terça-feira, 8 de março de 2022

Índios bravios atacam em Santa Cruz do Rio Pardo

 



Escrevem-nos de Santa Cruz do Rio Pardo em 11 do corrente:

"Reproduzem-se os assaltos dos indios bravios do sertão contra os moradores no districto da freguezia de S. José do Rio Novo.

Na semana finda, em uma roçada que, em sua fazenda, denominada Taquaral, mandava fazer José Garcia Duarte e Oliveira, dois camaradas deste, um velho e um menino de 12 a 14 annos de idade, foram pelos indios assassinados á flexadas e bordoadas e seus cadaveres atrozmente esphacelados.

Do velho foram amputadas as partes genitaes, e a cabeça, que, separada do corpo, fôra encontrada á grande distancia deste e tantos outros actos de verdadeiro canibalismo foram commettidos, que seria longo enumeral-os.

O menino teve igual sorte á de seu pae, e seu misero corpo, depois de, como delle, bastante offendido e fracturado, foi espetado em uma grossa vara de dez a doze palmos de altura, e esta fincada no sólo, deixando os terriveis indios as suas presas neste lamentavel e misero estado.

Recebi estas informações do proprio José Garcia e de um official de justiça que, achando-se em dilligencia, vio horrorisado os restos esphacelados desses infelizes.

Consta que a autoridade policial procedeu á corpo de delicto, e trata das providencias necessarias.

Porém, de que serve a justiça dar estes passos, quando é certo que, a não ser pelo meio do cathechismo, nada se conseguirá no sentido de melhorar a sorte dos infelizes habitantes deste sertão?

Nem com taes exemplos, infelizmente, tantas vezes reproduzidos, poude vingar o projecto em 1880 ou 1881 sobre a cathechese dos indios neste termo. Oxalá que este facto vá servir de incentivo ao nosso governo, ou aos nossos representantes na provincia, para que seja adoptada alguma medida cujos effeitos sejam na realidade salutares!"

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 21 de Agosto de 1883, pág. 02, col. 02

domingo, 6 de março de 2022

Tremor de terra em Santo Cristo



  - De Santo Angelo (S. Pedro do Rio Grande do Sul) escreveram á Descentralisação, em 24 de Abril:

"No dia 17 de Março, deu-se um facto no lugar de Santo Christo, 1o. districto deste termo, que merece ser publicado em seu conceituado jornal. É o seguinte:

Ás 8 1/2 horas da noite ouviu-se um grande estrondo que parecia vir de debaixo da terra, e incontinenti sentiu-se um forte tremor de terra, que durou como um quarto de hora, concluindo tudo por um forte clarão, que produziu a queda de seis pessoas, em casa do sr. capitão Ignacio José Monteiro, fez cahir os pratos que estavam sobre uma mesa; o gado que estava no curral e não estava deitado, tremia como se fosse atacado de alguma molestia.

Quando as pessoas levantaram-se, sentiram dôres, porque estava com os musculos contrahidos.

Os cães gritavam. Um rego d'agua que ha na habitação do mesmo sr. capitão, lançou fóra toda a agua.

Este tremor foi presentido em uma distancia, de seis leguas.

No outro dia foram examinar os lugares adjacentes, e nada encontraram que fizesse crêr, que tivesse havido o narrado.

Conto o facto tal qual ouvi, e garanto a veracidade do que deixo dito, porque a pessoa que me contou foi testemunha e é de todo o credito."

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 06 de Junho de 1883, pág. 02, col. 01

sábado, 5 de março de 2022

Um grandioso funeral em Pelotas

 



ENTERRO DE UMA RAINHA NO RIO GRANDE DO SUL

Em Pelotas morreu a rainha dos bohemios alli acompanhados.

Este facto não causou abalo ao cambio; mas, em compensação attrahiu para cima de oitocentas pessoas, pouco mais ou menos, avidas, de saber como se chamava a rainha, de que tinha fallecido, qual o medico que a tratou, como iria vestida, que tal seria o enterro, etc.

No meio de um sem numero de lamentações e lagrimas que cruciavam o coração, elevou-se uma capella ardente, em que foi collocado o real corpo, vestido da seguinte fórma:

Uma tunica de seda côr de rosa, primorosamente bordada de filagranna de prata, uns calções do mesmo tecido e côr, golpeado de fôfos de filó branco, botas de marroquim encarnado e turbante, de gaze: tudo muito bem combinado.

Era espectaculo digno de respeito o que apresentava o acampamento; mulheres, homens e crianças com a cabeça descoberta entoavam preces em voz lacrimosa, implorando o descanso eterno de sua rainha e pranteando magoados o passamento de sua chefe, porque ha a notar uma circumstancia a fallecida, era a progenitora da tribu, de sorte que, esta não chorava só a morte de sua rainha, mas tambem a de uma mãe, avó, sogra, etc., etc.

As crianças, coitadinhas, esgazeavam os olhos, espantados, ante aquelle espectaculo nova para ellas.

O marido e filhos da finada conservavam-se de joelhos com os olhos fitos no céo horas inteiras, transparecendo-lhes nas faces os signaes da mais acerba dôr.

No domingo, de manhã, pelas 8 horas, grande era o concurso de povo, a pé, em carros, a cavallo, commentado o acontecimento das fórmas mais extravagantes possiveis e aguardando impaciente o desfilar do prestito.

De instante a instante fazia-se ouvir o som lugubre dos funeraes que tocava a banda de musica União, que, já na vespera, tinha concorrido para a solemnidade do acto.

Ás 10 horas chegaram dous sacerdotes, revestidos de seus habitos e dispensaram ao corpo da finada os ultimos sacramentos.

Por esta occasião, imponente era o silencio da multidão, cortado, unicamente, pelas chalaças de algum idiota que se julgava nas corridas de touros, ou de alguma alma depravada e impia que, fazendo apparato de seus máos sentimentos, atirava á face da morte, alguma estridula gargalhada de escarneo.

Depois da encommendação sahiu o caixão, cujas argolas seguravam os principaes da tribu, seguindo-se grande acompanhamento de carros e povo a pé.

Ao chegar á ponte de Santa Barbara depositaram o caixão no carro funebre de 1a. classe, sendo estes seguido da referida banda de musica e curiosos.

O cadaver foi dado á sepultura em terreno comprado pelos beduinos, que tiveram o trabalho de mural-o e preparal-o mui decentemente.

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 25 de Março de 1883, pág. 02, col. 01-02

quinta-feira, 3 de março de 2022

Escravizados no Rio Grande do Sul em 1881

 



O Diario de Pelotas dá a seguinte estatistica do estado servil na provincia do Rio Grande do Sul:

Até 30 de Junho do anno passado existiam na provincia 70,430 escravos, sendo 37,369 homens e 33,061 mulheres, distribuidos por 39 municipios.

O municipio que até aquella data contava menor numero de escravos, era o de Santa Cruz, que possuia 65. O que contava maior numero era o de Porto Alegre que tinha 8,001.

Em 30 de Setembro de 1873, quando se fechou a matricula, existiam 91,208, donde se infere que devido ás manumissões e á morte, diminuiu a população escrava na provincia 20,778 individuos no curto periodo de oito annos, o que corresponde a uma quarta parte, approximadamente.

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 27 de Abril de 1882, pág. 02, col. 03

quarta-feira, 2 de março de 2022

Ataque à Vila de São Luiz

 



No dia 27 do mez passado, foi assaltada a villa de S. Luiz, municipio de S. Borja, na provincia do Rio Grande do Sul por um grupo de 50 homens, que depois de sustentar um tiroteio com a policia assassinarão barbaramente ao alferes honorario Luiz Cavalheiro do Amaral, que se achava preso e que ia responder á jury pelo crime imputado da morte de um fazendeiro do lugar, de nome Souto.

Fonte: CORREIO PAULISTANO (São Paulo/SP), 15 de Fevereiro de 1882, pág. 01, col. 03

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