domingo, 22 de março de 2026

Crimes passionais no Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX



 As lutas pela posse de território entre as Coroas portuguesa e espanhola, incluindo os índios, bem como a ocupação do campo com a atividade pastoril, caracterizaram a região sulina como “um mundo de homens”, com pequena presença feminina. Por isso eram constantes e acirradas as disputas por mulheres. Os dados comprovam que 91% dos escravos-réus viviam sozinhos.

Poucos foram os crimes premeditados cometidos pelos escravos ou forros. Prevaleceram os delitos ocorridos em circunstâncias de total espontaneidade, em momentos de explosão de raiva e cólera. Levantamento efetivado nos processos, até 1860, constata um só caso que alude a crime relacionado à prática homossexual masculina:

A rigor, tratava-se de um caso de pedofilia. Um soldado da Guarda Nacional, acusado de estuprar um menino, um bebê, teve sua defesa apoiada na assertiva de que as deformações na mucosa anal identificada na criança foram provocadas por um acidente: o menino caíra da cama, ferindo-se em um pedaço de madeira.

O historiador Solimar Oliveira Lima, em Triste Pampa, realizou um levantamento dos crimes praticados na Região Sul da Colônia entre os anos 1818 e 1833. Referiu-se a casos de relacionamento e assédio sexual de cativas por homens livres pobres que não resistiam aos encantos das negras, bem como por clérigos e senhores abastados.

Esse foi o caso de Tereza Maria Pereira. Depois de alguns anos casado com o estancieiro José Gomes, ela se recusava, por repulsa e nojo, a manter relações sexuais com o marido. Mas não se conformava e tampouco se abstinha sexualmente. Para saciar seus desejos, mantinha como amante o escravo João, sendo que toda a Santo Antônio da Patrulha tinha conhecimento do romance. O casal vivia sempre brigando e o referido escravo de Tereza já aplicara no marido “várias pancadas com um pau”. O motivo era atribuído ao fato de essa mulher “não querer nunca fazer a vida” com o esposo.

No dia 11 de novembro de 1779, o escravo João, a pedido de Tereza, enforcou o estancieiro Gomes enquanto dormia, com a ajuda da amada e de um preto forro, de nome João Rodrigues. Detido pelo crime, em 23 de abril de 1780, o escravo João foi enviado à cadeia da Vila de Rio Grande, seguindo, depois, para o Rio de Janeiro. Não há referência aos demais réus, que, como ele, foram presos.

Existiram também as “virtuosas senhoras” que, com suas rendas e perfumes, atraíam para a cama negros adolescentes e os iniciavam nos encantos do amor. Exigiam deles prazer, discrição, fidelidade e subserviência. Entre muitas, a mais ousada foi Brígida Joaquina Lopes, de São Sebastião do Caí; manteria um verdadeiro “harém de negros”, em torno de si. Casada com o estancieiro José Cordeiro, tinha como amantes os irmãos Salesiano, de 16 anos, e Justiniano, de 18, o liberto Balduíno, bom como o capataz da estância, o preto forro João; demitido pelo estancieiro.

Brígida, “por não viver bem” no casamento, tramou a morte do marido. Para tal, recorreu aos serviços da negrada apaixonada. Entretanto, nem tudo era amor: apesar dos favores sexuais, os amantes necessitaram de um incentivo a mais, ou seja, a promessa de uma boa recompensa em dinheiro. O homicídio foi praticado em 28 de dezembro de 1820, quando José Cordeiro voltava para casa, ao final da tarde. Os negros o atacaram sobre o cavalo, provocando a queda. Deram-lhe oito facadas e esmagaram sua cabeça com pedras. Presos, foram julgado em 30 de abril de 1822.

Os irmãos castigados a açoites tiveram de assistir à execução pela forca do liberto Balduíno e depois foram enviados ao degredo definitivo para as galés. Brígida foi condenada, entre outras penas, a assistir à execução do amante e ao degredo de dez anos para a colônia de Angola, depois comutado para o Ceará.

As relações de cativos com libertos também podiam ser tumultuadas. Homens livres, libertos e escravos disputavam alguns prazeres nos leitos das forras ou a conquista de seus corações. Foi o caso, ocorrido em Rio Pardo, do escravo chamado Paulo e do forro Manoel, que competiam pelo amor da negra Rita. Paulo não admitia a amizade da negra com Manoel: “não queria que ela falasse com outro preto”. Portanto, começou a “ralhar” com ela, e o liberto Manoel, alegando que a negra não era propriedade de Paulo, prontificou-se a resolver a disputa pela força. Tudo indica que, após maus-tratos, Paulo teria desistido da amante, mas não do dinheiro que lhe entregara e não recebera de volta. Por volta de abril de 1821, ao procurar Rita, “ele ficou com raiva e cego e, com seu facão, lhe fez alguns ferimentos dos quais veio a morrer”. Paulo foi preso pelo filho de seu senhor, capitão do mato, e sentenciado a mil açoites e posterior degredo para as galés.

Severino, cativo do padre Paulo Xavier, disputava a afeição da negra Maria Francisca, em Pelotas. Na noite de sábado de 1820, quando Severino bebia na venda do português Julião, estava entre os fregueses Maria Francisca, “que com ele tinha tratos”. Ela, muito alegre e solícita, distribuía simpatia, sobretudo para Julião. Imediatamente, Severino desabafou: “Eu não tratei vir ficar com você? ”. Irritada, a negra teria replicado que era “capaz de comprar” Severino. A lembrança, por parte de uma liberta, da situação humilhante do cativo fez com que Severino, já “incitado com as desfeitas”, lhe desse “uma facada”. Maria caiu morta.

Ainda no Sul, na casa do vigário Antônio Pacheco de Miranda Santos, de General Câmara, ocorreu um curioso romance. Amigados, os envolvidos tinham o consentimento do religioso. Parecia ainda que o pároco utilizava a bela mulata para obter, em torno de si, gratuitamente, os serviços de dois vigorosos crioulos. A escrava doméstica do vigário, chamada Maria, tinha “tratos” com José Joaquim, escravo de outro padre, e com Miguel, cativo do capitão Evaristo Pinto Bandeira. Na cozinha, os negros iam “bolinar” o corpo de Maria, enquanto ela preparava a alimentação do vigário. No dia 16 de maio de 1809, a mulata estava na cozinha quando chegou José para as habituais “brincadeiras”. Entre afagos e risos, iniciou-se uma discussão, e o ciúme levou José a espancar a amada. Ao ouvir os gritos, Miguel acudiu, entrando afoito na cozinha. O prestativo defensor foi surpreendido com uma “facada na barriga” que o levou à morte. José foi preso. Na documentação, nada consta sobre o julgamento, apenas que, logo após o crime, Maria foi vendida à província de São Paulo.

Fonte: CARMO, Paulo Sérgio do. Prazeres e pecados do sexo na história do Brasil. São Paulo: Edições SESC São Paulo, 2019, pág. 77-80.

sábado, 21 de março de 2026

Sobrenomes Argentinos - Parte 08



 71. Cerpa, Zerpa - pode ser uma hispanização do sobrenome português Serpa. Porém, no contexto ameríndio é uma palavra para traição.

72. Ciares - de origem kunza. Significa chuva.

73. Coca - de origem quéchua. A planta coca (Erythroxylon coca) na maioria dos casos. Porém, significa também descolorido, ou ainda, uma parte do tear típico andino.

74. Cocha - do quéchua. Lago, laguna, charco.

75. Coliqueo - do quéchua. Receoso, cauteloso. Ou ainda, uma espécie de ave tinamiforme - a quiúla-andina (Tinamotis pentlandii).

76. Colla, Coya - de origem kunza, significando perdiz. Pode ainda ser catamarquenho (de Catamarca) e querer dizer "habitante de terras altas".

77. Collata - do quéchua. Significado: quase maduro, pré-maduro.

78. Colque, Colqui - do quéchua. Prata.

79. Colpari - do quéchua. Salitre.

80. Colquehuanca - do quéchua. Penhasco, ou mais especificamente, penhasco argentífero.


sexta-feira, 20 de março de 2026

Sobrenomes Argentinos - Parte 07

 



61. Canche, Canchi - do quéchua. Risonho, alegre, feliz.

62. Candeloro - do kunza. Corresponde a "aquele que fere o ventre".

63. Cañari - do quéchua. Significado: aquele que nasceu na província de Káñar (território atualmente no Equador), que fazia parte do Império inca.

64. Caquis - do aimará. Significa pequena barba, barbicha, ponta da barba de quem usa cavanhaque.

65. Carhuavilca - de difícil interpretação. Tem etimologia quéchua. Pode significar "lagosta do angico vermelho"(?) (Anadenanthera macrocarpa). Ou se relacionar a uma palavra para sagrado.

66. Cari - claramente provém do kunza. Pode ter três significados: verde; novo; ou varonil, valoroso. Na língua kunza as três acepções são convergentes.

67. Catacata - do kunza. Difícil interpretação. Pode se referir a um tipo de planta medicinal, um lugar muito frio ou um lugar de muitos deslizamentos de terra.

68. Catari - do quéchua e do aimará. Designação genérica para qualquer tipo de serpente não venenosa.

69. Caucota - do idioma kunza. Algo assado, o ofício de assar, levar ao fogo algo.

70. Cayo, Caya - do aimará. Pé, perna, pisada, rastro. Também uma a oca (Oxalis tuberosa) quando desidratada para consumo.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Sobrenomes Argentinos - Parte 06



 51. Calapeña, Calepeña, Calapiña, Calapena - do quéchua e do aimará. Significa cativo, prisioneiro.

52. Calisaya, Calizaya - do quéchua. Uma espécie de médico curandeiro de ervas da região andina central.

53. Caliva, Caliba - do quéchua. Golondrina ou andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica).

54. Callahuara, Calliguari - do quéchua. Herbolário, curandeiro, feiticeiro, xamã. Refere-se a um tipo humano encontrado nas partes orientais do antigo Império incaico.

55. Callata - do quéchua. Bonito, enfeitado, adornado.

56. Calpanchai, Calpanchay - do quéchua. Muito esforçado, fortalecido, vigoroso.

57. Camacho - do quéchua. Espécie de chefe tribal. Não confundir com seu homônimo em espanhol que possui etimologia distinta.

58. Camai - do atacamenho. Significa neto.

59. Canari, Cañari - da língua kunza. Significa gordura, barriga, ou ainda, gula. Significa condor gordo ou condor robusto.

60. Canavire, Canabires, Canaviri, Canavides - do quéchua. Espécie de cinto largo selado por meio de processo de queima.


quarta-feira, 18 de março de 2026

Disco voador em Tubarão



Viajante assustado diz que viu "disco voador" perto de Tubarão

Tubarão (Sucursal) - Casimiro vinha de Itajaí em seu Opala, acompanhado de seus filhos: Sandra, de 14 anos e Sérgio, de 18 anos, quando repentinamente viu um clarão no céu parecendo um relâmpago. Em princípio pensou se tratar de um temporal, já que naquela oportunidade chovia bastante e dava indícios de que a situação pioraria de acordo com a aproximação da cidade de Tubarão, já que estavam a apenas 10 quilômetros.

Assim começa a contar assombrado e confuso. Agenor Casimiro, tubaronense, de 43 anos de idade, sobre um objeto não identificado que estava quase pousando no asfalto próximo à igreja da localidade de Estiva.

"O clarão foi persistente e até em dado momento chegou a ofuscar, então chamei meu filho que dormia no banco dianteiro. Pedi que ele observasse o que estava acontecendo. Ainda sonolento ele olhou para o céu e também viu o clarão, mas disse que devia ser certamente de fogos de artifício de alguma festa junina".

Bastante amedrontados prosseguiram a viagem, segundo explicou Casimiro dizendo que "sem saber se fui forçado ou não, parei repentinamente o veículo no acostamento e vi um espetáculo deslumbrante, quando um facho de luz surgiu e uma bola branca no formato de um coração começou a se movimentar indo em direção ao asfalto como se quisesse nos cercar, ficando na altura de um metro e meio balançando como uma borboleta gigante. Não consegui definir a cor da luz, mas era muito forte e até ofuscava um pouco a vista. Apavorado acionei o carro e abandonamos a nave estranha".

Mas Casimiro resolveu voltar ao local no outro dia, pela madrugada. "Já por volta das 5 horas nós três voltamos ao local e encontramos um homem de mais de dois metros de altura que apontava um foco de luz contra outro, que sob a mira da arma ficava estático. Sem sair do carro, procurei chamar a atenção dos dois, fazendo sinais com as mãos para chamá-los. Imediatamente, a pessoa que estava paralisada veio ao meu encontro e se identificou como Rui Souza".

"O espantoso é que ao trocar idéias, ele (Rui Souza), me disse que apenas via no local um carro preto sem placas e marca indefinida, com uma moça no volante, que estava lá parado há algum tempo. Eu e minha filha olhamos para trás e vimos o mesmo carro, mas estranhamos o fato de Rui dizer que a moça estava dentro do carro, pois a enxergávamos do lado de fora como se estivesse a nos escutar. Quando fomos tentar comprovar se ela estava ou não dentro do carro, fomos surpreendidos com o seu desaparecimento e do carro. Apavorados, também fomos embora".

Para confirmar a história de Casimiro, Antonio Pinheiro, residente na localidade da Guarda em Tubarão, chegou no mesmo dia contando para sua mãe que havia visto uma bola vermelha no céu parecendo um disco voador e que acendia e apagava como um relâmpago. Mas Antonio dize que não quis contar antes, porque ficou com medo de pensarem que "estava meio maluco ou era inventor de estórias para me promover". Ao relator, o que tinha visto os detalhes coincidiram com o que Casimiro conta hoje para todo mundo.

Fonte: O ESTADO DE FLORIANÓPOLIS (Florianópolis/SC), 19 de agosto de 1978, pág. 06

terça-feira, 17 de março de 2026

Histórias Curiosas LXXVIII

 


O MELHOR POETA

Em certa época, Mario Quintana e Athos Damasceno Ferreira moravam na Rua do Rosário - a atual Vigário José Inácio. E um provocava o outro, se dizendo "o melhor poeta da rua". Até o dia em que Quintana chegou para Athos e concedeu: - Olha, cheguei à conclusão de que tu és o melhor poeta da Rua do Rosário.

Athos ficou sério, e em seguida elogiou a honestidade e a humildade do poeta rival.

- Não é nada disso - debochou Quintana - é que acabo de me mudar para a Riachuelo...

Fonte: FONSECA, Juarez. Ora bolas: o humor de Mario Quintana: 130 historinhas; compiladas e adaptadas por Juarez Fonseca. Porto Alegre, L & PM, 2011, pág. 13.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Sobrenomes Argentinos - Parte 05

 



41. Cabuy - da língua kunza. Significa cerro, colina, no sentido de lugar elevado num relevo.

42. Cachagua - do quéchua. Aba entre montanhas, o mesmo que desfiladeiro, lugar de passagem num relevo íngreme.

43. Cachambe, Cachambi - tem origem etimológica quéchua e designa uma dança típica incaica ainda encontrada em populações indígenas remanescentes.

44. Cachi - da língua kunza. Significa penhasco, penedo.

45. Cachillán - do quéchua. Lugar muito salgado, mina de sal, salar. 

46. Cachullán, Cachullani - pode ser uma variante do termo anterior. Porém, pode ainda derivar do aimará kachurara e corresponder a "homem de má sorte".

47. Cachizumba - do kunza, mas de difícil interpretação. Pode se referir à "dança boa", "dança agradável", ou ainda ponte segura, ponte resistente. Ainda pode ter raízes com o idioma aimará.

48. Caiguara, Caihuara - espécie de tanga masculina usada por certas populações ameríndias. Tem raiz quéchua.

49. Cala - tem origem tanto quéchua, quanto aimará, quanto kunza. Significa perdiz.

50. Calamar - origem diversa como a palavra anterior. Significa lugar de perdizes.

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