quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Os fanáticos de João Conselheiro - um episódio da Guerra do Pinheirinho

 



O irmão do Conselheiro

Sobre os successos occorridos ultimamente nos municipios de Lageado e Estrella, no Rio Grande do Sul, temos mais as seguintes notas colhidas na ultima mala chegada daquelle Estado.

O Alto Taquary adianta o seguinte:

Entre as forças estadoaes e os fanaticos de João Conselheiro travou-se medonho conflicto, a tiro e a ferro, sahindo da barraca mais de 30 bandidos, armados de facão de larga lamina, espadas, outras armas e páos. De uma casa proxima surgiram tambem numerosos bandidos.

O subdelegado Napoleão, depois de descarregar o revólver, teve de fugir diante do numero, sahindo illeso. Cahiu Guerino Lucca com tres ferimentos por arma branca, arrastando-se em fuga, sem poder ir longe. Elle viu estar matando o irmão; viu a degolla e encommendava-se a Deus, esperando o mesmo destino.

Entretanto, luctava como um verdadeiro leão. O caixeiro viajante Eduardo Sattler, foi o ultimo a cahir na arena do combate. Levava elle uma Winchester, um revolver e um facão.

Empregou com exito o primeiro tiro, matando um dos bandidos. O segundo tiro falhou. A arma havia sido engasgada. Nessa occasião recebeu elle extenso ferimento na cabeça. Atirou a arma fóra, espumando de raiva, desembainhou o facão, que segurou com a mão direita e com a esquerda o revólver. Feriu muitos, mas cahiu vencido pelo numero. Quando este heróe cahiu, Pedro Montini, ferreiro no Encantado, também já ferido gravemente, e João Ferri, negociante, com extenso talho da cabeça ao rosto, trataram de fugir, bem como outros já sem munição. Guerino arrastou-se em direcção ao matto. Um dos bandidos correu sobre elle para degollal-o. Pedro Montini acudiu a tempo, matando com certeiro tiro na cabeça o bandido, que cahiu ao lado da victima. Outro bandido quiz ainda degollal-o, mas o Monge gritou: - deixa este para depois.

Guerino tratou de reunir todas as forças que tinha e conseguiu ir ao matto, onde cahiu desfallecido. Estava abrigado pela selva. João Ferri, Pedro Montini e outros passaram então o rio para a margem direita, onde estavam doze homens de reserva, assistindo ao tiroteio, ouvindo os gritos da lucta, sem poderem auxiliar os companheiros por falta de canôa. Independentemente havia ficado a reserva sem meios de realisar a passagem do rio. Chegados ao Encantado os feridos e derrotados, enorme panico produziram na pacifica e laboriosa população.

Sattler e Lucca ficaram roubados em relogios, correntes e em todo dinheiro. Quando matavam estes dois, gritavam os bandidos: - venham mais! venham mais! que hão de vêr!

Os bandidos só empregam arma branca e com estas se batem como féras. O Monge sempre lhes diz:

- Aquelle que morrer, dentro de oito dias ressuscitará...

Os conselheiristas são ignorantes e não conhecem tactica militar alguma.

- Na cruz da cova em que se acha enterrado Sattler, ha o seguinte escripto: Eduardo Sattler, morreu por defender os amigos, 3 de maio de 1902.

Poucos dias depois destes factos, 60 homens da brigada militar atravessaram o passo do Encantado em direcção aos Pinheirinhos, no municipio de Estrella.

Mais de vinte homens seguiam pelo lado do Encantado, tomando posição em frente aos Pinheirinhos, na margem direita do rio Taquary. Ahi chegados deram seis descargas contra as mattas dos Pinheirinhos, onde se achavam já outros 60 homens que haviam seguido primeiramente, isto é, 1/4 de legua distante do logar onde se achavam Enéas, padre Monge e sua gente. Via-se sahir fumaça das mattas. Eram os mongistas que faziam fogo para aquentar agua e apromptar comida.

Os vinte soldados da brigada fizeram mais algumas descargas. Repentinamente um homem, um mongista, rapaz forte, honesto valente e audacioso, surge do matto. Vinha reconhecer o inimigo. Queria ver quantos homens eram os da brigada, O tenente Teixeira, commandante da força, appareceu nessa occasião com 30 homens dos 60 que haviam partido para Pinheirinhos. O audacioso jagunço deu um signal, assolando bem alto e os mongistas fugiram, levando comsigo barracas e algumas panellas, deixando outras cousas. O tenente Teixeira, minutos depois chegava ao logar onde se havia dado o encontro de Sattler e os irmãos Lucca, contra a gente de Enéas. Incendiaram logo a casa deste ultimo. Foram encontrados nesta occasião tres mongistas mortos. As forças da brigada e dos patriotas são em numero de 250 homens e guarnecem: Campinho, Passo Jacaré, Barra do Guaporé, uma colonia de propriedade de Enéas, em Pinheirinhos e muitos outros logares transitaveis. Os mongistas são sempre acompanhados por mulheres e crianças.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 30 de Maio de 1902, pág. 02, col. 04-05

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Coronel Justo Dias de Siqueira

 


Na solicitação de um amigo, que mora justamente na Rua Coronel Justo Dias de Siqueira, em Capão do Leão, o qual não tínhamos nenhuma informação sobre este personagem histórico, resolvi buscar algum conhecimento sobre o mesmo, afim de dirimir essa dúvida. Segue o que encontramos:

Justo Dias de Siqueira era residente no Passo das Pedras, membro da Guarda Nacional da  Freguesia da Capela da Buena e pela ocasião da Proclamação da República em 1889 encontrava-se como funcionário da Estação Ferroviária do Passo das Pedras. Ainda era capitão. Neste mesmo ano, foi presidente do comissão executiva republicana da Freguesia da Buena.

Logo em seguida foi promovido a major e recebeu o comando do 25o. Corpo Provisório de Cavalaria da Buena, tendo atuado na região como chefe das forças legalistas (republicanas castilhistas).

Foi o 1o. sub-intendente do distrito de Capão do Leão, criado pelo intendente de Pelotas, Henrique Chaves, em 1893. Nesta ocasião, foi alçado ao posto de tenente-coronel.

Com o final da Revolução Federalista, foi promovido a coronel honorário com comenda de distinção, tendo se ocupado mais tarde com a supervisão do alistamento militar nas regiões do Capão do Leão, Capela da Buena e Santo Amor. Possuía um sítio em Capão do Leão, onde se aposentou.

Não dispomos dados de seu passamento.

A malta de bandidos de Lages

 



No Passo das Caneiras

Uma malta de bandidos que percorre as immediações da cidade de Lages, no Rio Grande do Sul, assassinou em dias do mez passado o Sr. Ernesto Canozzi, empregado viajante da firma commercial Santos & Almeida, de Porto Alegre. O Sr. Ernesto que ha seguramente cinco mezes se achava ausente d'aquella capital fôra a Lages em objecto de serviço da casa. Depois de fechar certos negocios e receber de seus freguezes determinadas quantias, teve aviso de que a policia perseguia um numeroso grupo de malfeitores que enfestava o municipio de Lages. Receoso de um ataque evitou a viagem, resolvendo somente a fazel-a em abril, tendo passado o seguinte telegramma aos seus patrões: Sigo direcção Caxias. Acompanhado de um leão sahiu de Lages e ao chegar no Passo das Caneiras foi aggredido, assassinado, saqueado e atirado o seu corpo e o do seu peão, cujo nome é ignorado, a um banhado. Dias depois foram os corpos encontrados pelo Sr. Carlos Hildebrando que caritativo ordenou enterramento. A policia procura capturar os criminosos.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 21 de Maio de 1902, pág. 02, col. 03

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

O Selvagem do Camboí



 Internando-se em mattas virgens, desappareceu ha tres annos, mais ou menos, de sua residencia, no municipio de S. João do Montenegro, no Rio Grande do Sul, um rapaz, indiatico, de 14 annos de idade.

No dia 15 de fevereiro, passando um individuo pelo logar denominado Cambohy, no município de S. Sepé o encontrou quasi em completo estado de nudez, dentro das mattas.

Tentou prendel-o, dando-lhe um golpe de espada na cabeça, proximo á orelha esquerda.

O aggredido, para defender-se, avançou para o seu aggressor, conseguindo desarmal-o.

De posse da espada feriu-o nas costellas, fugindo em seguida.

A policia, ao ter conhecimento do facto, ordenou rigorosa busca no matto, nada, porém, encontrando a não ser grande quantidade de pellegos de ovelhas e varios outros couros.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 21 de Março de 1902, pág. 02, col. 06

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Barão de Pinto Lima

 



Hontem pela madrugada entregou a alma a Deus o conselheiro Francisco Xavier de Pinto Lima, barão de Pinto Lima, membro notavel da politica liberal no tempo do imperio e que por vezes mereceu a honra de occupar elevados cargos de eleição popular.

Nunca se impoz o finado por principios de intolerancia politica como os que levam o espírito de partidarismo até a exclusão irrevogavel do adversario.

Conciliador por natureza, conseguiu elle atravessar sempre as crises, estimado e respeitado por todos, porque acima da politica viam os admiradores do barão de Pinto Lima o amigo dedicado e o cavalheiro, por tantos titulos recommendavel.

Os ultimos annos de sua vida, passou-os elle fóra das agitações partidarias.

O barão de Pinto Lima nasceu a 20 de fevereiro de 1832.

Aos 22 anos formou-se em direito pela Faculdade de Olinda.

Varias vezes foi eleito deputado provincial, chegando a occupar o cargo de presidente da assembléa.

Era presidente da camara municipal de Maragogipe quando foi eleito pela primeira vez deputado provincial.

Em 1856 foi eleito deputado geral e de 1858 a 1864 occupou o cargo de juiz de orphãos na Bahia.

Por essa época foi nomeado tambem ministro da marinha.

Em 1866 foi nomeado juiz de direito na comarca de Itapemirim, no Espírito Santo.

Em 1868 foi eleito deputado geral pela segunda vez.

Em 1870 foi nomeado presidente do Estado do Rio Grande do Sul; em 1872, de S. Paulo, e do Rio de Janeiro em 1871.

Foi director do banco do Brasil durante muitos annos; em 1888, a princeza regente fel-o barão, sendo que por essa epocha elle representava o Estado de Santa Catharina na Camara.

Era condecorado com a ordem da Rosa, Villa Viçosa e Leão Neerlandez.

Seu enterramento sahirá hoje ás 10 horas da rua do Cattete n. 120 para o cemiterio de S. João Baptista.

Á sua Exma, familia apresentamos as mais sinceras condolencias.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 10 de Agosto de 1901, pág. 02, col. 04

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A Fera de Rivera

 



Com o titulo A Féra e o sub-titulo Mais Crimes, encontramos o seguinte no Echo do Sul, de 12 do corrente:

Em seu numero de 1o. do corrente, o nosso collega O Canabarro, de Rivera, noticiou, nos seguintes termos, mais um crime commettido pela gente do celebrisado João Francisco:

"Não ha ainda quinze dias, noticiámos que Juvencio Torres, com trinta homens que lhe dera João Francisco, ameaçava vir a este departamento buscar federalistas emigrados, para o que tinha uma lista onde figuravam os nomes de trinta e tantos ou quarenta co-religionarios nossos.

Pois bem, já começou a operação: Candido Ferreira, um dos da lista, morador neste departamento e peão de Roque Moura, sahiu de sua casa em procura de um cavallo e approximou-se da linha, onde foi agarrado por um grupo de homens, conduzido para o Brasil e alli barbaramente degollado!

Os bandidos cortaram uma orelha do infeliz moço e puzeram-lhe fogo no corpo.

O crime foi commettido na divisa do campo do Sr. Elizerio Campos, entre Galpões e Capão do Inglez.

O inspector de quarteirão fez auto de corpo de delicto e mandou sepultar o cadaver que os bandidos haviam deixado insepulto."

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 21 de Janeiro de 1900, pág. 02, col. 02

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