quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma História dos Doces de Pelotas


"Os Doces Tradicionais de Pelotas começaram a ser produzidos durante o ciclo do charque, devido à concentração de renda propiciada por esta atividade e ao fato de a safra ter curta duração - de novembro a abril - , possibilitando o desenvolvimento de outras atividades e o surgimento de uma cultura local.

Grande parte do charque produzido nas charqueadas era levada para o nordeste para servir de alimento aos escravos da região, e os navios que transportavam o charque retornavam com açúcar, produzido lá, o qual era usado para fazer os doces.

Em seu livro Doces de Pelotas: Tradição e História, de Mário Osório Magalhães (2001) afirma que a sociedade pelotense procurou abrandar sua imagem rústica saladeiril através da adoção de requintados costumes, constantes atividades intelectuais e imponentes construções. Neste contexto é que o doce se insere.

O fim da escravidão foi um dos fatores que contribuiu para a decadência das charqueadas em Pelotas, assim como a produção de charque em outros municípios do Rio Grande do Sul. O surgimento dos frigoríficos, que dispensavam o processo de salga da carne, selou o fim do ciclo do charque, o período de opulência da cidade.

No início do século XX, a tradição doceira de Pelotas, até então restrita aos costumes familiares da elite da cidade, passou a ser divulgada comercialmente em todo o país. No mesmo período, os imigrantes alemães, pomeranos e franceses que viviam em Pelotas passaram a cultivar frutas de clima temperado - principalmente o pêssego - na região colonial. Essas frutas eram comercializadas ao natural e na forma de doces, geleias, conservas e pastas, ampliando e diversificando as formas de produção de doces.

No artigo 'Vinhos e Doces ao som da Marselhesa: um estudo sobre os 120 anos da tradição francesa na colônia Santo Antonio de Pelotas-RS', Leandro Betemps (2001) afirma que as primeiras indústrias de compota surgiram entre os franceses e este foram um dos maiores legados desse grupo étnico para Pelotas e a região.

Muitas receitas portuguesas trazidas pelos colonizadores e pelos navios transportadores de charque ainda são utilizadas pelas doceiras pelotenses. As transformações e criações ocorridas ao longo do tempo agregaram ainda mais qualidade e valor aos nossos doces. O sal e o açúcar são elementos constitutivos do progresso socioeconômico de Pelotas e permeiam a formação da identidade histórica da cidade, que continua sendo estimulada em grande escala, a exemplo da FENADOCE - Feira Nacional do Doce -, um dos principais eventos municipais, que ocorre anualmente."

Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL DE PELOTAS. SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA. Pelotas: uma história cultural. Pelotas/RS: Prefeitura Municipal/Secretaria de Cultura, 2009, p. 119-121.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A origem da tradição dos doces de Pelotas


"A tradição dos doces finos origina-se entre as elites luso-brasileiras, vinculadas historicamente aos latifúndios dedicados à pecuária extensiva e à produção de carne de charque, situados na Planície Costeira do Rio Grande do Sul durante o século XIX e início do século XX. Herdeiras da culinária portuguesa foram as mulheres das famílias mais abastadas da cidade de Pelotas que reinventaram as receitas tipicamente lusitanas, num intercâmbio alimentar que enriqueceu o leque de sabores da cultura ibérica ao mesmo tempo em que se manteve fiel a seus ingredientes básicos: as gemas de ovos, o açúcar e a farinha de trigo. Assim como a doçaria portuguesa, as variações brasileiras nasceram na intimidade das cozinhas, locais próprios ao manuseio dos ingredientes necessários e para a transmissão de um saber que se ensinava de geração em geração. Avós, filhas e netas sequenciavam a linhagem de mestres e aprendizes, ainda que certo mistério ao redor das receitas preferidas pudesse se fazer presente mesmo entre as mulheres da mesma família. Isso porque as encarregadas de assegurar a gostosura das sobremesas deviam ter competências e habilidades específicas, de modo que o domínio das receitas 'pertencentes às gavetas trancadas a sete chaves das senhoras aristocráticas' deveriam ser abertas apenas esporadicamente e por mãos bem conhecidas.

Dentre as possibilidades quase inesgotáveis de combinações, recombinações e elaborações dos três ingredientes característicos da doceria portuguesa, as receitas dos camafeus, quindins, bem-casados, ninhos, pastéis de Santa Clara, amanteigados e fatias de Braga surgiram como iguarias feitas em família, na privacidade das cozinhas das casas mais ricas da cidade de Pelotas. Nesta sociedade, a doceria artesanal tornou-se importante instrumento para a socialização feminina, de modo que a então observada restrição das mulheres à esfera pública fez com que tal atividade se desenvolvesse em um contexto pessoal, sob o lacre da privacidade. A manutenção da doceria na interioridade do lar fez com que as famosas receitas fossem assunto de interesse apenas recreativo de mulheres que deveriam restringir-se aos papéis domésticos. Os doces estavam, então, associados à grandiloquência de uma sociedade que celebrava o convívio em torno da mesa e, especificamente, a uma forma de distinção que ressaltava a importância da educação doméstica feminina através da transmissão do saber fazer dos doces artesanais, através dos livros de receitas, dos ensinamentos práticos e mesmo do consumo das iguarias.

Apesar da forte ênfase na sofisticação e na opulência entre os hábitos de vida da elite pelotense, que perdurou até a metade do século XX e que ate hoje persiste no imaginario dos pelotenses a respeito da identidade local, o modo de vida das famílias ricas entrou em decadência ainda no final do século XIX. Segundo Ferreira et alli (2009), a crise econômica provocada pela queda das exportações da carne de charque trouxe consequências dramáticas para as famílias que compartilhavam de um universo sociocultural no qual as expressões de riqueza se manifestavam nos lugares públicos e eram provadas através do 'gosto'. Foi diante dessas circunstâncias que o saber-fazer dos doces artesanais - outrora símbolos de riqueza e fruição das classes mais favorecidas - aos poucos se converteu em fonte de renda para mulheres 'bem nascidas' que se viram compelidas a trabalhar para complementar o orçamento familiar. A partir das primeiras décadas do século XX, uma primeira geração de mulheres passou a se utilizar, de maneira profissional e com vistas ao provimento da economia doméstica, dos conhecimentos até então aplicados nas cozinhas dos casarões. Desse movimento decorre o início do processo de profissionalização da atividade doceira."

Fonte: CAVEDON, Neusa Rolita & FIGUEIREDO, Marina Dantas de. Os efeitos da patrimonialização sobre as formas de fazer, criar, viver, organizar e consumir o artesanato tradicional. In: XXXVI Encontro da ANPAD, Rio de Janeiro/RJ, 22 a 26 de setembro de 2012, p. 10-11.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Conde de Bobadela


"Nome por que ficou conhecido o administrador português Gomes Freire de Andrade (1685-1763), participante ativo da História do Brasil: governador do Rio de Janeiro em 1733 (com jurisdição sobre todo o Sul e Sudoeste do Brasil), mandou construir o Convento de Santa Teresa; o chafariz do Largo do Paço; os Arcos da Carioca (ainda hoje existentes); o Paço dos Governadores, além de hospitais e fortalezas; ordenou a abertura de ruas e estradas, incentivou as letras e permitiu a instalação da primeira tipografia no Rio de Janeiro (1747). Tinha quase 80 anos de idade quando morreu, desgostoso com a rendição da Colônia do Sacramento (no sul do Brasil) aos espanhóis."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

domingo, 27 de maio de 2018

Sociedade Italiana de Bagé em 1893


"Bagé. Noticias dadas pelo Quinze de Novembro de hontem:

(...)

- É este o resultado da eleição realisada ante-hontem na Sociedade Italiana:

Presidente, Pasquale Buero.

Vice-presidente, Rocco Cirone.

Thesoureiro, Nicola Cirone.

Mordomos: Eurico Fonyat, Giuseppe Manduca, Francesco Chicchi, Francesco Crededio, Giuseppe Grecco, Vincenzo Meranzano, Antonio Botti, Michele Rosso, Luigi Mazzini, Giuseppe Felijola e Luigi Aste."

Fonte: CORREIO MERCANTIL (RS), 13 de janeiro de 1893, p.02, c.03

sábado, 26 de maio de 2018

Imigração portuguesa em Pelotas


"Importante é observação sobre a naturalidade da população estrangeira: 'Os imigrantes portugueses em Pelotas, na sua grande maioria são provenientes do distrito de Aveiro e sua presença é vislumbrada também pela cultura, onde a 'cidade dos doces' possui como característica marcante destes, à base de ovos, influência presumível da doçaria de Aveiro, com seus famosos 'ovos moles'. Tal influência estende-se pelo nome dos estabelecimentos comerciais e nomes de ruas com motivos aveirenses.

Referem-se, a título elucidativo, nomes de ruas, estabelecimentos comerciais e edifícios que na cidade de Pelotas lembram Portugal:

* Panificadora e Lancheria Aveiro
* Agência de Bicicletas Águeda
* Edifício Vila Nova de Gáia
* Edifício Mondego
* Edifício Coimbra
* Bairro com o nome de 'Recanto de Portugal' onde está localizada a sede campestre do Centro Português e onde todas as ruas possuem nomes de concelhos de Portugal.

(...)

'Muitos são os relatos de imigrantes que justificam suas preferências pelo sul do Brasil e por Pelotas, não só devido a grande concentração de aveirenses, como pelos próprios aspectos geográficos dessa cidade traduzidos sobretudo em idêntica história geológica, dominada por um sistema lagunar onde se inscrevem a 'ria de Aveiro' bem como a Lagoa dos Patos e a Lagoa Mirim'.

(...)

'Sobre a situação e traços físicos tem-se que ambas estão localizadas em áreas planas e junto à encosta de zonas mais altas... Localizam-se junto a regiões lagunares... sofrendo, também influências climáticas (clima húmido), pela proximidade da água. Ambas as comunidades estão em uma faixa litoral apresentando formações arenosas e dunas costeiras, com clima subtropical e, portanto, com uma vegetação que se assemelha.'

Do ponto de vista histórico, 'cada comunidade possui aspectos tão próprios que não são comparáveis. Aveiro é milenar e Pelotas centenária... ambas tiveram sempre ideais de liberdade e foram pioneiras no republicanismo'.

(...)

Em Pelotas as duas associações representativas da comunidade portuguesa são a 'Sociedade Portuguesa de Beneficência' e o 'Centro Português 1o. de Dezembro'.

A primeira, fundada em 28 de junho de 1858, já com 350 sócios, sendo uma associação que surgia por desligamento daquela existente em Porto Alegre, ou seja, a uma distância de 250 km de Pelotas e que consequentemente ocasionava dificuldades.

Hoje a Beneficência é uma casa de saúde que funciona como qualquer outro hospital mas sempre ligado à comunidade portuguesa de onde são escolhidos seus dirigentes e dada como preferência, pela mesma comunidade, quando da necessidade de hospitalização. 'Possui 254 sócios ativos (sócios com título e pagamentos mensais), 1708 sócios remidos (sócios com título de pagamento integral), banco de sangue e plano de Saúde Maior. Este último é oferecido e garantido pela própria Beneficência com um total de 11500 pessoas, destes são 1 por centro de portugueses natos e 60 por cento são de descendentes'.

A segunda associação, recreativa e cultural - 'Centro Português 1o. de Dezembro' - é onde se observa com mais objectividade o interesse pelo resgate e preservação das origens lusitanas.

Fundado em 26 de Janeiro de 1926 como resultado da fusão de dois grupos: o 'Congresso Português 1o. de Dezembro' e do 'Grêmio Republicano Português', ambos com ideias divergentes mas que suplantadas as divergências políticas, acabam por unir esforços e fundar o 'Centro Português 1o. de Dezembro'."

Fonte: ARROTEIA, Jorge Carvalho & FISS, Regina Lucia Reis de Sá Britto. Traços da comunidade portuguesa em Pelotas. Artigo de 2006, p. 180-181, 184.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Padre Cícero Romão Batista


"Eclesiástico e líder político brasileiro, cujo nome completo era Cícero Romão Batista (1844-1934). Nascido no Crato (CE). Ordenado sacerdote em 1870, radicou-se no pequenino arraial de Juazeiro do Norte, onde fundou uma igreja. Desde logo adquirindo fama de santo milagroso, conseguiu formar em torno da sua igreja um núcleo de população que aumentou dia a dia até se transformar em verdadeira cidade: em 1914 Juazeiro tinha já cerca de 30.000 habitantes. Político influentíssimo, depôs o governador do Ceará, elegendo-se depois vice-presidente do Estado e deputado federal. Sempre em desavença com os poderes constituídos, à frente de milhares de romeiros sustentou prolongada luta armada contra os contingentes da polícia cearense, determinando inclusive a intervenção do governo federal (o presidente da República era então o Marechal Hermes da Fonseca). Suspenso das ordens eclesiásticas, ameaçado de excomunhão, nem por isso deixou de celebrar missa na sua igreja. Em seguida foi a Roma e conseguiu uma reconciliação parcial com a Igreja. Sua vida tem sido constantemente celebrada pelos poetas sertanejos na célebre literatura de cordel do folclore nordestino."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Morte de Lobo da Costa


"Lobo da Costa

A 19 do corrente foi encontrado morto em um vallo existente nas proximidades de Santa Cruz, em Pelotas, o desventurado poeta Lobo da Costa.

A morte devia ter sido occasionada pro congellação, resultante do intenso frio que reinou na noite de 18.

O cadaver foi encontrado completamente encharcado, devido á torrencial chuva que cahio na mesma noite. 

Lobo da Costa foi um talento de inestimavel valor e ninguem melhor do que elle poderia occupar o primeiro lugar na poesia rio-grandense dos ultimos tempos, se uma infelicidade atroz não o houvesse quasi impossibilitado para os prélios da litteratura.

Deixa varios livros de versos e dramas e muitas producções esparsas pelo jornalismo da provincia.

O enterro do infeliz poeta foi extraordinariamente concorrido.

A imprensa pelotense prestou ao finado as honras que lhe eram devidas."

Fonte:  A FEDERAÇÃO, 22 de Junho de 1888, p.02. c.04
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...