domingo, 18 de agosto de 2019

A Pedreira da Palma


"BARRA DA PROVINCIA

Do Rio-Grandense de Pelotas:

Estiveram na Palma, n'este municipio, fazenda do nosso distincto amigo sr. Manoel Nunes Baptista, o illustrado engenheiro hollandez sr. P. Calland, acompanhado de seu secretario, e os srs. drs. Bicalho, Saboia e Lopo Netto, e examinaram uma pedreira que ali existe e os mattos.

Pelo exame verificaram que a pedra é de superior qualidade e apropriada para empregar-se nas obras hydraulicas que se pretendem fazer na barra da provincia.

O illustre engenheiro sr. Calland e seus dignos companheiros foram obsequiados pelo distincto cavalheiro sr. Baptista com um lauto almoço."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 05 de Outubro de 1885, pág. 01, col. 02

A serenidade de um condenado


"ISTO É QUE É MORRER!

Extrahimos:

Ovando, coronel das forças de Entre-Rios, sendo prisioneiro em uma batalha contras as forças do general Lopez, governador de Santa Fé, foi levado á presença d'este em occasião que almoçava.

Lopez, que, além das condições de guerra, era inimigo pessoal de Ovando, soube recebel-o cortezmente, convidando-o a partilhar da sua mesa. Ovando aceitou com essa naturalidade e franqueza como se viesse a convite de um amigo.

Durante o almoço conversaram tranquilamente. No correr da convivencia disse Lopez:

- Coronel, se eu tivesse cahido em suas mãos, como cahistes agora nas minhas, o que farias?

- Convidava-o para almoçar, como o fez v. ex. comigo.

- E depois?

- Mandava-o fuzilar.

- Estimo muito que pense como eu: em acabando de almoçar será fuzilado.

- Se não quer demorar muito, póde ser já.

- Não, acabe de almoçar descansado; não tenha muita pressa.

Ovando continuou a almoçar placidamente, e, acabando, disse:

- Julgo ser tempo.

- Agradeço-lhe o não haver esperado que eu o lembrasse, respondeu Lopez.

E chamando seu camarada:

- O piquete está prompto?

- Sim, meu general.

Lopez voltando para Ovando:

- Adeus, coronel...

- Adeus, não: até á vista, porque não se vive muito tempo quando se fazem guerras como as nossas.

E comprimentando Lopez sahio.

Cinco minutos depois uma descarga annunciava que Ovando era cadaver."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 20 de Março de 1885, pág. 02, col. 01

  

sábado, 17 de agosto de 2019

Capitão Sezefredo e seus companheiros


"Um episodio de 35

Leitores, aquelle que vem hoje roubar-vos o tempo, occupando a vossa benevola attenção é aquelle mesmo ousado e obscuro camponio, que, abusando da complacencia que lhe tendes dispensado para os seus escriptos, attirou-se agora a maiores commettimentos, a mares mais largos, a horisontes mais vastos, a historiador, emfim, de um episodio de 35.

São protagonistas d'esse inaudito acto de valor o capitão da Republica Sezefredo Alves Coelho de Mesquita e seus companheiros - o mulato Lourenço Cabelleira, Ricardo Pimpão e o indio Ventura.

Ha 44 annos que nos campos de Jaguary, municipio de S. Gabriel, o então capitão da Republica Sezefredo Alves Coelho de Mesquita, morto nos campos do Paraguay, no posto de coronel, praticou um dos mais estupendos actos de bravura que registraram as armas da mesma Republica, como posso fielmente a narrar.

E não se me argúa de parcialidade por ser eu proximo parente d'aquelle finado e ter sido seu intimo amigo; fallo diante de um publico entre o qual ainda existem contemporaneos da benemerita cruzada de 35.

✤✤✤✤✤

O capitão Sezefredo dirigiu-se, com uma partida de 20 homens mais ou menos, em direcção a Jaguary, com o fim de bater, uma partida inimiga, commandada por um celebre cabo Cardoso, mais altaneiro e bandido do que verdadeiro soldado da legalidade, mas que a esse partido prestava seu apoio em certas e determinadas occasiões, ou, para melhor dizer, quando queria e lhe convinha.

Disse que Sezefredo commandava mais ou menos 20 homens. Não. Elle, é verdade, tinha esse numero de gente, porém HOMENS só tinha os tres companheiros acima citados.

O restante da gente de Sezefredo era puramente uma creançada.

Sezefredo ia e Cardoso vinha, ambos pela mesma estrada, e, sem se terem avistado ate´ali, encontraram-se, quando menos o esperavam, ao coroar uma coxilha.

Ambos fizeram alto.

Cardoso trazia mais ou menos doze homens, d'estes de dar e tomar, para o que désse e viésse.

Cardoso tinha receio de carregar, não só pela superioridade do numero, como pelo respeito que lhe impunha o chefe inimigo que tinha em sua frente.

Sezefredo, por seu turno, tambem receiava carregar, porque contava para o effeito sómente com quatro homens, inclusive elle.

Entretanto, emquanto ambos assim reflectiam, a troca de tiros tinha principiado.

Bala para lá, bala para cá, carrega, não carrega, uma bala inimiga mata o cavallo de Sezefredo, o qual cahe apertando-lhe a perna esquerda debaixo do corpo, ficando demais a mais a chilena presa na barrigueira da sincha!

A creançada inexperiente, vendo cahir seu chefe, assusta-se e dispara, e o inimigo encoraja-se e atropella.

Lourenço, Ricardo e Ventura bolleam a perna e amparam Sezefredo.

Metade da força inimiga cerca-os e a outra parte segue a derrota, indo Cardoso n'este numero.

Aquelles fazem carga sobre Sezefredo, que é defendido pelos seus tres heróes, defendendo-se elle tambem com a espada, conforme lhe permittia a critica posição em que se achava.

O inimigo fazia carga sobre carga, afim de não dar tempo que os companheiros de Sezefredo pudessem tirar-lhe o cavallo de cima.

Lourenço, que n'essa situação excepcional e difficillima valia por cem e que o quanto tinha de valente tinha de dextro nas armas, regeita, isto é, jarretou com a espada o cavallo de um dos inimigos.

Este vem ao chão e elle o mata a golpes de espada e toma-lhe a lança.

Senhor d'esta arma e quando o inimigo tinha cahido sobre seus companheiros, ferindo Ricardo com muitos golpes, Lourenço de um salto alcança outro inimigo e arremeçando a lança pelo ar, atravessa-o de lado a lado.

É n'este interim que chegam Cardoso e seus companheiros, a meia redea, nada tendo feito, porque a rapaziada, bem montada, toda se havia escapado.

O momento agora era supremo.

Eram dez contra dois, porque um estava preso e o outro gravemente ferido.

Cardoso, na furia em que vinha, enrista a lança e manda sua gente carregar sobre Lourenço, Ricardo e Ventura, indo elle em pessoa contra Sezefredo, que ainda se achava na mesma difficil posição.

Cardos apruma-se nos estribos, cala a lança e brada:

- Oh! grande Fredo! és tu mesmo que eu queria encontrar!

Sezefredo, que tinha posto a mão e em reserva a um pistolão carregado, para um lance extremo, antes que Cardoso desferisse o golpe, prende-lhe fogo, entrando a bala no estômago do inimigo e sahindo-lhe na nuca!

Cardoso larga a lança e cahe abraçado ao pescoço do cavallo. Seus companheiros assustam-se; um, porém, salta na garupa do cavallo de Cardoso, segura-lhe o corpo ainda semi-vivo e partem todos em fuga campo fóra.

Lourenço e Ventura soltam o cavallo morto e o tiram de cima de Sezefredo, que, ainda com a perna morta, por falta de circulação, manda sua gente montar a cavallo, pula em um dos cavallos dos inimigos, e, brandindo a lança de Cardoso, sahe em perseguição dos fugitivos.

O arrojo, a audacia, a temeridade tinham se apoderado de Sezefredo e de seus tres companheiros.

N'aquelle faustoso momento eram alguma cousa mais do que homens. Eram indomitos e sedentos leões espumantes de cólera!

Parecia que a propria natureza como que curvava-se e obedecia aos seus menores acénos.

Brandindo as lanças, partem a toda brida.

A pouca distancia alcançam o inimigo e o desbaratam completamente, tomando ainda o cadaver de Cardoso, que seus companheiros o lançaram por terra para melhor se poderem escapar.

Ficou por esta fórma Sezefredo victorioso, senhor do campo, tendo colhido o mais brilhante florão de gloria para as armas da Republica.

Por este acto de inexcedivel bravura, o general Netto e quiz promover ao posto de major. Elle agradeceu, respondendo que a gloria d'aquella acção cabia toda inteira sobre os seus três dignos e valentes companheiros.

✤✤✤✤✤

Como complemento a esta noticia, accrescento:

Os estraviados de Sezefredo vieram dar a S. Gabriel, onde Sezefredo tinha sua familia, isto é, mãi, irmãs e seu cunhado, o capitão Militão da Silva Lemos, commandante da policia, asseverando a este e áquella afflictissima familia que Sezefredo era morto, pois que o tinham visto cahir e o inimigo apoderar-se d'elle.

Militão communica o facto ao general Canabarro, que se achava acampado a poucas legoas.

O general manda sem perda de tempo sahir uma partida, da qual faz parte o que escreve estas linhas, para apresentar-se a Militão e d'elle receber instrucções para a perseguição do inimigo.

Sem perder tempo, chegámos a S. Gabriel, e nos apresentamos a Militão, que, de mãos para traz, passeava na frente de sua casa, opprimido ao peso da dor.

Era pungente e indescriptivel o quadro de afflicção, de desespero da familia de Sezefredo, por quem era elle idolatrado.

No meio, porém, d'essa pungente desolação, eis que na outra extremidade da rua aponta um garboso e elegante cavalleiro, á frente de tres homens em fórma.

Eu os vi primeiro do que ninguem, chamei Militão (que era meu primo irmão, assim como tambem o era de Sezefredo) e apontei para o lado d'onde vinham os cavalleiros.

Militão fica por um momento estatico. Cobra animo, corre para dentro e diz á familia:

- Não choram, é falsa a noticia; Sezefredo não demora aqui, são e salvo!

A familia fica surpreza.

Militão corre ao encontro de seu cunhado e em duas palavras conta-lhe tudo.

Volta outra vez para dentro e affirma o que já havia dito.

Prevenidos assim os animos da familia para a transição por que ia passar, entrou Sezefredo a cavallo pelo portão que deitava para o páteo, onde foi apeiar-se.

Deixo agora á apreciação do leitor ajuizar o que houve então de pranto, riso e lagrimas.

✤✤✤✤✤

Que é hoje feito d'esses quatro heróes, ao cabo de 44 annos?

Sezefredo, como já disse, morreu de cholera-morbus, na guerra do Paraguay.

Lourenço foi mandado fuzilar, logo depois d'aquella época, pelo general Canabarro, pelos muitos assassinatos que praticou e entre elles o de Joaquim da Rocha e Souza, em sua residencia, no Passo Queimado, sem outro motivo para semelhante fim mais do que a sêde de sangue.

Devemos convir que se Lourenço era um leão indomito na bravura, era tambem um tigre na ferocidade.

Ricardo, não sei o que é feito d'elle, se é vivo ou morto.

Ventura, consta-me que existe em S. Gabriel, aggregado a um dos membros da familia Prates.

✤✤✤✤✤

Sezefredo Alves Coelho de Mesquita nasceu a 14 de setembro de 1820, tendo, portanto, 47 annos de idade ao tempo de sua morte e sómente 21 quando praticou os prodigios de valor que acabo de referir.

Apresentou-se voluntario ás armas da Republica tendo apenas 16 annos, aos 17 era tenente e aos 20 incompletos capitão.

É que os generaes da Republica sabiam premiar o merito e por isso tiveram espadas como as de Guedes, Teixeira, Amaral, Juca Jacintho, Valença, Portinho, Carvalho, Fructuoso e centenares de outros, com os quaes obrigaram o governo imperial a vir no fim de dez annos de luta a propor e firmar o tratado de paz de 28 de fevereiro, cabendo para as armas da Republica o mais brilhante e o mais honroso quinhão de gloria.

A.N. DE MELLO COSTA

S. Sepé, 31 de julho de 1885."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 14 de Agosto de 1885, pág. 02, col. 04




Uma receita pelotense do século XIX


"BROINHAS PELOTENSES

Escalde-se em uma chicara de gordura um prato fundo de farinha de milho catête; feito o que, junte-se-lhe 3 chicaras de leite, assucar e sal o quanto baste e 3 ovos batidos; com ésta massa façam-se as broinhas e em folhas levem-se a fogo regular.

A farinha de milho catête é preparada unicamente por Leão & Alves. (719)."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 05 de Agosto de 1884, pág. 04, col. 01

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Sobrenome Ruiz


"Antigo sobrenome patronímico do antropônimo Ruy, abreviação ibérica medieval de Rodrigo, que etimologicamente é de origem germânica, derivado do nome Hrodric, que significa aproximadamente 'glorioso, muito glorioso'. É particularmente simbólico na Península Ibérica da Reconquista Cristã, dado este ter sido o nome do último rei visigodo antes da invasão muçulmana em 711.

Um dos testemunhos mais antigos da história da linhagem tem no famoso cavaleiro Ruy Velasco, comendador-mór da Ordem Militar de Calatrava, que morreu na Batalha de Alarcos - ocasião em que houve ao cerco à fortaleza de mesmo nome, próximo à Ciudad Real, no ano de 1195.

Portadores deste sobrenome são encontrados como fidalgos em inúmeras regiões da Espanha através da História, seja nas diferentes ordens militares, assim como nas reais chancelarias de Valladolid e Granada ou na Real Audiência de Oviedo.

Os Ruiz de Aragão também são muito antigos, remontando ao século XV, mais precisamente ao ano de 1472, quando são registrados como proprietários de uma casa nobre na vila de Bolea, na província de Huesca. Desde então, a linhagem aparece constantemente durante os séculos na corte aragonesa.

Outras localidades com linhagens importantes do sobrenome em Aragão: Boltaña, Barbastro, Castejón de Monegros, Borja, Tarazona, Zaragoza, Moyuela, Ejea, Tauste, Castejón de Valdesaja, Tardienta, Almudévar e Zuera. Segundo Río Martínez, a maior parte é originária de um primitivo solar que existiu na vila de Castejón de Sobrarbe.

Infanções perante a Real Audiência de Aragão: José Joauín Ruiz, residente em Zuera, 1772; José Ruiz de Carabantes, residente de Almudévar, 1774; Francisco Manuel Ruiz y Ruiz, morador de Castejón de Valdesaja, 1771.

Vale lembrar que Ruiz também é um patronímico tipicamente português. Em síntese, é um sobrenome poligenético - aquele que nasce em diferentes lugares e em diferentes tempos independentemente de vínculo familiar."

Fonte: Real Sociedade Aragonesa de Genealogia.

Sobrenome Noguera


"Antigo sobrenome aragonês, originário da localidade de Noguera de Albarracín, na província de Teruel. Esse núcleo primitivo deu origem aos ramais dos Noguera da Catalunha, e do antigo reino de Valência e Mallorca.

A primitiva casa solar dos Noguera de Albarracín, também deram linhagens encontradas em Teruel e na própria Valência.

O Arquivo Geral Militar de Segóvia se arrolam os seguintes expedientes militares de oficiais com este sobrenome: Hilario Noguera, Infantaria, 1809, qualificado com o título de 'Pessoa Honrada'; José Ramón Noguera, Infantaria, 1793; Lorenzo Joaquín Noguera, Infantaria, 1774, nobre.

A linhagem também se encontra em Granada e Ibiza.

Noguera corresponde a 'nogueira' em português."

Fonte: Real Sociedade Aragonesa de Genealogia.

Sobrenome Pueyo


"Sobrenome toponímico vinculado diretamente à localidade de Pueyo de Jaca, distrito de Jaca, na província de Huesca. O povoado surgiu, conforme estudos, de cristãos refugiados da invasão moura. Mais tarde, a linhagem original radicou-se na vila de Plan, no distrito de Boltaña, na mesma província. Nesta vila, construiu-se um importante solar.

Deste citado solar, surgiram ramais que passaram mais tarde à cidade de Barbastro, também em Huesca; Zaragoza; Panticosa, no distrito de Jaca; vila de Linares de Mora, no distrito judicial de Mora de Rubielos, província de Teruel; vila de Luna e localidade de Valplanas, ambas no distrito de Egea de los Caballeros, província de Zaragoza; cidade de Tarazona, província de Zaragoza; e também em Palma de Mallorca e Valência.

Guillén de Pueyo serviu ao rei aragonês Pedro II, com quem esteve durante o sítio do castelo de Maurel.

Guillén Pueyo, filho do primeiro, serviu a Jaime I, morrendo no sítio de Albarracín de forma heróica.

Arnaldo Pueyo passou a residir em Barbastro no ano de 1300, onde fundou a linhagem aristocrática da família na cidade.

Pueyo procede etimologicamente do latim 'podium', por sua vez desdobrado no baixo latim 'podio', significando 'lugar saliente, elevado'. Em Navarra, o termo é usado para designar colina, monte pequeno.

As linhagens de Pueyo de Jaca e Pueyo de Plan tornaram-se muito distintas através dos séculos."

Fonte: Real Sociedade Aragonesa de Genealogia.
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