terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O surgimento do mito do gaúcho


"Observa-se que ao longo da História o sentido da palavra gaúcho passou por profundas transformações. Sobre a origem da palavra gaucho Barbosa Lessa afirma que, por volta de 1777, ocorreu o primeiro registro da palavra gauche, documentado pelo doutor José Saldanha em seu diário: 'palavra espanhola usada neste país para designar os vagabundos ou ladrões do campo que matam os touros chimarrões, tiram-lhes o couro e vão vender ocultamente nas povoações'. Mais tarde, conforme Sergius Gonzaga, estancieiros, motivados pela necessidade de mão-de-obra especializada no manejo do gado e na lide campeira, passaram a incorporar esses gauchos nas suas estâncias. Com o passar do tempo, esse vocábulo também passou a ser empregado para designar os demais trabalhadores da estância: peões, diaristas...

Contudo, como afirmam Angelise Silva e Pedro Santos, a modificação radical do significado da palavra gaucho foi obra da literatura, tendo a História servido como um pano de fundo para a criação mítica do personagem gaúcho. Para esses pesquisadores, essa literatura estava muito arraigada em modelos românticos/europeus, criando personagens com inspiração europeia. Prova disso, são os personagens de Caldre e Fião e de Apolinário Porto Alegre, que serviram para modificar o sentido pejorativo do gaúcho e transformá-los em 'monarcas da coxilha', homens corajosos, leais e libertários.

Era um gaúcho que se importava com suas leis, puro de caráter e que não se corrompía a cidade. Esse gaúcho era um homem de palavra, com habilidades no campo, do qual tirava o seu sustento, um homem de vida simples, que herda de seu berço todos esses seus valores. Daí a ideia de 'Monarca'. Essa forma de ver o gaúcho identifica o espírito romântico de quem o descrevia, bem como a oligarquia vigente no sul.

Na visão de Tau Golin, o tradicionalismo deu ainda mais força ao mito do gaúcho, que foi criado pela literatura. A crença de que os Centros de Tradição Gaúcha fossem guardiãs do passado heroico do gaúcho, contribuiu para que esse ser mítico fosse um ser coerente com a história. Essa figura, a qual as pessoas se identificam erroneamente, serve de padrão para construir uma identidade rio-grandense até hoje:

Em todas as áreas, do lazer ao conhecimento, da música às artes plásticas, o ser inventado se impôs como o ser da coerência histórica. O último resquício tradicional, representado pelos campeiros, devido à incultura, acabou por aderir ao padrão citadino de gaúcho. Em um movimento cultural que como tantos poderia ser apenas um embuste, os tradicionalistas foram além e criaram uma cultura em cujo epicentro se posicionaram como os herdeiros protótipos da identidade rio-grandense.

A partir dessa crença que já persiste por tanto tempo, se entende o motivo pelo qual o gaúcho se tornou, conforme balanço de Luiz Marobin, 'uma atitude mental, um esquema psíquico, que atua no subconsciente'. Segundo este autor, os gaúchos, independente de suas diferenças são levados por um sentimento interior de unidade, que os distingue dos demais habitantes do restante do país.

Por outro lado, Antonio Augusto Fagundes chama a atenção para um outro olhar sobre a visão do gaúcho. Esse autor aponta para a crescente expansão do gauchismo, principalmente nos Centros de Tradições Gaúchas, onde 'gente que deixou o campo recriou na cidade o pagus idealizado, não somente no Rio Grande do Sul, mas também no Brasil e no exterior, e mesmo assim, ainda, se desconhece o gaúcho que trabalha no campo, na lide do gado. É necessário chamar a atenção para essa constatação, pois há mais de um século que se criou o 'Monarca das Coxilhas', e, entretanto, é ainda essa imagem mental do gaúcho que ganha projeção na cultura rio-grandense."

Fonte: WAGNER, Claudia Raquel. O Mito do Gaúcho e sua descontração em O Continente: uma análise do personagem Capitão Rodrigo Cambará. In: Revista Desenredos, ano IV, número 13, Teresina/PI, abril/maio/junho de 2012, p.02-03.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Imigrantes italianos em Pelotas no final do século XIX


"À cidade dirigiram-se, além de arquitetos, engenheiros e técnicos para atuarem nos projetos de melhoria da infra-estrutura urbana, também médicos, fotógrafos, comerciantes, educadores e uma infinidade de outros profissionais liberais e mestres artesãos a oferecerem seus serviços.

Quanto aos mestres artesãos foi possível identificar-se, através da leitura dos periódicos locais, a presença de Francisco Antonacci, Salvador Leão, Nicola Caputo e Geraldo Petrucci como alfaiates; Francisco e Salvador Maria Plastine, Cesario Cesares, David Maggiorani e Matheus Barson, como ferreiros; Domenico Saurini, João Lombardi, Paschoal Galli e João Thomaz Mignoni, como sapateiros; além de Pedro Falco, como funileiro; Santiago Berruti, como pedreiro, Amado Serez, como barbeiro; Antonio Del Grande, como carpinteiro e muitos outros.

Destaque especial recebem os arquitetos italianos José Izella Merote e Guilherme Marcucci, por atuarem nos anos de 1860, ativamente na formação da paisagem urbana pelotense. (...)

No ramo fabril, como proprietários ou associados, labutavam: Domenico Stanisci numa fábrica de mosaicos; Francisco Cicchi numa fábrica de massas; João Thomaz Mignoni e Guilherme Marcucci numa fábrica de calçados; e Vicente Gentilini, numa fábrica de fumos. A 'Manufatura de Fumos Gentilini', inaugurada em 01 de janeiro de 1881, foi a segunda fábrica de beneficiar fumos em Pelotas, a primeira era de propriedade do alemão Jacob Klaes.

(...)

Em 1843, Santiago Prati e Gaetano Gotuzzo fundaram o Hotel Aliança, à Rua Sõa Miguel, atual Quinze de Novembro, ponto central da antiga cidade. (...)

Além do Aliança, foi possível identificar-se, no último quartel do século passado, vários outros hotéis cujos proprietários eram italianos. Situado na Rua Gal. Osório estava o Hotel Garibaldi, pertencente a Pedro Luiz Gotuzzo, que na década de 90 o passa as mãos de Antonio Bonfiglio. Na Rua São Miguel existia o Piemonte, de propriedade do Sr. Graziano Bassi, que, em 1889, o negocia com Francisco Gigante. O mesmo Francisco Gigante adquire, de Rosa Uriach, em 1890, o 'Hotel do Comércio', localizado na Praça da Regeneração. Em outubro de 1885, mais um hotel passa a pertencer a italianos: o 'Hotel Brazil' passou a firma 'Del Grande Irmãos', de Jerônimo Del Grande e José Del Grande, este último antigo proprietário do Hotel do Globo, ambos italianos.

Em 1884, o Sr. Giovani Cavallin vendeu ao Sr. Emílio Fonetti o seu hotel denominado 'Itália'. Por fim, em 14 de outubro de 92, tem-se notícia de um lauto banquete fornecido a cidadãos italianos, para festejar o 4o. centenário da descoberta da América, nas dependências do Hotel Federativo.

(...)

Intensa e significativa foi a atividade sócio-cultural da 'colônia italiana' em Pelotas; consubstanciada, pela atuação das diversas 'sociedades italianas', presentes no processo de desenvolvimento da cidade. Pelotas chegou a contar com o surpreendente número de três entidades associativas italianas funcionando concomitantemente. Entre os anos de 1883 e 1885, representavam os filhos de Itália a 'Sociedade Unione e Philantropia', a 'Sociedade Unione e Philantropia (primitva)' e a 'Sociedade de Socorros Mutuos Cristoforo Colombo', isso sem mencionar-se as entidades artísticas como a 'Sociedade Philodramática Dante Alighieri', inserida no primeiro período, e a 'Sociedade Choral Italiana' e a 'Sociedade Corale Savoia' no segundo.

(...)

Participando de expressões culturais na cidade de Pelotas, estavam o professor de piano e canto Rufino Bidaola, os maestros Salvatore Riso e Eduardo Cavalcanti, os pintores Frederico Trebbi e Giovanni Falconi, o violinista Roberto Stella e muitos outros.

Envolvido nas atividades musicais da antiga Pelotas, destacava-se por sua intensa atividade e produção, o maestro Luigi Garbini. (...)"

Fonte: ANJOS, Marcos Hallal dos. Italianos e modernização; a cidade de Pelotas no último quartel do século XIX. In: História em Revista, UFPel, v.5, 1999 (não dispomos das páginas numeradas).

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Imigrantes judeus em Pelotas


"Os primeiros imigrantes dos quais tenho notícia foram os Millman e Miguel Galanternick.

Sobre a família Milman, consta que o primeiro a chegar foi Salomão, nascido em 24 de dezembro de 1888, que veio da Rússia, passando antes pelas colônias agrícolas da Argentina, onde casou com Clara. Em seguida, mudou-se para Pelotas e mandou buscar seus pais Aran e Sarah, além de seus irmãos: Inês, Marcos e Ada. Ele constituiu-se numa liderança importante junto ao Centro Israelita Pelotense. Nos primeiros tempos, vendeu a crédito e depois estabeleceu uma fábrica e loja de roupas masculinas denominada 'A Casa Londres'. Embora não tenha conseguido precisar o ano em que Salomão Millman chegou, estima-se que tenha sido entre 1907 e 1910.

Dona Ada, irmã de Salomão, em entrevista a Flora Bendjouya disse que nasceu no dia 10 de dezembro de 1906, na Bessarábia. Chegou a Pelotas no dia 23 de novembro de 1910 juntamente com seus pais. A imigração colocou-se como alternativa, já que se julgavam inseguros com relação à sua existência física e buscavam novas oportunidades de trabalho. Casou-se no ano de 1926 com Benjamin Borenstein e teve dois filhos: Marcos e Israel. Foi dona-de-casa e, eventualmente, ajudou o marido em sua loja, denominada 'Casa de Móveis Benjamin', que estava localizada à rua Osório, esquina Voluntários da Pátria. Faleceu no dia 20 de setembro de 1993, na cidade de Porto Alegre.

Sobre Miguel Galanternick, os dados são mais precisos, até porque a história de sua vida se encontra emaranhada na história da comunidade judaica de Pelotas.

Miguel Galanternick era filho de Jayme e Maria Galanternick. Nasceu na Ucrânia (que fazia parte do Império Russo), em 1881. Serviu ao exército militar na Romênia e foi daí que resolveu embarcar para Buenos Aires, Argentina, com 23 anos de idade. Na Argentina, permaneceu por três anos, até que recebeu um chamado de Abrahão Steinbruch, chefe religioso de Philippson, que era primo de seu pai, Maier Galanternick, para que fosse até a colônia conhecer sua filha Frida. Casaram-se em Philippson e logo foram morar em Porto Alegre. Na cidade, associou-se a Salomão Levy e David Chazan, que possuíam uma loja de tecidos, denominada 'A Moda Inglesa'.

Em 1911 chegou a Pelotas e fundou uma filial da firma, sendo esta inteiramente sua. A loja funcionava à rua General Osório, número 663. Fabricava e vendia móveis, além de trabalhar com tecidos.

(...)

Seus dois primeiros filhos, Luísa e Benjamin, nasceram em Philippson, já que era comum as mulheres voltarem à colônia para dar à luz. As quatro restantes: Cecília, Sofia, Anita e Alda nasceram em Pelotas. Nenhum deles foi comerciante como Miguel. Na perspectiva de estimular a ascensão social, objetivo de todo imigrante, cinco de seus filhos completaram o ensino superior, sendo que apenas uma, Cecília, concluiu apenas os cursos comercial e de piano. Já Sofia fez o primeiro vestibular para a Faculdade de Direito de Pelotas, sendo promotora pública do estado.

Miguel já estabelecido, mandou buscar todos os seus familiares da Rússia e também suas irmãs e cunhados que moravam nos Estados Unidos, de forma que todos os Galanternick estivessem reunidos.

Ele foi pioneiro em Pelotas. Organizou uma das sociedades israelitas que existiram na cidade, já que durante a década de 20 até 1933, dois grupos aqui estavam representados; comprou o terreno onde hoje fica o Cemitério Judaico, além de fundar uma Cooperativa de Crédito, que auxiliava alguns imigrantes judeus que chegavam à cidade, sendo também uma liderança importante dentro da Maçonaria.

Sobre o cemitério, Alda, sua filha, em entrevista concedida ao Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, disse que a primeira pessoas que lá se enterrou, foi justamente a irmã solteira do seu pai, Ida Galanternick, que faleceu no dia 11 de novembro de 1922. E como para os judeus não se podia deixar uma pessoa sozinha no cemitério, sua avó Maria Galanternick, que era extremamente frágil, passava dias próxima ao corpo, até que enterraram a segunda pessoa, que foi sua mãe. As informações que constam nas lápides dos túmulos revelam, no entanto, que após cinco meses da morte de Ida, faleceu Rachel Skenazi.

(...)

Na década de 40, Miguel passou a morar em Porto Alegre, pois sua esposa havia falecido ainda em 1924, com trinta e cinco anos de idade e duas de suas filhas tinham ido para a capital estudar.

(...) 

No dia 05 de agosto de 1967, morreu em Porto Alegre, alguns dias antes de completar 86 anos de idade.

(...)

Os que aqui chegaram eram principalmente russos e poloneses e, na maior parte dos casos, haviam passado pelas colônias de Philippson ou Quatro Irmãos (RS), quando não tinham estado anteriormente nas colônias argentinas da JCA (Jewish Colonization Association).

Os nomes de família Soibekman, Stifelman, Steinbruch, Nudelman, Druck, Averbuch, Copstein, Treiguer, Axelrud, Procianoy, Rosenberg e Galanternick, que haviam estado em Philippson (município de Santa Maria), fizeram parte da comunidade judaica de Pelotas, assim como os Lokschin, Chaper, Millman, Ocstein, Pechansky, Pustilnik, Pilowinick e Chwartzmann, da Colônia Quatro Irmãos (município de Passo Fundo)."

Observação nossa: outros sobrenomes encontrados no presente artigo: Sockol, Telechewescky, Tovil, Bendjouya.

Fonte: GILL, Lorena Almeida. "Clienteltchiks": os judeus da prestação em Pelotas (RS), 1920-1945. In: História em Revista, UFPel, v.5, 1999, (não tivemos acesso ao número das páginas).


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Leonel Brizola no Capão do Leão


"Vários municípios visitados por Brizola no último fim de semana

(...)

Logo após, dirigiu-se ao distrito de Capão do Leão, onde visitou o Instituto Agronômico do Sul e, depois, a Sociedade Recreativa local. Ali, o engenheiro Leonel Brizola foi homenageado pelos trabalhistas locais, tendo falado, nessa ocasião, o deputado Osmar Grafulha, o dr. João Carlos Gastal e, finalmente, o prefeito de Pôrto Alegre, que, às 18 horas, encetou viagem de retôrno a Pôrto Alegre."

Fonte: DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 17 de dezembro de 1957, p. 3.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Histórias Curiosas LXII

O saudoso Barão de Itararé afirmava em sua acidez humorística que a televisão é "a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana". Talvez, com o passar dos anos, sua frase tenha perdido o sentido crítico que procurava despertar, visto que, atualmente, a internet (e principalmente os telefones celulares) suplantou o poder de influência e capacidade de concentração do ser humano que a televisão outrora possuiu. Todavia, não há como negar que, nas últimas três décadas do século XX, a televisão foi o instrumento de mídia mais amplo e eficaz no processo de influência da opinião pública. Isto se manifestou em desdobramentos da própria ficção televisiva na vida real das pessoas. Quem não lembra o sucesso das novelas globais nas décadas passadas. As pessoas já tinham aquele compromisso à noite: assistir novela. E muitas delas, de fato, marcaram época.

Eis um pequeno apanhado de algumas histórias curiosas envolvendo a televisão, que reproduzimos aqui em tom de nostalgia.

1 - O ano é 1986 e a novela global "Selva de Pedra" bombava, atraindo grande audiência. Um dos personagens de destaque da novela é "Miro", interpretado pelo ator Miguel Falabella. O personagem acaba morrendo na trama e, pelo menos, aqui em Capão do Leão, seu destino trágico é sentido. Tanto que, um conhecido morador dos nossos pagos, na época ainda adolescente, após ter assistido a cena na tv de casa, se dirige à mãe que fazia outra coisa e muito choroso, berrava estridente: "O Miro morreu, mãe! O Miro morreu!" Quem presenciou a inusitada reação, diz que o rapazote teve que ser acalmado com um chá de camomila, tamanha e sincera era a sua comoção.

2 - Havia no bairro Jardim América, município de Capão do Leão, pouquíssimas casas com televisão lá pelos idos de 1978. Entretanto, isso não impedia que o interesse em assistir televisão crescesse consideravelmente. As novelas da Globo e Tupi despertavam sempre uma certa audiência à noite. Pois bem, havia um conhecido comércio no lugar, em que se reunia um bom número de trabalhadores no fim de tarde/início da noite, que ali iam para beber uma pinga e conversar. Como no interior do comércio existia uma pequena televisão P & B e o vendeiro ficava com o estabelecimento aberto até um pouco mais tarde (observação nossa: pois é... os tempos eram outros), a peonada de um jeito ou outro acabava assistindo tv por tabela. E o interesse foi aumentando, a ponto de, no momento em que era exibida a novela global "O Astro", o salão do armazém praticamente silenciava, embora estivesse cheio. A novela foi rumando ao seu final e chega o dia do último capítulo. Um bando de homens, todos ansiosos, aguardam o desenrolar da trama na telinha. Nisso, um carroceiro, não muito simpático à tv, fazia na porta do estabelecimento uma algazarra, conversando com outras pessoas, sem se importar muito com o público vidrado ali dentro. Educadamente, dois "noveleiros" de plantão pedem ao carroceiro que diminuísse um pouco o falatório ou então que se retirasse para a parte externa do bar. O carroceiro ofendeu-se e passou a fazer mais barulho ainda, desconsiderando categoricamente os pedidos de moderação. Infeliz decisão do coitado. Foi posto para fora a chutes e safanões, tão rapidamente a ponto do pessoal ainda se reunir de volta dentro do armazém para não perder nenhuma cena do último capítulo da novela.

3 - Quem matou Odete Roitman? O mistério da trama global "Vale Tudo" rendeu grande expectativa na virada do ano de 1988 para 1989. Tanto que havia um concurso patrocinado na tv para premiar o telespectador que acertasse o culpado. Em Capão do Leão, não foi diferente. Criaram até um bolão entre os funcionários da prefeitura. Ironicamente, ninguém que apostou no bolão palpitou a personagem Leila (Cássia Kiss). Como não havia, então, acertador ou acertadores, um dos participantes do bolão propôs que o dinheiro fosse entregue "à aposta que mais se aproximou". Não deu certo! Como saber quem mais se aproximou, se ninguém havia acertado na mosca? Deu briga entre os participantes e, para evitar mais discussão, cada parte foi devidamente devolvida a cada um.

4 - Essa aconteceu no bairro Guabiroba, em Pelotas, por meados da década de 90. Não sabemos que novela passava na tv, mas o fato é que, numa sexta-feira, iria ser apresentado o último capítulo da novela das nove. Entretanto, pouco antes de iniciar o "Jornal Nacional" na Globo, ocorre um apagão em parte de algumas ruas, para desespero das donas-de-casa ansiosas para acompanhar o desfecho da novela. Os minutos se passaram e nada de voltar a energia elétrica. Ninguém queria esperar, entretanto, o sábado para assistir a reprise. De um lado e de outro da rua, só se observava aquela mulherada descendo a rua em direção à uma das avenidas principais do bairro, em que o apagão não havia chegado. Umas foram se acomodando em casas de parentes ou amigas, mas a maioria se dirigiu a uma antiga lancheria que existia no bairro e que possuía o luxo de uma televisão a cores 20 polegadas. Rapaz! Aquela lancheria sempre com um público moderado durante a semana, encheu a ponto de não ter espaço para sentar. Como não se podia ocupar espaço no interior do estabelecimento sem consumir nada, a mulherada foi pedindo qualquer coisa, nem que fosse uma água mineral. A criançada na volta das mães aproveitou e foi pedindo toda a sorte de doces às genitoras que, hipnotizadas pela novela, somente anuíam inconscientemente às solicitações infantis. Aquele dia foi um dia feliz para o dono da lancheria! Logo a luz voltou no interior do bairro, mas quem poderia supor que aquela mulherada iria voltar para casa e perder algum momento do capítulo final. Assim foi. Também quando a novela terminou, só se ouviu aquele estrondoso arrastar de cadeiras e a mulherada muito satisfeita indo embora.

5- Essa foi bem mais recente e aconteceu durante a Copa de Mundo de Futebol no Brasil, em 2014, no fatídico 7x1 da Alemanha sobre a Seleção. Camarada nosso, ansioso por acompanhar a semi-final, estava atrasado para a partida e antes de chegar em casa, passara pelo posto de gasolina da cidade e informara-se rapidamente que o placar estava um a zero para a Alemanha. Toca rapidamente para a casa, larga a moto e diz à mulher: "Vou ali na venda pegar uma geladas rapidinho e já volto". Num intervalo de aproximadamente oito minutos, retorna e pergunta a mulher, já adentrando na porta dos fundos de casa: "Tá um a zero ainda? O Brasil já empatou?" A mulher do sujeito, meio que num ar conformado, responde da sala em direção à cozinha: "Que nada! Tá cinco para os alemães!" O sujeito imaginando que a esposa fizesse troça dele, responde asperamente: "Vá à m..., mulher! O cara chega cansado e atrasado para ver o jogo e tu vens com essas gracinhas!" A mulher num tom mais sarcástico, retruca: "Se tiver mesmo cinco a zero, eu tomo essas cervejas que tu trouxestes sozinha, pode ser?" O sujeito abre os olhos, se admira, e vai ver o resultado na tv. Nem no pior prognóstico poderia imaginar o vexatório placar ainda no primeiro tempo. No fim das contas, pede desculpas à esposa e reparte as cervejas com a mulher, já que não tinham nada mais o que fazer de importante naquela tarde.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Espanhóis radicados em Pelotas no século XIX


1. Francisco Alsina - vice-cônsul da Espanha durante muitos anos. Dono de armazém por atacado, importador e exportador, grande proprietário.

2. Alonso Adolfo Martinez - Casa Matriz, depósito e exportação de couros em grande escala.

3. Guillérme Litran - artista laureado na Espanha, pintor, desenhista, professor de pintura e desenho, com muitas obras de valor artístico em Pelotas e no estado.

4. Francisco Oliveras (Bota Grande) - industrialista, capitalista, grande fazendeiro em Santa Vitória do Palmar, Livramento e Alegrete.

5. Felippe Zorrilla (sucessor de Bota Grande) - negociante, depósito de couros, escritório bancário, câmbio e fazendeiro.

6. José Torres - Casa Comisaria, importação de farinha de trigo da Argentina.

7. Adolfo Maurell - armazém por atacado, importador e exportador, pessoa muito culta e familiar. Seus descendentes estão espalhados em todo estado.

8. Faustino Trápaga - comerciante, escritório bancário e câmbio.

9. Ramon Trápaga - negociante de tecidos por atacado. Por algum tempo foi criador de gado fino.

10. Juan Cruz Trápaga - negociante de tecidos, modesto e muito culto, colaborador de jornais em Madrid, Santander e Pelotas.

11. Ildefonso Robles - artista gravador, proprietário da Litografia Robles.

12. Indalecio da Nova Cruz - vice-cônsul da Espanha, proprietário de armazém e proprietário de terras.

13. Jose Ardila - proprietário de armazém e depósito de couros.

14. Geraldo Olivé - industrialista e proprietário. Descendentes: Antonio Olivé Leite - médico; Miguel Olivé Leite; Franklin Olivé Leite - médico.

15. Rafael Zamorano - armazém atacadista e depósito de couros.

16. Juan Romeo - industrialista, fabricante de tabacos.

17. Francisco Lopez - industrialista, curtume.

18. Rafael Bassols - vice-cônsul da Espanha durante muitos anos. 

19. Juan Auguet; 20. Francisco Auguet; 21. Francisco Auguet Cuntillé - industrialistas (fabricantes de bebidas).

22. Emeterio Riú Cristiá - industrialista e vice-cônsul da Espanha.

23. Feliz Iglesias - industrialista e vice-cônsul da Espanha.

24. Manoel Cano - comerciante.

25. Francisco Monsarro - artista e pintor.

26. Fernando Pedrosa - comerciante em tecidos por atacado.

27. Francisco Carreras - industrialista.

28. Pablo Boada - contabilista e depósito de couros.

29. Antonio Dela Verde y Peña - comércio.

30. Rafael Martins Risco - comerciante.

31. Tomas Porres - comerciante.

32. Juan Cassanovas y Planto - comércio.

33. Ramon Fernández - comerciante.

34. José Camps; 35. Lorenzo Camps - comerciantes.

35. José Fernández Casal - artista e industrial.

36. Manuel Férnandez Casal - artista e industrial.

37. Vicente Férnandez Casal - artista e industrial.

38. Manoel Martínez y Barrios - comissário.

39. Juan Borges - artista.

40. Antonio Martinez - contabilista e bancário.

41. Pedro Gamio - industrialista.

42. Pedro Urdaniz - industrialista.

43. Pedro Fandiño Maneiro - armazém, capitalista e proprietário.

44. Irmãos Castañeira - armazém, capitalistas e proprietários.

45. Manoel Turnes Pazos - armazém, capitalista e proprietário.

46. Artur Quintas - artista construtor.

47. Juan Marba - artista construtor.

48. Pedro Beocaray - comerciante.

49. Família Urrutigaray.

Segundo o autor, boa parte dos espanhóis radicados em Pelotas são provenientes da Galícia.

Fonte: Adaptação nossa a partir de: BECKER, Klaus. Espanhóis em Pelotas. In: BECKER, Klaus (org.). Imigração. Canoas/RS: Editora Regional, 1958, p. 352-354. (Enciclopédia Rio-Grandense)



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Alexandre Cassiano do Nascimento


Por Fernando Osório

"Uma das figuras mais prestigiosas da política republicana do Rio Grande do Sul. O saudoso pelotense era filho do Cel. Manoel Lourenço do Nascimento, veterano da Pátria, que foi soldado farroupilha, depois secretário do Gal. Canabarro. Nasceu a 13 de agôsto de 1856. Estudou preparatórios no Rio de Janeiro e formou-se em Direito, em S. Paulo, em 1880. Foi, por um ano, promotor público na cidade do Rio Grande, e, em 1882, juiz municipal no Livramento.

Empolgado pelo ideal republicano, excursionou pela Campanha pronunciando discursos e organizando conferências. Em Pelotas veio residir, em 1884, unindo-se a Alvaro Chaves para a organização do Partido Republicano no sul da Província. Nesse mesmo ano, logrou ser escolhido candidato dêsse partido à Assembléia Provincial, não sendo, porém, eleito. Cassiano do Nascimento intensificou a sua doutrinação pela Campanha do Sul, de 1884 a 1889.

Proclamada a República, foi eleito, por 35 mil votos, deputado à Constituinte. A sua ação foi enérgica, quando do golpe de Estado de 4 de novembro de 1891; e, depois de restaurado o Congresso, pela Revolução de 93, que levou Floriano ao poder, Cassiano do Nascimento colocou-se ao lado de seu partido que estava fora do Govêrno do Rio Grande do Sul. Foi então o líder da oposição na Câmara Federal, mostrando-se ativo, hábil, inteligente, posição que abandonou ao ser restabelecido o Govêrno de Julio de Castilhos apoiado pelo Marechal de Ferro. Tomou assento na bancada governamental, levado pelo amor e dedicação à causa do seu partido a defender o chefe do Estado. Floriano, que conhecia os homens, atraiu-o para o seu Govêrno, confiando-lhe a pasta do Exterior, que oferecia percalços no período agudo na revolta de 6 de setembro. Geriu-a, porém, Cassiano do Nascimento com superior serenidade e prudência, feições especiais do seu caráter. O Marechal acumulou-o com as pastas da Fazenda e Interior. E, Ministro, Deputado, Vice-Presidente do seu Estado, líder da Câmara, e, por último, Senador, em tudo êle deixou estampado o cunho de sua inteligência esclarecida e do seu belo espírito. 

Da sua fôlha de serviços a Pelotas, basta referir a ação por êle desenvolvida pela Alfândega de nossa terra e pela construção da Ramal da Estrada de Ferro, assuntos em que se empenhou com fervor e entusiasmo. O ilustre pelotense faleceu, no Rio de Janeiro, a 9 de novembro de 1912, e está sepultado nesta Cidade, (nota nossa: Pelotas) para onde foram transportados, por entre grandes homenagens de acrisolado aprêço, os seus restos mortais."

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