sábado, 21 de maio de 2022

Fábrica Rheingantz



 (...)

De todas ellas, a mais importante é a Grande Fabrica de tecidos de lã e algodão rio-grandense, dos Srs. Rheingantz & C., representada n'esta côrte pelo Sr. Emilio de Barros.

Este estabelecimento, o primeiro que se fundou no Brazil, começou os seus trabalhos em 1874, na cidade do Rio Grande do Sul, e tem tomado tal desenvolvimento, os seus productos adquiriram tão grande nomeada, que sahindo da provincia vieram fornecer o mercado da côrte, onde, abrindo concurrencia aos productos estrangeiros, tem grande procura.

A fabrica Rheingantz, cuja variedade de productos prende a attenção do publico na Exposição Preparatoria, dá trabalho a 620 operarios, empregando na confecção dos seus productos unicamente materia prima do paiz.

Como já dissemos, a variedade de productos expostos por este importante estabelecimento industrial é grande, e entre elle são verdadeiramente dignos de nota pela sua perfeição: os pannos azues, de superior qualidade; os chales para senhora e chales manta, de bellissimos desenhos; as flanellas e casimiras de todas as qualidades; e a sarja azul.

Os seus cobertores podem perfeitamente competir com os cobertores francezes, geralmente conhecidos por cobertores de Papo. A lã empregada na sua confecção é finissima, e a perfeição do acabamento nada deixa a desejar.

São ainda dignos de menção os cobertores reversiveis, feitos em teares Jacquards, unicos empregados na fabrica, e os reversiveis.

Nos tecidos de lã expõe ainda este estabelecimento uma esplendida collecção de pannos azues proprios para fardamento, e que é empregado no fardamento das tropas que fazem a guarnição da provincia do Rio Grande.

A collecção de algodões é tambem importantissima, quer de tecidos grossos, quer de tecidos finos, e podem competir tanto com os similares estrangeiros, como com os productos de outras fabricas nacionaes.

Pelo productos expostos vê-se que a fabrica Rheingantz emprega na confecção dos seus productos as machinas mais perfeitas e mais modernas, e que na Exposição de Pariz esses productos hão de figurar galhardamente ao lado de productos francezes, e sobretudo ao lado de productos allemães.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 27 de Dezembro de 1888, pág. 01, col. 02

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A grande ferrovia da integração sul-americana

 



DE OCEANO A OCEANO

A grande estrada de ferro America do Sul, que se projecta do Recife a La Paz, com ligação d'ahi a Valparaizo, vai ser estudada, para que possa depois ser obtida a respectiva concessão pelo syndicato que tomou a si tão audacioso commettimento.

A linha, correndo para o poente a partir do Recife, alcança a margem do rio S. Francisco, e acompanha depois todo o seu valle, correndo para o sul, e cortando ao centro as provincias de Bahia e Minas Geraes.

N'esta provincia a linha abandona o valle do R. São Francisco para o tomar o do rio Abaeté, correndo novamente para o poente até alcançar o rio Paraná.

Segue depois a estrada de ferro acompanhando a corrente do rio, na direcção do sul, marginando as provincias de São Paulo e Paraná, limitrophes da de Matto Grosso, para atravessar o territorio das Missões e entrar na provincia do Rio Grande do Sul por S. Borja e sahir por Uruguayana, indo terminar na republica Argentina, na cidade de La Paz, á margem do Paraná.

D'ahi, passando o rio, um ramal ligará La Paz com a grande arteria que vai a Valparaizo, pelo Rosario e Mendoza, atravessando os Andes por um tunnel.

É facil de traçar a grande linha, que acabamos de descrever, sobre uma carta d'esta parte da America do Sul, e observar quanto e audaciosa tal empreza e como são arrojados os seus promotores.

Se attentarmos, porém, no algarismo maior será a nossa admiração. 

Toda a extensão de caminho de ferro a fazer pelo Brazil sobre a 4,400 kilometros emquanto a republica Argentina e o Chile têm de construir 2,400.

Como já tivemos occasião de dizer proposito d'este assumpto, o capital necessario para esta obra, tão monumental como a Pacific Railway, que vai de oceano a oceano nos Estados-Unidos, será approximadamente de 300 ou 400 mil contos.

Será esta, se se realisar, a grande arteria do Brazil, onde irão terminar e onde começarão todas as demais vias ferreas já em construcção, ou que pretendam construir-se.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 31 de Outubro de 1888, pág. 01, col. 02-03

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Barão de Sertório

 



Falleceu hontem, a 1 hora da tarde, de uma dilatação da aorta, o Sr. Barão de Sertorio, presidente do Tribunal da Relação da Côrte.

Antes de galgar tão elevado posto da magistratura, percorreu o finado todos os cargos da difficil carreira que abraçára, deixando de sua passagem, em cada um d'elles, um exemplo de virtudes como juiz, e a recordação de um caracter integro.

Nascido na cidade de S. Paulo aos 5 de março de 1819, fez os seus estudos de humanidades e formou-se em sciencias sociaes e juridicas na faculdade da mesma provincia em 1841.

Nomeado após a sua formatura promotor publico da comarca de Santos, foi tempos depois removido na mesma qualidade, para uma das comarcas do Rio Grande do Sul. Feito o quatriennio, foi nomeado juiz de direito da comarca de Bragança, em S. Paulo, sendo mais tarde removido para a de Magé, no Rio de Janeiro, e depois para a de S. Borja, no Rio Grande do Sul.

D'ahi foi removido para a 2a. vara commercial da côrte, que exerceu durante muito tempo, dando sempre as provas mais irrecusaveis da rectidão do seu elevado espirito.

Exerceu tambem os logares de juiz dos feitos da fazenda e o de chefe de policia da côrte interinamente, para que foi nomeado a 24 de Abril do anno de 1869.

Querendo aproveitar o seu espirito conciliador e justo, o governo nomeou-o presidente da provincia do Rio Grande do Sul, cargo em que se houve com muita habilidade.

Nomeado em 1878 desembargador da relação do Recife, partiu para aquella provincia, de onde foi pouco depois de um anno removido para a Relação da Côrte.

Ultimamente, na administração do Sr. Ferreira Vianna, estando vago o logar de presidente da Relação da Côrte, foi o desembargador Sertorio nomeado para esse elevado posto, e logo depois agraciado com o titulo de barão de Sertorio, com grandeza.

Era tambem condecorado com o officialato da Rosa e com a commenda da Conceição da Villa Viçosa.

O seu cadaver será hoje sepultado no cemiterio da Ordem Terceira da Penitencia, sahindo o feretro, da rua do Bispo n. 36 A, ás 4 horas da tarde.

Á familia do finado, especialmente ao seu digno genro Eduardo Augusto de Araujo Jorge, os nossos pesames.

Fonte: GAZETA DE NOTICAS (Rio de Janeiro/RJ), 20 de Outubro de 1888, pág. 01, col. 07

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Barão de Escragnolle

 



Após agudos e longos soffrimentos do coração, aggravados ultimamente por um anthraz nas costas, falleceu hontem, ás 9 1/2 horas da manhã o barão de Escragnolle, Gastão Luiz Henrique d'Escragnolle.

Filho do conde d'Escragnolle e de D. Adelaide de Beaurepaire, nasceu no Rio de Janeiro a 16 de abril de 1819. Seguiu a nobre carreira dos seus avós e nas armas chegou, depois de completos os estudos academicos, com rapidez ao posto de tenente-coronel do estado-maior de 1a. classe. Distinguido sempre pelos chefes e tendo alcançado a amizade particular do Duque de Caxias, de quem foi ajudante de ordens por occasião das campanhas do Maranhão, Minas-Geraes e Rio Grande do Sul, tinha diante de si o mais brilhante futuro, se desde muito não lhe cortasse o vôo das aspirações a mais cruel e persistente surdez, que o inutilisara para o serviço activo e afinal o obrigou a pedir sua reforma.

Recolhido á vida privada, habitou durante largos annos Theresopolis, onde possuia uma fazendola, citada por quantos viajantes estrangeiros foram ter áquella pittoresca localidade, taes os encantos artisticos que soubera alli reunir e combinar.

Vagando em 1874 o logar de director da Floresta Nacional da Tijuca, teve o sr. conselheiro Costa Pereira a feliz lembrança de nomear para esse cargo o barão de Escragnolle, Era o right man in right place. Difficil fôra, com effeito, acertar melhor. Admirador enthusiasta da natureza, alheiado naturalmente da convivencia dos homens e do bulicio da sociedade, dedicou-se aquelle excellente administrador de corpo e alma aos deveres que lhe eram tão gratos e transformou positivamente esse local, aliás bem preparado por anteriores cuidados, n'uma creação toda sua e que sobremaneira impressionava a todos que visitavam a Floresta Nacional. Sem exageração póde-se affirmar que é hoje um dos mais formosos recantos do Rio de Janeiro, que tantas bellezas naturaes apresenta comtudo em seus mais insignificantes pontos.

Era de ver-se a paixão, o fogo, o enthusiasmo com que o barão de Escragnolle de continuo fallava das suas arvores, dos seus caminhos, das grutas que descobriu, dos planos que tinha em mente e que ia realisando com admiravel economia e ao mesmo tempo espantosos resultados.

Era o artista identificado intimamente com a natureza, procurando sempre n'esse esforço commum o ideal do bello nas suas menores manifestações.

Tendo herdado o espirito agudo e delicado dos seus illustres antepassados, cujos nomes figuram com honra nos annaes das cruzadas e nos fastos da historia de França, aquelle homem destinado ás grandezas do mundo costumava dizer com muita finura: "Para se poder ser verdadeiramente feliz, é preciso saber viver o mais possivel com as plantas e os animaes, e o menos com os homens."

Não se diga, comtudo, que fosse um misanthropo. Quantos o conheceram, sempre se recordarão saudosos da sua grata e amabilissima convivencia. Ninguem melhor do que elle sabia dar engraçado prestigio ao mais ligeiro episodio que quizesse narrar e rodear-se de rostos alegres e sympathicos.

O barão de Escragnolle deixou após si um verdadeiro e grande monumento - é a Floresta da Tijuca. Conservem-se as tradições artisticas, a ordem, o methodo que elle alli implantou, e os tempos vindouros conservarão com respeito e admiração a sua memoria - legitimo hymno de gratidão da natureza a evocar o nome do brazileiro illustre que soube tão bem comprehendel-a e desvendar todos os seus estupendos segredos e recursos.

Honrado desde a infancia com a amizade de Sua Magestade o Imperador, ao barão de Escragnolle coube grande alegria proporcionar ao monarcha enfermo, durante a sua estada na Tijuca, um dos mais bellos locaes do mundo para a suspirada convalescença, e, de facto, o Sr. Dr. Pedro II não se cançava de affirmar que os dias que alli passara tinha o maior e mais grato encanto, graças principalmente ás maravilhas da floresta.

Prestando nossas homenagens a tão eminente cidadão, dirigimos sinceros pezames á Exma. familia. O sr. barão de Escragnolle era irmão da Exma. Sra. baroneza de Taunay e tio do Sr. senador Escragnolle Taunay.

O ramo directo dos Robert d'Escragnolle, completamente extincto na França, tem um unico representante aqui, o neto do fallecido barão - João Roberto d'Escragnolle, alumno do collegio de Pedro II.

Fonte: GAZETA DE NOTICAS (Rio de Janeiro/RJ), 19 de Junho de 1888, pág. 01, col. 06

domingo, 15 de maio de 2022

Sátira política no carnaval de Magé

 



CONFLICTO EM MAGÉ

Na terça-feira de carnaval, em Magé, alguns rapazes foram, fantasiados, ao largo da Ferraria, e ahi levantaram um tablado, sobre o qual collocaram cadeiras, nas quaes cada um dos mascaras sentou-se, para simular uma sessão tumultuaria da camara municipal, cousa que não é raro ver-se, sem fantasias, durante o anno, mas que á auctoridade policial d'alli, o delegado, não pareceu regular em dia de carnaval.

Dizem que essa auctoridade levou o seu escrupulo pelo respeito ás instituições juradas, ao ponto de qualificar a camara municipal, ou antes a fingida edilidade, com um substantivo adjectivado que Victor Hugo empregou n'uma das suas obras immortaes, mas que nem com este baptismo do mestre póde-se pronunciar em rodas decentes. E juntando á qualificação um ordem, mandou que fosse destruida aquella quitanda, o que foi executado por onze soldados armados.

Aos mascarados fingindo edis juntaram-se outros e pessoas do povo que reclamavam contra a prepotencia, e tanto bastou para que a auctoridade policial mandasse carregar sobre o povo, sahindo algumas pessoas feridas, e entre estas, como de costume, cidadãos que nada tinham que ver com a historia.

Á noite, 03 mascarados, então em grande numero, voltaram ao mesmo largo, estando tambem presente o grupo dos Africanos; voltaram tambem as onze praças, mas d'esta vez foram completamente repellidas a pedradas, tendo então de correr ainda de sabre em punho, não sobre o povo, mas para o quartel, onde se recolheram, segundo prudente aviso do commandante do destacamento.

Nenhuma auctoridade appareceu depois d'isto, apezar dos insultos dirigidos pelo povo ao delegado. Ficaram feridos 2 soldados e contundidos 6; ficaram feridas tambem muitas pessoas do povo.

Fez-se corpo de delicto nas praças; alguns particulares requereram tambem corpo de delicto.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 17 de Fevereiro de 1888, pág. 01, col. 04


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