sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Ciganos em Porto Alegre 1920


"Vida errante

São raros, já, hoje, entre nós, esses bandos errantes de ciganos que faziam pousada na Varzea e que espalhavam o panico entre a população. De vez em vez ainda apparecem alguns, mas desgarrados, sem que se saiba ao certo onde vivem, onde comem e onde dormem. 

Apparecem por ahi, na febre do movimento urbano, como um grito a estrugir entre a mesmice rueira de todos os dias, com as suas vestes incoherentes e sua resignada immudicie.

Os homens carregam tachos ás costas. As mulheres tiram a buena dicha.

Aquelles teem uma expressão selvagem na physionomia queimada, estas teem sempre um encanto qualquer nas pupillas claras por onde passaram todas as paizagens da terra.

Envolve-os o mysterio e a lenda. Veem não se sabe de onde e vivem da pilhagem... Ouro, crianças, tudo roubam...

Por isso, á sua aproximação, fecham-se, medrosas, as portas, e nos interiores, as familias tremem de terror, imaginando as crueldades a que seria submettido o caçula da familia se as mãos rapaces e perversas desses homens tostados o arrebatassem...

E os ciganos - sem se preoccupar com a ideia atroz que delles fazem - seguem a sua vida errante, para novas paizagens, sob nóvos céos, ao impulso da sua alma bohemia e insatisfeita...

São raros, já, hoje, esses bandos excessivamente pittorescos que foram o terror das nossas familias e o encanto dos que por curiosidade iam vêl-os de perto...

Com elles e os carreteiros, vão-se dois clichés de Porto Alegre d'antanho...

E a Varzea, logar escolhido para estação de todos esses bandos nômades, será em breve, rasgada pela furia civilisadora...

Resta-nos, por emquanto, alguns ultimos carreteiros e os cavallinhos.

Mas, quer-nos parecer, não por muito tempo..."

Fonte: MÁSCARA (RS), 26 de Junho de 1920, ed. 04, pág. 09-10.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O pai dos "dez mandamentos"


"Ora... essa é boa.- Lê-se no Jornal do Commercio de Pelotas do Rio Grande do Sul:

-Quantos filhos tens? perguntaram a um homem que tinha nada menos do que tres varões e sete mulheres.

-Tenho os dez mandamentos, respondeu rindo-se.

-Os dez mandamentos?

-Sim, os tres primeiros que são homens, pertencem a honra de Deus e os outros sete que são mulheres, pertencem ao proveito do proximo.

E digam que o homem não sabia a doutrina."

Fonte: CEARENSE (CE), 14 de Março de 1882, pág. 02, col. 01

Comemoração do Centenário do Uruguay em Pelotas


"Em honra do Centenário do Uruguay

PELOTAS, 17 (Via aérea) - Reina entusiasmo entre a mocidade pela grande demonstração de sympathia que será levada a effeito, amanhã, ás 14 horas, à nacionalidade uruguaya, em honra ao primeiro centenário de sua independência.

Constará de uma passeata cívica, partindo da frente da Intendência Municipal, em direcção ao Consulado Uruguayo, à rua General Telles e daí seguirá para cumprimentar as redacções dos jornaes locaes, fazendo uso da palavra, ao ser dissolvida a manifestação, em frente à Intendência, o dr. João Brum de Azeredo.

- A congregação da Faculdade de Direito realizará sessão solene no edifício da Faculdade, às 20 horas de amanhã, de homenagem à Pátria Uruguaya, para o que foram convidadas as autoridades em geral, os intellectuaes de Pelotas e a mocidade das escolas.

Em nome dos professores falará o dr. Fernando Osório."

Fonte: O ESTADO DO RIO GRANDE (RS), 18 de Julho de 1930, pág. 20, col. 01

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Antônio Filipe Camarão


"Guerreiro indígena brasileiro, nascido em data incerta, morto em 1648, na Primeira Batalha de Guararapes. Tinha o nome de Poti: ao ser batizado pelo Padre Diogo Nunes, adotou o nome cristão de Antônio, acrescentando-lhe o de Filipe, em homenagem ao rei de Portugal e Espanha (Filipe III) e Camarão, tradução do seu nome índio. Tendo-se distinguido em várias oportunidades nas lutas contra os holandeses (sobretudo na batalha em que morreu), foi agraciado com o título de Dom e recebeu diversas honrarias."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Sonho de Natal 2018


Divulgação.

Manifestação nazista em Porto Alegre em 1934


"FESTEJANDO O ANIVERSARIO DE HITLER, NESTA CAPITAL

O Grupo Nacional-Socialista Alemão realizou magnifica reunião em sua séde

A festa que os nacionais-socialistas desta capital efetuaram sabado passado, em regosijo pela passagem de mais um aniversario natalício de Hitler.

A séde do Grupo Nacional-Socialista Alemão desta capital, afluiu grande assistencia. O dr. Neubert produziu notavel oração, pondo em relevo a figura do chefe nazista.

Falaram ainda outros oradores e houve declamações de poemas que agradaram imenso á seléta assistencia.

Procedeu-se, a seguir, á entrega dos distintivos aos socios que ingressaram no Grupo Nacional-Socialista Alemão desta capital, tendo essa cerimonia se efetuado com bastante importancia.

Por ultimo, se focaram vistas, demonstrativas de varios aspectos da vida de Hitler.

A festa findou com um animado baile que se prolongou até as primeiras horas da manhã, num ambiente de fina cordialidade e distinção."

Fonte:  A FEDERAÇÃO (RS), 24 de Abril de 1934, pág. 05, col. 02

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Imigração Açoriana em Santa Catarina e Rio Grande do Sul


"O século XVIII marcou o arquipélago dos Açores com frequentes crises demográficas, geradas principalmente pela falta de terras cultiváveis. Sendo um conjunto de ilhas vulcânicas o relevo das mesmas mostrava-se extremamente desfavorável à solução deste problema, pois os diversos picos rochosos existentes reduziam drasticamente a área útil para a agricultura. Aliada à geografia acidentada as permanentes disputas pelo domínio dos terrenos alodiais (envolvendo nobres, Igreja e populares) e as práticas de aforamento esboçavam o quadro da propriedade rural nas ilhas durante quase todo o século.

Na era de setecentos, as naturais insuficiências técnicas lesam o alargamento da superfície arável açoriana. Porém, no âmbito fundiário, individualizamos outras questões, nomeadamente de foro jurídico, que geram entraves de maior consideração. (...) Do mesmo modo, o hábito do absenteísmo, que cresce no decurso dos séculos, dificulta o intensivo aproveitamento das terras. Por fim, a proliferação de vínculos também lesa a produtividade, porque obstante ao reinvestimento dos lucros e à circulação da riqueza.

Na metade do século, o crescimento da população transformou a crônica falta de terras em crises de carestia tornando a situação insuportável para muitos. Em 1746, uma representação açoriana solicitava ao rei permissão para emigrar para as possessões de além mar, visando assim aliviar a superpopulação das ilhas. A Coroa Portuguesa permitiu o deslocamento dos súditos ilhéus para o sul da América, mais exatamente para a Ilha do Desterro (atual Florianópolis) e para a região das Missões jesuíticas, recentemente obtida pelo Tratado de Madri (1750). Esta decisão, entretanto, ocultava o real objetivo de Lisboa: a povoação e defesa das regiões meridionais do Brasil, isto é, a garantia de posse do território que Portugal disputava com Espanha. Assim, embora os habitantes dos Açores tenham requerido a transferência, fora a Coroa portuguesa que determinara sua localização e finalidade.

O edital que regulamentava a passagem dos casais açorianos para a Ilha de Santa Catarina data do ano de 1747 e estabelece as condições de migração e as concessões do governo português. O documento esclarece a intenção da Coroa em formar povoados, baseados na pequena propriedade e também quais as vantagens oferecidas aos colonos: ajuda de custo, vestimenta para as crianças, instrumentos agrícolas, ferramentas, farinha, isenção para os homens de servir nas tropas pagas, animais e uma propriedade de terra de um quarto de légua em quadra. Infelizmente para os casais, estas promessas jamais viriam a se concretizar por inteiro e muito menos para todos os açorianos emigrados. O transporte dos primeiros imigrantes para Santa Catarina, iniciado em 1748, desde cedo se revelou bastante penoso, denunciando o abandono pela autoridade real. O primeiro arrematante do direito de transporte dos colonos, Feliciano Velho Oldenberg, mostrara arbitrariedade e violência em seus serviços, tendo recrutado casais à força e incluído indivíduos doentes, aleijados e idosos, além de outros que não se enquadravam nas condições do edital de 1747. A instalação dos ilhéus no território catarinense também divergia das promessas do edital. Os governadores da capitania de Santa Catarina, José da Silva Paes, e seu sucessor, Manoel Escudeiro Ferreira de Souza, mostraram-se despreparados para acolher o contingente de recém-chegados, pois não lhes haviam sido destinados os recursos para tanto. Não se encontravam na Ilha do Desterro nem dinheiro, nem utensílios para aquela gente, e a posse da terra não figurava próxima. De fato, as autoridades sequer mostravam-se capazes de tratar os que chegavam adoecidos de viagem.

Uma parte do contingente migrante, contudo, encontraria especial dificuldade na busca pela estabilidade. Ainda que os casais desembarcados em Santa Catarina desejassem somente sua instalação imediata e acesso à terra prometida, uma fração destes teria de continuar sua movimentação. A assinatura do Tratado de Madri (1750) por Portugal e Espanha descortinava os intentos da Coroa lusa. Uma vez trocada a Colônia do Sacramento pela região das Missões jesuíticas a leste do Rio Uruguai, Portugal pretendia garantir a posse do novo território missioneiro com esses casais assegurando o controle do mesmo através do princípio do uti possidetis. Para além da ocupação imediata, os povoados criariam um cordão defensivo contra as investidas espanholas; assim a estratégia portuguesa resguardava as estâncias de gado, principal atividade econômica da região, ao mesmo tempo em que ampliava sua área de controle na região platina.

Portugal empreendia um avanço importante para o controle do extremo sul da América. Entretanto, ainda que bem estruturado, seu projeto acabaria frustrado. Ao efetuar a troca de territórios, Portugal e Espanha não contavam com a falta de controle efetio sobre os mesmos. Desafiando a decisão tomada pelas Coroas ibéricas, os índios reduidos nas Missões decidem não acatar a ordem de retirada, preferindo lutar por suas moradias. Tal insubordinação levará os dois reinos a se aliarem para a destruição dos indígenas insurretos. A eclosão das Guerras Guaraníticas, de 1753 a 1756, impede os açorianos de transportarem-se para o terreno disputado e este fato terá importante repercussão em seu estabelecimento no território e sociedade rio-grandenses.

Os colonos açorianos vinham de Santa Catarina em barcos até a vila de Rio Grande onde, a partir de 1752, começaram a instalar-se. Entretanto, o projeto metropolitano não visava alocá-los nesta povoação obrigando-os a seguir para as Missões. A guerra contra os índios guaranis e a indefinição na execução da demarcação do Tratado de Madri impede a travessia e termina por colocar os açorianos em uma instável posição de espera. A demora fez com que muitos começassem a se estabelecer nos locais onde se encontravam, mesmo que não fossem os pretendidos pela Coroa. Para entender a distribuição geográfica dos açorianos, portanto, é preciso analisar sua frustrada tentativa de alcançar as Missões, pois os mesmos acabaram alojando-se nas povoações ao longo do caminho. Os trajetos seguidos pelos açorianos para alcançar as Missões eram basicamente dois e a partir deles podemos encontrar a localização geográfica dos casais estabelecidos no Rio Grande do Sul.

Quando da vinda para Rio Grande do governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, a fim de estabelecer os limites do Tratado de Madri, muitos dos homens dos casais açorianos foram obrigados a segui-lo na expedição demarcadora, indo por dentro da campanha até as Missões. Como foi comentado, o ataque dos índios missioneiros impediu a entrada nesse território, fazendo com que governador, expedição e ilhéus tivessem de recuar até o forte de Rio Pardo, que acabara de ser construído. Muitos açorianos chegaram a Rio Pardo desta forma e uma quantidade ainda maior permaneceu em Rio Grande, uma vez que a operação de transporte não se efetuou totalmente. outra fração dos casais deveria ser conduzida para as Missões através de uma segunda rota. A partir de Rio Grande seguiam até a freguesia de Viamão, atravessando a Lagoa dos Patos em barcaças. Em Viamão, alojavam-se nas margens do lago Guaíba esperando o transporte fluvial rio Jacuí acima. Subindo o Jacuí, com escala no armazém militar de Santo Amaro, deveriam prosseguir até Rio Pardo. Esta rota explica o porquê de encontrarmos grupos de açorianos espalhados ao longo do lago Guaíba e rio Jacuí e muitos são os exemplos:

vieram por casal de El Rey para a ilha de Santa Catarina aonde assistiu pouco tempo porque logo se embarcara para a vila do Rio Grande aonde assistiu um ano (...) porque logo vieram embarcados para o porto dos casais deste Viamão e daí foram para Santo Amaro aonde está assistindo na companhia do dito seu pai...

A conjuntura de guerra e a precariedade dos transportes fizeram com que grandes intervalos de tempo passassem na espera de um ponto para outro e muitos dos ilhéus preferiam abrir mão da jornada por um estabelecimento imediato. Em Viamão muitos optaram por deixar a margem do Guaíba e dirigir-se para junto da capela no centro da freguesia. Deteremo-nos neste grupo com mais atenção, acompanhando sua busca por inserção em uma sociedade já existente, ainda que em construção."

Fonte: COMISSOLI, Adriano. Do Arquipélago ao Continente: estratégias de sobrevivência e ascensão social na inserção açoriana nos campos de Viamão. In: Aedos, Porto Alegre/RS, v.02, n.03, 2009, pág. 74-78.
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