quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A cultura do chimarrão


"Em face da noção de tempo, percebido como cada vez mais exíguo por parte dos habitantes da cidade, o hábito de sorver um chimarrão pelas manhãs em uma roda composta por pessoas da mesma família, acabou sendo substituído por um ritual solitário. Pessoas que moram em Porto Alegre não abrem mão de chimarrear nem que para tanto tenham que prescindir da companhia de outrem. Acordam cedo, preparam o mate e tomam a beberagem antes de saírem apressadas em direção aos escritórios, lojas, fábricas onde, durante o dia, dependendo da formalidade do ambiente poderão compartilhar ou não com colegas a sociabilidade inerente ao 'tomar um chimarrão'.

Conta a lenda que um chefe indígena de uma tribo Guarani, só tinha uma filha e precisava escolher um guerreiro da tribo para suceder-lhe, o jovem mais apto era por quem sua filha havia se apaixonado. Acontece que nesse caso ao se tornar esposa do chefe, ela deveria acompanhá-lo nas guerras e em todas as ocasiões, isso faria com que o velho índio ficasse sozinho sem ter os cuidados da moça. Sabedor dos sentimentos da filha e de que não poderia contar com a presença dela ao seu lado, o velho chefe resolveu apelar para o deus Tupã que lhe desse uma companhia para as horas de solidão. Tupã mostrou ao índio uma árvore cujas folhas deveriam ser retiradas, secadas e trituradas. A bebida deveria ser consumida mediante a utilização de água quente despejada sobre essa erva. Tupã, também, ensinou sobre o corte do porongo, ou seja, a cuia, e a utilização de uma taquara como canude, a bomba. Assim, o cacique teria como espantar a tristeza nos momentos em que sua filha estivesse ao lado do marido.

Então, de certa maneira, ao beber o chimarrão de modo solitário, o gaúcho encontra uma companhia, tal qual faz referência a representação narrada através da lenda.

O chimarrão ou mate amargo é uma bebida, um hábito legado pelas culturas indígenas, em especial, a guarani. Ainda hoje é hábito fortemente arraigado não apenas no sul do Brasil, mas também no Mato Grosso do Sul, parte da Bolívia e Chile e em todo o Paraguai, Uruguai e Argentina. O chimarrão é preparado com erva-mate, resultando em uma bebida, geralmente, servida quente sob a forma de infusão. Apesar de existirem várias espécies de erva-mate na América do Sul, no Rio Grande do Sul, a espécie cultivada é a Ilex Paraguariensis. A erva tem sabor amargo, é composta por pequenas folhas secas, trituradas e peneiradas, de cor verde, havendo uma grande variedade de tipos (moída grossa, moída fina, só folha). Um aparato fundamental para o chimarrão é a cuia, espécie de vasilha com a largura de uma caneca e a altura de um copo. Outra ferramenta indispensável é a bomba, parecida com um canudo, normalmente feita em metal, com aproximadamente 25 cm de comprimento e em cuja extremidade inferior há uma pequena peneira do tamanho de uma moeda e na extremidade superior um bocal.

Sobre a relevância do chimarrão como algo gregário, tem-se a análise de um tradicionalista: 'No Rio Grande do Sul a hospitalidade é uma constante na vida do gaúcho. E o mate, quer no núcleo familiar, ou entre amigos, desempenha a função de agregador, harmonizando através do calor humano esta simbiose afetiva, pelo clima de respeito que floresce por entre os mates conversados'.

Esse mesmo tradicionalista apresenta três maneiras possíveis de o gaúcho 'tomar o mate'. O mate 'solito' é aquele sorvido de maneira isolada; o mate de parceria que seria o bebido por casais ou em duplas de amigos e a roda de mate que consiste na ingesta da bebida de forma comunal, em grupo. Por significar amizade, o mate não deve ser solicitado e sim é preciso aguardar que alguém o ofereça.

Ao servir o mate em uma roda, algumas regras devem ser observadas, como por exemplo, o pegar a cuia com a mão esquerda e o recipiente para encher com a mão direita, a entrega da cuia para um integrante da roda deve ser realizada através da mão direita, caso isso seja impossível, há que se pedir desculpas, a roda de mate entre os participantes será feita sempre pela direita de quem está 'servindo' o mate.

A competência para ajeitar a bomba ou arrumar o topete (barranco) do mate é exclusiva daquele que está 'enchendo' o mate, é dele também a prerrogativa do primeiro mate, isso se deve ao fato de que no passado o mate era utilizado para envenenar inimigos, assim, ao tomar o primeiro o 'enchedor' evidencia que a bebida está própria para o consumo. Roncar a cuia significa sorver todo o líquido e não representa falta de educação, ao contrário, faz parte da cultura do chimarrão, bem como saber o tempo de permanecer com a cuia na mão, se a pessoa demora muito em devolver a cuia para o 'enchedor', é comum a frase: 'Morreu de cuia na mão'. Agradecer significa que o integrante da roda está satisfeito e não quer mais tomar mate e não uma forma de educação ou elogio. Para elogiar é costume dizer que o mate está muito bom. Quando a conversa 'regada' a chimarrão está agradável e alguém quer se retirar, é costume o gaúcho dizer: 'Tome mais um mate, está cedo'.

A maioria das bebidas típicas do Brasil costuma ser passível de aquisição mediante compra em lojas especializadas ou não. No caso do chimarrão, ele não pode ser adquirido pronto, é preciso comprar os apetrechos e a erva e com paciência desenvolver a habilidade de elaborá-lo. As diferentes marcas de erva, disponíveis no Rio Grande do Sul, trazem em seu pacote impressa a forma como deve ser preparado. Assim, é explicitado: coloque 2/3 de erva-mate na cuia, acomode a erva sobre um lado da cuia, derrame água morna, deixe a erva inchar por alguns instantes, introduza a bomba até o fundo da cuia, para um melhor chimarrão nunca deixe ferver a água. Essas instruções impressas nos pacotes de erva contam com ilustrações que permitem uma melhor compreensão daquilo que é descrito. A temperatura da erva requer ouvido apurado, pois é voz corrente que a água na temperatura ideal é aquele que chia.

A cuia tradicional é feita de porongo, mas hoje já é possível, encontrarmos à venda, cuias de madeira, plástico, vidro, louça, porém o gaúcho apegado as suas raízes não abre mão da cuia de porongo. No entanto, a chaleira usada para colocar a água na cuia foi substituída pelas garrafas térmicas, mais fáceis em seu manuseio, além de manter o calor por mais tempo, essa substituição se deve ao fato de não mais ser em ferro as chaleiras e nem os fogões à lenha, utensílios presentes nas casas do interior e que não se incorporaram ao espaço urbano."

Fonte: CAVEDON, Neusa Rolita & alii. "O Mate Amargo e o Doce de Leite": entrecruzando as culturas regionais, locais e organizacionais nos mercados públicos de Porto Alegre e de Uberlândia. In: Revista Gestão e Planejamento, Salvador, v.11, n.02, jul./dez. 2010, p. 160-162

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Bando do "Concilliador"


"Uma horda de assassinos percorre o districto do Herval, termo de Jaguarão, comettendo toda a sorte de attentados, e não poucas vezes se tornam temidos pelos actos de barbaridade que praticam."

(O BRADO DO SUL, 07 de Dezembro de 1858, p.02)

Formado por, em sua maioria, soldados desertores e ex-peões de fazendas, o bando ou "horda" de Porfírio Gonçalves de Sousa, vulgo "Concilliador", apavorou a região da fronteira de Jaguarão com o Uruguay e a zona sul do estado do Rio Grande do Sul durante os anos da década de 1850. Consta que tinham seu ponto de acampamento nas terras de Herval, na época, ainda um distrito da cidade de Jaguarão. Todavia, agiam também nas terras da República Oriental e perambulavam até os municípios de Pelotas, Jaguarão, Piratini, Rio Grande, e até mesmo Caçapava do Sul. 

Não se sabe de onde era procedente Porfírio, mas ao que consta, no ato de sua captura, contava com 34 anos de idade. O bando agrupava cerca de 20 meliantes, tanto brasileiros quanto uruguaios. Concilliador - segundo os cronistas da época - seria um epíteto dado a Porfírio por ser um salteador que sabia dividir o bottim dos saques com justesa.

Os primeiros registros daquilo que viria a ser o bando do Concilliador surgiram por volta de 1854, ainda no território uruguaio, onde atormentava a região fronteiriça um tal de "Paraguay" - famoso líder de uma malta daquele país que roubava fazendas. O Concilliador seria um assecla do famigerado bandido oriental que, por razão não suficientemente esclarecida, passou a agir com independência a partir dessa época. Na verdade, é difícil dizer que fossem dois bandos totalmente distintos, pois os jornais da época apontam certa solidariedade entre os grupos. Como era a tônica da época, os criminosos também sabiam se unir por ocasião.

A primeira ocasião em que o bando do Concilliador tomou de assalto a opinião pública aconteceu em maio de 1855, quando ocorreu um massacre de uma família de oito pessoas numa estância na localidade de San Servando, no Uruguai. Em setembro de 1855, outro ataque a uma propriedade rural, agora no interior de Jaguarão, o que resultou na morte de João Veríssimo de Santa Anna. No mesmo ano, muitas ocorrências são registradas na região de Jaguarão e Herval, bem como alguns crimes são percebidos em Cacimbinhas. Contudo, no ano de 1856, o bando passa a atacar viajantes que se dirigirem de uma direção à outra da fronteira, seja quem tomava o caminho até Jaguarão para atingir o Uruguay, seja para quem viesse da República Oriental com rumo a Pelotas ou Rio Grande. Em abril, um assassinato de grande repercussão: o do negociante inglês Solomon Opper, além do roubo de toda a carga de mercadorias que transportava. Relatório são remetidos à Assembleia da Província para que urgentes providências sejam tomadas. O bando passa a ser caçado pelas forças policiais de Jaguarão, o que talvez explique os desdobramentos posteriores dos criminosos. O fato é que passam a agir mais ao norte, sendo encontrados atacando propriedades próximas ao Cerro Pelado, em Piratini. Não tarda para que também se atribua ao bando roubos, assaltos e assassinatos em Cerrito e Canguçu. 

Em janeiro de 1857, parte do bando será presa no Mingote, em Herval. São capturados três brasileiros e oito uruguaios, todos aparentemente associados ao bando do Concilliador. Há uma espécie de recuo ou recrudescimento da quadrilha e apenas boatos são registrados na região até pelo menos o ano seguinte.

Em 1858, entretanto, a fama do Concilliador retorna e com força. Assassinatos frios, roubos em fazendas e estâncias, ataques a viajantes e tropeiros, intimidações a autoridades e testemunhas. De fato, o bando é célebre por sua crueldade. Há relatos de tortura e o uso do famigerado método do "enforcamento lento" - sistema em que o supliciado é enforcado de tal modo, que sua morte não acontece de imediato, pois a força da corda embora pressione o pescoço de modo violento, não é suficiente para fazê-lo sem que o corpo humano ainda passe vários minutos se debatendo, como um reflexo fisiológico natural. Isto é, o enforcamento acontece de modo devagar, causando dor extrema na vítima, devido a um processo angustiante de asfixia. O bando teria usado este método diversas vezes, porém a ocasião de maior repercussão se deu quando atacaram o criador Manoel Lisboa, no interior de Herval. Além do infeliz, tiveram a mesma execução três escravos da propriedade.

Outro crime de grande ressonância acontecerá no ano seguinte: a morte do uruguaio Maximiano. No trágico evento, Maximiano estava em viagem com sua noiva, a órfã Maria da Conceição Tavares, brasileira de 15 anos. Após o assassinato, em que os bandidos fizeram questão de mostrar o punhal ainda tinto de sangue à jovem, o bando ocupou-se de estuprar coletivamente a desafortunada. Mais um ataque de grande repercussão no mesmo período: o assalto, sequestro e morte do sexagenário José Ignacio da Silva Porciuncula. O relato da época  é terrificante: ... o infeliz velho, é bárbara, atroz e horrivelmente apunhalado, e completamente roubado. A' tal ponto chegou o canibalismo dessas fêras, que arrastando o corpo da victima para baixo d'uma árvore e ahi mesmo se banqueteam n'um chão coalhado de sangue e coberto com os instestinos do desgraçado velho.

Curiosamente, o bando é visto novamente em direção ao Uruguay, associando-se ao afamado "Paraguay" na República Oriental. Talvez algo que se perdeu no tempo, explique o fato dos dois bandos passarem a agir juntos próximos a Pelotas. Supostamente, a riqueza das charqueadas e da cidade. Porém daí, começa o início da derrocada do bando. 

Em maio de 1859, uma parte do temível grupo vai ser impiedosamente desbaratada e morta nas proximidades da área urbana de Canguçu, numa patrulha conjunta formada de forças policiais e fazendeiros da região. Um dos presos na emboscada será Rodrigo Mattoso - uma espécie de lugar-tenente do Concilliador. Em junho, no Monte Bonito, em Pelotas, uma força de 25 homens comandados pelo arguto Tenente Julião José Tavares, promove um grande revés a outra parte do bando, com muitas morte dos bandidos. O Tenente Julião, oficial da Guarda Nacional em Pelotas, será um personagem de destaque no combate ao Concilliador. Em setembro, adentrando as matas do Povo Novo, já no município de Rio Grande, a diligência comandada pelo intrépido tenente captura finalmente o Concilliador. Porfírio Gonçalves de Sousa estava finalmente preso e é conduzido em triunfo até a cadeia de Pelotas, sendo exibido pelas ruas da urbe. Mais tarde, o destacamento de Caçapava do Sul aprisiona o restante dos bandoleiros.

Vale dizer que, esses grupos de bandoleiros no Rio Grande do Sul durante o século XIX, principalmente na região da Fronteira e Campanha (mas bem da verdade, em todo o território provincial) foram muito comuns. Era um ambiente marcado por muita violência no campo. Isso seria um dos fatores que explicariam a cultura belicista presente no meio rural gaúcho, em que, até pouco tempo atrás era costumeiro o uso das armas de fogo com o propósito de defesa. A parte isso, o que queremos dizer, dentre esses vários bandos de salteadores, alguns acabaram ganhando notoriedade, justamente pela duração e área de atuação que conseguiram obter.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Conselheiro Francisco Antunes Maciel


Por Fernando Osório

"Constam de 'O País', do Rio de Janeiro, folha que lhe foi, sempre, adversária, mais ou menos os dados a seguir sobre o ilustre pelotense, publicados no momento de sua morte, ocorrida a 14 de agosto de 1917 naquela capital; dados que aqui se completam com os que, obsequiosamente, prestou o autor do presente ensaio, em carta de abril de 1822, o filho do extinto, Dr. Francisco Maciel Júnior:

'Não era uma figura vulgar e, ao contrário, trazia um nome laureado na política do Segundo Império, nome que soube conservar e ilustrar ainda mais no partido que fundou e muitos anos dirigiu na República, no seu Estado natal. Era, depois de Silveira Martins e ao lado dele, o chefe a cujo prestígio deve ter exercido em várias legislaturas as funções de líder ora da maioria, quando estiveram no poder os seus correligionários, ora da minoria, quando caiu, com a última ascensão de João Alfredo, o Partido Liberal. Antes de atingir aquele elevado posto, havia feito um longo noviciado na assembleia provincial de Porto Alegre. Quando eleito deputado geral, pela primeira vez, sua nova situação no Parlamento aumentou-lhe a auréola de cultura e honorabilidade, indicando-o para líder da maioria liberal em 1884, quando ia mais acesa a luta dos partidos. Ministro do Império no Gabinete Lafayette, nesse ano de 1884, ao cair o ministério, publicou 'A Federação' de Júlio de Castilhos estes elevados dizeres: 'Foi o único ministro que, no gabinete de 24 de maio, soube defender os brios da bandeira liberal'. No último Gabinete João Alfredo, foi ele o líder dos liberais.

Proclamada a República, resolveu, com Silveira Martins, aderir, sofrendo decepções amargas na revolução de 1892: ambos, passando-se para o Uruguai, foram internados por ordem do respectivo governo em Montevidéu de onde continuaram a animar o movimento. Jugulado este, e tornando o Conselheiro Maciel ao Rio Grande, foi aclamado, pela morte de Gaspar, chefe do federalismo. Há um detalhe que poucos conhecem: ele foi convidado para ocupar pastas ministeriais na República, por duas vezes, recusando em ambas: pelo Dr. Manoel Victorino, quando Murtinho deixou a pasta da Viação, e pelo Dr. Afonso Pena, para a pasta do Interior. Ao 'civilismo' prestou serviços que o alçaram a líder desse movimento, na Câmara, por proposta da bancada de S. Paulo."

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Álvaro Chaves Des Essarts


Por Fernando Osório

"A sociedade pelotense foi dolorosamente surpreendida com a notícia do falecimento, em Londres, a 5 de junho de 1922, do distinto conterrâneo Dr. Álvaro Chaves Des Essarts filho estremecido do preclaro cirurgião Dr. Edmundo Berchon des Essarts. Por determinação expressa de sua vontade, querendo repousar o último sono em seio pelotense, foi embalsamado, em Londres, tendo aqui se realizado, as cerimônias do seu sepultamento, que foram bem uma sincera homenagem aos formosos dotes de coração e inteligência do saudoso patrício. Contava apenas 26 anos de idade, pois nascera a 22 de outubro de 1895, nesta cidade.

Tendo feito, em Pelotas, o seu curso de humanidades, matriculou-se no 'Liceu de Agronomia e Veterinária', onde conquistou, aos dezoito anos de idade, o respectivo diploma. Fêz parte, depois, do nosso 'Instituto de Higiene', onde demonstrou aproveitáveis aptidões para a sua profissão. Ultimamente seguira viagem de aperfeiçoamento para os Estados Unidos e Europa tendo a fatalidade da sorte má o golpéado, quase ao têrmo da sua excursão de estudos, roubando-o aos carinhos da família estremecida, principalmente do seu digno pai, o Dr. Edmundo Berchon des Essarts que há sido sempre uma alma dedicada a prodigalizar o bem e a saúde, com grande elevação moral.

A cidade de Pelotas, pelas suas classes representativas com o profundo pesar que a empolgou por ocasião da transladação dos restos mortais do desventurado Álvaro homenageou-o, numa verdadeira consagração moral ao seu derradeiro gesto caridoso, legando, ao morrer, avultadas somas à Escola de Artes e Ofícios e a instituições beneficentes locais, bem assim à futura Escola Municipal que receberá o nome de sua saudosa genitora, D. Antonia Chaves des Essarts."

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Daguerreótipo em Pelotas no ano de 1851


"Retratos Potographicos (sic) do Daguerreotipo em Pelotas

O Architecto Roberto Offer se presta a tirar retratos com a maior perfeição aos domingos e dias santos, desde as 9 horas da manhã até ás 4 da tarde, e ás segundas feiras das 11 ás 2 da tarde na sua residencia rua do Commercio sobrado do Sr. Leitão. Possuindo uma maquina de primeira qualidade, os seus retratos são tão fieis, que nada deixão a desejar; para o que tem bom sortimento de caixas, quadros, e medalhas.

O mesmo R. Offer está disposto a ensinar esta arte a quem queira aprender, mediante um preço rasoavel."

Fonte: O RIO GRANDENSE, 10 de Janeiro de 1851, p. 04 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Noite do Bambu


"Com vistas às eleições legislativas federais de 24 de fevereiro de 1927, caravanas de políticos da Aliança Libertadora percorriam os municípios da zona sul do Estado, em trabalho de propaganda de seus candidatos.

No dia 13 daquele mês, eram aguardados em Canguçu o deputado federal Dr. Francisco Antunes Maciel Jr., Zeferino (Ferico) Costa e Djalma Mattos.

Os aliancistas locais organizaram, então, uma recepção na espaçosa residência de Alberto da Silva Tavares, um dos melhores prédios da vila, situado na General Osório, sua principal via pública, onde hoje se localiza o Clube Harmonia.

(...)

À noite, com a presença de dezenas de correligionários, entre os quais muitas senhoras e senhoritas, desenvolvia-se a recepção, quando, inopinadamente, a casa foi invadida, aos gritos, por soldados do 12o. Corpo Auxiliar da Brigada Militar, que passaram a espancar os participantes.

A cena de violência prosseguiu pelas ruas da vila, com a perseguição e o espancamento de todos os que tentavam fugir, pois a casa fora cercada pelos 'provisórios'.

Curiosamente, esses soldados ostentavam contra civis desarmados a bravura e o ânimo belicoso que, por certo, fizera-lhes falta há apenas dois meses, quando, no dia 10 de dezembro de 1926, na Coxilha do Fogo, interior do município, foram batidos e dispersados pela vanguarda de Zeca Neto, regressando à vila, quatro dias depois, sem cavalos e sem equipamento...

É de imaginar-se o escândalo e a indignação produzidos pela insólita atitude dos 'provisórios', ainda mais que não se acreditava tivesse tamanho atrevimento partido de simples praças comandados por dois oficiais subalternos.

A imprensa governista, enquanto isso, noticiava os acontecimentos segundo a sua ótica, procurando lançar culpa e o ridículo sobre os aliancistas, (...)

Algum tempo depois, avançando em suas investigações, o Dr. Maciel Moreira pedia afastamento do cargo...

Em Canguçu, enquanto isso,era voz corrente a premeditação do atentado por parte da cúpula local do Partido Republicano. Um dia antes, 12 de fevereiro, dois desses dirigentes foram vistos no Clube Harmonia comentando a 'surpresa' que aguardava os aliancistas...

No próprio dia do atentado, um soldado 'provisório', aparentado com a família Barbosa, dirigira-se a essa residência e, lacônico, perguntara pelas moças da casa, advertindo que não deixassem sair naquela noite. As jovens, Enedina e Esmeralda Barbosa, participaram da recepção em casa de Alberto da Silva Tavares e testemunharam os fatos relatados.

Alguns soldados do 12o. Corpo Auxiliar hospedavam-se no Hotel Brasil, de propriedade de Domingos Caneo Telesca e, como estivessem com o soldo em atraso, viviam praticamente sustentados pelo referido cidadão. No dia do incidente, a esposa de um dos soldados pediu à esposa do hoteleiro que não deixasse sair para a reunião dos oposicionistas. Domingos Caneo Telesca foi uma das vitimas do espancamento."

Fonte: CABEDA, Coralio Bragança Pardo. A Noite do Bambu. p.05-09 (artigo originalmente publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do RGS, número 132). Obs.: tivemos acesso ao artigo "em separado".

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Os redutos de escravos na cidade de Pelotas no século XIX


"Os escravos estavam, em muitos lugares do centro urbano da cidade, tentando desenvolver suas formas de sobrevivência dentro dos limites da lei e, por vezes, fora destes limites.

Alguns locais já eram conhecidos pela população como redutos de negros folgados, como as margens do arroio Santa Bárbara, como se referia, em 1863, Domingos José de Almeida, ao dar seu parecer sobre o local da construção da Praça das Carretas, hoje Praça Vinte de Setembro:

...servindo este pequeno terreno de foco de imoralidades, fundição de crioulos e entretenimento de escravos da cidade fora do alcance de policiais...

Ao investigarmos a documentação, verificamos que diversos locais da cidade poderiam ser lugares de sociabilidades de escravos, entre eles as tavernas, bodegas ou bares que serviam como locais de socialização, seja para beber aguardente, seja para carteado, seja para a venda de produtos roubados pelos escravos, com o conluio dos donos de botecos.

Muitas vezes podiam ser encontrados nos bares, embora fossem proibidas suas presenças.

Havia grande interesse dos donos de botecos em comprar produtos roubados por escravos, pois poderiam obter bons lucros na revenda dos mesmos. Já por parte dos escravos, a venda para bodegueiros representava uma enorme facilidade na revenda insuspeita de produtos roubados.

(...)

A região da várzea, onde se localizava o Porto da cidade, também aparece como um dos locais de socialização de escravos e libertos; esta região era conhecida por ajuntamentos de escravos e suas arruaças.

Tal fato pode ser explicado por dois motivos. Um deles é que embarcações com gêneros alimentícios chegados à cidade deveriam vender produtos, a miúdo, para a população em geral, por até dois dias após sua chegada no Porto, o que naturalmente atraía para essa região uma quantidade razoável de escravos e livres pobres.

Outro motivo poderia ser a grande concentração de bares e botecos na região, como podemos observar na seguinte reclamação publicada no jornal Correio Mercantil de 1883:

...À noite, é esta parte da cidade teatro de cenas escandalosas que as mais vezes terminam, em grosas pancadarias (...). Provém isto dos ajuntamentos de marinheiros dos navios surtos no porto, escravos de charqueadas e mulheres de má vida; ajuntamentos que tem lugar em algumas tabernas e botequins aqui existentes, apesar das contínuas visitas que lhe faz a polícia.

No documento acima mencionado vemos que a taverna é descrita como pólo irradiador da desordem, confluindo escravos, marinheiros e prostitutas; no entanto, podemos deduzir que estas pessoas foram classificadas como escandalosas e violentas por não se enquadrarem nos parâmetros sociais pensados para elas pela elite local.

Esta desordem denunciada pelo jornal poderia ser a ordem das ruas, com suas regras próprias, seus códigos de honra e valores específicos."

Fonte: SANTOS, Leovegildo Silva dos. O cotidiano de escravos e livres pobres no espaço urbano da cidade de Pelotas no século XIX. In: Ágora Revista Eletrônica, Ano IX, no. 17, dez. 2013, p. 19-20


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