quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Alemão-Negro


"Os imigrantes teuto-gaúchos, como outros imigrantes vindos ao Brasil deveriam cumprir certas condições, para em troca receber seus lotes de terra.

Entre estas 'ordens' encontram-se leis que proibiam ao colono alemão o direito de ter escravos negros, deveria morar em seu lote de terra e o trabalho empregado na lavoura deveria ser o seu próprio e de sua família.

A cada uma das Províncias do Império ficam concedidas no mesmo, ou em diferentes lugares de seu território, seis léguas de terras devolutas, as quais serão exclusivamente destinadas à colonização e não poderão ser roteadas por braços escravos.

Nas colônias alemãs o negro estava presente, mas nunca existiu a relação escravista. O negro era tido como empregado do colono alemão, não possuía direito algum, mas também não era maltratado pelo colono, existia entre eles uma relação diferenciada pela cor.

A bem da verdade, deve-se dizer que havia exceções quanto ao tratamento, pois muitas famílias que se serviam de seu trabalho tratavam-no bem, fazendo deles, apenas 'empregados', obviamente sem direitos, mas sem lhes infligir os maus tratos referidos nos livros de História.

O convívio do negro com o colono alemão fez com que o antigo escravo adotasse o idioma do seu patrão. 'Como curiosidade cabe citar que os negros, por viverem em companhia de gente que falava alemão, acabavam assimilando o idioma como se sua própria língua fosse.'

Um dos indícios da integração entre estas duas etnias - o negro e o alemão - poderia ser observada na educação dos seus filhos, pois negros e colonos frequentavam a mesma escola. 

As únicas diferenças visíveis entre o empregado negro e o patrão alemão era a cor e a moradia mais simples do empregado de cor.

Os negros chegaram a ter relações de emprego com os colonos, mas sem nenhuma conotação escravista, embora a relação fosse escalonada: branco é branco e preto é preto. Suas casas eram simples choupanas ou casas de bambu trançado e preenchido com barro vermelho. Dizia-se em dialeto hunsrück que era um 'vechehaus', casa de preto. Curioso é que os negros iam nas mesmas escolas dos colonos. Não se sabe de nenhum 'quebra-quebra' que isso tivesse causado. Disso tudo resultou um fato curiosíssimo. Em vez de os colonos aprenderem a falar melhor o português, foram os negros que passaram a falar alemão. Deveria ser uma figura inesquecível um negro retinto dizer a conhecida frase a eles atribuída: 'Mie daitsche Buwe misse sesame halle!', em dialeto, e que significa: 'Nós jovens alemães temos de ficar unidos!'."

Fonte: HEPP, Vera Enilda Pautz. Imigração alemã e as transformações culturais: o exemplo da Colônia Passo do Santana - Cerrito - RS. Monografia de conclusão do curso de Licenciatura Plena em Geografia, Instituto de Ciências Humanas, UFPel, 2002, pág. 37-39.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

A Colônia do Sacramento


"A fundação da Colônia do Sacramento na margem norte do Rio da Prata conjugava os interesses dos comerciantes do Rio de Janeiro, interessados na retomada do intenso comércio com Buenos Aires existente na época da União Ibérica, assim como os da Coroa Portuguesa, que desejava expandir seus domínios até o Rio da Prata. Os principais elementos responsáveis pelo desenvolvimento da rede contrabandista eram os lusos. A relativa proximidade do Prata com os portos brasileiros e a facilidade de obtenção de escravos em suas feitorias na África foram os principais fatores da preponderância comercial dos luso-brasileiros em Buenos Aires durante a União Ibérica.

Essas vantagens levaram os portugueses a investir num entreposto no Prata.

D. Manuel Lobo tomou posse do governo do Rio de Janeiro em 09 de maio de 1679, dando logo início à preparação da expedição que viria a fundar uma fortaleza às margens do Rio da Prata. Em janeiro de 1680 D. Manuel Lobo fundou a fortaleza do Santíssimo Sacramento em frente às ilhas de São Gabriel. Contudo, a expedição não pôde resistir ao ataque combinado das forças coloniais espanholas e dos exércitos indígenas das missões jesuíticas, grupos para os quais a presença portuguesa no Prata constituía uma grande ameaça. A destruição de Sacramento, oito meses após sua fundação, levou o príncipe regente forçar a Coroa espanhola a restituir-lhe a posse do território, o que lhe foi concedido através do Tratado Provisional de 1681.

Foram bastante difíceis os primeiros anos que se seguiram ao restabelecimento dos portugueses em 1682, quando as restrições do governo de Buenos Aires, que procurava impedir o contrabando e a exploração do gado selvagem que abundava na campanha, se somaram à corrupção generalizada que marcou o governo de Cristóvão Ornelas de Abreu (1683-1689). A situação melhorou consideravelmente sob as administrações de Francisco Naper de Lencastre (1689-1699) e de seu sucessor, Sebastião da Veiga Cabral (1699-1705), com o incremento da política de povoamento e da exploração das riquezas pecuárias da região.

A Guerra da Sucessão Espanhola colocaria Portugal e Espanha em campos opostos na Europa, resultando no rompimento das hostilidades na América e no abandono de Colônia aos castelhanos em 1705. A guerra terminou com a assinatura dos tratados de Utrecht, nos quais Felipe V teve de fazer várias concessões a fim de obter o reconhecimento das nações europeias à ascensão dos Bourbons ao trono espanhol. O tratado de paz com Portugal, assinado em 1715, assegurou aos portugueses a devolução do território da Colônia do Sacramento.

A partir de então, a Coroa Portuguesa iniciou uma verdadeira política de povoamento na região, enviando sessenta casais da província de Trás-os-Montes em 1718 para dar início à agricultura e desenvolver criação de gado, assim como garantir uma guarnição militar permanente. As constantes deserções dos soldados que serviam em Sacramento levaram o Conselho Ultramarino a defender o envio de casais, argumentando que 'à experiência de tantos desertores será melhor que vão casais porque não é tão fácil largarem suas mulheres e filhos e irem viver em reino estranho'. Logo os povoadores foram enquadrados no sistema militar, pois antes de chegar ao seu destino, a Coroa já enviara trezentas armas para a formação de 'algumas companhias de ordenança dos mesmos casais que ajudem a defesa da dita praça'.

Se os primeiro tempos ainda foram difíceis devido aos problemas de abastecimento que marcaram o governo de Manuel Gomes Barbosa (1716-1722), a situação mudaria com a chegada do seu sucessor. A junção do apoio decidido da Coroa à capacidade administrativa do governador Antônio Pedro de Vasconcelos (1722-1749) foram os fatores responsáveis por um período de grande desenvolvimento que pode ser considerado como o apogeu da presença portuguesa no Rio da Prata.

Porém, a prosperidade dos habitantes da Colônia do Sacramento preocupava a Coroa espanhola, lesada pelo intenso contrabando, enquanto os colonos e os índios das missões conviviam a contragosto com a concorrência portuguesa na exploração do gado selvagem. A tensão permanente, alimentada pelos frequentes conflitos com os espanhóis e indígenas na campanha, chegaria ao auge em outubro de 1735, quando as tropas castelhanas apareceram em frente aos muros da Colônia do Sacramento, iniciando um sítio que duraria cerca de dois anos. 

Embora os lusos-brasileiros tenham conseguido impedir a conquista da fortaleza, o armistício de 1737 iniciou uma nova fase da história do Sacramento. Como observou Rego Monteiro, 'terminou o período áureo da Colônia do Sacramento, jamais voltaram a ter seus arredores aquela riqueza de produção, que fazia dela a cobiça espanhola'. Mas, se o campo de bloqueio espanhol, ao invés de impedir, contribuiu para o desenvolvimento do contrabando entre os súditos de Portugal e Espanha, a limitação do uso da campanha ao pequeno espaço permitido pelo campo de bloqueio impediu a retomada da produção agrícola e pecuária por parte dos habitantes da Colônia do Sacramento, que tiveram que buscar o abastecimento entre os espanhóis. 

A busca por gêneros alimentícios em Buenos Aires justificava a presença constante de embarcações portuguesas na cidade, que na maioria das vezes transportavam mercadorias de contrabando. Também era frequente a passagem de suprimentos através da guarnição responsável pela manutenção do campo de bloqueio. Segundo Fabrício Prado: 'Tal momento marca uma inflexão da estratégia lusitana. A Colônia do Sacramento, a partir de então, assumia a constituição de um porto comercial sem um entorno agrícola e uma possível moeda de troca por territórios de Espanha'.

Embora o Tratado de Madri, em 1750, estipulasse a troca da Colônia do Sacramento pelos Sete Povos das Missões, ela jamais foi efetivada, sendo que o Tratado de El Pardo, de 1761, anulou o anterior. A guerra voltaria ao Prata como consequência do conflito europeu que opôs os Bourbons à maior parte das demais nações europeias, entre as quais Portugal, resultando na capitulação de Colônia frente ao governador de Buenos Aires, em setembro de 1761. Pelo Tratado de Paris, assinado em fevereiro de 1763, a influência da Inglaterra, novamente líder vitoriosa de outra liga contra Espanha e França, obrigou a Coroa espanhola a devolver Colônia aos portugueses.

Entrementes, uma nova guerra entre Espanha e Portugal, desta vez sem a participação dos seus poderosos aliados europeus (respectivamente França e Grã-Bretanha), possibilitou a reconquista de Sacramento pelos castelhanos em 1777. Sem a ajuda dos britânicos, cujos esforços estavam direcionados para o combate à Revolução Americana, os portugueses não puderam assegurar seu retorno ao Rio da Prata, sendo que o Tratado de Santo Ildefonso, assinado em outubro do mesmo ano, manteve a Colônia do Sacramento em poder da Espanha, situação que seria ratificada pelo Tratado de El Pardo, assinado em março do ano seguinte.

Antes de tudo, a Colônia do Sacramento foi uma praça de guerra destinada a defender os interesses comerciais e territoriais da Coroa Portuguesa no Rio da Prata."

Fonte: POSSAMAI, Paulo César. A Guarnição da Colônia do Sacramento. In: ______________. Gente de guerra e fronteira: estudos da história militar do Rio Grande do Sul. Pelotas: Ed. da UFPel, 2010, pág. 13-16.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Dia da Violeta


"O 'Dia da Violeta'

PELOTAS, 10 (Via aérea) - A cidade, ontem, esteve em festas, com o 'Dia da Violeta', em que as nossas ruas foram atravessadas por grupos de gentis senhoritas e garrulas meninas, no nobre afan de trocarem por qualquer generosa dádiva da nossa população, violetas, cujo produto reverteu em favor do 'Asylo de Meninos Desvallidos'.

A gentil senhorita Yolanda Pereira, 'Miss Rio Grande do Sul', acompanhada das graciosas soberanas das associações locaes, esteve nos bancos e no alto commercio, recolhendo dádivas para o 'Dia da Violeta', tendo, em toda parte, como era de se prever, escolhida a altura da tradicional philantropia da nossa cidade."

Fonte: O ESTADO DO RIO GRANDE (RS), 11 de Junho de 1930, pág. 08, col. 04

domingo, 7 de outubro de 2018

Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão convida para seu Almoço de Aniversário


No sábado vindouro, 21 de Outubro de 2018, o Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão estará promovendo seu "Almoço de Aniversário" alusivo à comemoração do sexto ano da entidade. O evento é beneficente, dado a entidade não possuir fins lucrativos. O almoço ocorrerá no CTG Tropeiros do Sul, à Rua Professor Agostinho 455, centro do município. O cardápio será carreteiro, feijão e mix de saladas. O ingresso custa R$ 15,00 e pode ser adquirido com os membros da diretoria do IHGCL.

Participe! Colabore!



Canteiro Cultural do IHGCL - Colóquio de Outubro


No próximo sábado, 13 de Outubro de 2018, a partir das 16 horas, na sede do Instituto Histórico e Geográfico do Capão do Leão, à Avenida Narciso Silva 2131, centro do município, ocorrerá o décimo-primeiro colóquio do projeto "Canteiro Cultural" do IHGCL. O palestrante e debatedor será o sr. Vanderley Petiz Silva, personalidade ligada a vários acontecimentos importantes da recente história leonense, que tratará do tema "Emancipação Política de Capão do Leão". 

A entrada é franca!

A Sedição de 1830


"Pouco conhecida, porque abortada, é a Sedição de 29-30 de novembro de 1830, com raízes subterrâneas entre os liberais da Província e os alemães. Visava surpreender a guarnição da Capital e dar um golpe de Estado, substituindo a Monarquia pela República e confederando-a aos Estados do Prata, onde consta que também existia um punhado de subversivos alemães, cuja ligação ou não precisa ser estabelecida.

A Sedição de 1830 deve ser entendida não por sua expressão histórica em si, que não foi significativa, mas como componente de uma realidade maior existente na época, que tinha pretensões a um regime republicano, como estava sendo implantado nas colônias latinas que se libertavam da Espanha, ou mesmo dentro do país, onde as arremetidas do Ten.-Cel. Alexandre Luís de Queiroz e Vasconcelos, o Quebra, por 30 anos tentou proclamar a República, tentativas sempre acobertados pelo atenuante de loucura de seu autor.

Não podem ser menosprezadas também as ideias liberais de alguns imigrantes alemães, notadamente aqueles ex-integrantes do Regimento de Mercenários, que em várias ocasiões deixaram clara sua simpatia com o liberalismo e com o regime republicano. O nome mais expressivo talvez seja o do Major Otto von Heise, que lutara pela independência da Bolívia e do México antes de vir para o Brasil.

O chefe da Polícia de Porto Alegre apontava oficiais superiores do 28o. Batalhão de Caçadores, o batalhão do Diabo, entre eles Otto von Heise, que no entanto integrou o 27o. Batalhão.

O Gen. João Manoel de Lima e Silva, que assumira o comando do 28o. Batalhão em Santa Maria, apresentou cinco cartas de oficiais alemães, que envolviam o mesmo Major Otto von Heise, o Cap. do 6o. Regimento da Cavalaria Gaspar Eduardo Stephanousky e o Cap.-Eng. Samuel Gottfried Kerst, apontando este último como o cabeça. Contratado pelo Brasil para o Imperial Corpo de Engenheiros, Kerst chegou ao Rio Grande do Sul em novembro de 1826 como Ajudante em Chefe do Mal. de Campo Gustavo Henrique von Braun (alemão que assinava Brown desde que servira na Inglaterra, antes de ser contratado para o Brasil, em 1826). Kerst lutou na Cisplatina. Em 1831 manifestou-se contra a abdicação de D. Pedro, sendo preso e remetido para o Rio de Janeiro. Contando com a simpatia do próprio Gen. Lima e Silva - já então ensaiando os primeiros passos contra o Império - a intenção desses insurrectos era formar um partido para proclamar a República no Rio Grande do Sul, da qual Kerst seria o ditador!

A Sedição de novembro de 1830 não foi um fato isolado. Em 20 de junho daquele ano houve a revolta do 13o. Batalhão de Caçadores de Porto Alegre, e em 26 do mesmo mês o Inspetor José Tomás de Lima comunicou sua desconfiança na Guarda Alemã de São Leopoldo, acusando o Comandante da Cia. de Lanceiros Imperiais, Major Otto von Heise, de engajar e fazer sentar praça a diversos indivíduos de São Leopoldo sem o consentimento do governo, o que no mínimo era ato abusivo. Heise se defendeu, alegando sua correta folha de serviços desde a Alemanha, como Ajudante de Ordens do Governo das Armas do 4o. Batalhão de Caçadores e no Corpo de Lanceiros Imperiais. Recolhido à Presiganga, infecto navio-prisão ancorado no Guaíba, que recebia criminosos de periculosidade e presos políticos, obteve sua transferência para prisão domiciliar e sua liberdade.

São ainda apontados como subversivos o aventureiro João Frederico Krüger, espertalhão de quem adiante se fala, e o francês Antônio Sarasin, que em sua atividade de comerciante em São Leopoldo favoreceu os sediciosos de 1830, assim como, mais tarde, os da Revolução Farroupilha, onde, juntamente com seu irmão Afonso, teve notória atuação.

Porto afirma que o descontentamento dos mentores da Sedição de 1830 caminhava paralelo aos anseios do liberalismo que à época grassava na Província, embalando os farroupilhas descontentes com o centrismo monárquico, ideais esses cultivados na Sociedade Continentino, agremiação cultural

que congregava os grandes espíritos liberais comotores da Revolução Farroupilha. Havia conecção dessas ideias também com São Leopoldo, onde um rastilho de sublevação agita os colonos alemães. Isto se reflete no 28o. de Caçadores, composto de estrangeiros, de que eram cabeças ostensivos os oficiais Kerst e Stephanouswky e mais o major Otto Heise, depois célebre farroupilha (Proc., V.4, 436).

A maioria dos historiadores não se detêm sobre a Sedição de 1830 nem há questionamento sobre as ideias políticas de Otto von Heise e seus companheiros, saídos dos campos de luta europeus, em suas relações com os princípios políticos dos farroupilhas, que desde a dissolução da Constituinte de 1823 combatiam o autoritarismo imperial. A documentação deixa claro que houve pontos afins entre os farroupilhas e esses alemães politizados, que costuraram ideias liberais no desempenho de seu papel de soldados na Europa, e que, atendendo ao chamado de Schaeffer em 1823, para servirem de soldados mercenários, trouxeram para além mar as ideias que professavam.

Da Sedição de 1830 participaram também alguns colonos, possivelmente recrutados como o foram na Revolução Farroupilha, e com participação menor porque a documentação nem declina seus nomes. Razões não faltavam aos colonos para descrédito e descontentamento com o governo: pelos subsídios prometidos e não pagos aumentando dívidas difíceis de quitar; pela demora na distribuição dos lotes rurais, mal demarcados, induzindo a dezenas de queixas de morosa solução; pelo não resgate dos vales de subsistência distribuídos aos imigrantes atingidos pelo corte orçamentário de 1830, prejudicando inclusive o incipiente comércio leopoldense... Contudo, tanto em 1830 como 1835, não foram os colonos que se subverteram, mas sim, foram presas úteis a lideranças com experiência em armas e ideias liberais na cabeça.

José Tomás de Lima, Inspetor da Real Feitoria do Linho Cânhamo desde 1822 e, extinta essa em 1825, da Colônia Alemã, residia em São Leopoldo e acompanhava o progresso dos imigrantes, constatando a larga vantagem do trabalho livre sobre o regime escravocrata. Por isso simpatizava com os colonos e defendeu-os do envolvimento na Sedição. Foi afastado do cargo. Seu sucessor, o Ten.-Cel. Salustiano Severino dos Reis, enérgico e intransigente oficial do exército imperial, impôs disciplina férrea, tratando os colonos como soldados insubmissos, o que certamente concorreu para despertar ou avivar descontentamentos, habilmente manejados pelas lideranças quando do recrutamento para a Guerra dos Farrapos."

Fonte: FLORES, Hilda Agnes Hübner. Alemães na Guerra dos Farrapos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995, pág. 22-25

sábado, 6 de outubro de 2018

A sociedade nórdica


"O tríplice universo nórdico é a origem de todas as sociedades germânicas.

Apóia-se numa classe de baendr (singular: bondil), isto é, de proprietários de terra, e entre eles, apoia-se nos chefes de cantão e nos chefes de clã, na paz e na guerra, sacerdotes do santuário local. No seu hall com lareira central, no seu assento-elevado de espaldar esculpido, o chefe comanda um harad (Dinamarca, Noruega Oriental, Gotäland) ou um hundari (Uppland e Gotland). O hundari é a 'longa centena' de 120 guerreiros camponeses, como era costume entre os Francos, os Anglo-Saxões e no conjunto do mundo germânico. Todos os homens livres reúnem-se ao ar livre, cada semana ou cada quinzena, num lugar de culto ou num centro de comunicação. O thing (assembleia) de cantão delega uma representante para o thing superior, o da província.

A província, landskab dinamarquesa, landskap sueca, fylk norueguesa, remonta à pré-história. As quatro províncias dinamarquesas estão separadas por braços de mar; lagos e florestas dividem, na Suécia, o Svealand do Gotäland; cada província norueguesa é compartimentada por um fiorde. Foi no centro destas províncias que desenvolveram as tribos da primeira Germânia.

Quem se apresenta ao thing está protegido por uma 'paz' especial. A região realiza suas assembleias num local central consagrado pelos deuses: o landsthing de Fiônia que se reúne em Odense, santuário de Odin. Para ser proclamado, o rei dinamarquês deve subir sobre a rocha do Daneryg, no landsthing de Viborg, na Jutlândia. O rei sueco, soberano-sacerdote do Antigo Uppsala, é proclamado no thing de Uppland sobre a pedra mágica da campina de Mora.

As realezas unificadoras não estão previstas na antiga divisão territorial da Escandinávia. A única autoridade apoiada nos costumes é o thing de clã e de província, que promulga suas leis e julga as proposições do rei; herdeiro de um Königtum, uma realeza antiquissima, o thing fundamenta suas funções nos seus mitos de proteção comunitária e de fecundidade; ele é árbitro, pacificador, porém não legisla. Somente em caso de guerra sua autoridade é reconhecida por todos: então, ele comanda o levante em massa (lething), para a defesa do litoral e a guerra marítima; e os cantões costeiros de Uppland (Roden) fornecem ao rei os contingentes de remadores; cada um equipa um navio, comandado pelo membro mais importante da família.

(...)

Essas sociedades inteiramente rural, na qual não existem cidades, é portanto centralizada na residência do jarl (chefe regional hereditário) e na herdade do bondi. O chefe norueguês da época viking reside numa casa de madeira, retangular, com uma alta empena inclinada, rodeada de cozinhas, celeiros para víveres, estábulos e dormitórios, onde se alinham as fileiras de catres e os cofres tacheados, espalhados pela 'habitação alongada' (langeldr). Na Dinamarca e na Escânia a construção é uma só, em forma de T, rodeada por um pátio nos três lados; e os muros são, frequentemente, de tabiques. Na Suécia, a casa de madeira às vezes é desmontável. Nem janelas nem chaminés: um orifício no teto, protegido por uma bexiga de porco, esticada num caixilho; contudo, o fazendeiro norueguês tem a sua badhstôfa (sala de banhos).

A fazenda tem sua forja, onde o ferro é trabalhado com martelo, lima e pedra de afiar, segundo uma tradição milenar, assim como o seu tear vertical no qual as mulheres tecem um pano grosseiro, o vadhmâl. Em volta das construções, estendem-se as terras que o bondi possui, através de aquisições ou, por herança (quatro ou seis gerações), em ôdhal: este regime arcaico de propriedade plena protege a herdade contra as divisões e dá ao clã um direito de resgate por preempção, em caso de alienação dos bens. Na época viking, somente os chefes de famílias importantes tinham o direito ao ôdhal.

É neste meio ambiente de aristocratas camponeses, cujos fazendeiros usam a espada, que tem sua origem a corrente viking."

Fonte: LOUTH, Patrick. A civilização dos germanos e dos vikings. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1979, pág. 159-161.
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