quinta-feira, 9 de abril de 2026

A Lenda do Tamba-Tajá

 



Todas as noites, quando havia lua na floresta, o casal de índios saía para passear. Era rotina na vida dos dois, que estavam juntos há muitos anos. A vida os colocara mais próximos, quando, não se sabe bem porque, a índia deixou de andar. A partir desse momento, ele passou a ser as suas pernas.

Para poder estar sempre perto de sua companheira, o índio, que habitava a tribo dos Macuxi, trançou, ele próprio, um cesto onde acomodava, confortavelmente, sua amada. Para onde ia, ela ia também. Havia entre eles uma cumplicidade amorosa invejável. Estavam juntos e não era arte do destino, que limitara os passos, mas não o horizonte.

Um dia, numa volta pela floresta, o casal atravessou sem querer um campo proibido. Havia guerra entre duas tribos. As lanças cortavam o céu e enchiam a mata de medo. Os dois se esconderam como puderam, mas foi em tudo em vão. Uma flecha perdida acabou com a vida da indiazinha, que, encolhida em sua cesta, era alvo fácil para os guerreiros.

O cesto de palha estava mais pesado que o habitual. O índio, na agonia de fugir do perigo, nem percebeu o que se sucedia. A morte já era uma presença em si, quando ele desceu a mulher. A tarde ia pelo fim quando tudo aconteceu. O silêncio da floresta, o pio dos pássaros noturnos, o grito de um ou outro bicho fazia com que o momento fosse mais dolorido. Era o fim do amor, que o silêncio das árvores e o começo da noite faziam pesar sobre a alma do índio Macuxi.

Apesar do peso, que para ele nem era, e da dificuldade que era viver com o cesto nas costas, o índio não poderia mais andar sem a sua amada, que agora era apenas a mudez a que se limitam os homens mortos. A vida, agora, já era uma ampla impossibilidade de ser, e nada mais havia para ele senão a morte.

Quando terminou de sepultar o corpo da sua companheira, o Macuxi olhou o rio e descobriu que todo sentido da vida se acabara ali. Para resolver o problema, reabriu a cova e se enterrou com ela. Um final quase shakespereano para um povo que jamais ouviu falar no autor de "Romeu e Julieta".

Passaram-se muitas luas, até que, no local onde o casal Macuxi estava enterrado, brotasse, talvez por artes da Natureza, ou quem sabe por um desejo de Tupã de tornar para sempre aquele amor, um pé de tajá. Mas não era um tajá qualquer, desses de beira de estrada. Era uma folhagem diferente, verde que só, e com um caule enorme. Mas o que fazia esse tajá bonito era uma folhinha pequena, que nasceu na parte inferior da outra.

Os índios olharam aquilo espantados e logo enxergaram na folha maior o índio, e na menor, a índia. A folha nasce toda enrolada e, num certo momento, lembra a genitália feminina. Eram os dois, com certeza.

Hoje, no Ver-o-Peso, esse tajá é conhecido como Tamba-Tajá. Não é muito fácil encontrar um pezinho por lá, porque gira em torno dele a lenda de que "quem tem um Tamba-Tajá, o seu amor não perderá". Só que, para ter um Tamba-Tajá, que assegure o amor, é preciso, ganhá-lo ou roubá-lo de um jardim. Comprar não funciona - como não funciona comprar um amor: ou se rouba ou se ganha. Para quem nunca viu o amor dos Macuxi tornado planta, tente senti-lo através da música de Waldemar Henrique, que é tão bonita quanto o amor da lenda.

João Carlos Pereira

Fonte: O LIBERAL (Belém/PA), 21 de abril de 1989, suplemento Liberal Aqui, pág. 02

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...