terça-feira, 17 de outubro de 2017

Georges Karivalis


Fonte: DE LEÓN, Zênia. Guardiões da Memória - Crônicas das Relíquias Históricas. Pelotas/RS: Signus Comunicação, 2008, p. 174-179.

"Mas fui buscar esta história. Uma história de muita coragem e de muito empenho pela sobrevivência. Foi uma neta do grego Georges Karivalis quem me contou que ele veio da Grécia como fugitivo político. Engenheiro, de natureza corajosa, embrenhou-se no sul do Brasil ainda jovem, indo trabalhar no Capão do Leão. Veio residir em Pelotas achando de atuar como embarcadiço, quer dizer, marinheiro no transporte de cargas, em barcos menores, de rios e canais de que Pelotas é tão rica desse manancial.

Era pelos arroios que o transporte se fazia preferido e por esta razão se instalaram bem ali as fábricas Leal Santos, Ceval e Naoli, (conservas e óleo) cujas ruínas assustam pela grandiosidade do que foram no passado, com seus paredões semi-destruídos, altos como se quisessem morrer em pé como as árvores morrem, mas que sucumbem sucateados pelos oportunistas que subtraem tijolos e moirões. Os arcos das aberturas se foram logo do fechamento das indústrias.

Aqui o Grego casou com dona Emma Verneesheimer, uma alemã voluntariosa que pegava firme no trabalho junto ao marido. De tanto ver os juncais das ribeiras e, sabendo de seu aproveitamento para a construção de telhados e para enrestiar cebolas, decidiu-se a entrar no negócio. Para o aproveitamento era necessário amassar o junco, que se fazia em bancadas a golpes de engenhocas rústicas de madeira. Foi então que lembrou o trabalho no Capão do Leão no lidar com a pedra. E veio a ideia de fazer um amassilho, um socador de junco para aquele vegetal agreste que melhor aproveitamento teria se amassado. Da engenharia estudada na Grécia vieram-lhes ideias, cálculos e modelos. Desenhou, traçou o maquinário matematicamente num caderno - pedra e grossos caibros de madeira, hastes de ferro e cravos, embraçadeiras, roldanas... fazia parte do projeto que pôs logo em prática mandando vir de caminhões as pedras já recortadas.

A produção prosperou. Comprou um barco, aumentou o galpão, contratou empregados. Dona Emma trabalhando junto. Vizinhança e parentes passaram a empregados. Havia união e trabalho. Chegavam embarcações abarrotadas de junco, vinham caminhões e carroças com cargas altas do material que deveria passar pelo amassilho.

Aos domingos a família recebia visitas e o amassilho servia de cenário para as fotos. 

(...)

A fábrica de conservas Ceval, em pleno apogeu, erguia-se no início da rua Barão de Santa Tecla, nas cabeceiras da bela ponte do Ramal que foi inconsequentemente demolida depois do aterramento do arroio Santa Bárbara. O trem passava sobre a ponte e zorras passavam por baixo, beirando o arroio, a serviço das fábricas próximas. Movimento intenso de barcos no arroio também fazia vida na região que sucumbiu pela força da crise pela qual atravessava o país. Só quem ficou para contar esta história foi o amassilho que ainda subsiste de teimoso a contemplar as sombras de um passado senão exuberante, de tantas perspectivas, mas glorioso pela reflexão que oferece aos que pretendem ainda ter força para erguer a nossa economia.

Caminhões abarrotados de junco amassado deixavam a empresa com nova carga para um bom lucro a pagar empregados e o sustento da família do Grego. Um negócio que durou até a década de 70. Os filhos se educaram, seguiram outros rumos profissionais, os pais morreram, os negócios pararam e a cebola foi sendo vendida como por unidade ou a quilo, e ninguém mais quis saber do sovador de juncos. Ele está lá como um troféu. Alguém teve a ideia de levantá-lo sobre a base de pedra como quem ergue um tributo ao trabalho e ao desempenho numa época de primitivos costumes, mas de eternos preceitos de bem viver servindo com desprendimento, pois assim estaria cumprindo desígnios impostos aos homens. Hás trabalhar para poder viver participando da vida coletiva com teu suor e tua luta, por um mundo melhor."

domingo, 15 de outubro de 2017

Festas e tradições alemãs no Rio Grande do Sul


"A presença germânica no Rio Grande do Sul deixou traços indeléveis também nas Festas e Tradições.

Se fossemos analisar a simbiose entre as culturas portuguesa e alemã, notaríamos que a presença do elemento germânico é considerável. De uma parte, nas danças gaúchas há elemento alemão; de outra parte, no alemão falado na colônia há um grande número de palavras portuguesas germanizadas e o típico churrasco e o gostoso chimarrão estão presentes em qualquer casa alemã.

Mas quanto às tradições - o tempora! o mores! - as coisas mudaram e muitos dos encantos de nossos avoengos desapareceram definitivamente. Só as retinas mais velhas guardam as belezas do Kerb de 3 dias; do Königschiessen (Tiro ao Rei); do Kränzchen (Reunião Dançante).

Reflexos da 2a. Guerra Mundial e a vida moderna cada vez mais trepidante com a industrialização alteraram profundamente esses costumes.

Os Kerbs constituíam o maior acontecimento festivo da localidade e do ano. O fato de ser a época em que as moças ganhavam vestidos novos prova isso, pois um ou dois vestidos novos eram elementos absolutamente indispensáveis. Parentes, amigos e conhecidos, residentes em vilas ou cidades vizinhas, ou mesmo no fundo de uma picada, vinham passar dois ou três dias de festas, com destaque especial para as danças. Arroz, massa, chucrute, carne de porco, carne de rês, galinhas recheadas, saladas diversas e... cerveja faziam o prazer de milhares de pessoas.

O Tiro ao Rei era um domingo cheio de emoções. Toda a vila se reunia na Sociedade de Atiradores. Grupos de conversa, política municipal, jogos de cartas, bolão, negócios e uma reunião dançante enchiam o tempo, enquanto os atiradores demonstravam suas qualidades.

O Baile do Rei era a segunda parte desse bonito costume. O tiro é hoje pouco praticado e recebeu muitos ingredientes da vida moderna. 

O canto por sua vez, destaca-se entre as tradições alemãs e foi o início de muitas sociedades recreativas, fundadas por grupos de cantores. Ainda hoje existem tais sociedades como o Orfeu de São Leopoldo, a Aliança de Novo Hamburgo, o 5 de Maio de Taquara e outras mais.

Também a prática de ginástica (Frisch, Fromm, Froelich, Frei) fez aparecer muitas 'Sociedade Ginástica' (Turnverein) havendo ainda hoje grande número delas em todo o Estado: São Leopoldo, Novo Hamburgo, Estrela, Santa Cruz do Sul, Ijuí, Porto Alegre.

Os Kränzchen são grupos de 6 a 10 senhoras ou senhoritas que se reúnem semanalmente, em rodízio, sem formalidade, para o cultivo da amizade. Fazem trabalhos manuais e não falta o café com cucas e doces.

O Bolão é conhecido em qualquer cidade de origem alemã. No interior, do fundo das picadas, os colonos vêm a cavalo uma noite por semana para a noitada do bolão. Nas cidades há muitas sociedades onde jogam dois grupos ao mesmo tempo. Os torneios são disputados com muito entusiasmo e regados a cerveja, terminando, em geral, com cantos onde se destaca 'Em Prosit der Gemütlichkeit'.

Mas uma das tradições mais caras está ligada à vida religiosa. Trata-se da Árvore de Natal e do Ninho da Páscoa.

Tão arraigada está a tradição da Árvore da Natal que ainda hoje, 150 anos depois de ter sido introduzida entre nós, é hábito, por pura tradição, colocar algodão nos seus ramos para similar a neve da terra de origem dos imigrantes, embora entre nós seja verão, com calor sufocante, onde a neve, portanto, não tem nenhum sentido."

Fonte: EDEL LTDA. Festas e Tradições. In: ____________. Sesquicentenário da Imigração Alemã/Hundertfünfzig-Jahre Deutscher Einwanderung. Porto Alegre/RS: Sociedade Editora de Publicações Especializadas Edel Ltda., 1974, p. 231-232.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

José Vieira Pimenta

Sociedade Beneficência Portuguesa de Pelotas

Por Fernando Osório

"O primeiro cronista de Pelotas, português de nascimento, brasileiro por adoção. A esta cidade ele amou como sua.

Homem ativo, perseverante, dotado de espírito empreendedor, deu a Pelotas toda a cooperação do próprio prestígio pessoal para ajudar-lhe o engradecimento. Foi assim que trabalhou pela desobstrução da foz do S. Gonçalo; pela construção, reparos, magnificência da igreja em alicerces na então Praça Pedro II, e da igreja matriz, uma das primeiras da província; trabalhou pela construção da Santa Casa de Misericórdia e da Beneficência Portuguesa; pelo cemitério público e pela construção da ponte de alvenaria de Santa Bárbara. Quantos atos do Comendador José Vieira Pimenta, cheios de civismo, de amor à liberdade, de abnegação, de desprendimento, de caridade, estão a pedir à população pelotense admiração e respeito!

A Sociedade Portuguesa de Beneficência (segundo registrou o jornal pelotense A Discussão, de 15 de maio de 1883) deliberara iniciar a ereção de um monumento público em honra ao 'único cronista talvez de Pelotas - que deixou precioso legado de informações - das coisas antigas da cidade, talvez o mais paciente e rigoroso registrador delas - lúcido espírito, amorável coração, trabalhador infatigável, administrador metódico, honrado, austero, bom conselheiro, amigo leal, desprendido - verdadeiramente tipo completo de - cidadão."

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Canteiro Cultural do IHGCL


Neste sábado, 14 de Outubro de 2017, a partir das 16 horas, ocorre na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão, à Avenida Narciso Silva 2131, centro do município, o evento "Canteiro Cultural", onde estará sendo apresentado um colóquio a cargo do pesquisador Arthur Victória Silva, sobre o tema "Sesmarias". A entrada é franca!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Histórias Curiosas LIX

Antes de começar a desenrolar o acontecido, vale avisar que os nomes usados na história são fictícios, porém os locais, profissões e procedências são verossímeis. É bom destacar isso pois a trama fala dos relacionamentos modernos e da forma surpreendente como eles podem acontecer e ser encarados. Vamos ao fato.

Anita, técnica em enfermagem, e Pedro, funcionário de uma revenda de automóveis, estavam casados há dois anos e, finalmente, após passarem um certo tempo pagando um aluguel caro de um apartamento na zona central de Pelotas, conseguiram alugar uma casa com um preço bem mais módico no bairro Fragata, na mesma cidade. A casa foi um achado, pois embora modesta, era uma boa moradia de alvenaria, cercada na frente e com pátio nos fundos. Ficava numa das ruas perpendiculares à Avenida Duque de Caxias, não muito distante da mesma, o que lhes facilitava o acesso ao ônibus para irem trabalhar. A vizinhança relativamente tranquila, formada por outros trabalhadores assalariados e alguns aposentados e prestadores de serviços. Para completar, logo nos primeiros dias da "casa nova", Anita descobriu que uma das suas vizinhas era Ana Lúcia - uma antiga colega sua da época do curso técnico. Ana Lúcia, por sua vez, a recebeu muito bem na vizinhança e logo se tornaram muito próximas, mais próximas até do que fora na época dos estudos.

Ana Lúcia tinha um esposo - Reinaldo, que era caminhoneiro e trabalhava fazendo transporte de cargas em viagens curtas por toda a região. Não tardou para que os dois casais, relativamente jovens e ainda sem filhos, formassem uma forte parceria e estreitassem muito os laços de convivência. Contribuía para isso, o fato de Ana Lúcia ser procedente de Santa Vitória do Palmar e, exceptuando o marido e a amiga Anita, não ter muitas referências de amizade na cidade de Pelotas. 

Os meses passaram e os casais faziam churrasco juntos aos domingos, Pedro e Reinaldo jogavam numa quadra de futebol ali perto como bons amigos, e Anita e Ana Lúcia trocavam figurinhas sobre a profissão em comum. Até num Natal em que a família de Anita veio passar com a filha, Reinaldo e Ana Lúcia estavam presentes como convidados íntimos. Tudo ia muito bem.

Foi então que Reinaldo recebeu uma proposta para começar a transportar cargas para lugares mais distantes, mas com possibilidades de ganhos melhores. Começou a conduzir em direção a Bagé, Porto Alegre, Serra e até Santa Catarina. Por isso, Reinaldo passou a passar um, dois, três, até cinco dias fora. Ia com o baú do caminhão cheio de uma mercadoria e voltava com o baú cheio também de outra mercadoria. Os contatos entre os dois casais passaram a ser menos frequentes, com meros cumprimentos ocasionais e conversas dispersas. Ana Lúcia passou a chegar mais tarde igualmente do trabalho, ao que parece, devido a novos horários que tinha que cumprir. 

Anita estranhou primeiramente um certo distanciamento de Ana Lúcia, mas considerou que a nova rotina do casal poderia estar os extenuando e permaneceu discreta, preocupada com sua própria vida. Só que numa bendita noite de inverno, já por volta de umas onze horas da noite, enquanto limpava rapidamente a varandinha da frente de casa, devido a uma recente chuva, observou um rapaz loiro saindo da casa da vizinha e se colocando para subir numa moto estacionada por ali. O rapaz voltou rapidamente para a casa da vizinha e voltou com um capacete, preparando-se para partir. Anita não pensou nenhuma maldade no momento, mas ficou intrigada com o homem, pois ponderava para si que poderia ser um parente de Ana Lúcia o qual ela desconhecia. Isso se deu justamente numa noite em que Reinaldo estava "fazendo viagem", isto é, fora de Pelotas transportando alguma carga. Anita comentou o ocorrido com o marido, mas não deu prosseguimento à questão e nem se atreveu a perguntar à vizinha posteriormente quem era o homem.

Só que o fato passou a se repetir naquele inverno. O próprio Pedro ao chegar do trabalho (às vezes um pouco mais tarde da noite) observava a tal moto estacionada na frente da casa da vizinha. E sempre em dias que Reinaldo estava viajando. A desconfiança de Pedro e Anita tomou força. Mas pensavam: vai que é um parente? Vale a pena perguntar e meter o bedelho? E se Ana Lúcia fica ofendida? Por isso mesmo, retraíram-se, embora constatassem Reinaldo uma tarde ou outra em casa, dando um aparente ar de normalidade à vida do casal. Lógico, o detalhe fora do contexto é que o tal rapaz da moto em nenhum momento era visto na casa dos vizinhos quando Reinaldo estava. Na verdade, nunca.

Anita tentou se reaproximar de Ana Lúcia, embora a conversa das duas não passassem de meras trivialidades. Ana Lúcia alegava cansaço do trabalho e, um dos costumes que tinha, que era convidar Anita para tomar um chimarrão em sua casa, praticamente desapareceu. Anita não quis então forçar mais nada. Deixou quieto como está.

O ano estava quase findando e num domingo qualquer sucedeu-se porém um fato derradeiro para as desconfianças de Anita e Pedro. Anita tinha uma cachorrinha branca que tinha por costume, logo de manhã cedo, pedir para sair da cozinha em direção ao pátio dos fundos para fazer suas necessidades. A cadelinha ia em direção ao pátio, cheirava as plantas, corria um pouquinho, fazia suas necessidades e voltava novamente à cozinha, onde se deitava num tapetinho especialmente destinado a ela. Quem sempre abria a porta da cozinha era Anita e, naquele dia, ainda de roupão e sonolenta, esperou o bichinho fazer o que tinha que fazer, e se pôs a esquentar água para fazer um café, enquanto procurava no armário um saco de pães que havia comprado no dia anterior. Entre uma coisa e outra, Anita mirou pela janela basculante da cozinha uma movimentação incomum no pátio da vizinha e tomou um baque. Era Ana Lúcia muito bem vestida (o que denotava ter passado a noite fora) abraçada com o rapaz loiro de quem desconfiava ser seu amante.  Os dois não estavam nem aí ao fato de que pudessem estar sendo flagrados (na verdade, no momento mesmo não sabiam disso) e seguiam em beijos apaixonados, com Ana Lúcia provavelmente ainda sob o efeito de alguma bebida alcoólica, exprimindo interjeições aleatórias e chulas. De fato, era a prova final de que Anita esperava para concluir a traição da vizinha.

O marido levantou um pouco mais tarde e Anita não perdeu tempo de lhe contar todos os pormenores do flagrante. Conversaram e não sabiam o que iam fazer. Não queriam se meter, mais tinham pena de Reinaldo, pois enquanto trabalhava arduamente na estrada, a mulher lhe colocava um belo "par de chifres" em casa. Pedro ainda confirmou que falara com Reinaldo na sexta-feira à tarde e o mesmo havia lhe dito que iria "puxar uma carga" para o Paraná e, na volta, ainda teria que passar no porto de Itajaí, em Santa Catarina, sendo, por isso mesmo, uma viagem de alguns dias. Que tremenda safadeza! - exclamava Anita. Ficara com repulsa daquela que outrora considerava sua amiga.

Os dias se passaram e Anita e Pedro resolveram agir. Pedro tomaria a iniciativa. Reinaldo chegou de viagem e avisou ao vizinho que teria uns três dias de folga em casa, até a próxima empreitada. Pedro convidou o amigo para sair, esparecer. Foram até a quadra de futebol que normalmente jogavam em outros tempos, mas não para jogar, ao contrário, sentaram no bar anexo do lugar e pediram uma cerveja. Pedro conversava com muita delicadeza, tentando chegar ao ponto com o amigo, usando voltas e mais voltas nas palavras. Em dado momento, foi direto ao ponto: relatou ao amigo tudo o que tinham observado nos últimos meses, das desconfianças e da peremptória cena que Anita presenciou numa manhã de domingo. A reação de Reinaldo estarreceu Pedro:

- Eu sei disso, Pedro. Sei disso há pelo menos uns quatro meses.

- Tu sabes, então?! E agora, amigo? Vais te separar da Ana Lúcia? Estás esperando o quê? - indagou um surpreso Pedro.

- Na verdade, não. Pode ficar como está.

- Como assim? Vais ficar como corno e ainda por cima manso da história? Olha o que essa mulher está fazendo contigo, enquanto passas na estrada dando duro, ela traz um macho para a casa. Rapaz! A situação é absurda!

- Pedro, quando soube que a Ana Lúcia estava dando umas escapadas, eu também já tinha dado as minhas. Pensamos logo em nos separar, mas daí consideramos o seguinte: se nos separarmos, a Ana Lúcia não tem condições de se sustentar sozinha em Pelotas, terá que voltar para Santa Vitória, para a casa da mãe. Lá o emprego é mais difícil para ela. Além disso, teríamos que nos desfazer da casa, dos móveis, de tudo montado há anos. Eu não sei me virar sozinho, nem tenho tempo para isso agora, preciso de uma mulher que me lave as roupas, resolva as pendências do dia-a-dia para mim e deixe uma casa limpa e arrumada para quando eu chego cansado das viagens. 

- Amigo, estou estupefato. E vocês vão ficar assim? Não fica mal para ti as pessoas observarem tua mulher, ou sei lá o quê tu consideras ela agora, se exibindo com um homem por aí? Cara, que situação! - dizia Pedro.

- Olha, só vou pedir para ela ser mais discreta das próximas vezes. Não vou te mentir, não. Nosso casamento há muito tempo é fachada. Mas, como te disse, para nós é pior a separação agora. Temos mais proveito dividindo o mesmo lar. Vou te dar um exemplo: entre aluguel, água, gás e luz, nosso orçamento é consumido em torno de 20%, um quinto e olhe lá. Se nos separamos, lógico que eu vou gastar menos por causa das viagens, mas não encontro uma casa boa por um preço que não me consuma quase metade do meu ordenado. Com a merreca que a Ana Lúcia recebe como técnica de enfermagem, ela sequer sobreviveria direito.

- Ué, mas não teria como o magrão que está com ela assumi-la? Passa a bucha para outro, irmão!

- Não, não. É só pegação, mesmo. Além disso, o tal rapaz tem ajudado ela em casa e é menos gasto para mim. Chego em casa e tem pacote de arroz, feijão e bolacha, etc. no armário, de coisas que não comprei e sei que ela também não comprou. Inclusive, até roupa e calçado ela ganhou de presente do sujeito. Mais economia ainda!

Pedro encerrou a questão por ali mesmo. Era uma reação inesperada, a qual ele mesmo não estava preparado para lidar. Foi conversar com o amigo muito receoso que acabasse aquela noite tendo que impedir que o mesmo fizesse uma loucura, mas voltou para casa confuso. Conversou com a esposa, que também ficou de boca aberta com a história toda.

Ana Lúcia ficou sabendo da intervenção dos vizinhos e cortou totalmente relações com Anita e Pedro. Não se cumprimentavam mais. Passados dois anos, a coabitação (já não era realmente um casamento) de Ana Lúcia e Reinaldo chegou ao fim. Ao que parece, o próprio Reinaldo iria morar em Porto Alegre. Segundo alguns, tanto foi por ele ter recebido lá uma proposta de emprego ainda melhor, quanto por ter arrumado uma nova companheira por ali mesmo. Ana Lúcia, então sumiu mesmo. Para Santa Vitória não retornou, mas não se sabe de seu paradeiro. Uma outra vizinha dizia que ela estaria morando com um sujeito muito suspeito perto da Balsa, mas ninguém podia confirmar.

Realmente, o que ocorrera era um exemplo mais palpável dos tais "relacionamentos modernos". Só que pesa o seguinte fato: será que Reinaldo fez o papel de corno manso ou foi esperto em explorar a situação da melhor maneira possível? Fica de acordo com a interpretação de cada um. O fato é que com a economia que fez naquele dois anos e meio, trabalhando muito na estrada e praticamente não tendo muito gasto em casa, conseguiu realizar o seu tão almejado sonho: dar a entrada no financiamento de um caminhão Constellation semi-novo - veículo que lhe ampliava as possibilidades profissionais. 

Vai saber, não é mesmo?



domingo, 8 de outubro de 2017

José Vieira da Cunha


Por Fernando Osório

"Nasceu na cidade de Pelotas, em agôsto de 1860, era filho do Dr. José Vieira da Cunha e de D. Joanna Jacintha de Mendonça. Estudou na Faculdade de Direito de S. Paulo, terminando o curso acadêmico em 1881. Foi contemporâneo de Julio de Castilhos, que o considerava não só pelo brilhante talento como pelo caráter de fina têmpera. Tinha dotes inegáveis de orador e, em sua fase acadêmica, fêz belos versos repassados de saudade e doce melancolia.

Regressando à Província, desempenhou o cargo de promotor da cidade do Rio Grande, exercendo aí mais tarde o juizado municipal. Quando completou o quatriênio, foi nomeado Juiz de Direito de D. Pedrito, deixando êsse lugar para assumir a chefia de polícia, na presidência do Barão de Santa Tecla. Como tivesse aderido com sinceridade à República, desde a sua proclamação, foi nomeado Juiz de Direito do Arroio Grande, passando, na reorganização que se fêz, para a comarca do Rio Grande, donde saiu para ocupar as posições que exerceu, desde a promotoria pública até ao alto cargo de Desembargador, que honrou com o seu vasto saber e reto espírito de justiça. Por motivo de saúde aposentou-se e abriu escritório de advocacia na terra em que nasceu.

É escusado dizer que as mais importantes causas que se pleiteavam então no fôro de Pelotas, iam parar à banca do ilustre advogado, tão querido e tão acatado pelo seu talento e altas virtudes. Infelizmente a morte o levou a 22 de abril de 1897, em pleno viço dos anos, quando êle tinha diante de si um futuro risonho."

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Histórias Curiosas LVIII

Virada da década de 60 para a década de 70, viviam no Canto Grande (atualmente interior do município de Capão do Leão) o pai, Seu Boaventura, a mãe, Dona Otília, e o filho José Túlio, num rancho à beira da estrada daquela localidade. O Sr. Boaventura era trabalhador rural que vivia de serviços diversos, mas preferencialmente ocupava-se na lida das lavouras de arroz. O filho José Túlio mal cursou até o quarto ano primário, desde cedo acompanhando o pai no trabalho, para complemento de renda da família. A mãe cuidava do rancho e da pequena horta, além da criação doméstica de galinhas.

José Túlio já estava crescido o suficiente para querer ter as próprias escolhas. Uma coisa que lhe fascinava eram os cavalos. Tinha vários amigos que já haviam lhe convidado para trabalhar no trato com os animais. Porém, Seu Boaventura via a aspiração do filho como bobagem e insistia que o mesmo lhe acompanhasse nas lavouras de arroz - ofício que ele considerava mais estável do ponto de vista financeiro. Mas, vai convencer um jovem disso? Mesmo naquela época, o fato gerava tensão entre pai e filho.

José Túlio acabou sendo contratado informalmente por um cabanheiro da região, graças à intervenção de um amigo que também trabalhava lá. Todo empolgado, chegou a avisar a mãe que viria em casa somente a cada quinzena e foi alardear com os amigos o novo emprego. Mas quem disse que o velho Boaventura sabia do trato do filho? E, mais ainda, quem disse que ele concordava?

Boaventura era "bagual" da mais profunda raiz. Filho de pai uruguaio e mãe brasileira, viveu a vida toda na zona rural, mal sabia ler e escrever. Ao mesmo tempo que era leal, dedicado ao trabalho e honesto, era machista, conservador, dono de uma personalidade profundamente rústica. Uma pessoa de seu tempo e contexto, antes de qualquer julgamento. 

Foi na tardinha de sábado, quando Boaventura chegou em casa. Tomou seu chimarrão na cozinha, previamente cevado por Dona Otília. Viu, então, duas trouxas de roupas e apetrechos no canto da minúscula sala interligada à cozinha. Perguntou sobre as trouxas e a coitada da mulher timidamente tentava explicar ao marido a decisão do filho de ir trabalhar numa cabanha:

- Pois é, meu véio. O Tuio pegou serviço lá na cabanha do Guimarães. Ele disse que o dinheiro que dá é bom. Tá indo amanhã para lá.

O Boaventura ficou irritado, nem discutiu com a mulher e aguardou o filho chegar, pronto para lhe dar uma tremenda reprimenda.

O filho chegou e imediatamente é interpelado:

- Ô, Túlio! Que bobagem é essa de trabalhar com o Guimarães? Tem que terminar a safra lá na Granja do Chico. Como é que tu vai largar este serviço para pegar outro? Além disso, quem te disse que eu te autorizei a trabalhar com o Guimarães? Enquanto tu estiveres vivendo debaixo das minhas asas, não quero saber de filho meu trabalhando com cavalo. Esquece essa porcaria!

- Mas, pai, eu tenho o trabalho acertado com o próprio Guimarães. Vai ser melhor. O Ramiro e o Gomes também trabalham lá.

- Não vais e pronto! - retrucou o velho Boaventura.

Entre reprimendas do velho e pedidos de consideração do jovem, a discussão chega a seu auge. Neste instante, o José Túlio comete o pecado de falar uma besteira e lembrar ao pai que ele nunca tinha conseguido nada além do que o rancho em que moravam, ao pretender trabalhar com lavouras de arroz. Imediatamente, um som seco de uma batida muito forte ecoa da salinha para os outros cômodos da casa. Dona Otília, muito apreensiva, corre para ver o que aconteceu. Encontra para sua surpresa e desespero o filho desacordado no chão, após ter recebido um único e decisivo murro do próprio pai.

- Homem ignorante, para quê isso? Matastes nosso filho! Guri, acorda! Acorda, guri!

Boaventura não fala nada e sai da sala em direção à cozinha onde leva a mão em direção à chaleira sobre a chapa do fogão à lenha para seguir o mate que tinha parado por causa da chegada do filho. Indiferente, ele permanece lá, calmo e sereno.

Dona Otília aturdida pede o socorro dos vizinhos. Alguns chegam a considerar que se faça um mutirão para que se leve o José Túlio até um hospital na (até então!) distante cidade de Pelotas. Após o alvoroço, o José Túlio acorda já com um monte de mulheres em volta, algumas já chorosas. O rapaz fica quieto e se recompõe. Naquele noite permanece longe do olhar do pai, escondido no próprio quarto.

No outro dia, José Túlio desfaz as trouxas e confirma com o pai que vai concluir o trabalho na lavoura de arroz. O Boaventura não fala nada. Os dias passam e o José Túlio dá uma desculpa e não vai para o emprego na cabanha.

Pelo menos, naquele momento, o jeito rústico e antigo do pai gerou o efeito. Apesar disto, no próximo verão, finalmente Boaventura permitiu que o filho fosse se instalar na cabanha.

O fato é documento dos costumes de uma época. O curioso é que se pode imaginar que, José Túlio possa em função do murro que tomou do pai, tenha guardado mágoa do velho. Ao contrário. Muitos anos depois, José Túlio, casado e com filhos, velava o corpo do pai e orgulhosamente proclamava a importância das lições que aprendeu com o véio desde a infância.
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