sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Lembranças Leonenses X


– Personagens muito comuns nas ruas da Vila do Capão do Leão entre as décadas de 30 a 60, as lavadeiras compunham a paisagem daquele tempo. Mulheres de fibra, inúmeras vezes viúvas ou desquitadas, lavavam a roupa das famílias ricas, como forma de dar sustento a seus filhos. Existiam por toda a parte: na zona rural, no Teodósio, no Cerro do Estado. Estiveram também presentes nos primórdios do Jardim América. Na Vila do Capão do Leão, reuniam-se em algazarra com suas pesadas trouxas numa bica que situava-se nos arredores da Pedreira Municipal. Havia mulheres que davam duro trabalhando em Pelotas durante o dia e, quando retornavam, não hesitavam no breu da noite em lavar camisas, calças e fatiotas de fregueses endinheirados, mesmo no frio sereno do inverno. Fica, pois, a nossa lembrança a essas intrépidas mulheres.

Lembranças Leonenses IX


– O futebol leonense possui uma longa tradição desportiva, cujo maior símbolo é o nonagenário Santa Tecla Futebol Clube, fundado em 1915. Há outros de igual importância: Independente, Sete de Setembro, Oito de Outubro, Fluminense, Estrela, Ájax, etc. Entretanto, houve outras equipes também que tiveram seus instantes de glória, mas não subsistiram.
No Cerro do Estado, antes do surgimento do Fluminense, existiram o Ipiranga (fundado na década de 1910) e seu sucessor, o Americano (fundado por volta da década de 1930). No Teodósio, em época aproximada, tivemos o Ideal, formado por veranistas pelotenses. Já no Jardim América, existiram o São Francisco (final da década de 70), cujo campo situava-se onde hoje é a Escola Elmar Costa, e o Jardim América F.C., que foi o primeiro clube do bairro (anos 50) e cuja sede correspondia ao atual campo do Estrela. No Loteamento Zona Sul na década de 80 houve um time tipo “familiar”: o Botafogo. Na região do Campus UFPel/Embrapa, até bem pouco tempo quem brilhava era o Central F.C. – conhecido por sua bravura e valentia. Da mesma estirpe, havia o Agrisul – time que vendia caro derrotas em casa. Outra equipe com o nome de Central que marcou época existiu no Canto Grande, formado exclusivamente por trabalhadores rurais. Às margens da BR-293, representante das localidades Vila Gabriela Gastal e Parque Fragata, houve o Gabrielense com seu campo de traves enfeitadas. No Passo das Pedras, nas décadas de 50 e 60, quem protagonizava grandes lances na várzea da região era a formação do Centro Recreativo Soberbo. Ainda na zona rural existiram o Grêmio Esportivo Pavão e o União da Hidráulica. Este último, de certo modo, é “pai” do Estrela do Jardim América. Tendo existido até o início da década de 70, o União da Hidráulica ao ser extinto, legou dois jogos completos de camisas praticamente novas que foram aproveitadas pelo Sr. Juvenal Albuquerque Costa – que fundou o Estrela na mesma época.

Lembranças Leonenses VIII


– Alguns festejos que hoje podem parecer estranhos à comunidade, faziam parte do quotidiano dos antigos habitantes do Capão do Leão. Alguns de inspiração religiosa, outros por razões cívicas. Por exemplo, na década de 1950 o XV de Novembro era lembrado com desfiles nos moldes das atuais paradas de Sete de Setembro. Isso sem falar nas grandes comemorações que envolveram as vitórias aliadas nas duas guerras mundiais. Adiante, franceses da Companhia do Porto do Rio Grande celebravam o 14 de Julho (data nacional francesa) com grandes almoços e animados piqueniques na década de 1910.
Quanto aos religiosos, verificam-se nas primeiras décadas do século XX, divertimentos ligados ao Dia dos Reis (06 de Janeiro) e ao Dia de São José (19 de Março). Muito provavelmente houvesse igualmente aspectos de tradição folclória, pois registros de 1922 dão conta do Terno de Reis no Teodósio. Uma outra devoção, já mais recente, constituía-se na Festa de Santa Luzia (13 de Dezembro), em função do grande número de graniteiros. Até pelo menos a década de 1970, esta comemoração era realizada com grande esmero por estes trabalhadores.

Lembranças Leonenses VII


– Desde quando se faz carnaval no Capão do Leão? Pois pelo menos há mais de cem anos. Já em 1892 registram-se bailes carnavalescos no antiguíssimo Hotel Benjamin. Veranistas pelotenses promoviam estes eventos até nas próprias chácaras.
Em 1901, no Sítio Bormann, aproximadamente na região da atual Rua Manoel Vasquez Villa, entre as vilas Casaubon e Real, foi comemorado o carnaval de forma ímpar. Além de excursões de trem que vieram, foi instalada iluminação a gás e o local foi todo decorado com fitas e bandos. Houve apresentação de três blocos carnavalescos oriundos de Pelotas: Os Bôers, As Pastorinhas e Os Zangados. A imprensa pelotense cobriu e destacou as festividades.
Embora o carnaval nestes idos dependesse da iniciativa particular, uma tradição popular comum nesta época era a guerra dos sujos na tarde da Terça-Feira Gorda. Moleques e rapagões saíam pelas vielas, toscamente fantasiados, e jogavam um nos outros água, laranjas de cheiro, lança-perfumes ou simplesmente sujeira. Transeuntes desavisados podiam sofrer com a brincadeira e voltarem a seus lares completamente emporcalhados.
– Na década de 1940, ocorrem na Vila do Capão do Leão os primeiros desfiles organizados de carnaval ao longo da Avenida Narciso Silva. Bem verdade, o que acontecia é que os blocos saíam da antiga rua da sub-prefeitura (atual Professor Agostinho) em direção à Praça João Gomes. Lá se misturavam ao público presente. Curioso é que, em razão da inexistência da iluminação, o carnaval foi comemorado à tarde em alguns anos. O grande destaque dessa época foi o Bloco do Leão – que foi reconhecido e elogiado até mesmo em Pelotas. Suas cores eram o azul e o branco e suas alegorias e fantasias eram cuidadosamente trabalhadas pela comunidade. O desfile do bloco era conduzido por uma pequena banda de marchas carnavalescas. Em seguida, quatro ou cinco adolescentes vestidas de chita colorida saudavam o público. Sempre havia um grande carro alegórico, inspirado no tema-enredo, que abrilhantava o espetáculo. Certa ocasião, os integrantes do bloco montaram um carro com um grande leão enfeitado com vidro colorido.

Lembranças Leonenses VI


– De tempos em tempos, as sociedades vivem momentos de pânico ocasionados por motivos vários que mormente constituem ameaça à ordem, à segurança ou ao bem-estar públicos. Não necessariamente o Capão do Leão foi atingido em sua história por uma grande calamidade, porém também teve um instante de temor coletivo. Isso aconteceu no ano de 1989.
Não se sabe muito bem qual foi o estopim do fato, mas de uma hora para outra, surgiu o boato de que havia uma quadrilha de ladrões de órgãos humanos no município, seqüestrando exclusivamente crianças. No complemento da história, usavam uma kombi para suas ações e eram loiros os criminosos. O fato é que a população alarmada passou a vigiar seus filhos, netos e sobrinhos nas escolas e ruas e, por outro lado, a observar com atenção qualquer veículo estranho. O inusitado de toda a situação é que, em função do medo de alguns, qualquer homem loiro motorista de kombi era visto como ameaça. Chegou a ocorrer um acidente. Um representante da Souza Cruz que vinha seguidamente ao Capão do Leão abastecer o comércio de cigarros, teve a infelicidade de aparecer no município conduzindo uma kombi branca da empresa. Relata-se que, ao estacionar o veículo defronte a uma vendinha, o sujeito resolveu beber uma cerveja. Nisso, para ser simpático, pagou alguns doces a uns garotos que brincavam na calçada. Outros sujeitos viram o que ele estava fazendo e não hesitaram: um chamou a polícia; outros dois partiram para cima do homem, imobilizando-o. Tremenda confusão! Após a chegada da B.M. e muitas explicações, pobre vendedor foi liberado, apesar de todo machucado.

Lembranças Leonenses V


– A partir da década de 1970, quando o bairro Jardim América passou a crescer consideravelmente, começaram as visitas ao local de circos e espetáculos mambembes. As companhias quando chegavam, normalmente eram pequenas (senão diminutas) e se estabeleciam ou na Praça da Imprensa ou no terreno defronte à Ferraria Manske. Os cirquinhos movimentavam o quotidiano do bairro e sempre atraíam algum público nas apresentações. Faziam sucessos os espetáculos que traziam artistas de música regionalista, trupes de palhaços ou shows de touradas. Para sobreviverem os circos tinham que investir na “onda do momento” e assim terem retorno financeiro. Pois no fim da década de 70, apareceu um circo anunciando lutas de telecatch – algo que fazia muito sucesso na época. Diz-se que a encenação foi tão bem feita que houveram espectadores que quase invadiram o ringue, indignados pelo fato dos “mocinhos” estarem sendo surrados pelos “vilões”.

Lembranças Leonenses IV


– um tipo de medicina alternativa que esteve muito em voga na Vila do Capão do Leão foi a homeopatia. Como pessoas ligadas ao espiritismo desenvolviam atividades de filantropia e os serviços de saúde eram precários, algumas destas pessoas trabalhavam com produtos homeopáticos junto à população mais pobre. Foram homeopatas conhecidos em nossa localidade: Narciso Silva (filho), Gabriela Gastal e Vicente Real. Raramente cobravam pelo serviço. O Dr. Vicente Real era, aliás, médico muito conhecido e estimado por todos, pois também dava gratuitamente muitas consultas a quem precisava.
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