Quando os conquistadores chegaram às
Antilhas, entraram em contato, conforme acabamos de relatar, com uma doença
nova para eles: a febre amarela.
Todavia o mesmo não aconteceu com os
colonizadores que vieram para o Brasil. Nas crônicas da época, não se encontram
referências a qualquer doença que nos permita identificar como sendo o mal
amarílico. É preciso ressaltar ainda, que a moléstia, com sua dramática
sintomatologia, dificilmente teria passado despercebida aos historiadores se
ela acometesse os indígenas ou os primeiros colonizadores portugueses.
M. Kinlay, citado na Cronologia de
Béranger-Féraud, referiu-se, em 1852, à ocorrência de febre-amarela no Brasil
em 1640. Entretanto relatou Kinlay apenas que, de acordo com os documentos
consulares de Pernambuco, podia-se admitir que a febre-amarela reinava no
Recife naquele ano.
Esta referência e outras, também
igualmente vagas, não passam de meras suspeitas, sem qualquer fundamento que
nos permita confirma-las ou que nos autorize a considerar aquelas supostas
ocorrências como os primeiros casos observados no País.
Aliás, Ferreira da Rosa nos deixou uma
observação, pela qual podemos deduzir da improcedência daquelas informações,
quando, em 1691, declarou: “Em Pernambuco, há sete anos assiste-se uma grave
doença, a qual nunca jamais nele se viu”.
Assim, devemos admitir que a primeira
epidemia de febre-amarela conhecida no Brasil, foi a que irrompeu no Recife, no
ano de 1685.
O nome e a procedência do barco que
trouxe a febre-amarela para o Recife não ficaram esclarecidos. A versão de que
foi a nau francesa “Oriflamme” procedente do Golfo de Sião (Ásia) não é exata,
pois nesta viagem somente chegou ao Recife em 1690, isto é, cinco anos após a
eclosão da epidemia, dali zarpando para Martinica. Provém desta versão o nome
de “mal do Sião”, com que durante muito tempo a doença foi conhecida, embora
esta febre fosse desconhecida no Sião.
Nessa viagem para as Antilhas, segundo o
padre Jean Baptiste Labat, o “Oriflamme” transportou a febre-amarela do Recife
para aquela ilha.
Henry Carter admitiu a possibilidade de
a febre-amarela haver sido trazida das ilhas de Cabo Verde (África) pela frota
de Gomes Freire de Andrade. Esta frota, que na sua rota para o Brasil perdeu
muitos homens, chegou ao Maranhão em 1685, seguindo mais tarde para o Recife.
Todavia Eustáquio Duarte, em estudo que fez baseando-se nos depoimentos
existentes, em vista do baixo percentual de mortalidade e da duração do morbo,
relativamente longa, concluiu que estes fatos por si só afastam qualquer hipótese
de identificação da doença com a febre-amarela.
Outra suposição é que a infecção
amarílica tenha sido trazida para o Recife por um barco vindo da África.
Tão convencidos estavam todos da sua
procedência africana que o Governador de Pernambuco, Marquês de Montebelo,
quando recomendou todas as cautelas com as pessoas acometidas dos males em
terra ou a bordo, o fez, sobretudo, para que esta doença não se perpetuasse
entre nós, “e não se constituíssem as povoações do Recife e Olinda um São
Tomé”. A procedência africana da infecção também não merece ser aceita por
falta de fundamentos. O francês Barbot, que esteve na ilha de São Tomé entre
1684 e 1686, escreveu a respeito das doenças que grassavam naquela ilha, porém
não se referiu a nenhuma que se parecesse com a febre-amarela. A hipótese mais
plausível é a de que o barco tenha vindo de São Tomé (África) com escala em São
Domingos, nas Antilhas, onde grassava a enfermidade, e de onde foi trazida para
o Brasil.
Ao contrário do que geralmente sucede,
não existem referências sobre a doença em algum barco antes da eclosão da
epidemia, ou que tenham desembarcado no porto tripulantes ou passageiros
doentes. Quando a encontramos já estava na zona portuária, fazendo a sua
primeira vítima na pessoa de um empregado que conferia a mercadoria importada.
De fato, contam as crônicas da época que, a 28 de novembro de 1685, no Recife,
um tanoeiro ao abrir uma das barricas de carne, já podre, procedentes de São
Tomé, adoeceu subitamente, passando a doença a quatro ou cinco pessoas que
moravam na mesma casa, na rua da Praia.
Podemos deduzir da violência da
epidemia, quando Miguel Dias Pimenta nos relata que, de 25 de dezembro até 10
de janeiro, foram enterrados “no Arrecife e em Santo Antônio perto de
seiscentas pessoas todos homens brancos, uma dezena de mulatos, mui poucas mulheres,
poucos negros e menos meninos”. Em seguida, diz ele, o surto amainou, atingindo
preferentemente as pessoas que de fora chegavam à cidade. Chamavam-no de males,
porque parecia incluir em si todos os males.
Morava então em Lisboa o médico João
Ferreira da Rosa (nascido em Gafete, Beira-Baixa) e formado em 1684 pela
Universidade de Coimbra. Tendo conhecimento da epidemia que grassava no Brasil,
fez uma petição ao rei de Portugal, D. Pedro II, em 19 de março de 1687, para
que o autorizasse a servir na sua profissão, na Capitania de Pernambuco.
O único médico que clinicava no Recife
havia falecido nos primeiros dias da epidemia, vitimado por ela.
O pedido de Ferreira da Rosa foi
deferido e ele recebeu a comenda de Santiago, uma pensão de vinte mil réis e
uma ajuda de custo de cinquenta mil réis, tudo sob a condição de servir por
seis anos.
Chegando ao Brasil foi morar em Olinda,
dedicando-se ao combate à febre-amarela e ao tratamento dos enfermos.
A situação era de tal gravidade que,
conforme ele registrou, quando alguém chamava o cirurgião, logo este perguntava
se o enfermo botava ferrugem pela boca, e se lhe dissesse que sim, se escusava
de visita-lo, e mandava preparar seu enterro por não lhe considerar esperança
de vida.
O Marquês de Montebelo, que chegara ao
Recife a 1 de junho de 1690, adoeceu dez dias após seu desembarque, quando de
um dos recrudescimentos que de ordinário se seguiam à chegada da frota. A
princípio esteve sob os cuidados do médico Domingos Pereira da Gama que viera
com ele de Portugal. Porém o doente piorava e, no terceiro ou quarto dia da
moléstia, o prognóstico era tremendo: tinha vômitos negros e oligúria. Se os
sintomas persistissem por mais vinte e quatro horas o Marquês morreria. Talvez
porque faltasse ao médico recém chegado o tirocínio da “doença da terra”,
lembraram-se de chamar Ferreira da Rosa que há uns três anos lidava com os
males.
Dessa forma ocorreu a aproximação entre
o Governador e o médico.
Não guardou segredo a respeito do seu
cliente. Contou que já haviam aplicado no Marquês muitos remédios de sangrias,
purgas, cordiais, clisteres. A sede era tanta que desejava ter mais perto a
Serra da Estrêla (vinho tinto português) para mitigar a sua secura. Tinha
vômitos e não só lançava os alimentos, mas os cordiais e todo o gênero de
alexifármacos de qualquer modo recebidos; vomitava humores atrabiliários.
Urinava com dificuldade, “com ardor das águas que por pingas destilava”. E
“soluçando e arrotando sempre, se achava tão inquieto como se pode conjeturar
de um doente assistido de tantos sintomas e tão graves”.
Deu tratos à mente e concluiu que o
humor do estômago de seu nobre paciente estava frio e cru. O remédio teria de
ser de calor intenso contra a falta de calor natural, para que melhor se
pudesse “cozer e regular” a natureza do humor. E por isso receitou “água de
escorcioneira com quanta quentura pudesse sofrer-se, desfazendo-se nela
confeição de alquermes”.
Apesar dos protestos do Marquês que
preferia água de neve, o medicamento lhe foi ministrado, inclusive à noite, e
no dia seguinte ele apresentou melhoras tomando o Santíssimo já sem nenhum
receio de vômito.
O Marquês sarou apesar do tratamento.
Nos encontros havidos posteriormente entre o Governador e o médico ficou
assentado, em 1690, que este apresentaria a relação das providências a tomar
para a prevenção da doença. Daí resultou, no ano seguinte, a primeira campanha
sanitária posta em prática, oficialmente, no Novo Continente.
Fonte: FRANCO, Odair. História da
febre-amarela no Brasil. Rio de Janeiro/GB: Ministério da
Saúde/Departamento Nacional de Endemias Rurais, 1968, pág. 08-11.