domingo, 2 de dezembro de 2018

Imigração japonesa no Brasil


"Os primeiros imigrantes japoneses - ao todo 781 pessoas - chegaram ao Brasil no segundo semestre de 1908, a bordo do navio Kasato Maru, que atracou no porto de Santos (São Paulo). De acordo com um 'relatório confindencial', enviado pouco antes pelo consulado do Brasil no Japão para a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo (publicado pela enciclopédia Nosso Século), os japoneses eram 'mais fracos do que fortes' e deles não se deveria 'exigir mais de 2/3 do trabalho produzido por um imigrante branco' - de modo que 'naturalmente' seus salários deveriam 'ser pagos nessa mesma proporção'.

Apesar da suposta 'inferioridade', cerca de quinze mil japoneses seriam trazidos para o Brasil entre 1908 e 1914. Esse primeiro ciclo migratório foi subsidiado pelo governo de São Paulo, que pagava parte da passagem. O restante era pago pelos cafeicultores, e depois descontado do salário dos trabalhadores - em transações nem sempre lícitas. Uma vez desembarcados em Santos, os japoneses eram encaminhados 'em vagões fechados' diretamente para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, e instalados de acordo com o ken (ou província) de onde provinham.

No dia seguinte, ou nos imediatamente posteriores, eram embarcados, de preferência à noite, em vagões trancados e sem ventilação que os levavam para as fazendas do oeste de São Paulo, onde os aguardavam contratos válidos por no mínimo um ano. Lá, além de condições de trabalho extremamente árduas, encontravam charque em vez de arroz, café em vez de chá, prato raso no lugar de tigela, calça e não quimono; garfos substituindo ohashis. Os recém-chegados não falavam português e nada sabiam sobre o Brasil, exceto o que lhes fora dito pela propaganda aliciadora impressa nos panfletos distribuídos pelas companhias de emigração.

Não é de se estranhar, portanto, que muitos colonos, vendo frustrados seus sonhos de sucesso rápido e retorno quase imediato ao Japão, tenham se utilizado de qualquer pretexto para abandonar as fazendas nas quais tinham sido quase que literalmente depositados - não hesitando em recorrer até mesmo à fuga. Foi justamente por isso que, em 1914, alegando 'crescentes problemas de adaptação, falta de fixação do japonês e o uso da fuga como meio de burlar o contrato', o governo brasileiro decidiu cancelar o subsídio para a imigração nipônica.

A eclosão da I Guerra Mundial fez cessar por completo a primeira fase desse ciclo migratório para o Brasil. Em novembro de 1923, porém, o contrato de imigração japonesa para o Peru foi abolido e, no ano seguinte, a migração para os EUA, já muito reduzida, cessou totalmente - por decisão do Congresso norte-americano. O Brasil tornou-se, assim, um dos únicos países do mundo onde os imigrantes japoneses ainda poderiam ser recebidos. O governo do Japão passou a se interessar diretamente pelo assunto e, em julho de 1924, o Parlamento aprovou a concessão de subsídio integral da passagem marítima para os imigrantes ultramarinos, concedendo vultuosas verbas à K.K.K.K., ou Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha (Companhia Ultramarina de Empreendimentos S.A.) - empresa responsável pelo recrutamento e o transporte dos imigrantes.

Com o incentivo governamental e a assinatura de um novo acordo com o Brasil, a K.K.K.K. - que em 1932 obteria ainda uma ajuda extra a título de 'preparativos de viagem' - foi capaz de trazer 139.050 imigrantes japoneses para o Brasil entre 1925 e 1935 (contra 34.939 nos 17 anos anteriores a 1925). Após 1935, porém, a taxa de imigrantes japoneses caiu consideravelmente devido ao 'regime de quotas' aprovado pela Constituição de 1934, novamente incluído na de 1937. O fluxo de japoneses cessaria totalmente com a declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo, em agosto de 1942.

Mas então, dos quase 230 mil japoneses que tinham sido trazidos para a América Latina, 193.156 haviam desembarcado no Brasil - e São Paulo já havia se transformado na cidade que concentra o maior número de japoneses fora do Japão. A árdua saga dos primeiros imigrantes nipônicos foi retratada com emoção e requinte no filme Gaijin, de Tizuka Yamazaki."

Fonte: BUENO, Eduardo. Brasil: uma história: cinco séculos de um país em construção. São Paulo/SP: Leya, 2010, págs. 279-280.

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