quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pelotas em 1891

 



Indubitavelmente Pelotas é hoje a mais elegante cidade da republica brazileira, e uma das mais florescentes devido ao extraordinário augmento do seu commercio, industrias e artes.

Edificada próxima ao rio S. Gonçalo, offerece ao viajante uma bellissima perspectiva, e o seu clima é tão ameno que causa admiração e delicias ao ex- trangeiro aqui domiciliado.

A sua construcção consta actualinente de 4.175 edifícios, para uma população de 25.000 habitantes, o que dá uma media de 6 habitantes para cada edifício.

Tem 42 magnificas e bem alinhadas ruas, nas quaes rodam diariamente 600 vehiculos, sendo que duzentos destes são carros de praça, cuja occupação ordinaria é aconducção de passageiros e passeantes, da cidade ao porto e estação da estrada de ferro e vice-versa, os quaes preferem o macio estofo de velludo escarlate ao insupportavel solavanco do bonde, que, imparcialmente falando, é a peior cousa que existe em Pelotas.

Para fazer-se uma idéa justa do augmento que tem tido esta cidade, basta dizer-se que, no período dê 10 annos, construiram-se 727 casas, ou 72 pqr anno, mais ou menos, o que já é bastante para uma cidade de província.

Os elegantes edifícios da Biblictheca Publica, cujas estantes se acham enriquecidas com 12.000 volumes de excellentes obras ; da Camara Municipal e do Lyceu de Artes e Officios, constituem o monumento do orgulho pelotense.

Alem disso. Pelotas possue aprazíveis arrabaldes, pittorescos arredores e magnificas chacaras, onde o rico e o remediado vão, em pleno estio, gosar as blandícias e doçuras que a natureza distribue áquelles que, já do berço, se vêm insuflados pelas auras da sorte.                                                            .

No periodo de 1880 a 1889, o registro do matadouro assignalou o numero de 118.661 rezes abatidas para consumo da população, o que dá uma media de 998 rezes mensaes.

A instrucção. se não está extraordinariamente adeantada, tem tido, nestes últimos tempos, um desenvolvimento digno de nota, pois, alem de 5 excellentes collegios de estudo secundário, possue Pelotas 15 aulas publicas, de instrucçào primária, assim divididas: 6 do sexo masculino, 6 do sexo feminino e 3mixtas, e aue distribuem ensino a 1.130 crianças.

Pelotas conta adtualmente os seguintes estabelecimentos commerciaes, artísticos e induetrines, que contribuem poderosamente para o seu notável en­grandecimento :

Fabricas: de massas 3, de serrar madeira 1, de beneficiar café d, de chapéos de sol 1. de cerveja 6, de cal 1, de colla 1, de cartonagem 1, de fumo 4, de farinhas 1, de gelo 1. de gaiolas e ratoeiras 1, de louça de barro 3, de mo­veis 17, de malas e bahús 2. de pão (padarias) 16, de tijollos 5, de carros di­versos 6. de sepas 1. de sabão e vellas 7, de sabonetes e perfumarias 1, de objectos de vime 2. de vinagre 2, de vassouras 3. de chapéos 7, e de licores 4. ([1])

Oficinas: de alfaiate 21, de barbeiro 27, de carpinteiro 13, de cigarreiro 12, de colchoeiro 4. de corrieiro 20, de carpinteirò naval 2, de funileiro 14, de fogueteiro 4, de lithographia 2, de mármores 2, de ourives 13, de relojoeiro 11, de sapateiro 44, de tamanqueiro 20, de typographia 7, de tanoeiro 10, de tintureiro 3.

Açougues 60, leiloeiros 3. armarinhos 6. casas de armas 3, armadores- eirgueiros 3, botequins (cafés e restaurantes) 34, bilhares 20, agencias de bilhetes deloteria 12, barracas de couro 10, deposito de calçado extrangeiro 1, casas de cominissões e consignações 20, cambistas 2, confeitarias 4. depositos de couros 4, cortumes 20, lojas de fazendas 43, ferradores 7, casas importadoras de fazendas 15, lojas de ferragens 9, depositos de fructas 2, hotéis 8, casas de joias 4, de­positos de louça de barro 4, livrarias 2, lojas de louça e objectos de bazar 5, casas de modasõ, deposito de moveis 4, armazéns de molhados (por atacado) 12 depositos de madeiras 4, pharmacias e drogarias 8, photographias 2, curraesde vaccas leiteiras 11, vidraceiros 2, tavernas242; e mais 17 estabelecimentos (xar- queadas) destinados especialmente á preparação e conservação de carnes, que rivalisam com os do Rio da Prata e que são a mais poderosa fonte de receita da cidade de Pelotas.

A cidade é toda illuminada a gaz corrente, e uma bem organisada companhia hydraulica tomou a si o encargo do fornecimento de agua á popu­lação, por preço resumido.

Os habitantes de Pelotas vivem em constante communicação com os do Rio Grande, por meio do telephone, que liga as duas cidades, numa distancia de 53,3 Itilometros mais ou menos.

Se não nos extendemos mais em detalhes, é porque o espaço que nos está reservado neste livro não nol-o permitte. Entretanto, ahi fica rapidamente esboçada a cidade de Pelotas, e esse esboço não tem senão um fim util: tornar bem conhecida, onde quer que chegue o Almanak, a bella e futurosa cidade que o vulgo denominou — Princeza do Sul.

Júlio Soeiro (Pelotas)



[1] Quasi todas estas fabricas são movidas a vapor.


Fonte: ALMANAK DO RIO GRANDE DO SUL (Porto Alegre/RS), edição do ano de 1892, pág. 89-90.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Imigração Judaica no Rio Grande do Sul



 No século XVI, chegaram ao Brasil, vindos de Portugal, os primeiros judeus, que, na maioria, tinham vivido antes na Espanha. A 31 de Março de 1492, em Granada, os reis Fernando e Isabel assinaram o decreto que ordenava a saída da Espanha de todos os judeus que no prazo de 4 meses não se convertessem ao catolicismo. Dos milhares de judeus que viviam na Espanha, bom número foi para Marrocos e para a Turquia. Mas de a metade, porém, atravessou a fronteira e entrou em Portugal, a corrida por Dom João II mas, em dezembro de 1496, o novo Rei de Portugal, Dom Manuel, decretou a expulsão de todos os judeus de Portugal que não se convertessem ao catolicismo dentro de 10 meses. Tinham que sair pelo Porto de Lisboa. o cerca de 5000 mais ricos embarcaram para Marrocos e países da África a maior parte, porém, se converteu ao catolicismo, passando a ser os cristãos novos. E os que, as ocultas, se mantiveram ligados a crença judaica, passaram a se chamar marranos no final de 1497 Não havia mais nenhum judeu declarado em Portugal, todos se tinham convertido em cristãos-novos. 

O Brasil, colônia portuguesa, sujeito a inquisição, foi o país do mundo que recebeu o maior número de marranos, mas os que praticassem qualquer ação atestando se judeus eram enviados a Lisboa para julgamento, enquanto os judeus que iam para Turquia, Marrocos, Holanda e Inglaterra tinham liberdade de viverem como judeus. 


No descobrimento do Brasil, já com três anos de Governo, Dom Manuel converterá ao catolicismo todos os judeus residentes em Portugal assim, os 250 mil judeus vindos da Espanha e o cerca de 150.000 que desde remotos tempos viviam em Portugal foram integrados à comunidade cristã Portugal tinha, então, 1200000 habitantes, dos quais 400.000 eram de origem judaica e a maioria praticava, azul cultas, sua religião de cada três portugueses, um era Cristão novo. eram cristãos novos, por exemplo, Gaspar da Gama, da expedição de Cabral; Fernando de Noronha que em 1503, recebia de Dom Manuel autorização para explorar a costa brasileira, e descobriu a ilha batizada com seu nome. João Ramalho também era Cristão novo.  o governador geral, Duarte Coelho, trouxe da Ilha da Madeira idade São Tomé numerosos capatazes e Operários de Deus, que, além de eficientes, libertavam da Furia religiosa da Península Ibérica Gilberto Freyre refere uma especializada ação de mecânico judeus nos engenhos de Açúcar.


 Em 1544 no quarto auto-de-fé realizado pela inquisição em Lisboa, temos o primeiro degredado para o Brasil por crime de judaísmo, o que depois se tornaria  comum. Olinda, Recife e Salvador foram especiais para deimos de judeus degredados o degredo para o Brasil era caminho para liberdade de ser judeu o próprio Dom sardinha dizia " enterra tão vasta e despovoada convém fechar os olhos ", maneira de pensar também adotada pelos padres jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega "vieram traço diz Pedro Calmon, em sua história do Brasil traço na qualidade de cristãos-novos, mas tão se implantou entre nós. transferiu para o reino os que lá deviam ser julgados. Ao contrário, sem nunca terem importado A Perseguição, o Brasil exportou a coexistência, com a missão política que levou ao Portugal, em 1641, o Padre António Vieira, comissionado pelos Mercadores e homens bons para pedir a Dom João quarto justiça e segurança para os cristãos novos... "


 A propósito dos marranos, conclui Calmon: "onde estão as dezenas de milhares de cristãos novos que desde a expedição de Martim Afonso E desde o povoamento maciço da terra do Ouro deram com os ossos nestas plagas e com eles a adubação ponto e, os que vieram com Tomé de Souza; os que vieram por todo século 17; os que vieram durante o século 18, Cujo sobrenomes lusos, peixeira, do primeiro poeta nosso, Silva, de Antonio Jose, o teatro logo, se confundem com os dos cristãos velhos deste país? Hoje é impossível identificar eles a descendência. "


 Em 1752 se instalaram nas margens do Guaíba, junto a capital do Rio Grande do Sul, 60 casais açorianos, entre os quais havia bom número de judeus.  pela lei assinada em 25 de maio de 1773, pelo Marquês de Pombal, foram revogadas as leis discriminatórias aos cristãos novos não mais sujeitos a Perseguição, também, em consequência dos casamentos mistos, os marranos do Brasil foram se filiando ao catolicismo religião oficial. antes de meados do século 18, milhares de judeus sefaradim, judeus orientais emigrados para Espanha, depois para Portugal, para Marrocos e, enfim, entrados na Amazônia , estabelecendo-se principalmente em Belém e Manaus e localidades menores, atuando maciçamente no comércio, utilização de vias fluviais, transformando barcos em lojas flutuantes.

 em Belém e Manaus estão as comunidades judaicas mais antigas do Brasil, Como se comprova pela sepulturas judeus em Belém de 1830 e 1840 a partir de 1870, chegam ao Brasil, especialmente em São Paulo, Porto Alegre e Rio Grande judeus alsacianos, franceses e ingleses.


Mas o início da imigração Judaica organizada no Rio Grande do Sul inicia em 1904 com a vinda do primeiro grupo para phillipson, através da Jewish colonization Association (ICA), onde 1905 funcionava a primeira sinagoga do estado, e Em 1906, a primeira escola judaica no Rio Grande do Sul ponto. e continuaram chegando Imigrantes para phillipson, donde foram partindo para Santa Maria, Cruz Alta e Porto Alegre na capital logo foram se organizando, tanto assim que, em 1909, já formaram o primeiro miniam, mínimo de dez homens preparados, em condições de iniciar as orações, nos dias do rosh hashaná ( ano novo) e do  yom kippur ( dia do Perdão) ponto fizeram parte das orações, que tiveram lugar Na casa de Salomão Levy, além dele, as seguintes pessoas: Leon Back, Jacob Mostowsky, Maurício Rosenbaum, Natan Cohen, Harry Fineberg,  Martin Horris,  Bernardo lewgoy,Isaak Holman, Miguel Galanternick, Jacob Pagorelsky, Volf Melzer, Abrahan Silverstone,  Francisco Rosemberg e Marcos Saffer, Todos da comunidade israelita de Porto Alegre em 1910 era fundada a união Israelita Porto Alegrense, entidade Judaica mais antiga do município.


Em 1911 chega o primeiro grupo de imigrantes para quatro irmãos ( fazenda com 93850 hectares, que fazia parte de Passo Fundo e hoje, de Erechim e Getúlio Vargas, transformada em colônias), e em 1913, o segundo grupo bom dois outros grupos vieram em 1926 e 1927, fugindo da opressão dos países Onde viviam.


A Comunidade Judaica Gaúcha está preparando Com intensa programação o primeiro Centenário da imigração Judaica no Rio Grande do Sul, a 18 de outubro, lembrando a mesma data de 1904, quando 38 famílias, após longa viagem, desembarcavam de um vagaroso trem maria fumaça na pequenina estação da colônia phillipson, próxima de Santa Maria Diferentemente dos demais Imigrantes não vinham propriamente em busca de fazer América do desenvolvimento econômico, mas em busca de segurança, fugindo da discriminação, do preconceito, na miséria, das humilhações e do antissemitismo. Como todos os imigrantes, enfrentaram dificuldades iniciais com o desconhecimento da língua, a falta de experiência no cultivo da terra, atividade que eles era proibida em suas pátrias exatamente por serem judeus. mas em phillipson, onde Imigrantes de diferentes etnias tentavam viver o mesmo sonho a ser alcançado pela solidariedade e pelo trabalho, logo construíram belas amizades com liberdade de se organizarem e cultivar em também sua identidade familiar, histórica, social e religiosa.


De países diferentes, os judeus foram se reencontrando em famílias e comunidades, respeitando e sendo respeitados pelas demais etnias, que, juntando diferentes histórias e experiências, construíram esta maravilhosa realidade brasileira O que é a fisionomia mais completa da humanidade intermos de raças, etnias e culturas para uma sempre mais rica e sólida unidade nacional.


FONTE: CORREIO RIOGRANDENSE (Caxias do Sul/RS), 13 de Outubro de 2004, pág. 04


segunda-feira, 3 de maio de 2021

domingo, 2 de maio de 2021

O Acre em 1900

 



"Como se vive no Acre

Sob esta epigraphe, lemos n'A Folha do Norte, do Pará:

'A vida dos habitantes do Acre é das peiores que se pode imaginar.

Rio que fica por boa metade do anno inteiramente em secco e, portanto, com todas as communicações cortadas com os centros fornecedores, o Acre trata de abastecer-se para a sua alimentação e de fazer os seus fornecimentos de anno em anno.

As despesas de transporte são enormes, porque enormes são os fretes, á vista dos rios, da navegação e da relativa onerosidade do seguro. Accresce a impossibilidade de sempre os aviamentos serem feitos de accordo com as necessidades de todo o anno.

Não admirará a ninguem pois a seguinte tabella dos preços pagos pelos principaes generos de consumo no Acre:

Carne secca, 12$ o kilo; carne verde, 25$; carne americana em latas de 2 libras, 11$; gallinhas, 50$; ovos, 12$ a duzia; queijos do Ceará, 15$ o kilo; vinho commum, 20$; vinho do Porto, 25$ a garrafa; cerveja e agua Apolinaria, 4$ a meia garrafa; cachaça, 10$ a garrafa; farinha sacca de mandioca, 150$ a paneiro; arroz, 300$ a sacca; toicinho, 10$ o kilo; feijão, 6$ o kilo; sardinhas, 5$ a lata; champagne, 50$ a meia garrafa; um charuto ordinario, quando ha, 1$ cada um.

Os rifles 500$ e balas 1$ cada uma.

As roupas feitas e em geral todos os demais generos são vendidos com mais 200% sobre os preços de Belém e Manáos.

Não ha legumes. Ha algumas plantações de feijões, mas absolutamente insufficientes para o consumo ordinario.

Em poucas barracas ha umas pequenas creações de porcos, de perús, etc, mas servem apenas para a alimentação das respectivas familias.

A vida resume-se no trabalho, durante as horas menos caniculares do dia. Á noite ha um ou outro pagode de seringueiros, afóra o que é o descanso, algumas vezes o jogo mas raramente, é quando o ha, muito forte.

Bebe se muito, sobretudo cerveja.

Come se em geral peixe a caças.

Não circula o dinheiro. Todos os trôcos são feitos em gêneros ou com a base de credito.

A agua do rio Acre é ruim mas gosam os habitantes a vantagem de haver por toda a parte Igarapés com nascentes de agua crystallina e pura.

O trabalho é muito bem remunerado.

Os operarios assalariados propriamente ditos, isto é, os que moram nas casas dos patrões e comem ali ganham de tres a seis contos de réis por anno.

Os que se dedicam: á industria extractiva pódem tirar de 6 a 25 kilos de borracha.

O clima é egual ao de Manáos, com a differença de que as noites, devido ás mattas visinhas, são muito mais frescas. Não ha piuna nem carapanans.

Viajam medicos, pharmaceuticos e advogados constantemente no Acre.

Ninguem quer ser empregado publico.

Um barracão não custa menos de 10 a 12 contos de réis, e é construído em geral por meio de materiaes madeira, folha de zinco, etc., vindos do Pará.

O povo do Acre é um dos mais hospitaleiros do Amazonas."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 25 de Abril de 1900, pág. 01, col. 03

sábado, 1 de maio de 2021

Mister Pelé


 Vilson Couto, o “Mister Pelé”. 

Uma figura alegre, ímpar! Caricatura dele próprio! Assim foi, em intensa vida, de nosso popularmente conhecido “Mister Pelé”! 

Negro em movimento como poucos, vivia pulsante desde os áureos anos 80, quando já fazia imenso sucesso nas memoráveis “Festas Black”, promovidas pela saudosa “Transa Negra” e pelo “Studio 466” em Pelotas e região. 

Dançarino exímio, espelhava-se em ninguém menos que James Brown, para suas coreografias! Cantor de Reggae e RAP, lembrava pelo estilo e semelhança física, o cantor Jimmy Cliff, em apresentações irrepreensíveis! 

Mister, pela alegria e desprendimento, rompeu inúmeras barreiras e propagou a ‘Cultura Black’ especialmente periférica, mais do que qualquer outro em Pelotas e região. 

Um lutador! Homem trabalhador, honrado, comerciante inigualável! 

Uma referência. 

Homem negro que escolheu fazer da alegria seu talento e sua arma no embate cotidiano contra as agruras que tristemente ainda assolam a condição do ‘ser negro’. 

Inesquecível no coração de todos que perpassaram sua militância negra. 

Fonte: Ícones Inesquecíveis. Pelotas/RS: Conselho da Comunidade Negra/Prefeitura de Pelotas, 2019. (folder de divulgação cultural)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...