sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mapa do Capão do Leão em 1980




Mapa do Capão do Leão, ainda na condição de quarto distrito de Pelotas, publicado no ano de 1980 nas páginas de um guia turístico da antiga e extinta ETURPEL (Empresa de Turismo de Pelotas). Há vários detalhes interessantes no mapa que reproduz a configuração urbana das vilas do Capão do Leão e Teodósio - ambas consideradas sedes do antigo quarto distrito. Dentre eles, citamos:

  • Muitas ruas ainda estão nomeadas por números, denotando o fato que receberam os nomes atuais somente após a emancipação do município em 1982.
  • O atual calçadão da Praça João Gomes era uma rua (eu me recordo desta rua até o ano de 1989) que recebia o nome de Corredor da Estação.
  • A rua Jaime Ferreira Cardoso, embora já identificado no mapa, conjuntamente é identificada ainda como Corredor da Pedreira. Bem como a rua Professor Agostinho recebe a alcunha de Corredor da Sub-prefeitura.
  • A própria Sub-prefeitura é localizada no fim da Rua Professor Agostinho, no atual recinto do CTG Tropeiros do Sul. Vale lembrar que, de acordo com nossas informações, a sub-prefeitura já havia sido transferida para a Avenida Narciso Silva em 1976. Por isso, nos faz crer que o mapa tenha sido copiado de um anterior um pouco mais antigo.
  • À direita da Rua Jaime Ferreira Cardoso, existe uma lacuna urbana que somente é interrompida por uma espécie de loteamento de duas grandes ruas paralelas, formando os quarteirões 22 e 23. Trata-se das ruas Bernardino Moreira dos Santos e Francisco Tomé Real. Interessante é que na mesma publicação cita-se a existência de uma Vila Real no Capão do Leão, tal qual conhecemos hoje e que correspondia originalmente a este primitivo loteamento.
  • Uma outra lacuna urbana surge entre a Vila Real e a zona da atual Vila Casaubon. Surge, então, o denominado "Corredor do Cemitério" que é a atual Rua Manoel Vasquez Villa e um aglomerado de quarteirões até a antiga linha férrea que descia do Cerro do Estado e fazia junção à linha férrea Rio Grande-Cacequi. 
  • A zona do Teodósio possui poucas ruas.
  • A rua Othon Ribeiro é identificada no mapa já com esta denominação, mas com a observação "Corredor divisa Teodósio/C. do Leão", indicando assim que naquela época já se colocava este logradouro como limite das duas localidades.
  • A rua Teófilo Torres ainda não se juntava à rua Idílio Vitória, assim como a Idílio Vitória não se dirigia ainda ao encontro da rua Thomaz Aquini. Na esquina com a rua João Rouget Peres, a Idílio Vitória findava.
  • Não havia a rua Joaquim Carpter e a rua Joana Conde Pucci não tinha uma das saídas, somente com a Avenida Narciso Silva.
Outras curiosidades encontradas na publicação:
  • Embora não estejam publicados mapas das zonas do Parque Fragata e Jardim América, no índice de logradouros do mesmo guia foi possível aventar que existia ruas numeradas no bairro Jardim América até o número 86, bem como o Parque Fragata (que já é citado nesta época) até o número 09. 
  • As linhas de ônibus urbanos e rurais que atendiam a região eram: a do bairro Jardim América, que partia do chamado "abrigo do centro" em Pelotas, que era atendida pela TURF (Empresa de Transportes Urbanos Rurais do Fragata); a do Capão do Leão, que partia da chamada "Primeira Galeria" (o mesmo lugar atual) e já era atendida pelas empresas Santa Silvana e Bosenbecker.; a do Arroio Moreia (passava por parte do atual território do município), que partia da esquina das ruas Lobo da Costa e Mal. Deodoro, e era atendida pela empresa Kopereck; a do Passo das Pedras, que partia no horário das 6h30min da antiga rodoviária na rua Gal. Osório e nos horários das 11h30min e 17h no ponto defronte ao Hotel Majestique, atendida pela empresa São Vendelino; a da Coxilha Florida (para quem não sabe é uma localidade no interior do município de Capão do Leão), que partia da antiga rodoviária na rua Gal. Osório, também atendida pela empresa São Vendelino. Nota: particularmente eu me recordo desta empresa São Vendelino passando pela avenida Narciso Silva até aproximadamente 1991.
  • As feiras livres na Vila do Capão do Leão deveriam acontecer às terças-feiras, a partir das 9 horas da manhã, no Corredor da Estação Férrea.


Habitações típicas do Rio Grande do Sul

Rancho de torrão em Jaguarão/RS.
Imagem extraída do link original: https://www.flickr.com/photos/bombeador/259446392

"Francisco de Paula Cidade nos informa que 'a ramada deve ter sido o recurso espontâneo, utilizado pelos que primeiro entraram no Rio Grande'. Pela escassa proteção oferecida, teria a ramada primitiva 'evoluído para o rancho de capim'.

Atualmente, preferem utilizar a ramada somente para sombra durante o verão. Rareiam as que servem de cozinha improvisada, junto aos ranchos. A ramada comum é formada por quatro estacas, sustentando uma armação ou coberta, em plano inclinado. Faz-se a cobertura, aproveitando ramos ou palmas de jerivá.

Ranchos de capim - Apesar de já escasseando, ainda se verifica este tipo de habitação. Os beirados do teto (de duas águas) de armação de taquara com trama de capim atingem o solo.

Suas denominações diferem em algumas regiões: 'bendito' na Campanha e 'xicaca' em São Gabriel.

No litoral, aparece os de feitio semelhante, porém utilizando tiririca (esteiras), abrigando pescadores de camarão. No Planalto, protege vendedores de pinhão, havendo uma adaptação com cobertura de plástico.

Ranchos de torrão - Este tipo de construção, geralmente de duas águas, encontra-se em vários pontos do Estado. Há, igualmente, os de meia-água (uma só caída de telhado), mais favorável para proteger dos ventos das planícies. Retira-se o torrão com pá, no comprimento de um palmo e meio, por um de largura e um de profundidade. As paredes são levantadas com os torrões, utilizando-se armação de troncos nos cantos ou esquinas para a porta e janela. Constrói-se o teto de madeira que repousa sobre as paredes do torrão. Faz-se a cobertura de quincha de santa-fé (Panicum riculare, Trin) ou de outros capins e, o chão, de terra batida, aproveitando a terra dos cupins (casa de térmitas).

Rancho de leivas - Denominação dada, na região sul, a ranchos feitos de leiva, construindo-se de forma idêntica aos de torrão; difere porém deste, por ser a leiva mais fina, conservando-se a cobertura de capim (Santa Vitória do Palmar).

Rancho de leivas em Arroio Grande
Imagem extraída do link original: https://www.flickr.com/photos/pedivela/366249433

Rancho de palha - Encontrando no litoral, especialmente, nos fundos das casas, serve não só como moradia, também para guardar objetos em desuso. Os pescadores colocam, neste tipo de rancho, seus apetrechos de pesca. Muitas famílias têm ali, seu fogão para a fritura de peixes, evitando, assim, o cheiro e a fumaça no interior da casa.

Para sua construção, fazem, em primeiro lugar, armação com varas grossas: esteios, linhas, etc. Os esteios são fincados no chão. As paredes ou lados do rancho, feitos de esteiras de tiririca (Carex uruguaianensis) ou de junco, são colocadas de baixo para cima, tanto nas paredes, como na cobertura. A fim de prender as franjas de palha, coloca-se sobre elas, uma taquara nua. A amarração das esteiras é feita com arames, ou pregada.

Há outros ranchos feitos de juncos (paredes) e cobertos com espadana (tipo de palha). (Mostardas).

Rancho barreado - Usado em várias regiões do Estado. Faz-se, nas Missões, com armações de estacas fincadas no chão. Sobre a armação, tramam-se taquaras lascadas. Há quem trame, também na tela de taquara, ramos. A seguir, barreiam. Ao barro socado, juntam capim picado ou estrume de gado, para obter melhor liga. O barreado é feito, tanto pelo lado interno, como externo nas paredes. Não costumam pintar a cal, como ocorre nos estados do Nordeste. A cobertura é feita de quincha de santa-fé, capim barbacena e outros capins.

Na fronteira com o Uruguai, encontram-se ranchos mistos: barreados até certa altura e, daí para cima, de esteira de palha.

Rancho de xaxim - Verificam-se ranchos de xaxim na região serrana (São Francisco de Paula).

Casas de madeira - Tipo de casa comum no Rio Grande do Sul, é encontrada nos mais variados feitios, tanto coberta com telha de barro, de zinco, como telhas de madeira ou com cobertura de palha ou capim.

Na região do Alto Uruguai, fazem-se casas de lascas de madeira e também de costaneira. Confeccionam-se alguns telhados com tábuas na horizontal, isto é, em escamas. (Cel. Bicaco, Redentora).

Enxaimel - Não só nas zonas de colonização alemã, verifica-se o tipo enxaimel. Esta construção de armação de madeira com tijolos ou pedras, expostas para levantamento da parede, é bastante generalizada nas Missões, onde tais construções, são bem mais recentes que as de zona colonial alemã. Em Agudos, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, apenas o madeiramento aparece exposto. (Enxaimel: armação para bolo).

Casa ou rancho de pedra - Nas Missões - São Luiz Gonzaga, São Borja, São Nicolau, Santo Antônio das Missões, Itaqui, as casas de pedra são comuns. Superpõem-se as pedras, mesmo irregulares, com barro. Os telhados são de meia-água, com a frente mais alta. Este tipo de telhado se observa em quase toda a fronteira castelhana. Algumas, mais toscas, apresentam como abertura para ventilação, triângulos em altura superior a das janelas.

Nas regiões onde há pedreiras de laje, este material é bastante aproveitado na construção de casas, mas com argamassa de cal, areia e cimento.

Casa de lata - Aparecem na fronteira com o Uruguai (Quaraí, Santana) e em outros pontos como: Júlio de Castilhos, Tupanciretã. Algumas são feitas de latas de azeite abertas, aproveitando apenas as laterais, reduzidas as chapas, que se interligam por rebatimento. Em Quaraí, encontram-se as construídas por grandes chapas.

Casas da região de colonização italiana - Faziam-se as casas (mais antigas da região italiana) de pedra, atualmente, substituída pela madeira. Contam com dois andares. A parte térrea, comumente de pedra ou tijolos é denominada 'lagar'. Os lavradores, que fabricam seu próprio vinho, tem aí, sua cantina. A parte superior da casa, geralmente de madeira, não oferece muita beleza. Os telhados, de duas águas, são cobertos de folhas de zinco, telhas de barro ou tabuinha.

Os beirais dos telhados apresentam ornatos de madeira recortada (lambrequins).


Casa italiana em Farroupilha/RS
Imagem extraída do link original: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1827134 


Casa de passagem - Em algumas localidades (colônia italiana), os lavradores que moram distantes do núcleo (praça, igreja, comércio) têm sua casa de passagem, (ficam lá apenas no domingo). Pequena, oferece apenas o estritamente necessário: cozinha e uma saleta com catres para descanso.

Casa 'bolante' ou 'volante' - Tipo de casa, encontrada no litoral, que pode ser deslocada facilmente. Em São José do Norte, há 'volantas' sobre rodas. Em Santa Vitória do Palmar e Mostardas, 'volanta' com arames grossos ou correntes para ser puxada com o auxílio de rolos ou troncos.

O puxado - É de grande importância este aumento ao telhado da casa. Caída de meia-água, onde geralmente funciona a cozinha. Há puxados feitos dos mais diversos materiais e em quase todas as regiões do Estado.

A tenda - Tipo de puxado que se liga ao comércio de estrada ou rua, onde o zelador ou proprietário pernoita, contando com cozinha rudimentar.

Maloca - Nas periferias da cidade, os arranchamentos ou malocas demonstram a criatividade e o aproveitamento dos mais variados materiais. Mesmo nesse tipo de moradia, que indica a carência de bens materiais de seu morador, podem ser observadas latas com flores e folhagens penduradas pelas paredes externas, fato comum em todo o Estado.

Casa sobre estacas - Este tipo de edificação palafítica é encontrado, tanto no litoral, como em áreas ribeirinhas.

Vila (casa com nome) - Denominação de casa comum no Rio Grande do Sul. Além de fazendas, granjas e chácaras apresentarem sua denominação em placas nos portões, aparecem casas com os mais diversos nomes, especialmente na área litorânea.

Galpão - O galpão gaúcho merece um destaque especial. Podemos dizer que ele centraliza-se as atividades do homem rural. Aí, dormem os rapazes solteiros da casa e a peonada (em repartição). É o local onde se guardam os arreios, laços, marcas, enfim, todo o material campeiro. No galpão, fica o fogo de chão, fogo que não dorme. O 'pai do fogo', tronco queimado dias a fio, é substituído, quando enfraquece. Esquentam-se neste fogo chaleira ou cambona para o mate. Quando a peonada é muita, nele se faz a primeira refeição matutina (para ela). No inverno, é o local onde se 'quenta fogo'. A vida pecuarista no Rio Grande sempre girou em torno dele. A importância deste fogo de chão, foi tanta, em determinada época, que se pagava imposto de fogão, denominação dada, também, ao fogo de chão.

O tamanho do galpão é variável. A parte do fogo de chão, geralmente, tem apenas três paredes: a outra, inteiramente aberta, dá para fora. Os galpões, comumente, são feitos de madeira bruta, podendo, também, ser confeccionados de tijolos, pedra ou de barro batido. Utiliza-se, para a cobertura, quincha de capim, tabuinha, telha de barro ou tábuas (escamas). É de construção rudimentar, (esteios, linhas, tesouras são comumente de troncos rústicos). As paredes internas, quando as possuem, vão só até uma altura, não tem forro. Alguns apresentam quartos assoalhados. Tem porta interna para os dormitórios; para as outras repartições, só aberturas. As janelas comumente se abrem para fora, elevadas com estacas ou são de correr.

A parte do fogo é sempre de chão batido. Muitos galpões alicerçam, sobre o baldrame, madeira grossa onde pregam-se as tábuas da parede.

Telhados, aberturas e plantas - Duas águas é o telhado com duas inclinações: meia-água, apenas uma inclinação. O de quatro águas, chama-se redondo na região do litoral. Beira-chão, o telhado que encosta no chão, tipo 'bendito'.

A telha portuguesa é uma característica das antigas localidades de formação luso-brasileira. As janelas apresentam-se de várias formas, sendo as mais comuns de um tampo: as de correr, as de levantar, com as respectivas trancas.

As portas geralmente são de uma folha, encontrando-se também de duas.

As casas de tradição lusa, apresentam a característica de frente com porta e janela. A forma de construção na disposição de quadrado (pátio interno) e de ele são bastante comuns no Rio Grande do Sul. 

Dependendo das posses de seu dono e, em segundo lugar, da região onde é construída, a casa pode contar com: sala, cozinha e dormitório (vila operária). No interior do Estado, casas de fazenda dispõem-se de maior número de peças e, em algumas, acham-se alcovas interligadas com uma só saída para o corredor. As casas de estâncias têm, ao lado, seus galpões.

Tijolo adobe - Em várias localidades, tanto em construções antigas como atuais, aparece tal tipo de material. Os tijolos geralmente são do tamanho maior que os forneados e apenas secos ao sol.

Fabrica-se manualmente, com socadeira e guilhotina rudimentar. É, tanto usado na construção tipo enxaimel, como de outro tipo.
Tijolo adobe

Tijolo a campo - Feito em fornalha rudimentar no próprio campo, onde é retirado o barro. (Quaraí, Bagé, Livramento, Rosário do Sul, Viamão).

Parede socada - Em construções antigas, há o tipo de parede socada ou 'estuque' (armação de madeira onde socavam barro com pedras; depois, a armação era retirada).

Telha de tabuinha - Aproveitam a cabriúva, melhor madeira para a tabuinha, depois a grápia e a canela-guaicá. Madeira que lasca não serve. Uma cobertura, feita de cabriúva, pode durar até trinta anos. Cada tabuinha mede 0,60 cm de comprimento; sua largura é incerta. São colocadas por meio de pinos de madeira ou de pregos. Na região serrana, as tabuinhas levam dois furos, na parte superior, amarradas nas ripas com arame.

Cobertura de sacos de cimento - Usam-se vários tipos de coberturas nos arranchamentos, tanto de área urbana como rural, aproveitando materiais como: sacos plásticos (de adubo), presos com ripas, sacos de cimento pichados e presos com ripas. (Ijuí e Júlio de Castilhos).

Festa da cumeeira - Festividade popular, quando em torno da colocação da cumeeira (telhas ou material que dá o toque final no telhado). O dono da casa oferece um churrasco regado a vinho, chope, cachaça, aos que o ajudaram no trabalho da construção da casa."

Fonte: MARQUES, Lilian Argentina B. & alii. Rio Grande do Sul: Aspectos do Folclore. Porto Alegre/RS: Martins Livreiro Editor, 1998, p. 160-165.




terça-feira, 14 de novembro de 2017

Mariana Eufrazia da Silveira

Intendência Municipal de Pelotas e Bibliotheca Pública Pelotense

Por Fernando Osório

"Esta senhora, que veio a ser figura principal na data da fundação, aportara ao Rio Grande do Sul, com sua família, por ocasião de virem os primeiros casais portugueses que aqui se estabeleceram no princípio do século XVIII. Juntamente vieram suas irmãs Izabel Francisca, que casou com o capitão-mór Manoel Bento da Rocha, e Joaquina Margarida, que casou com Domingos Gomes, estancieiro em Itapoã. D. Mariana matrimoniou-se com o capitão-mór Francisco Pires Cazado, de cujo enlace houve a seguinte prole: Rozalia, nascida em 1752 (família Rabello); Mauricia n. 1758 (veio a ser sogra de Antônio José de Oliveira Castro); Manoel Marcelino Pires, n. 1759 (família Pires, de Porto Alegre); Maria Eufrazia, n. 1770, casou com Alexandre Ignacio da Silveira (família Aquino); Ignacio Antonio Pires, n. 1773; Joanna, n. 1775 (sogra de Guilherme Rodrigo de Carvalho e de Francisco Gonçalves Pires). Houve outros filhos, que morreram solteiros. Foi senhora de quase toda a área que compreende esta cidade (nota nossa: Pelotas). Doou terreno suficiente para nele se construir uma grande igreja, um quartel e uma cadeia (em parte desse terreno é que se construiu a Bibliotheca Pública Pelotense e a atual Intendência Municipal)."

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Arquitetura alemã no Rio Grande do Sul


Casa alemã em Picada Café/RS
Imagem original do link:http://www.casasenxaimel.com.br/page8.aspx

"Em geral classificam-se as casas dos imigrantes como 'tipicamente alemãs'. Num primeiro relance, assim pode parecer: a estrutura em enxaimel (Fachwork), com fechamento de adobe, taipa, tijolos ou arenito; tesouras feitas segundo o modelo alemão, sem cumieira e construídas de forma a deixar um espaço sem escoras sob o telhado; geralmente construído em encostas, com um porão contido por grossas fundações de arenito aparelhado. Tudo isso confere uma fisionomia característica e inconfundível à casa do imigrante alemão.

Mas, será 'tipicamente alemã'?

A casa na Alemanha
Ao tempo da imigração, a arquitetura em enxaimel já cumprira uma evolução multissecular e apresentava muitos estilos e tradições construtivas. Nos burgos, se tornara formalmente sofisticada e tecnicamente requintada. Nas vilas rurais, ela se manteve mais simples e horizontal, com características próprias para cada região. Isso torna difícil descrever de forma sintética a casa rural na Alemanha. A grosso modo podemos dizer que todas as funções eram abrigadas sob um só telhado: moradia, estábulos, depósitos de ferramentas e utensílios, tudo disposto racionalmente em torno de um fogo central que servia, em primeira linha, para aquecer a casa no inverno. Sob um telhado muito alto e em vários andares, estavam os celeiros e depósitos de feno. Carroças e apetrechos necessários ao trabalho da terra ficavam num espaço central, contínuo ao fogo. Este tinha as funções de cozinha e calefação e, ao seu redor, se desenvolviam os principais serviços da casa. Contíguos, ficavam os quartos que, por vezes, se resumiam em minúsculos nichos fechados por uma simples cortina.

A casa do imigrante
Diante disso, vemos que a casa do imigrante pouco tem de 'tipicamente alemã'. A diferença fundamental está em que a casa 'explodiu' em suas múltiplas funções. Aqui temos uma série de construções, como estábulos, chiqueiros, galinheiros, paióis, depósitos, forno, retrete, dispostos organicamente em torno de um ou dois pátios centrais. Nem a moradia fugiu à regra. Aqui, separavam-se claramente a 'casa' da 'cozinha'. Esta era um pequena construção de dois compartimentos: num se cozinhava e o outro era o comedor. A 'casa' ficava afastada alguns metros. Em planta-baixa era muito simples. Via de regra havia uma sala central com os móveis dispostos ao longo das paredes, de maneira a formar um espaço livre central. Conforme o tamanho da família, haviam dois, três ou quatro quartos. Eram construídos aos pares nas extremidades da casa. Quando haviam três quartos, um ficava ao lado da sala de estar. Muitas vezes uma escada íngreme que levava ao sótão servindo de depósito para cereais, arreios, velharias e onde podia haver um quarto para os rapazes solteiros.

As razões deste dualismo (casa - cozinha) era o perigo do fogo: se a 'cozinha' queimasse, a 'casa' ficava preservada. É interessante notar que, se na Alemanha o fogo era o elemento centralizador da construção, aqui era o motivo alegado para a separação. É bem evidente que haviam outras razões para esta separação que não podemos discutir aqui.

É interessante assinalar que, esta descrição é válida para todas as correntes imigratórias provindas da Alemanha, apesar de sua diversidade de origem (francos, alamanos, godos, visigodos, polacos, judeus) de forma que, só com algum cuidado, podemos distinguir certas nuances que diferenciam as construções dos imigrantes de diversas origens. Daí se deduz que houve efetivamente uma integração social entre os alemães no Rio Grande do Sul, muito antes da unificação da Alemanha por Bismarck. Podemos efetivamente falar de uma cultura arquitetônica teuto-brasileira. Se os imigrantes trouxeram alguns elementos como, por exemplo, a técnica construtiva e alguns esquemas de ordenação especial, estes foram profundamente revisados e aqui encontraram uma expressão nova e original."

Fonte: WEIMER, Gunther. Arquitetura alemã. In: EDEL LTDA. Sesquicentenário da Imigração Alemã/Hunderffünfzig-Jahre Deutscher Einwanderung (álbum oficial). Porto Alegre/RS: Sociedade Editora de Publicações Especializadas EDEL Ltda., 1974, p.173-174.


domingo, 12 de novembro de 2017

Maria Antonia da Cunha Mendonça


Por Fernando Osório

"Irradiando os tesouros de uma natureza moral privilegiada, os oitenta e três anos com que faleceu, a 13 de novembro de 1921, D. Maria Antonia da Cunha Mendonça fecharam para Pelotas o ciclo de amantíssima, de tradicional e querida existência. É belo viver assim! E, bela morte piedosa, dos que deixaram

'...a vida!
Pelo mundo, em pedaços repartida!'

A egrégia senhora, no adeus derradeiro da família estremecida, teve o seu féretro amado coberto de flores, orvalhadas pelas lágrimas de todo o meio social. Colhidos, especialmente, pela nova dolorosa, os pobrezinhos, a quem sempre D. Maria Antonia dedicava as abundâncias da sua ternura e a piedade excelsa da sua fé, sentiram, numa tristeza infinita, a turvação da perda formidável. E, numa onda de amor, a Ordem de Nossa Senhora do Carmo, de que era D. Maria Antonia priora jubilada, conduziu-lhe o corpo inanimado até a Igreja do S.C. de Jesus, onde, com expressiva aproximação popular, decerto tão cara à memória da extinta, teve a encomendação religiosa, seguindo, após em longo cortejo, para o regaço da saudade, branca de cinzas e de lajes... D. Maria Antonia Mendonça, tronco de respeitável família, era filha do Comendador Alexandre Vieira da Cunha e D. Maria Josepha Leopoldina da Silva e viúva do saudoso pelotense Francisco de Paula Jacintho de Mendonça."

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Maldição de Santa Isabel, Arroio Grande


Programa "Histórias Extraordinárias" exibido em 18 de março de 2009 pela RBS TV sobre a lenda da maldição da localidade e distrito de Santa Isabel, no vizinho município de Arroio Grande. Disponível no canal de Ga Tonotu Bo no YouTube.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O cavalo na Idade Média


"O cavalo é fundamentalmente consagrado à guerra, sobretudo após as invasões dos bárbaros da estepe, cujo avanço foi rápido e cobriu distâncias enormes: godos que partiram do Dnieper e chegaram à bota italiana ou ao sul da Espanha, vândalos que passaram da Silésia à Andaluzia e depois por Cartago... A cavalaria pesada foi a base das conquistas dos grandes Carolíngios, Pepino e Carlos Magno. Desde esta época usa-se o sagmarius, cavalo de carga e de tração, para as carroças, ao lado do destrier (cavalo de combate, com freio, ferradura, sela alta, estribo, testeira) para o cavaleiro com esporas, do palafrém (cavalo de passeio), da égua para as damas, do rocim (cavalo de uso comum) e do cavalo robusto para charrete e arado. Este último começa a se difundir nos séculos XII e XIII, por exemplo, nas terras pesadas onde sua velocidade de trabalho, mais que sua força, faz concorrência ao passo lento dos bois; é verdade que é preciso um 'combustível' caro para esse novo trator: a aveia.

O cavalo é muito importante para a classe cavaleiresca: os poemas épicos, os romances da corte, estendem-se longamente na biografia desses nobres corcéis, respondendo assim à expectativa dos leitores ou auditores. Todo destrier tem um nome, não somente o grande Bayard dos quatro Aymon, ou Veillantif (cavalo de Rolando), mas também Beaucent (de Guilherme da Aquitânia), Ferrant (de Girard de Roussilon), Broiefort (de Ogier, o Dinamarquês)...

Mesmo sem nome, e substituído sem remorso após sua morte em combate, o cavalo de guerra permanece o mais nobre dos animais; sua estrebaria localiza-se o mais perto possível da casa de seu senhor e ele é frequentemente melhor acomodado e melhor tratado que muitos servos. O cavalo de fazenda trabalha mais rápido e por mais tempo que o boi, mas é caro e frágil; as ossadas encontradas mostram que são utilizados até seu limite, em uma idade avançada, 13 anos, às vezes mais; sua morte não rende nada a seu proprietário a não ser o couro, em razão do tabu hipofágico."

Fonte: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru/SP: Edusc, 2006, p. 61-62.

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