orgulhoso, ao ver que n'esse dia era alvo dos olhares da multidão, e trabalhou limpamente. Se elle nascera para aquillo!

A 26 de setembro de 1840 seguiu para Caethé, onde foi cumprir o seu fatal dever, recolhendo-se a 1 de outubro de 1843.

A 21 d'este ultimo mez seguiu para Piranga, onde executou o réu Antonio Cobra, voltando a 30 do mesmo mez.

A 6 de Novembro seguiu para Itabira, recolhendo-se a 20 do mesmo mez.

A 10 de outubro de 1846 partiu para Tres Pontas, regressando a 18 de novembro.

A 1 de dezembro d'esse anno seguiu para Pitanguy, onde enforcou o réu Balduino, escravo de Antonio Nunes Carneiro, regressando a 20 de janeiro de 1847.

A 1 de março seguiu para Barbacena, onde executou o réu Fernando José de Araujo, regressando a 20 de junho de 1847.

A 30, ainda d'esse mez, seguiu para o Piauhy, regressando a 20 de junho de 1847.

A 23 de janeiro seguiu para Conceição do Serro, regressando a 20 de fevereiro de 1849.

A 26 de maio seguiu para Uberaba, onde fez diversas execuções, recolhendo-se a 28 de julho do mesmo anno.

A 5 de outubro seguiu para S. João Nepomuceno, regressando a 30 de novembro.

A 18 de dezembro, ainda de 1849 seguiu para o Serro, onde executou o réu José Africano, recolhendo-se a 15 de janeiro de 1850.

A 26 de fevereiro seguiu para Araxá, voltando a 28 de abril.

A 27 de setembro seguiu para o Curvello, affim de executar o réu Celestino, regressando a 17 de outubro.

A 11 de novembro seguiu para S. João d'El-Rei, para executar o réu João, escravo de Francisco José Antonio Guimarães, seguindo d'alli para Barbacena a 4 de dezembro, para executar o réu Antonio Moçambique, e recolhendo-se a 20 de janeiro de 1851.

A 30 de junho de 1852 seguiu de novo para S. João d'El-Rei, afim de executar o réu Fortunato Creoulo, recolhendo-se a 31 de julho.

A 23 de agosto seguiu para o Curvello onde enforcou o réu João Paulo Pereira, recolhendo-se a 27 de setembro.

A 7 de outubo seguiu para o Mar de Hespanha, afim de executar o réu Germano, e recolheu-se a 9 de novembro.

A 6 de maio de 1853 seguiu para o Rio Preto, afim de executar os réus Marcellino Creoulo e Antonio Navaldão, assassinos de seu senhor, Luiz José Paula, e recolheu-se a 10 de junho.

A 1 de julho seguiu para Curvello, onde executou o criminoso Casimiro Pereira da Silva, regressando a 1 de setembro.

A 7 de outubro seguiu para Barbacena, regressando a 8 de novembro.

A 16 de julho de 1854 seguiu para Curvello, recolhendo a 4 de agosto.

A 5 de setembro seguiu para o Mar de Hespanha, regressando a 10 de outubro.

A 17 de novembro seguiu de novo para o Mar de Hespanha, onde executou os réus Antonio Cambinda, Antonio Angola e Pedro Noddão, voltando a 30 de dezembro. 

A 18 de maio de 1855 seguiu para Jacuhy, recolhendo-se a 1 de junho.

A 19 do mesmo mez seguiu para Pouso Alegre, onde enforcou o réu José, escravo, regressando a 20 de julho.

A 8 de outubo seguiu para Piranga, onde executou os réus Antonio Bento Monteiro e Ignez, escrava, regressando a 21 de outubro de 1856.

A 4 de novembro seguiu para Caldas, regressando a 30 de dezembro.

A 16 de novembro de 1857 seguiu para Leopoldina, onde executou os réus David, Amancio, Vicente e Joaquim, recolhendo-se a 13 de janeiro de 1858.

A 14 d'esse mesmo mez seguiu para Marianna, onde enforcou o celebre criminoso José Joaquim Gomes da Fonseca, mais conhecido pelo appellido Tira-Couro, regressando a 20, ainda d'esse mez.

A 7 de abril seguiu para Sabará, afim de executar os réus Peregrino e Rosa, recolhendo-se a 20 de abril.

Finalmente, a 19 de julho, seguiu para Diamantina, onde enforcou o réu Archanjo, regressando a 20 de setembro d'esse mesmo anno de 1858.

Ainda exerceu elle o seu funesto officio em diversas localidades, tendo-lhe passado pelas mãos mais de 50 criminosos.

Um anno depois da sua ultima execucção, começou Fortunato a mostrar-se amodorrado, tristonho, sombrio, manifestando a cada momento a profunda saudade que tinha dos bellos tempos em que trabalhava.

- Vocês querem então que eu morra?! dizia elle muitas vezes aos guardas da prisão. Então não ha por ahi mais ninguem a quem eu tenha de mandar embora?! Já não se faz mais justiça n'esta terra?!

Pouco a pouco foi Fortunato perdendo a robustez da sua musculatura de aço, e aquella constante jovialidade que fazia d'elle um carrasco alegre.

A definhar lentamente, chegou Fortunato até á idade de 72 annos, e falleceu a 9 de julho de 1883, deixando de si tristissima recordação na provincia de Minas Geraes.

D'elle se póde dizer que foi um homem que soube exercer limpamente o seu miseravel officio, pois o fazia como se não houvesse nascido para outra cousa.

Em Minas Geraes tornou-se lendario o sinistro nome d'esse carrasco, de quem damos hoje o retrato.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 02 de Novembro de 1889, pág. 01, col. 04-05


segunda-feira, 30 de maio de 2022

domingo, 29 de maio de 2022

Um esconjuro brasileiro contra bruxas do século XIX

 



Pelo caminho ia rezando uma reza que a minha santa avósinha, que Deus haja, me ensinou quando eu era pequenito, p'ra exconjurar bruxas.

A reza que ia a rezar é assim:

Ó bruxa da mão furada,

Das unhas escarrapachadas, 

Toda a casa tem quatro cantos,

Cada canto tem seu santo,

Padre, Filho e Espírito Santo.

Fé tinha eu na resa da minha avó, porque, a fallar a verdade, nunca o filho de meu pai tinha visto bruxas, trasgos, nem aventesmas!

(Tio João).

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 09 de Outubro de 1889, pág. 01, col. 08

sábado, 28 de maio de 2022

A Baiana da Rua Barão de Mesquita



ALMAS DO OUTRO MUNDO

NOVAS MANIFESTAÇÕES

NA 

RUA DO BARÃO DE MESQUITA

(...)

O que vamos narrar não é producto da fantasia. É a pura verdade. Áquelles que duvidarem, aconselhamos que procurem as praças de policia que, ante-hontem rondaram a rua do Barão de Mesquita, e que lhes perguntem o que viram e o que ouviram.

Passemos ao facto, que é interessante, mysterioso, singular e extraordinario.

Ás 10 horas da noite de ante-hontem começou a patrulha a fazer a sua ronda pela citada rua.

Os soldados estavam despreoccupadamente a fazer o seu serviço, com aquelle authomatismo de quem se habitua a um certo trabalho que não demanda de nenhum esforço de intelligencia, e que o faz dia a dia com a monotona regularidade de um relogio.

Isto tudo vem para dizer que não pensavel elles em almas do outro mundo, ou cousas de igual jaez, quando ouviram as doze pancadas da meia noite.

E com as doze pancadas da meia noite ouviram tambem agudissimos assovios, que partiam das proximidades da rua de S. Francisco Xavier, esquina da do Barão de Mesquita.

Intrigados com aquillo, e suppondo que fossem signaes convencionados por gatunos, occultaram-se em um capinzal, e puzeram-se a imitar os assovios, contando que os gatunos se approximassem.

Era plano d'elles attrahir por essa fórma os que assoviavem e prendel-os.

Vendo, porém, que ninguem apparecia, e que os assovios continuavam, dirigiram-se para o ponto d'onde partiam os mysteriosos signaes.

Apenas chegaram á rua de S. Francisco Xavier notaram, com grande espanto, que já os assovios não partiam d'alli, mas do ponto em que elles, soldados, tinham estado occultos.

De novo voltou a patrulha áquelle ponto, e d'ahi ouviu logo em seguida os mesmos assovios, partindo da rua de S. Francisco Xavier.

Cada vez mais intrigados com aquelle singularissimo phenomeno, procuraram os dous soldados descobrir a causa d'aquillo, para o que não achavam explicação plausivel.

Percorreram então a rua do Barão de Mesquita, de um ponto a outro, com a maior velocidade, notando com grande estupefacção que os assovios partiam sempre do ponto opposto áquelle em que se achavam!

Um dos solados propôz que ficassem ambos á espreita, porém cada um d'elles em ponto extremo.

Executado este novo plano, ouviram então repetido trilar de apitos que partiam do centro dos terrenos do hospital militar, sem que pudessem descobrir pessoa alguma.

Acto continuo ouviram tropel de animal.

Acreditando ser o official rondante que viesse a cavallo, como é de costume, dirigiram-se os dous soldados para o vulto que viram ao longe.

Subito, porém, cessou o tropel do animal, e cavallo e cavalleiro desappareceram como por encanto!

Pouco depois tomaram os soldados um bond do Andarahy Grande que passava, e um d'elles, dirigindo-se ao conductor perguntou-lhe:

- Que diabo de lambança é esta que se está passando aqui na rua do Barão de Mesquita?

É singular o que narram alguns capineiros, a proposito das mysteriosas manifestações n'aquella rua.

Dizem elles, e affirmam com a maior convicção, já terem visto fóra de horas uma mulher extremamente alta, magra, de trunfa á cabeça e vestida de preto. Essa mulher, a quem denominam a bahiana, anda apressadamente, e ás vezes com velocidade incrivel.

Quando alguem tenta approximar-se ella desapparece, sem que se saiba como, sem  que se saiba como, sem que se possa encontrar nenhum vestigio da sua passagem, nenhum logar onde pudesse occultar-se, nada, absolutamente nada.

Essa mysteriosa mulher, a bahiana, como já a tratam, apparece muitas vezes, segundo dizem os capineiros.

É provavel que amanhã possamos dar novas informações acerca d'esses singularissimos phenomenos, que se reproduzem na rua do Barão de Mesquita.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 04 de Outubro de 1889, pág. 01, col. 04


sexta-feira, 27 de maio de 2022

San Francisco e as minas da Califórnia

 



Exterior.

CALIFORNIA. - Nada mais curioso de que o extraordinario desenvolvimento dado em meia duzia de annos á cidade de S. Francisco, que, antes de descobertas as minas da California, contava apenas umas 5 a 6,000 almas, contando as almas santas das esquinas. Hoje, quereis saber o que alli ha?

Ha 31 escolas publicas, com 70 mestres e 5,000 discipulos; despendem-se com ellas 137,000 pesos fortes, desses que valem ahi no Brasil, si bem me lembro, coisa dos seus 2$000.

Ha quatro associações scientificas com as suas competentes bibliothecas.

Ha quarenta livrarias publicas.

Ha doze periodicos diarios, entre os quaes dous francezes e dous allemães, tres semanaes, um italiano, um francez, e um hespanhol; dez semanaes, dos quaes um é chinez. Ao todo vinte e cinco periodicos.

Ha dezoito typographias, e sete lithographias.

Ha quatro hospitaes para enfermos pobres; um delles é sustentado pelo governo federal, que a isso applica 60,000 pesos.

Ha 136 medicos e 65 boticarios, apezar de ser limitado o numero de obitos, pois em 50 habitantes morre um por anno, emquanto nas cidades de Nova-York e Philadelphia morre um em 32 - e em Boston, um em 37. - Em 1,233 obitos que houve este anno ultimo, figurão 48 pessoas affogadas e 58 crianças nascidas mortas.

Ha 275 advogados, e 18 escrivães (Santa Barbara!).

Para objectos de beneficencia ha 8 sociedades de estrangeiros = duas de senhoras, duas hebraicas, duas allemãs, uma italiana e 1 franceza.

São representados por 18 consules os estados estrangeiros.

Ha uma companhia de gaz, que tem enterrado tubos para elle na extensão de treze milhas, e acende todas as noite 482 lampeões.

Ha seis theatros, dos quaes um é allemão, outro francez e outro chinez.

Ha tres salas para concertos.

Ha sete lojas maçonicas, quatorze clubs, quatro barracas para exercicios gynasticos.

Ha 12 moinhos de vapor.

Ha 63,000 habitantes.

E ha, que é o melhor de tudo, dinheiro em barra para todos, uma vez que queirão trabalhar.

Fonte: CORREIO OFFICIAL DE MINAS (Ouro Preto/MG), 23 de Abril de 1857, pág. 04, col. 01

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Um relato sobre o tráfico transatlântico de africanos no século XIX

 



 - O TRAFICO DE AFRICANOS. - Encontra-se no Ausland o curioso depoimento feito perante os tribunaes da America por um marinheiro que pertenceu á equipagem do Mary E Smith: diz elle - 

"Depois de navegar tres annos na pesca da balêa, voltei a Boston, tendo gasto quanto ajuntei, o que nos succede sempre a nós marinheiros, fui obrigado a procurar trabalho e contractei-me como marinheiro a bordo do Mary E Smith.

Disse-me o capitão que deviamos ir para Montevidéo. Mas, logo que estivemos no alto mar, percebi que era falsa aquella asserção. Em vez de tomar para a America, o barco dirigia-se para a costa d'Africa.

Havia a bordo outro marinheiro enganado como eu.

Disserão-nos então, para nos applacarem, que nos darião uma boa paga, isto é 600 dollars a cada um pela viagem da costa d'Africa até Cuba, passagem gratis para nossa patria e dous negros. O que fazer no alto mar? Calamo-nos.

Na travessia preparou-se tudo para a recepção dos negros. Evitava-se qualquer encontro com outros navios.

Chegados á costa, tomou-se o carregamento. Nós dous aproveitamos do momento para desertar, e fomos ter a uma feitoria ou barracão. Foi uma fortuna o termos desertado, porque soubemos depois que o Mary E Smith tinha sido apresado por um navio brasileiro.

A feitoria onde me refugiei era dirigida por um residente, e tive occasião de observar como se faz ainda hoje o trafico. A feitoria estava situada em um ponto que não se podia descubrir, olhando-se do mar, precaução necessaria por causa dos crusadores britanicos e americanos. Compunha-se de dous edificios, um para os negros, outros para as negras e crianças.

O systema para obter negros é o seguinte: Educão-se neste mister pessoas cuja occupação unica é attrahil-os. Trazem-nos ás feitorias, onde lhes dão botões de metal, espingardas velhas, anneis e pulseiras de cobre. O preço regular de um negro bem constituido, nessas occasiões, é de 16$000, e o das negras e crianças, de 6$ a 8$000, pagaveis em mercadorias.

Tal é a paixão destes povos pelos ornatos e pela aguardente, que ás vezes os pais vendem os filhos e os maridos as mulheres.

Emquanto se demorão nos barracões, os negros andão encorrentados em lotes de 8 a 12. Logo que entrão alli, são marcados. Cada feitoria tem o seu signal particular e um lugar especial onde o applica. Ora é n'um braço, ora é nas costas, ora nas pernas, etc. O lugar mais ordinario é o lado direito do peito. O instrumento é sempre o mesmo: um ferro em brasa.

Depois de dous mezes e meio de estar eu naquella localidade, apareceu um barco negreiro, o Altivie de New-York, que comprou quatrocentos negros, pelo preço de 120$000 por cada homem, e de 60$ a 80$000 por cada mulher. Embarquei-me nelle para voltar para a patria.

Durante a viagem, morrêrão no Altivie cem negros, por falta de ar e de alimentação regular. Ao cabo de quarenta dias, desembarcou-se o contrabando em uma ilha perto de Cuba, vendendo-se os negros mais vigorosos a 1:600$000."

Depois disto, incendiarão o Altivie. O marinheiro pôde tomar passagem para New-York, onde fez a sua communicação á autoridade.

Fonte: CORREIO OFFICIAL DE MINAS (Ouro Preto/MG), 26 de Janeiro de 1857, pág. 03, col. 02-03

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Enchente em Pelotas em 1889

 



A ENCHENTE EM PELOTAS

As grandes chuvas que cahiram nos dias 9 e 10 do corrente nas proximidades da cidade de Pelotas fizeram transbordar as aguas do rio S. Gonçalo de uma maneira como não ha exemplo ha muitos annos.

O rio, sahindo do leito, inundou consideravelmente as margens, ficando todos os estabelecimentos da margem esquerda debaixo d'agua.

No porto, a agua cobriu a linha dos bonds e chegou, ás 4 horas da tarde, até a bacia do chafariz da praça S. Domingos.

Toda a rua do Conde de Porto Alegre, ficou transformada em um grande rio.

Na margem direita, os estragos são medonhos.

As casas ficaram com 3 e 4 palmos d'agua e alguns moradores tiveram de dormir em cima das mesas e no forro dos predios para não ficarem de môlho..

O gado que existia na margem direita de S. Gonçalo foi colhido pela agua, e consideravel numero de rezes pereceram afogadas.

Nas margens do Santa Barbara ficaram com agua da altura de tres ou quatro palmos todos os edificios, inclusive as fabricas de farinhas, ratoeiras e barracas.

Ás 3 horas da madrugada do dia 12, o Sr. Pio Rosa, morador nas Larangeiras com sua familia, teve de mudar-se ás pressas, porque a agua entrava aos borbotões na habitação.

Todos os campos e casas marginaes do S. Gonçalo até Santa Isabel foram invadidos pelas aguas.

Um horror!

Os estragos causados pela enchente na fabrica do gaz são importantissimos. Segundo os melhores calculos nem em 15 dias haverá n'aquella cidade illuminação a gaz.

A agua chegou á altura de 1m,30 dentro do estabelecimento, alagando fornalhas, retortas, deposito de carvão, etc.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 20 de Junho de 1889, pág. 01, col. 03

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...