quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A Triste Origem do Cerro das Almas


O Professor Agostinho Dalla Vecchia no início dos anos 90 empreendeu um trabalho de resgate da memória da população negra na região, realizando várias entrevistas com descendentes de escravos, inclusive indo até locais que foram redutos da população afro-brasileira no pós-Abolição. Dentre suas entrevistas, uma merece atenção especial: a que foi feita com o Sr. Segundino Rosa. Este personagem procedente de Encruzilhada do Sul, contava com 78 anos à época (1990) e foi encontrado no Asilo São Benedito, em Pelotas. Viveu muito tempo em Capão do Leão e seu testemunho é um documento importante. Sobretudo, quando ele fala do Cerro das Almas e o porquê tal local recebeu aquele nome.


Trecho extraído de: DALLA VECCHIA, Agostinho Mário. Vozes do Silêncio: depoimentos de descendentes de escravos do Meridião Gaúcho, Parte II. Pelotas: Edufpel, 1994, p. 562-564.


NOTA: "E" é o entrevistador, o Prof. Dalla Vecchia. "S" é o senhor Segundino Rosa, o entrevistado.


"E - Depois ela morreu e o senhor veio trabalhar em, no Capão do Leão?

S - Depois ela morreu, então eu vim trabaia no Capão do Leão, até... des que trabalhei, no Capão do Leão primeiro, foi numa tal de estrada de ferro... tive 8 anos... e aqueles 8 anos eu só ganhei o até o... dia que trabaiava sim, o tempo de serviço, eu não ganhei nada.

E - (...) E comé que pagavam aí na estrada de ferro?

S - Eles pagavam... naquele tempo... (...) dava um salário.

(...)

E - O senhor ouviu falar de algum lugar, assim especial, onde levavam essa gente prá matar?

S - Óia, lá tem um, aqui no Capão do Leão, tem um lugar que chamavam Cerro das Arma... que diz que era um lugar que matava muito?

E - Comé que é o nome?

S - Cerro das Arma.

E - Cerro das Almas.

S - É... então nesse lugar diz que matava.

E - Mas, lá em Encruzilhada, tinha um lugar também?

S - Não, Encruzilhada... não vi lugar... próprio onde matava, não... porque... Cerro das Almas tinha muito serviço de escravo... E tem ainda... lá naquele tempo.

E - O que que tem lá, que os escravos fizeram?

S - Cerca de pedra... tem muita... até coisa de fazenda né... tem tudo, tudo feito de pedra.

E - E casas de pedra, tem também?

S - Casa de pedra, tem e tem e tem mais, é muito poca.

E - Tem alguma tapera velha assim?

S - Tem ... e no Capão do Leão, no Capão do Leão tem uma tapera velha de pedra... por aqueles matos, de Oliveira.

E - Nos mato dos Oliveira?... Fica ali perto do Capão do Leão?

S - Fica...

E - O pessoal aí do Capão, conhece onde é que é isso?

S - Conhece, mas ele nem sabe do que era aquilo... muita gente conhece e não sabe o que era aquilo.

E - Bom... Uma outra coisa o... tinha algum guarda, alguma pessoa que cuidava os escravos enquanto eles trabalhavam?

S - Não... quilo era mais a vontade, só tinha uma, assim mas... aquele não, nem chamavam guarda, nem nada, só ficava... por ali mas não apertava eles nem nada... pa trabaia.

E - Mas e, porque então si, de dia era a vontade, de noite era preso debaixo da chave?

S - Queles que era preso... era aquela, queles que pegavam de noite, aqueles não iam pro serviço... aqueles, pegavam e ficava preso assim e depois eles... Terminava co a vida deles."



2 comentários:

Arthur Victoria Silva disse...

Joaquim, Será que o Serro das Almas não foi o Serro Santana? Em alguns mapas antigos, encontro como Serro do Manoel do Serro. Isto já em um mapa de 1938.

Erasmo Pinheiro disse...

Boa tarde. Vi numa de suas postagens que chegou em Pelotas em 1822 o imigrante Ambrosio Gabino Crespo, o qual era irmão do meu tretavo André Luciano. Se o senhor tiver mais informações sobre a família Crespo, tenho muito interesse. Meu e-mail para contato erasmobonotto@gmail.com. Abraço

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