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Essa digressão aos domínios secretos e misteriosos do Jurupari era indispensável antes de fazermos o registro de uma das mais longas lendas colhidas por Brandão de Amorim, intitulado "Guerra de Buopé", em face do seu sentido histórico e pela revelação das qualidades deste guerreiro, tuhixaua (Brandão de Amorim prefere esta pronúncia) dos Tárias, ou Tarianas, na forma vernácula, a mais importante tribo do Waupés, que se dizia, de conformidade, com a mitologia tariana, Filhos do Trovão. Essa versão é detalhadamente explicada na lenda de Brandão "Gente Tária", que fora ouvida, pelo autor, do tuxáua Kara, que naquele tempo, 1891, era o mais velho dos chefes Tárias aldeados em São Calixto, já então com o nome de Marcelino.
Barbos Rodrigues, citado e apoiado por Câmara Cascudo, disse que os Tárias constituíam uma tribo de chefes, de fidalgos e de tuxáuas.
Buopé era o grande chefe dessa nação privilegiado de guerreiros indomáveis, que, pela inteligência e sabedoria do seu líder e através de intermináveis e bem sucedidas guerras, conseguiu impor o seu poderio militar e as suas leis em toda a região do Waupés. O sucesso nessas campanhas levou ainda o mesmo Câmara Cascudo a qualificá-lo como "o Carlos Magno dos Tárias", comparação que, mesmo ressalvadas todas as restrições e relatividade no distanciamento cultural entre ambos, não deixaria de ser extremamente honrosa ao herói ameraba do Waupés, ainda vivendo a era neolítica.
Particularmente, de admirar no comportamento do dirigente supremo dos Tárias eram os seus dons de caráter, de magnanimidade, poupando mulheres e crianças em suas campanhas, assim como poupando os tuxáuas vencidos. Parece assim que, sob o ponto de vista moral e humano, Buopé estava bem mais avançado do que os líderes das tribos inimigas suas contemporâneas.
Para comprovar esses seus dons de espírito, reproduzimos aqui um pequeno trecho da lenda "Gente Tária", onde ele deplora a morte de mulheres numa dura refrega guerreira com os Uananas.
Assim conta a narrativa ouvida por Brandão:
"Depois que tudo acabou (alusão à batalha) Buopé foi ver os que tinham morrido, encontrou no meio deles, as mulheres Uananas. Ele voltou para junto de sua gente, disse: Meu coração está triste porque todos nós já sujamos nossas frechas em sangue de mulher!
Iurupari sabe que nós não sabíamos que vinha mulher no meio de nossos inimigos. Não foi de coração que sujamos nossas frechas".
Prosseguindo, num desabado que revela a filosofia e a de sua gente com relação às companheiras, influência, talvez, das leis de Jurupari, exclamou sem ironia, mas com um compreendido sentimento de amargura:
"É bem certo que na terra ainda não vive mulher que tenha cabeça!
Que vieram fazer essas mulheres no meio dos homens?"
A seguir, como num desafogo de consciência, mas com certa tranquilidade, acrescentou:
"Ainda bem não trouxeram seus filhos porque também eles estariam agora aqui sem vida".
Essa manifestação de pesar, esse sentimento de humanidade, seguramente, não seriam comuns entre os chefes de tribos da bacia amazônica de um modo geral, mas partiu de um selvagem nas margens do Waupés, num chocante contraste com a violência, imperante na sociedade moderna, em nossos dias, precisamente quando os conhecimentos humanos, sublimados na tecnologia e na cibernética, conduzem-nos às maravilhas do computador, da desintegração do átomo e da exploração espacial.
Pelo seu discernimento e equilíbrio, sua fama correu longe, a tal ponto que, após a sua morte, o rio que testemunhou as suas proezas e a grandeza da nação Tária, cujo nome original era Ucaiari, passou a ser designado com o nome de Rio Buopé.
Fonte: JORNAL DO COMÉRCIO (Manaus/AM), 04 de janeiro de 1977, pág. 05

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