sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Noite do Bambu


"Com vistas às eleições legislativas federais de 24 de fevereiro de 1927, caravanas de políticos da Aliança Libertadora percorriam os municípios da zona sul do Estado, em trabalho de propaganda de seus candidatos.

No dia 13 daquele mês, eram aguardados em Canguçu o deputado federal Dr. Francisco Antunes Maciel Jr., Zeferino (Ferico) Costa e Djalma Mattos.

Os aliancistas locais organizaram, então, uma recepção na espaçosa residência de Alberto da Silva Tavares, um dos melhores prédios da vila, situado na General Osório, sua principal via pública, onde hoje se localiza o Clube Harmonia.

(...)

À noite, com a presença de dezenas de correligionários, entre os quais muitas senhoras e senhoritas, desenvolvia-se a recepção, quando, inopinadamente, a casa foi invadida, aos gritos, por soldados do 12o. Corpo Auxiliar da Brigada Militar, que passaram a espancar os participantes.

A cena de violência prosseguiu pelas ruas da vila, com a perseguição e o espancamento de todos os que tentavam fugir, pois a casa fora cercada pelos 'provisórios'.

Curiosamente, esses soldados ostentavam contra civis desarmados a bravura e o ânimo belicoso que, por certo, fizera-lhes falta há apenas dois meses, quando, no dia 10 de dezembro de 1926, na Coxilha do Fogo, interior do município, foram batidos e dispersados pela vanguarda de Zeca Neto, regressando à vila, quatro dias depois, sem cavalos e sem equipamento...

É de imaginar-se o escândalo e a indignação produzidos pela insólita atitude dos 'provisórios', ainda mais que não se acreditava tivesse tamanho atrevimento partido de simples praças comandados por dois oficiais subalternos.

A imprensa governista, enquanto isso, noticiava os acontecimentos segundo a sua ótica, procurando lançar culpa e o ridículo sobre os aliancistas, (...)

Algum tempo depois, avançando em suas investigações, o Dr. Maciel Moreira pedia afastamento do cargo...

Em Canguçu, enquanto isso,era voz corrente a premeditação do atentado por parte da cúpula local do Partido Republicano. Um dia antes, 12 de fevereiro, dois desses dirigentes foram vistos no Clube Harmonia comentando a 'surpresa' que aguardava os aliancistas...

No próprio dia do atentado, um soldado 'provisório', aparentado com a família Barbosa, dirigira-se a essa residência e, lacônico, perguntara pelas moças da casa, advertindo que não deixassem sair naquela noite. As jovens, Enedina e Esmeralda Barbosa, participaram da recepção em casa de Alberto da Silva Tavares e testemunharam os fatos relatados.

Alguns soldados do 12o. Corpo Auxiliar hospedavam-se no Hotel Brasil, de propriedade de Domingos Caneo Telesca e, como estivessem com o soldo em atraso, viviam praticamente sustentados pelo referido cidadão. No dia do incidente, a esposa de um dos soldados pediu à esposa do hoteleiro que não deixasse sair para a reunião dos oposicionistas. Domingos Caneo Telesca foi uma das vitimas do espancamento."

Fonte: CABEDA, Coralio Bragança Pardo. A Noite do Bambu. p.05-09 (artigo originalmente publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do RGS, número 132). Obs.: tivemos acesso ao artigo "em separado".

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Os redutos de escravos na cidade de Pelotas no século XIX


"Os escravos estavam, em muitos lugares do centro urbano da cidade, tentando desenvolver suas formas de sobrevivência dentro dos limites da lei e, por vezes, fora destes limites.

Alguns locais já eram conhecidos pela população como redutos de negros folgados, como as margens do arroio Santa Bárbara, como se referia, em 1863, Domingos José de Almeida, ao dar seu parecer sobre o local da construção da Praça das Carretas, hoje Praça Vinte de Setembro:

...servindo este pequeno terreno de foco de imoralidades, fundição de crioulos e entretenimento de escravos da cidade fora do alcance de policiais...

Ao investigarmos a documentação, verificamos que diversos locais da cidade poderiam ser lugares de sociabilidades de escravos, entre eles as tavernas, bodegas ou bares que serviam como locais de socialização, seja para beber aguardente, seja para carteado, seja para a venda de produtos roubados pelos escravos, com o conluio dos donos de botecos.

Muitas vezes podiam ser encontrados nos bares, embora fossem proibidas suas presenças.

Havia grande interesse dos donos de botecos em comprar produtos roubados por escravos, pois poderiam obter bons lucros na revenda dos mesmos. Já por parte dos escravos, a venda para bodegueiros representava uma enorme facilidade na revenda insuspeita de produtos roubados.

(...)

A região da várzea, onde se localizava o Porto da cidade, também aparece como um dos locais de socialização de escravos e libertos; esta região era conhecida por ajuntamentos de escravos e suas arruaças.

Tal fato pode ser explicado por dois motivos. Um deles é que embarcações com gêneros alimentícios chegados à cidade deveriam vender produtos, a miúdo, para a população em geral, por até dois dias após sua chegada no Porto, o que naturalmente atraía para essa região uma quantidade razoável de escravos e livres pobres.

Outro motivo poderia ser a grande concentração de bares e botecos na região, como podemos observar na seguinte reclamação publicada no jornal Correio Mercantil de 1883:

...À noite, é esta parte da cidade teatro de cenas escandalosas que as mais vezes terminam, em grosas pancadarias (...). Provém isto dos ajuntamentos de marinheiros dos navios surtos no porto, escravos de charqueadas e mulheres de má vida; ajuntamentos que tem lugar em algumas tabernas e botequins aqui existentes, apesar das contínuas visitas que lhe faz a polícia.

No documento acima mencionado vemos que a taverna é descrita como pólo irradiador da desordem, confluindo escravos, marinheiros e prostitutas; no entanto, podemos deduzir que estas pessoas foram classificadas como escandalosas e violentas por não se enquadrarem nos parâmetros sociais pensados para elas pela elite local.

Esta desordem denunciada pelo jornal poderia ser a ordem das ruas, com suas regras próprias, seus códigos de honra e valores específicos."

Fonte: SANTOS, Leovegildo Silva dos. O cotidiano de escravos e livres pobres no espaço urbano da cidade de Pelotas no século XIX. In: Ágora Revista Eletrônica, Ano IX, no. 17, dez. 2013, p. 19-20


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Os Doces de Pelotas


"O processo histórico de ocupação do território compreendido como Pelotas deu-se ainda no século XVIII onde, inicialmente, instalou-se uma rede de criação e comércio de gado. Posteriormente, em função de alguns ciclos migratórios, a região também começou a ser utilizada para a produção de charque.

Essa produção era exportada para a região nordeste, onde havia demanda causada pela atividade de exploração da cana-de-açúcar. Foi a partir da interação entre produtores de açúcar e os de charque que se criou a competência da produção de doces pelas senhoras pelotenses para servir em ocasiões especiais. Com a diminuição do consumo do charque, houve a necessidade de reconfiguração da atividade econômica. Nesse sentido, as mulheres da aristocracia pelotense buscaram o trabalho manual como alternativa de geração de atividade econômica, resultando na produção comercial de doces.

As doceiras puderam contar tanto com os frutos trazidos e introduzidos pelos portugueses na biodiversidade brasileira, como também com os frutos já consumidos pelos índios no Brasil, como eram os casos do cacau, goiaba e abacaxi, para reproduzir ou adaptar receitas tradicionais portuguesas, culminando por aculturar, cada vez mais, os doces ao paladar brasileiro.

Em 1832, ocorre a emancipação do Município de Pelotas, o que estimula um número cada vez maior de fazendeiros e charqueadores a construir residências, adotando a localidade como local de moradia. Após a emancipação, surge a primeira fábrica de bolachas doces. Além disso, nos encontros sociais, os pelotenses foram mantendo o costume de comer os doces já mencionados, motivando, assim, a manutenção da tradição.

O doce de Pelotas, na primeira metade do século XIX, fazia-se presente nas festividades católicas, em seus rituais, logo, tornando-se objeto de demanda por parte, de autoridades políticas, dada a fama angariada. Entretanto, apenas no final do século XIX, com a decadência das charqueadas, os doces passaram a ocupar um lugar mais formal na renda das famílias. Por ser um trabalho eminentemente feminino era visto como empobrecimento e degradação familiar. Só em 1959, essa situação mudou, tendo em vista uma publicação da Editora Globo sobre os doces de Pelotas. Tal publicação tirou do anonimato suas produtoras, consagrando-as com um status social diferenciado.

Além dessas doceiras, há outras fontes para a sedimentação da tradição dos doces de Pelotas, como o fim da escravidão, que possibilitou aos negros recém-libertos venderem os doces em seus tabuleiros ou o surgimento, ainda no final do século XIX, das primeiras confeitarias da região, bem como a imigração de franceses e alemães que também investiram nesse tipo de negócio.

Em 1986, os produtores de doces, o poder público local e os comerciantes organizaram a Feira Nacional de Doce - FENADOCE, um evento inicialmente bianual. A partir de 1995, tal evento tornou-se anual e, sob a responsabilidade da Câmara de Dirigentes Lojistas de Pelotas, houve um impulso maior ao evento.

A FENADOCE tem sido um evento complementar para a disseminação da produção de doces derivados de frutas e doces tradicionais de confeitaria. Além disso, a Feira constitui um locus de presença dos agentes das diferentes etapas da cadeira produtiva. Contudo, esse evento tem tido uma redução do impacto relativo sobre os agentes da cadeia produtiva de doces, principalmente na venda desses produtos, já que os compradores vão direto às lojas comerciais.

Em 2003, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou a Lei no. 11.919 de 06/06/2003, declarando como patrimônio cultural do estado os doces de Pelotas. Hoje, muitas famílias vivem da produção e comercialização desses doces."

Fonte: PERALTA, Patrícia Pereira & alii. A Indicação de Procedência como instrumento de diferenciação: o caso do Doce de Pelotas. In: Redes, Santa Cruz do Sul/RS, v. 21, n. 02, maio/ago. 2016, p. 332-333.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

José Gonçalves Chaves


Por Fernando Osório

"Nasceu, nesta Cidade (nota nossa: Pelotas), em 9 de abril de 1865. Era filho do Dr. Antonio José Gonçalves Chaves e D. Marcolina Chaves Leivas. Formou-se em Engenharia Civil, no Rio de Janeiro, em 1888. Filiara-se à propaganda republicana do período anterior à proclamação.

Fêz parte, em 1883, da Sociedade Abolicionista Sul-Rio-Grandense; em 1885, do Clube Republicano Rio-Grandense; em 1886, da 'Revista Federal'; em 1887, do Congresso Acadêmico; em 1888, do Centro Republicano da Escola Politécnica; em 1889, da 'Gazeta Nacional', tendo sido também um dos fundadores de 'A Federação'.

Foi engenheiro fiscal da extinta Estrada de Ferro Southern. Ao falecer (28 de outubro de 1907) desempenhava os cargos de presidente da Sociedade Agrícola Pastoril do Rio Grande do Sul, diretor da sociedade Minas de Cobre de Camaquã, presidente da Associação Comercial e diretor da Companhia Rio-Grandense de Iluminação a Gás. Era também deputado estadual e membro da Comissão Executiva do Partido Republicano. Como engenheiro fiscal da Southern prestou grandes serviços ao Govêrno legal durante a revolução de 1893-4. Entre outros, a êle deve-se a presteza com que as fôrças do Gal. Telles desceram de Bagé para defender a cidade do Rio Grande ameaçada pelo Almirante Custodio de Mello. Disfarçado de trabalhador ia dirigir as obras de reconstrução de vários trechos da linha destruída pelos revoltosos, porque os engenheiros estrangeiros abandonavam seus postos; por várias vêzes conversou e foi interrogado por chefes de Fôrças contrárias. Mereceu do Govêrno do Mal. Floriano as honras de tenente-coronel honorário do Exército."

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O surgimento do mito do gaúcho


"Observa-se que ao longo da História o sentido da palavra gaúcho passou por profundas transformações. Sobre a origem da palavra gaucho Barbosa Lessa afirma que, por volta de 1777, ocorreu o primeiro registro da palavra gauche, documentado pelo doutor José Saldanha em seu diário: 'palavra espanhola usada neste país para designar os vagabundos ou ladrões do campo que matam os touros chimarrões, tiram-lhes o couro e vão vender ocultamente nas povoações'. Mais tarde, conforme Sergius Gonzaga, estancieiros, motivados pela necessidade de mão-de-obra especializada no manejo do gado e na lide campeira, passaram a incorporar esses gauchos nas suas estâncias. Com o passar do tempo, esse vocábulo também passou a ser empregado para designar os demais trabalhadores da estância: peões, diaristas...

Contudo, como afirmam Angelise Silva e Pedro Santos, a modificação radical do significado da palavra gaucho foi obra da literatura, tendo a História servido como um pano de fundo para a criação mítica do personagem gaúcho. Para esses pesquisadores, essa literatura estava muito arraigada em modelos românticos/europeus, criando personagens com inspiração europeia. Prova disso, são os personagens de Caldre e Fião e de Apolinário Porto Alegre, que serviram para modificar o sentido pejorativo do gaúcho e transformá-los em 'monarcas da coxilha', homens corajosos, leais e libertários.

Era um gaúcho que se importava com suas leis, puro de caráter e que não se corrompía a cidade. Esse gaúcho era um homem de palavra, com habilidades no campo, do qual tirava o seu sustento, um homem de vida simples, que herda de seu berço todos esses seus valores. Daí a ideia de 'Monarca'. Essa forma de ver o gaúcho identifica o espírito romântico de quem o descrevia, bem como a oligarquia vigente no sul.

Na visão de Tau Golin, o tradicionalismo deu ainda mais força ao mito do gaúcho, que foi criado pela literatura. A crença de que os Centros de Tradição Gaúcha fossem guardiãs do passado heroico do gaúcho, contribuiu para que esse ser mítico fosse um ser coerente com a história. Essa figura, a qual as pessoas se identificam erroneamente, serve de padrão para construir uma identidade rio-grandense até hoje:

Em todas as áreas, do lazer ao conhecimento, da música às artes plásticas, o ser inventado se impôs como o ser da coerência histórica. O último resquício tradicional, representado pelos campeiros, devido à incultura, acabou por aderir ao padrão citadino de gaúcho. Em um movimento cultural que como tantos poderia ser apenas um embuste, os tradicionalistas foram além e criaram uma cultura em cujo epicentro se posicionaram como os herdeiros protótipos da identidade rio-grandense.

A partir dessa crença que já persiste por tanto tempo, se entende o motivo pelo qual o gaúcho se tornou, conforme balanço de Luiz Marobin, 'uma atitude mental, um esquema psíquico, que atua no subconsciente'. Segundo este autor, os gaúchos, independente de suas diferenças são levados por um sentimento interior de unidade, que os distingue dos demais habitantes do restante do país.

Por outro lado, Antonio Augusto Fagundes chama a atenção para um outro olhar sobre a visão do gaúcho. Esse autor aponta para a crescente expansão do gauchismo, principalmente nos Centros de Tradições Gaúchas, onde 'gente que deixou o campo recriou na cidade o pagus idealizado, não somente no Rio Grande do Sul, mas também no Brasil e no exterior, e mesmo assim, ainda, se desconhece o gaúcho que trabalha no campo, na lide do gado. É necessário chamar a atenção para essa constatação, pois há mais de um século que se criou o 'Monarca das Coxilhas', e, entretanto, é ainda essa imagem mental do gaúcho que ganha projeção na cultura rio-grandense."

Fonte: WAGNER, Claudia Raquel. O Mito do Gaúcho e sua descontração em O Continente: uma análise do personagem Capitão Rodrigo Cambará. In: Revista Desenredos, ano IV, número 13, Teresina/PI, abril/maio/junho de 2012, p.02-03.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Imigrantes italianos em Pelotas no final do século XIX


"À cidade dirigiram-se, além de arquitetos, engenheiros e técnicos para atuarem nos projetos de melhoria da infra-estrutura urbana, também médicos, fotógrafos, comerciantes, educadores e uma infinidade de outros profissionais liberais e mestres artesãos a oferecerem seus serviços.

Quanto aos mestres artesãos foi possível identificar-se, através da leitura dos periódicos locais, a presença de Francisco Antonacci, Salvador Leão, Nicola Caputo e Geraldo Petrucci como alfaiates; Francisco e Salvador Maria Plastine, Cesario Cesares, David Maggiorani e Matheus Barson, como ferreiros; Domenico Saurini, João Lombardi, Paschoal Galli e João Thomaz Mignoni, como sapateiros; além de Pedro Falco, como funileiro; Santiago Berruti, como pedreiro, Amado Serez, como barbeiro; Antonio Del Grande, como carpinteiro e muitos outros.

Destaque especial recebem os arquitetos italianos José Izella Merote e Guilherme Marcucci, por atuarem nos anos de 1860, ativamente na formação da paisagem urbana pelotense. (...)

No ramo fabril, como proprietários ou associados, labutavam: Domenico Stanisci numa fábrica de mosaicos; Francisco Cicchi numa fábrica de massas; João Thomaz Mignoni e Guilherme Marcucci numa fábrica de calçados; e Vicente Gentilini, numa fábrica de fumos. A 'Manufatura de Fumos Gentilini', inaugurada em 01 de janeiro de 1881, foi a segunda fábrica de beneficiar fumos em Pelotas, a primeira era de propriedade do alemão Jacob Klaes.

(...)

Em 1843, Santiago Prati e Gaetano Gotuzzo fundaram o Hotel Aliança, à Rua Sõa Miguel, atual Quinze de Novembro, ponto central da antiga cidade. (...)

Além do Aliança, foi possível identificar-se, no último quartel do século passado, vários outros hotéis cujos proprietários eram italianos. Situado na Rua Gal. Osório estava o Hotel Garibaldi, pertencente a Pedro Luiz Gotuzzo, que na década de 90 o passa as mãos de Antonio Bonfiglio. Na Rua São Miguel existia o Piemonte, de propriedade do Sr. Graziano Bassi, que, em 1889, o negocia com Francisco Gigante. O mesmo Francisco Gigante adquire, de Rosa Uriach, em 1890, o 'Hotel do Comércio', localizado na Praça da Regeneração. Em outubro de 1885, mais um hotel passa a pertencer a italianos: o 'Hotel Brazil' passou a firma 'Del Grande Irmãos', de Jerônimo Del Grande e José Del Grande, este último antigo proprietário do Hotel do Globo, ambos italianos.

Em 1884, o Sr. Giovani Cavallin vendeu ao Sr. Emílio Fonetti o seu hotel denominado 'Itália'. Por fim, em 14 de outubro de 92, tem-se notícia de um lauto banquete fornecido a cidadãos italianos, para festejar o 4o. centenário da descoberta da América, nas dependências do Hotel Federativo.

(...)

Intensa e significativa foi a atividade sócio-cultural da 'colônia italiana' em Pelotas; consubstanciada, pela atuação das diversas 'sociedades italianas', presentes no processo de desenvolvimento da cidade. Pelotas chegou a contar com o surpreendente número de três entidades associativas italianas funcionando concomitantemente. Entre os anos de 1883 e 1885, representavam os filhos de Itália a 'Sociedade Unione e Philantropia', a 'Sociedade Unione e Philantropia (primitva)' e a 'Sociedade de Socorros Mutuos Cristoforo Colombo', isso sem mencionar-se as entidades artísticas como a 'Sociedade Philodramática Dante Alighieri', inserida no primeiro período, e a 'Sociedade Choral Italiana' e a 'Sociedade Corale Savoia' no segundo.

(...)

Participando de expressões culturais na cidade de Pelotas, estavam o professor de piano e canto Rufino Bidaola, os maestros Salvatore Riso e Eduardo Cavalcanti, os pintores Frederico Trebbi e Giovanni Falconi, o violinista Roberto Stella e muitos outros.

Envolvido nas atividades musicais da antiga Pelotas, destacava-se por sua intensa atividade e produção, o maestro Luigi Garbini. (...)"

Fonte: ANJOS, Marcos Hallal dos. Italianos e modernização; a cidade de Pelotas no último quartel do século XIX. In: História em Revista, UFPel, v.5, 1999 (não dispomos das páginas numeradas).

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Imigrantes judeus em Pelotas


"Os primeiros imigrantes dos quais tenho notícia foram os Millman e Miguel Galanternick.

Sobre a família Milman, consta que o primeiro a chegar foi Salomão, nascido em 24 de dezembro de 1888, que veio da Rússia, passando antes pelas colônias agrícolas da Argentina, onde casou com Clara. Em seguida, mudou-se para Pelotas e mandou buscar seus pais Aran e Sarah, além de seus irmãos: Inês, Marcos e Ada. Ele constituiu-se numa liderança importante junto ao Centro Israelita Pelotense. Nos primeiros tempos, vendeu a crédito e depois estabeleceu uma fábrica e loja de roupas masculinas denominada 'A Casa Londres'. Embora não tenha conseguido precisar o ano em que Salomão Millman chegou, estima-se que tenha sido entre 1907 e 1910.

Dona Ada, irmã de Salomão, em entrevista a Flora Bendjouya disse que nasceu no dia 10 de dezembro de 1906, na Bessarábia. Chegou a Pelotas no dia 23 de novembro de 1910 juntamente com seus pais. A imigração colocou-se como alternativa, já que se julgavam inseguros com relação à sua existência física e buscavam novas oportunidades de trabalho. Casou-se no ano de 1926 com Benjamin Borenstein e teve dois filhos: Marcos e Israel. Foi dona-de-casa e, eventualmente, ajudou o marido em sua loja, denominada 'Casa de Móveis Benjamin', que estava localizada à rua Osório, esquina Voluntários da Pátria. Faleceu no dia 20 de setembro de 1993, na cidade de Porto Alegre.

Sobre Miguel Galanternick, os dados são mais precisos, até porque a história de sua vida se encontra emaranhada na história da comunidade judaica de Pelotas.

Miguel Galanternick era filho de Jayme e Maria Galanternick. Nasceu na Ucrânia (que fazia parte do Império Russo), em 1881. Serviu ao exército militar na Romênia e foi daí que resolveu embarcar para Buenos Aires, Argentina, com 23 anos de idade. Na Argentina, permaneceu por três anos, até que recebeu um chamado de Abrahão Steinbruch, chefe religioso de Philippson, que era primo de seu pai, Maier Galanternick, para que fosse até a colônia conhecer sua filha Frida. Casaram-se em Philippson e logo foram morar em Porto Alegre. Na cidade, associou-se a Salomão Levy e David Chazan, que possuíam uma loja de tecidos, denominada 'A Moda Inglesa'.

Em 1911 chegou a Pelotas e fundou uma filial da firma, sendo esta inteiramente sua. A loja funcionava à rua General Osório, número 663. Fabricava e vendia móveis, além de trabalhar com tecidos.

(...)

Seus dois primeiros filhos, Luísa e Benjamin, nasceram em Philippson, já que era comum as mulheres voltarem à colônia para dar à luz. As quatro restantes: Cecília, Sofia, Anita e Alda nasceram em Pelotas. Nenhum deles foi comerciante como Miguel. Na perspectiva de estimular a ascensão social, objetivo de todo imigrante, cinco de seus filhos completaram o ensino superior, sendo que apenas uma, Cecília, concluiu apenas os cursos comercial e de piano. Já Sofia fez o primeiro vestibular para a Faculdade de Direito de Pelotas, sendo promotora pública do estado.

Miguel já estabelecido, mandou buscar todos os seus familiares da Rússia e também suas irmãs e cunhados que moravam nos Estados Unidos, de forma que todos os Galanternick estivessem reunidos.

Ele foi pioneiro em Pelotas. Organizou uma das sociedades israelitas que existiram na cidade, já que durante a década de 20 até 1933, dois grupos aqui estavam representados; comprou o terreno onde hoje fica o Cemitério Judaico, além de fundar uma Cooperativa de Crédito, que auxiliava alguns imigrantes judeus que chegavam à cidade, sendo também uma liderança importante dentro da Maçonaria.

Sobre o cemitério, Alda, sua filha, em entrevista concedida ao Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, disse que a primeira pessoas que lá se enterrou, foi justamente a irmã solteira do seu pai, Ida Galanternick, que faleceu no dia 11 de novembro de 1922. E como para os judeus não se podia deixar uma pessoa sozinha no cemitério, sua avó Maria Galanternick, que era extremamente frágil, passava dias próxima ao corpo, até que enterraram a segunda pessoa, que foi sua mãe. As informações que constam nas lápides dos túmulos revelam, no entanto, que após cinco meses da morte de Ida, faleceu Rachel Skenazi.

(...)

Na década de 40, Miguel passou a morar em Porto Alegre, pois sua esposa havia falecido ainda em 1924, com trinta e cinco anos de idade e duas de suas filhas tinham ido para a capital estudar.

(...) 

No dia 05 de agosto de 1967, morreu em Porto Alegre, alguns dias antes de completar 86 anos de idade.

(...)

Os que aqui chegaram eram principalmente russos e poloneses e, na maior parte dos casos, haviam passado pelas colônias de Philippson ou Quatro Irmãos (RS), quando não tinham estado anteriormente nas colônias argentinas da JCA (Jewish Colonization Association).

Os nomes de família Soibekman, Stifelman, Steinbruch, Nudelman, Druck, Averbuch, Copstein, Treiguer, Axelrud, Procianoy, Rosenberg e Galanternick, que haviam estado em Philippson (município de Santa Maria), fizeram parte da comunidade judaica de Pelotas, assim como os Lokschin, Chaper, Millman, Ocstein, Pechansky, Pustilnik, Pilowinick e Chwartzmann, da Colônia Quatro Irmãos (município de Passo Fundo)."

Observação nossa: outros sobrenomes encontrados no presente artigo: Sockol, Telechewescky, Tovil, Bendjouya.

Fonte: GILL, Lorena Almeida. "Clienteltchiks": os judeus da prestação em Pelotas (RS), 1920-1945. In: História em Revista, UFPel, v.5, 1999, (não tivemos acesso ao número das páginas).


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