terça-feira, 14 de novembro de 2017

Mariana Eufrazia da Silveira

Intendência Municipal de Pelotas e Bibliotheca Pública Pelotense

Por Fernando Osório

"Esta senhora, que veio a ser figura principal na data da fundação, aportara ao Rio Grande do Sul, com sua família, por ocasião de virem os primeiros casais portugueses que aqui se estabeleceram no princípio do século XVIII. Juntamente vieram suas irmãs Izabel Francisca, que casou com o capitão-mór Manoel Bento da Rocha, e Joaquina Margarida, que casou com Domingos Gomes, estancieiro em Itapoã. D. Mariana matrimoniou-se com o capitão-mór Francisco Pires Cazado, de cujo enlace houve a seguinte prole: Rozalia, nascida em 1752 (família Rabello); Mauricia n. 1758 (veio a ser sogra de Antônio José de Oliveira Castro); Manoel Marcelino Pires, n. 1759 (família Pires, de Porto Alegre); Maria Eufrazia, n. 1770, casou com Alexandre Ignacio da Silveira (família Aquino); Ignacio Antonio Pires, n. 1773; Joanna, n. 1775 (sogra de Guilherme Rodrigo de Carvalho e de Francisco Gonçalves Pires). Houve outros filhos, que morreram solteiros. Foi senhora de quase toda a área que compreende esta cidade (nota nossa: Pelotas). Doou terreno suficiente para nele se construir uma grande igreja, um quartel e uma cadeia (em parte desse terreno é que se construiu a Bibliotheca Pública Pelotense e a atual Intendência Municipal)."

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Arquitetura alemã no Rio Grande do Sul


Casa alemã em Picada Café/RS
Imagem original do link:http://www.casasenxaimel.com.br/page8.aspx

"Em geral classificam-se as casas dos imigrantes como 'tipicamente alemãs'. Num primeiro relance, assim pode parecer: a estrutura em enxaimel (Fachwork), com fechamento de adobe, taipa, tijolos ou arenito; tesouras feitas segundo o modelo alemão, sem cumieira e construídas de forma a deixar um espaço sem escoras sob o telhado; geralmente construído em encostas, com um porão contido por grossas fundações de arenito aparelhado. Tudo isso confere uma fisionomia característica e inconfundível à casa do imigrante alemão.

Mas, será 'tipicamente alemã'?

A casa na Alemanha
Ao tempo da imigração, a arquitetura em enxaimel já cumprira uma evolução multissecular e apresentava muitos estilos e tradições construtivas. Nos burgos, se tornara formalmente sofisticada e tecnicamente requintada. Nas vilas rurais, ela se manteve mais simples e horizontal, com características próprias para cada região. Isso torna difícil descrever de forma sintética a casa rural na Alemanha. A grosso modo podemos dizer que todas as funções eram abrigadas sob um só telhado: moradia, estábulos, depósitos de ferramentas e utensílios, tudo disposto racionalmente em torno de um fogo central que servia, em primeira linha, para aquecer a casa no inverno. Sob um telhado muito alto e em vários andares, estavam os celeiros e depósitos de feno. Carroças e apetrechos necessários ao trabalho da terra ficavam num espaço central, contínuo ao fogo. Este tinha as funções de cozinha e calefação e, ao seu redor, se desenvolviam os principais serviços da casa. Contíguos, ficavam os quartos que, por vezes, se resumiam em minúsculos nichos fechados por uma simples cortina.

A casa do imigrante
Diante disso, vemos que a casa do imigrante pouco tem de 'tipicamente alemã'. A diferença fundamental está em que a casa 'explodiu' em suas múltiplas funções. Aqui temos uma série de construções, como estábulos, chiqueiros, galinheiros, paióis, depósitos, forno, retrete, dispostos organicamente em torno de um ou dois pátios centrais. Nem a moradia fugiu à regra. Aqui, separavam-se claramente a 'casa' da 'cozinha'. Esta era um pequena construção de dois compartimentos: num se cozinhava e o outro era o comedor. A 'casa' ficava afastada alguns metros. Em planta-baixa era muito simples. Via de regra havia uma sala central com os móveis dispostos ao longo das paredes, de maneira a formar um espaço livre central. Conforme o tamanho da família, haviam dois, três ou quatro quartos. Eram construídos aos pares nas extremidades da casa. Quando haviam três quartos, um ficava ao lado da sala de estar. Muitas vezes uma escada íngreme que levava ao sótão servindo de depósito para cereais, arreios, velharias e onde podia haver um quarto para os rapazes solteiros.

As razões deste dualismo (casa - cozinha) era o perigo do fogo: se a 'cozinha' queimasse, a 'casa' ficava preservada. É interessante notar que, se na Alemanha o fogo era o elemento centralizador da construção, aqui era o motivo alegado para a separação. É bem evidente que haviam outras razões para esta separação que não podemos discutir aqui.

É interessante assinalar que, esta descrição é válida para todas as correntes imigratórias provindas da Alemanha, apesar de sua diversidade de origem (francos, alamanos, godos, visigodos, polacos, judeus) de forma que, só com algum cuidado, podemos distinguir certas nuances que diferenciam as construções dos imigrantes de diversas origens. Daí se deduz que houve efetivamente uma integração social entre os alemães no Rio Grande do Sul, muito antes da unificação da Alemanha por Bismarck. Podemos efetivamente falar de uma cultura arquitetônica teuto-brasileira. Se os imigrantes trouxeram alguns elementos como, por exemplo, a técnica construtiva e alguns esquemas de ordenação especial, estes foram profundamente revisados e aqui encontraram uma expressão nova e original."

Fonte: WEIMER, Gunther. Arquitetura alemã. In: EDEL LTDA. Sesquicentenário da Imigração Alemã/Hunderffünfzig-Jahre Deutscher Einwanderung (álbum oficial). Porto Alegre/RS: Sociedade Editora de Publicações Especializadas EDEL Ltda., 1974, p.173-174.


domingo, 12 de novembro de 2017

Maria Antonia da Cunha Mendonça


Por Fernando Osório

"Irradiando os tesouros de uma natureza moral privilegiada, os oitenta e três anos com que faleceu, a 13 de novembro de 1921, D. Maria Antonia da Cunha Mendonça fecharam para Pelotas o ciclo de amantíssima, de tradicional e querida existência. É belo viver assim! E, bela morte piedosa, dos que deixaram

'...a vida!
Pelo mundo, em pedaços repartida!'

A egrégia senhora, no adeus derradeiro da família estremecida, teve o seu féretro amado coberto de flores, orvalhadas pelas lágrimas de todo o meio social. Colhidos, especialmente, pela nova dolorosa, os pobrezinhos, a quem sempre D. Maria Antonia dedicava as abundâncias da sua ternura e a piedade excelsa da sua fé, sentiram, numa tristeza infinita, a turvação da perda formidável. E, numa onda de amor, a Ordem de Nossa Senhora do Carmo, de que era D. Maria Antonia priora jubilada, conduziu-lhe o corpo inanimado até a Igreja do S.C. de Jesus, onde, com expressiva aproximação popular, decerto tão cara à memória da extinta, teve a encomendação religiosa, seguindo, após em longo cortejo, para o regaço da saudade, branca de cinzas e de lajes... D. Maria Antonia Mendonça, tronco de respeitável família, era filha do Comendador Alexandre Vieira da Cunha e D. Maria Josepha Leopoldina da Silva e viúva do saudoso pelotense Francisco de Paula Jacintho de Mendonça."

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Maldição de Santa Isabel, Arroio Grande


Programa "Histórias Extraordinárias" exibido em 18 de março de 2009 pela RBS TV sobre a lenda da maldição da localidade e distrito de Santa Isabel, no vizinho município de Arroio Grande. Disponível no canal de Ga Tonotu Bo no YouTube.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O cavalo na Idade Média


"O cavalo é fundamentalmente consagrado à guerra, sobretudo após as invasões dos bárbaros da estepe, cujo avanço foi rápido e cobriu distâncias enormes: godos que partiram do Dnieper e chegaram à bota italiana ou ao sul da Espanha, vândalos que passaram da Silésia à Andaluzia e depois por Cartago... A cavalaria pesada foi a base das conquistas dos grandes Carolíngios, Pepino e Carlos Magno. Desde esta época usa-se o sagmarius, cavalo de carga e de tração, para as carroças, ao lado do destrier (cavalo de combate, com freio, ferradura, sela alta, estribo, testeira) para o cavaleiro com esporas, do palafrém (cavalo de passeio), da égua para as damas, do rocim (cavalo de uso comum) e do cavalo robusto para charrete e arado. Este último começa a se difundir nos séculos XII e XIII, por exemplo, nas terras pesadas onde sua velocidade de trabalho, mais que sua força, faz concorrência ao passo lento dos bois; é verdade que é preciso um 'combustível' caro para esse novo trator: a aveia.

O cavalo é muito importante para a classe cavaleiresca: os poemas épicos, os romances da corte, estendem-se longamente na biografia desses nobres corcéis, respondendo assim à expectativa dos leitores ou auditores. Todo destrier tem um nome, não somente o grande Bayard dos quatro Aymon, ou Veillantif (cavalo de Rolando), mas também Beaucent (de Guilherme da Aquitânia), Ferrant (de Girard de Roussilon), Broiefort (de Ogier, o Dinamarquês)...

Mesmo sem nome, e substituído sem remorso após sua morte em combate, o cavalo de guerra permanece o mais nobre dos animais; sua estrebaria localiza-se o mais perto possível da casa de seu senhor e ele é frequentemente melhor acomodado e melhor tratado que muitos servos. O cavalo de fazenda trabalha mais rápido e por mais tempo que o boi, mas é caro e frágil; as ossadas encontradas mostram que são utilizados até seu limite, em uma idade avançada, 13 anos, às vezes mais; sua morte não rende nada a seu proprietário a não ser o couro, em razão do tabu hipofágico."

Fonte: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru/SP: Edusc, 2006, p. 61-62.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Conselheiro Antonio Ferreira Vianna



Por Fernando Osório

"Nasceu em Pelotas a 11 de maio de 1833, no sobrado da costa do S. Gonçalo em que funciona a Escola de Agronomia e Veterinária, construído por seu pai João Antonio Ferreira Vianna. Arredado do berço natal, quando êste transferiu residência para o Rio de Janeiro, lá cultivou o privilegiado espírito e foi, sob uma estrêla feliz, levado a desempenhar saliente papel no cenário parlamentar, chamando sôbre si as vistas do país inteiro. Seu nome ficou ligado à página de ouro da História do Brasil: a abolição de 13 de maio - lei de sua inspiração, tal como foi concebida e formulada, e que teve a glória de expedir, como Ministro da Justiça do Gabinete João Alfredo. Pelo conjunto dos aspectos em que Ferreira Vianna pode ser apreciado, apresenta uma figura singular.

Bacharel em Letras pelo Colégio Pedro II, em 1850; bacharel e doutor em Direito pela Faculdade de S. Paulo, em 1855; presidente do Ateneu Paulistano; promotor público na antiga Côrte; deputado geral em diversas legislaturas, desde 1862; jornalista de pulso e presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro; Ministro da Justiça e do Império; foi orador de grande merecimento e jurisconsulto notável, talvez, no seu tempo, o advogado de maior clientela, no fôro do Distrito Federal. Fornecem matéria para vários volumes os numerosos trabalhos que deixou esparsos em órgãos da imprensa e publicações avulsas - panfletos, discursos, conferências, razões jurídicas e pareceres.

Dotado de sincero espírito religioso, depois de viúvo ocupou muito tempo uma cela no Convento de S. Francisco, cujo provincial, Frei João do Amor Divino Costa, era seu particular amigo; daí saiu para o ministério da Justiça. 

'A ironia' que Renan considerava une forme de la sagesse foi a feição do espírito de Ferreira Vianna que mais geralmente impressionou os contemporâneos. Ninguém possuiu, entre nós, como êle, o segrêdo de resumir num dito a crítica de um acontecimento, pintar com uma anedota uma situação, espalhar em discursos para encanto dos ouvintes e amargura do adversário, pequenas frases com asas e ferrão de abelha. Mas o epigrama sutil de parlamentar, de Presidente da Câmara Municipal, de Ministro, de jornalista, de cristão, fundando escolas e instituições beneméritas. E amou a beleza, com sensibilidade de artista e enlêvo de poeta.

Um belo dia foi o conselheiro visitar a Casa de Correção. Entre os presos com quem conversou achava-se um rapaz ainda bem moço, de maneiras delicadas, cheio de vivacidade, porém, transido de uma tristeza que impressionava. - Então, qual é teu crime? - perguntou-lhe o conselheiro. - Senhor, eu abusei da honestidade de uma menor. - Por quanto tempo fôste condenado? - Por quatro anos de prisão; já aqui estou há dois e faltam-me ainda outros dois; se, porém, V. Exa. quiser proteger-me, obtendo o meu indulto, eu comprometo-me a casar com a ofendida. - Olha - acode-lhe o conselheiro - queres um bom conselho, conselho de amigo? Cumpre o resto da pena...

Em um banquete político oferecido ao Conselheiro Ferreira Vianna pelo Partido Conservador, quando ascendeu ao poder, foi o notável jornalista saudado por Salles Torres Homem, que exaltou os seus serviços à causa das liberdades públicas e os seus incomparáveis dotes de publicista. Era notável orador sacro. São conhecidas as suas conferências relativamente a S. Francisco de Assis, ao irmão Ignácio, à Obra da Expiação dirigida pelo Cardeal Manning, à missão do arcebispo de Damasco. 

Foi o fundador das escolas municipais de S. Sebastião e S. José, em 1870 e 1871; do Necrotério em 1871; dos hospitais de S. Sebastião e da Jurujuba; dos Asilos Condes de Mesquita e S. Bento, na Ilha do Governador, nos terrenos concedidos pelos religiosos beneditinos e herdeiros do Conde de Mesquita; da Casa de S. José, para crianças abandonadas nas ruas; do Instituto de Higiene; do Laboratório do Estado; dos três edifícios onde funcionam os desinfetórios no matadouro, nas Ruas da Relação e João Clapp; da Maternidade (que deixou em construção) na Praia da Lapa; do hospital destinado ao tratamento exclusivo das crianças (plano e projeto que foram aprovados em 1889); da Inspeção de Higiene da Infância Escolar, cujas instruções foram determinadas por decreto de 28 de março de 1889; de 15 postos médicos para pronto socorro, durante  a quadra epidêmica, à população indigente da capital do Império. Foi fundador ainda da Associação Protetora das Crianças Pobres, em 1870, que anualmente fornecia roupa aos meninos das escolas de S. José e S. Sebastião; promotor e fundador de um Albergue Noturno para dormida dos infelizes sem-teto.

Reformou, como Ministro da Justiça, os regulamentos do Corpo Militar da Polícia, garantindo aos oficiais os seus postos; a Casa de Detenção e o Asilo de Mendicidade. Iniciou a inspeção dos hospitais e casa em que são recolhidos os loucos no sentido de garantir-lhes a liberdade e bens. Elaborou os seguintes projetos: Reforma Judiciária, Lei da Repressão da Vagabundagem, Reforma da Câmara Municipal (adotada como projeto substitutivo pela oposição liberal no Senado e na Câmara dos Deputados); Reforma da Administração das Províncias; Reforma Financeira sôbre Estradas de Ferro e Telégrafos do Estado e de Iniciativa Particular. 

Defensor e protetor da liberdade individual, mandou destruir as escuras da Casa de Detenção, convocar júris extraordinários e proibir as prisões sem nota de culpa. 'Coube-lhe a grande satisfação de fazer parte do Govêrno que aboliu a escravidão no Brasil, aspiração esta muito de sua alma, e para cuja realização poderosamente valeram as suas luzes, a sua coragem em afrontar os perigos anunciados e o seu prestígio como orador parlamentar'. 

Proeminente entre os proeminentes do Partido Conservador no antigo regime, os seus discursos, escritos e os seus atos são a afirmação do seu grande espírito liberal. Pouco depois da proclamação da República, Ferreira Vianna publicou, em 'O País', do Rio, com o pseudônimo de Suetônio, uma série interessantíssima de artigos sôbre o Antigo Regime, artigos êsses que alcançaram ruidoso sucesso, não só pela análise sutil de coisas e homens dos últimos anos do Segundo Império, como pelo fino humorismo que, por vêzes, nêles se desata com adorável e maliciosa graça."


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